Histórias de Natal–A Neve

A menina de cachos castanhos, sentada à janela aberta, com os cotovelos apoiados no beiral admirava o que via lá fora. Seu cachorro, sobre as duas patas traseiras, também olhava arregalado para a vasta branquidão. A mãe passava pela porta do quarto a trovejar “fecha esse vidro, menina, vai ficar doente nesse frio! Que mundo louco, em pleno dezembro! O mundo ficou louco! O mundo ficou louco!” e seguia atarantada pela casa, sem saber ao certo o que fazer – como muitas e muitas pessoas pelo globo afora.

Nevava. E a menina deslumbrada observava aquela maravilha em floquinhos a cair do céu e o tapete congelante e fofo que se espalhava pelo pequeno jardim e pela rua. Crianças sem roupas apropriadas corriam sem jeito, mães ficavam pelos cantos, espantadas e segurando sombrinhas. Nunca nevara por ali – como numa grande parte do mundo. As TVs tagarelavam aflitas em busca de explicações, especialistas, alguém que pudesse entender o que acontecia no mundo. Era dezembro, Verão no hemisfério Sul, previsão de calor; que nevasse no hemisfério Norte era esperado, mas estes assistiam atônitos à neve que se apoderava do mundo todo.

Naquele dia nevava em absolutamente todos os lugares do mundo. Alguns citavam que era o verdadeiro white Christmas all over the world, outros prediziam alguma tormenta de Deus ou a volta do Seu filho, muitos correram às igrejas e templos, poucos puseram-se em oração, milhões registravam o momento temendo que fosse efêmero – e tornando-o efêmero na sua experiência apenas sentida em fotografias e vídeos. E a menina suspirou e sorriu ao ver o céu despejar mais flocos de uma branquidão calmante e peculiar – sem dúvida peculiar naquela terra onde raramente fazia menos de vinte graus.

Cogitava-se algum erro brusco no cálculo dos metereologistas ou uma catástrofe não testemunhada pelos satélites ou, temia-se ainda mais, era, finalmente, a resposta da natureza ao modo de vida abusado e dispendioso de humanos que só exploravam e se reuniam em tentativas de absorver o impacto de uma população gigante num mundo finito. Ou, na verdade, não se sabia de nada. A menina ouvia a TV da sala ao lado na pequena casa, muito se falava e se mostrava, nada se sabia. Seu cachorro vidrado no branco que não motivava a sair e, vez ou outra, a olhava de soslaio como se de tudo soubesse. A menina sorria e seus olhos brilhavam.

Equipes de socorro e de prevenção de desastres foram chamadas às pressas no feriado do dia santo do nascimento do menino, largaram suas famílias, suas mesas fartas, seus presentes embrulhados. Políticos também, mas não compareceram – não parecia um problema que lhes dissesse respeito, afinal era algum capricho da natureza. Fazia-se cálculos e a preocupação aumentava, para onde escoaria toda aquela água depois de degelada?, as pessoas de países pobres do hemisfério Sul não estavam preparadas para um frio extremo, pois são de pasíses quentes, quantas vidas se perderiam?, e o mundo, todo branquinho, parecia – para alguns de pouca fé – ter chegado ao fim. A menina, porém, via o início naquela neve manchada de barro onde agoa alguns meninos pisoteavam tentando fazer um boneco.

A neve caía em paz cobrindo todo o mundo, misturava-se à areia das praias, espalhava-se sobre telhado e ruas, repousava sobre árvores que desconhecia. Florestas foram tomadas, cidades inteiras ficaram em silêncio sob seu manto, e ela sossegadamente não parava de cair naquela véspera e durante todo o dia seguinte. E a menina ali ficou, cotovelos doloridos, a observar a neve da sua janela. Ela sorria. Ainda persistia a dúvida e muita previsão foi feita. Nada, de fato, ainda se sabia.

A menina vivia numa casinha na periferia. Pai pedreiro e mãe costureira – que já se aventurava a arrumar um casaquinho para a filha, colocando um forro extra para agasalhá-la melhor naqueles dias tenebrosos. Com sorte, a menina terminaria a escola. Com muita sorte a menina conseguiria um emprego dali muitos anos. Sem sorte, sua vida seguiria… A menina suspirou pela milésima vez a contemplar a beleza que via. O cachorro, enrodilhado aos seus pés, gania baixinho como se tivesse pesadelos. A mãe dormia agarrada ao terço e com lágrimas secas nos olhos – o frio era caro, aquecer a casa, a menina, os bichos, muita roupa molhada e tudo isso lhe custava mais ainda a pregar os olhos.

O pai levantou-se da TV e passou na porta do quarto da menina, que estava na janela desde o primeiro floco de neve que caíra na véspera. A menina era sonhadora, um tanto avoada, o pai não quis atrapalhar a contemplação e foi deitar. Quem sabe ela estivesse sem sono mesmo. Preocupava-o o trabalho, tudo parado devido àquela neve suspeita e odiosa, sem dinheiro reserva, sem aquecimento na casa. Mas ele dormiria.

A menina suspirou mais uma vez e ao ouvir todos dormindo, a janela aberta ainda, sussurrou um “muito obrigada”. Apoiou o queixinho nas duas mãos e viu que, quanto mais o ponteiro se aproximava da meia-noite, mais a neve ia escasseando. Sorriu e deu mais uma olhada para o papel que trazia dentro da manga do casaco, a cartinha para o Papai Noel, que ela deixara naquele mesmo parapeito na noite anterior. Sorriu ao ler o recado “assim seja!” e a assinatura do velhinho das barbas tão brancas quanto a neve. Sorriu ao ver os montes brancos no jardim. Leu, mais uma vez, seus garranchos que ingenuamente explicavam ao Papai Noel que ela era pobre, como seus pais, e assim seria sempre, por isso pedia para ver a neve do Natal de que tanto ela via nas toalhas de decoração e nos filmes na TV.

A TV estava quieta. A menina esticou os bracinhos, estralou os dedos, viu a branquidão começar a sumir do entorno, feito mágica, e o céu deixar de despejar seus flocos. Era meia-noite. Ficou ali uns minutos ainda, sorrindo e agarrada à sua cartinha. Hoje ela dormiria feliz.

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