O Big Brother, a novela das 19h, a covardia e os seus julgamentos

 

Essa semana eu pensei várias vezes em escrever um post sobre uma personagem da novela das 19h da Globo. Mas como o assunto passava perto (bem perto) de questões pessoais, eu relutei. Além do mais, alguns torceriam o nariz e diriam “mas você assiste novela?” ou coisas semelhantes. Aí me ocorreu um post um tanto mais descontraído sobre esses rótulos, justamente. Porque coloquei o disco de vinil da Angela Rô-Rô para tocar e pensei: um monte de gente já diria “essa aí é sapatão, ouve Angela Rô-Rô”. Como se o que eu ouço ou o que eu assisto determinam o que eu sou ou até o que eu faço da minha vida sexual.

 

Pois bem, acho que juntei tudo isso neste post que culminou com o Big Brother. Sim, o tal BBB. Se já torceriam o nariz ao me verem falar em novela, imagine em Big Brother, né? Pois é. Isso que eu vou contar para vocês que li a Veja ontem. Sim, podem pensar o que quiser. Li a Veja sentada em frente à TV sem som que passava o Fantástico e parei para assistir o Big Brother. Perdi a sua amizade por isso? Pois então não me fará falta.

 

Porém posso dizer que ouvi Norah Jones e li Stendhal antes de dormir. Nesse meio tempo vi e li muitas coisas. Porque se você me julga por isso, querido, precisa conviver vinte e quatro horas comigo para poder fazer um bom julgamento. E ainda assim este será deficiente. Aliás, você não suportaria esse tempo todo convivendo comigo, ouça o que eu lhe digo, não é fácil.

 

Mas as pessoas gostam de tentar te rotular, de tentar te atacar só porque ele acha que você é pedante porque vai para a aula com uma dúzia de livros debaixo do braço, mas quando chega junto pra que você dê para ele, aí você descarta. E aí chegamos ao assunto do começo.

 

Na novela das 19h da Globo, “Aquele Beijo”, a personagem da Giovana Antonelli, Cláudia, está em processo de separação do seu já ex-esposo (eles já não vivem mais sob o mesmo teto pois Cláudia decidiu separar-se após ver sua mãe ir presa inocentemente por conta de falcatruas do pai do personagem Rubinho, na época esposo de Cláudia e que sabia o que estava acontecendo, mas que não contou para ela). Houve separação de corpos e ela entrou com o pedido formal. Rubinho, no entanto, disse que não aceitava a separação (e aqui eu me pergunto: o que há para aceitar se a separação em si já é um fato?) e que teriam que seguir no litigioso.

 

Pois bem, situação mais comum do que a gente pensa. Mas, mais comum ainda é a sequência das ações de Rubinho. Citarei três: num capítulo, Cláudia está chegando em casa e ele surge ao lado da porta do seu apartamento, insistindo para entrar e questionando onde ela estava. Cláudia se assusta, barra a entrada da porta e diz que não lhe deve satisfação, afinal não está mais com ele. Bem interpretada por Giovana, a personagem fica visivelmente abalada e assustada, contudo ela, ao entrar (fecha a porta rapidamente para que o ex não entre) e encontrar com a mãe que agora mora com ela, não lhe conta nada; num capítulo seguinte, Cláudia está no primeiro encontro com o engenheiro que ela conheceu numa obra, eles estão num restaurante jantando quando do nada surge o ex, Rubinho, pergunta quem é o “cara”, diz que ela não pode fazer isso e numa primeira atitude agressiva, esfrega a cara do engenheiro no prato de comida, sendo retirado à força pelos seguranças, o engenheiro sai logo em seguida culpando-a por ter um ex assim e ela fica lá jantando sozinha; no capítulo seguinte, após contar para a mãe o que ocorreu (ela tenta erguer-se do fim de um relacionamento que durara anos), a mãe tenta encontrar justificativas para o ex, dizendo que é natural que ele sinta-se como dono de Cláudia pois eles tiveram um longo relacionamento e homens sentem-se assim, Cláudia, porém, não aceita essas palavras e ainda conclui que está sendo seguida por ele. Logo em seguida vemos Cláudia ao telefone, no seu lugar de trabalho que é a obra onde conheceu o engenheiro, o qual pede sua demissão pelo ocorrido. Eis que entra Rubinho e faz as perguntas descabidas sobre quem era o homem que estava com ela, que ela era dele e coisas afins. Cláudia se nega a concordar com ele e ainda tenta mostrar que ele causou um problema profissional para ela, ao que Rubinho a agarra com as duas mãos e diz palavras agressivas, diante do susto e do medo, Cláudia fica paralisada. O escândalo chama a atenção dos operários que se colocam para defender Cláudia, assim Rubinho vai embora.

 

O texto do Miguel Falabella é muito bom e me parece que esta sequência terá ainda um crescente. Um crescente, creio eu, um tanto familiar. Como eu disse, é algo pessoal, já passei por isso. Pensava em escrever aqui pedindo que meus leitores dessem uma atenção especial às notícias diárias sobre exs que matam, sequestram, assediam, agridem as mulheres que ousaram dizer “não, não quero mais”. Não são poucas, tenho certeza. São muitas mais do que podemos imaginar. A situação em si já é grave, mas mais grave ainda é não denunciar. É calar-se. Você cala por vergonha, por susto, por medo. Se você se vê como uma mulher dona do seu nariz, como pode se ver numa delegacia dizendo a um policial que quer fazer um BO porque tem um homem lhe perseguindo? Parece simples, mas não é. Lhes garanto que não e compreendo o silêncio dessas mulheres. Como Cláudia, muitas vão tentando ignorar, sentem medo, esperam que aquilo acabe por si, que o idiota acorde num belo dia e a esqueça para todo sempre. Isso, infelizmente, não acontece em muitos casos. E diriam, como a mãe de Cláudia: homens são assim. Pois então o problema são eles, quem precisa de cura ou de solução são eles: nós não. Mas quem precisa se rebaixar e ir a uma delegacia (onde normalmente nada é feito e só alimenta a frustração) somos nós. Nós?

 

Há a esperança que lhe prende e não lhe permite tomar uma atitude mais severa. Há uma ferida no ego ter que desprender-se de si para rebaixar-se ao nível de que aquilo que o outro faz não é correto nem bom. O homem? Primeiro há o desespero e as atitudes ligadas a isso; depois há a percepção de que a rejeição é real, e aí o pior que há no sexo masculino transborda: a covardia e a agressividade. O homem se ampara na sua “natureza” como disse a mãe da Cláudia para justificar a covarida diante daquilo que não vai mudar e como já não há nada mais a ser feito ele só consegue agir, o que significa violência e agressividade. É o velho “tomar à força”. Homens são repugnantes por isso. Mas, mas, mas… dirão que estou generalizando.

 

Enquanto a mulher sente-se impotente o homem usa de toda a sua “potência”.

 

E aí eu vou ligar diretamente com o Big Brother. Programa da mesma emissora que já faz e ainda faz (para desgosto de muitos) muito sucesso no Brasil. Acho de uma hipocrisia sem tamanho quem hoje tanto critica mas já foi lá seu fã. A esmagadora maioria dos brasileiros já assistiu alguma temporada do Big Brother. No começo, acho que a curiosidade e o estrondo levaram muitos de nós a assistir. Porém, hoje muitos assistem porque querem ver barraco, putaria e coisas afins. A própria produção do programa deixa claro que visa isso. A escolha dos participantes (não é quem quer ganhar um milhão de reais e por consequência aparecer, é quem quer aparecer e por consequência ganhar um carro ou dinheiro), as festas regadas a muito álcool, o número reduzido de camas, as intrigas. O nível moral do Big Brother foi sendo construído ao longo de algumas temporadas, somou-se o que o povo mais gostava de ver com o que os participantes ofereciam. Bem, diante desta equação é óbvio que o resultado foi o mais baixo e constrangedor possível. Se eu estivesse lá, provavelmente não haveria sexo em frente às câmeras; se você estivesse lá, provavelmente não haveria mentiras. Por isso, eu e você não somos escolhidos para o programa. Simples assim.

 

Diante destas colocações, não há boas coisas à espera. Contudo, o ser humano é foda. (desculpem-me pelo palavrão, ele foi necessário)

 

Ontem a internet pulsava frenéticamente acerca de o que foi chamado de “estupro” e aí muita coisa foi exigida (as massas, na internet, exigem alguma coisa?) e escrita. Resumindo: uma participante (catarinense, por sinal, mas que eles chamam de gaúcha porque mora em Porto Alegre, Monique Amin (!)), bebeu, bebeu e bebeu na festa – ou seja, fez seu papel – e caiu na cama apagada. Logo, um rapaz que só sei o nome, Daniel, deitou ao seu lado e nitidamente teve algum tipo de contato sexual com ela (debaixo dos tais edredons). Se foi masturbação, se foi bolinação, se houve ou não penetração (li em algum lugar algo assim “nem houve sexo, os dois estão o tempo todo de lado” – oh, wait! que tipo de vida sexual tem uma pessoa que diz isso?!), não se sabe nem se saberá. O que se sabe é que a tal Monique de nada participou conscientemente. Poderíamos saber a verdade caso o tal Daniel fosse uma pessoa correta e sincera, porém, tudo já demonstra o contrário.

 

A Globo, que não é boba nem nada e sabe que internet só é para poucos, ainda, fez seu procedimento normal, chamou a Monique, fez suas perguntas e, não pasmem, continuou como se nada tivesse acontecido. Não houve estupro (e a discussão jurídica acerca da coisa foi enfadonha), tudo continua como antes, a moça disse que sabia o que estava acontecendo. Aham… sabia. Sabia tanto que foi perguntar para o tal Daniel e questionou uma colega “será que eu fiz?”. Ah, o Daniel… a resposta dele: você fez alguma coisa que não queria? Ela: não! Então está tudo bem, diz o rapaz.

 

Homens, não é mesmo? Eu assisti o programa à noite curiosa por como a Globo apresentaria a questão. Uns seis segundos da cena do edredon, um “o amor é lindo” dito pelo velho ridículo Bial, as perguntas de uma Monique que demonstra estar completamente alheia ao que aconteceu e uma cena em particular: o tal Daniel agarra com força uma moça (que eu obviamente não sei dizer quem é) durante a festa, puxando-a ao encontro do seu corpo e forçando um beijo, ela não gosta, tenta se afastar, nega, vira o rosto e diz “me deixa ir, pode me largar?” algo assim.

 

Esse Daniel não é bonito. Ele é feio. Não que isso importe para a maioria dessas mulheres que vão para a balada. Ele demonstra claramente que está no Big Brother com a cara dizendo “aqui vou pegar muitas, afinal o programa quer isso: todos se pegando”. Somente pela atitude dele com a moça durante a festa já diz quem ele é: mais um homem idiota, desses não faltam no mundo. Ele é um homem idiota que acha que toda mulher deve lhe dar. Sim, “dar” no sentido sexual. Porque os homens são assim. Eles cresceram assim, você os educou assim. Você, pai e mãe ausentes e irresponsáveis, nunca chegou para ele e mostrou que não era assim.

 

Eu tenho fatos pessoais sobre essas questões, e você, mulher, que me lê, pare um instante e puxe pela memória, certamente também encontrará alguns. Eu disse “não” a alguns homens. E vi a cara que não compreendia isso, como se para eles as mulheres fossem feitas para simplesmente obedecê-los. Bem, tenho um histórico ruim porque nem aos meus pais eu obedecia. Não seria a um marmanjo que acha que eu tenho que dar pra ele que eu obedeceria.

 

O Rubinho, lá da novela, é um personagem. O Daniel é um cara aí, normal. Poderia ser seu filho, seu namorado, seu pai.

 

Daniel foi rejeitado. Por beleza física ele está abaixo de muitos ali e talvez as mulheres (que também não são lá muito bonitas) não lhe dessem chance. O que ele fez? Seguiu o processo e agiu – com covardia e uma dose de agressividade. Agressão não é unicamente dar um murro na cara do outro, a agressão vem de muitas formas, pois se ela se apresenta até em palavras, por que não seria agressão manipular o órgão sexual de outra pessoa enquanto ela dorme? O covarde utiliza-se da agressão para sanar sua nulidade, e aí podem ser palavras, perseguições, o uso da força, a manipulação, a chantagem física e psicológica, etc..

 

Eu poderia contar uma dúzia de fatos para vocês, assim tornaria mais íntimo e pessoal o post, porém, não adentrarei neste nível de relato porque o ego fala mais alto. Bastam estes exemplos, de uma mesma emissora que usa suas novelas para condenar abusos e educar a população (os autores mesmos gostam de dizer que incentivam doadores de medula, que incentivam mulheres a denunciar casos de agressão familiar, etc.) e ao mesmo tempo dá ao povo aquilo que ele gosta, no nível que ele gosta.

 

Foi inevitável que ontem, ao tirar a colcha da cama, ainda um tanto chocada pela edição do programa do Big Brother, com o Stendhal debaixo do braço, eu lembrasse carinhosamente de Nelson Rodrigues já citado aqui no blog: se todos soubessem da vida sexual de cada um, ninguém falaria com ninguém. Nelson tem outras grandes análises do ser humano (o complexo de vira-lata, a burrice da unanimidade, dentre textos que relatam com detalhes sórdidos personagens nesses níveis que, caso fossem pessoas do nosso conhecimento, não teríamos coragem de falar com elas). E você tenta descobrir minhas opções sexuais através da música que eu ouço. Francamente! Você passa longe, bem longe, do Nelson Rodrigues.

 

Você tenta julgar meu caráter pelos programas de TV que eu assisto. Minha cultura e nível de conhecimento avaliando se eu leio Sidney Sheldon ou assisto Godard. Você aí que pode ser um homem dos mais clássicos, um Daniel. Ou você que está com a aliança no dedo, namorando ou noiva, de um… Daniel. (talvez você já desconfie que ele é um Daniel, ou ainda não tenha a menor idéia disso e provavelmente só vai descobrir tarde demais)

 

Confesso que a primeira coisa que me ocorreu sobre o caso do Big Brother foi que não havia nada de mais na situação, pois isto acontece todos os dias, em baladas e festinhas no mundo inteiro, todos os dias. Você mesmo talvez já tenha participado de uma dessas (eu nunca participei de festas ou baladas, por isso nunca vi com meus belos olhos castanhos, mas, né, felizmente tem coisas na vida que não precisamos ver para crer). Moças bêbadas (beber até perder os sentidos é um atestado de “você é boazuda/o” no mundo) que caem inconscientes no meio da festa e rapazes que (muitas vezes também bêbados) abusam delas é tão comum, só não saem nos noticiários como as mulheres assassinadas pelos seus exs. E o que é comum, já se sabe, toma para si uma garantia de “normal”.

 

Não gosto do que é normal. Nem do que é comum. Não gosto. Por que haveria de gostar, não é mesmo?

 

Bem, aos que julgam, eu poderia citar o caso de amor da Campireali pelo Banciforte do Stendhal, onde há, nitidamente, mais um Daniel de outros tempos, que a corteja, a exije e a humilha para mostrar que é seu dono. Os Daniéis e as Moniques têm origens muito antigas e nem por isso estão certos. Porém, preferi citar o Big Brother e a novela das 19h. Suas condenações não me dizem respeito.

 

(Nota: eu tento assistir a novela das 19h do Falabella porque eu gosto do texto, mas como todo programa de TV que eu tento assistir tem o problema de eu lembrar quando passa e tal, porque o relógio e eu não nos entendemos; não assistirei ao Big Brother, podem ficar tranquilos, e acho que quem ficou “de cara” com a atitude da Globo deveria simplesmente parar de assistir, afinal, para ver pornô (muito mais interessante do que o que eles oferecem) tem tantos outros meios. Assiste quem quer e só. Ainda não terminei de ler o Stendhal. Ouvi Ultraje a Rigor também ontem. E eu ainda me apego MUITO ao Nelson Rodrigues porque, como eu sempre digo, quero continuar falando com vocês, meus queridos.)

 

 

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