Precisamos falar sobre eles

É sobre eles que eu quero falar. Vamos começar pelo cabelo. Você nunca os viu com os cabelos desgrenhados, nenhum fio fora do lugar, eu garanto. Eles jamais aparecem com os cabelos despenteados, acredito até que dormem e acordam assim. É sobre eles. E eles são muitos. Bem perto encontramos seus carros – que eles sempre têm, e, em muitos casos, mais de um. Os carros não têm nenhum arranhão, não se vê grãos de areia pelo chão atapetado, nem um mísero pó no painel. Parece até que nunca viram uma estrada de chão, nem uma chuva, brilham a cera que parece ser passada meticulosamente todos os dias. O carro brilha. Assim como o cabelo. Tudo neles brilha.

Eles costumam viver nos mesmos bairros, são aglomerados de pessoas do mesmo tipo – ou seria da mesma casta? Vejam as casas. Não, vejam antes os jardins. Se quiserem confirmar o que eu digo, peguem uma lupa e procurem um pezinho de mato. Procurem bem. Não encontrarão. Nem percam tempo, eu já vasculhei tudo. Há tempos que essas pessoas me interessam. Há tempos que os observo de longe. No jardim deles não há chance para o mato. As plantas são metodicamente podadas nas épocas certas. Não há, curiosamente, frutos caídos no chão – então também não há moscas nem mosquitos se alimentando. Tudo enquadra-se perfeitamente: as árvores domadas pelas constantes podas, as trepadeiras em suas treliças, a grama aparada, as flores vicejantes. Há uma perfeita harmonia estudada, as cores, os tamanhos, as texturas.

Agora sim. A casa. Os materiais são muito bem escolhidos. A tinta nunca descasca nem observa-se nenhum ponto de bolor – apesar da umidade absurda da cidade. Os móveis foram projetados para aqueles espaços – amplos, arejados, bem iluminados. Todo os detalhes são pensados. Você entra pelo jardim e uma luz com sensor de movimento ilumina magicamente o seu caminho até a porta de entrada, que é enorme, pesada (talvez convidativa, talvez meramente intimidadora). Nos bairros onde eles habitam as casas são todas iguais, mudam os projetos, os modismos, mas de cara você percebe: ali vive um deles. Ou vários, pois se reproduzem (em pequena escala, é claro).

A casa nunca deve ter visto um pé sujo adentrá-la. O que me deixa encucada é que nem os tapetes das portas possuem um barro, uma areia qualquer que tentou vir da rua para o aconchego daquele lar. Os vidros! Ah, os vidros são docemente límpidos… perco uns minutos pensando nisso, pois limpar vidros é um trabalho ingrato. E nas casas deles estão sempre translúcidos sem uma dedada de algum desavisado. As calçadas brilham seus porcelanatos. Os sofás não têm manchas de suco nem casquinhas de pipoca. Os tapetes não acumulam pêlos de animais domésticos. As camas nunca são vistas desarrumadas, nem um amassadinho no lençol vocês encontrarão. Garanto.

Podem perder o pudor, revirem comigo as bolsas e agendas e cadernos dos moradores dessas casas. Não há um papelzinho solto, não encontram-se fios de cabelo dentro da bolsa, nem, vejam vocês, há uma única palavra (daquelas que saem sem querer quando escrevemos à caneta) rabiscadas nos cadernos. Na prateleira de livros você não encontra uma única orelha de burro. Se ficarem apurados, corram ao banheiro, aí sim vocês verão o que é brilhar. Se vocês forem como eu, sentirão um tipo de intimidação e não terão coragem de usá-lo. Tudo ali não só brilha: reluz. Os espelhos nos expõem com esses fios de cabelo aqui que teimam em não ser domesticados. Não há gotas de água na cuba da pia, no box perfilam-se shampoos e sabonetes num desenho milimétrico. Até o rolo de papel higiênico, vejam bem, está sempre novinho e com a pontinha devidamente dobrada.

Eles também são encontrados pelas ruas. É sempre fácil identificá-los, com seus pratos sem uma alface fora do lugar, nas mesas dos restaurantes. Suas roupas, ah! Saídas das vitrines, nunca viram uma prega. Nem uma gotícula de vinho entre os peitos de um vestidinho branco de noitada vocês encontrarão. Ah, eles cheiram bem. Sempre. Não suam, aparentemente. Um caso muito curioso, no calor dos infernos que faz nesta terra. Nem aquele suorzinho filho da mãe que teima em aparecer entre o lábio e o nariz, sabe?, ali no bigode. Acredito até que nem tropeçam, mesmo nessas calçadas abandonadas que temos.

São eles. Não se encontram em todos os lugares da cidade, como se sabe. Eles têm seu habitat, seus iguais, e só se relacionam entre si. São aves rarae que gostamos de observar – ou aos quais não damos a menor atenção, pois tão longe de nós, das nossas realidades. Não tocamos neles, por certo, que até cadeia pode dar. O brilho deles nos ofusca. Há uma engrenagem que existe por e para eles. E escurecem a cidade.

paz

O sopro

do teu ar

nos meus lábios

 

em um segundo

paz

 

O verde

incomparável

do mar

 

no sábado

paz

 

O abraço

que aprendi

a amar

 

nos teus braços

paz

 

O menino

a saltar

do alto da pedra

 

no mergulho

paz

No fio do bigode

Falamos disso esses dias. Ou talvez tenhamos falado sempre. Seria uma espécie de contrato, ou, quem sabe, um valor metafísico. Valores, aqueles que devemos ter desde sempre, desde o berço para os que nasceram num, desde o ventre, então, de onde todos viemos. O que não se entende sobre certas coisas é que não devemos fazer pelos outros: mas por um compromisso conosco.

Meu avó dizia que era “no fio do bigode”. Ele era do tempo que os homens (e as mulheres…) se fiavam no fio do bigode. Vê, não precisava nem assinatura em cartório. Ah, sim, claro, sempre houve quem faltasse com a palavra. Mas era vergonhoso, era exceção, os dedos da imensa maioria apontavam: naquele não se podia confiar. Com os outros o fio do bigode funcionava. Meu avô, que tinha bigode, por sinal, era assim. E por algum tempo ouvi minha mãe falar no fio do bigode, que ela nunca teve, é claro, mas é dessas em quem se pode confiar de olhos fechados.

Vejam vocês, era hereditário, naquela época. A ter palavra, meus queridos, a gente aprendia em casa. Como tantas outras coisas. E nem me venham com isso de que “naquela época” as mães (muito mais) e os pais tinham tempo para ensinar aos filhos, que a vida contemporânea exige isso e aquilo. Não, não. O pai aí sentado com o celular grudado nos olhos (nem que seja para ficar fotografando o filho para as redes sociais) tem muito mais tempo do que tinha meu avô – que nunca teve celular.

Talvez a exposição. Quem errava era exposto. Não essa fogueira inquisitória da internet. Os valores, enfim, valiam alguma coisa. Na empresa, no teu meio social, em casa: a falta da palavra era reprovada pelos seus. O mau caráter não se criava – nem se reproduzia. Talvez esse silêncio de hoje que acoberta os casos omissos e de falta de palavra e compromisso: o famoso rabo preso. Se eu não cumpro com a minha palavra, como vou apontar o outro? (tem gente aí muito cara de pau, é certo)

Não dá pra esquecer. Nem deixar passar. Não se pode mais confiar no fio do bigode (logo hoje que ele parece ter voltado à moda). Mas, como eu disse, é hereditário, então está aqui comigo. É uma questão de valores – sou antiquada, me apego a eles. É uma questão de respeito consigo. Não ter palavra é um dos maiores males do caráter – Deus me proteja de quem foge ao fio do bigode. Que humanidade é essa que só (e olhe lá) cumpre seus compromissos baixo assinaturas, multas e processos? Quando foi que ficamos tão incivilizados?

Não há de ser tão fora de propósito falar do fio do bigode. Eu quero crer. Porque quem falta com a palavra segue sua vida com a consciência tranquila (aposto que sim), enquanto quem se fiou neles acumula desgostos – e sequer os expõe. Não devia ser assim. Não mesmo.

O que deixamos de fazer

Talvez eu tivesse acreditado, em algum momento, que não passaríamos a vida comendo fandangos. A vida adulta, eu digo. Eu cheguei a acreditar que, apesar de nos faltar o espírito de “vamos mudar o mundo” – que realmente nunca vi em nós – nós mudaríamos o mundo que, quando nos foi entregue, já era tão velho. As regras eram velhas, as pessoas tinham pensamentos e crenças ultrapassadas, as carteiras da escola de frente para o quadro: tudo era velho. O mundo, naquele tempo, parecia implorar para que nós, justo nós, o aliviássemos daquele fardo de ser tanta coisa ruim, antiquada, rançosa e deprimente. E nós, o que nós fizemos?

Nós nos calamos. Lembro que eu tinha até vergonha de ser católica praticante – não contava pra ninguém que acordava cedo também no domingo, todo santo domingo, para ir à missa -, porque éramos desafiadores com essas coisas de Deus e do que os pais nos impunham (a mãe exigia que fossemos à missa, mas eu vou até hoje porque gosto mesmo). E lá foram muitos de nós, que mal pisavam numa igreja, a casar de véu, grinalda, festança e tudo o que exigem as fotos que ficarão para a posteridade. Lembra aqueles álbuns horríveis, bregas, puídos, cheios de fotos com gente vestida com coisa anos 1970 como os dos nossos pais? Só mudou a moda da época – e ficamos mais bregas porque tem vídeo de ensaio fotográfico de casal. Ah, sim, claro, e agora é tudo digital.

Nós fizemos de conta que não era conosco. Mal estudamos sobre a ditadura, achávamos chato todo professor de História falar disso. Achávamos chato falar de Política, lembram? Nós éramos perfeitos alienados. Por isso eu deveria ter percebido que dessa história de mudar o mundo e fazer dele um lugar melhor nós não faríamos parte. Mas, em algum momento, eu acreditei. Acreditei que faríamos da Política nossa arma contra as injustiças e desmandos de um país tão pobre, tão capenga, tão travado no tempo. O país do futuro, lembram? Do futuro. Este futuro que estamos vivendo agora – e para o qual não fizemos nada de bom.

Nós não demos a devida atenção. Nos preocupávamos com a TV – sim, na nossa época ainda era ela que dominava nosso tempo. Muitas de nós – estou fora desta lista – queriam ser modelos. Muitas queriam vender a alma ao diabo para pagar um book. Vocês lembram que eu sei. As fotos devem estar escondidas aí em alguma caixa na casa dos pais, porque ninguém quer morrer de vergonha. Nós não nos educamos para cuidar do lixo, para reivindicar melhorias no nosso bairro, para que a cidade respeitasse o seu rio poluído, para que a água fosse economizada. Muitos de nós nunca sequer plantaram uma árvore.

Nós não pensamos nos nossos filhos. Nesses mesmos que temos adiado para depois dos trinta porque, afinal, gostamos de curtir a vida e essa coisa de ter uma penca de filhos desde cedo era coisa dos nossos avós e nós somos moderninhos e esclarecidos. Não pensamos que entregaríamos a eles um mundo em vias de autodestruir-se porque nós, justo nós, não cuidamos dele – mas estamos aí todo dia reclamando de alguma coisa nas redes sociais. Saímos do sofá, é verdade. Mas estamos zumbis nas telas de computadores e celulares. Nós não fizemos. E o que esperávamos disso? Que o mundo cuidasse de si mesmo sozinho?

Nós fomos egoístas. Fomos bem bobinhos pensando que a engrenagem seria trocada por algum sistema digital ultraeficiente sem que nós tivéssemos que fazer absolutamente nada. Em cada miojo que nós comemos durante a faculdade estava o tempo de três minutos (nem tão exatos assim) com o qual poderíamos ter feito alguma coisa. Faltou doar o tempo para passar um óleo na engrenagem. Faltou vergonha na cara para questionar as regras. Faltou bater boca para impor mudanças – às vezes, só no grito. Faltou que tivéssemos consciência de que fazemos parte do mundo e de tudo que está – ainda – velho e podre nele. O que foi que fizemos para que ele não estivesse pior do que quando nós tomamos as rédeas?

Porque ainda tem quem pense que as rédeas não estão nas suas mãos. É mais fácil pensar assim – apesar de que “pensar” não se aplica. Lamento pelos que, de fato, combateram aquele mundo que nos foi entregue: estes se foram cedo (e me fazem muita falta). Ficamos nós a falar do mundo como se não fosse conosco. Nem um mea-culpa é encontrado nas redes sociais – nem nos confessionários, eu arriscaria dizer. Faltou lembrar que vinha mais gente depois de nós – e tenho certeza que não cuidamos do que tínhamos. Tenho vergonha – quero dividi-la com vocês, tão culpados quanto eu – de ver tudo que deixamos de fazer. Por nós, também.

As redes

Na rede dos peixes
sem esperança
mãos calejadas
e meus olhos
lacrimejam

o sol
nos corta
em dois

O mar abençoa
o rio a desembocar
no barro das chuvas
ingrato ao meu desejo
de sempre tê-lo

o sol
nos queima
os ombros

Na rede da varanda
os olhos fecham
na serenidade
e quem sabe
as horas passam

o sol
nos atordoa
os sentidos

A brisa
não nos visita
há dois dias
três noites
e suamos bicas

o sol
nos encaminha
à lagoa

Foi-se

Eu deveria ter desistido – enquanto havia tempo. Deveria ter dito aquele “não” que ficou enrolado na língua que cedia e se lambuzava de arrependimento. Deveria ter arrumado a mala quando deu uma vontade irresponsável, quiçá cruel, e partido – sem volta. Deveria ter pensado em mim, senão sempre ou em primeiro lugar, pelo menos em algum momento. Deveria ter seguido quando fizeram sinal pra parar perto da estação e com um trem vindo noutra direção. Mas eu parei. E fiquei a olhar a poeira que o trem deixou para trás. Sem dó de mim.

Quando deveria ter acabado, eu coloquei reticências. Foi uma besteira, eu sei. São essas sucessivas besteiras. Eu deveria ter me afastado e quando vi estava ali bem no meio, envolvida até a raiz dos cabelos. Em algum momento eu deveria ter pedido ajuda – mas e o orgulho? Eu deveria ter descansado naquela tarde chuvosa depois do almoço. Deveria ter dito que eu te queria – tanto – ali, agora, logo, e que você viesse de qualquer jeito. Boba que fui, escrevi sinais. Você não leu. Eu deveria, veja só, ter sido clara e objetiva. Deveria ter aberto mão das metáforas – em tantas oportunidades da vida.

Uma única vez eu deveria ter dito sim – e quem sabe eu tenha dito, mas só em pensamentos. Deveria ter tentando uma vez mais, só uma, ao ver que o sonho se partia ao meio. Deveria, é certo, ter sido ainda mais feliz naquele dia, naquela ilha, ao deitar os olhos sobre o mar que me separava do mundo… Deveria ter desejado o bem a quem nem conheço direito. Por umas vezes eu deveria ter caminhado bem devagar sob a chuva, a pensar que a água me benzia. Deveria ter sentido o frio a me congelar as mãos numa noite sem esperança.

Eu deveria ter recomeçado a vida, em todos os ontens. Deveria ter deixado aquele remédio escondido debaixo da língua para jogá-lo fora quando me dessem as costas, e deveria ter engolido o gosto da desilusão com dois copos extras de água. Hoje mesmo eu deveria ter deixado o coração bater mais sossegado. Deveria ter rezado ao acordar, ansiando que o fardo ficasse menos pesado. Deveria ter suplicado a Deus que me ignorasse na minha mesquinhez.

Perdi a conta de quantas vezes eu deveria ter me penitenciado menos. Não quero lembrar de todas as vezes que eu deveria ter chorado – e segurei até os olhos racharem a beleza do mundo. Nem sei ao certo se houve algum momento que eu deveria ter sido mais dramática, entrado em desespero e me jogado ao chão. Deveria mesmo ter aprendido a compor para nessas horas ficar só com um violão a melodiar as coisas do coração. Eu nem sabia, mas deveria ter pensado mais no amanhã – viesse ele ou não, nunca se sabe. Às vezes, ele vem.

Deveria ter esquecido… e tomado aquele chá para dor de estômago. Deveria ter evitado uma gastrite, uma cirrose, uma anemia. Deveria ter pensado menos – bem menos, é claro. Deveria ter fechado os olhos antes que eles se arregalassem demais. E deveria ter perguntado qual caminho seguir antes da encruzilhada. Ou antes que a noite chegasse. Ou antes que minha alma se cansasse.

Pela metade

Arrisco

perder todo o fôlego

da vontade

em dias que não terminam

com ver-te

chegar junto à brisa

do meio da noite

Condenada

à impaciência

e ao desânimo

atraso planos

risco calendários

anoto feriados

Caem

as horas inquietas

sobre um Verão

quase pela metade

que completa

nossos sonhos

de banhos de chuva

de bicicleta

 

Lá se vai o mês

lá vem o acalmar

das ruas

e meus olhos fecham

o dia mal vivido.

Um sorriso muda tudo

Foi diante da moça do pedágio, nem tão moça assim, que a certeza verbalizou-se nos meus pensamentos e ao atravessar a cancela murmurei baixinho para nem eu ouvir, pois a música estava num volume muito alto. Talvez tenha sido o dia. Um dia daqueles que a gente quer correr ler o horóscopo só pra tira-teima se ele havia previsto que tudo seria tão bom. Tudo, não. Teve lá uma coisinha no meio do dia que não deixou-o nos trinques. Mas, uma coisinha? Pois é. Diante desta uma coisinha também a certeza mostrou-se.

Um sorriso, meu bem, muda tudo. Muda a tua atitude diante do mundo – e ele responde, sabia? Um sorriso muda a sorte de alguém. Muda a saúde também. Altera até contas bancárias (tente e verás). Você já sorriu para a pessoa que mais te sacaneia? Funciona, vai por mim. Um sorriso desarma as artilharias mais pesadas. Eu nunca parei para pensar, mas gosto de sorrir – de dizer muito com apenas um sorriso. Talvez seja por conta da paixão pela fotografia – onde não tem textão, não tem declaração, não tem legenda (não deveria, viu…) nem explicação: a fotografia diz tudo naquele instante congelado. E o que diz mais do que um sorriso? Nem mil imagens.

É com o sorriso que você recepciona alguém. Que você pode abrir as portas da tua alma para uma pessoa. E o teu sorriso, meu bem, pode dizer tudo para o outro. Mas, sei lá, as pessoas têm medo de dizer o que lhe vai pelo coração. Um sorriso destranca medos inconfessáveis e arrebenta diques inconscientes. Um sorriso muda tudo. Ele atravessa feito raio as ambições perdidas e as ilusões bem alimentadas. Ele guia os olhares opacos e as mãos nervosas. Um sorriso, apenas, apaixona. Te garanto.

Sorrir para a caixa do supermercado, para quem está limpando as escadas do prédio, para o atendente do drive-thru. Muda tudo. O sorriso a gente dá antes de receber um. Tem que chegar chegando com o sorrisão no rosto: está aqui, querido, meu sorriso e, saiba, ele muda tudo. É meio doação, meio moeda de troca. Feche a carteira, abra o sorriso. Abra a janela do carro e ao sentir o vento que vem do mar, sorria. É o vento, o mar, o final de tarde, é estar vivo. Não precisa de mais nada para sorrir. Por que você não sorri todo dia ao acordar, só pelo fato de estar vivo, vivíssimo, podendo abrir os olhos? Como disse o padre, não dê bobeira. Sorria, digo eu.

Um sorriso, dizem, até salva vidas. Vidas sem esperança, desiludidas, amontoadas de solidões. Um sorriso faz chorar. O inesperado de recebê-lo pode emocionar até os tímpanos. Às vezes você não tem idéia, mas tudo o que precisa é aquele sorriso na porta de casa. Um sorriso muda tudo, seca as roupas no varal, acalma mares revoltos, ilumina varandas escuras, lambuza de chocolate o rosto de uma criança, deixa as folhagens mais vistosas. Há quem não acredite, te garanto. Porque nunca sorriu para alguém. Nunca sorriu com o coração para ninguém. E é este o que mais precisa receber um sorriso – mas um sorriso persistente, renovador, fiel. Não é qualquer sorriso. E aí, verás, um sorriso muda tudo mesmo.

Um sorriso muda tudo. Muda a tua vida, mudando a minha. O sorriso é a agulha que vai cosendo as vidas entre alegrias e tristezas, entre abraços e mãos dadas. Um sorriso é o remédio para doenças incuráveis da alma. Um sorriso aproxima no inverno e une de vez no verão. Um sorriso, meu bem, muda tudo. Muda as Estações do ano, muda a idade nos cantos dos olhos. Muda endereços e praias preferidas. Muda o andar do relógio e a direção dos ventos.

Naquele dia eu me dei conta. Uma epifania daquelas verdades que o coração cala porque tanto já viu na vida que acredita em menos coisas do que pensa capaz. Um sorriso mudou tudo. Um sorriso tem sido minha arma quando a garganta aperta. Um sorriso é o que visto nesse dia a dia que, seja clemente ou inclemente, eu tenho que encarar. De certo modo, meu bem, este sorriso foi tudo o que me sobrou. É com ele que eu conto para toda a vida que ainda virá pela frente. E, podem comprovar: um sorriso muda tudo.

Restou

(à Mogli)

 

Restou

o vento entrando pela janela aberta

sobre fotos que nunca tiramos

e meu choro contido

de desacreditar no que lia

 

Restou

meu sorriso

do que passamos juntas

dos segredos que te confidenciei

e das discussões acaloradas

 

Restou

a culpa a voz silenciada

o som da tua gargalhada

o teu “não, só escuta”

e eu te ouvia – quieta

 

Restou

ser tua amiga

você minha única

sempre só fui boa com palavras

elas sopram teu destino

Ontem na praia…

O mar é tipo gente, tem seus bons e maus dias. Alguém, ou eu mesma, já deve ter dito isso. Tem dia que ele está lá, de boa, tranquilão. Porque até os mais estressados e ranzinzas têm seus dias de paz, não é? Aí tem dias que até a mais bela enseada se atira contra a orla em desespero e ímpetos de raiva. Às vezes foi uma noite mal dormida na companhia de uma tempestade. Eu não sei direito porque a tempestade e o mar não se dão, é toda vez que se encontram um tal de discutirem que, olha, não é pouca coisa. Talvez algum desentendimento do passado, daqueles que voltam sempre à tona das amarguras quando se encontram. Eu bem que queria saber.

Ontem foi assim. Cheguei na areia da praia cheia de maus pensamentos, querendo sangue. E me deparei com o mar a expulsar qualquer engraçadinho que quisesse nele adentrar. Não estava pra peixe, nem pra água-viva, nem pra alga, nem pra gente nem nada. Parecia mesmo querer ficar sozinho. Queria desvencilhar-se de tudo o que se aproximava. Eu é que não dei bobeira, fiquei quietinha, acalmando o instinto destruidor sentada na areia. A gente baixa a bola quando se depara com alguém em situação pior, né? O mar não me quis. O mar debulhava-se num intenso vento leste a proclamar suas revoltas. Não estávamos, então, num bom dia.

Mas como ficar mal diante dele? Como deixar que velhos costumes e inseguranças traiam os bons momentos da vida, ali a olhá-lo tão próximo? Impossível. A raiva dele escoou meu mau momento, levou-o embora consigo em ondas enormes. Despedaçou minhas bobagens de guria impulsiva como fez com as tábuas de alguma embarcação que ele atirou contra a praia. A areia povoava-se de restos de naufrágios, de todos nós que éramos repelidos por ele. Definitivamente ele não queria nossa companhia.

É sempre difícil deixá-lo – confesso. É difícil dizer-lhe um até amanhã – seja ou não o amanhã uma certeza. É ele que preenche meu coração. É nele que eu desejo pousar meus olhos. E, talvez, seus dias imprevisíveis seja o que mais me atrai a essa imensidão. É preciso atentar para as marés, para os ventos, para as fases da lua e tudo o mais. Mas é imprescindível estreitar a atenção e decifrar-lhe as vontades, seus amores e suas raivas. E continuarei a voltar todos os dias que puder, para enamorar-me deste mistério…

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