Livrar-se de um homem ou prendê-lo. Dá quase no mesmo.

Às vezes, é difícil livrar-se de um homem. Às vezes, as mulheres, querendo prendê-los de vez, dizem coisas que os afugentam. Bem, se prestarmos atenção, estas duas situações podem ser definidas nas mesmas frases.

“Acho que estou grávida” (sabe-se lá porque a mente feminina cogita que isso prende homem, mas o efeito é sabidamente o contrário – sim, às vezes eles ficam, mas, minha querida, você será infeliz)

 

“Não estou falando/pensando em casamento. Pelo menos não agora.” (uh, viu, ele já sumiu! rápido e desesperado – com toda razão!)

 

“Você precisa aprender a combinar as roupas, se vestir melhor. Deixa que eu te ensino! Vamos ao shopping!” (putz! dessa até eu sairia correndo, me jogava pela janela, o que fosse!)

 

Tem algumas que nem precisam ser ditas, simplesmente pare na vitrine de uma loja de jóias, bem em frente às alianças, olhe um pouco e entre para ver uma que você achou linda.

 

“Eu gosto tanto da tua mãe! Você não acha, querido, que eu e ela nos damos bem?” (assustador, né? eu acho! mesmo que você esteja dizendo isso só pra forçar a simpatia e nem goste muito da velha, não vai cair bem. Eles querem uma “mãe”: que lave as cuecas, limpe a casa e cozinhe. Mas a mãe deles não é pra estar cheirosa na cama depois de deixar tudo limpo e arrumado! Essa é certeira combinada com a próxima – se ele aguentou voce gostar da tua mãe…)

 

“Você é tão parecido com o teu pai!” (Pense comigo: você tem semelhança com a mãe dele, ele é parecido com o pai… e? Ele vê você e ele como o casal que ele acompanhou a vida inteira: os pais dele. Cuidado que ele pode até cometer uma loucura!)

 

“Lindinho, comprei um multiprocessador!” (aí, morreu – rapazes, vocês não têm idéia de quanta coisa está implicita na compra de um multiprocessador por uma mulher que está namorando!)

 

Mas, é sempre bom saber negociar bem quando surge um “meus pais querem te conhecer” ou “acho que é hora de você conhecer meus pais”, se ela valer a pena – se não, bye bye. Mulheres, no geral, têm fixação doentia por isso. E, sabe, como é, você vai ser sempre o cara que está pegando a filhinha deles.

O audiovisual catarinense agoniza…

Eis que me encontro em dificuldade em começar este post. Será que ele não está “pronto” para as letras? Quem sabe. Pensei nele a partir de algo que já não lembro o que foi, mas foi durante o banho de ontem – banhos sempre me rendem muitos pensamentos – que, aliás, foi um dia excepcional, e eu estava espiritualmente em algum lugar distinto.

Tem o local e o universal, não é? Mas podemos dizer que há algum “local” que também é universal, não? E todo universal é local, então?

O audiovisual e o cinema em Santa Catarina são peças de estudo e crítica frequentes aqui pelo blog. Sei que nem todos os leitores têm interesse nisso. Mas, enfim, se escrevo sobre o meu mundo, escreverei sobre as produções daqui. E, na verdade, não pensei em nenhuma em específico.

Lembro que enquanto eu estava na graduação teve um artigo polêmico de algum colunista que virou duelo com alguns (ou algum) professor sobre o provincianismo da produção no Estado. Alguns devem lembrar quem foi, o que disse, outros podem fazer uma pesquisa aí no Google da vida e vai descobrir do que se trata.

Seria provinciana a produção audiovisual/cinematográfica catarinense? Vejamos…

Algo que me incomoda profundamente é o uso dos editais regionais como meros financiadores de “novas” produtoras “independentes”. Pois é, tem toda a história de prestação de contas, notas fiscais, serviços prestados e etc. que podem ser mais bem “controladas” e viabilizadas com a simples “criação” de uma “produtora”. Eu tenho uma produtora, no papel. Nunca ganhei um centavo de edital nenhum. Bem, primeira constatação: há “produtoras” demais no Estado (vide Fpolis, aliás, vide a Lagoa da Conceição). Se há tantas produtoras “independentes”, onde estão as produções independentes? Deveriam ser em grande quantidade.

Mas, vejam bem, falamos aqui em quantidade, apenas. O que, aliás, não me interessa de forma alguma em nenhuma hipótese. Desprezo essa “numeração” das coisas.

Não é novidade alguma, nem causa espanto mais, nem é segredo que essas produtoras são criadas com intuitos pouco desinteressados. Há tantos casos nos quais ela apenas serve de fachada para que o dinheiro recebido pelo edital (que não é pouco dinheiro, como todos sabem) seja usado na compra de câmeras, lentes, equipamentos em geral e o dinheiro que “sobra” para a produção é bem aquém daquele proposto pelo edital. Reparem nas produções feitas em uma locação apenas, produções que não usam sequer um travelling, que não requerem, de forma geral, gastos extraordinários em produção. Ah, sim, mas temos os atores, os diretores, os assistentes… Procurem fazer pesquisas e perguntas por aí e verão vários exemplos de equipes mínimas, onde o acúmulo de funções é regra.

Bem, chegamos ao ponto onde os recursos não são usados devidamente para a produção (apesar de que nada pode ser provado porque as “produtoras” encobrem todos os pontos suspeitos) e o proponente consegue erguer-se com as verbas que deveriam ser destinadas à qualidade das produções, não apenas à quantidade (não são tantos assim os “vencedores”).

E quando um professor universitário federal ganha um edital desses? E quando a velha guarda do audiovisual catarinense ganha? Sabemos que eles não precisam “erguer-se”, nem abrir a sua “produtora” (posto que eles já têm uma produtora que foi iniciada dessa forma descrita anteriormente)? Sim, a velha guarda fez isso (e muito) e, penso eu, ensinou a nova geração (da qual faço parte) a fazer o mesmo.

Bem, chegamos aqui ao ponto de que é assim que se “faz” audiovisual e cinema em Santa Catarina. A forma é a mesma a muitos e muitos anos, antes mesmo de eu sequer pensar em entrar nessa área.

Alguns dessa velha guarda foram (são?) professores nos cursos de graduação em Cinema/Cinema e Vídeo/Cinema e Produção Audiovisual. Digamos que tiveram “bons” alunos, não é?

E eis que vejo muitos problemas nisso. Mas a situação piora quando somamos a isso o “local e o universal”.

Por que o dinheiro público deve ser usado nessas produções? Bem, eu sei, o problema é histórico no Brasil, não vou dicutir.

Porém, quero discutir o universal e o local em poucas coisas que vi e vejo. Vejam comigo.

Um vídeo sobre inscrições rupestres (tão mais místico do que didático)? Um vídeo de ficção que trate do preconceito?

Todos são válidos? Sim, claro.

Participei, nos últimos anos, de dois trabalhos de amigos muito próximos. Acredito que eu trabalharia nas produções independente do tema ou da abordagem, pois são meus amigos. Independente disso, quero apresentar as qualidades dos dois (pretendo escrever uma crítica para cada um aqui no blog).

Semeadura, de Cleuza Soares, é um documentário sobre cotas para negros, índigenas, estudantes de escolas públicas. Ele é universal, as cotas no Brasil são uma extensão de projetos e discussões dos EUA e outros países. Porém, ele é local, ele aborda personagens aqui da Universidade Federal de Santa Catarina. A discussão, enfim, se embrenha no local e no universal. Como diria Vinícius ou Tom Jobim, na nossa fala sempre esta o nosso quintal. Cleuza conseguiu captar falas emocionantes dos personagens. As falas de dois professores da UFSC, um da Odontologia e uma da Filosofia, e do índigena me deixaram até hoje marcas impressionantes. Tive o prazer de assistir a uma exibição do Semeadura no FAM do ano passado e ficar lá atrás registrando a reação das pessoas. A professora Sônia Felipe deixa todos os espectadores desconfortáveis com a dureza e realidade das suas palavras – o que, aliás, ela conseguia fazer com os alunos em sala de aula. Cleuza viu o universal aqui no nosso quintal e produziu um material de riqueza excepcional com as falas de pessoas com as quais provavelmente muitos de nós cruzam todos os dias.

O outro trabalho foi o Pé na Tábua, do Adenor Gouvêa, que aliás nos deve colocar o material no Youtube da vida. Adenor delira. Delira muito. Acompanhei cada um desses delírios tão de perto que delirei junto. Enfim, delírios à parte, quando li o roteiro e a inteção da direção de arte fiquei muito incomodada. Aquilo ali era universal, mas não era local. As influências, a fotografia, tudo caminhava para a apropiação de um outro “local”, de um “estrangeirismo”, digamos. Eu devo ter falado algo assim pra ele na época. Como a produção não contava com verba nenhuma (como o da Cleuza), Adenor soube aceitar as realidades do “local”. Ali ele soube trazer o estranho para o quintal dele. Mudou locação, mudou quase tudo na arte, mudaram atores, surgiram personagens. O surgimento de um personagem (que na edição final ficou de fora, o que é a grande birra minha com o trabalho) foi inspirado nos políticos brasileiros, no “crime do colarinho branco”, na realidade tão brasileira e que tornou o “universal” tão local. Este personagem foi criado a partir da criatividade do ator escolhido e na época estavamos em eleições. Tudo isso foi criando um roteiro que não mais era um Tarantino numa estrada interminável americana no meio do deserto. E eu digo: faz diferença.

Nenhum deles, como eu disse, ganhou edital nem nada. Não foram, também, “patrocinados” pelas produtoras que “empregam” estagiários e prometem equipamentos maravilhosos para os seus súditos fazerem seus trabalhos na universidade em troca de promessas que seus sonhos e projetos pós-graduação serão realizados. Vejam bem, promessas. Promesas, apenas. Promessas pequenas.

Agora temos o exemplo de um bem-sucedido trabalho de conclusão de graduação do Alex Siqueira. Talvez o mais “rodado” dos trabalhos saídos da UNISUL, já foi exibido em vários países em festivais e ganhou os prêmios de júri e público do FAM deste ano. Não posso comentar aqui porque ainda não assisti nem trabalhei nele, mas pelo “tema” acredito que é mais um exemplo do universal e local.

É disso que precisamos.

Não precisamos de “historinhas simples”.

Diríamos eu e meu amigo Éder, na época da graduação: nem de historinhas de casal! Muito menos de comercial de margarina!

O dinheiro público não pode sustentar isso nem a “criação” (vejam bem, você abre uma produtora, não “cria”) de algo que chamam de produtora que de independente não tem nada! Também sou contra dinheiro público para o local apenas. “sei lá o que da tainha” e “mais contos bruxólicos da Ilha” serão sempre e sempre candidatos desleais nessas disputas. O local com o universal é um casamento difícil, por vezes doloroso, tortuoso e essencial – além de exigir uma criatividade fora do ordinário.

O ordinário, por sinal, é a zona de conforto da velha guarda. O “local” sempre vai garantir isso. Pena é a nova geração ter tido tão “bons” professores.

Felizmente nem todos fomos “bons” alunos.

E o audiovisual/cinema catarinense agoniza em noites frias de um ínsipido FAM e em dias de calor sufocante de uma antropóloga perdida entre bruxas da Costa da Lagoa.

 

 

 

 

A invenção da roda

Ele caminhava lentamente, soprava o ar quente que saía da sua boca e fazia fumaça no ar, do mesmo jeito e com o mesmo encantamento de quando criança, nas manhãs frias ao ir para a escola. Hoje não ia para escola, nem era de manhã, aliás, dali a algumas poucas horas já seria o horário da escola das crianças como ele fora um dia. Era uma madrugada gelada, solitária, silenciosa e ele olhava para a calçada enquanto caminhava. Às vezes seus pensamentos iam longe. Às vezes ele sequer pensava. Fazia tanto tempo e a cidade não mudara em nada. Bem, durante o dia ela tinha mais pessoas e mais carros pelas ruas, mas as pessoas em si e as ruas continuavam exatamente as mesmas. Talvez só as rugas apareçam em vinte anos, uma tecnologia ou outra “revolucione” o mundo de alguns e algum grande atentado tenha ocorrido. Não haviam mais guerras como antigamente, nem superávamos a carroça com carros motorizados. Ninguém, enfim, inventava a roda. Ou a roda hoje, pensava ele, seria a cura do câncer e da AIDS? O que fizera o mundo se perder a ponto de hoje a roda ser uma cura dessas? Longínquos tempos da necessidade da roda. O mundo flutuava. Voava. Ele quisera ser médico, sonhara encontrar a cura do câncer. Até o dia que seu pai morreu de câncer e ele decidiu ser professor. Era mais prático, com maior resultado. Ele não desejava posição social nem dinheiro, queria salvar vidas. Como o mundo não era mais o da época da invenção da roda, salvar vidas era para professores. Ele caminhava pensando, ou não, mas com a idéia fixa no fundo da mente de que não entendia porque estava ali realmente. Algo o impelia a ficar insatisfeito e arisco com a sua presença nessa cidade. Não sentia o motivo real. O ar gelado no rosto sempre fora revigorante para ele. Sempre encarara na boa o frio, com poucos casacos, achava que era frescura se encher de roupas. Quando criança tivera alguns problemas graves de saúde por causa disso e deixara sua mãe desesperada. Ela nunca poderia sofrer uma perda desse tipo. Mas a vida não pergunta nem leva em consideração suas disposições em relação a ela e levara seu pai, por quem a mãe sempre fora muito apaixonada. Essa paixão que deixa os filhos, quando já conscientes, embaraçados diante de tanto amor, desejo e carinho. A morte do pai causara a apatia daquela mulher apaixonada e devotada. Era uma boa candidata à morte por inanição. Ele nunca entendeu o segundo casamento dela. Nunca. Aquela mulher seca e séria que se casou com um estranho não era a sua mãe. E os passos dele na calçada pareciam martelar a pergunta que se encaixava em tantos fatos: por quê? Por que ele viera? Por que ela casou? Por que ele não tinha aprendido a dizer sim? Por que o pai morreu? As idéias e as dúvidas persistiam enquanto tantos pensamentos passeavam aleatoriamente ou enquanto nada lhe passava pela cabeça. Ele reparou no nome da rua na placa, com um medo intermitente de que do nada ele começasse a caminhar para a estrada em direção a sua casa, o medo era real. Ou talvez não fosse para a casa que ele fugiria inconscientemente. Porque ele sentia que não salvava mais vidas. Ele sentia que vendia aulas, prestava serviços, alugava seu conhecimento. Se ele voltasse, exigiriam seus “sins” novamente. Os alunos não queriam se salvar, ele entrava em sala todos os dias e não encontrava nenhuma vida para salvar. As pessoas da sua vida esperavam que ele dissesse “sim” e nada mais, olhavam para ele como se ele tivesse alguma doença rara e ridícula. Era sim para esse, para aquele, para ela, sins que não saíam da sua boca desde que seu pai morrera diante dos seus olhos e sua mão ficou gelada enquanto a do seu pai escorregava lentamente já sem vida. A vida lhe dissera “não” e era com isso que ele respondia a ela. As ruas terminavam e ele começava qualquer outra que estivesse mais próxima. Sentia que andaria até o fim dos seus dias pois não conseguiria parar de andar enquanto não parasse de pensar. E ele pensava, ou quando pensava suas idéias fixas lhe faziam companhia. A mãe não estaria em casa, preocupada, sentada na velha poltrona ao lado da porta. Aquela sua mãe, que fazia isso toda vez que algum filho não estava em casa, não existia mais. Quando ele e o irmãos foram morar fora de casa ficaram todos com a impressão que ela (que abanava, já aflita, do portão quando eles partiam) sempre estava sentada na velha poltrona quando eles voltavam – dias, meses, anos depois – como se ali ela tivesse ficado todo esse tempo. Ela não existia mais. Ninguém mais sentava na velha poltrona, mas ela ficava ali como se fosse prova de que o passado existira. A mãe, às vezes, ficava em pé, ao lado da poltrona, conversando, e não sentava nela. Do nada, seu olhar se desviava e ficava parado contemplando a poltrona, calada. E todos se sentiam embaraçados e angustiados. Ninguém nunca conseguira perguntar porque ela casara novamente. A morte impedia que qualquer “por que” fosse proferido. E dentro dele, a cada passo, os “por quês” ressoavam. Havia a casa da mãe, que lhe telefonara pedindo que ele aparecesse. Havia a rodoviária. Se voltasse havia o “sim” geral. Ele já estava a horas na cidade e não havia passado na casa da mãe, não dera mais sinais de vida. Vida? Havia algum sinal de vida ali? Uma náusea espiritual o impelia para fora da cidade. Seus passos já eram apressados. Ele não sabia mais onde estava. Não saberia chegar na casa da mãe. Claro, se encontrasse alguém ele poderia perguntar. Não, não. Ele detestava perguntas. Mas não sabia dar respostas também. Ele caminhava, o frio aumentara, o rosto gelava, o nariz pingava, os lábios tremiam, a respiração ardia. Ele cruzou os braços para tentar esquentar o peito açoitado pelo vento cortante. O vento. Nunca ventara naquela cidade. Nunca. Coisa de séculos, seu avô contava. De onde esse vento? A cidade, enfim, mudara? Não eram só as rugas que apareciam em vinte anos, então. Não, aquele vento não era normal. Sua mãe telefonar e pedir para ele vir também não. Seus passos eram sábios ao enviá-lo para longe. As bochechas vermelhas, os olhos ardentes. Ele caminhava, caminhava. Corria.

“os mais branquinhos, por favor”

Hoje eu fui ao supermercado.

Passei na padaria para comprar aqueles pães de fibra que só tem lá e dei aquela olhada nos doces.

Pedi 200gr de mini sonho e frisei que queria os mais branquinhos, pois havia muitos queimados espalhados por cima. Aliás, toda vez que peço pão digo isso. “os mais branquinhos, por favor”

Quando me dei conta que o atendente era negro. Aí olhei assustada para os lados. Ele sorrio e concordou que estavam muito queimados hoje. Um homem me olhou sem expressão. Naquele momento fiquei com real temor de ser acusada de alguma coisa, sei lá, racismo?

Sabe, né, hoje o mundo está tão chato, tão chato, que pode acontecer cada coisa.

Enfim, ninguém me condenou verbalmente ali, mas, quem sabe…

Sopro de vida, senhoras na janela e enterros de cachorros

Ontem eu cheguei à Ilha de mais uma viagem. Embarquei no ônibus no terminal do centro e ele seguiu pela Avenida Mauro Ramos.

Não sei se vocês já repararam no Asylo de Mendicidade Irmão Joaquim, pintado de azul, ali quase em frente ao Instituto. Nessa região muita coisa da minha vida já aconteceu. Mas eu sempre prestei atenção no asilo porque morei ali perto logo que vim para a Ilha e caminhava para ir ao supermercado e tal. O que me chamava a atenção era um senhor que sempre estava sentado no ponto de ônibus lendo. Lendo em braile. Não sei o nome dele, sei que ele já apareceu em reportagens na TV. Mas, desde então, toda vez que eu passo ali eu reparo, no asilo e para ver se o senhor está lá, com todas as dificuldades da vida, lendo. Na maioria das vezes ele está.

E, ontem, ele não estava. O ônibus parou no sinal e meu olhar pousou em uma senhora, bem arrumada, com uns colares artesanais muito bonitos, debruçada na janela do asilo. Ela olhava adiante, sentido contrário ao que eu seguia. Fiquei ali, olhar através da vidraça do ônibus, pensando o que se passava por aquela cabeça com aquele olhar perdido no nada. Eu sou acusada, muitas vezes, de ficar com o olhar perdido no nada. E sei tudo o que pode se passar nesses momentos.

Eis que ela começa a movimentar a cabeça. Seu olhar acompanha uma senhora, arrumada, da mesma idade que ela, caminhando pela calçada. Esta não se deu conta da existência da outra. Eu me senti quase invadindo uma intimidade tão peculiar. A senhora, da janela, acompanhou cada passo da outra enquanto ela estava no seu campo de alcance… e o olhar parou no nada, do outro lado, quando perdeu seu foco de atenção.

Não sei dizer o nó que me deu na garganta naquele momento. Estaria eu inventando ou os pensamentos da senhora da janela poderiam ser de raiva, de desejos? Aquela grade do muro dividia a realidade chamada liberdade. A senhora que passava na calçada pode ir ao supermercado, visitar os netos, os filhos, ir ao salão de beleza, ir para a casa dela.

Não sei o que passou pela cabeça da senhora da janela. Pela minha, a contragosto, passaram muitas coisas… talvez nem todas dolorosas. E o sentimento de invadir a intimidade me perseguiu.

E não sei porque, hoje ao assistir um filme lembrei dessa cena. Aliás, ela passa cinematograficamente pela minha cabeça. Porém, nenhuma ficção seria tão perfeita.

“Você parece ainda ter algum sopro de vida no seu olhar” (diz a moça ao sogro que acaba de lhe contar os horrores da Primeira Guerra Mundial na qual ele lutou nas sanguinárias e famosas trincheiras)

“Sim, tenho. Mas não para enterros de cachorros nem lanternas chinesas.” (lhe responde o sogro)

Esse sopro de vida citado no diálogo do filme me lembrou o ohar da senhora da janela.

12 coisas para pensar antes de sair da cama todos os dias

Detesto listas. Mas gosto delas.

Só não tenho mesmo jeito em colocar a ordem na lista. Isso é sempre ficção.

Quando acordo, todos os dias, eu penso em uma dúzia de coisas, sem as quais não me permito sair da minha cama de casal quentinha e confortável:

1. Sonho acordada uma coisa linda e maravilhosa que poderia me acontecer (dentre as maiores loucuras).

Logo em seguida eu me obrigo a lembrar que nada – nada – do que vai me acontecer depois que eu sair da cama será tão bom quanto aquilo que eu ali deitada sonho acordada. 2. Só para lembrar que o sonho sempre superará a realidade.

Pois a realidade é feita de certas coisas: 3. O Collor é Senador da República do Brasil, eleito pelo voto POPULAR, mesmo depois do impeachment e da renúncia. É o tipo de coisa que todos deveríamos lembrar. 4. A maldade humana é imensurável, está em todos os lugares à espreita, sempre esperando que eu baixe a guarda e mesmo quando eu não baixo. 5. Sentimento não tem nada, absolutamente nada, a ver com sangue, laços familiares, nem nada.

Mas que mesmo nessa realidade 6. existem pessoas que me amam e que fariam muito por mim, 7. apesar de que não posso contar com isso e que elas mesmas podem me trair.

8. Não confio em ninguém, e fracassar em mudar isso não é um problema.

Aí o desânimo em sair da cama começa a contaminar e 9. eu decreto que vou fazer valer cada segundo, pois ainda é melhor estar vivo do que não estar. Lembro que a minha especialidade em 10. dar um fim no que me faz mal ou cortar o mal pela raiz me ajudará a voltar para a cama mais leve. Sorrindo 11. sei que há uns anjos lá no céu dos quais eu sinto saudade e que estarão sempre comigo.

E, por fim, ao pôr os pés no chão um suspiro me liberta para pensar que 12. hoje eu me dou a chance de fazer uma loucura, seja ela qual for, caso o momento oportuno se apresente!

Parábola – Funcionário Padrão

Exigir que namorado/amante/caso/rolo/ficante/noivo, enfim, todas essas denominações de vocês, compareça diariamente – seja pelo mundo virtual, telefônico, pessoalmente, etc. – é fazer dele um funcionário, um empregado, a bater cartão todo dia, como numa empresa.

 

 

Você vai ter que, então, assinar a carteira, pagar salário, dar todos os descontos exigidos. Ele vai ter que cumprir metas, cumprir horário, não dormir em serviço, mostrar resultados, vai ter direito a férias remuneradas, a faltas justificadas (mediante apresentação de atestados médicos). E, claro, vai receber um salário.

 

Funcionário padrão.

 

No fim, seja para pedir demissão ou para demitir, dá um trabalho danado, custa caro e alguém sempre sai prejudicado e insatisfeito – quando não os dois.

 

Dinheiro traz felicidade

O dinheiro me trouxe todas as alegrias que as pessoas não me proporcionaram. Mas ele não me aproximou de ninguém. Fariam alegrias sem fim comigo e meu dinheiro. Fiquei só, só ali com ele. Ele em profusão, chegava sempre mais. Sem muito esforço depois de um tempo, confesso. E com ele as alegrias. Aquele carro tão confortável que eu cobiçava. Um anel de safira. A casa nova tão sonhada. Até os sonhos tornavam-se realidade com ele! Era uma lâmpada mágica! Eu desejava, trabalhava um pouco e lá estava. Ele se reproduzia rapidamente. Diria até que dava em árvore, lembrando meu pai quando eu era criança “acha que dinheiro dá em árvore?” em resposta ao brinquedo pedido. Sim, meu pai, é como se desse em árvore. Em profusão. Uma jabuticabeira como a do nosso jardim. Eu me sentia feliz, comia tudo o que queria, todo dia. Não tinha um desejo que eu não satisfizesse. Frutas importadas, bebidas exóticas, tudo, tudo. Sim, com o dinheiro não vieram pessoas, mas alguns quilos. E eu tinha tudo. Os quilos trouxeram doenças, ele me deu saúde. Viajei o mundo. Tirava fotos com as câmeras de última geração. Tinha todos os equipamentos para onde quer que eu fosse, de mergulho, escalada, esqui. Conheci os lugares mais caros e os mais vagabundos. Publicava mil fotos por semana na internet, para os mil amigos que eu tinha. Ninguém via. Ninguém aparecia nelas comigo. Tinha cartões de todas as bandeiras, viajei nas melhores empresas aéreas. Conheci celebridades. Fui em muitas festas. Muitos shows, muitas noitadas em bares da moda. Eu era feliz porque podia aproveitar a vida, todo o meu tempo, desfrutando do que o dinheiro me trazia. E eu ia sempre sozinho. Pessoas nunca poderiam me dar tudo isso. Só estariam ali para me dar um abraço e um beijo no dia do aniversário, coisa que nem minha mãe mais fazia. Pessoas só estariam nas fotos para estragar as paisagens. Eu tinha celular super moderno. Eu era invejado. As pessoas queriam o que eu tinha. E elas, juntas entre elas, eu desprezava porque não poderiam ter o que ele me dava. E ele sempre aparecia multiplicado em várias e várias vezes. Eu corria marcar uma nova viagem, ia fazer trekking, colocava minhas roupas de marca e ia correr à beira-mar. Só ele me dava tantas alegrias. Ele me fazia feliz. Como as pessoas – que nunca poderiam me proporcionar o mesmo que ele – andavam à pé, sorrindo, abraçados, se beijando, sem terem o que eu tinha, e eram felizes?! Eles não sabiam o que é ser feliz. Eu via, à noite, pela janela da minha casa cara, no meu robe caríssimo, as pessoas passeando pela praia. Algumas andavam de ônibus, mal vestidas, comiam sanduíches feitos em casa. Elas não tinham o que eu tinha. Mas andavam sempre acompanhadas. Não percebiam que talvez fosse esse o segredo. Seria esse o segredo? Não sei. Só sei que ele me dava tudo o que eu queria, os aluguéis de carros possantes para viver a adrenalina da velocidade, o tempo para conhecer trilhos de trem esquecidos. Ele me fazia feliz. E ninguém me daria isso. Nem aparecia nas fotos. Nas milhares e milhares de fotos.

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