Arrumarei a mala

Hoje eu arrumarei a mala. Já é tarde, veja, a noite desceu seus braços gélidos sobre nós e nos arrasta na escuridão. É bom andar pelas ruas no inverno, eu gosto. Mas, hoje, eu queria ir ao inferno. Dizem que lá faz calor. Arrumarei a mala para ir ao teu encontro. O dia pesa, o cansaço mortifica, a rotina sangra e os problemas perfilam-se diante da porta. Deixarei, prometo, tudo isso fora da bagagem. Irei leve. Arrumarei a mala com meu sorriso e uns vestidos: se fizer frio, terás que me esquentar.

Arrumarei a mala. Está decidido. Pegarei o rumo das nossas alegrias. Quero tanto te ver sorrir. Me dividirei em três – quatro, quem sabe – para mandar cada uma de mim a todos os compromissos e obrigações e pegarei a estrada rumo ao teu endereço. Quero estar junto. Quero te dizer saltitante “olha a lua!” no meio da tarde. Quero suspirar ao pé do teu ouvido “que luz linda tem o sol do inverno…”. Quero, porém, ir longe. Quero aprofundar os nós que nos unem e desatar as nódoas com que a distância nos surpreendeu. Quero encher a mala com lembranças de cumplicidades à beira-mar e gargalhadas no sofá – me prometa que nada disso faltará e irei ainda mais cedo. Levarei num cantinho da mala um bilhete laranja para esconder sob a dobra da colcha no dia da despedida – porque, inevitavelmente, ela chegará. Viver sem teu abraço é um desperdício de dias… nossos “até breve” contêm a imensidão de um amor que conta dias, horas, tardes e sábados.

Arrumarei a mala agora e chegarei assim de surpresa. Eu sei que você gosta. Arrumarei a mala com as certezas de uma vida inteira e dúvidas de um dia sem sol. Arrumarei a mala com a ânsia de quem sequer precisa dela, é vontade e partir e te ver. Arrumarei com a pressa de quem tardou em dizer que não quer mais o tempo entre nós. Quem sabe eu leve um livro para ler em voz alta nos nossos momentos só nossos. Arrumarei a mala com dezenas de angústias do passado que quero afogá-las no rio que margeia o porto, que a maré as leve para nunca mais.

Arrumarei a mala, com cuidado enrolarei num cachecol meu coração, vívido de esperanças coloridas a querer dar-se a quem o aceitou. Arrumarei a mala para ir ao teu encontro. Arrumarei a mala nas últimas horas que me restam do dia. Que dias sem ti vazios se esvaem em friezas.

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