De geógrafos e poetas

Dizem que há um cálculo, ou mais de um, para saber os pontos mais inabitados do mundo. Lugares, assim, onde não há ninguém num raio de milhares de quilômetros, seja na água ou na terra. Anti-destinos, dizem. Férteis à imaginação do homem, ali criaríamos monstros marinhos, deuses, e deles fugiríamos porque, como se sabe, gostamos de praias lotadas nas férias e fotos cheias de gente não convidada. Imagine um lugar longe de absolutamente tudo, até de sinais de wi-fi. Longe de qualquer pedaço de terra. Sem sinal de sons artificiais.

Trabalho de geógrafos, pessoas admiráveis, encontrar o maior círculo possível nos oceanos dentro do qual não se encontre um único pedaço de terra, por exemplo. Solitários não são bem-vindos a estes espaços desterrados, pois sofreriam surtos de quem não suporta a própria companhia. Lá, meu bem, poderíamos ser ainda mais felizes, eu e você, e o silêncio do vácuo da humanidade. Dizem que o mais próximo pedaço de terra, ao redor deste círculo, são pequeninas ilhas desoladas – entediantes, diriam alguns. Despovoadas e imensamente belas na sua solidão marítima. Lá poderíamos, quem sabe, criar ovelhas. Aportaríamos nosso pequeno barco e, quem sabe, construiríamos uma casinha com o espaço exato: para nós dois.

Dizem que estas ilhas sequer aparecem nos mapas. Nem nos satélites. Não temos Destino, não teríamos endereço. Ou as cartas diriam: Naquela Ilha que ninguém sabe bem onde fica, que viram de passagem no outro século, e para onde ninguém mais voltou. Dizem que este círculo gigantesco e atraente é o pesadelo dos náufragos. Aos que por ali perderem seus barcos em tempestades ou delírios não terão muitas chances de encontrar terra firme onde aguardar um desejado salvamento. Pois náufragos desejam salvar-se. Sobreviverão aos dias boiando agarrados a um pedaço do despedaçado barco onde foram tão felizes? Há esperança, meu bem. Sempre há. Está na Bíblia. O náufrago em tal situação não terá uma à disposição para o consolo, mas os ensinamentos nós levamos na alma – eles nunca nos abandonam, bem sabes.

Ao que parece, neste rincão do mundo só há água. Água do mar. Nada mais nos une mais que ela, não é? A água do mar é a comunhão dos corpos e dos corações. Se dois se encontram, com ela se amam. Mas, dizem, os geógrafos, essas boas pessoas, encontram estes círculos inacessíveis em terra firme, também. A terra firme não tem toda essa graça dos oceanos, sabemos. Cada Continente, cada região, pode ter seu polo. Aqui mesmo no nosso país há um, distante mil quilômetros da capital federal. A terra nunca nos despovoa de nós mesmos, eis a falta do encanto. Na terra não podemos ser náufragos, seremos apenas perdidos – e qualquer cidade nos permite isto. Na terra não iremos com nosso barco, dispomos de nosso pés, quem sabe, nossa bicicleta ou um carro qualquer – aos de pouca imaginação. Talvez lá chegássemos a cavalo. Bem no centro deste círculo nos sentiríamos distante do mundo, das pessoas? Talvez. Porém, a natureza terrestre é avassaladora – nem os solitários se sentiriam tão sós. A terra, veja bem, não nos une como a água do mar, ela nos sustêm. Ela impacta nossos pés, nosso corpo, ela não nos envolve.

Os geógrafos, sempre tão simpáticos, têm esta paixão pelo mundo. Paixão que admiramos. Não dariam atenção especial aos oceanos e esqueceriam os continentes e ilhas, todos os retalhos de terra. Nós poetas, meu bem, temos predileções. Posso te ver em versos, podes me ter em prosa. E estes círculos desabitados e isolados do universo das ruas, barulhos e poluições são dos geógrafos – que o poeta é esse irresponsável que rouba corações e amores alheios. Os geógrafos, tão solícitos com o planeta, não ficam injuriados de dividir suas paixões conosco. Egoísta é o poeta de maus versos. Acredito, até, que os geógrafos encantam-se com os olhos que derretemos sobre as maravilhas que eles estudam. Os morros, os rios, os litorais, as florestas: temos musos semelhantes.

Dizem que para encontrar estes monumentos do espaço é preciso espírito aventureiro. Desde séculos passados, percorremos o mundo em busca dos limites do planeta. Nem há consenso, por vezes. Pois as medições são questionáveis, os procedimentos variam. Em certos pontos extremos, há gelo, meu bem. E só em certas épocas é possível medi-los sem camadas de duro e impenetrável gelo. Diria que é o melhor dos tempos. O calor – ou a falta do frio? geógrafos, me expliquem – derrete o gelo há tanto agarrado à terra tanto quanto aos mares. Como em certos corações, diriam os poetas. Certo é que todas essas descobertas são epopéias – mais uma semelhança com os poetas, diriam. Certo é que nem os satélites mais avançados elucidam todas as dúvidas e questões. Nem dos corações, matéria-prima dos poetas; nem dos mapeamentos, trabalho árduo dos geógrafos.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: