Je dire au revoir !

Je dire au revoir !

C’est le dernier moment

après la bataille contre le fascisme

et la injustice

avant tous les luttes du pouvoir

Je dire au revoir !

Comment a dit l’homme saint :

les pieds aux sol

les mains aux travail

les yeux au ciel

Je te dire au revoir !

J’oublierai

les baisers que je ne t’ai jamais donnés

Maintenant, j’ai seulement l’avenir

Je dire au revoir !

aux ennemis au cœur amer

qui se cachent

je ne suis pas seul non plus

Joie , joie ! Joyeux Noël !

Je dire au revoir !

La vie c’est le qui ont trouve au cœur

L’espoir et la justice se retrouve sur la joie !

Je dire, je crie, je susurre « au revoir »!

Fazer cinema é um ato de coragem

Fazer cinema é um ato de coragem. De fato, para produzir cinema, ainda mais no Brasil, é preciso coragem. Em 2023 eu ouvi várias vezes sobre como fui corajosa, ao relatar e enfrentar os ataques que sofri. Ao acompanhar o Congresso Brasileiro de Cinema, pela internet, ouvi alguém (não me recordo quem) dizer que é preciso coragem para fazer cinema no Brasil. E esta é minha última reflexão do ano.

Não é só preciso coragem no momento de decidir pela profissão de trabalhar no audiovisual. É preciso coragem em cada momento, em todas as demais etapas que se seguirão. Porém, ressalto que é preciso coragem para fazer cinema com o coração. O cinema brasileiro independente não tem final feliz – isso é lá para Hollywood e sua indústria. 

Quando vejo esses projetos e filmes com tanto final feliz, ignorando deliberadamente que somos um país racista, misógino, LGBTfóbico, machista, elitista, eu percebo o quanto de coragem faltou aos seus realizadores. Encher as nossas telas de finais felizes e adocicar a realidade é um golpe nas nossas vidas. Enquanto o cinema produzido por quem quer alavancar sua própria carreira, por quem (muitas vezes) só quer acesso às verbas, por quem quer fazer um filme para “ganhar prêmio em festival” for dominante, a coragem passou longe. Ainda mais de pessoas e sobre histórias com personagens que, na vida real, são as grandes vítimas de um sistema que oprime, violenta e mata. Para ser fiel aos sentimentos e às vítimas, não existe a possibilidade de final feliz.

Produzir o Gritos do Sul foi, sim, um ato de coragem. Denunciar tudo o que aconteceu (e ainda acontece) é um ato de coragem. Porque eu sei que não fui nem serei a única a passar por essa perseguição. Toda a perseguição política e misógina deve ser denunciada para que os demais saibam se defender também.

Atualmente, é preciso muita coragem para trabalhar com cultura, para não ser aquele ou aquela que produz brilho e purpurina, que respalda as narrativas dominantes, que põe sorriso na cara de personagem que está estraçalhado por dentro. Porque temos uma situação na qual o acesso às políticas públicas passa por tantos obstáculos que o valor artístico do projeto importa quase nada diante das mil etapas burocráticas e sociais que ele precisa cumprir. Você é trabalhador da cultura, vai produzir um filme, você não pode ser co-responsabilizado pela falta de acesso aos bens culturais, culpa de décadas de descaso do poder público. Os projetos culturais tornam-se peças legítimas de ficção, em outro sentido, pois disseminam ilusões – como dizem, o papel aceita tudo. Mas, o objetivo é conquistar a verba – não importa quantas mentiras sejam ditas nas inscrições.

Sabemos que em outubro do ano passado uma batalha foi conquistada, e isso trouxe o início da reconstrução. Porém, nada está ganho. Não só a nível federal, mas estadual e municipal, em Santa Catarina principalmente, a batalha é diária. Como eu disse em audiência pública na Câmara de Vereadores esse ano, não há como evitar: Joinville e Santa Catarina pertencem ao Brasil e devem respeitar o que se faz e legisla a nível federal. Prefeitos, vereadores, deputados e governadores podem mirar a Cultura como inimiga: seus gritos não podem ser ouvidos nem perpetrados em ações que vão de encontro ao que está instituído nacionalmente.

Ressalto que dentro do próprio setor da Cultura, e em especial do Audiovisual, há a reprodução da nossa sociedade: machismo, misoginia, racismo, LGBTfobia, elitismo. O que eu passei esse ano foi agravado por isso, pela misoginia e pelo machismo que alguns que se dizem profissionais do Audiovisual perpetuaram. Desde que comecei a atuar no Audiovisual em Joinville o machismo e a misoginia é flagrante, além da presença de homens que têm histórico de violência contra a mulher no nosso meio, em Joinville e em Santa Catarina, no Setor Audiovisual. 

Para quem disse que eu fui corajosa: vocês não sabem da missa a metade! Tive, tenho e continuarei tendo coragem para lutar contra essa gente, dentro e fora do setor. Vou continuar realizando filmes que, sem finais felizes, coloquem o dedo na ferida de uma sociedade doente e criminosa. Pra quem achou que eu estava derrotada, fica o recado. É preciso coragem para produzir cinema, cinema com o coração, com vontade, com tesão e com voz. Para os covardes eu deixo os finais felizes, o que é “esteticamente bonito”, a tentativa de roubar o lugar de fala das minorias (o que teve de homem fazendo filme sobre violência contra a mulher nos últimos anos na região!), a purpurina e as cenas coreografadas. Ah, para os covardes resta o fascismo também, que eles admiram (secretamente ou não) e que reproduzem nos seus discursos.

Além de realizar filmes, permaneço atuante publicamente. Foi uma decisão muito difícil de tomar, mas que conta com o apoio de muitas pessoas. Eu não estou sozinha. Como dizem, é nas horas difíceis que a gente reconhece quem é quem. Eu sei muito bem quem esteve ao meu lado na trincheira e quem jogou bombas, inclusive enquanto dizia que estava ao meu lado. Sei cada pessoa que se omitiu. Sei bem quem só se aproxima de mim quando acha que vai ter lucro. Sei bem quem tentou me usar e ao meu conhecimento. A cada um, o que lhe cabe. 2023 não acabará em 31 de dezembro de 2023, porque os nossos atos têm consequências.

Por tudo isso e mais um pouco, não me admira que a Prefeitura de Joinville não tenha sequer lançado os editais do SIMDEC 2023. Falta menos de 15 dias para encerrarmos o ano! Vejam se tem alguém cobrando, se o setor cultura está unido fazendo pressão nas redes sociais, se o Conselho Municipal de Políticas Culturais se manifestou! NADA. Nem na última década vimos um descaso e falta total de compromisso com o setor cultural como em 2023, quando os editais de 2022 não foram pagos e os de 2023 sequer foram lançados.

Semanas atrás fui convidada da rádio CBN Diário de Joinville para falar sobre o atraso no pagamento do Edital SIMDEC 2022. Relatei que 4 milhões para o Natal a Secretaria de Cultura e Turismo tinha, mas para pagar o resultado homologado em setembro, nada. Aí uma repórter do jornal O Município me procurou e começou um levantamento sobre os projetos. Na reunião do Conselho o secretário me respondeu dizendo que seriam pagos até a outra semana. A repórter do O Município não respondeu mais se a reportagem seria publicada. Um outro repórter perguntou à prefeitura e me repassou que, dos 57 projetos aprovados, 46 haviam sido pagos (dados de 11/12/2023) e seis estavam em tramitação. Os projetos que têm a minha participação sequer receberam o Termo de Compromisso Cultural para assinar. Agora, deixo para vocês julgarem se ser corajosa e expor toda essa podridão tem alguma vantagem. Assim entendemos bem todos os meus colegas do setor cultural que se mantém em silêncio: pelo menos estão com o dinheiro em conta para realizar os projetos, não?

A luta é coletiva. Se não fosse eu dar a cara a tapa e correr atrás da publicização do atraso no pagamento do edital, ninguém teria recebido. Podem me agradecer, colegas. Agora, sou eu que, exposta, pago por isso. Cada pessoa que eu contratar para os projetos, lembre bem da luta que é realizá-los. Do quanto a gente precisa dar a cara, cobrar, lutar, contratar advogado, denunciar na imprensa (quando o poder não consegue calá-la). Vejo tanta gente que é só ativista de rede social, mas nessas horas nem esses lutam! Poxa, às vezes é só compartilhar um post, né? Se fosse sobre algo acontecendo lá do outro lado do mundo, vocês correriam compartilhar, eu sei.

É preciso muita coragem e, por vezes, é sozinha mesmo que a gente precisa lutar. Quando a gente ganha a batalha, as pessoas se aproximam. Agora, se vocês acham que essa luta não é de vocês… quando a água bater na bunda, podem me procurar.

Não me falta coragem para ter minha voz ouvida. E faço isso muito para que outros se sintam incentivados a ter coragem. Não sou a diva da discórdia, não sou puxa saco, não sou diplomática nem covarde. Há algo no senso de Justiça que me atrai profundamente. Se mais perseguição e retaliação vier, é a Justiça que vai se encarregar.

Por um 2024 de muita coragem para produzir cinema, mais e melhor.

Passagem de Volta – o conto

Sentou-se e admitiu em silêncio: estava cansado. Mais uma semana de trabalho naquele ritmo e ele desejaria três meses de férias. Alguma praia tranquila, água transparente, os doloridos pés sem sapatos enterrando os dedos na areia fina. Aí lembrou, a esposa detestava praia. Férias era sinônimo de viajar para a casa dos pais dela no interior. Há sete anos ele não tirava férias, dos dez de casado.

Pediu um café forte e simples e espantou-se com o preço. Além da passagem cara, por ter sido em cima da hora, agora esse assalto no café. Três noites sem dormir para resolver aquele negócio e ainda essa viagem e o irritante atraso no voo. Em algumas horas teria que estar de volta.

Chamada após chamada e nada do voo dele ser anunciado, sequer uma explicação estapafúrdia sobre o atraso. Seu pessimismo sussurrava que o voo seria cancelado. Foi até o balcão apinhado de pessoas indignadas para ser só mais um a reclamar – como se os funcionários já não soubessem que todos ali estavam injuriados, tinham conexão, reuniões, tudo muito importante. Ouviu uma moça da companhia aérea explicar que havia um avião com problemas na pista, o que atrasava todos os outros. Rodou mais um pouco pelo aeroporto, a fome, que seria saciada com o lanche do avião, se fazia sentir. E finalmente chamaram para o embarque.

Foi um rebuliço. Enquanto todos lamentavam o atraso e criticavam a empresa, ele sentou, retirou uns papéis da pasta e começou a fazer anotações. Tão logo deu uma olhada para a cidade vista lá de cima, cochilou. Era uma pena que as viagens de avião encurtassem o trajeto mas não prolongassem o tempo, pois ele dormiu muito bem.

Saiu correndo em direção ao metrô. Tantas vezes estivera ali que agia maquinalmente, era só mais um dia de trabalho com uma infinidade de problemas para resolver. Seguiu a procissão, cartórios, advogados, contadores, registros, documentos e mais documentos. Cinco horas depois deslizou na cadeira de uma lanchonete e pediu o sanduíche de pernil de sempre. Devorou-o enquanto revia os documentos. Só faltava um último registro num cartório imobiliário mais para o centro, perto do hotel. O hotel. Ah, suspirou! Sonhava tirar aquele sapato. Tomou um copo de suco de laranja em um único longo gole, passou o guardanapo nos lábios, pagou e saiu.

O hotel não tinha nada de especial, só era bem localizado. Havia demorado mais do que ele imaginara, pois os trens do metrô estavam em pane. Pegou a chave sem sorrir para a recepcionista, entrou no elevador, escorou-se no espelho da parede interna e subiu.

Abriu a porta do quarto e tirou os sapatos antes mesmo de fechar a porta. Jogou-os para o lado, afrouxou a gravata, tirou toda a roupa e tomou um banho quente. De pijama, sentou na cama com o computador no colo. Precisava ler uns e-mails do escritório para adiantar o trabalho de amanhã e fazer o check-in do voo de volta.

Começou a suar. Não era possível. Estava igual aos seus companheiros de voo, excomungando a companhia aérea e maldizendo “com essa nunca mais”. Tentou, pela milésima vez, fazer o check-in. E nada. Não tinha guardado o comprovante do embarque da ida. E o sistema acusava que ele não tinha embarcado. Revirou sua caixa de entrada do e-mail e lá estava: seu bilhete fora cancelado porque não houve embarque no voo determinado, portanto a volta também não existia. Como voltar de um lugar para onde ele não tinha ido?

Levantou, deu uma dúzia de voltas pelo quarto coçando a cabeça. Tentava encarar a situação com alguma lógica. A companhia não havia registrado seu embarque, o bilhete não existia mais para prová-lo, somente, talvez, as câmeras do aeroporto o vissem entrando no finger. Mas as câmeras do aeroporto do destino talvez também o tivessem registrado. No mais, era uma pessoa desaparecida. E isso cresceu mais nos seus pensamentos do que o fato de que não tinha passagem para voltar para casa – teria que travar uma briga estúpida com o sistema e os funcionários da companhia aérea, pagar taxas e mais taxas ou simplesmente pagar (mais) um absurdo por uma passagem de volta.

Ele sumira, aos olhos do sistema. Se ele não desse as caras amanhã em casa nem no escritório, ele estaria desaparecido. E ao investigar, a polícia se depararia com o registro do sistema: ele não embarcou, senhor. Se ele não havia embarcado, não havia chegado ao destino. Ou seja, teria desaparecido no aeroporto de origem – na cidade onde morava. E as investigações nem chegariam até a cidade onde ele estava. Aliás, nem a ficha do hotel ele tinha preenchido ainda, pois estava muito cansado e pediu para fazer isso depois – e os funcionários do hotel eram muito relapsos e sempre mudavam. Não seria fácil identificá-lo. Ele poderia sumir sem nem pagar, jamais saberiam que ele estivera lá. Isso se a investigação chegasse até o hotel.

Pensou na esposa. Ficaria em choque. Pensaria em assalto, que ele teria reagido e fora assassinado – ela sempre se preocupara com isso. Dias depois ela já teria certeza que ele havia se envolvido em algum esquema grande de corrupção – ela desconfiava dele, sempre, porque não via que o dinheiro vinha dos intermináveis dias de trabalho e não de negócios escusos. Ela o acusaria para a mãe dele. E talvez as duas acabassem concordando que fora, afinal, assassinado por ter se envolvido com a mulher de alguém.

Uma euforia tomou conta dele. Ele não existia mais. O fardo da existência havia sido retirado das suas costas. Sentia vontade de beijar a companhia aérea, abraçar seus aviões, seus pilotos, suas funcionárias simpáticas e prestativas. Ele não era mais ele mesmo – poderia, então, ser quem ele quisesse. Poderia inventar-se a si mesmo. Mas queria aproveitar este momento de não ser, absolutamente, ninguém. Não. Melhor. Ele não era “ninguém”. Ele simplesmente não existia. Mas, para isso, precisava cuidar dos vestígios.

Decidiu destruir o computador e sair do hotel na calada da noite. Arrumou a mochila, colocou a roupa. Estava pronto. Pegou o elevador e ninguém diria que aquele homem alto, peito inflado, sorriso escancarado era o mesmo que aquela coisa murcha que havia subido, horas antes, apoiando-se em tudo para não cair no chão. Desceu do elevador e aguardou atrás do pilar até ter certeza que o porteiro noturno dormia com seu fone de ouvido. Saiu em silêncio e ganhou a rua como se tivesse matado um leão. Era um ato heroico.

Já tinha tudo planejado. Possuía uma conta bancária que ninguém conhecia. Era onde ele guardava o dinheiro do sonho de construir um barco quando se aposentasse. Aquele homem que entrara no hotel estava anos-luz de se aposentar, mas com o dinheiro da conta já era possível construir uns dez barcos. Agora, aquele homem que caminhava lépido não tinha trabalho do qual se aposentar. Levaria alguns dias para retirar todo o dinheiro da conta, mas o faria. Ele nunca fora adepto de cartões, sempre usara dinheiro vivo – mais um dado que impediria que ele fosse rastreado e que faria sua esposa insistir na tese do assalto.

Tinha tudo pela frente: a vida, a madrugada, a escolher um destino. Pensou na praia. Em menos de duas horas chegaria até a mais próxima. Pegou um táxi e falou bem alto, com todas as letras “Vamos à praia, meu senhor”. O motorista temia mais um louco na madrugada. Combinaram o pagamento antes e seguiram.

Ao chegar, tirou os sapatos e as meias e deixou-os junto à mochila na calçada vazia, arrebentou a carcaça do computador e jogou-o numa lixeira. Correu dando saltos desajeitados até enfiar com gosto os pés na água gelada. Imaginou-se dono de um bar em qualquer praia quente do país. Viveria entregue à delícia de ouvir, dia e noite, as ondas quebrando na praia. A decisão estava tomada. Não almejava nada mais. Não queria ser ninguém. Inventaria algum nome fora de suspeita, nunca mais usaria sapatos, nem gravatas, nem no casamento da filha.

Começou a chorar. A filha, ela adoraria estar ali aos seus pés brincando na areia, enchendo o balde com a água do mar. Teria que saber viver sem ela, como, aliás, vivia todos os dias, assoberbado de trabalho – daria no mesmo. Mas não daria o infalível beijo de boa noite. Não contaria histórias mirabolantes sobre animais fantásticos nas noites de sábado insinuando-se para que ela fizesse o convite: pai, vamos dormir no sofá? Era pouco. Muito pouco. E já sentia que este pouco lhe faria muita falta.

Viu o sol nascer. E guardaria para todo o sempre aquele momento. Dele lembraria quando estivesse internado, aos sessenta e quatro anos, sem aposentar-se, trabalhando dezoito horas por dia, com a poupança para o barco com dinheiro para construir uma frota, depois de um infarto fulminante que levaria sua vida após dez agonizantes horas entubado e sobrevivendo por aparelhos.

Caminhou descalço pela orla até encontrar um táxi. Era o mesmo que o trouxera. Seguiram em silêncio até o aeroporto da outra cidade. Ele pagou em dinheiro, o que tinha retirado pra viagem, pois nem havia tocado na poupança do barco. Entrou no aeroporto com seu ar-condicionado gelado. Arcado, parecia ter dez centímetros a menos. Olheiras. A mochila numa mão, os sapatos na outra. Aproximou-se do balcão da companhia aérea, colocou os sapatos no tampo, tirou a carteira. “Oi, eu preciso embarcar. Mas eu não existo pra vocês. Vê aí o que a senhorita pode fazer” e a atendente, tão acostumada às bizarrices dos passageiros aéreos, deu um passo temeroso para trás. “S i i m, senhor”.

Ele não existia, é claro, porque ele não embarcara, o senhor pode ver aqui, temos a lista de passageiros, se o senhor conseguisse provar a sua existência, quer dizer, o seu embarque, tudo estaria resolvido. Tinham um voo para dali uma hora, lotado, é claro, o senhor entende. Não conseguiriam resolver o não-embarque, então, veja, o senhor pode solicitar o estorno posterior desta passagem. E agora só dali seis horas, um voo não direto, veja bem, com escala de duas horas numa outra cidade mais ao norte. Resolveria o seu problema, não é mesmo? O valor era alto, é claro, mas o senhor entende, restam poucos lugares. Mas teria a certeza de embarcar hoje, com menos contratempos, não é mesmo?

Ele ouvia. Só movimentava a cabeça. Tirou o dinheiro do bolso, jogou no balcão. Seis horas naquele aeroporto, mais uma hora e meia de trajeto, mais duas horas de conexão, mais uma hora de trajeto. E aí estaria de volta. Com um último suspiro de quem não existia, tomou a decisão que enfrentaria o que fosse, não importava, desde que sem os sapatos e apreciando a sensação da areia ainda entre os dedos. Ninguém o obrigaria a viajar com sapatos.

Virou as costas, caminhou a esmo. Sentou-se na cadeira e pediu um café. O dobro do preço do café da ida. Pagou e tomou-o bem devagar.

(Conto original que foi adaptado para roteiro e foi produzido, agora disponível online em: https://youtu.be/HDow-fMA5xA)

Não deixem o agressor comprar seu pão francês em paz

De certa forma, vivi um alívio quando soube que o macho lá se viu constrangido (porque é só isso mesmo) ao comprar pão francês. Há anos eu digo que a situação da mulher na sociedade só vai mudar mesmo, na prática do dia a dia, quando vocês, homens, interpelarem os seus colegas machos sobre as violências que eles praticam.

No Gritos do Sul tem uma cena que foi muito difícil de escrever: a discussão do casal à noite, pouco antes de tudo desandar de vez. Há quem não veja nada ali (nem nos demais diálogos do casal), e isso é um sintoma muito claro de como encaramos as violências contra a mulher. 

Na última exibição eu estava sentada no meio das pessoas e uma senhora, ao ver aquela cena, exclamou um sonoro “misericórdia!” quando o personagem Eduardo joga a cadeira no chão. A tensão da cena (sou suspeita para falar, mas muito bem vivida pela Ianca e pelo André) me causou mal estar quando a escrevi e todas as vezes que a revisei – ao filmá-la não foi diferente. Ao assisti-la, cada vez, ela me toca fundo.

Sim, o Gritos do Sul é um filme antifascista e tal. Mas, poucas pessoas falam da construção dos personagens e da questão da violência contra a mulher presentes no filme, questão primordial pra mim. Não só por ser mulher, por ser roteirista e diretora mulher, mas por ser mulher que já passou por violência (como todas nós) e que aborda este tema na atuação profissional. Esta consciência e atuação, porém, não impedem que eu continue sendo vítima.

Ultimamente, algumas reflexões fizeram eu me perguntar: se eu não fosse mulher, o Gritos do Sul teria sido atacado como foi? Por que nós, mulheres no exercício da profissão, incomodamos tanto os machos de plantão? Qual o medo que os homens têm de nós? 

Não trago respostas. 

Quando pessoas públicas, homens, que deveriam trabalhar pelo bem comum (esta é a base da Política) usam seu tempo e recursos públicos para perseguir e atacar uma mulher trabalhadora da cultura, acredito que temos que enxergar a violência que existe e, sim, é uma forma da violência de gênero. Não houve evidências de preocupação real com o bem comum, nada que não fosse mera vontade individual de usar da sua posição de poder para agredir, moral e profissionalmente, uma mulher. 

Curioso foi ver, na sequência, homens do setor Audiovisual local também com essa sanha de me agredir, difamando e caluniando. Nenhuma surpresa que todos eram… homens. Eu me pergunto qual o sentimento que faz com que esses homens gastem tempo (ainda o considero o bem mais precioso que temos, meus leitores assíduos sabem disso) fazendo – literalmente – uma campanha contra mim (pessoal e profissional), inclusive fazendo questão de telefonar para as pessoas me difamando. Querem me atingir, de qualquer forma. O desespero por tentar me atacar é medonho, ultrapassa qualquer limite do bom senso (e ganha na vergonha alheia). 

Tentar atacar uma mulher no exercício da sua profissão é violência de gênero, agravada quando os agressores são seus colegas de profissão.

Mas, como relatei aqui, não faz muito tempo, os homens têm usado minha profissão para tentar me agredir nos últimos anos. O efeito tem sido contrário. Tanto homens da esfera pública quanto privada, e não tenho desculpas para nenhum deles.

Meu último relacionamento terminou em boletim de ocorrência. Esta é a primeira vez que falo disso publicamente e não entrarei em detalhes porque a situação não se acalmou aqui dentro. Contudo, quando eu soube do pobre coitado que só queria comprar seu pão francês em paz, eu lembrei do sentimento que eu tive ao passar pelo processo de solicitar, pela primeira vez na vida, a medida protetiva amparada pela Lei Maria da Penha. Eu queria contar pra todo mundo, eu queria dizer “aquele ali, sabe?”. Eu não consegui. Até hoje, pessoas do meu pequeno círculo apenas sabem um pouco do que aconteceu, a maioria não faz ideia. 

A Fahya é forte, é foda, segura a barra, e isso e aquilo. Agora também tenho ouvido bastante “a Fahya é corajosa”. 2023 veio só com provas de fogo pra Fahya e posso dizer que a frase que eu mais falei foi: eu tenho meus limites. Sim, ser forte não significa aguentar tudo, não. Ser forte é também ter seus limites, eu tenho os meus e conheci alguns deles esse ano. A viciada em trabalho colocou até limites e se deu férias!

Fazer o boletim de ocorrência por violência doméstica e solicitar a medida protetiva me mostrou um desses limites. Por lei eu já poderia ter solicitado em outros casos, todos eles relacionados ao fim de relacionamento que “ele não quis aceitar” (sério, essa expressão me dá revolta, o macho não tem o que “aceitar” no fim de um relacionamento; muito menos a imprensa achar que isso é MOTIVO para matar). Cada tentativa de comunicação indesejada, cada número de telefone trocado, cada bloqueio nas redes sociais, cada mensagem recebida, cada perseguição é violência doméstica. Além dos assédios, inclusive no exercício da profissão que me fizeram calar. Eu já passei por isso mais de uma vez. E a gente acha que é “sempre assim”, e aí um dia a realidade mostra que pode ser ainda pior.

O penúltimo machão usou até a minha família para manter, na cabeça dele, um vínculo que fazia mais de ano que não existia! Não há tratamento para esses casos. Enquanto a sociedade não repudiar com ações esses criminosos, nada vai mudar, tenho certeza. “Ah, mas você defende um linchamento social?” Não. Só defendo que eu e mais nenhuma outra mulher viva o que eu já vivi. 

Eu gosto da solidariedade seletiva das pessoas, sabe. Aprendi bastante sobre isso em 2023. Hoje os pensamentos são só sobre esses três tipos de homens que eu citei acima, homens públicos com poder, colegas de profissão e os homens da esfera privada e como todos agem no mesmo nível de violência contra a mulher. Quando é uma famosa da TV é mais fácil o público se solidarizar, enquanto que quando é uma mulher que você conhece e convive pessoalmente, você evita sequer falar sobre o assunto – quem dirá prestar a sua solidariedade.

Aliás, esse é um ponto importante. É legal, sim, prestar solidariedade (no privado ao enviar uma simples mensagem, convidar pra uma conversa e tal; e também publicamente, sabe? faz toda diferença para as vítimas). Porém, solidariedade não basta. É preciso agir, confrontar esses machos agressores. É preciso combatê-los e envergonhá-los publicamente. Por isso eu gostei tanto da história do coitadinho e seu pão francês.

Eu não faço isso só por mim (faz um tempo que entendi que lutar contra a discriminação e violência de gênero não é só por mim), eu faço por cada uma de nós que já passou, passa ou vai passar por situações de violência. Porque a gente não sabe muito bem o que fazer, sabe? A gente entra em desespero, a gente perde o chão, a gente se machuca. 

Quando eu decidi tomar uma atitude contra o que estavam fazendo comigo e com o Gritos do Sul, eu não sabia o que fazer. Busquei outras pessoas, conversei, ouvi bastante. E com tudo o que eu fiz e ainda vou fazer eu quero deixar como exemplo para as próximas de nós que passarem pelo que eu passei. Quanto aos colegas, nem me preocupo porque deve ser um sentimento muito ruim o que os leva a tomar essas atitudes e eu espero que eles consigam superar o que os persegue. Só acho triste a vergonha pública à qual eles mesmos se expõem – essas atitudes falam muito sobre eles, não sobre mim. 

Na questão privada eu quis contar para as pessoas, não o que tinha acontecido porque não quero falar disso, mas que há a medida protetiva. Porque esse foi mais um que, sem surpresa nenhuma pra mim, usou o meu trabalho para tentar me atingir – e fingir que nada aconteceu com pessoas do meu círculo pessoal e profissional. É assim baixo que um machão desses pode ser. Abram o olho.

Por tudo isso e mais um pouco que a cena da briga da Maíra e do Eduardo me pega tão fundo. Porque esses machos são muitos maridos, namorados, pais, irmãos e estão por aí, agredindo de inúmeras formas todas nós, todos os dias. E quem não pede misericórdia ao assistir à cena é porque já assimilou isso – ou prefere ignorar. Não podemos ignorar nenhum tipo de violência. Nenhum, muito menos a de gênero.

A Fahya é forte, corajosa, taí sempre de pé, feliz (isso deve incomodar demais, né, não sei o motivo), não se deixa abater, sempre encontra um caminho. Só que ela também descobriu que tem seus limites.

Poeminha aos histéricos

Aos ataques de pelanca

e aos gritos histéricos:

respondo com um poeminha

Uma mulher

permanece em pé

conhece e tem fé

na verdade

À difamação da boca pequena

resistem as conversas francas

a sinceridade, a fama

Queriam a Amélia:

que lava, passa, cozinha e limpa

carinhosa e submissa

Porque mulher incomoda

além de serviço da casa

estuda, trabalha e é bem sucedida

Por que mulher incomoda?

homens frustrados

seus egos e fracassos

cêis tão fora de moda!

Aos corajosos, o bom humor

Esses dias me deparei com um desses posts de rede social que citava Voltaire, dizia algo como “A decisão mais corajosa que você pode tomar a cada dia é de estar de bom humor” (tradução livre do francês). Na hora lembrei de mamãe que sempre reclamou (com razão) de seus filhos quando estavam de mau humor. Gente de mau humor e que só reclama não é agradável de conviver. 

Manter o bom humor é um ato de coragem. Quando o mundo se abre debaixo dos seus pés, quando você convive com doenças crônicas, quando os problemas batem à porta todos ao mesmo tempo, a primeira coisa fácil de se perder é o bom humor – em seguida a gente perde a esperança, perde a cabeça, perde o sono e muito mais. 

Como manter o bom humor diante das agruras da vida? Se fosse fácil, tinha youtuber fazendo vídeo com dicas. Porque o difícil nisso tudo é ser corajoso e coragem não se compra por aplicativo.

Sim, o bom humor é só uma desculpa pra falar sobre algo tão nobre: a coragem. Cultivar o bom humor nos torna pessoas mal compreendidas, porque precisa uma boa dose de capacidade de interpretação e raciocínio ágil para acompanhar o deboche, a ironia, as metáforas, o rir de si mesmo e o bom humor cotidiano das pequenas coisas. Nem todo mundo consegue. Decidir manter o bom humor todos os dias, diante de qualquer circunstância, é dizer não ao mal que se aproxima. De certa forma, sofrer com um sorriso nos lábios (e uma boa piada) é mais agradável.

A coragem é aquela coisa, já ensinei em tantas aulas de Filosofia, que fica entre o ser temerário e o ser covarde. Os sentimentos equilibrados são os mais nobres que podemos alcançar, posto que é fácil ser covarde (fácil demais) e fácil ser temerário, sendo que ambos podem cobrar o seu preço – para os covardes, o preço pode ser pago na justiça e para os temerários pode custar-lhes a própria vida.

O covarde lança mentiras e calúnias ao vento, sem se dignar (se tivesse dignidade não seria um covarde) a apresentar provas. Caso tivesse provas e coragem, faria denúncias pelos meios legais, faria valer as leis e acionaria os responsáveis. Como é covarde, se utiliza do que tem (por vezes só a sua voz e uma conta nas redes sociais) para semear a intriga, a dúvida, a fofoca. É um covarde porque não age, só levanta suspeita e late. É comum observarmos nos covardes um comportamento semelhante aos contaminados pela raiva: espumam, latem, rosnam e podem contagiar quem se aproxima deles. Mas, vejam só, a raiva pode ser evitada com uma simples vacina, porém, quem se contamina tem alta chance de morrer. A raiva mata. A covardia só estigmatiza quem profere seus discursos de raiva e frustração: ao passar na rua poderá ser apontado “aquele é um covarde”. E assim será para toda vida.

Ser corajoso é não se calar. Quem tem a coragem dentro de si não baixa a cabeça para os covardes, não se intimida pelas mentiras e acusações, não flerta com o desespero. A coragem nos permite tomar as atitudes necessárias para punir quem, imbuído da sua covardia tão comum nos nossos dias, ultrapassa os limites da sua profissão e do seu cargo e saí por aí destilando ódio a quem nada tem a dever – que exerce sua cidadania em plenitude e pode provar. 

Curioso observar que esses covardes dos nossos dias têm uma preferência em atacar mulheres no exercício da sua profissão e liberdade de expressão, o que os torna um tipo especial de covardes: os covardes misóginos, sexistas e, cá entre nós, do século passado. Parece que nos dias de hoje ser covarde já é, em si, algo fora de moda – são como defuntos que andam por aí espalhando o odor fétido da podridão que sai das suas bocas.

Como descendente de uma linhagem de corajosos, fico feliz em manter o bom humor, todos os dias (não sem esforço) diante dos covardes. Mais do que qualquer alusão a sangues nobres deste ou daquele país, faço questão de ressaltar as qualidades que fazem de mim quem sou hoje, faço questão de relembrar meus avós, meus pais, tudo o que me ensinaram para ser alguém que não se intimida diante da covardia. 

É triste pensar que os covardes não estão em extinção, mas como a raiva alimenta os fãs dos covardes, satisfaz saber que há vacinas (fugir da ignorância, do discurso de ódio, procurar ouvir e ver além de vídeos curtos com gritos histéricos publicados por aí), porém a raiva mata – infelizmente ela mata porque o mal toma todo o ser com muita rapidez, a raiva impede a pessoa de enxergar e de pensar, ela morde até os seus entes queridos. Por isso, é imprescindível evitá-la. 

Os covardes cairão pelo próprio veneno que destilam. Enquanto isso, caminham trôpegos como zumbis de um apocalipse de difamação e injúrias que criam no seu tempo livre. Ser corajosa é sempre ter voz diante deles, é tomar as medidas cabíveis, é buscar apoio em quem está ao redor, é fazer valer as leis e os direitos que nos protegem. Por vezes, ser corajosa é dizer o que ninguém se atreve a dizer, é criar e fabular mundos nos quais existem coisas abomináveis, é contar para os outros o que pode acontecer caso os covardes se apoderem do nosso mundo – e, pra isso, vale compor uma canção, escrever um livro ou fazer um filme.

O silêncio – Missão Fotográfica Joinville

Este ano eu me inscrevi, e fui artista selecionada, para a Missão Fotográfica Joinville. A Missão é uma residência fotográfica para desenvolver propostas fotográficas autorais sobre a cidade, pensando o tema das cartografias, orientados por Lucila Horn e Daniel Machado, numa iniciativa vinculada ao NEFA – Núcleo de Estudos em Fotografia e Arte. Entre março e agosto, fomos desafiados a fotografar Joinville, para apresentar uma narrativa autoral sobre a cidade, a ser publicada num livro de fotografia.

Quando vi a divulgação para os inscritos, pensei que era justamente o que eu precisava. Vivo imersa em reflexões (o que é muito bom e eu super recomendo) e uma delas é o motivo de eu ter tanta dificuldade em fotografar a cidade onde vivo, a qual eu conheço minha vida inteira. 

Fotografo por paixão desde criança, minha mãe sempre fotografou a família, viagens. Minha primeira câmera comprei aos nove anos e desde então tive breves períodos da vida afastada dos cliques. Contudo, Joinville nunca foi meu objeto principal de desejo fotográfico. Sempre levo a câmera e fotografo bastante as viagens, mesmo que sejam para as cidades que eu costumo frequentar, sempre fotografei muito Fpolis (e ainda fotografo).

Por vezes, levo a câmera ao sair por Joinville, desde que retornei à cidade. Em outras vezes, quando não estava morando aqui, uma vez ou outra saía e fotografava, mas é como se sempre faltasse algo. A Missão Fotográfica Joinville era exatamente o que eu precisava, obrigar-me a olhar para a cidade e fotografá-la.

Para a inscrição, que acabei fazendo no último dia já como forma de resistência à idéia de fotografar a cidade, era necessário enviar uma proposta e um portfólio. Na proposta, escrevi essa minha dificuldade e uma relação de “amor e ódio” (não são os termos corretos, mas é para que as pessoas entendam), o amor ao observar os contornos da cidade, o mar que a abraça e que ela ignora, os morros, o rio Cachoeira (que faz parte do meu jardim), as casas históricas.

O projeto da Missão é algo que sinto muita falta na cidade, projetos culturais interessantes, diversificados, diferentes – lembrando que feirinha fim de semana cansa. Como caminhar é a única forma de viver e sentir um lugar, assimilei a parte de caminhar e pedalar para olhar Joinville com outros olhos – que não aqueles sempre tão críticos sobre a mentalidade, os apadrinhamentos, as dores de cotovelo, e essa mesquinharia toda que vemos todos os dias. Então, propus fotografá-la nos seus limites, a partir da crítica e contradições. Argumentei que amar e odiar a cidade é uma contradição que muitos de nós vivemos (por favor, digam que sim, senão me sentirei muito solitária – mentira, não tem problema se só eu passo por isso).

Mal sabia eu que viveria um processo de aprofundamento incrível em olhar as contradições da cidade e que o desafio de traduzir isso em fotos transformaria algumas coisas em mim – como pessoa e como artista. Ao longo dos encontros, fui compreendendo melhor como pensar uma narrativa fotográfica (eu sou da narrativa escrita e audiovisual, na fotografia eu ainda não havia experimentado) e dialogando comigo mesma. Descartei parte das fotografias que me levaram à inscrição, desisti de fotografar certos locais da cidade (até porque um deles um colega de Missão fotografa com muito mais propriedade), entrei num período de bloqueio e os prazos para apresentar as fotografias estava chegando ao fim. 

Em meio a isso, que artista é artista 24 horas por dia, mas também gente, aconteceram outras coisas. Uma delas foi o ataque que o curta-metragem Gritos do Sul (2022), sofreu de políticos e pessoas muito mal intencionadas (da cidade, dos meios de comunicação e, vejam só, até da própria cultura!). Foram dias tensos, porque o fascista, quando se olha no espelho, não gosta do que vê – e o modus operandi deles é bem organizado e ataca com violência esperando que a gente esmoreça. Mas, querer usar o curta para atacar o prefeito, o secretário, tentar desvencilhar os laços que unem fascistas em maior ou menor grau, e querer atacar a Lei do SIMDEC e o direito à Cultura não deu certo. Não era um ataque ao Gritos do Sul (2022) nem a mim, e o tempo todo minha consciência esteve tranquila.

Ninguém disse que seria fácil ser mulher que produz e ensina arte em Joinville – bem pelo contrário. Minha vida nunca foi fácil, a vida de nenhuma mulher é fácil. (mesmo que a gente saiba que fazer certas escolhas, em Joinville, dificultam ainda mais a vida) Sem baixar a cabeça em nenhum momento, o olhar crítico para as enormes e aterradoras contradições dessa cidade foram aguçados. A gana de lutar e trabalhar só cresceu – e tem dado ótimos frutos. O que não mata, fortalece, né? 

Imersa em conflitos, saí para fotografar. Cometi o erro de tentar criar a narrativa antes, e depois buscar as fotografias que a comporiam. Foi um erro que me atrasou alguns dias. Mas, peguei a mochila e saí caminhando. Novamente, encontrei comigo mesma e com a cidade que eu enxergo e fomos felizes em muitas fotografias. Agora sim, eu tinha material para apresentar.

Acredito que a experiência foi profunda para todos os participantes da Missão que se deixaram transformar pelos encontros. Gosto muito da experiência do fazer, do processo criativo, como já disse aqui recentemente. Essa experiência, quando compartilhada pode ter várias consequências, nem sempre boas. Li um artigo esses tempos que me ajudou muito a não fazer comentários irresponsáveis sobre os processos dos demais colegas, mas gostei de muita coisa que vi, como cada um conduz o nosso olhar por Joinville.

No dia do encontro, reconstruí essa ideia da relação de “amor e ódio”, pois havia compreendido (como uma epifania mesmo) que meu “amor” é minha origem, as raízes que me prendem à cidade, e o “ódio” é tudo isso que está aí fazendo mal para a cidade – mas que fazemos de conta que não existe. E então eu descobri: o silêncio. O incômodo atroz que me dá o silêncio que paira nessa cidade, a melhor do país e onde mais morre gente de dengue! A cidade que tem canteiros floridos na frente da prefeitura e não tem álcool em gel em nenhum dispenser no PA Sul. Não se preocupem, não ficarei três dias aqui escrevendo sobre as contradições de Joinville e como é sufocante viver nesse silêncio.

O silêncio. Como é difícil e impossível escrever sobre ele. Como fotografar o silêncio? E os coordenadores ainda pediam um texto que fosse enviado junto às fotos escolhidas! Não consegui escrever sobre o silêncio e, por incrível que pareça, consegui fotografá-lo. Ao analisar e analisar as fotografias, fiz uma seleção e era aquilo ali, era o que eu queria dizer. A Lucila Horn disse que meu projeto é o mais conceitual e crítico, espero que com conceitual não seja algo inacessível às pessoas, mas sobre ser “crítico”, bem, sou eu, né, não tinha como ser diferente.

E esse texto de hoje era para falar sobre o silêncio que reina em Joinville. É um silêncio imposto de cima pra baixo, como disse um amigo esses dias – é como somos criados aqui. É o silêncio exigido para que você não seja banido dos círculos, para que você consiga sobreviver, porque se você começar a falar, a apontar as contradições, a questionar, você não vai mais conseguir viver em paz nesta cidade. Eu sei. Também sei que não sou a única que se incomoda com o silêncio – mas não vejo os outros reclamando dele. É tipo o silêncio sobre silêncio, sabe? Aqui e ali, ao pé do ouvido, às vezes os cochichos…

Esses dias conversei com uma produtora cultural de outra cidade e ela contou como a classe artística de lá era “barulhenta”, conseguia no grito as mudanças necessárias e tal. Criticamos e avaliamos como as coisas são nas políticas públicas da Cultura de Joinville e lá fui eu falar sobre o imenso silêncio que domina os artistas da cidade – eu disse pra ela que aqui isso não acontecia. No meio artístico de Joinville é tudo perfeito, por que eles fariam barulho, não é mesmo?

Talvez eu tenha a audição muito aguçada, mas o silêncio me é muito mais incômodo do que o “barulho”. Aliás, esses dias a ciência comprovou que conseguimos ouvir o silêncio, não? 

Hoje era para escrever sobre o silêncio. Não poderia deixar de contar a experiência com a Missão Fotográfica que me trouxe tantas coisas excepcionais, verdadeiro crescimento enquanto artista e pessoa (é disso que trata a autoria, ser quem somos no que fazemos). Não sei, acho que falei pouco sobre o silêncio, mas certeza que não fiquei em silêncio. Voltarei a escrever sobre ele – e a fotografá-lo. Aliás, é um dos meus temas favoritos para conversar também.

Sobre a Missão, está quase terminando a residência e logo iremos para a edição do livro. Confesso estar contentíssima com os resultados e com os frutos que virão desta experiência. Numa das orientações que tivemos, o fotógrafo disse que eu precisava “vomitar”, que minha narrativa era sobre isso. E é. Quanto mais tentam me calar, mais eu planejo e executo colocar para fora. Ninguém disse que seria fácil e, enfim, o fácil não tem graça.

Enquanto eu não volto a escrever sobre o silêncio (este texto mesmo foi gestado em silêncio), ouçam-no: ele está por todos os lados.

A criação

Tento, num exercício diário (de cobrança), encontrar temas sobre os quais escrever. Tenho me interessado muito sobre os processos de criação, como há tempos me interessa, e em como um suposto (oi, jornalistas) bloqueio da criação afeta os criadores. Há quem pense que quem cria, não trabalha. Criar é igual a qualquer outro trabalho, quanto antes a gente entende isso, melhor é. Enquanto vemos o criador como alguém iluminado pelos céus e possuidor de um dom magnífico, o trabalho em si não existe.

Pra quem trabalha com criação artística, talvez demore um pouco para ser ver como trabalhador/a. Algumas funções são mais “visíveis” aos outros, como quem trabalha diretamente na produção de espetáculos, filmes, eventos, etc.. Enquanto que para aquele show, aquele filme, aquela peça existirem, muito trabalho árduo foi previamente executado pelos seus criadores – a arte pré-existe enquanto trabalho antes de existir aos olhos do público enquanto obra. 

Ao mesmo tempo, pobres criadores que por muito tempo se vêem sem a visita da musa inspiradora. Acreditam estar amaldiçoados, inventam qualquer desculpa para a página em branco, encontram mil compromissos e deveres que os afastam das telas, dos pincéis, dos computadores, dos instrumentos. É fácil depositar a responsabilidade dos nossos erros e fracassos nos outros (conheço muita gente que o faz sem a menor cerimônia), como dizem, do que simplesmente assumir que não temos compromisso com o nosso trabalho – da mesma forma que tanta gente não respeita o trabalho dos artistas.

Trabalhar com criação é sempre um processo. Cada obra, cada escrita, cada criação se desvela de maneiras diferentes para o seu criador – ou criadora. Posso escrever aquele roteiro de uma vez só, depois de pensar nele durante dois meses, posso escrever outro uma dúzia de vezes ao longo de dois anos até ficar satisfeita com ele. Criar o processo é parte de trabalhar com criação, por isso também é sempre tão gostoso ouvir os artistas falarem sobre suas obras. Cada processo é um universo do qual faz parte a obra.

Quanto ao trabalho, é trabalho. É compromisso diário, com hora marcada, com cobranças, com execução, correção, revisão, por vezes, aprovação. Às vezes, a musa não flutua pelo ambiente, por vezes um furacão nos toma e tudo sai divinamente. Porém, é preciso estar lá, todos os dias, cumprir os horários, bater o cartão, inspirar-se, olhar para os lados, respirar, revisar o que te fez chegar até ali. E aprender, claro. Não recebemos, como muitos podem lamentar, o tanto que gostaríamos por essas horas trabalhadas, contudo, suspeito que há um retorno muito mais valioso que deve ser levado em conta.

Assumi o compromisso de retornar com frequência ao site, queria, na verdade, escrever sobre as greves dos EUA no Audiovisual, sobre o efeito manada no público das duas “grandes” estreias de Hollywood, em como consumimos mal aquilo que tanto nos afeta e tal. Sei lá, não deu certo. Tem dias que rende, tem dias que não.

Por vezes, pode ser mais frutífero trabalhar aqui dentro, com o que nos consome, do que ir tão longe. Eu trabalho com cinema, com criação (com produção também, aquela parte que é mais “visível”, mas mesmo essa tem uma parte enorme que é invisível), bato meu cartão diariamente e carrego essas dores e delícias.

É o que tem pra hoje, como digo muitas vezes ao servir o almoço em casa. Pode não ser o ideal, nem o melhor, mas foi o que deu pra produzir. Pior aquele que não consegue servir a mesa, não entrega nada, porque ficou se lamentando, porque acordou tarde à espera de uma fada que, com sua varinha mágica, o banhasse nas águas da inspiração. Ou, ainda, aquele que ficou o dia cavando buracos sem fim onde só encontrava motivos para dizer que não “teve tempo” ou “não conseguiu”. 

Trabalhar exige demais de nós, desconfio até que nem fomos criados para isso. Porém, criar tem algo de divino, nos aproxima desse desconhecido, do que não se explica. Há muito tempo eu tive essa certeza, eu queria criar. Quem cria tem um compromisso consigo mesmo, de busca de uma necessidade interior, e se você não pode ser seu melhor “chefe”, certeza que não está fazendo a coisa certa.

Escritora com livro publicado retorna à ativa

Volto ao site para escrever com regularidade depois de um período muito profícuo. O tempo, como meus bons leitores sabem, é um grande amigo. Volto com o melhor que eu poderia dar de mim: falar sobre livros.

Dizem que fui privilegiada, e devo ter sido mesmo, por mais que ser “privilegiada” hoje em dia seja quase um xingamento. Eu tive o privilégio de ter à disposição, em casa, livros. Além disso, o ato de ler, ao qual me filiei muito cedo, não era condenado no convívio da minha família.

A este privilégio sou eternamente grata e devedora de coisas muito importantes e boas da minha vida (outras um pouco mais complicadas, é verdade – né, personagens maravilhosos?). Já faz tempo que também sou consciente de que este meu acesso ao mundo dos livros nunca deveria ser um “privilégio”.

Além dos livros em casa, além de ter sido uma leitora voraz (a vontade de saber, descobrir o mundo, enfim), além do armário de livros que minha mãe mantinha em casa, além dos livros que eu encontrava na casa da minha avó, além das Barsas e Enciclopédias onde fiz minhas primeiras pesquisas na vida, eu tive acesso às bibliotecas. Eu sei que já falaram muito, poeticamente, sobre o paraíso que é uma biblioteca para os leitores, mas não só para pessoas como eu, que quando criança e adolescente ia todo dia na biblioteca da escola ou municipal, mas também para quem precisa, como as bibliotecas universitárias.

Farei esse parênteses, meus leitores mais assíduos sabem que falo bastante de mim: minha mãe tinha armários com livros em casa, antes numa salinha nos fundos da casa onde estudávamos e onde fui alfabetizada pela minha irmã, depois ela colocou estes armários na sala de TV. A passagem dos armários de livros da sala de estudos para a sala de TV fez muita diferença na minha vida. Eu lia desde antes de entrar na primeira série, lia os livros obrigatórios das aulas, lia enciclopédias para fazer trabalhos da escola. Mas, ter os livros ali na sala, à mão num espaço de “entretenimento e diversão” fez uma mudança radical na minha percepção. Com a TV ligada eu sentava no chão e começava a folhear, via os nomes conhecidos de reportagens em revistas e jornais (também sempre gostei muito de lê-los). Minha mãe nos levava todos os domingos à revistaria para comprar os jornais do dia e coleções de livros e revistas, conforme o gosto de cada filho. Mudar o entendimento do espaço que a leitura poderia ocupar na minha vida mudou a minha vida e o meu caráter.

Eu frequentei todas as bibliotecas das escolas e colégios e universidades onde estudei. No Fundamental e Médio era todo dia, inclusive no final do Médio a unidade onde eu estudava não tinha biblioteca (precisava “solicitar” da outra unidade, afe), mas era perto da biblioteca municipal. Eu ia lá todo dia. Na universidade, elas eram fascinantes, para aquela menina, se deparar com a biblioteca da UFSC foi um sonho. Também pela questão financeira, pegava a bibliografia das disciplinas e corria pegar os livros, cópias custavam muito. 

Foi com o tempo que construí minha modesta biblioteca. Esses dias me deu saudade do Zola, fui até ela e peguei um que ainda não li. Já não frequento mais bibliotecas como antes, é verdade, e esse é um erro.

As bibliotecas devem ser abertas, públicas, devem estar à mão de todos, devem proporcionar encontros por curiosidade e necessidade. Os livros mudam a gente. Livro nunca deveria ser objeto de decoração ou pretensão. Foi assim que tive o impulso a voltar ao site e escrever aos meus fiéis leitores. 

Ontem vi no Twitter o Lula contando que todos os empreendimentos do programa Minha Casa, Minha Vida terão bibliotecas. Confesso que há tempos algo não me emocionava tanto (me emocionar é difícil). Sei que o atual governo federal foi uma virada de chave que demos após um período tão obscuro (do qual não desejo falar) e que coisas boas já surgiram, investimento aqui e ali, baixa do dólar, IBAMA fiscalizando e tal. Mas, exigir bibliotecas no programa de habitação mais importante do país é uma linha que foi ultrapassada, é entendermos qual país queremos, é saber que acesso ao livro não é privilégio. Hoje, ouvi na rádio o evento sobre o programa habitacional e soube que firmaram uma parceria com a Academia Brasileira de Letras para a disponibilização dos livros nestas bibliotecas. É entender que há um projeto de país, que não é matar.

Ano passado eu publiquei e lancei meu primeiro livro, não é de ficção, mas também não foi escrito em linguagem academicista, fruto da minha dissertação de mestrado em História, na UDESC, e publicado por meio do Edital SIMDEC Apoio, de Joinville. Eu estudei em universidade pública e isso também mudou a minha vida e construiu o meu caráter, publicar a dissertação em formato de livro por edital público foi mais uma conquista na vida. Mais um sonho realizado. Meus leitores sabem que vivo de realizá-los.

Este livro está sendo doado à bibliotecas. Isso não constava no projeto inicial, é uma vontade minha, que surgiu ao vê-lo publicado. Já estão disponíveis unidades dele na Biblioteca Estadual do Paraná (onde tive uma relação incrível em formação), na UFPR, PUC-PR, Universidade Tuiuti, FAP – Faculdade de Artes do Paraná, UNIVILLE, UNIVALI (Itajaí), Biblioteca Darcy Ribeiro (Curitiba) e na Biblioteca Comunitária Lutador Dito, na AMORABI (Associação dos Amigos e Moradores do Itinga), onde fizemos o lançamento do livro. Este local foi escolhido pelas parcerias que tivemos em vários projetos e atividades, além de ter sido uma resposta às livrarias que viam o lançamento de outro ponto de vista, que não o que eu tenho para este projeto.

Inclusive, fiquei muito feliz de vê-lo como indicação da Biblioteca da UNIVILLE, no dia do Cinema Brasileiro. Sim, o livro fala de cinema, afinal, por que não juntar duas paixões, não é mesmo? 

Continuo a doação dos livros, aceito sugestões de bibliotecas e pedidos de doações (é só escrever pra mim ou aqui no “Contato” do site). Tenho já uma lista de bibliotecas às quais doarei, algumas das quais foram muito importantes na minha formação. Porque ler não pode ser um privilégio e agora não posso mais me descrever como uma escritora sem livros publicados (prometo que este não será o único).

Fazer cultura e arte neste país, ser uma trabalhadora da cultura, é o caminho que escolhi para a minha vida, sem nunca deixar o compromisso com a formação. E esse compromisso se traduz de várias formas, fomentar bibliotecas é um sentimento que eleva minha felicidade e demonstra que minhas escolhas têm um caminho do qual tenho profundo orgulho. 

Ah, para encerrar por hoje: frequentem bibliotecas. Valorizem as bibliotecas.  

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