Tudo o que a indústria mandar, sir.

E não param de surgir comentários retardatários de quem assistiu a Spotlight. Voltarei ao Oscar? Sim. Fiquei ensimesmada como um filme tão sem graça, tão “fraco”, com um roteiro beirando à chatice, confusão, repetição e óbvio, além de pecar pela falta total de um bom drama (culpa das atuações, mas também das personagens) pode ainda levar as pessoas a se regozijarem com ele. Ah, mas ele levou os principais prêmios. Então eu é que estou errada. Não. Porque eu critico a indústria, e é só prestar atenção como ela funciona para entender algumas coisas. Spotlight eu continuo com a certeza que será um filme esquecido na História do Cinema, nas críticas, nos clássicos. Mas por que hoje ainda falamos dele?

Já expliquei aqui o que levou e leva as pessoas a assistirem e gostarem do filme. A História muitas vezes perdoa, mas o tempo não. Primeiro erro do filme foi o atraso em relação aos fatos narrados, coisa de uma década, não houve nenhuma proximidade com o escândalo, ele não traz, de fato, nenhum dado novo. Ou seja, não surpreende. Um filme sobre um fato real da História contemporânea precisa ter algum fator de surpresa ou elucidação, uma interpretação por algum viés interessante sobre aquilo que provavelmente todo mundo já conhece (pelo menos alguma coisa). Exemplo igual se vê no documentário da Amy Winehouse. Este serve só para os fãs enlouquecidos; aquele só serve para os fanáticos anti igreja católica. Mas a indústria sabia o que estava fazendo.

Sabe a máxima que diz “aquilo que você mais nega é o que mais diz sobre você” (ou algo assim)? É verdadeira. Além de acompanhar os indicados ao Oscar, também tento dar uma olhada nos renegados, naqueles que ficaram de fora e dizem que mereciam concorrer (Jennifer Aniston em Cake ano passado, por exemplo). Lembra da discussão sobre a branquitude do Oscar? Então, a cerimônia inteira foi um deboche pela luta dos negros (nos EUA) na Academia e na indústria – ano passado a Patricia Arquette fez um discurso sobre a disparidade entre homens e mulheres na indústria, até foi aplaudida, mas de lá pra cá sofreu represálias no trabalho por aquelas palavras tão verdadeiras. É assim que funciona, você aponta os erros e falhas dos outros e eles se esmeram em te responder com deboche (daqueles que fazem a pessoa parecer genial). Nunca gostei da cerimônia do Oscar em si, acho que só assisti umas duas do começo ao fim até hoje. Este ano foi uma delas. Assisti. E enquanto lia comentários de como a Academia soube se posicionar, eu via o ridículo.

Aliás, no dia seguinte me dei ao trabalho de levantar uma estatística. Os americanos estão perdendo seu espaço – e não é para os negros. Dos 38 premiados (em algumas categorias há trabalho conjunto) foram 23 não-americanos e 15 americanos (mexicanos, chilenos, australianos, britânicos, paquistaneses, etc.). Das principais, apenas ator e atriz protagonistas, roteiro e longa de animação foram para americanos. Os prêmios mais valorizados, a saber, Direção, Fotografia e Trilha, além de atores coadjuvantes, documentários, curtas e os prêmios técnicos foram para profissionais não-americanos. Surpresa? Não. Por isso a gente vê o que vê no sucesso que faz um Trump da vida. Parece, apenas parece, que os americanos já não são tudo aquilo no império que eles construíram. O Oscar foi internacionalizado. A indústria cinematográfica americana sobrevive – às custas de profissionais de alto calibre do mundo todo. Eles podem ter conseguido conter a presença dos negros (se foi algo intencional). Mas eles não conseguem mais conter o talento de pessoas de todas as cores do mundo.

Sobre a cerimônia, os principais momentos foram a apresentação emocionante da Lady Gaga num trabalho socialmente importante (que perdeu para o fiasco de apresentação e canção igualmente lamentável do Sam Smith) e o merecidíssimo prêmio banhado em lágrimas do Morricone (adorei o agradecimento anotado em italiano). De mais a mais, Di Caprio com um discurso balela levou o prêmio por um trabalho mediano de um ator também mediano.

É como Spotlight. Porque muita dessa gente que assistiu-o não assistiu Concussion. Sim, este me fez voltar a falar do Oscar. Com Concussion você entende como a indústria funciona. Como eles calam quem bem entendem. Filme com elenco negro Straight Outta Compton também tinha. Mas aí é aquela história do negro da periferia que se dá bem na vida (auto-ajuda americana “yes we can” das melhores com uma leve crítica à polícia). O filme do Will Smith (ele merecia a indicação, e foi este comentário que me levou a assisti-lo) é sobre a nova leva de negros que chegam aos EUA vindos principalmente da África. Não são escravos, não são ignorantes, não baixam a cabeça – mas, curiosamente, os problemas que eles enfrentam são os mesmos de séculos atrás. Além deste drama protagonista, este negro estudado bate de frente com uma das maiores indústrias dos EUA (tanto quanto a do cinema, talvez): o futebol americano. No filme eles conseguem calá-lo, mas o filme foi feito e aí a Academia também conseguiu calá-lo.

É mais fácil incitar a horda contra um inimigo odiado em comum, do que apontar que o seu maior prazer e entretenimento tem sérios problemas. É mais fácil você lançar às alturas o sucesso de um filme patético contra a Igreja Católica (que tem vítimas de pedofilia no mundo todo) do que olhar para o teu quintal e dizer para os teus filhos um sonoro “não” quando eles pedirem para entrar no time de futebol americano da escola – ou perder ibope e os patrocínios multimilionários das grandes finais. A indústria funciona assim. E aí seguem os iluminados e esclarecidos ao cinema para publicarem depois, nas redes sociais e blogs, sua indignação contra os casos de abuso dos quais tiveram conhecimento – o que em nada se aproxima da frieza “jornalística” do filme. Mas eles não sabem separar uma coisa da outra.

Defendo os crimes da Igreja Católica? Não. Diminuo a dor e o trauma das vítimas? Não. Estou me referindo ao filme. O filme é ruim, é fora de época, é medíocre, não se interessa em nada pelos dramas das vítimas, foi feito com intenção de lucro e só – tanto que não coloca o posicionamento atual da Igreja sobre o assunto. O filme é de uma falta de honestidade que me revolta. Amparado na utópica noção de isenção e outras baboseiras do jornalismo capenga, acha que faz denúncia e que tem uma boa história. Não faz nada pelas vítimas. Não faz nada pelo combate à pedofilia. É um embuste.

Enquanto Concussion mete o dedo na ferida. Diz, literalmente, o quão racista e criminosa é a sociedade americana e avisa que o futebol americano mata. Mas disso ninguém precisa saber. Até brasileiros são viciados nos grandes eventos do futebol americano, vejam vocês. A indústria só não pode perder seu lucro. E ela faz de tudo (e tão bem) para que isso não aconteça. O que não deveria me surpreender é ver até as pessoas que se dizem contra tudo isso que está aí (e sonham com aquele mundo igualitário e tal) aplaudindo os piores meios que a indústria utiliza para se proteger. A indústria cinematográfica americana não fez um baita filme sobre as vítimas dos abusos de alguns padres da Igreja Católica, com proteção e conivência dela, e jamais fará. Ela não tem interesse nisso. Ela critica a proteção que a Igreja deu aos seus, enquanto ela faz exatamente a mesma coisa com os seus interesses e lucros – assim como a indústria do futebol americano. A lógica é simples e mais velha que todos nós.

Enfim, Concussion é um filme surpreendente, Will Smith arrasa do começo ao fim, honra a cor da pele e todos os negros que têm adentrado as fronteiras dos EUA com o sonho da promessa de uma vida melhor. Chegam com diplomas, com a cabeça erguida e querendo fazer o melhor. Pena que a sociedade seja tão baseada nos interesses dessas indústrias que fizeram dos EUA a tal potência, porque a julgar pelas tais prévias das eleições os bons americanos querem, também, proteger-se. Como dizíamos anos atrás, ter um presidente negro não mudará (e não mudou) em nada a mentalidade e atitude das pessoas – a polícia não deixou de matar negros inocentes nas ruas. Sai um negro, entra um que quer exterminar mexicanos – que, aliás, ganharam dois dos maiores prêmios da indústria cinematográfica: Fotografia e Direção (Iñarritú, aliás, com o discurso exato sobre a situação, muito além de qualquer blábláblá ecológico do abraçador de Papa, Di Caprio, tentaram calar). O que será de Hollywood sem os mexicanos?

Enquanto isso, até a brasileirada estará por aí aplaudindo futebol americano, uivando contra a Igreja Católica, consumindo Di Caprios e suas balelas. Tudo o que a indústria mandar. Mas, claro, não assistem a novelas ou a Globo, porque, enfim, não são bobos. Aí já é assunto pra outra hora.

Maratona Oscar – Her

Falar em injustiça na lista dos indicados ao Oscar é clichê. Parece uma coisa de sorte mesmo. Tom Hanks, Robert Redford, Joaquin Phoenix, Emma Thompson são alguns deste ano. Mas a mais injustiçada foi a Scarlett Johansson. É uma situação complexa, a academia não indicaria a melhor atriz uma atuação que é só a voz da atriz o filme inteiro, ao mesmo tempo, não é qualquer atriz que aceita um papel desses e que, sinceramente, faz um trabalho excepcional.

Sim, estou falando de Her. É mera coincidência que os dois últimos filmes que me arrebataram são com a Scarlett. Ela é quase uma Marilyn em alguns sentidos. E talvez por isso eu goste tanto dela. Os dois papéis, em Her e Don Jon, são papéis que a maioria esmagadora das atrizes (principalmente as de primeiro escalão) dispensaria na hora. Scarlett não tem medo dos riscos da profissão. Scarlett é Scarlett, já fez seu nome, faz personagens que usam e abusam das suas melhores qualidades e adora um desafio. Ah, e dá entrevista dizendo que come um hamburguer daqueles cheio de ketchup. Ah, e tem fotos suas divulgadas na internet através de um hacker de celular e se sai com “Conheço meus melhores ângulos”. Scarlett é das minhas. Bem, chega de babação pela Scarlett, né?

Her foi amor – e não foi à primeira vista. Acompanhei algumas coisas que saíram na mídia antes do lançamento, mas quando fui assistir só lembrava que era com o Joaquin Phoenix (aiai…) e com a Scarlett (só isso já bastava para me convencer de muita coisa). Nem lembrava, como eu prefiro, da sinopse nem nada. E foi um baque.

Joaquin dando inveja em nós pobres mortais com um computador que digita o que ele fala (meu sonho de consumo há anos!). A humanidade não é assim tão esperta, ainda não inventou isso. E dando mais inveja ainda com o seu OS. Eu queria ambos.

É futurista. É melancólico (tudo que segue este padrão de futurismo tem isso, né?). É lindo. É uma fábula. E foi lá quase pela metade do filme que eu me senti arrebatada. Como não lembrar de Fahrenheit 451, o do Truffaut, aquele que bate e rebate com Teorema, do Pasolini, como meu filme favorito? Fahrenheit 451 é baseado na obra do Ray Bradbury, a qual eu ainda não tive a oportunidade de ler. Mas sempre quis muito ler qualquer coisa do Ray e eis que mês passado encontrei Os Frutos Dourados do Sol (numa edição do Círculo do Livro) na prateleira dos baratinhos do sebo. Her concorre com Melhor Roteiro Original, mas a concepção do futuro dele lembra e muito as obras do Ray – e Fahrenheit, é claro.

A melancolia, a solidão das pessoas, a relação com a palavra escrita, os avanços da tecnologia, o futuro sem localização temporal, em tudo isso há semelhança. Entre os filmes a fotografia e a direção de arte comungam também (e Her não foi indicado à fotografia, vejam só). Aliás, Her concorre em Direção de Arte e já é meu favorito (por mais que digam que O Grande Gatsby vai levar). E talvez por isso o filme não arrebate de cara. Joaquin está ótimo em mais uma escolha a dedo na sua tumultuada carreira.

Apaixonar-se por um OS num futuro próximo. Por aquele ser que faz praticamente tudo por você, via voz, que está ali quando você precisa, e que ainda é genial, compõe, lê Física, manda teu livro para um editor. Sexo? Também tem. E é sexo que não precisa mão aqui e ali, suor, roupas jogadas, posição X ou Y, mas, felizmente, não dispensa os gemidos e suspiros. Até do sexo “futurista” eu gostei. Aliás, gostei até do videogame realmente interativo. Lembram da TV interativa em Fahrenheit? Então, a proposta é a mesma, só visualmente que a realização é diferente. Fiquei pensando que, para além de uma tecnologia de ponta, pensam a interatividade com a tecnologia como algo a se concretizar no futuro. Ray já pensava na interatividade com a TV, em Her é com o videogame (e com os OS). Provavelmente será a mais frustrada das previsões para o nosso futuro, pois o máximo que conseguimos de interatividade hoje é telefonar para o Fala que eu te escuto e os comentários (infames) em posts e reportagens na internet. Ou seja, para chegar aonde a ficção (literária e cinematográfica) almeja, levará muito mais tempo.

Ontem ainda lia um conto do Ray que se passava em 2003 e as personagens estavam de mudança para Marte. Mas nos contos do Ray, e em Her, o futuro guarda muita semelhança com o nosso tempo. E a principal é com os sentimentos. O bombeiro que ateia fogo em Fahrenheit apaixona-se por uma moça subversiva e sente-se impelido pela curiosidade pelos livros, objetos proibidos. O personagem de Joaquin sente-se só, também apaixona-se (pelo OS-Scarlett), e tem todos os sentimentos contraditórios que só as boas pessoas têm num relacionamento. A moça do conto pretende viajar a Marte para se casar. Independente do futuro, o que move os personagens são os sentimentos.

Her é mais um ótimo filme com um roteiro pouco provável de fazer sucesso protagonizado pelo Joaquin. O cinema sempre conta tantas histórias de amor, às vezes precisa dar um fôlego novo para elas. E, de lambuja, fazer uma crítica ao mundo cada vez mais com os olhos (e o coração?) enfiados nos OSs da vida.

Só um comentário sobre Don Jon: é divertido! Levitt conseguiu realizar um trabalho de primeira. Só tem uma coisa ali que eu achei que poderia ser diferente. Não é futurista, Scarlett está em carne (e que carne!) e osso numa personagem das que mais se encontram aqui pelo nosso mundo, e é tão crítico sobre as relações pessoais quanto Her. Num papel relativamente pequeno mas muito forte, Julianne Moore, honra uma pequena parcela de mulheres (que nem sempre se encontram só numa “idade madura”) que ainda se encontram neste mundo. Se têm alguma coisa em comum? São ambos super sensíveis às coisas que se passam aqui dentro de muitos de nós. Porém, não se iludam, filmes não fazem as pessoas voltarem os olhos para aquilo que escolheram ignorar.

 

(ps: comecei este texto mais de uma semana antes da data de publicação, tive que interrompê-lo (coisa que detesto) por motivos de força muito maior; eis que tinha que publicá-lo e confesso que Dallas Buyers Club juntou-se à American Hustle – não passei dos primeiros minutos – e já assisti Save Mr. Banks e Prisioners (o primeiro sem muitos comentários, pelo segundo eu não dava nada mas valeu a pena, principalmente pelas atuações)

Maratona Oscar: 12 Years a Slave e a “selvageria”

 

E ficou mesmo a pergunta: quem falará mal de 12 Years a Slave? Confesso que fiquei incomodada com o filme. Talvez não tenha assistido com a devida atenção. Talvez tenha criado expectativas demais desde o dia que vi, ano passado, o trailer antes de algum filme no cinema – e só anotei o nome dele na wish list por conta do Benedict. Uma das pessoas que assistia comigo saiu na cena em que Patsy era golpeada no tronco. E é este o ponto.

Ontem mesmo, tendo assistido-o no domingo, me deparo com um texto do Escorel (sou sua fã, um dia ainda vou mandar um e-mail me declarando) que perpassa as dúvidas sobre 12 Years e cita um crítico americano que teve a audácia de criticar o filme. Havia, então, encontrado o incômodo que senti. Primeiramente, o protagonista não está nos seus melhores trabalhos. O personagem também parece não ajudar, pois titubeia demais e não se percebe no mundo no qual foi inserido à força – sim, é complicado criticar isso, pois trata-se de uma história real (aliás, veremos este ano também a enxurrada de “histórias reais” na corrida ao Oscar como foi ano passado?). O olhar estabanado e a testa franzida em quase todas as cenas perdem e muito a carga dramática necessária para a história.

O enredo é espetacular. Quando você se dá conta do que está acontecendo, fica de queixo caído – eu não fazia idéia dos fatos que a história conta. (não, eu não leio sinopses e este caso é um bom exemplo de como isso é bem melhor) Nas primeiras imagens que vi do filme pensei que seria meu candidato favorito disparado para fotografia. As cenas nos campos de algodão são lindíssimas, porém como parece ser uma constante nos longas-metragens que exploram boas fotografias, há aqueles planos que valem só e somente pela fotografia e desmerecem o drama – não sou fã deles de jeito nenhum. Momentos como o da passagem de tempo no qual vemos o gazebo pronto e os segundos durante os quais a câmera fica fixa em Solomon nos contando que ele aguarda a resposta à sua carta salvadora e a ida e vinda ao ponto do corte de cana merecem destaque e elogios à direção que parece lembrar que faz cinema.

E aí voltamos ao problema. O tal crítico americano parece até que foi banido depois dos seus comentários sobre o filme. Quando convidei uma pessoa para assisti-lo, disse o título e comentei que era um dos favoritos ao Oscar, já premiado, ouvi “ah, sim, por causa do Obama, né.”. E, sim, pois é. Há uma onda Oba-Obama. Há quem queira dizer que o filme não tem nada a ver com isso, mas considero difícil não ligá-lo a uma nova auto-imagem do público estadunidense. São raros os filmes que retratam a escravidão estadunidense de forma mais próxima e contundente. Aliás, acho até que nós temos mais novelas e minisséries que retratam isso do que eles têm filmes sobre. Acho justo comparar nosso produto mais vendável com o deles. Estaria a maior e melhor nação do mundo reconhecendo suas mazelas?

Eu cá pra mim nunca botei fé nessa onda Oba-Obama. Não, não acho que um presidente negro (ou um ex-operário e sindicalista ou uma mulher) vá mudar a mentalidade e atitudes das pessoas. Não, não acho que os racistas estadunidenses deixaram de sê-lo ou deixarão porque alguns tantos elegeram o Obama. E, sinceramente, nem acho isso nenhuma vitória política. Pra mim, investem-se em fachadas.

Então, e o filme? É preciso (re)contar a história dos negros nos Estados Unidos. O enredo é cinematográfico (aliás, há pouco tempo eu reclamava que não tenho sido surpreendida pelos roteiros), originário do livro que o protagonista escreveu. As atuações têm altos e baixos. Esperava mais do Benedict (talvez, como o George em Gravidade, esperava vê-los mais tempo na tela), todos os méritos vão para Patsy (Lupita Nyong´o, trabalho brilhante) e Edwin Epps (Michael Fassbender, um personagem difícil, às vezes pouco crível, mas com boas nuances) e o Brad Pitt (mais feio do que ele é, com cabelo e barba desgrenhados) numa ponta que pareceu só “sou o produtor e vim aqui fazer um discurso lindo sobre a liberdade (o personagem é canadense e acima do bem e do mal, ao que parece) e essa coisa toda de multiculturalismo e blábláblá que, vejam vocês, pratico na minha vida pagando por um filme desses e adotando crianças de quase todos os continentes”.

Dizia lá o crítico que o filme era quase sadomasoquista. E é esse o problema. A violência. Há uma linha tênue, no cinema, ao representar a violência para ser o mais próximo do real possível para aproximar o espectador da dor sofrida pelo personagem, fazê-lo quase sentir as atrocidades ali estampadas, e a violência que gera o prazer catártico do espectador – vide aí o exemplo de Tropa De Elite. Há quem saia do cinema dizendo que sentiu na pele as dores do Solomon e da Patsy ao serem violentamente agredidos (lembrando que o castigo físico, em ambos os casos, é para dobrar as almas deles, não é para eles sentirem “dor”). Porém, eu me pergunto, seria essa a dor pretendida? Quando o algoz chega a quebrar a madeira com a qual espanca Solomon nós sabemos que ele está batendo muito forte e que está lanhando gravemente as costas dele enquanto ele precisa submeter-se à perda da identidade, pois agora ele é Platt. Há, provavelmente, quem saia do cinema com a alma lavada por ver violência, pois vai até lá justamente por isso, para ver aquilo que ele gostaria de fazer nas ruas, mas por tantos motivos não o faz.

Foi aí que lembrei do Glauber Rocha. Violência no cinema sempre me faz voltar a ele – enquanto eu não me deparar com mais ninguém que fale tão bem sobre isso. O cinema precisa oferecer este menu que tanto oferece e nunca satisfaz o espectador? Sim, isso é Adorno e Horkheimer. O que 12 Years a Slave faz é oferecer violência. Tenho que concordar com o crítico, é violência e não é história ou História. Mas a violência que este tipo de filme oferece é aquela que não satisfaz, é a pura indústria cultural, porque o espectador vai continuar sentindo falta dela na sua vida. E por isso que simplesmente prefiro Glauber com a violência da percepção, com a violência da câmera, pois é algo específico ao cinema – senão, posso simplesmente assistir aos MMA da vida.

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Antes mesmo do filme, dois episódios me chamaram a atenção para uma questão de termos. Duas notícias de alcance nacional (e até internacional), a “briga” entre torcidas em Joinville e a matança dentro e fora dos presídios no Maranhão. Tenho praticado o afastamento das notícias, retirei todos os portais de notícias do meu feed do Facebook e instaurei outras práticas desde fins do ano passado. Tenho vivido melhor (inclusive com outras práticas que adotei, mas não vem ao caso). Contudo, em ambas as notícias uma palavra foi muito usada quando queriam descrever o que houve: selvageria. Discuti com uma pessoa quando ela usou esta palavra sobre o primeiro caso. Selvageria? Usamos “selvagem” para o animal que como naquela canção “só briga por comida e sexo”, os animais, dizem as más-línguas, são irracionais e agem por instinto (o qual, dizem, também possuímos). O animal selvagem, a natureza selvagem, são assim chamados porque não são domesticados ou tocados pelos humanos. Não vou arriscar a dizer que os humanos são os seres civilizados do planeta. O animal busca comida, briga por uma fêmea, não precisa de quatro paredes para fazer suas necessidades, mata outros animais para sobreviver. O animal selvagem não mata outro só porque ele prefere um galho diferente do dele, ou porque ele torce para outro time, ou porque ele tem um gosto diferente e prefere cruzar com um animal do mesmo sexo que o dele, aliás, animais não fazem guerras, vejam só. Sinceramente, seres humanos que fizeram o que fizeram naquele estádio e no Maranhão são só e somente seres humanos – não são selvagens, não são animais. Seres humanos são os únicos capazes disso no planeta. Faz um tempo comecei a deixar de usar termos pejorativos de animais aplicados aos seres humanos, pois os animais dos quais eu gosto tanto não merecem isso. É vagabunda, não é vaca. É sujo e não tem boa higiene, não é porco. É estúpido, ignorante, não é burro nem anta (eis o mais difícil de deixar de usar, pois costumo me chamar assim algumas vezes). É puta, não é galinha. Nem vou falar do “veado” e “macaco”. Vamos deixar disso de usar animais para tentar reduzir seres humanos ao que eles são: seres humanos. E, sim, a “selvageria” parece ser o argumento de 12 Years a Slave neste mundo entre brancos e negros.

“I´m not drunk, I´m just crying in english” a igualdade e suas Flores Raras

Na ida, subindo a minha velha conhecida Barão do Cerro Azul, reparei num casal. Jovens, recém passados pela adolescência, ele caminhava abraçando-a por trás, os dois agarrados, riam. Na volta, sinaleiro fechado, na esquina, paradas entre tantas pessoas, duas moças, da mesma faixa etária do casal da ida, de mãos dadas, carinhos e afagos pra lá e pra cá. Fiquei me perguntando onde estava, afinal, a diferença que tantos vêem. Casais são casais, simples assim.

Dias antes eu havia me redimido de um erro que praticava e que até citei num post do ano passado por aqui. Fui ao cinema assistir a um filme nacional. (sim, confesso, sessão dupla com um argentino, mas estou melhorando) Eu não ia ao cinema, mas, enfim, a vida se encarrega dessas coisas. A escolha foi Flores Raras.

E eu lá, sala praticamente vazia, sozinha no meu lugar de sempre, em alguns minutos de filme pensei: preciso escrever sobre ele.

Flores Raras não emociona. Flores Raras é um filme brasileiro majoritariamente falado em inglês, com atrizes estrangeiras (não estranhe o LEG no ticket do cinema). Porém, uma grande atriz brasileira quase subaproveitada no cinema e que divide o protagonismo da trama é quem garante excelentes momentos. Glória Pires é forte, se impõe, diva (como dizem) sem divar (sem a frescura que se espera de um papel ou de uma atriz “diva”).

Fiquei na dúvida, em vários momentos, se a personagem da Glória Pires – Lota, uma arquiteta auto-didata brasileira, responsável pelo projeto do Aterro do Flamengo no Rio de Janeiro e, para mim, mais uma ilustre figura da nossa História que eu desconhecia – não representava o papel clichê da homossexual “machona”. Muita gente ainda (e não é só por questão de preconceito) vê os relacionamentos entre lésbicas como uma “mulherzinha” e uma “machona”, aquela coisa de quem é o homem e a mulher da relação. Por ainda existir este tipo de visão que talvez tenha me incomodado que o personagem resvalasse para esta concepção. E foi o que eu mais li nas críticas por aí, que a relação entre ela e Elisabeth Bishop havia se dado pela força da primeira e fraqueza (ou sensibilidade) da segunda – e que, em determinado momento, se inverte. Sinceramente, este tipo de crítica parece esvaziar, minimizar a relação entre as protagonistas.

A relação entre Lota e Elisabeth é o comum – a maioria dos filmes, novelas e livros têm histórias semelhantes. Talvez um pouco diferente seja a relação com a outra ponta do triângulo, a colega da escritora e com quem Lota morava e mantinha um relacionamento amoroso antes de conhecer Elisabeth. O mais curioso no filme é que a qualquer momento você pode substituir a personagem de Glória Pires por um homem. Em outros tempos talvez um diretor o tivesse feito “inspirado” ou em “homenagem” à história real das personagens por receio de colocar um casal homossexual tão forte nas telas. Felizmente, apesar dos pesares da nossa sociedade, não foi o caso.

Pareço me contradizer, eu sei. Não é o lado “comum” da relação que esvazia a construção das personagens. É justamente assim que o filme alcança sua grandeza. É por tratar uma relação homossexual da forma como estamos “acostumados” (sempre desconfie dos costumes) a ver uma relação entre homem e mulher no cinema que ele esmiuça preconceitos e pré-concepções – talvez até aversões. Fiquei aqui remoendo um adjetivo para descrever como o diretor faz isso, difícil encontrar. Naturalizar talvez venha a calhar, digamos que ele naturaliza a relação homossexual ao equipará-la às relações heterossexuais que são maioria esmagadora nos filmes de ficção. Acredito que isso pode incomodar quem ainda abraça preconceitos.

Um ótimo exemplo são as (quase) cenas de sexo. Quando Lota e Elisabeth saem no jipe para ver as corujas e ficam sozinhas pela primeira vez, a personagem de Glória Pires a beija e rola uma mão boba. Numa outra cena, as duas se beijam com ímpeto e Elisabeth já menos “inibida” joga Lota contra a parede de vidro. É uma cena de agarramento, só isso. Na cena de sexo mais propriamente dita há o clichê do sexo oral, enquadra a personagem deitada com expressões de prazer e câmera frontal “em cima da barriga” focando o vazio e aparece o rosto da personagem subindo. Só isso. Assim, tão “hétero” quanto outro filme qualquer.

Num momento em que se exarcerbam as diferenças, eu tendo a admirar, ainda, quem aponta as semelhanças. Claro que seguinte a concepção de igualdade entre diferentes do Aristóteles. Mas me causa estranhamento e aversão (apesar de até conseguir compreender certos posicionamentos agressivos e sectários) querer diferenciar o negro do branco, o homo do hétero, o rico do pobre e por aí vai. Pode ser uma visão simplista ou até ingênua, contudo, ainda acredito que frisar e enaltecer as diferenças só aumenta o abismo já existente entre os “lados”. Se um filme exibe uma relação homossexual de forma mais crua, com o que ela tem de mais “diferente” (e aqui não vou me alongar nas possibilidades, mas ando curiosa com o Tatuagem, por exemplo), a probabilidade de aumentar o preconceito, a aversão e afastar o público é grande. Flores Raras faz justamente o contrário. Mostra com destreza que relacionamentos são todos iguais.

Se é uma escolha para torná-lo mais palatável ao gosto do grande público? Não sei. Vindo do Barreto talvez seja. Cabem críticas ao filme, sem dúvida. A única coisa que eu realmente considero que ele deixou a desejar foi a forma como tratou a questão política do contexto e a rapidez com que se deu o desenrolar final da história. Sobre o primeiro ponto há outras críticas por aí, na Cinética inclusive. O final conta com um melodrama de cartas não enviadas (não sei se ocorreu na história real) que parece desnecessário e bobo. Há um breve atropelo nas sequências após a briga delas em Ouro Preto. Foi o que me incomodou de fato.

Além do mérito de “naturalizar” (péssima palavra, mas me falta uma melhor) a relação homossexual, melhor ainda é a construção dos personagens. As três, Elisabeth, Lota e a outra ponta do triângulo (não recordo o nome), tem atuações e construções maravilhosas. É assim que se constrói uma relação num filme, com entremeios, altos e baixos, nuances. Tentar simplificar ou linearizar relações afetivas na ficção sempre soa falso. As pessoas não são assim – por que os personagens teriam que ser?

Se a intenção era agradar ao grande público, acredito que acertou. Mas também não desgosta aos mais impertinentes (como eu). Se é um bom candidato à indicação ao Oscar? Não tenho dúvida. Se é um bom candidato ao Oscar de filme estrangeiro? Acredito realmente que sim (e não só porque é falado em inglês, o que já pode ter sido feito pensando nisso, como bem sabemos). Não teria críticas à indicação, nem a uma possível estatueta. Aliás, acho muito concebível a indicação da Glória Pires. Apesar de a personagem da Elisabeth ter um maior destaque, Glória Pires encontrou uma força incrível em todas as cenas. Nunca fui fã dela, talvez prejudicada por papéis da TV que tendem a se repetir e os quais acompanhei pouco.

A locação da casa da Lota é linda. A história da criação do Aterro do Flamengo é interessante (Lota, inclusive, é acusada de elitismo ao pensar um lago como o do Central Park – e isto me lembra o próximo post – pois no Brasil ser acusado de elitismo por pensar e desejar coisas interessantes é comum). Eu gosto do ator que faz o Carlos Lacerda (e não sei o nome dele – já disse, sou péssima com isso). Apesar de poucas externas num Rio de Janeiro de época, ele em nenhum momento torna-se sufocante. As denúncias da nossa cultura são sutis, mas não passam despercebidas como a compra (literalmente) de uma filha para a ex da Lota – cena dura, que nos deixa desconfortável e ao mesmo tempo, ao acompanhar o crescimento da menina, nos faz ter aquele pensamento cruel “será que não foi melhor assim?”. Há, porém, algo que me fez revirar os olhos e pensar “mas precisava?!” (o que sempre me lembra uma mania de diretores de novela da Globo e do Olga naquela cena final na qual ela olha para trás, antes de morrer, e se vê criança): quando Elisabeth encontra Lota morta, há um corte para o Aterro do Flamengo e as luzes piscam (ou se apagam, não sei). Pra quê?!

Eu também não conhecia a obra da Elisabeth Bishop nem muito da relação dela com o Brasil. É intrigante acompanhá-la com os olhos de uma boa americana em terras tupiniquins. Como também é fácil ser despertado para a obra dela ao assistir como nasceram alguns versos. Tudo isso para além da discussão sobre as almas do poetas e criadores, suas fragilidades e crueldades.

“I´m not drunk. I´m just crying in english.” é só uma das célebres frases dela. Ao contrário do que faz o filme, marcando a vida de duas personagens reais interessantíssimas, Elisabeth diz, num certo momento, que os leitores não devem conhecer os escritores. Frase que me levou a vários caminhos – inclusive enquanto eu caminhava pela Barão do Cerro Azul. Ainda não cheguei a uma conclusão, mas seguindo um pensamento do Moravia, tendo a acreditar que os leitores nunca estarão preparados para conhecer os escritores. Enquanto isso, o cinema é mais eficiente em nos contar histórias sobre quem escreve – assim poupamos escritores e leitores.

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