Festival de Dança de Joinville, algumas considerações – e emoções, e críticas…

Cheguei faz pouco tempo da última noite competitiva do 31º Festival de Dança de Joinville. Neste ano pude ir a quase todas as noites, só não fui na noite de gala e nas duas noites de dança Urbana. Já frequentei muito o festival, os palcos abertos e a competição oficial, desde os tempos do Ivan Rodrigues. Acompanhei a construção do Centreventos, o tempo das arquibancadas sem cadeiras. Não fui todos os anos, é verdade. Lá se vão dez anos que nem moro exclusivamente em Joinville. Mas sempre que o tempo, a agenda e o dinheiro permitiram, estive presente.

Sim, eu gosto de dança. Não, espetáculos de dança não são (ou foram) corriqueiros na nossa região. Fiz ballet por um bom tempo e aprendi a amar. Não sou crítica, me faltam qualificativos para tal. No Festival, eu sou público.

Passei a semana inteira tecendo comentários sobre o Festival lá no Twitter e refletindo sobre algumas coisas que pude observar. Acompanhei um pouco a imprensa durante a semana e assisti agora a pouco ao Globo Repórter.

A primeira impressão: os ingressos. Fui comprar pela internet no segundo dia de vendas normais. Achei a taxa do site cara e resolvemos ir comprar na bilheteria do Centreventos. Sem filas, tranquilo. Porém, a noite dos campeões estava esgotada. Para os dias comuns de competição várias áreas estavam “bloqueadas”, disse a moça que não eram liberadas para a venda, ou seriam cortesia, ou liberadas depois. Isso já me desgostou. Segundo dia de vendas e tive que pegar lugares ruins porque quase não havia ingressos. Chegando em casa tentei pelo site e consegui os dois “últimos” lugares para a noite dos campeões, a mesma que a atendente havia dito que estava esgotada. Em alguns anos foi exigido o RG do comprador do ingresso, para evitar, sabiamente, cambistas e afins. Senti falta disso. Primeiro, os “bloqueios” para patrocinadores, autoridades ou seja lá o que for, depois a chance de qualquer um poder comprar sem identificação: duas formas de ter uma disponibilidade bem ruim para o público em geral.

Na noite de abertura o Ely, presidente do Instituto Festival de Dança fez seu discurso. Quando ele agradeceu aos patrocinadores e ao investimento público eu mentalmente acrescentei: e ao público. O senhor Ely esqueceu de agradecer, no seu discurso, a quem realmente faz o Festival. Se as cadeiras do Centreventos estiverem vazias, sabemos que nem grandes patrocinadores como Itaú e Boticário nem a Lei de Incentivo à Cultura ou sequer a Prefeitura vão apoiar e investir no Festival. Achei que foi uma falha muito grande do presidente do Instituto. Porém, era o segundo momento no qual eu, como público, sentia que talvez eu não esteja sendo levada muito em conta.

O Balé do Uruguai fez apresentações lindas, perfeitas. A platéia respondeu com aplausos mornos. Fui das poucas, inclusive, a aplaudir de pé. Parecia que aquelas pessoas estavam ali por obrigação.

Tenho essa implicância com platéia. Sabe cidade que tem o evento social da semana? Pois é. As pessoas vão porque é o evento social, não porque se interessam pelo espetáculo/show. Eu detesto quando um desinteressado desses senta ao meu lado. Já fui em shows nos quais tinha gente por perto que tinha “ido por ir”. Nada mais irritante. A pessoa não aplaude, faz comentários cretinos, não respeita.

Enfim, acho que a platéia não esteve à altura do espetáculo do Balé Nacional do Uruguai.

No sábado começou uma verdadeira provação em relação à platéia. Os problemas se repetiram a semana inteira, um pouco menos ontem e hoje. Me explico.

Primeiro: não dá pra ficar de entra e sai durante o espetáculo. Cadê a organização para impedir isso? Num espetáculo é falta de respeito com quem está lá assistindo ficar gente entrando e saindo o tempo todo. Tem horário e intervalo para isso.

Segundo: torcida. Sim, o festival é uma competição. Mas – MAS – é uma competição de espetáculos de dança, não é o joguinho de handball do colégio. No sábado teve apresentações de dança Folclórica de escolas de Joinville. Ao meu lado sentou um grupo de adolescentes que conversaram – isso mesmo, con-ver-sa-ram – a noite toda. Eram torcedores do grupo do Positivo (ou Posiville como chamam). Durante as apresentações de Contemporâneo eles não calaram a boca nenhum instante, mesmo quando eu e pessoas em volta reclamaram. Quando foi anunciado o grupo do Posiville eles começaram um berreiro absurdo com gritos de “Vai, Carol! Vai, fulano! Lindaaa!” enquanto o tablet gravava tudo e no meio ainda conversavam. Gente, educação nessas horas faz falta. Não dá. Faltou educação para saber como se comportar num espetáculo de dança E respeito pelos outros, pelas pessoas que estão ali para assistir a um espetáculo de dança. Detalhe: não ganha o grupo que tiver mais gritos da platéia. Além disso, logo depois das apresentações dos grupos para os quais eles torciam, levantaram e ficaram em pé, pra lá e pra cá durante as apresentações que seguiam. Aí perdi a paciência e pelo menos nessa hora se tocaram que estavam atrapalhando. No domingo o caso se repetiu, torcida imensa. Teve gente que só entrou na hora do grupo que interessava. Infelizmente a torcida do joguinho de handball se repetiu em outras apresentações (felizmente não ao meu lado) de grupos de outros lugares. Gritos de “linda! fulana!” ainda foram ouvidos.

Terceiro: erros da produção do festival. Inúmeros erros de iluminação, de som, etc.. Tanto que um grupo de sábado, danças folclóricas de Cuiaba (se não estou enganada), teve o direito de se apresentar novamente no domingo porque foi prejudicado pelos erros da produçao durante a apresentação. No sábado o número de erros foi enorme, mas eles persistiram durante a semana. Pequenos para o tamanho do festival? Talvez. Mas justamente pelo tamanho e pela idade não podemos esperar deslizes desse tipo. Outro detalhe: as câmeras que passam ao vivo no telão não contam nem com ajuste de temperatura de cor.

Quarto: a ausência do nível Avançado fez muita, muita falta. Tanto no Clássico, mas mais ainda no Jazz, Sapateado e Contemporâneo. O Avançado era aquele momento que surpreendia, que tirava o fôlego, que inebriava. Não li a respeito dos motivos de terem tirado o Avançado este ano, mas já li pessoas que concordaram comigo que fez falta.

Não vi o Centreventos cheio todos os dias. Em alguns dias o barulho da chuva atrapalhou e denunciou que não temos o lugar perfeito para apresentações deste tipo. O principal problema do Ivan Rodrigues, na época, era o tamanho. Ele já não suportava mais o público do Festival que crescia a cada ano. Eu passei sufocos – literalmente, afinal era criança e sempre fui baixinha – no Ivan. Já vi o Centreventos lotado para noites do Festival, como ano passado – aliás, a edição dos trinta anos foi memorável. Até ano passado a arquibancada não tinha cadeiras, o que era muito bom porque tinha aquilo de chegar cedo para garantir lugar e eu desconfio que cabia mais gente. No primeiro ano do Festival no Centreventos, fui com minha avó (assídua frequentadora e entusiasta do Festival, com quem aprendemos a ir) e ganhamos almofadinhas para sentar na laje fria da arquibancada. Depois disso fui até no show do Mister M lá. As cadeiras da arquibancada são muito desconfortáveis e várias já estão quebradas – na quarta-feira sentei em uma que machucou minha perna. Nos dias de chuva havia goteiras pela platéia – no dia de chuva mais forte uma parte da arquibancada do lado esquerdo estava isolada com fita.

No domingo fui acompanhada de mais pessoas, uma com dificuldades de locomoção. Chegamos com o carro ali pela entrada da Beira-rio (as vagas para deficientes devidamente identificados, como era o caso, ficam ali bem na entrada, afinal é próximo da rampa para acesso, como deve ser) e fomos informados de que não havia acesso por ali, que deveríamos dar a volta pela Orestes Guimarães. Deixamos a pessoa com dificuldades ali, acompanhada, e formos dar a volta. Na entrada mostramos a placa de identificação de deficiente e, para nossa surpresa, mandaram estacionar lá no meio, bem distante das vagas especiais. Fiquei indignada. Para que servem as vagas especiais do estacionamento? Que, aliás, estavam vazias! E, sim, havia acesso do estacionamento lá de trás até as vagas. Os elevadores do Centreventos são pequenos e estão em estado deplorável. Na abertura não fomos de carro, mas acompanhei uma pessoa com dificuldade de locomoção pelo elevador e já tinha achado bem ruim, pois os botões nem funcionavam direito e havia fila. A situação foi constrangedora quando, no domingo, pessoas que iam para o camarote acharam que o elevador era exclusividade deles. Pois eu acho que os elevadores deveriam ser exclusividade de pessoas com necessidades especiais, idosos, mães com crianças no colo, pessoas com dificuldades de locomoção. Elevador não é luxo. Acessibilidade, pelo jeito, é. Sim, há rampas de acesso, não só escadas, mas são longas rampas que para quem tem problemas não são mais fáceis que escadas. As arquibancadas, por exemplo, não são feitas para idosos e pessoas com qualquer dificuldade de locomoção. Felizmente eu tive a idéia de deixar na porta e ir estacionar o carro, porque ela não teria como percorrer a distância do carro até a platéia.

Aí delineava-se algo que me preocupou e me fez lembrar a fala da abertura. Que valor tem a platéia? Que respeito se dá a quem vai prestigiar o “maior” festival de dança do mundo? (já disse que joinvilense tem esse complexo com o adjetivo “maior” – é tudo “maior” por aqui, mas…) Eu como platéia me senti inúmeras vezes desrespeitada. Dificuldade para conseguir ingresso (os valores até que têm se mantido, mas já paguei só cinco reais para sentar na arquibancada bem feliz da vida!), dificuldade de acesso, entra e sai durante espetáculo, falta de educação do público, erros da produção… Lembro novamente: se não houver platéia, não haverá espetáculo.

A melhor “redondeza” de platéia são os bailarinos educados. Tive o prazer de ter alguns desses vizinhos. Prestam atenção, respeitam as apresentações e as pessoas em volta, comentam só nos intervalos, se emocionam junto com quem se apresenta – isso sim é lindo! não a torcida de handball – vibram, fazem suas apostas, sabem fazer silêncio, sofrem junto com os escorregões e com os bailarinos que transcendem seus próprios limites. Aliás, tive o prazer de ouvir conversas entre eles e de conversar com alguns. Muitos mostravam um descontentamento com vários aspectos do Festival. Parece que a concorrência entre os nomes de companhias de dança já “estabelecidas” no festival não tem agradado muito. O que me lembra a insistência do jornal local A Notícia em colocar em questão o aspecto “competitivo” do festival. Esses dias foi uma matéria que cogitava como seria o festival se não houvesse competição, se os grupos continuariam se inscrevendo, se haveria público. Hoje foi a entrevista com uma professora de dança (ou algo do tipo, nem lembro o nome dela) que critica o aspecto anti-pedagógico da competição, diz que não é “festival”, mas concurso de dança e que não são bailarinos, mas alunos. Tentei ponderar muitas coisas que ela disse, mas tive que discordar veementemente com o “não são bailarinos”. Mesmo sendo alunos, coisa que acredito que não só na dança, mas em todas as áreas, somos sempre alunos, eles são bailarinos sim. Se é anti-pedagógico, não sei. Contudo, desconfio que o público joinvilense já não é frequentador do festival. Até para ser público é preciso aprender. Quase não conheço joinvilense que vai ao festival. Aliás, joinvilense adora se orgulhar, inclusive de que aqui tem o “maior” festival do mundo, mas a maioria nunca pisou numa noite competitiva. Eu, quando criança, nem entendia que era competição, eu ia assistir porque gostava.

Preciso abrir um parênteses neste texto que já se alonga demais. Mas é necessário. Me dói muito ver, como já comentei aqui e em outros espaços, a Casa da Cultura fechada. Desde que Joinville virou o único lugar fora da Rússia a ter uma escola do Bolshoi que a Escola Municipal de Ballet, que ficava na Casa da Cultura, tem sido ignorada. Foi ali que fiz meus anos de ballet. Era ali que as artes efervesciam na cidade. Pagava vinte reais a mensalidade e tinha espaços excelentes, professores de altíssimo nível e muitos bailarinos empenhados. Não me conformo em ver tudo isso desprezado. E não me conformarei. Vem pessoas do país todo para concorrer no Bolshoi, número candidato/vaga é absurdo. Nem todos podem frequentar o Bolshoi, e aí?

Tenho a forte impressão de que o joinvilense não é o assíduo frequentador do festival. Desconfio que a maior parte da platéia é composta por bailarinos e pela “torcida” dos grupos que se apresentam. Pena. O Festival não deveria ser somente para os bailarinos. Deveria ser para a cidade, para a região, para o Estado. Mas, uma platéia, seja ela do que for – dança, teatro, música, cinema – precisa ser formada. Não, não estou falando que só os “entendidos” sabem apreciar. Digo que cultura é aquilo que aprendemos a valorizar, que temos o contato para conhecer, gostar, amar. Nem eu nem a maioria das minhas colegas de ballet da Casa da Cultura daquela época éramos bailarinas profissionais em potencial. Mas ali se formava um público. Minha avó nunca fez dança mas tinha orgulho do evento da cidade e sabia apreciar por apoiar incondicionalmente o festival desde a sua criação. Público se forma. Se forma sendo valorizado, dando acesso. Quando surgiram os palcos pela cidade sentíamos essa diferença. As pessoas tiveram mais contato, paravam para olhar. Lembro que era a única na escola a ir ao festival, até o ano que foram incluídas as danças de rua (hoje chamadas “danças urbanas”). Na época até meu irmão foi ao festival. Amigas que nunca tinham ido também foram – e hoje não vão mais. A dança de rua atraiu um público que tem aquele preconceito burro com ballet clássico que é “parado”, “chato”. Dificilmente havia noite só de ballet, então eu optava por ballet e danças folclóricas que também sempre gostei. Este ano achei danças folclóricas decepcionantes – e não foi só porque já cansei de ver as coreografias de danças do norte e nordeste das escolas daqui de Joinville, algumas até repetidas entre duos e conjunto de um ano para outro. Mas um dia ou outro e nas noites de encerramento assisti a jazz, contemporâneo, sapateado e hoje sou apreciadora de todos. Só danças urbanas que ainda não caiu nas minhas graças – na noite dos campeõs ano passado gostei bastante de algumas apresentações. Público assim se forma, se contagia, se conquista.

Entre a dor de corno e a lascívia das apresentações de jazz, à criatividade e técnica em extremos do sapateado, aos conceitos do contemporâneo, à emoção e beleza exótica das folclóricas e à exatidão, luxo, beleza, encanto e graciosidade do clássico, eu fui me fazendo apreciadora e amante. E assim pode ser com qualquer um.

Torço pelo Festival. Torço pelos bailarinos que têm nele um grande espaço. Acredito que as discussões estão colocadas, principalmente sobre o futuro que se quer para ele. Seja competitivo ou não, com grandes patrocinadores ou não, mas com público. Com a valorização de quem vai lá assistir a um espetáculo. Como componente de formação de público de cultura e arte, dos quais nosso Estado é tão carente.

Sobre as apresentações, devo dizer que me arrepiei com as dores de corno do jazz, aplaudi entusiasmada a lascívia, sorri para a beleza que alguns grupos apresentaram. Guardarei com muito carinho a apresentação do grupo de Itapema, que disputou danças folclóricas. Queria ver mais apresentações assim daqui do Estado e menos “maracatus”, “marias bonitas” e “caboclinhos”. Vi bailarinos de clássico tão pequeninos e frágeis que me deixaram de queixo caído – falho por não dar nomes – pela graça, alegria e beleza ao executarem coreografias com engenhosidade e destreza. Fiquei com um gostinho de quero mais sem o Avançado. Fui ao delírio junto com a platéia com algumas “Esmeraldas”, com o Passantes Anônimos do grupo de sapateado de hoje, com a criatividade.

Ano passado abusaram do uso de cenários. Este ano pouquíssimos usaram cenários, mas tivemos um crescimento no uso de projeções. Tudo enriquece. Tudo nos deslumbra. Uma noite só de sapateado teve altos e baixos. Os grupos tiveram maior destaque, assim como jazz. Os Grand Pas-de-Deux me fizeram chorar e senti pena dos jurados. Na primeira noite eu daria o primeiro lugar para todos. Os solos masculinos ainda são os mais admirados porque demonstram força e coordenação fora do comum.

Faço questão de poder continuar sendo público do Festival. Na medida do possível dou um jeito na agenda, no tempo e no bolso para não perder momentos de emoção, admiração, arrepios e sorrisos permeados com muitos aplausos. Sim, porque eu nem sei bater palmas, mas bato. E faço cara feia pra quem vai até lá e não se dá o trabalho de bater palmas, mesmo que sem coordenação como eu. No Globo Repórter, uma bailarina mostrou seu pé machucado pela sapatilha de ponta e, com lágrimas, disse que os aplausos compensam qualquer coisa, que é tudo para eles. Fiquei com lágrimas nos olhos enquanto assistia. Minhas implicâncias não são à toa. Eles merecem.

Ps: publiquei o texto de madrugada e depois lembrei de comentários que faltaram. Não posso deixar de fazer um: os banheiros. Sujos, sujos, sujos o tempo todo. É o tipo de evento que precisa de uma pessoa o tempo todo fazendo a limpeza. Esse problema é decorrência de outro, gravíssimo: tem só DOIS banheiros no Centreventos no andar das platéias. DOIS. As filas no intervalo são enormes, impraticáveis. Há um no térreo para os bailarinos. Fila também. Banheiros pequenos e insuficientes para toda a platéia.

Ps2: As câmeras. Acabei de voltar da noite dos campeões e lembrei que ficou faltando isso. A organização diz que não é permitido tirar fotos e filmar, mas muita gente faz (eu inclusive). Só um aviso: não dá pra tirar foto de espetáculo com flash. Não dá. Ou seja, não tire. Não. E não.

Quando o cinema apaixona

 

Estive no 2º Festival Internacional de Cinema de Curitiba e escrevi algumas críticas de filmes que tive o prazer de assistir lá. Publico aqui uma especial. No site do jornal Gazeta do Povo há outra sobre o curta baiano “Menino do 5”.

Apaixonar-se pelo cinema acontece com muitos de nós. Os motivos, ou os causadores disso, variam bastante. Mas a experiência de apaixonar-se pelos filmes que nos deslocam no próprio sentimento que temos pelo cinema é das mais inesquecíveis. Amar o cinema é fácil, entender porque sentimos isso, não.

Aqueles filmes que falam sobre o cinema, que realizam um cinema que ainda não vimos, são os mais desafiadores. O desafio é jogado para os espectadores que têm a missão de torcer o nariz ou abrir o coração. Assim é a recepção de filmes como Cuauhtémoc e Leviathan pelo público. E esses são filmes que vão mostrar algo que ainda não vimos ou ouvimos e temos alguns minutos para abraçá-los ou ignorá-los.

Cuauhtémoc incomoda, desloca. Começa agressivo com um rock pesado e letreiros que são imagens. Ele discute sobre como fazer aquilo que eles estão, ao mesmo tempo, fazendo. Se você tem o dinheiro de Hollywood, você escolhe onde colocar um fresnel, decide as coisas, dizem eles. Peça central do discurso é a condição do fazer cinema, é assim que eles discutem que hoje é preciso esconder a precariedade desta prática, pois mostrá-la “é coisa da década de 70”. Num mundo onde qualquer um faz um vídeo com uma DSLR ou uma cybershot, o que é, então, fazer cinema? As falas se justapoem, há ruídos, nas imagens vemos coisas que não sincronizam com os sons, é difícil entender tudo o que é falado. Mas é nítida a sensação de que eles estão discutindo o que pretendem. Ouvimos colocações de que o cinema é enganação, mas que ali não há mentirosos.

Assim, a segunda parte do curta parece ser a concretização da primeira. Eles fazem um outro filme. Mostram a precariedade com a flecha do mouse aparecendo de vez em quando nas imagens que criam espaços e preenchem o olhar que flana pela tela. As imagens lúdicas são acompanhadas pela trilha sonora clássica que estimula uma fluência com as cores da tela. E é assim que ele se completa. Eles fizeram um filme sem o dinheiro de uma produção hollywoodiana, sem enganar e explorando a suposta precariedade. A realização é o obejtivo da prática.

Numa produção de porte bastante diferente, Leviathan mostra um cinema que cria expectativas e as remolda. A sinopse oficial leva muitas pessoas – ou todas elas? – a um engano. Seria fácil esperar de Leviathan algo na linha de Terráqueos (Earthlings) ou A Carne é Fraca, documentários que expõem as fissuras na relação entre os animais e os seres humanos. De fato, o documentário acompanha a pesca industrial. Porém, temos aqui algumas das mais belas imagens já feitas pelo cinema. A beleza das estrelas-do-mar brilhando lá no fundo, as gaivotas acompanhando o barco, os peixes movendo-se pelo chão do barco, as conchas sendo abertas com faca pelos pescadores e sua sinfonia, tudo isso causa uma experiência visual e sonora que pode abarcar toda a sua relação com o filme, deixando pouco espaço para a reflexão sobre a violência entre os homens e as criaturas do mar.

Diria, sem exagero, que o brilhantismo da direção da cena do barco pesqueiro filmado frontalmente nas ondas do mar é a cena mais bela e inesquecível que já vi numa sala de cinema. Como todos os planos têm um tempo particular, ali, além da beleza, me prendi em tentar decifrar como ela havia sido feita. Parece que a câmera foi colocada num anzol na ponta de uma linha de pesca e lá fica a flutuar, indo e vindo, de frente para o barco. Esplêndida, inesquecível, belíssima.

A tecnologia e as condições financeiras permitiram que os realizadores de Leviathan conseguissem um material visual e sonoro que surpreende pelo inédito. Ao acompanhar o nível do chão com os peixes deslizando temos imagens que são atraentes, apesar da realidade crua que elas nos denunciam. O começo brutal, com planos pouco compreensíveis, sons estridentes e muita escuridão podem assustar o espectador desavisado e até espantá-lo. O tempo, inclusive, é um personagem central neste documentário. Os planos têm o seu tempo interno, o espectador pode observá-los à vontade, percebê-los, contemplá-los. As ações e movimentos são longamente mostrados pela câmera que às vezes se movimenta cadenciadamente, às vezes fica parada. As cenas vão se sucedendo sem diálogos nem voz off explicativos mas muito bem concatenadas na lógica da sequência determinada pela direção.

Com pouco mais de uma hora de documentário, há um longo plano fixo frontal de um pescador que assiste à TV sentado ao lado de uma mesa. Nesta, vemos um pacote de salgadinho aberto, um pote de comida industrializada. Não há frutos do mar servidos para os pescadores. As arraias destroçadas maquinalmente não são consumidas pelos seus algozes. Cuauhtémoc e Leviathan são assim, nos servem alimentos que não estavam no cardápio, nos oferecem aquilo que menos esperamos. Como o pescador, podemos acabar caindo no sono ou despertarmos de um sono profundo.

115 anos de cinema brasileiro: na História ou distante dela?

 

O dia de hoje é comemorado por um fato curioso: a primeira filmagem realizada em terras brasileiras, por um italiano. Já dizia lá o Bernardet que significa muito o Brasil comemorar o dia do Cinema Brasileiro (“nacional” implicaria muitas coisas) justamente quando foi feita a primeira filmagem, não a primeira exibição. Até hoje isso prevalece: valoriza-se mais a produção, menos a exibição. O fato de o primeiro realizador ter sido um estrangeiro também é curiosa: o Brasil importou muitos profissionais de cinema durante muito tempo – pouco houve ao contrário. O cinema veio de fora, pelas mãos de estrangeiros. Por essas e outras que “nacional” implica muitas coisas, inclusive por quem é feito e para quem é feito.

 

Semana passada tive o prazer de participar de uma oficina com o Fábio Andrade, editor da revista Cinética. Fábio é uma pessoa acessível (coisa difícil na área), as idéias e concepções dele sobre crítica cinematográfica casam muito com as minhas e foi uma delícia gratificante as discussões. Entre tantas coisas, uma frase dele me chamou a atenção justo no dia que lembrei que hoje seria dia do cinema brasileiro. Vou a ela: “Hoje, com a internet, a gente consegue assistir a praticamente tudo. Menos cinema brasileiro, esse é quase impossível de assistir.” Para um crítico, é imprescindível assistir a muitos filmes, a tudo que passar nas telas (e estiver disponível para baixar). E Fábio levantou uma questão que eu já trouxe algumas vezes aqui: a dificuldade em conseguir assistir ao que se produz no país.

 

Casos recentes de curtas e longas, inclusive catarinenses, realizados com edital principalmente, que tiveram inúmeras exibições pelo país e até no exterior e aqui nada – tipo caviar, a gente só ouve falar. Tal filme (curta/longa) ganhou prêmio não-sei-onde e foi exibido X números de vezes lá e acolá, aquela chuva de elogios (?!) nas redes sociais e afins e… nada de passar no Brasil e, no caso específico, Santa Catarina. Por quê? Eu me perguntei isso várias vezes. Medo? Descaso?

 

Antecipando um ponto, volta a questão: filme realizado com financiamento público que evita o próprio público? E os filmes que são realizados com financiamento público e cobram ingresso? Pois é. Reclamam da quantidade de cópias que os cinemas exibem de blockbusters e afins – a maioria dos cineastas brasileiros reclama disso – mas todos sabem que ainda existe a má vontade do brasileiro sobre o próprio cinema. Eu mesma já cheguei no cinema e preferi assistir a um filme estrangeiro, quando tinha duas opções e um era brasileiro. Se não todos, a maioria de nós já fez isso – alguns sempre fazem. Não pretendo abordar todos os problemas do cinema brasileiro, seria pretensão demais.

 

Quando pensava sobre o dia de hoje, lembrei do posicionamento do Paulo Emílio, destacado no seu trabalho escrito e professado por quem o conheceu pessoalmente. Todo filme brasileiro merece ser visto, dizia ele, e um filme brasileiro nos diz mais do que todos os outros de fora – afirmações com pequenas variações. Ouvi isso na graduação de cinema, assim como ouvi aquela máxima (que hoje me parece a mais covarde e rançosa) de que no Brasil, independente de qualquer coisa, o que sempre predominou foi o “fazer” filmes. Digo covarde e rançosa porque a realização sobrepõe-se a tudo, inclusive à exibição (reproduzindo a idéia da “origem” do cinema por essas terras), desprezando, desta forma, o seu próprio público que em contrapartida também o despreza. Concordo com Paulo Emílio, todo filme brasileiro merece ser visto, e todo filme daqui me diz muito mais do que qualquer outro de fora. Não, não acho um posicionamento nacionalista, ufanista ou qualquer bobagem da qual os fãs de Said poderão me acusar. É uma questão de formação, de consciência. Nem que seja uma questão econômica, afinal, a esmagadora maioria dos filmes brasileiros é paga por nós. Eu sei, dói tirar dinheiro do bolso para comprar o ingresso de um filme brasileiro se eu, de alguma forma, já paguei por ele. Bem, resta garimpar as exibições gratuitas. Mesmo que em alguns casos sejam raras e dificultadas, veja lá um curta de Santa Catarina que depois de rodar o país foi exibido em Fpolis num dia 30 de dezembro. Pois é, parece que não querem mesmo que o público brasileiro – e, vejam só, não estou falando de público de festivais! – assista aos filmes daqui. O motivo? Pois é, quem nos responderá?

 

Na minha família sempre ouvi o preconceito com filmes brasileiros: só tem putaria e palavrão. Nem falavam da questão do áudio, outro preconceito bastante difundido. Lembro que o primeiro filme brasileiro que assisti no cinema foi o do Menino Maluquinho, com a escola. Aliás, antes de entrar na universidade, só havia assistido a quatro filmes no cinema. Um deles daqui. A quinta vez que tentei ir assistir a um filme brasileiro (“O Xangô de Baker Street”) com minha mãe e minha avó (num ato de ineditismo total) fui barrada porque não portava a identidade. Vejam só. É uma peripécia conseguir assistir aos filmes brasileiros. E os cineastas reclamam de número de cópias, verbas para lançamento e cotas nos cinemas!

 

Me apaixonei pelo cinema brasileiro aos poucos. Foi uma picada aqui, outra ali e de uma hora para a outra me descobri apaixonada. Me encantava ver aquele povo, aquela realidade, aqueles lugares tão conhecidos nas telas. Sou até bem bairrista, vide a alegria em descobrir o “Burguesa” ou o “Ditadura Reservada”. Sou nacionalista, pelo jeito, porque gosto de garimpar paisagens brasileiras (na vida real) nos cinemas (um dia tentarei escrever sobre isso de “cinema” e “cinemas” – teoria em formação), garimpar sotaques, realidades. Sou bem bairrista em me apaixonar pela Curitiba em “Estômago”. Levo um soco no estômago por assistir “Menino do 5”, gravado em Salvador, e ver um espaço que não conheço mas com uma realidade que transcende os limites dos mapas. Me apaixonei perdidamente pela câmera cheia de destreza e consciente de uma linguagem própria do Glauber Rocha. Me apaixonei pelos críticos, historiadores e cineastas que tanto escrevem sobre o nosso cinema. Sou tão bairrista que olho com desconfiança para um Padilha que fez sucesso aqui e foi lá pra fora dirigir Robocop.

 

Poderia escrever mais parágrafos elencando minhas paixões. Vocês sabem, paixões são meu forte. Porém, essa paixão é ofuscada por algumas questões. Eu queria ver o cinema brasileiro independente. Queria vê-lo desatrelado dos intermináveis editais e financiamentos. Eu queria vê-lo maior de idade. Queria vê-lo superar-se – e aqui me refiro ao modo de produção e à linguagem. Cinemas novos não acontecem do nada. Cinemas crescem superando-se a si mesmos. É preciso crescer e não estou falando nos números, pois não sou a ANCINE para ficar divulgando números para tentar dizer algo que me parece sempre vazio. É preciso superar essa idéia de que “O Som ao Redor” ter tido cerca de 200 mil espectadores é um resultado “louvável”, tendo em conta o orçamento e a “competição” com blockbusters ou ainda por ser um filme “cult”. Para que ele se supere eu sonho com duas coisas: que os profissionais do setor tenham caráter e sejam realmente profissionais e que os que não são assim não ensinem os estudantes dos cursos de cinema a serem como eles – aquela velha história, pegar dinheiro para abrir produtora, meios de burlar orçamentos e prestações de contas, como viver só às custas de dinheiro público. É um círculo vicioso. Não criam nada novo com as obras e mantém um sistema falido (bem, “falido” é relativo, porque tem muita gente ganhando dinheiro com isso). Queria ver Meirelles, Furtado, Murat, Barreto´s family, Babenco e todo esse povo sem correr atrás de editais. Queria ver milhões de espectadores seja para “Pernas pro Ar” tanto quanto para “O Som ao Redor”.

 

Minha paixão é ofuscada por ainda não ter conseguido assistir a “O Som ao Redor”. Por ser, como disse o Fábio, tão difícil assistir aos filmes brasileiros. Mas marquei de assistir a “Elena” neste sábado, gratuitamente, em Joinville, numa exibição organizada por um grupo ligado a uma faculdade. Pra quem não sabe, muitos festivais só aceitam filmes que não foram ainda divulgados, por exemplo, na internet. E os realizadores acatam isso, preferem mandar seus filmes para inúmeros festivais a simplesmente colocá-los à disposição do público em geral. Público de festival, todo mundo sabe, é restrito e restritivo. Resta a pergunta: quem faz isso então produz para qual público? Para o crítico de revista, “crítico” de jornal e bonequinho, cinéfilos e alunos de cinema? Interessa formar platéia ou não?

 

Mas, caramba, falar de cinema com essa multidão toda nas ruas?! Pois é. Pensei nisso também. Cadê os cineastas? Cadê os cineastas nas ruas? Os cineastas brasileiros já testemunharam levantes, greves, fizeram “o que a TV não fazia”, mostraram o que as pessoas não viam. E cadê os cineastas quando temos o maior número de pessoas nas ruas em toda a nossa História? Cadê cineastas se posicionando, apoiando ou sendo contra? Acompanho algumas discussões de grandes cineastas e críticos e não vi uma palavra sobre o assunto. “Ah, mas essas manifestações estão sendo gravadas por milhares de celulares.” E isso tira a posição do cineasta? Então aquela imagem linda do povo sobre o teto do congresso com as sombras refletindo nas abóbadas não pode ser significada e ressignificada pelo cinema? É isso mesmo, colegas? Por que a comunidade cinematográfica se acovarda diante desta multidão? Tem medo que o dinheiro do próximo edital não caia na sua conta? Então já tivemos cineastas melhores, porque eles burlavam deliciosamente isso. Ah, não sabia? Será que estudamos cinema brasileiro mais do que aquela uma ou duas disciplinas perdidas em quatro anos de curso?

 

Normalmente, os filmes brasileiros mais aplaudidos são os que esmiuçam a nossa realidade. Ou que a ironizam, como o “Saneamento Básico”. Pois é, falar em cinema hoje com ruas cheias de gente insatisfeitas com (quase) tudo. Mas cadê o cinema pra protagonizar isso? Mostramos a realidade (quais realidades?) e nessa h♦ora damos um fade out? Brasil fazendo História e o cinema não sai da sua redoma?

 

Eu apoiaria menos festivais (muitos só comem dinheiro público também). Apoiaria salas de cinema públicas (“como na França” dizem tanto por aí). Apoiaria exibição de curtas antes dos longas nos cinemas. Será que os produtores e diretores apoiam? Ou está bom assim? E volto a dizer: quero cinema brasileiro independente. Quero editais de fomento, incentivo, não de sustento. O cinema brasileiro dá lucro, vamos superar esse mito e sair da zona de conforto.

 

 

125

 

Fernando Pessoa faria, hoje, 125 anos. Um geminiano. Desses que nos tiram o chão, nos alçam às alturas, nos deixam com os sentidos todos misturados. (mas hei de desconfiar sempre de que ele tem alguma coisa de pisciano)

 

Já devo ter escrito tudo isso aqui antes. Leio Pessoa aleatoriamente, volta e meia, para pensar (ou não), acender a alma, despertar os sentidos… para tudo e nada.

 

Eis que essa semana tem sido tão intensa, profusa, exigente com a escrita e com uma dose espetacular de crônica nos meus dias que não pude deixar de lembrar dele (vide aí dia dos namorados e de Santo Antônio e as tais cartas ridículas – mas em especial da melhor declaração de amor que alguém poderia fazer e a qual um dia desejo dizer para um amor) e de brevemente lembrar do padroeiro do blog.

 

Para quem conhece Pessoa, as palavras não são dispensáveis. Para quem não o conhece, só digo uma coisa: leia, agora. Se não te tocar a alma, não considere-se uma alma.

 

Para quem me conhece, sabe que o blog poderia ter alguns outros padroeiros, mas ter sido ele tem um motivo muito especial.

 

 

As pimentas do Rubem

 

Não era para eu estar escrevendo neste exato momento, mas não resisto.

 

Nem vim contar que ontem vi mais uma estrela cadente, não foi em Guaíra, foi no Campeche mesmo, e bela como da outra vez – o pedido também foi o mesmo da outra vez.

 

Mas é que passei uma parte do fim de semana com o Rubem Alves (sim, já citei-o aqui sobre as Gerais) e desde que li um texto dele há uma idéia fixa martelando meus pensamentos. Já escrevi uma vez sobre o ato e os motivos de escrever para o blog, de vez em quando falo disso.

 

Estou num momento de descrer um pouco das palavras como comunicáveis para os sentimentos, por exemplo. Tanto que me peguei pensando que não escrevi sobre Teresina e escrevi sobre Belo Horizonte. O que eu sinto é real demais, está sempre tão na superfície, à flor da pele. Porém, quem me vê acha que tenho sangue de barata. É só para iniciados. E as palavras?

 

Decidi que não quero nunca mais ouvir um “te amo” (ou “eu te amo”, ou “amo-te”, qualquer variação). Decidi isso, assim, baseada na incomunicabilidade das palavras e na crença de que sentimentos e tantas outras coisas devem ser expressos e sentidos – jamais ditos. Demonstre. Aja. Isso me basta. Tenho me furtado às palavras dessas veredas… mas não perco uma boa conversa. Isso me lembra outro post dessas últimas semanas – talvez o mais incompreendido do blog até hoje. Tenho simplesmente afastado as palavras das coisas, das pessoas, dos sentimentos. Acredito que não das idéias.

 

Assisti a um dos melhores filmes que já vi no cinema, filme feito para a sala escura, para a telona. Era sobre sentimentos. Havia poucas palavras, uma dose exata e deliciosa de música, uma direção de babar, uma incomunicabilidade dolorosa, sons bem percebidos (como o tique-taque do relógio numa sala onde duas pessoas não falam – aqui, agora, é o que ouço, somente o relógio me agitando). E a cena que mais disse tudo neste filme foi a da protagonista lambendo o ombro do seu amante. Ela nunca conseguiria explicar isso para o marido.

 

Enfim, “O que escrevo não é o que tenho; é o que me falta.”, diz ali o Rubem. Pensei mil coisas para conseguir justificar com esta frase – inclusive a falta que eu tenho com trazer coisas do meu cotidiano para o blog e tantas outras questões. Rubem respondia à questão (que nunca lhe foi feita) se ele é mesmo como escreve e tascava “Escrevo o que não sou”. Sim, sim… e aqueles que dizem que, ao escrever, não conseguimos fugir de nós mesmos? Não sei. Sobre o poeta escrever para invocar a coisa ausente faz ainda mais sentido… Pensando cá com meus botões cheguei à idéia que escrevo pelo que me falta, sem jamais chegar a citá-lo. Eis a incomunicabilidade das palavras. Escrevo o que me falta, talvez não consiga ser tão fiel ao que não sou, mas decididamente não escrevo tudo – muito menos o que sinto. E eu? Sou mesmo como escrevo?

 

Esses devaneios acabaram sendo dirigidos para todos os tipos de escrita do momento – livro, blog, dissertação, e-mails, chats, diário (oh, yes! retomei-o!) – e geraram um momento de auto-reflexão monumental. Me deu até vontade de mandar um e-mail para o Rubem agradecendo às pimentas (vejam só, ele é mineiro e ao falar em pimentas não esqueço as maravilhosas lá do Mercado Central), como ele mesmo diz no começo do livro “Pois há idéias que se assemelham às pimentas: elas podem começar incêndios nos pensamentos.”. E lembrem-se de nunca tomar água para apagar o incêndio de uma pimenta. Se para começar um incêndio não é preciso fogo, foi feito o estrago.

 

 

Same time, next year e as delícias do bom cinema

Num domingo, nada como acordar e ir assistir um filme. Tenho andado tão romântica para a ficção, acho que para compensar as agruras da vida e as obrigações sérias. O mundo fantasioso de uma pisciana precisa, de certa forma, ser alimentado. Como esqueci de pegar um livro para colocar na mala e nenhum daqui me interessou, fico com os filmes.

 

E há aqueles filmes que mexem com a vida da gente. Esses dias ainda, conversando com um amiga de muito tempo (se vão aí pra mais de dez anos), ela me dizia que naquela época me via, no futuro (ou seja, hoje), autora de vários livros, que nunca havia pensado que eu iria parar no cinema. Mas são as voltas que a vida dá e minha ficção foi encontrar satisfação nas imagens. Talvez aquela união da fotografia e da escrita, velhas paixões e companheiras.

 

Eu já plantei inúmeras árvores nesses tantos anos de vida, eis que só me faltam os livros e os filhos. Eles já não parecem assim tão distantes…

Escrever é como um prolongamento do meu braço, tão natural quanto necessário. E escrever sobre filmes é tão delicioso quanto difícil.

 

E naquele domingo acordei com a casa em silêncio e liguei a TV. Começava um filme no meu canal favorito. A intro me conquistou no mesmo instante com um trilha pegajosa e tão direta. Dei uma olhada na sinopse (essas infelizes) e não tive dúvidas que assistiria. Eis que chegam do supermercado com os ingredientes para o almoço que eu havia prometido e tive que interromper a sessão. Passaria novamente dali a dois dias.

 

Recomendei a uma amiga que assistisse também indicando que era verborrágico tipo um Woody Allen e baseado em uma peça da Broadway.

 

Eu teria reservas sobre ser baseado em uma peça, afinal dispositivos diferentes podem não contemplar suas aspirações ao mudarem de “casa”. Mas…

 

E para quase tudo na vida há um “mas”.

 

A intro é perfeita, um homem e uma mulher que se conhecem sem mais num hotel de beira de estrada americano. Risos, sorrisos, não ouvimos o diálogo (e o que importa este tipo de diálogo? como diria a personagem Doris depois, ele nem a estava ouvindo) pois toca o tal tema meloso e lindo e nesses momentos o que vale é a sintonia.

 

A sintonia! Ah, esta me é muito cara!

 

E, um elipse depois – aliás, a elipse neste filme encontra sua forma genial -, lá estão os dois discutindo. Não vou aqui me deter a escrever uma sinopse do filme, nem a contar a historinha. O texto é afiado, lapidado, perfeito. Os atores não deixam escapar nada. É preciso um elogio maior à direção de arte que soube conduzir uma história que se passa durante 26 anos com cortes bruscos, e conta os anos turbulentos de 1951 a 1976 com detalhes de deixar qualquer bom apreciador da sétima arte babando!

 

O poder de síntese da fotografia e do roteiro é que mais encanta, definitivamente. É uma história de amor contada no seu tempo, com as elipses de tempo transformadas em pura imagem, sem mais. Talvez algumas mentes mais recentes e pouco informadas não consigam acompanhar as referências, mas isso não deixa o filme datado: datado é o espectador mediano (ou abaixo da média) que não reconhece aquelas imagens, aqueles personagens, e, assim, não há de entender nada do filme.

 

Ele, ao contrário do que poderia parecer – e foi um dos meus receios – não é repetitivo. Pensei que o roteiro escorregaria na sua perfeição quando George pede Doris em casamento: mas, não, até ali ele soube ser tão genial.

 

Confesso que não entendi como, até hoje, eu não havia me deparado com esta pérola. É um daqueles momentos que você sabe porque ama o cinema, porque ele te atrai tanto, porque ele é tão múltiplo.

 

“Same time, next year” é uma versão da vida que não se encontra em qualquer lugar, a qualquer dia. É um filme que infelizmente não fez escola, talvez porque reparar nos pequenos pontos da vida não rendam boas bilheterias.

 

Alan Alda esta incrível.

 

E só para deixar na vontade e resumir muito bem toda esta obra-prima, cito uma metáfora (para o espectador atento, são várias!): Doris pergunta a George que horas são. Ele diz para ela ver no relógio dele. São 11h50 e ela fica surpresa, não achava que era tão tarde. Ele diz que, na verdade, ele está mais de três horas adiantado, então é preciso diminuir para saber o horário certo. Doris: se está quebrado, por que você não arruma? George: ah, sabe como é, a gente se acostuma.

 

É, nós nos acostumamos com o que está quebrado… e leva uma vida inteira assim. Não é um poema que diz isso?

 

 

Fui ao FAÇA e só me restou um delicioso “Ballet das Coisas”, de Bruna Granucci

Já faz um tempo eu, por motivos diversos, estive no FAÇA – Festival Audiovisual Catarinense (qualquer semelhança com o “Catavídeo” não é só mera impressão), na sua edição em Fpolis.

A primeira impressão que eu tive do evento foi “mais um festival”. Mas o que parecia ser o “lado bom” é que seria em três cidades catarinenses: Lages, Blumenau e Florianópolis – o que, de certa forma, poderia ser positivo porque finalmente descentralizariam este tipo de evento. Só não entendi, num primeiro momento, o fato da escolha das cidades e por que Joinville não estaria na lista – afinal, por lá não há curso de Cinema, como nas outras, mas ainda é uma grande cidade e teve, nos últimos anos, produções de destaque.

Enfim, em se tratando de audiovisual catarinense, a primeira impressão provavelmente será uma furada. Nada é tão inocente e puro como poderá parecer.

Eis que fui num dia assistir a todos do primeiro horário e depois alguns do segundo horário. Foi a primeira vez que eu pisei no “novo” CIC que, aliás, de novo não tem quase nada. Aviso aos navegantes: a entrada pela rua da Penitenciária não está aberta e é preciso dar uma volta linda para entrar pela frente. Lá dentro não há nenhum bar ou restaurante (vulgo lugar que venda qualquer coisa de comida ou bebida) e no dia nem água tinha. No “velho” CIC havia bebedouro e um cafézinho fuleiro para pseudo-intelectuais, mas que se você fosse emendar uma sessão na outra dava pra rolar um refrigerante e um salgado qualquer para enganar. Porém, não há nada disso atualmente. Já começou mal a noite, pois eu havia saído da aula direto para lá e a fome atacou, obviamente. O lugar mais próximo, segundo o atendente, é o Angeloni. Sem comentários.

Os banheiros realmente foram reformados. Estão maiores. O que me deixou curiosa foram as tampas dos sanitários, velhas, quebradas, sujas pelo tempo. Fiquei me perguntando se com uma obra tão grande e onerosa faltou dinheiro para comprá-las. Enfim…

Comprovado que as paredes do cinema são claras (oh, God!), sentei-me para assistir aos curtas.

Pensei se deveria colocar em ordem, um por um, ou se escreveria só sobre os que gostei ou que, por outros motivos, haviam me despertado a atenção. Enfim, falar de todos talvez seja desnecessário.

O único que me fez, ainda depois de tanto tempo, escrever este post foi o lindíssimo “Ballet das Coisas”, de Bruna Granucci. Dos outros, um comentário aqui, outro acolá, de todos, definitivamente, não tenho o que dizer.

“Ballet das Coisas” tem tudo o que um curta-metragem precisa, e é de encher os olhos. Uma decupagem em nada excessiva, uma trama simples e poética e atuações perfeitas para o mundo audiovisual.

A história é uma fantasia, e nem por isso afasta os críticos mais realistas. Afinal, meus queridos, o cinema é fantástico desde sua origem. Não vou me deter a pormenores da “história”, mas posso resumir que é o amor de uma boneca (ao belo estilo espanhola) pelo garçom do restaurante em frente ao antiquário onde ela mora.

Alguns detalhes fazem deste curta uma jóia rara, principalmente entre os seus concorrentes da noite. E por “detalhe” já começo minha crítica. Num curta metragem, plano detalhe só pode ser usado quando extremamente essencial para o drama. Excesso de planos detalhe sufocam a narrativa e as imagens perdem-se na paciência do espectador. Aliás, pretendo aqui deixar este e outro ponto bem claros – pois nesta noite os curtas que eu assisti me fizeram lembrar dessas questões. Plano detalhe tem um poder dramático, nunca deve ser usado num curta para “matar tempo”, como é, por sinal, usado por filmes longa-metragem (é muito fácil perceber num longa o excesso de planos detalhe para cumprir com um determinado tempo, alguns, inclusive, poderiam ser apenas média metragem). Ele precisa significar (e aí, queridos diretores, vão lá procurar os teóricos, aqui é só o meu blog, não dou aulas). Outra coisa que não é em especial para curtas é uma pontuação sobre a direção de Arte. Muitos filmes pecam pela direção de Arte que acha que é só escolher objetos, figurinos e cores e estar de plantão ali para colocar os objetos certos nos lugares certos em determinada cena. Não é assim. E, novamente, quem precisa saber que é mais que isso deve voltar às salas de aula.

Os objetos de cena, os figurinos, tudo o que compõe a imagem precisa ser estudado a partir de uma escolha de Arte, por isso “direção de Arte”. Quais as influências? Quais cores serão usadas? Quais linhas? Qual a concepção de “tempo” sobre o cenário, os personagens, os figurinos? Infelizmente muito ainda se erra nos filmes (principalmente brasileiros, em destaque os que gostam de uma imagem “retrô-saudosista”). Toda a concepção de Arte precisa ser pensada e arquitetada (aqui já deixo o gancho para um próximo post sobre storyboard, plantas baixa, etc.), planejada, levando-se em conta o roteiro, a construção dos personagens, a intenção dramática. Não é no dia da gravação que se escolhe qual carro será de tal personagem. Para quem não trabalha com cinema, nunca estudou, este tipo de coisa parece não fazer sentido, mas quem é da área deve(ria) entender do que eu estou falando.

Vou usar como exemplo oposto o curta “Qual queijo você quer?”, de Cíntia Bittar, exibido naquela mesma noite. Sobre os dois pontos acima, este curta vai na contra-mão. Ele tem excessivos planos detalhes (às vezes, uma obsessão do diretor/diretora) que, se pretendem servir para alguma coisa, é só para tentar ambientar ou “decorar” o cenário. Vejam bem, o cenário estará presente nas imagens dramáticas para compô-las, não é, necessariamente, um personagem. Transformar cada planos, cada elemento do cenário, em personagem é esvaziar a dramaticidade do enredo. Num curta, não há “tempo” para isso. No caso deste curta, o casal de idosos está em uma sala de TV cercado por um excesso (no sentido de exagero da Produção) de objetos que, juntos, deveriam compor uma longa trajetória a dois. A câmera desfila por vários e vários desses objetos para que eles se tornem personagens do drama ali representado. Contudo, é justo aí que se escancaram alguns problemas de uma direção de Arte, no mínimo, fraca. Vejam o detalhe da Bíblia. Obviamente, este e outros objetos passam pela cabeça de qualquer um que tem/teve avó. Contudo, a Bíblia ali presente é nova. Nova! Sem nenhuma marca de uso! E, detalhe ainda mais importante, ela é de um tipo gráfico bastante recente – eu ganhei uma igual a ela na minha primeira comunhão, cerca de catorze anos atrás, e, notem, a minha tem muito mais marca de uso (e nem sou assim fervorosa) do que a cenográfica. As Bíblias das minhas avós e a dos meus pais são em muito diferentes daquela ali. Pode parecer um detalhe bobo, mas aquilo ali gerou um desconforto em mim. O que, do drama do casal, já tinha me passado a forte impressão de um casal de idosos sendo retratado sob a ótica de uma pessoa jovem diante de um conflito contemporâneo, ali se confirmou. Pareceu um túnel do tempo para o futuro, “como eu me veria daqui a cinquenta anos”. Ao pecar pelo excesso de objetos de cena, o drama perdeu-se em objetividade e conexão temporal. Muitos objetos além da Bíblia cabem na mesma crítica. E da parte do drama, em nada me convenceu como uma história de velhinhos de hoje, mas sim de uma projeção futurística. Aliás, o enredo é bastante pobre pois cultiva o espectador levando-o pela mão e já antevendo quais as próximas falas e ações (muito poucas, por sinal). Clautrofobicamente ambientado em um único cenário (só nos créditos aparece a cozinha), ele perde em dramaticidade (e ganha em economia de gastos e tempo) e se ampara no uso excessivo de planos detalhe para tentar passar algo que seria muito mais “visível” se o apartamento do casal fosse acompanhando o diálogo. Os próprios atores parecem atados (ela teatral em excesso para a tela do cinema, ele intimidado pela atuação esbravejante dela) e precisam apelar também para os objetos além das falas simples e óbvias. O título, por si só, já praticamente conta a história toda. A atriz, que não me recordo o nome, fez recentemente uma ponta numa novela da Globo, numa cena (não acompanho a novela então não sei dizer mais nada sobre o papel dela) em que fazia a mãe de um noivo (havia a Carolina Ferraz em cena). Ali ela consegue ser atriz para a tela pequena, para o audiovisual, sem os excessos dramáticos do palco.

Vale ressaltar um incômodo sobre o curta “Qual queijo você quer?” que eu senti e já ouvi de várias pessoas: o acúmulo de “títulos” e “prêmios” que aparecem elencados antes do curta mesmo começar. São várias as participações e premiações, porém parece que a cada uma dessas são incluídas as nomeações numa nova edição. O que incomoda o público é, citando literalmente alguns comentários que li e ouvi, “se todos esses jurados e públicos elegeram este curta como o melhor, você também deverá gostar”. O “deverá” ali cabe como uma ordem. A sensação para quem vai assistir pela primeira vez é de desconforto, pois ninguém deve me dizer que pela trajetória que ele tem, eu sou obrigada a gostar. Como aqueles filmes que a gente pega na locadora e na capa do DVD vem “palma de outro disso”, “oscar daquilo”. E é por isso que é um excelente filme? É por isso que sou obrigada a gostar dele?

A planificação atenciosa e as escolhas de Arte zelosas fazem de “Ballet das Coisas” um curta fluido, cativante. A câmera não precisa ficar passeando pelo cenário para dar detalhes – nem dramáticos, nem de ambientação – e explicar nada. O “uso” dos objetos falam por si só, a quantidade também. A própria escolha da locação já consegue dirigir adequadamente o drama. Senti-me num pequeno vilarejo do mediterrâneo sem nem ter visto imagens externas ou tido qualquer indicação. O espectador entra na fantasia e consegue acompanhá-la sem esforço e sem ser guiado passo-a-passo. Um elogio à parte para o busto de gesso, personagem excelente e digno, suicida contundente. O movimento das coisas (seu “ballet”) não é óbvio, ao mesmo tempo que o amor da boneca pelo garçom o é. Nem a breve repetição de algumas frases alcançam a monotonia. O “tempo” dos objetos e do velhinho é próprio. Notável também a participação mais do que especial do pequeno gatinho laranja. A presença dele soa tão natural quanto espntânea e cheguei a duvidar de que estivesse no roteiro.

De certa forma, “Ballet das Coisas” prescindia de uma direção de Arte cuidadosa e especial. Contudo, nenhuma obra audiovisual pode abrir mão disso. Seja de qual gênero for. Tomemos como exemplo outro curta da noite (e um dos premiados), o “Vide Verso”, de Cristian de Ciancio. Mesmo se atendo a um cenário simples (exigência dramática) e com um enredo que prevê este espaço, a direção de Arte não cometeu nem excessos nem faltas. Os elementos esseciais para um drama tenso estão ali, o espectador facilmente identifica tudo o que precisa para construir o personagem. Não há nada além do drama e do personagem. O rádio (como produção sonora) é peça fundamental para ambientar (muito mais do que qualquer objeto de cena) a história. Reparem que no casal de idosos no apartamento nós nem temos a referência da TV, muito menos do áudio. Em “Vide Verso”, você não cai na desatenção porque os elementos de composição te prendem enquanto dramaticamente “nada acontece”, além, é claro, do suspense sobre o envelope. O crescente é uma opção de direção que nem sempre funciona, mas que ali é (auxiliado com maestria pela elaboração artística de um elemento essencial: o quebra-cabeças) angustiante e no tempo certo.

Caberiam alguns breves comentários sobre o “Babás”, de Consuelo Lins; “Sentidos”, de Samuel Moreira e Richard Maus e “Das Ocupações Instantâneas”, de La Osnofa.

O primeiro segue os melhores padrões do documentário brasileiro e acredito que é um deleite para os historiadores. O segundo é uma tentativa de dar vistas a quem não vê, mas sinceramente me senti muito desconfortável com um discurso construído previamente e recheado de referências visuais – o que me pareceu muito estranho. O terceiro é um ensaio visual e sonoro despreocupado, mas que captou alguns instantes belos (sonoramente e visualmente) abrindo mão de qualquer narrativa e nos mostrando a presença de uma câmera insuspeita. Não sei quem fez o “documentário” (se é para classificar nos tão discutíveis “gêneros”, eu colocaria como experimental), mas construí mentalmente uma viagem de mochileiros pela América do Sul, captada pelas sensações. Enfim, dos outros não vale a pena falar. Um sobre a perda do pai é chato e sem graça, outro sobre uma Alice assassina é entediante e uma animação boba e interminável que se pretende poética (e, pasmem, ganhou prêmio).

Aliás, aí é que mora o perigo desse tipo de “evento” em Santa Catarina.

Os prêmios foram vergonhosos. Como pode o próprio organizador ganhar prêmio? Como pode, aliás, ser produtor e etc. de obras concorrentes? Achei tudo muito estranho. Só não adentrei demais nisso para não ficar com mais nojo ainda. Uma dica: não misturar, na exibição, documentários, ficção, animação. Isso prejudica muito a obra. E digo com toda a sinceridade que assisti “documentários” muito melhores do que o tal “Fotossensível”, de kike Kriguer. Diante dos dois que eu assisti, este passaria longe de uma premiação – até porque eu também não o enquadraria em “documentário”, afinal é só um vídeo de família.

A velha “nata” (tem gente que adora nata, né? eu tenho ânsia de vômito só de ver!) de um grupinho do audiovisual quase não deve ter saído do palco no dia da premiação.

Não posso falar do eleito pelo júri nem do “melhor ficção” porque não assisti nenhum dos dois. Só sei que são famosos e o primeiro bastante popular. O “melhor ficção” não é produção recente (como o “Manhã”, do Zeca Pires, que é de 1989) e eu não achei muito correto isso, pois produções de épocas diferentes devem ser separadas também. Há muita coisa a ser levada em conta, tanto técnica quanto artística.

Um tal “prêmio estímulo” foi muito bem entregue para o “Vide Verso”. O “prêmio especial do júri” ficou muito esquisito. Pareceu “prêmio consolação para aqueles que nós queríamos que ganhassem, mas o júri popular não quis e tivemos que dar um jeito nisso”, vide a explicação do próprio evento no site “Pela diversidade e qualidade das propostas estéticas e narrativas das obras em competição o Júri Oficial do 1º Faça concede, além dos prêmios de melhor obra por categoria, Prêmio Especial do Júri.”. Engraçado o “pela diversidade e qualidade das propostas estéticas e narrativas”, pois um evento que se pretenda sério leva isso tudo em consideração para definir suas escolhas e as exibições. O que se perdeu no caminho? Se vocês olharem nos “jurados” e na “curadoria” verão uma propagandeação de tantos quesitos e seriedade que não traduz nada disso. Me nego a comentar as “menções honrosas”.

Tire um pouco do seu tempo e vasculhe o site. Veja o nome dos criadores, das produtoras envolvidas, coloque no Google-nosso-de-cada-dia e verá um mundo de conexões. Assim é o pobre audiovisual catarinense.

Por isso, raramente frequento este tipo de evento. E toda vez que eu perco meu tempo indo me decepciono ainda mais – normalmente com a organização, grupinhos, interesses. Mas desta vez “Ballet das Coisas” me fez perceber que há chance de se fazer boas coisas sem financiamentos astronômicos para projetos dialogados em uma única pequena locação, que ainda há quem saiba o que é uma boa Direção e uma boa Direção de Arte, que o curta-metragem tem peculiaridades que devem ser levadas em conta e que a Arte Audiovisual em Santa Catarina produz poucos e bons filhos – mesmo que nem todos rodem o país e o mundo.

(nem sempre o link funciona)

Muamba na Mostra Premium de Joinville

Em julho vi um anúncio de uma tal Mostra Premium patrocinada pela Petrobrás (sempre ela) que exibiria filmes e curtas nacionais gratuitamente em Joinville, no Shopping Müeller. Consultando a programação vi que os horários dos dois longas catarinenses que seriam exibidos não era convidativo: 10h. Os longas escolhidos foram os mais recentes, Muamba, de Chico Faganello e A Antropóloga, de Zeca Pires. Os curtas nacionais seriam exibidos em horário mais interessante, 19h, sábado e domingo. Pensei em ir assistir aos longas catarinenses, apesar do horário ingrato. Porém, me confundi e achei que o da sexta-feira seria o A Antropóloga, que na verdade seria exibido na segunda-feira. Com muito custo consegui chegar ao Müeller às 10h e lá estavam salgadinhos (eu sempre me pergunto como as pessoas conseguem comer fritura de manhã!) e as figurinhas de praxe do audiovisual catarinense. Fui a primeira a entrar na sala vazia e o filme começou atrasado.

 

Não recordo agora o nome do responsável pela Mostra. Ele foi lá no microfone, anunciou o filme (chamando o diretor errado), vi meu engano de ter trocado o dia dos filmes e tentei me resignar a assistir Muamba. Eu realmente não tinha interesse em assistir este filme, tanto que ele foi exibido no FAM ali pertinho de casa e eu não fui.

 

Em relação à Mostra tenho dois comentários: o horário dos longas foi muito infeliz, e a quase inexistência de platéia confirmou isso; o outro comentário é sobre a época da Mostra, julho, durante o Festival de Dança. A cidade fica realmente muito voltada à dança e eventos paralelos não terão nenhum destaque, talvez alguma época ou lugar onde possa ser melhor aproveitado pelo público seja mais interessante. Sei das implicações para organizar um evento como esse, mas precisamos desses eventos que levem as obras ao público.

Em relação a isso tive um infeliz momento com um que se diz jornalista aqui da cidade, Osny Martins, que na verdade tem um programa de variedades na rádio. Ele comentou no twitter que um vereador propunha propaganda pública nas salas de cinema. Eu respondi dizendo que mais valia eles proporem obrigatoriedade de exibição gratuita de obras como curtas metragens produzidos aqui – até porque Joinville começa a correr atrás do tempo perdido nesta área. E questionei a colocação dele de que “povão” assiste TV e “povão” não vai às salas de cinema. Bem, primeiramente devo colocar que o tal “jornalista” confunde “sala de cinema” com “cinema”, mas, enfim, ele não deve conhecer muita coisa. Em segundo lugar, um elitista como ele citar “povão” é vigorosamente discriminatório. Eu afirmei, e afirmo, que “povão” no modo discriminatório, assiste tanto TV quanto cinema. Infelizmente o dito jornalista não tem educação nem parece sair da sua arrogância antes de enviar mensagens privadas de desacato e agressão ao profissionalismo de pessoas que ele sequer conhece! Pois bem, eu discuto e sei que há outros lados, pessoas assim baixas não conseguem esta proeza.

Contudo, com mais algumas palavras dele percebi que “povão” pra ele é só “número”. Ele fez alguma relação de que, em número, a quantidade de pessoas que vai às salas de cinema na cidade de Joinville é menor do que a que assiste TV num dia. Bem, não lido com números. Outra questão é o “consumo” do cinema que não se restringe de modo algum às salas de cinema. Porém, discutir com um arrogante ignorante sobre o assunto tratado é em vão e ele, como um coelho assustado, fugiu do assunto. Realmente, o público dele é quem corre atrás de sorteio de torta e notícias sobre ibope da A Fazenda. Sobre cinema ele precisa ficar bem calado.

 

Voltando à Mostra, a iniciativa é louvável. Pois, como vemos, cinema ainda é elitizado pela elite! Ainda acham que ir assistir um filme é mais nobre do que ver a novela das 21h. Ainda há quem pense que o mundo é o seu umbigo e diga que “cinema é caro, eu só assisto o que “baixo””. Ó, santa ignorância! Fiz meu juramento de libertar da ignorância e faço questão de renegá-lo ao me deparar com seres como esses.

 

Minha decepção maior foi acabar assistindo Muamba, do Chico Faganello. Ele, aliás, estava lá e fez um breve discurso antes do filme. Lembro de duas coisas que ele disse: sobre a dificuldade de produção na época de 2008 durante as grandes enxurradas que o Estado sofreu (lembro bem, gravei um curta nesta época) – recordando sempre o Paredes numa aula da primeira fase: cinema é a arte de resolver problemas – e que a qualidade técnica dos profissionais envolvidos que eram aqui do Estado era excelente. Sobre a primeira, penso que nada justifica pois o que o Paredes disse é correto. Sobre a segunda, fiquei matutando que é verdade. Temos muito bons técnicos aqui no Estado. Porém, técnica nenhuma superará, na obra, a criatividade. E é aí que situa-se a minha implicação.

 

Sobre o filme? Cheguei a pensar em não escrever nada sobre o filme porque confesso que há pouco (ou nada mesmo) a ser dito. Sabe quando você assiste um filme tão ruim, mas tão dolorosamente ruim, que não consegue parar de falar dele? Pois é, Muamba não é ruim, porque nem isso dá pra dizer dele.

 

Durante a exibição, automaticamente pensei que o diretor tem alguma fixação por pernas femininas. Sim, elas, de algum modo, são protagonistas até o ponto de você preferir ver o antagonista, que, neste caso, acho que era uma coleção de aberrações. Roteiro difícil, truncado, sem ritmo – como normalmente acontece. Atuações instáveis. A tal qualidade técnica é exacerbada em imagens macro de insetos e afins, porém sem encontrar seu lugar nem na narrativa nem no próprio fluxo de imagens. Entre as aberrações estavam um anão, um muambeiro fajuto, um interior perdido no tempo e cenários ridículos. Aliás, acredito que só pode ter sido proposital a ausência de contexto temporal e a escolha dos cenários e objetos de cena. Algo que me lembrou e muito o próprio “estilo” do Chico Faganello quando professor, pois hoje ele aparenta ter um jeito meio “descolado”.

 

O excesso de objetos de cena incoerentes e a atenção que se dá a eles é cansativa. Os figurinos transitam no espasmo da ausência de contexto temporal e distancia definitivamente os personagens. Tudo ali parece ter sido escolhido para fugir de algo – dos clichês, talvez? – e obteve sucesso: fugiu tanto que se perdeu.

 

Num roteiro de clichê, não será a direção de arte que mudará o rumo. Nem a qualidade técnica dos equipamentos e dos profissionais. O pior é não poder nem dizer que o filme é no sense porque ele tem um roteiro presente (apesar de frouxo) que impede isso. Também não é “cinema do absurdo” (como um amigo classifica) porque não há absurdo, há só o ridículo.

 

Como eu disse, infelizmente nem a excelência técnica supera a criatividade. A sensação ao final é de aquilo andou, andou, querendo chegar além e foi muito longe que caiu em algum vácuo.

 

Quando o filme acabou eu e mais uns quatro adolescentes saímos da sala antes dos créditos finais, mas nos deparamos com a porta de trás fechada ao que que um deles diz: como se não bastasse tudo, ainda isso! Eu sorri.

Como se não bastasse aquele filme ainda queriam nos manter presos ali? Mas a tortura era completa! Logo, ouço aplausos. Porque elite que é elite fica até o final dos créditos e ainda aplaude!

 

E porque o cúmulo do cinema no Brasil é aplaudir o enorme esforço que é conseguir exibir um filme numa sala de cinema, independente de qualidade e de qualquer coisa! Sei lá, tem gente que aplaude o sol, né?

Os Homens da minha vida – Parte IV

Todos eles, menos um, me disseram que eu era a mulher da vida deles. Alguns disseram isso depois que eu já havia seguido outro rumo. Alguns disseram cedo demais.

Muitas vidas para uma mulher só. Na vida deles vieram muitas mulheres depois de mim.

 

Mas um, só um, disse que eu sou o amor da vida dele.

Porque, enfim, há coisas que a maioria nunca vai entender.

 

(Atualização de última hora: disse, mas não demonstrou.)

“o homem é a cabeça da mulher”

“o homem é a cabeça da mulher”

Folheando meu caderno de anotações encontrei esta frase que ouvi num dos últimos casamentos que fui. Aliás, parece que todo mundo resolveu casar este ano. E, definitivamente, eu serei a última a casar dentre todos que eu conheço. Tem gente que vai até casar de novo antes de eu resolver fazer isso. Porque é preciso pensar antes de casar, e se você realmente pensa, não casa.

Já me perguntaram tantas vezes se eu tenho algo contra casamento. Bem, digo e repito: tenho. Principalmente se for o meu.

Não tenho nada a ver nem julgo as escolhas dos outros. Reprovo a incoerência, é claro. Também não vejo com bons olhos atitudes inconsequentes.

Mas, leiam novamente a primeira frase. O casamento era sionista, a moça tinha dezesseis anos e era católica, o rapaz tinha nem vinte anos, acho, e a família já segue esta religião há tempo. Confesso que fiquei surpresa e me diverti com o casamento religioso. Certo, casamento não é algo para ser divertido, mas eu me divirto com cada coisa! O anterior, por exemplo, era católico e eu achei um casamento “show”, no sentido de que parecia mais um show com amiga da noiva cantando, declarações para esse ou aquele, santa entrando, outra cantando e padre fazendo piadinhas. O sionista tinha uma orquestra de trinta pessoas que ocupava metade do ambiente. As pessoas muito bem vestidas e sérias. Os pastores, completamente perdidos, anotaram na Bíblia todas as passagens que citavam as palavras “marido” e “esposa” e ainda leram um trecho do livro de Ruth em um contexto errado. Enfim, eu lá de vestido curto, cabelo curto, unhas roxas, destoava e recebia olhares assustados, por isso não poderia externar esse divertimento todo.

E as minhas amigas por aí se casam. Sobre isso nada tenho a dizer.

Porém, por que elas abrem mão da independência, da altivez, da individualidade delas? Eu conheci essas mulheres ainda meninas, meio mulheres, que faziam o que bem entendiam, iam e vinham quando e como queriam, estudavam, trabalhavam, tinham o dinheiro delas, ou dependiam do pai, aproveitavam a vida sem depender de um “sim” ou “não” de um cara. Elas tinham cabeça, e boas cabeças. Mas esses caras uma hora resolvem sair da casa dos pais, ou chegam perto dos trinta anos e decidem ter alguém para lavar a louça e as cuecas deles.

E é aí que não consigo entender. O homem é a cabeça da mulher? O homem manda? Entendo e temo que se o homem paga, ele manda! E isso eu sempre falei. Homem que sustenta se dá ao direito de mandar e uma hora isso vai ser jogado na cara.

Mas por que elas mudam tanto?! Por que elas ficam chateadas e me dizem que têm horário pra chegar em casa, senão ele liga perguntando onde elas estão? Por que elas se colocam no papel de lavar a roupa, passar, cozinhar, limpar a casa, e, ao final do dia, estão lá lindas e cheirosas?

Eu ouvia dizer que hoje não era mais assim, que isso era coisa da época das nossas mães. Mentira. É bem isso que acontece.

O que me entristece é ver que elas não são felizes. Vejo que elas embarcam numa situação dessas empurradas pelas circunstâncias e não porque escolheram ou desejaram. Elas vão aceitando, elas vão baixando a cabeça (aquela mesma tão altiva que vi tantas vezes ao pronunciarem suas escolhas), vão sentindo incertezas e seguindo o que ele decidiu.

Ser feliz também depende de escolhas, de saber dizer não.

Não discuti aqui, em nenhum momento, sentimentos. Nunca disse que o que elas sentem por seus respectivos não é verdadeiro, bom e importante.

Infelizmente, é preciso algo além de sentimento para decisões como casamento.

Eu tenho minha teoria pessoal que essas escolhas devem ser despidas de interesse, necessidade, circunstâncias, inseguranças.

Eu não acredito nem professo que o homem, seja ele qual for, é a cabeça da mulher. Essas mulheres que eu conheço têm cabeça, muita cabeça, cabeça boa e no lugar. E largam os estudos, a vida profissional que conquistaram, os desejos, as viagens, os sonhos por uma vida de amélia, por um homem. Pra mim, o homem que pensa assim e faz isso com uma mulher (a mulher que ele diz que ama) não merece respeito nenhum.

Nenhum homem é a cabeça de nenhuma mulher. E eu não quero vê-las infelizes por dez anos ou mais ou menos até redescobrirem aquela mulher que um dia elas foram, aqueles sonhos lindos, e decidirem retomar a vida que elas sempre quiseram.

Ah, só para não esquecer, é possível casar sem deixar de ser quem se é. Nem precisa virar a empregada do marido. É possível.

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