Hoje os barcos não saíram para pescar. O temerário, só um, é verdade, navegava próximo à praia. Na cidade o sol cegava. Lá nem se teve notícias do nevoeiro. A angústia do olhar de mar que não via o horizonte, nada além de umas braçadas. O dia acordara mesmo sem escolhas: ou se ama, ou se ama. Quem conhece os humores do mar sabe que ele não estava para brincadeira, hoje era dia de discussão profunda. Poucas ondas, maré de ressacas do frio, uma superfície calma, diriam os ignorantes. Não é bom ignorar os humores do mar. O mar não é traiçoeiro nem engana, essas acusações são dos que preferem culpar os outros pelos seus erros. No amor, não há espaço para culpas. O mar dizia bem claro como ele estava, cada um na sua. Os pescadores à janela testemunhavam o nevoeiro adensar e adentrar as ruas e casas, fazia tempo que algo assim não se via. Era temporada boa de pesca, noites seguidas de muitas luzes no horizonte, redes espalhadas pelos dias de sol e seca. Você nunca pode contra o amor, tal qual o nevoeiro ele chega e muda a vida das pessoas. Assim como não é possível obrigar ninguém a amar o mar. Tarde da noite o nevoeiro foi se transformando em gotas que umedeciam os telhados, as redes da varanda, os carros fora da garagem, o mato do quintal. Gatos contrariados procuravam abrigo nas casas desabitadas. Em algum lugar está escrito que não se ama em vão – mesmo quando o desejo por alguém não é correspondido. Parece que há uma lei no universo abençoada pelos astros que confirma que ninguém pode ser forçado a retribuir o amor. Quase não havia faixa de areia na praia dos pescadores. Na praia ao lado havia areia e os caixotes (alguns chamam de lar) que o motor destruidor do ser humano constrói nem eram avistados. Bonita paisagem. Recorda aquele livro no qual eles partem num barco e ao naufragar vão parar numa ilha deserta e lá criam uma nova sociedade. Uma ilha deserta, o sonho dos amantes. Viver numa ilha, só apaixonados entenderiam. A cidade tem o poder de destruir sonhos e poluir os pulmões, não é recomendável. O nevoeiro trouxe apreensão, as aves voavam baixo, as tartarugas não apareceram. Os mais antigos se recolheram cedo, diziam ser mau agouro um nevoeiro assim, que boa coisa não viria, ou do mar, ou do céu, ou do coração. E as famílias já acuadas pelas tragédias da natureza fecharam as portas e janelas mais cedo. O amor se embrenha pelas frestas, encontra um canto quentinho do coração, busca um espaço confortável nos pensamentos. Quem planejava banhos de mar ou nadar até as pedras teve que se contentar com mirar a água límpida. O mar estava mais gelado que a alma de quem ama sem esperança. O amor aprende a esperar. O nevoeiro levou as crianças ao choro, ao leite quente e a irem para a cama mais cedo. Crianças antecipam as desgraças, seus corações são puros porque não conhecem o amor – só a necessidade. Crianças não são fruto do amor. Há quem olhe e não veja o mar. Há quem não veja poesia no nevoeiro. Há quem diga que ama, sem amar a si mesmo. Amar é um exercício cotidiano. Amor é uma vida, precisa ser alimentado e cuidado. O mar, hoje, casou-se com o nevoeiro numa ironia do destino. Passaram o dia e a noite a discorrer em falatório sobre as incertezas e inseguranças de nós que habitamos a Terra. Concluíram que são todos muito tolos. Tão tolos que não sabemos se amanhã amanhecerá com sol ou nuvens ou chuva ou se o encontro deles ainda não terá terminado. Nem o casamento do mar com o nevoeiro dura para sempre. Amor nenhum dura. O nevoeiro, porém, teve que concordar que o mar é o melhor amante. Amar é saber dar-se. Apaixonar-se pelo mar é inevitável para as almas solitárias e donas de si, é um amor que baliza o amor ao próximo. Amar nunca é errado. Já dizia o livro sagrado que fomos feitos para o amor. O mar é o templo. O nevoeiro, hoje, fechou as portas do mar porque precisavam, juntos, dizer algumas palavras aos corações apaixonados. Amar é só para os corajosos.
Medo
Solidão
perfaz o reflexo
do que tanto atrai
É o medo
que fala por eles
no calor do impulso
refreado
Ela é temida
Ou eles
têm medo?
Fosse fraca
frágil
submissa
a força deles se assumiria
Ela é forte
inquebrável
autoritária
dona (como a canção)
Solidão
Capítulos reprisados
daquela novela
o que tanto atrai
afasta – dá medo
Troco de canal
no anseio de um filme:
lindas e fortes mulheres
no final feliz eles as dominam –
igual nos meus romances
da adolescência
Não professo essa fé.
Vencido o medo
eles se acham os galãs
(Tyrone Power que os perdoe)
e tentam destruir
o que tanto os atraiu à chama
Perdem
perdem e saem feridos
– veem ruir a idealização
de si mesmos
Nunca é sobre ela
Solidão
sempre opção
– não por falta de opção
O medo
a ferir seus egos
Ela livre
jamais suportarão
Solidão
a preço de ouro
para conquistar seu coração
Em busca dos versos perdidos
Eis que no bloco de anotações consta: poesia. Relevante: entre tudo, eu penso e agendo que preciso escrever poesias. Hoje, porém, não é o caso. Sinto versos e caminho em prosas. Piso na areia e arrasto a alma pelo asfalto. Vejo a vida a rir de mim e retruco num impulso: há método na loucura. Estou hoje aqui e amanhã estarei longe – vá me encontrar pra correr beiras-mar e beiras-rio num suspiro de manter-me viva. VIVA. Cadê a poesia pelas esquinas? Cadê a graça em cada linha?
Cadê as garças sobre os troncos de árvores, a lagoa poluída da minha infância, as tartarugas a jantar antes do sol de pôr? Estão aqui nesses olhos que não saem do mar. Meus olhos de mar a prometerem nada além do que o horizonte e o futuro, dias de ressaca e de vez em quando alguma calmaria – a ser implodida em dias de tempestade severa e raios e trovoadas. Não sei ser pouco, não sei ser contida, não sei não ser eu. Eu assumo o que sinto – dor maior no mundo não há. Quem não assume o que sente, vive escondido, se consome e definha. Vê?: é a felicidade logo ali ao alcance (só precisa assumir o que sente). Estrada pouco trilhada, essa. Somos poucos, caminhamos devagar e, roucos, não nos fazemos ouvir. Bebemos, é certo, para manter o equilíbrio – Aristóteles, você não me sai do pensamento. Eis a felicidade lá, tão certo, no meio-termo. Talvez, quem sabe, a balança esteja desregulada. Há método na loucura. Percorri despedidas antecipadas e quero viver como rainha – mentira, sou só eu quando descalça e de maiô, nem lenço nem documento só a alma a abençoar. Hoje acendi uma vela e foi por mim. Estou viva, parece. Não se acendem velas somente para os mortos. Acendi vela e fiz minhas preces, não sou o Papa para pedir que rezem por mim – afinal, até isso sou eu mesma que faço por mim. Coleciono versos impublicáveis e declarações em atos. O mundo dá voltas, quem perder essa não entra na próxima e estará condenado a viver a mesma volta para todo o sempre. Sei lá, não faz meu gosto. Os dias a conta-gotas em trânsito parado e a rotina a pauladas. Mircea, me ajude. Martelar as obrigações num coração felino é abrir as portas do inferno. Como jogar a chave da razão fora e abraçar Cérbero e lançar mão do método da loucura e dizer: sou maior e mais forte que isso. Bate, que eu não apanho. Eu revido.Se tenho tudo, busco lábios em paixões à queima-roupa em novos corredores. Não sei ser pouco – nem oco. Azar no jogo… sorte e juízo, enfim, fizeram as pazes. Percorro lembranças em praias, canções, fotografias, sentimentos adormecidos e tenho feito as pazes. Paz no presente encharcada de eu em paz com o passado. Previsões me dizem que sairei machucada – um arranhão é sempre um arranhão. Revi meus erros, a dor é menor para um coração que não se anula. Fiz juras que dessa vez seria diferente – gargalhadas se ouvem lá dos céus que a tudo testemunha. O medo abriu a porta e instalou-se confortavelmente na poltrona principal, não queria sair e esfarelou minhas bases mais experientes. Foi a lua cheia, quem sabe, a esperança, talvez, o coração sonhador, peut être, e o medo fugiu no rastro de um choro doloroso e pungente – como nunca antes. E falta poesia. A poesia espanta o medo e seca as lágrimas. Sem versos tomba sobre os olhos a lista dos afazeres atrasados e as cobranças na caixa de entrada. Viveria no mundo das ideias sem muitos problemas, adiando o fim do filme sobre o fim do mundo. Acreditar em amor, numa hora dessas?! Não fode, Coutinho. E tudo recomeçou com os versos de uma canção no rádio, numa tarde perdida numa semana sem fim. Tão doce reencontrar a poesia em meio ao afogamento da cidade insensível. Vais entender: há método na loucura.
Vem
Vem
ser feliz até onde a vista alcança
Vem que eu sou boa de improviso
Faço versos que deixo em cadernos
longe do coração dos moços
São sensíveis e desconfiados
esses homens criados no mundo
feroz feito à imagem e semelhança
de seus pais
Vem que eu sei onde o mar termina
eu sei encontrar ouro na mina
eu domino a arte de sorrir
pra te ver feliz
Você vai me odiar
Você vai me temer
Vai tentar fugir
Vai
vai, porque voltar é mais fácil
lembra: não faço promessas
Eu sou boa em te deixar confuso
solto a corda e em pouco tempo
te afundo em incertezas
jogo as cartas na mesa
A próxima jogada é sua
nos restam algumas rodadas
tenho tempo
é meu mais precioso bem
vem
roubo pensamentos
rogo pragas
jogo bem – nem graça mais tem
vou me aposentar
Vem
olhar horizontes de quem
não procura mais emoções
por experiências e solidões
Sou boa em dar o que não tenho
ofereço sonhos
de brinde tens minha sinceridade
sei uma dúzia de coisas da vida
te digo: não dói mais
Vem
Vem sorrir junto
deitar na areia
ralar o joelho e cair
dar as mãos e seguir
Vem
não tem sentido
a cada passo
te conto um segredo
até desnudar a alma
e vesti-la
de abraços teus
vem.
Anotações de versos para uma composição
(À moda da bossa nova)
Seus olhos ao cruzarem
com os meus e naquele olhar
a promessa ficou
Desfiz semanas em novelos
de dias contados
à sambas à beira-mar
Em euforias e tanto
de silêncios
o som das ondas
Os moços ao mar, ao longe
próximos da ilha
namoram ondas que nunca virão
Você, meu amor
não veio, de novo
Nada de beijinhos, carinhos
só vislumbro um fim
O mar caliente
gelo se desfaz nos oceanos
destruímos o mundo
no outono o mar tão calmo nunca vi
transparente até às oito da noite
e eu e minhas ilusões a sós
Encerro meu show sem bis
o amor que não se deu
na arena do conflito
qual a cor dos teus olhos?
Conto não mais semanas
é mês e mês
e esse amor que percorre
farol, molhe e rio
em passos silenciosos
Mal nasceu é algo de amor
Sem dar
Sem ser
Exausto dorme em paixão
E brasa
São as águas
de além de março
noites e filmes
bonito ver
o sol nascer
em gritos de ansiedade
controlados
Disfarço
é muita mentira
negar e fingir
foi em dia de ressaca
que o amor virou
pois é
só eu sei
Melancolia e tristeza
dor cruel que me acorda
às três da madrugada
e triste enxoto a paixão
lá vou eu de novo…
(Busco versos melhor inspirados em dias de ressaca, de mar tumultuado e decisões que custaram a ser tomadas. Quem sabe a bossa não caiba ao tamanho dos versos e dos segredos.)
Não sei preparar café
Eu não sei preparar café. Sem dúvida que fica mais bonito em espanhol (tudo fica mais bonito em espanhol) e numa canção da Shakira. Não saber preparar café tem selado meus dias. Não nasci para beber café ruim. Aliás, faz dois anos que comecei a apreciar o café e a relação nasceu forte com um café irlandês numa cidade linda da América do Sul. No cotidiano, já comprei cafés estrelados e erro a quantidade absolutamente todas as vezes. Relações são assim, quando temos que falar de dois é melhor começar por si mesma.
Faz tempo que entendo de futebol, é uma herança. Há alguns dias voltei ao velho hábito de usar relógio – as horas me interessam, o tempo é meu mais velho e fiel amigo, cada minuto num relógio bonito faz com que pensar em você seja algo menos obsessivo. Comigo nada é fácil. O tempo passa, já passou demais, às vezes penso: vai passar indiferente aos desejos.
Como deve ser bom saber preparar café. Hoje ainda lembrei da Dona Florinda (ela que sabia das coisas), eu nem sei convidar pra um café – logo eu que já amaldiçoei os convites para tomar café. Bem, tenho uns filmes bons pra assistir. É só o que tenho pra oferecer, mas garanto que tomo banhos aos domingos. Jamais deixaria de tomar banho criando versos apaixonados depois de uma longa caminhada para colocar os pensamentos e angústias em ordem.
Pelo menos agora, com o aquecimento global, deixamos de chorar uma vez ao mês. O frio acabou – não confunda, o frio acabou, a frieza das pessoas segue firme. Tenho dormido às dez uns dois dias por semana e nos outros tenho trabalhado em três turnos até às 23h. Os deuses do sono me acordam pontualmente às seis da manhã para uma oração – sempre fui fiel. Comigo nada é fácil. Trabalhar me afasta das insatisfações e as insatisfações no trabalho me fazem produzir mais. É um jogo nada fácil.
Claro, ainda respiro. Todo dia, por cerca de uma hora, tenho focado apenas no fato de que eu ainda respiro e não posso deixar de fazê-lo nem por um segundo. Tenho me empenhado em dominar o dom de prender o ar – tudo muito incerto por enquanto. Queria, quem sabe, perder o ar. Pela primeira vez na vida fiquei nervosa, foi inevitável. Vou ver o que fazer comigo, afinal por aqui nada é fácil.
Enfim, é só questão de confessar. Não sei preparar café. Ninguém pensa em você como eu. Tristeza maior é tudo isso ficar tão ruim em português. Não sou Shakira, mas, se der bobeira, saco uns versos brotados de desilusões de amor. Deus abençoe as desilusões de amor.
Las lobas siguen enamoradas
Duas das últimas obras lançadas que me fizeram feliz foram o “filme” da JLo e o álbum da Shakira. São duas latinas às quais eu acompanho a carreira (sem nenhum vício deselegante) e gosto do trabalho. Ambas abordam os mesmos temas nessas obras que é a mulher “madura”.
E hoje é sobre isso. Sobre termos produções culturais e artísticas para um público muito específico que é o da mulher independente adulta além 30 anos. Fiquei pensando por quanto tempo, ao longo da História, faltaram produções que fossem destinadas a mulheres acima de 30 anos que encaram a vida longe da perspectiva que nos destinaram a essa idade (marido, filhos, estabilidade mental e financeira, dona de casa ou carreira em dia). Mesmo para as mulheres que tenham caído no conto de fadas, por volta dos vinte e pouco anos, de vida feliz com marido, filhos e dona de casa ou carreira estável (tendo tido ou não a chance de estudar), a casa dos trinta pode ter trazido novidades – o conto era de fadas mesmo e o príncipe era um vilão, os filhos dão trabalho e crescem e têm suas vidas, por vezes ela era dona de casa para dar conta do maridão e dos filhos e numa separação teve que se ver sozinha, sem estudos e sem profissão, a correr atrás do prejuízo.
Quem nunca assistiu a filmes, séries, leu livros sobre homens e suas eternas crises, dos 15, 18, 20, 30, 40, 50, 60, 70, 80… até parece que homem vive em crise, né? (não sou eu que estou dizendo)
Mas a mulher com mais de 30 é uma pessoa muito especial. E para aquelas que ainda não passaram por nenhum processo de transformação na casa dos trinta, já aviso: ele virá. Sei lá, a mulher balzaquiana é clássica, mas é escrita por um homem, né?
Os trinta, nas vozes da JLo e da Shakira, é sobre mulheres muito fortes – e fracas. Elas conseguem revisar suas fraquezas. As mulheres que se transformam aos trinta sabem no que, quando e com quem erraram – e se perdoam por terem errado porque o “erro” é parte da nossa jornada, quando erramos não fomos as únicas protagonistas da história e não havia ninguém nem nada que pudesse ter previsto o que nos traria essa experiência. Durante os vinte nós podemos (e devemos!) errar. Depois dos trinta também erramos, só que de forma diferente – até o limite que nos damos permissão para errar. Até o limite de entender como fomos condicionadas a interpretar diversas situações que antes não eram tão evidentes e as quais ninguém se deu ao trabalho de nos explicar – mesmo que tenhamos lido ou ouvido falar, quando passamos por essas histórias é muito diferente.
Ao contrário dos homens, que aparentemente têm crises a cada cinco ou dez anos desde a tenra infância, as mulheres não têm tempo nem são autorizadas pela sociedade a ter crises. Às mulheres não é facultado errar, afinal desde cedo elas já são programadas para serem boas filhas, boas alunas, excelentes donas de casa e mães, e serão modelo de esposas – ah, e se der tempo e todas as convenções da sociedade permitirem, também devem ser profissionais zelosas (mas sem muita ambição, porque isso está destinado aos homens). Muitas de nós acreditam nessa programação em vários momentos da vida. Todas nós já nos vimos nesses papéis em diversos momentos da vida – como boas filhas, como mães, como esposas, donas de casa, etc. – por pressão externa ou interna. Algumas de nós, contudo, não se resignam a eles e, por vezes, buscam algo além.
Ou, como nos mostram JLo e Shakira, aceitamos esses papéis – e lá vem os 30 + a nos dizer que podemos nos reinventar, que o conto de fadas acabou, que as felicidades inventadas não sobrevivem, que é possível sermos nós (e tantas outras). JLo me impressiona, ao contrário do que normalmente as pessoas e a imprensa falam (que se impressionam pelo físico dela para a idade que tem – sim, 2024 e ainda falamos disso), por ser uma mulher que ama. Isso, a frase acaba aí. Uma mulher que ama. O que a idade tem a ver com isso? Qual a lei que diz que aos 30 + não podemos amar como aos 15 ou 20? (quando eu passar dos 40 + eu voltarei a escrever sobre isso) Para uma mulher que ama, o amor não é diferente em nenhuma década da vida. O amor é sempre amor, a paixão também.
O início e o fim do filme da JLo são muito marcantes, sobre sempre ter desejado ser apaixonada e terminar numa bela sequência, cheia de referências, sozinha e cantando na chuva. Aliás, tenho me pegado pensando bastante sobre a solidão – um dia escreverei um tratado. Uma mulher sozinha é sempre vista com pena, é condenada, pelos olhos alheios, a ser triste. Já vi muita jovem de – 20 desesperada por “ficar sozinha” e me afligi demais por elas – por outro motivo. Como continuamente nos fazem crer que ficar sozinha é algo tão ruim! (seria uma ideia fabricada pelo patriarcado para que sempre busquemos homens, aceitando qualquer relação, qualquer um? mera reflexão) É por temer ficar sozinha, por se angustiar em não representar o que esperam de nós, que a mulher busca relacionamentos de forma inconsequente. Em algum momento eu espero que toda mulher tome consciência disso.
Depois dos 30, é uma vantagem apreciar a solidão. Sobre amar depois dos 30, a pessoa precisa entender o quão privilegiada é de partager* a nossa companhia. Não é desespero, não é falta de opção. Querer a presença de alguém que rompa a nossa relação (mesmo que por algumas horas) saudável com a solidão é um privilégio e um prêmio que a mulher de 30 + dá a algumas pessoas. Eu sugiro não desperdiçar.
Com minhas amigas sempre brinquei sobre o “controle de qualidade”, é preciso ter um controle de qualidade – e aí ou você é muito exigente (já me acusaram muito disso) ou você acredita demais nos seus parâmetros. JLo e Shakira me falaram sobre tudo isso, sobre passar dos trinta e tomar consciência de que “erros” não são erros, que acreditar é um dom do ser humano, que sermos enganadas, manipuladas, agredidas são consequências de quem os outros foram conosco – e não é culpa nossa. Porém, mesmo que a gente não use essas experiências para ganhar (mais) alguns milhões, que saibamos ter a coragem de nos permitir amar – de novo.
Como diria a protagonista (Binoche, mon amour, quelle merveilleuse actrice !) de La passion de Dodin Bouffant, eu me sinto no Verão da vida. Sei lá, isso de estar no Outono da vida é coisa para homem na crise dos quarenta ou cinquenta anos. O filme é encantador em vários sentidos – e para os sentidos – e abriga uma personagem perspicaz. Ela nunca aceitou casar, assumir o relacionamento (e o filme não está preocupado em aprofundar isso – eu gostaria) e se manteve fiel a ser fiel a ele. O mais encantador é a Fotografia e a Direção se aprofundarem nesse deleite que é o Verão da vida da personagem, não importa a sua idade. Depois de tanto falar aqui em 30 +, acho que é isso: o nosso Verão dura muito mais do que querem nos fazer crer (do que sempre nos fizeram crer, até a biologia).
Como Eugenie, também amo o Verão (mas concordo com Bidon sobre apreciar a mudança das estações). O Verão é essa estação que nos faz sempre querer estar em movimento, em aproveitar a vida, nos faz querer amar, o sol dá vida aos dias e convida (a uma caminhada na praia) a viver. O desafio é não nos resignarmos a entrar no Outono (ou, pior, no Inverno) da vida porque todo o mundo nos incita a isso. Se ela já tivesse casado, talvez visse a vida com os olhos dele e já tivesse perdido o seu Verão?
Algumas das canções da Shakira me permitiram rir de desgraças do passado – e, quem sabe, olhar com doçura para o presente. Depois dos 30, se não soubermos manter o bom humor vivo seremos (ainda mais) facilmente tachadas de mal-resolvidas, frustradas e (jaz aqui um termo que eu jamais usaria). A sociedade, além de não produzir obras e entretenimento para mulheres com 30 +, ainda persiste em nos tratar pejorativamente desde conversas de bar até comentários informais. Em outros tempos era também mais difícil para mulheres artistas com 30 +, visto que elas eram obrigadas (não que isso tenha acabado) a manter a persona da jovem mulher. Sabemos, inclusive, as consequências disso para muitas artistas do passado e de hoje.
A vida, enfim, é feita dessas pequenas alegrias, de, enquanto mulher com 30 + encontrar obras e artistas que ecoam em mim. O que torna ainda mais próximo é ver a relação dessas obras com suas autoras, em como elas se permitem abrir a vida e escancarar as experiências – porque sabem que não estão sozinhas e, de certa forma, nos dizem que nós também não estamos.
Sei lá, está chovendo e a vontade é sair caminhando pelas ruas, igual a JLo, com o coração leve, a vida plena, a segurança (que só o pós 30 nos dá) dos atos, palavras e experiências e com a certeza de que querer ser apaixonada, pela vida inteira, é uma excelente escolha.
(a inspiração da Shakira virá num próximo texto e, sim, tem a ver com café – pra completar que muitas de nós não precisam passar dos 30 para saber quem são)
* compartilhar: depois das redes sociais não consegui mais gostar desse verbo, prefiro em francês que fica mais bonito.
Abismo
Todos los miércoles tengo una cita
Con el viento
Él viene del sur
Y yo vengo del norte
Nos quedamos en la playa
Nos calentamos en el mar
Es vida, es amor, mi gran pasión
Veo el abismo
Pero yo, a mi me gusta el riesgo
Lo sabes, no?
Hermano, te he compreendido
Ahora, se me lo permites
Voy a ser un poco de ti hasta siempre
Fue en aquél ciudad
El juego y la pasión me han dominado
Hasta ahora me pregunto
Pero lo sé
El tiempo es mi mejor amigo
Hermano, perdóname el retraso
Tenemos tiempo y tu lo sabes mejor que yo
Me he dado cuenta
El abismo, el peligro
Lo riesgo
Es cómo la llama acesa
Me tragam el interés, la pasión, la vida
Tu eres un riesgo y sólo lo quiero, por ora
Lo sabes muy bien
Sólo mi hermano y yo lo sabemos
Es el motivo de no quitarmos el amor de nuestras vidas
El amor es siempre un riesgo
He decidido poner un fin a la ilusión
Por la mañana pienso que tu no piensas en mi
Luego llegó un mensaje
Sí, no eres indiferente
Tu piensas en mi
El amor es siempre un riesgo
Pero no toda vez es amor, el amor
Por lo menos, puede que sea deseo
Y nada más
Te traigo muy cerca del pecho
Voy a poner la camisa
El corazón despierta
En cada cerveza
En cada esquina
En cada palabra
Y hasta la memória
Yo lo sé
No hables mal del tiempo
Yo lo defendo
Es más un riesgo
El amor es siempre un riesgo
Tengo ganas de mirar abajo
Al abismo
Venga
El amor es siempre un riesgo
No me lo arrepientiré
Cartas na manga
Cada escolha revela um pensamento, por vezes uma intenção. O vestido é sempre escolhido baseado em detalhes e critérios que conjugam os compromissos, a viabilidade de sucesso do dia, o destino que assombra, as possibilidades de felicidade (mesmo que egoístas), as lutas e batalhas a serem encampadas, os inimigos à espreita e até mesmo o desejo – seja ele de quantas tonalidades for.
Escolher o vestido é desafiar-se a traduzir numa linguagem que pode passar despercebida toda uma personalidade e uma vida, é ter apenas alguns tantos de algum pano a enviar mensagens e declarar guerra – ou paz. Por vezes, o mesmo vestido pode dizer algo diferente, conforme os acessórios, o dia, a lua, a estação e até mesmo, jamais ele não dirá nada.
É como encampar um diálogo com o mundo, sem palavras ditas, contudo que calam mais do que gritos. Gritos. De onde quer que venham os gritos. Há uma eu que quase ninguém conhece e que graça teria a vida se fosse tão fácil assim conhecê-la. E desse quase ninguém há poucos sobreviventes. Para lograr conhecer alguém há que se ouvir os diálogos sem palavras, há que se aproximar de quem ela é quando não há ninguém a testemunhar seus atos e pensamentos. Deus foi tão grande quando não permitiu aos humanos que lêssemos os pensamentos uns dos outros!
Até mesmo quando a escolha não é um vestido ela emite sinais sensíveis ao tato e ao olhar mais apurado. Porém, não é possível tocá-la. As traduções simultâneas são da pior qualidade, sempre com impressões deturpadas pelos olhos que a vêem. Consolida-se o fracasso do diálogo humano tão ressecado ao hábito do bê a bá.
Como o Destino não se pronuncia quando dará o ar da graça, só me cabe tecer inúmeras estratégias em cada passo, em cada olhar, em todas as escolhas e, por vezes, ter vestidos como uma boa jogadora têm cartas na manga.
A banalidade do mal e a vida feliz
Esses dias eu comentava o filme The Zone of Interest e acabamos falando sobre a “banalidade do mal” (eu vi que teve muita discussão sobre isso, se ele seria um representante do conceito ou não e tal, mas não era o meu ponto).
A banalidade do mal, de Hannah Arendt, é um dos temas mais fascinantes que conheci na vida. Não sei bem o motivo, mas ter lido Eichmann em Jerusalém me marcou profundamente (assim como tantas outras histórias da Segunda Guerra, já devo ter comentado várias delas como Areia Pesada e Primo Levi). Além do livro, que espero poder reler na maturidade visto que li quando tinha vinte anos, os filmes sobre Hannah Arendt que passam pelo tema e também assistir aos vídeos do depoimento real de Eichmann são impressionantes. Sabemos como a adaptação em livros, filmes, séries mantém acesa a nossa chama por determinados assuntos – mesmo adaptação de fatos reais.
Quer dizer, acho que eu sei bem o motivo desse meu profundo interesse pelo tema. Desde muito cedo eu tive contato com a maldade humana no seu pior tipo e tentar compreendê-la, desvendá-la ou somente observar e analisar é algo que trago comigo a vida inteira. Li um bom tanto de psicologia para acompanhar o que se estuda sobre isso e sou adicta de literatura de crimes, comecei com o bom e velho Conan Doyle, segui naturalmente para Agatha Christie e depois foi algo mais abrangente. Também fui fissurada (era, na época, o único programa que me prendia na TV) no Linha Direta, ano passado ouvi todos os capítulos do novo Linha Direta no podcast. Gosto muito de ler e ouvir sobre criminalística, ciência forense, investigações e tal.
A maldade humana é, talvez, o tema central da vida que eu mais acompanho, visto que ser uma pessoa que pratica crimes e maldade contra o próximo é algo que não tem explicação. Quando se é vítima da maldade humana, aquela maldade pura e simples ou mesmo com interesses, a gente aprende a conviver com a realidade de um jeito diferente. Eichmann só fazia um trabalho bem feito, assim como tantos outros funcionários e até servidores públicos naquele período e nos dias de hoje.
Praticar a maldade deve proporcionar algum tipo de prazer, como dizem especialistas, por isso tantas pessoas são levadas a gozar com a dor do outro. A maldade também provê interesses e lucros, sejam econômicos, pessoais, familiares, etc. Acusar falsamente que alguém assassinou outra pessoa, para poder ficar com seus direitos da herança, por exemplo, é um lucro pessoal (o acusador quer o mal do inocente) e também econômico (terá mais dinheiro da herança para si). Quando você consegue ter uma certa frieza e experiência, fica mais fácil identificar esses propulsores da maldade alheia.
Quando um ex-aluno frustrado que defendia um ser abjeto que jamais foi filósofo e se formou assistindo aos pseudo-documentários daquela produtora que diz reescrever a História, quando esse aluno nunca teve coragem nem argumentos para te desmerecer enquanto professora, mas utiliza-se de cargo público para tentar te prejudicar profissionalmente, porque você produz e tem público para o teu discurso, enquanto ele não consegue muito na vida, você entende a maldade como um escape para a frustração da realização pessoal.
São inúmeros os exemplos. Tem muita gente, como no filme, que só quer uma casa com quintal bonito, um salário todo mês nas mãos para pagar as contas da família. E a quantidade de gente que usa qualquer meio para alcançar isso é incalculável. Tem gente que só se irrita com uma criança que nunca quis colocar no mundo. Tem gente que faz qualquer coisa para ser aceita num grupo, ou pela pessoa que ama. Os objetivos das pessoas as levam a caminhos duvidosos, perigosos e criminosos – mas hoje não é dia de falar de Maquiavel.
Eu entendo como um mero servidor público quer me prejudicar porque eu fiz algo que incomodou-o e, por isso, vestido da sua autoridade enquanto ocupante de um cargo público, ele fará de tudo, inclusive abusando de irregularidades e cometendo crimes, para me calar. Eu conheço a maldade humana, eu sei que isso é perfeitamente possível.
Mas, também, penso naqueles que não querem fazer isso, que são boas pessoas, que estão somente defendendo o salário que paga as contas da sua família. Seriam todos eles Eichmanns? Cada um que se abstém de denunciar as irregularidades dos seus colegas, que assina documentos que são legítima prova de perseguição política, também são cúmplices, coautores dos crimes.
Felizmente, através da reflexão e do entendimento que tivemos ao longo da história da humanidade, não cogitamos mais ser a banalidade do mal um argumento plausível em defesa dessas pessoas. Nós não assistimos à The Zone of Interest e conseguimos justificar aquelas pessoas (mesmo com a atuação brilhante de Sandra Hüller) porque, afinal, o jovem casal sonha ter sua casa e um trabalho desde quando eram adolescentes. Não podemos passar por cima de qualquer um e de qualquer coisa para termos o que queremos na vida, é uma regra simples e básica. Talvez, como diria um professor que tive, por isso mesmo tão difícil de entender.
Sobre o filme, não sei de qual lado fico entre os que defendem que ele é uma representação do conceito e os que dizem que não é. Prefiro me ater ao filme no seu ponto de vista tão bem escolhido, na narrativa potente (de imagens e sons), nas atuações brilhantes. Prefiro pensar como é bom fazer cinema que apaixona, que desencadeia debates, que nos leva a ser persona non grata, pelos filmes que produzimos e pelos discursos que proferimos, de certos grupos ideológicos (Glazer não perdeu a oportunidade com o seu discurso de agradecimento, nós não fazemos somente arte nas telas, nós somos seres políticos – já dizia Arendt e a Filosofia desde Aristóteles). Que façam inúmeros berreiros nos palanques e assinem cartas o quanto quiserem, a maldade humana raramente surpreende.
A “solução final”, inclusive, foi buscada através da expertise do Eichmann e de outros porque levar os soldados alemães a cometerem assassinatos frios era caro e estava causando danos mentais neles. Quando os soldados alemães tiveram que assassinar seus amigos de escola, seus vizinhos e professores, com uma bala na nuca de cada um, o problema estava instaurado. Era caro e as tropas ficavam abaladas. Assim, entendemos que as decisões “de gabinete” solucionaram o problema que era praticar um genocídio. Os instrumentos de um crime também pagarão o preço pelos seus atos, seja com um processo e condenação, seja a própria consciência – e há quem acredite que orar o resto da vida pedindo perdão vai resolver.
Quem sabe Deus criou a maldade humana justamente como o maior desafio para a vida feliz.