Lábios silenciam-na

Nós poderíamos discuti-la eternamente – caso tivéssemos a eternidade ao nosso dispor. Mas, você sabe, não temos. Talvez debatêssemos por algumas horas apenas e não chegaríamos a nenhuma conclusão, apenas nos desgostaríamos um do outro e nem atenderias mais às minhas ligações no dia seguinte. Você sabe, quando as pessoas não se entendem elas preferem se afastar. Pra que ficar junto se não vemos as mesmas coisas? Onde vejo azul, você vê o verde – aquele verde que tem gente que acha que é azul, não sei como.

Quem sabe poderíamos recorrer aos eternos – eles de fato o são – pensadores, filósofos e literatos e a um punhado de poetas. Eles, dizem os mortais que os lêem, sabem o que ela é, onde está, como identificá-la. Teríamos, porém, que ler muitas velhas páginas e (tenho cá pra mim, que nem perto disso ainda cheguei) eles mesmos se contradizem, vivem apartados porque não a conhecem por inteiro, ou porque discordam dos meios de como alcançá-la. Ainda assim, então, discutiríamos sobre qual deles levaríamos em conta e quais descartaríamos.

Se não há consenso, será que ela existe? Será ela a minha, a sua, a do outro ali? Dizê-la plural parece uma heresia (e é). Sei que alguns recorrem a Deus, que ela e Ele andam juntos. Outros jamais a abandonam, são donos irredutíveis das suas (mas a julgam única). Poucos afirmam que ela não existe, incrédulos que são. Há quem diga que ela está nas coisas, ou nos sentimentos, ou, ainda, há temerários que têm a convicção de que ela pode ser alcançada pela razão. Mas é tanta confusão, nem parece que falamos da mesma coisa.

Eu acredito nela. Acredito quando não queres me dizê-la com todas as letras – mesmo eu pressentindo-a. Sei que ela é só uma – jamais discutiríamos os tons de uma cor, se a nossa nós sabemos qual é. Duvido que todo o conhecimento do mundo e as tramas do raciocínio lógico me levariam a ela. Duvido, mesmo. Ela existe no teu olhar.

A verdade é fácil de encontrar. Não há segredos a serem decifrados. Nem caminhos tortuosos. Ela surge no coração e segue entre carnes e sangue até brilhar os olhos e abrir-se ao mundo. A verdade é única e só surge uma vez. Dizem que não é possível exterminá-la – os homens de vez em quando tentam queimar livros, torturar e condenar bruxas. E ficam os olhos a iluminar outros olhos que também brilham. A verdade se encontra. A verdade une – não é verdade se gera discórdia. Por isso, às vezes, lábios silenciam-na. Ela é tão evidente, grita silenciosa sua presença, que não encontra tradução em palavras – pobres palavras.

Eu diria que besta é quem se desespera atrás dela – aprofunda-se em páginas, ouve líderes, religiosos, e no afã não distingue os mal intencionados. Mais abobado ainda é quem diz encontrá-la em tantos olhares opacos por aí. Entendo-os, porém. Todos nós a queremos. Todos queremos tê-la. Todos queremos dormir e acordar com ela ao lado. Eu diria, ainda, que é imprescindível atenção… buscá-la em silêncio e paz na alma. Ela existe no teu olhar. E só eu posso vê-la.

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