Joinville, o mirante, o descaso, os amores, o risco e as fugas. Escrevo porque posso.

Eu poderia passar sem essa. Não, eu não poderia. Não suporto sofrer auto-censura baseada em opiniões e julgamentos que os outros fazem a meu respeito. Já tive que ouvir até um “você não pode falar porque mora em Fpolis, não aqui”. Acho tão lindo que alguém saiba mais onde eu moro do que eu mesma. Nem eu sei onde eu “moro”. E aí me pergunto, então, se tenho endereço (rá! querem saber? eu tenho endereço em quatro cidades! então posso falar de todas, certo?!) em Fpolis não posso falar do Rio, nem de Mafra ou de Joinville? Pois bem, falo de onde eu bem entender. Falo quando eu penso que tenho algo a falar. Se os dignos “moradores” (muita gente só tem um endereço, tadinhas) de um lugar não sabem ser críticos acerca do seu entorno, entendam: o problema não é meu. Podem dizer que curitibano é bairrista, e somos mesmo! Digam, também, que o típico joinvilense tem características bem definidas e uma delas é você não poder criticar a cidade deles. Meu irmão era desses. Antes de qualquer consciência sobre o “típico joinvilense” eu já discutia horrores com ele (vê lá, não é a maior cidade do Estado, é só a mais populosa, a maior em território é Lages – nunca entendi porque os joinvilenses se agarram ao número populacional e ao título, enfim…), como volta e meia vejo a careta que minha mãe (nem tão típica, mas joinvilense) faz quando eu critico alguma coisa.

Quem me acusou de nem morar aqui foi a amiga virginiana que deixou de falar comigo por discussão política na última eleição. Ela defendia o candidato da igreja, vejam só, aquele que prometia meia dúzia de elevados e que nunca sequer fez uma proposta para o ridículo terminal de ônibus do centro. Essa amiga só anda de ônibus a vida toda dela aqui em Joinville. E eu perguntei pra ela: como tu pode votar em alguém assim? Ela teve que concordar! O terminal de ônibus (não só do centro, mas alguns dos bairros são, pelo menos, mais novos) do centro é a coisa mais ultrapassada que eu posso imaginar, desde que me entendo por gente é o mesmo! Trocaram o telhado ali faz alguns anos, mas não mudou nada! Esse é só um exemplo, não é o principal para hoje.

Sobre eu morar “aqui” ou “ali”, lhes digo que nos últimos dois anos, por motivos pessoais e avessos à minha vontade, tenho passado bastante tempo por aqui (sim, encontro-me faz alguns dias em Joinville). Nos anos anteriores estive mais afastada, mas sempre presente.

Sei que Carlito ganhou, novamente, destaque na imprensa por conta dos seus “últimos dias” como prefeito. Criticá-lo parece bater em cachorro morto, é verdade. Ele será para sempre, pra mim, o babaca que deixou retirarem as azáleas dos canteiros da JK. Sim, aquelas azáleas lindas, sempre floridas no inverno, barreira natural para pedestres afobados, que existiam lá desde que eu era criança. Foi ele também que deixou colocarem aquelas cercas dentro da rodoviária (esta abandonada desde a última reforma feita pelo Luiz Henrique) que não servem para nada. Foi durante o mandato dele que vi as ruas da cidade virarem mato.

Ontem tive que fugir de casa. Pois é, fugi mas tinha que voltar. Enfim, isso não vem ao caso. Saí andando rápido sem destino (por aqui posso andar de olhos fechados, como, aliás, eu fazia ao voltar da escola). Para onde ir quando se quer fugir de tudo e todos aqui? É difícil. Não tem praia. Tá, eu sei, tem. Mas eu não iria à pé até a Vigorelli ou ao Morro do Meio. Ah, sim! O zoobotânico! Lugar com mato, lago, bichos, pouca gente. Ou, quem sabe, o mirante? Para quem não sabe, sou apaixonada pelo mirante de Joinville. Claro, ninguém sabe disso. Mas, dizem, o mirante está interditado… desde quando? Desde sempre.

A missão era ir até o mirante. Na volta uma passada pelo zoobotânico (sempre me dá vontade de ir às segundas, coincidentemente, e nesse dia não abre). Eis que desacelero o passo ali pela Casa da Cultura, um dos lugares que mais tive o prazer de frequentar na vida. Me bate uma tristeza enorme toda vez que passo ali e a vejo fechada, abandonada. Ela foi interditada já faz algum tempo e nada de reabrir. Sigo e vejo mais movimento de pessoas do que eu gostaria. Lembro minha mãe dizendo que tomava banho ali naquela pequena barragem um pouco antes do zoobotânico. E eis a surpresa (ou não): pessoas chegando no portão do zôo e voltando. Alguém ali dizia o motivo de estar fechado. Eu nem ouvi, segui em frente. Já estava posto a tônica do governo Carlito: fechado. Foram escolas, Casa da Cultura, Museus, zoobotânico… tudo fechado por falta de manutenção, interditado, abandonado. Outro exemplo: o cemitério dos Imigrantes. Perdi a conta de quantas vezes fui lá e o portão fechado (apesar da placa com o “horário de funcionamento”), hoje pensei em ir lá, mas não sei se tenho vontade de dar com a cara no portão novamente. Ah, Museu Fritz Alt, que a maioria esmagadora do povo dessa cidade sequer conhece: fechado. A última vez que fui lá saí com o coração apertado. É um crime não conhecer. E está lá “em reforma” e abandonado. Mas se as pessoas nem conhecem, como poderiam condenar o abandono?!

Sigo e passo pela placa “perigo em obras” “acesso restrito”. Eu só paro diante de placas assim quando acompanhada por pessoas chatas, bundões em geral. Como, aliás, foi o caso da penúltima vez que estive no zoobotânico. Enfim, segui. A mudança foi drástica. O caminho que leva até o mirante era de terra na maior parte, até encontrar a antena lá em cima. Agora é toda ela iluminada (pelo menos há lâmpadas, desci já passava das 19h e não vi nenhuma acesa) e com paver na calçada e via. Ah, é uma “trilha” um pouco urbana no meio do mato. Minha alegria: não havia ninguém. Só perto de uma casa que tem ali havia dois meninos. E ela sobe, sobe… tão vazia que tirei a blusa ensopada de suor e segui só de sutiã em meio ao mato com vento refrescante.

Quando eu estava pensando em fazer isso novamente (tinha uma foto em mente para fazer), lá na última subida, quase chegando, vem um ciclista. Tiro uma foto aqui, outra ali e sigo. Lá em cima há o pedaço de uma placa onde se lê “perigo” e “acesso aos funcionários da obra”. Chego, o cara da bicicleta (ele tinha uma garrafa d´água!) faz a volta e desce, fotos para cá e para lá, relembro desde a primeira vez que lá estive e chega um carro. Um homem e uma mulher. Os dois de cara sobem no mirante. Penso cá com meus botões: eles são reforçados, espero aqui e vejo se vai cair, se não cair eu subo. E eu subo. Relembro cada vez que subi ali. Lá em cima aproveito um sol lindo, uma vista maravilhosa, vejo o quanto a cidade cresceu para a parte “de trás”, sim, o lugar mais lindo da cidade. Logo, mais um casalzinho, de carro. Depois eu desço e começo a me divertir. Sento ali no banco que pode cair a qualquer momento e resolvo observar as pessoas. Todo mundo sabe que tem bons e baratos motéis em Joinville. Mas uma fugidinha para um lugar êrmo deve fazer a cabeça das pessoas. Toda vez que vou para lá encontro os vestígios desses amores fugitivos. E dá-lhe chegar casal, dar uma volta, e ir embora. Já era lá pelas 18h, então o movimento tinha razão de aumentar. Além de observar as pessoas, reparei na sujeira que predomina, num portão ridículo que estava aberto sem impedir o acesso, em cercas de plástico há muito arrancadas, em grades que já não existem e oferecem risco real. Lá em cima, com um vento leste forte, reparei que o mirante mantinha-se firme – muito mais firme do que das últimas vezes. Ele resiste.

Logo chega um uno, um homem e umas cinco crianças pequenas (a maior não devia ter dez anos). Ele liga o som, toca Raul Seixas, abre uma cerveja (e eu me derretendo por um copo d´água!) e as crianças sobem e descem correndo, descem ali atrás do banco, sobem e correm por tudo. Ele nem aí. Pelo que entendi nem era o pai delas. Acende seu cigarro e fica ali, urina do lado de lá do carro. uma criança corre até onde não tem mais cerca de proteção e diz “se eu cair daqui será que eu morro?!” ao que uma um pouco maior forja empurrá-la. Ao observar tudo isso me lembrei daquelas grandes tragédias que a imprensa cobre de vez em quando. “Criança morre ao cair do mirante em Joinville” e aí viria todo o drama de um lugar da cidade supostamente em obras estar abandonado e gerando risco para as pessoas. Bem, quando subi no mirante tuitei: se eu morrer, não haverá indenização. Eu estava lá por minha conta e risco, ciente da situação. Como sou um tanto cética quanto ao mirante estar prestes a desabar (como disse, sempre ouvi isso), subi. E, também, ontem estava com a frase “quando eu morrer” desde quando acordei, ou seja, um tanto mórbida. Como poderiam responsabilizar alguma coisa ou alguém quando um babaca daqueles permite que crianças sob a sua responsabilidade façam o que não pode? Volta e meia é esse tipo de situação que gera as notícias dramáticas, mas aí só vale explorar a dor. Desse babaca só agradeço pela trilha, fazia tempo que eu não ouvia Raul e Maluco Beleza caiu como uma luva para o meu dia.

Nesse meio tempo cerca de cinco ou seis pessoas subiram até ali e desceram, pessoas que só estavam fazendo exercícios. Alguns carros e seus casais, duas motos. Logo chega um homem de carro alugado, tira foto daqui, dali e sobe. Eis que surge uma moto. O cara desce e me diz “Não pode ficar aqui, moça. É um perigo, tá tudo fechado, tem placa, não pode subir.”. Eu levanto para sair, né. Ele “Está sozinha, não é pra subir!”. Eu “Eu só estou aqui sentada, estou sozinha. Tem um cara lá em cima.”, ele “Ah, então desculpa, moça. Pode ficar. Só não pode subir. Só pode vir aqui pra fazer caminhada, subir é que não pode.”, eu “Mas eu passei lá embaixo e o cara não falou nada.”. Ali depois do zoobotânico há uma corda barrando a entrada de carros e uma guarita, onde havia um homem que não me impediu de subir.

Eis que ele chama o cara lá de cima, ele desce, diz que “não viu placa nenhuma” (aham…), só tirou fotos, pede desculpa. O guardinha da moto diz que o portão ali foi arrombado ontem (aham, sei…) e que não pode subir, que é um perigo, que está pra cair. O cara do carro vai embora, o guardinha sobe e chama o casalzinho que está lá. Aí chega um carro com placa de outro Estado cheio de gente e uma moto com dois. O guardinha desce e diz que não podem subir, que está interditado. Olha pra mim e diz que vai fechar o portão, eu levanto e vou saindo. Só ouço a voz alta dizer para os turistas “Não pode, não, pessoal. Está fechado. Vou fechar o portão, vocês precisam sair.”. Achei uma abordagem linda para turistas, né? Já passei por coisas semelhantes em certas cidades e é o que a gente sempre lembra ao associar o lugar. Quando eu estava ali perto da antena passou o carro, um ciclista e a moto. Logo o guardinha (que me esperou um pouco mais adiante), me senti escoltada.

Pouco tempo sobe um carro com mais um casal, e lá vem o guardinha atrás! Achei as cenas hilárias. Logo, desce o carro escoltado pelo guardinha. Na descida ainda encontrei dois maratonistas (uhuhu) e três adolescentes subindo. Nada mais do guardinha.

No final da rua pavimentada há uma placa onde constam os planos para o mirante “janela”, a pavimentação da via, etc.. Segundo a placa (sem data) a pavimentação estava concluída e as outras duas etapas em “fase de licitação”. Licitação eterna. Por que não começou pelo mirante, depois a pavimentação?! Eu nunca deixei de ir no mirante porque a rua era de barro. Aliás, havia alguma rua ali que dava acesso aos fundos da prefeitura, onde ela foi parar?

Na volta, sigo à pé pela beira-rio e me irrito com aquele asfalto jogado às pressas e sem nenhuma noção onde havia o belíssimo mosaico português. E dizer que teve quem elogiou aquilo ali! Carlito se resumiu, bem resumidamente, àquilo: pavimentação. Ou nem isso. Porque aquele cimento grosso, mal acabado e feio não é pavimentação. Eu caminho com certa frequência pela beira-rio. Então eu posso falar, certo? Aliás, ninguém tem idéia da minha revolta, durante a campanha para prefeito, quando tive que passar por ali e ver os caras arrancando e jogando fora o mosaico português enquanto o caminhão despejava o cimento. Por que não cimentam o Cachoeira duma vez?!

Por que não fecham tudo, duma vez?! O mirante não recebe sequer manutenção desde, no mínimo, o primeiro mandato do Luiz Henrique. Ele teve dois, mais um do Tebaldi e um do Carlito. Calculem o tempo. Antes disso minha memória política não alcança. Posso, sem orgulho mas com razão, dizer que sou mais joinvilense que muitos “daqui” que eu conheço. Não vou, por nada nem ninguém, fechar os olhos ao que eu vejo seja onde for. Porque, segundo dizem, até parece que eu não critico Fpolis, por exemplo. Não critico Curitiba. Vejam só, cheguei ao desparate de criticar o tão babado Rio de Janeiro! E, quando tenho os melhores motivos, me derreto em elogios…

Assumam o risco, subam ao mirante de Joinville. É inesquecível, lindíssimo. Você vê a Baía da Babitonga, a cidade toda, os morros. E quando subirem a Serra do Mar, numa determinada curva lá depois da Santa, olhem para traz e vejam uma pedacinho disso ali. É lindo. É, sim, emocionante. Não esperem que algum prefeito arrume o mirante, acho que infelizmente ele cai antes disso (e olha que acho bem difícil que ele caia tão cedo!).

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