Nós

Nós. Os nós de marinheiro que nunca consegui fazer e me deslumbravam nos quadros e enfeites fúteis. Não sei fazer nós – nem em cordas que prendem cachorros ou coisas quaisquer. Soube, porém, sempre dar nós na cabeça, no que eu tinha para dizer em grandes momentos, naqueles dias tão pesados que os ombros recaem sobre o peito diante do espelho depois do banho. Quem dera, Futuro, que eu te trouxesse boas notícias hoje. Me puxa, Futuro, falando em nós e em meses, anos, dias, segundos – que os prezo muito – e, audaciosamente, no sempre. O sempre pode ser medido? O sempre é número? É quantificável? Meses, assim, eu entendia. Um, dois, o décimo segundo esperado mês do ano. Os três amados primeiros meses do ano. Não sabia que eles podiam ser calculados em madrugadas e finais de semana inesquecíveis de tão perfeitos. A perfeição existe? Pois então! O copo se vê vazio, resolva isso, por favor. Que eu quero falar dos meses. Noção de tempo, meus caros, vocês têm? Bom relacionamento com os números e cálculos, também? Pessoas boas são vocês. Eu não os tenho, tenho cá sentimentos. Dois meses, quanto é dois meses para vocês? Sessenta e um dias, fatalmente – ou sessenta e dois, ocasionalmente. Encha o copo, que copos vazios não geram nós nas cabeças entre meio vazios e meio cheios. E um nó? São nós. Nós entrelaçados, cordas cortadas de seus navios que seguiram viagem e jazem à deriva tão unidos como nunca a flutuar num mar de possibilidades. Ficamos tão sozinhos para saber prezar essa união num encontro que de tão inesperado é dolente em dias a fio na distância de que o nó se ate todos os dias, cada vez mais. O nó roça nossas nucas ao mesmo tempo que não nos escapa driblar tempos em cada eternidade de segundos. O nó torna-se, como diria o pastor, o plural, o nós sendo dois num só nó – envoltos, prisioneiros de si mesmos naquilo que não nomeamos, quando diante da perfeição do mar a bater no costão isolado, eu quis dizer e você me impediu. O mundo existia, Futuro, numa música distante que vinha da praia com o nome da nossa cor. As praias têm cores? Claro que tem! Em que mundo vives que nunca percebestes isso? Futuro, veja, o que são dois meses? Dois é sempre dois. Dois meses, um nó sendo nós. Futuro, acho que dormi enquanto te esperava. Culpa-me. Culpa-me a indolência. Culpa-me, mas não duvide da minha persistência ao vermo-nos tão impossíveis: tu tão curioso, eu tão observadora. Desconfiávamos, é verdade. E, vê, Futuro, o tempo… falta-lhe ainda alguma metáfora? Acaso falte, disponho-me a usá-la. Tempo, encurte distâncias, aproxime camas, una desejos. Tempo, não me apunhale pelas costas. Deslize momentos ao longo de estradas com destinos inesperados. Fiz coleção de relógios na minha adolescência para hoje não saber esperar o tempo, Futuro. Os relógios, parados, ficaram sem pilha e pararam de apressar-me. Dei bobeira nessa de encontrar-te nas esquinas e sebos da cidade. Eu queria ser, queria crescer, queria experiências e arrotar meus conhecimentos dos mundos. Eu quis, Futuro. Você chegou e fiquei sem palavras: de que tudo aquilo me valia? Eu era nó em mim mesma. Vê. E nem nos nós de marinheiros existe o nó de dois nós. Perdoa-me as tentativas vãs de desatar-nos; é que vaguei à deriva o tempo todo como apenas nó sem enosar-me em outros nós. Futuro, dois meses multiplicam-se? No primeiro, fui feliz; no segundo, fui muito feliz; e no próximo? Serei ainda mais feliz? Como fica progressivamente isto à eternidade? Questiona-me, por favor, se a eternidade existe. Ponha-me os pés no chão. Diga-me que amanhã não será possível. Futuro, ama-me. Arranca-me das fatalidades das obrigações da vida, Futuro; e joga-me nos braços do nó que faz de mim nós. O copo vazio, novamente, meu nobre amigo Futuro. Delírios me dirão que sinto cheiro de ovo frito. É como encurto distâncias. É como digo-te que eu queria, naquele dia, naquele costão, naquele momento, naquele silêncio, dizer-te o que jamais pensei que diria. Calo-me, insensatez. Esses dois meses podem ser vistos num videoclipe com o som sem sincronia. As palavras saem das bocas e não são o que ouvimos. Talvez seja a melhor metáfora para o tempo. (sobra-lhe, ainda, alguma metáfora?) Futuro, queda-te. Transcorre entre meus medos e minhas esperanças. Entre minhas propostas e perguntas que te pegam de surpresa. Fica, Futuro, que não aprendi a calcular os dias. As horas. Os meses. As datas. As distâncias. Os meses… sei que somos nós – dois nós que se encontraram à deriva de mares serenos à superfície. E os nós, dos marinheiros, não salvaram tantas vidas como as nossas. Vidas que o mar abençoa todos os dias. Mostra-me: o mar. A amar.

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