Desígnios dos deuses

Tem aquele dia que começa com um sol e céu azul e no começo da tarde as nuvens chegam, as trovoadas anunciam e cai um temporal – o dia, assim, vira noite. Ou, você liga pra marcar o salão de beleza, afinal vai começar o Verão e você quer um cabelo lindo, e em seguida descobre que a tua única amiga pode estar com um tumor – no cérebro. E as pessoas hão de questionar “nossa, tá assim nervosa por quê?”. E cada balela de discussão em família te parece insuportável. E Verão ou Primavera ou o que quer que seja não fazem muito sentido.

O que, afinal, faz sentido? Nada. Nada faz. Qualquer um que pare míseros minutos para atentar para a razão e explicação das coisas sensatamente meteria uma bala na cabeça. Ironia, claro. Que o cheiro da desgraça te faça agir desgraçadamente. Não seria a vida, afinal, uma péssima ironia muito bem planejada? Não sei quê filosofias ou religiões dão sentidos à vida. Somos todos abestalhados a procurar o que nos engana melhor.

É a comida que há dias não lhe cai bem. É o chocolate que te deixa um gosto ruim na boca. É o pé inquieto. É você rezar pra Nossa Senhora de Lourdes por sossego e paz, por minutos de silêncio, porque até o barulho da (interminável) chuva te deixa os nervos estalando. Vão dizer que foi o ano, este ano maldito, como foram tantos outros e até escreveram artigos comprovando que dizemos isso de todos os anos. Danem-se os anos. É o ínfimo detalhe de um trabalho que te faz querer jogar tudo – tudo – para o alto.

Não tem explicação. A vida, nem você, nem eu, nem nada nem ninguém. Não tem. E viver consciente disso? Dá? Dá não. É o descompasso da vida que nos alcança a todos em algum (mais de um?) momento. Eu recomendaria portas e janelas fechadas, silêncio, talvez até alguma boba distração – ou, melhor não. Você não encontra o momento e o meio que te fizeram se enganar até agora. Por umas horas as doses de anestesia não farão efeito e é preciso encobrir o estrago, viver a dor, engolir o choro. Nos outros dias você vai agir normalmente, ficará feliz porque o Natal se aproxima, fingirá alegrias, vai até sorrir com aquela história de ver a flor se abrir.

Mas no fundo – mais ou menos fundo – a certeza da falta total e absoluta de certezas você sempre carregará. Pode, é claro, como a maioria das pessoas, não meter uma bala na cabeça. Pode querer vê-la turva no fundo de algumas garrafas vazias. (sempre considero uma baita saída – mera opinião pessoal) Pode recorrer a outras drogas – há tantas. Pode, até, querer escrever (não recomendo). Pode, quem sabe, assistir à novela, rezar e dizer a si mesmo, todas as noites, “nada faz sentido” antes de dormir. É uma convicção. Na falta de certezas que nos amparem, agarremo-nos às convicções (sempre fui simpática a elas).

Dizem que depois da tempestade vem a bonança – mas, quer coisa pior que ditados populares para encobrir dolorosas verdades? Por vezes, não há desgraça maior do que viver. Manter-se de pé. Ter fé. Há quem faça drama, há os que chutam as portas. E há todo um mundo que não te deixará em paz – a começar pelos teus pensamentos. E talvez te bata à porta um grupo desses de alguma igreja a querer te convencer dos desígnios dos deuses e, bem, a última fronteira parecerá conseguir responder com educação. Tente.

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