Cine Holliúdy e um ano cinematograficamente brasileiro

Não é novidade e muito foi alardeado, no final do ano passado, sobre o crescimento de público (e também de número de produções) do cinema brasileiro em 2013. Devo dizer que fui uma das responsáveis por tal façanha. Foi, definitivamente, o ano no qual mais fui ao cinema para assistir às produções nacionais. E só não fui para assistir a O Som ao Redor e Cine Holliúdy porque não passaram na cidade onde eu estava – e Ensaio porque perdi a data. Aliás, entrei em campanhas na internet para que passassem Cine aqui pelo Sul – e, por favor, quando digo Sul estou me referindo a Santa Catarina ou Paraná. Fiz minha redenção ao ir assistir a um argentino e pegar sessão dupla com um brasileiro – Flores Raras, provavelmente o qual eu considero o melhor do ano. Já assisti mais filmes argentinos no cinema do que brasileiros. Era hora de rever isso.

Também escrevi e discuti e ouvi muito sobre cinema em 2013 (vai dizer, dos melhores anos da minha vida, não poderia faltar isso). Num evento do qual participei, tive o desprazer de ouvir uma apresentação de uma criatura, formada em jornalismo mas que se diz estudiosa em cinema, mestre e no momento doutoranda (na Literatura da UFSC, claro), sobre a nova lei da TV paga que “obriga” os canais a cabo a passarem produtos brasileiros. Entre a discussão, já bem batida, de que a lei aumentará a produção e blábláblá (aquela velha máxima brasileira: cria a lei para “incentivar”, sem dar condições e infraestrutura antes) veio a ultrajante falsa argumentação sobre a falta de “qualidade” do público. Não sei se essas pessoas ainda vivem no mundo dos cinemanovistas que queriam esclarecer as massas, ou realmente acreditam que o problema é o público brasileiro que não sabe o que é bom. Vejam só, o problema do nosso cinema é esse povo ignorante. Era uma mestre e atual doutoranda falando. Pasmem, ao falar de séries de TV, ela ainda disse “Já viram tal série? É muito boa, mas as pessoas não gostaram.” – ela é esclarecida, sabe o que é “muito bom”, nós (sim, eu me incluo) é que não.

A discussão também se fez presente nos blogs do Eduardo Escorel e do Bernardet, inclusive em eventos. Muito se discutiu, e não é nada novo, sobre a rivalidade que há entre os filmes “cabeça” (cult, para pensar, de autor, ensaístico, ou seja lá como quiserem chamar) e as comédias populares. É só avaliar a quantidade de público de O Som ao Redor e De Pernas Pro Ar 2 (foi o exemplo mais usado). Mas aí surgiu uma outra questão, o fato de que filmes como O Som ao Redor não conseguem espaço na distribuição e na exibição, enquanto filmes como De Pernas… têm espaço garantido – pois leva-se em conta o peso de uma Globo Filmes no marketing, na produção e exibição em relação a produções ditas independentes, mesmo que muitas vezes dependentes do dinheiro público (aquele outro velho problema dos editais que garantem a produção mas não exigem nem garantem espaço para exibição – ou “os filmes que nunca vimos”). Porque, como bem assinalou o Bernardet num dos seus livros, o que vale no Brasil é produzir, se alguém vai ver ou não, parece não importar muito.

Mas chamei a atenção para tudo isso porque queria escrever alguns comentários sobre Cine Holliúdy, talvez o que mais me chamou a atenção até porque soube fazer um bom marketing usando a idéia de primeiro filme falado em cearês (ou cearensês, não sei ao certo). Estive no Ceará e me apaixonei. Lamentei que a estréia do filme tenha sido logo após minha estada por lá. O filme, quando estreou no nordeste, lotou as salas e teve sessões extras. Foi literalmente um fenômeno. No começo do ano eu fiquei louca para assistir a O Som ao Redor e quando estive em São Paulo soube que teria uma exibição por lá – centro cultural do país, afinal, infelizmente – mas não tive tempo de ir assistir. Em dezembro vi que já estava passando na TV a cabo, vi somente uns trechos e não posso falar, ainda, sobre. Mas eis que em dezembro tive a surpresa de ver a propaganda, na Globo, de que passaria Cine Holliúdy. Seria num sábado e eu, lá pelo horário da novela, me aconcheguei no sofá depois de um dia árduo de trabalho. Acaba a novela e começa Zorra Total (uma das coisas mais ignóbeis que o humor brasileiro já produziu). Eis que penso que seria, então, depois de Zorra Total. Resolvo assistir um outro filme que já havia visto, para passar o tempo. Acaba Zorra e começa (putz, esqueci o nome do programa) o Groismann (de quem nunca gostei desde o sucesso que ele fez em outro canal). Eu, como não conheço a programação de sábado, fiquei de cara. Aí aparece a propaganda dizendo que o filme seria depois do Groismann. Ou seja, madrugada. Ah, lembrei, o nome do programa é Altas Horas (o que já diz muito). Bem, eu havia ficado acordada até aquela hora, o filme que eu estava assistindo para matar tempo era bom, ou seja, resolvi resistir porque pensei “quando terei a oportunidade de assistir Cine Holliúdy novamente?”.

O primeiro choque foi a escolha por exibir o filme legendado, depois do letreiro anunciando que era o primeiro filme falado em cearês. Vi numa entrevista ou li em algum lugar sobre alguns produtores nordestinos já terem sofrido a abordagem, de exibidores, que “sugeriam” que os filmes fossem legendados para poderem passar no resto do país (sudeste, que fique claro). Aí inicialmente fiquei pensando sobre isso. Tive a experiência de ter ido para o nordeste ano passado e presenciei um sulista conversando com um piauiense: o segundo não entendia nada do que o primeiro falava. Eu mesma, quando estive no Ceará, reparei no meu modo de falar, me senti um brucutu. O nordestino, com as diferenças cabíveis, tem melodia, fala de um jeito agradável aos ouvidos. Essas considerações sobre o sotaque dos nordestinos (como se paulista, gaúcho, paranaense e até os chiados intermináveis dos cariocas não tivessem) nada mais são do que preconceito – ah, mas tudo hoje em dia é preconceito: não, não é. Porque eu me pergunto se eles criticam e falam dos nossos sotaques como nós falamos dos deles. E sulistas e sudestinos são especialistas em preconceitos. Os exibidores do nordeste também “sugerem” que os filmes daqui sejam legendados? Vejam o trabalho muito bem realizado do Thiago Lacerda em O Tempo e o Vento em relação a um falar “gaúcho”, precisou de legenda?Comentei isso no Facebook e um amigo, cearense, disse que a escolha por legendar poderia ser uma crítica satírica do próprio diretor – não sei, realmente não sei, percebe-se que o filme é crítico e satírico, mas aí não sei o quanto isso pesou na escolha pela legendagem.

Mesmo que tenha sido uma crítica – ou o reverso da crítica pelo nosso preconceito com o sotaque deles – nós, bons sulistas e sudestinos, jamais entenderíamos. Devo dizer que desatentei para as legendas e, claro, uma palavra ou outra, mas não pelo sotaque e sim pelo regionalismo, não entendi. Mas isso, meus queridos, até ali em Curitiba, minha terra natal, acontece comigo.

Tinha lido algumas críticas não muito positivas sobre o filme (o que não aconteceu com O Som ao Redor, e devo dizer que o pouco que vi deste arrefeceram minha animação de vê-lo). Realmente ele não é nenhuma obra-prima. Porém, o mais louvável é que ele constrói uma crítica contundente sobre a condição de exibição de cinema no Brasil de forma lúdica. Confesso que aquela parte das artes marciais e dos filmes exibidos eu achei um tanto enfadonhas, porém é uma questão de gosto pessoal. Mas considero genial a utilização de produções “próprias” dentro do filme e não aquelas já desgastadas referências a clássicos do cinema. As atuações são excelentes, a diversão é garantida. A apresentação dos personagens, a brincadeira com a linguagem cinematográfica e o final são sensacionais. Em quase tudo há leveza, o riso sutil, a malícia na medida, sem precisar descambar para o humor fácil e para a apelação sexual. Falcão é uma participação especialíssima e impagável, enquanto meu personagem favorito é aquele que fica repetindo as coisas – adorei. A direção, porém, me pareceu errar na mão ao alongar muitas cenas que poderiam imprimir um outro ritmo a um roteiro e atuações tão esmeradas.

O letreiro final, contudo, é ácido: no Ceará, dos 184 municípios, somente cinco têm cinema. E a pungência deste dado me fez, na hora, lembrar uma notícia que eu tinha lido há pouco tempo sobre o Ceará estar com 174 municípios, do seu total de 184, em situação de emergência por falta d´água. Claro que na hora também lembrei do filme gaúcho Saneamento Básico. Finca no coração a questão crucial: como discutir cultura, mais especificamente cinema, num país que não tem esgoto nem consegue levar água ao seu povo? Lembrei até dos cinemanovistas. Será que eu preciso – ou posso – conscientizar essas pessoas? O cearense que, no meio do semi-árido, não tem água em casa para seus filhos não tem consciência disso? Ou cineastas seriam pretensiosos por natureza? (tenho um relato sobre esta questão da água de uma experiência pela qual passei durante a viagem que, de tão contundente, fica difícil expressar em palavras)

Não se pode tirar o mérito do filme de mexer em vespeiros do cinema brasileiro com tanta lucidez e fabulação. Talvez um dia tenhamos um filme brasileiro que se enfie por estes caminhos espinhentos sem humor, sem fábulas, sem açúcar e de forma inteiramente crua. Acredito que seria muito interessante, mas careceria de público e seus realizadores seriam execrados pelos seus “colegas” de profissão. Seria muito interessante inclusive para o público, para que ele – vejam só, não gostamos de esclarecer o tal público ignorante? – entendesse quais as agruras pelas quais passam os que trabalham com audiovisual no Brasil (e, claro, como eles mesmos colaboram e muito com isso).

O fato de Cine Holliúdy ser nordestino é notável. Durante a final do The Voice Brasil vi o comentário irritado de um amigo, no Twitter, sobre esse senso comum de associar o que é nordestino ao “brasileiro legítimo” e coisas semelhantes (era sobre aquela participante que era nordestina e tocava sanfona). Tenho lidado com a questão porque é parte dos meus estudos e fazia pouco tempo tinha lido, num excelente livro sobre o cinema rural no Brasil, a relação que no próprio cinema se percebe sobre buscar um legítimo “brasileiro” no sertão com o sertanejo, no rural com o caipira, na favela com o favelado (negro, invariavelmente migrante). Este é um dado mais que evidente da nossa história cinematográfica – e que é, como bem assinalou meu amigo, expansível para outras áreas, principalmente na cultura. Algumas características do “bom nordestino” estão presentes no filme, como a força de quem, mesmo diante de toda a desesperança, é perseverante, a inerente alegria e o traquejo com as forças políticas usurpadoras locais. Sem querer expandir em considerações acadêmicas, estas características são, em determinados momentos, “autorizadas” para serem levadas às telas, pois há conflitos diante de preconceitos e ideais utópicos. Só para esclarecer, darei um exemplo sobre o caipira que era criticado e renegado nas décadas de antes de 1940 porque representava, nas telas, um país ignorante, atrasado, inculto, enquanto nossas elites queriam avançar com a modernidade – somente depois que nos afirmamos como país rico, industrializado, é que foi autorizado ao caipira estar nas telas como um bom exemplo humano de trabalhador e sonhador brasileiro. Não sei se o filme evidenciou isto porque são, enfim, características do povo nordestino ou se simplesmente caiu no senso comum. Eu voltei de lá com impressões ainda mais fortes sobre estas características. Aliás, gostaria de acrescentar uma (sem medo de cair no senso comum mais raso) qualidade a essas características: o colorido. Reparem, no filme, nas cores das casas, do cinema, dos figurinos. Voltei do nordeste com os olhos mais coloridos. E como sou uma apaixonada pelo excesso de cores, isto aqueceu meu coração.

Enfim, o último filme brasileiro que assisti no cinema, depois de um razoável Serra Pelada, foi Meu Passado me Condena. Comentei brevemente sobre ele por aqui e confesso que pouco tenho a dizer. Assistam ao trailler, é o suficiente – e vocês vão rir mais do que com o filme. Infelizmente ainda levaremos muito tempo para encontrar um caminho entre os filmes “cabeça” e as comédias populares. Ainda acho que a vocação brasileira é pela comédia (até eu comecei a me arriscar neste “gênero”). Meu constrangimento (e, vejam só, a platéia pareceu concordar comigo) ao assistir Meu Passado me Condena, mais um sucesso estrondoso de bilheteria do ano, me fez pensar que o caminho para um tempo áureo na comédia, como já tivemos, será árduo e longo. Porém, porém, porém… Cine Holliúdy aliviou um pouco o peso de toda esta discussão e deu um passo considerável neste possível avanço.

De resto, não me cansarei de ler, ouvir, discutir e escrever sobre tudo isso. Já diria o querido Paulo Emílio sobre a importância dos filmes brasileiros acima de todos os outros, para nós brasileiros. Irei mais ao cinema para assistir a filmes brasileiros, espero que sem ter que sacrificar um Darín. Porque discutir rivalidade entre cinemas nacionais, a força da TV e o fim das salas de cinema se extinguem com a já célebre frase presente em Cine Holliúdy: Enquanto houver vida, haverá cinema.

 

Ps.1: Ficou faltando Tatuagem ali na lista dos que eu queria assistir e não consegui.

Ps.2: O livro que mencionei é O Rural no Cinema Brasileiro, edição esgotada de 2001, o qual eu adoraria ter mas só há disponível no Estante Virtual por R$150 – se alguém quiser me dar, ganha um beijo e minha eterna gratidão. Sim, estudar no Brasil é caríssimo. Sim, sebos exploradores não são algo incomum. E 2013 também foi o ano no qual mais comprei livros novos.

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