Trilogia da Periferia – Açúcar

Quando o Gritos do Sul (2022) foi atacado, eu escrevi aqui sobre ele e sobre como escrevia pouco acerca dos meus filmes. Tento reverter, desde então, essa ausência.

Açúcar (2024) é o primeiro filme da Trilogia da Periferia. Quando ele foi aprovado no edital municipal, eu ainda não havia formulado a premissa da Trilogia. Então, Açúcar surge como um curta-metragem a ser realizado no Morro do Amaral, com participação dos moradores da comunidade. 

Porém, Açúcar já era muito mais que isso. Açúcar era minha cura, pessoal e profissional. Eu e Açúcar sobrevivemos à usurpação, à falta de caráter, à manipulação, à maldade de quem quis me usar e usar o meu trabalho. Após a primeira tentativa, diante da segunda eu decidi lutar pelo Açúcar, e tive o apoio necessário para produzi-lo e seguir adiante. 

Açúcar juntou uma equipe parcialmente inexperiente, como sempre a Oficina deu oportunidades para pessoas iniciantes em quem sempre depositamos confiança para trabalhar no cinema. Se algumas delas não honram essa confiança, ficamos com a consciência tranquila. Nós fazemos a nossa parte naquilo que acreditamos, na formação, fomento e crescimento do cinema na região.

Açúcar chegou com alvoroço e certa desconfiança na comunidade da Ilha do Morro do Amaral. Aos poucos, a cada visita, a cada contato, as pessoas foram nos recebendo, abrindo suas portas, topando participar das ações e do filme. A nossa história respirava o Morro do Amaral e seus habitantes. Elisângela, nossa protagonista, foi assumida por uma menina inteligente, divertida, que se destacou desde o início e que na escola já era conhecida por participar das peças de teatro. Foi especial e curioso vê-la construir a personagem que tanto divergia da sua personalidade, o talento e a atenção aguda que Sophia Negherbon dedicou ao trabalho fizeram toda diferença.

Fomos convivendo com as pessoas, com a paisagem, com a rotina e eu lapidando o roteiro. Lá comemos peixe e pirão, passamos finais de semana, encaramos quedas de luz, nos adaptamos ao difícil acesso, observamos como a natureza comandava as relações.

Contamos com o apoio das pessoas em vários momentos, desde o empréstimo de itens até a contratação de serviços. Quando falamos que o cinema atinge o público, ao ser exibido, Açúcar atingiu as pessoas desde a sua pré-produção. Congregamos crianças dispostas e entusiasmadas a participar de um filme na rua onde elas passam todos os dias. Lutamos contra a burocracia para tê-las todas em cena e rechear nossa história com seus sorrisos. E elas foram heróicas ao gravar uma manhã inteira de sábado um plano-sequência sob o sol. 

A Trilogia da Periferia é sobre desigualdade social, é a temática ampla que une Açúcar (2025), Robin (em pós-produção) e Marta (em pré-produção). Ao deslocar a produção para o Morro do Amaral, Morro do Meio e Jardim Paraíso nós começamos um manifesto muito claro sobre o que estamos falando, sobre o que é o cinema que está sendo produzido. Os três protagonistas têm muito em comum além de serem moradores da periferia da cidade mais rica e mais populosa de Santa Catarina, um dos estados com alguns dos melhores índices do Brasil. Foi em Joinville, de forma muito profunda, que a Fahya adolescente aprendeu o significado da palavra hipocrisia. Talvez essa seja uma raiz profunda das origens da Trilogia da Periferia.

Açúcar, porém, aprofunda algo que é muito caro pra mim: as questões de gênero. Além da desigualdade social, Elisângela encarna uma herança ancestral do ser mulher. Nós gravamos farto material da protagonista realizando serviços domésticos, enquanto outras crianças brincam lá fora. Parte do serviço é para levar algo para casa, cada “ajuda” a uma vizinha incrementa a despensa da família. Nessa família, Elisângela já é uma das mantenedoras: varre, limpa, cozinha, cuida do irmão mais novo, limpa peixe, faz tudo o que precisa para que a casa se mantenha de pé. Ela combina seu papel dentro do âmbito familiar com a mãe que “trabalha lá fora”. 

A mãe é interpretada com uma docilidade e paciência incríveis pela Silmara Neves, também moradora do Morro do Amaral, que num dia de trabalho da equipe foi até nós levar seu filho para uma vaga no curta. Após a formação e o teste, ela mesma foi escalada. Silmara também trabalha com serviços domésticos na casa de terceiros e usou a expressão “trabalhar lá fora” porque para quem mora no Morro do Amaral, todo o resto da cidade é “lá fora”.

Na equipe somente eu e mais umas duas pessoas conheciam o Morro do Amaral. Todas as vezes que exibimos o filme para o público de Joinville, a maioria diz nunca ter ido até lá. Eis um sintoma de uma cidade que não se vê – e nem se enxerga.

As cenas do trabalho doméstico de Elisângela são longas e pela versão da Diretora seriam ainda mais longas (e teriam algumas que nem estão na versão final). Isso não é interessante para um filme. Ninguém quer ir a uma sessão ver uma menina fazendo limpeza. E é justamente esse desconforto que eu quis o tempo todo. Porque o filme é sobre isso.

Gravamos duas vezes e por bastante tempo a famosa cena do peixe. Por mim, ela duraria tempo real no filme para que o espectador soubesse quão difícil e demorado é limpar um peixe. Garanto que muitos não sabem. A cena do peixe foi muito especial, eu não comia peixe quando criança, mas aprendi a limpá-los com minha avó. Época da tainha íamos até o Mercado Público comprar algumas e eu ia para o quintal descamá-las, tirar as ovas, as tripas, a cabeça, cortá-las em postas ou deixá-las inteiras para serem recheadas. Eu não tinha nem dez anos. Elisângela, nos seus dez anos, demonstra que limpar peixes é ato corriqueiro para uma moradora do Morro do Amaral. 

Elisângela é mais uma personagem mulher que escrevi com o coração nas mãos, como Maíra, do Gritos do Sul. Porque essas histórias só existem por causa delas. É como eu quero que os olhos alheios vejam aquilo que a estrutura da nossa sociedade esconde e sempre fez questão de esconder. É o cinema no qual eu acredito. 

Para além do cinema político, percebo que faço cinema contra a hipocrisia. Quem sabe Robin seja mais direto sobre isso, mas fica para um próximo texto.

Quando vejo mais produções indo até o Morro do Amaral, quando discorro sobre as belezas do lugar, a receptividade das pessoas tenho certeza que levar o Açúcar pra lá foi uma das minhas melhores decisões criativas. Ao tomar decisões, ainda mais sobre produção, sempre há o caminho mais fácil e os outros: os que fazem sentido, os que desafiam, os que demandam mais empenho e trabalho… Cada um deles traz suas recompensas.

Convidei Ianca Michelin depois de já termos trabalhado juntas no Passagem de Volta e no Gritos do Sul (em ambos ela inscreveu-se na seleção de elenco). Desta vez eu precisava de uma vilã diferente, particularmente eu gosto muito de escrever vilãs e tenho muito material da vida real para elas. A vilã muito humana, do alto da sua hipocrisia a vilã dorme sobre as certezas do seu mundo. Eu e Ianca tivemos as nossas conversas para construir a personagem e nos inspiramos em pessoas próximas, essas pessoas que existem, como a Moça do filme. A poeira na cena final da participação da Ianca é uma referência cinematográfica que intuitivamente eu assinei como a retomada da Fahya à Direção – pra quem não pegou, Carlota Joaquina é o filme símbolo da Retomada do Cinema Brasileiro.

Sinto-me cada vez melhor em escrever essa minha atuação no cinema de Joinville, no cinema de Santa Catarina, no cinema brasileiro. Açúcar estreou em janeiro de 2025 na 28a Mostra de Cinema de Tiradentes, desde as primeiras edições eu acompanhava à distância, já conhecia (e me apaixonara) a cidade de Tiradentes e a Serra de São José e voltar lá para exibir Açúcar foi realizar mais um sonho – afinal, vivo de realizar sonhos. Tivemos tantos momentos especiais com Açúcar, selecionado para o MIIA de São Paulo, com curadoria de crianças e adolescentes e licenciado para a Todesplay, finalista do Respira no RS, exibido no 1o Festival Internacional Goitacá de Cinema em Campos dos Goytacazes e em breve no 7o Festival de Cinema de Três Passos, no RS. 

Por que açúcar? A referência no filme é evidente, esqueci de dizer que o roteiro é adaptado de um conto que escrevi anos atrás ao conhecer o bairro da Tapera, em Florianópolis, e que tinha um título gigante e entreguista: A rua é de barro mas eles têm açúcar. Pra quem já leu As veias abertas da América Latina e conhece História do Brasil e História da América Latina (e de muitas colônias pelo mundo) o título e o personagem do açúcar no filme dizem muito mais.  

A riqueza da vida e do fazer cinema está nos detalhes. Encerro o texto de hoje com um sorriso. Talvez eu volte a escrever sobre o Açúcar, certeza que ainda escreverei sobre o Último Natal e, em breve, sobre Robin… este que já é o meu herói. Talvez Robin tenha também muita hipocrisia para encarar. Talvez.

Às vezes é sobre Tom Hardy

Desculpa, sou hétera

Eu sei, é quase um pecado hoje ainda alguém declarar-se hétera. Mas, sou. E muito. Como tantos de nós, também me descobri hétera (e muito hétera) ainda cedo. Não, posso assegurar que não é nenhuma heteronormatividade imposta ou construção sócio-cultural, é da minha natureza mesmo. Também, lamento decepcioná-los, mesmo com as péssimas e nem tão ruins assim, experiências decidi jogar em outro time. Sou hétera, mas quero garantir que não é uma falha no caráter ou sequer algum desvio. Sou hétera e não sou melhor nem pior que ninguém. Só, por favor, não insistam: como eu respeito todas as sexualidades, respeitem a minha. Não tenham pena, porém. Pode não parecer, mas sei onde estou metida.

Decidi me assumir hétera, profunda e assumidamente hétera, por causa do Tom Hardy. Nessa angústia da espera da segunda temporada de Taboo – caso você não saiba o que é a primeira temporada de Taboo, por favor, finja – eu resolvi dar uma chance a Mobland. Fiquei surpresa, ao sair da minha bolha, que essas séries transpirando testosterona com sequências pavorosas de mau gosto misóginas ainda têm espaço E financiamento. Parece que têm, não é mesmo? Guy Ritchie envelheceu muito mal, Pierce (meu amadinho e melhor 007 ever) e Helen assustadores sem se sustentarem no texto teatral e beirando o ridículo, MAS Tom Hardy: másculo, homem comum, o não-herdeiro, o incompreendido (só as héteras entendem o poder de sedução que um homem incompreendido exerce sobre nós), o herói solitário. O QUE É TOM HARDY?

Um fenômeno.

Ele, casado (óbvio), com uma esposa que o pressiona pelo comum e comezinho (insuportável), ele que deve lidar até com o asilo da mãe da ex-empregada, enquanto, narrativa paralela, ele salva tudo e todos, ela só reclama e ainda quer TERAPIA DE CASAL. Pobre hetero incompreendido. E era um desses que nós, héteras raiz, quereríamos salvar. Um defeito de fábrica, com certeza, toda hétera raiz querer salvar um hetero incompreendido e sacrificado por relações espúrias e infelizes. MAS, nós, em algum momento, nos curamos.

TOM HARDY me fez rever minha TEORIA DO AVERAGE JOE

Por um ano eu coloquei em prática a Teoria do Average Joe. O homem comum, sabe? Você poder sair com alguém sem precisar citar Almodóvar ou Fernando Pessoa. Conversar numa mesa de bar duvidosa sem contar sua vida profissional (UFA) e onde você fez mestrado. O auge: ir num bailão, rodar e rodar, sem registros (dos quais até teus amigos mais próximos duvidarão), rir de coisas que você não vai nem lembrar, beijar e se divertir e nunca mais saber de nada. A Teoria do Average Joe era baseada somente num teste sócio-romântico com pouca base científica, no qual a fuga para um mundo paralelo onde ouvir sertanejo dor-de-corno não taxava as pessoas de bolsonaristas, mas representava umas músicas que eram boas pra cantar junto. Durante o teste, a conclusão foi que dou match fácil com motoristas (de caminhão, de ambulância, de máquinas, etc) e pessoas em cargos de segurança. Sei lá, deve ser minha vida nômade que me aproximava desses perfis. 

O homem comum. Como é bom experimentá-lo. Eu vivi sufocada pela pretensão. Você já reparou o quanto a vida é imersa em pretensão? Eu quis fugir. E eu fugi. Eu precisava fugir dessa pretensão toda. Eu só queria ser eu. Eu só queria ser a Fahya, a mulher, a fêmea (amém, Wando), a debochada e brincalhona, a carinhosa e sonhadora, a Fahya que olha pro mar por duas horas sem ver o tempo passar, a Fahya que não é procurada pelas pessoas que só querem um cachê no próximo filme ou porque querem aprender a produzir. Foi intenso e reparador buscar o homem comum. 

Ser hétera pesou muito ao ver homens héteros que não suportam que a sua companheira cresça naquilo que ela acredita, que se destaque na sua profissão, que não a apoiam, homens que até se relacionam com ela porque têm interesses profissionais. Eu tenho certeza que você, hétero, está numa relação assim – ou já esteve em uma – seja hétera ou hétero. Aliás, mesmo os não-héteros. Vamos deixar de romantizar até a parte ruim dos relacionamentos: merda há em todo lugar. Violência doméstica não é exclusividade dos héteros, tá? O quanto antes falarmos disso, melhor.

E eu falo mesmo. Cansei de homens que não me davam espaço e valor pelas minhas qualidades profissionais. Desisti de homens que só se aproximaram “romanticamente” de mim por interesses profissionais. Desisti do amor? Jamais. (aí entra a Carrie, mas fica pra um próximo texto)

TOM HARDY e a ilusão

Eu sei, a conclusão do estudo sobre os average joe é que fica mais difícil estabelecer uma conexão profunda e contínua quando não há interesses mais fortes. Bem, eu também não estava em busca de nada forte e profundo. Contudo, é muito bom entender que não vou basear um encontro em analisar os filmes do Pasolini. Também não me importa saber quais autores você leu. A Nova Teoria é sobre CARÁTER. Pouca importa com quem você faz sexo, inclusive (jovens, aprendam). Tenho definido as pessoas pela característica mais simples: caráter, tem, ou não tem?

Além do caráter, vou reparar no que você bebe. E talvez isso desperte em mim muito mais interesse do que qual faculdade você fez.

Por certo, se tiver caráter e bom coração já vai despertar minha atenção. Harry, em Mobland, é de um coração enorme. E que megera maravilhosa é a esposa dele que não percebe isso, não é mesmo? Pois é, e eu aqui querendo encontrar uma megera dessas. É alguma síndrome de heroína, só pode, que me domina e faz querer salvar um hétero de algum relacionamento apodrecido por dentro e com uma megera que o sacrifica e anula. Sim, busco caráter, mas já não considero que cobiçar o homem alheio seja falta de caráter da minha parte. Sei lá, nunca acreditei na perenidade e imobilidade das relações.

E era esse o ponto. 

As pessoas têm medo de sentir, de amar, de arriscar-se. Ok, você está em um relacionamento, passou anos construindo isso e DAÍ?! As coisas mudam. Você pode conhecer alguém. Eu posso te conhecer. Já pensou nisso? Teus planos explodindo no ar igual a casa de um mafioso. Acontece. Que horror, tenho eu, lua em sagitário, de pensar na vida como algo definido e estático e imóvel. Até na Bíblia está que temos que viver pela cruz de cada dia. No fim a gente vê.

Passei dias pensando sobre as relações próximas entre sonho e ilusão. Não estou, ainda, preparada para confabular teorias. Mas, jamais deixarei de apoiar as ilusões, nem com os quarenta se aproximando. Então porque a idade se aproxima eu tenho que ter medo do que sinto e me deixar amordaçar pelo que a sociedade prega?

Não fiz isso nem quando tinha dezesseis anos. Tá doido.

Ainda não casei (graças a Deus e a mim). Ainda não tive filhos (desespero nunca foi meu forte). Não sou divorciada. Sou só uma mulher, hétera, branca, solteira, sem filhos. Espécie pouco estudada, mas tremendamente à margem da sociedade esdrúxula que rege nossos dias. Behind every successful woman is herself. Não, não contamos com homens nem ninguém para rachar o aluguel, pagar as contas, nos levar para cá ou para lá, para dar conta das coisas da casa, etc. Também, longe de nós!, pegar homem pra terminar de criar – e lavar suas cuecas. Nós fizemos escolhas. Porém, nem todas essas escolhas foram por nossa decisão (e isso terá um post especial, quem sabe).

Mas essas héteras são público-alvo de uma série fraquíssima (sorry, os turcos é que sabem fazer séries sobre máfia com muito mais propriedade – até do que os italianos, prego) que tem TOM HARDY. Porque, por vezes, a gente tem ao lado um average joe mesmo (ao contrário dos homo, os hétero raiz são LARGADOS e a gente sabe) e gostamos de satisfazer nossas fantasias com o TOM HARDY na tela. Ele enfrenta os marroquinos e mexicanos na Antuérpia completamente sozinho numa moto excitante e é tudo o que precisamos. Jamais que uma série dessas é produzida para um público que não nós, héteras exigentes e sonhadoras. 

Talvez deixar de romantizar ou manter ilusão é não acreditar no mito do homem que demonstra “cuidar” de nós. Nunca precisei da sensibilidade dos homens. Sabe a cena clássica? Quando ele empresta o casado para ela não passar frio? Meu querido, precisamos muito mais do que isso. Eu sou independente, adulta, dona da minha vida: nunca precisei que alguém se preocupasse se estou com frio ou não. Eu não preciso da sua sensibilidade. As héteras legítimas, solteiras, independentes, maduras querem alguém pra estar ombro a ombro. E, infelizmente, na Nova Teoria isso já salta aos olhos: vocês não estão preparados. 

Eu não preciso de um homem hétero que cuide de mim. Aliás, nunca precisei. Nem tenho cuidados para oferecer, não mais. Porém, aos héteros, o medo de não poder ter ao lado uma mulher que precise dele ainda é dominante, independente da idade, do estado civil…

A vida da gente muda drasticamente quando buscamos ter o que queremos e não somente o que precisamos. Eu super recomendo, mas sei que não é pra qualquer um.

AVERAGE JOE é história

A Teoria nasceu com o programa de TV The Bachelor’s do qual teve uma ou outra edição que eles colocaram no elenco os average joes, o programa foi sensacional, mas claro que as mocinhas héteras preferiram os musculosos nada average. Acontece.

TOM HARDY é ilusão

Eu sei. Estou me preparando para reassistir Taboo, primeira temporada. Que homem, que fenômeno que me faz construir teorias (mentira, eu faço teorias sobre quase tudo na vida, é um dos meus passatempos favoritos no mundo). Bem, eu sonho para realizar aquilo que me satisfaz na vida. Mas, na dureza dos dias, eu me iludo. As ilusões não são de todo dispensáveis, elas sustentam os piores dias, nos embalam ao dormir, entretém a mente nas filas de espera. 

A Fahya não é uma máquina. A Fahya não é uma tola que as pessoas acham que enganam e de quem tiram lucro em cachês e aprendizado. A Fahya é uma mulher com uma vida apreciável demais para estar na boca das pessoas. E ela é essa hétera feliz (contra todas as previsões e desejos) que até experimentos faz. Sobre nunca conseguirem superá-la, é verdade, dizem que perdê-la é até razão para cortarem os pulsos!; fica como promessa de novo texto (que nunca escreverei).

Desculpa, sou hétera e ainda me divirto muito com isso. Não seria o tempo, meu grande e bom amigo, a me desiludir sobre o amor. Já faz tempo que aprendi que amor é algo muito maior do que as convenções, as exigências sociais, o aluguel do mês, os contratos, os prazos da idade, as aparências, as escolhas. 

Lamento pelos que faltaram às aulas da vida e não sabem que quando ele aparece, é preciso largar tudo e segui-lo, sem medo. É como se Tom Hardy aparecesse na minha frente. 

(sim, é só uma frase de efeito para encerrar o texto, mas podemos dormir com essa ilusão hétera fantástica)

Viva o Cinema!

Ontem, na Argentina, o presidente recém empossado atacou as políticas públicas para o cinema nacional, num arroubo de raiva e tentativa de frear um dos melhores cinemas do mundo – em vários sentidos, inclusive no financiamento público.

Hoje, dia 28 de dezembro, é o marco da primeira exibição dos irmãos Lumière, em Paris, e a data que consideramos o surgimento do Cinema. Cinema, assim mesmo, com letra maiúscula, porque há 128 anos ele é um senhor sucesso de público – até com seus inimigos. Sim, há inúmeros inimigos do Cinema.

Os inimigos surgem pelo único motivo do sucesso, se ele tivesse fracassado na vida, ninguém se incomodaria com ele. Porém, o Cinema ainda apaixona e enfeitiça, nos prende por horas, que longa-metragem nenhum é uma série, nos estala o cérebro em minutagens mais curtas. E carrega atrás de si os fofoqueiros de plantão, pessoas mal-resolvidas que não gostam de ver o sucesso alheio.

Termino o ano feliz da vida por ter feito talvez o filme de maior sucesso nacional (e mais visto? até o momento, quem sabe) da minha cidade. Gritos do Sul rompeu algumas (não poucas) barreiras e só posso agradecer aos detratores, invejosos e infelizes de plantão: eles comprovaram que o curta-metragem foi muito bem sucedido no que se propôs. Aliás, reitero que o sucesso é inclusive a demonstração dos bons resultados que podemos obter no investimento em políticas públicas para o audiovisual. E por saberem muito bem disso é que os políticos da extrema-direita e da direita de cima do muro atacam, por preferência, o Cinema. Hoje, nessa data tão importante, quando o mundo nos deu o Cinema e depois disso nunca mais foi o mesmo, precisamos dizer com todas as letras: eles atacam o Cinema porque sabem o poder dele.

Ninguém teme quem é fraco. Não é mesmo?

Curioso perceber como quem atacou o Gritos do Sul e a mim, roteirista e diretora, é quem se diz paladino da Liberdade. Precisam voltar pro dicionário. Quem ataca um filme jamais pode dizer de si que defende a liberdade – sem espaço aqui para embromação, liberdade ou é a favor, ou contra, encerra-se a questão. Nada mais livre do que produzir filmes corajosos, e que sobrevivem e sobreviverão a todos esses que um dia são alguém, amanhã ninguém sabe que fim deu.

São essas mesmas pessoas que inventam mentiras e correm para as redes sociais atacar os outros que devem ser responsabilizadas pelos seus atos – quantos mais precisarão tirar a própria vida para que nossos legisladores entendam? E o Cinema já antecipou isso, lembro de ter assistido a um filme, um bom tempo atrás, sobre as consequências na vida de uma menina, após ser atacada por mentiras em redes sociais.

Eu poderia ter tirado a minha vida, em algum dos inúmeros dias de angústia que passei ao ser atacada. Não o fiz. Nem todos conseguem. Passou da hora de discutirmos isso. Minha tranquilidade, na alma e na consciência, é saber que fiz um filme que causou tantas reações e que vai reverberar ainda um bom tempo. Mas, não se enganem, o medo não terá vez. Continuam e continuarão tentando calar o Cinema – jamais conseguirão.

Até mesmo quando o Cinema foi usado pelos covardes, quando usam o Cinema como propaganda, ele sobrevive forte para nos contar quais os erros que não podemos cometer. Precisa muito mais do que um decreto qualquer para silenciar o Cinema de um país. Precisa muito mais do que a dor de cotovelo de uns joinvilenses para calar o meu Cinema. Precisa muito mais que streamings capitalistas para fazer do Cinema uma arte desinteressante.

Recebi hoje uma mensagem que dizia que eu mereço (coisas boas) porque luto contra o sistema. Tendo a concordar. Que venham mais pessoas para a luta.

Assim, provamos na prática o quanto vocês precisam mesmo temer o Cinema.

A espoliação dos relacionamentos

Talvez o ano tenha sido morno, cinematograficamente falando. E o que eu gosto da temporada de premiações é que voltamos a falar (e ter acesso, coisa ainda difícil nestes cantões do mundo) de bons filmes, ou filmes que chegaram a algum lugar. Em especial eu gosto muito da produção latino americana, esta que é tão descreditada e, lembremos sempre, da qual fazemos parte. O primeiro latino da temporada que assisti foi um paraguaio.

Las herederas (Marcelo Martinessi, 2018) te deixa em dúvida desde o começo – mas tudo desaparece (ou não) com o final. Te deixa em dúvida e confuso, afinal, quem são as herdeiras, o que elas têm, quais são as intermináveis dívidas, o que uma é para a outra. Nessa onda de mudanças no Cinema mundial, o filme praticamente não tem homens no elenco (e eles não fazem falta!). É um filme sobre mulheres? Não. Sobre o que é? Bem, eu diria que só no último terço do filme que emerge com força o que o filme quer dizer – até lá ele vai lentamente descortinando uma história que vive às escuras, numa casa decrépita, diante de patrimônio e sentimentos que são dilapidados cena a cena.

Ponto extra pra Direção – e aí sentimos a influência forte de uma Martel no Continente, aliás, foi dela um dos melhores filmes que vi no ano. A câmera não encara ninguém, nem nenhuma situação, de frente. Ela “espia”, ela observa, ela parece estar ali por acaso. É uma história tão “feia”, tão distante dos olhos da sociedade, que a câmera também vai contando-a pelas beiradas. São poucos os momentos que a câmera é direta sobre um personagem, e nunca sobre as protagonistas. Para isso são usados muitos espelhos, muitas portas entreabertas, muitas distâncias e bancos traseiros do carro. Sinto que isso é que faz toda a diferença no filme, pois se não fosse pela Direção a história seria outra – e o que é Direção senão exatamente isso, transformar histórias?

O tempo todo de transformação se passa lentamente e só vê quem tem bons olhos (os outros desistirão no meio do caminho). Poderia ser um filme sobre o amor – o amor esse, de todos. Mas, é um filme sobre relacionamentos abusivos. Aviso: você demora muito para perceber isso. (se for assistir depois de ler, não) Filme sobre relacionamentos abusivos no qual só há mulheres: a surpresa eu não vou estragar. Porém, tem que prestar atenção nos detalhes, no carro (um personagem), nos figurinos, na maquiagem, nos cigarros…

Se é um grande filme? Talvez. É um filme que fala universalmente, algo que o cinema latino americano sabe fazer tão bem, e nossas mazelas não são só nossas. É um filme corajoso, ou vil, quem sabe. Fiquei na dúvida, realmente, ao final. Porque ele fala de algo tão pessoal, tão íntimo, dando liberdade às mulheres ou condenando-as? Talvez um filme mais necessário do que o badalado Una mujer fantástica. E talvez o cinema paraguaio (assim como o argentino, o peruano, o chileno,…) sirva como lição para o brasileiro: não precisa de circo, palhaço, heróis para uma grande história de qualquer sentimento universal. Um dia, talvez, a gente aprenda.

Fica um gostinho: http://remezcla.com/lists/film/latin-american-movies-best-foreign-language-film-oscar-2019/

Maratona Oscar 2018

Ah, a indústria! Que bela é a indústria! Ela produz tudo aquilo que queremos. E a Academia premia a indústria – premissa que nunca deve ser esquecida. Ninguém está premiando a arte. Bem entendido, prossigamos. Um belo dia a indústria descobriu que, também na indústria do cinema, sempre houve abusos, discriminação, disparidade, desigualdade, racismo, e toda essa leva de coisas ruins que a humanidade já produziu. E aí a Academia resolveu que ela não poderia mais reproduzir estes problemas que, apesar de sempre existirem (e serem, de certa forma, constantemente denunciados pelos produtos que ela mesma produz), eram velados. Escancaramos as portas. E o que sobrou?

Restou um Oscar politizado, um Oscar polarizado, uma premiação que atira para todo lado. “Uou, reparem, não somos racistas!”, “Veja bem, ninguém aqui é mais (!) machista!”, “Homofobia, como assim, isso não existe!”. E, de pronto, todos acreditarão. E ficaremos contentes de ter pela primeira vez uma mulher indicada à Fotografia. E temos indicados negros nas categorias de atriz coadjuvante, melhor ator e direção. Um sucesso. Temos, aliás, dois filmes de elenco negro entre os melhores. Temos uma diretora indicada, temos filmes que tratam de gays, nas categorias principais. Um sucesso.

Será?

A categoria mais concorrida está na Melhor Ator principal. Os cinco concorrentes estão excepcionais. Nos dois filmes mais cotados para levar a categoria principal as protagonistas mulheres convivem com dois coadjuvantes, num caso, e com uma criatura, no outro caso – que, se pudesse, certeza que teriam indicado (e levaria – não quero acreditar que foi inspirado no Redford). As estruturas, não deixemos a indústria nos enganar, permanecem.

E tudo politizou-se. Não sei. Parece só mais uma estratégia. Muitas boas intenções, o inferno perpetua-se. A indústria nada mais é que a indústria. Muitos confrontaram a Academia com seu racismo, mas poucos (quase ninguém?) veio tecer elogios às indicações “less white” desta edição. Povo ingrato. As produções, industriais que são, aproveitaram-se desta ânsia (do público?) e elaboraram suas histórias respondendo ao apelo. É o velho menu que nos é servido. Tem degustação, nos oferece muito, mas saímos insatisfeitos.

O que faltou? Boas histórias. Histórias sedutoras, emocionantes. Quando se faz muita política, o principal jaz calado, amordaçado, o cinema cansa. Que venha a premiação, cada vez menos assistida, com filmes de baixo público, a Academia talvez esteja preocupada com as coisas erradas.

 

Mudbound: Apesar de parecer uma boa história (e produção pobre) resume-se ao modo Netflix de ver o mundo, que contempla um anacronismo feroz nas produções de época (vide Anne with an A e similares). Hoje essas produções fazem sucesso com o mote de “dar ao público o que ele quer e pensa”, parece que controlam as postagens de Facebook e fazem séries e filmes com este conteúdo. Complicado, muito complicado (mas boa questão teórica). Eu perdi as esperanças quando surgiu a Ku klux khan – foi demais, né.

Lady Bird: Sério mesmo?

The Square: “Minha instalação deu um bafafá! Uau, vou fazer um filme sobre isso!”. Não, amigo. Bem, se ele mesmo disse que o filme estava chato e, por isso, colocou um macaco do nada, não precisamos dizer muito mais. Algumas das piores cenas do cinema de todos os tempos – mas, se você precisa pagar de descolado e inteligente e endeusar o filme porque ele é inteligente e “mete o dedo na ferida”, bem, bom proveito. A gente entende o que ele quer dizer – e ficar repetindo, tanto diálogos quanto o tempo das cenas, não precisa (ou ele pensa que o público é muito burro). Gostei da atuação do menino que vai tirar satisfações. E é mais uma vítima dessa crise de filmes que querem dizer tudo sobre tudo (até um dos meus favoritos deste ano, Three Billboards também sobre).

Darkest Hour: Bom, mas nada muito além. Figura do Churchill atrai pelo que disse e pelo que nunca se soube. Tem outro sobre ele, do ano passado. Elenco de TV (pra quem gosta das séries britânicas soa bastante familiar). Gary Oldmann fez um trabalho artesanal (mas, em se tratando de Academy, Day-Lewis há de levar para entoar o coro “fique!”). Fica a ligação com Dunkirk (nunca nos livraremos do fantasma da 2ª Guerra) e a dica para filme (com Mel Gibson) e série (australiana) sobre Galipoli. A melhor cena é do telefonema com o “Franklin” sobre de quem é a responsabilidade e as atitudes a serem tomadas, com a sutil metáfora sobre o avanço do terrorismo atual.

Dunkirk: Levará os técnicos, de som. Pretensão, sempre tem algum candidato assim. Tem falhas no roteiro que prejudicam a edição e personagens desnecessários (mas o mais indicado também tem). É o suficiente para descartá-lo.

Three Billboards…: Baita filme. Despertou amor e ódio. Roteiro arrasa e, apesar de não ter sido indicado à direção, por mim merecia. Os atores arranham a tela, não por menos que levou duas indicações de ator coadjuvante (vejam só, num filme com mulher protagonista e que a Frances leva ao máximo seu papel, os personagens masculinos não ficaram “por baixo”, receberam suas indicações – quando acontece de ter protagnista mulher em filme que é considerada “coadjuvante” porque o principal é homem). Frances vai além de Olive Kitteridge, onde já está excepcional. Apesar de ser parte fundamental do roteiro, a intenção de atirar para todo lado pesa um pouco – a cena do padre, por exemplo. Mas é um filmão, necessário em tempos de muito melodrama atado, sem enredo fortes e interessantes. O flashback com a filha é um golpe no espectador – e é o único flashback, pois o filme não fica tentando explicar nada. As reviravoltas são impressionantes, o argumento é sensacional. Mas é um filme tenso. Frances e Sam merecem. Melhor filme e roteiro também.

Victoria and Abdul: Bonzinho. Mais um filme que, a partir de um fato do passado, tenta fazer com que as pessoas reflitam os acontecimentos do presente. Percebe-se que a Europa precisa muito pensar sua relação com a cultura Oriental, discutir a questão dos refugiados e tudo o mais. Tem até filme pra TV que serve para alertar os pais de como seus filhos e filhas são recrutados pelo Islã. Concorre a figurino, mas perderá para Phantom Thread (com louvor), e maquiagem, que perderá para Darkest Hour (os dois são medianos, tanto faz).

I, Tonya: Um excelente filme. Tenso, também. Mas com atuações brilhantes, edição muito boa e história interessante (o que faltou muito este ano). A mistura de documental e ficção nem sempre dá certo, mas neste encontraram uma boa medida. Alisson leva, de certeza (até porque a concorrência está fraca).

Loveless: Filmão. Sabe cinema? Então, o filme mais cinema de todos os candidatos deste ano. Sei que há várias intenções e algumas realizações realmente boas, além dos interesses comerciais e tal. Mas russos (ainda) fazem um bom Cinema. Ele não explica, não insiste para o espectador entender, não se preocupa em inserir (pelo menos não de forma óbvia, apesar de já ter feito isso historicamente) as questões do presente, não se apequena. É uma narrativa sutil, seca e universal (talvez isso também tenha faltado à maioria dos outros concorrentes). É tão o oposto de The Square, por exemplo, que leva horas dizendo e repetindo suas idéias geniais – o cinema não precisa disso. É russo por excelência na narrativa e, claro, sabemos que é um cultura bem diversa da americana, por exemplo (também difere da do Oriente Médio, e por isso lamento muito ainda não ter tido acesso ao libanês). Quem dera o cinema fosse feito sem tantas pretensões, teríamos mais filmes assim.

Call me by your name: Revoltante. Como filme, como mais um “discursivo”, como algo em relação a levantar bandeiras. O filme é misógino, como já disseram, tem um argumento fraquíssimo, atuações pífias (o que é o robô americano?). Eu fiquei muito incomodada com o filme. Há duas sequências que mostram o quanto ele foi incapaz: a do diálogo deles diante do monumento da 2ª Guerra, supostamente subentendido mas que não diz nada absolutamente; e o discurso do pai para o filho sobre a atração por outros homens – aqui, talvez, uma das piores cenas de todo o cinema, porque cinema não se faz pra pregação. A teoria é que todo homem sente-se naturalmente atraído por homens. Simples assim. Mulheres, no filme, são para serem usadas (sexualmente mesmo no caso da moça que ele “namora” e a noiva de “aparência” do americano) e vivem deslocadas (a mãe dele não “entra” em nenhuma cena onde aparece, nem na atuação, nem no figurino, nada nada, tudo destoa). O grande argumento seria da impossibilidade de assumir-se homossexual diante da família e sociedade – porém a família dele (estranhamente) aceita e existe no filme um casal de gays assumidos (do qual ele debocha, por costume apenas). É tanta incoerência no filme que não dá. Sinceramente? É só um filme sobre um guri de dezessete anos com os hormônios á flor da pele em pleno Verão. Por isso que ele pega mulher, homem, fruta, o que vier (se fosse filme brasileiro teria uma cabra, certeza). Não há um desenvolvimento de relação afetiva entre os dois (até porque a atuação do americano dificulta muito). O guri só quer aliviar-se sexualmente. E quando a gente fala em verossimilhança (já caiu de moda, dizem uns) estamos nos referindo a pais que desconfiam ou sabem que um estranho está comendo teu filho, na tua casa, e apoiam isso. Não, sinceramente, a história não foi construída para que o espectador aceite este desenrolar. São argumentos que não se sustentam e uma história que tenta surpreender (a aceitação da família), mas que enfatiza a questão hormonal do adolescente, não os sentimentos e problemas da sociedade. Por mim não leva nada – e deveria ter muitas ressalvas do público homossexual.

On body and soul: Bom filme. Mas talvez não passe disso. Para ela é amor, pra ele é mais uma pegação – e o que era pra ser uma bela história de amor acabará no farelo do pão. Como isso se desenvolve é interessante com o pano de fundo do matadouro. Talvez seja muito expressivo visualmente sem encaixar bem. Os sonhos desaparecem, os abates também. Merecia indicação de Fotografia (jamais aceitarei terem indicado Ada). Com carreira de ter ganho Berlim, eu esperava mais.

La mujer fantástica: É bom. É o primeiro indicado ao Oscar nessa leva de produtos audiovisuais que querem atores trans para personagens trans – logo passará. Foi novela, curta e longa. “Não faz sentido” mostrar um personagem trans e colocar um homem/mulher para atuar. Cinema não é realidade, cinema é enganação. Mas, pela publicidade muito é feito. Está na moda buscar “representação”. A história é boa, apesar de alguns percalços como a tentativa de uma “pista falsa”, os humores da personagem. Cinema chileno é muito bom e América Latina é a mais corajosa em trabalhar com questões sociais difíceis no cinema, a gente sabe. Acredito que só a questão do ineditismo e representação é que levaram o filme a fazer carreira, ofuscando as suas faltas. E eis o grande ponto do Oscar deste ano, como comentei.

The disaster artist: Divertido. Foi um alento entre tanto filme pretensioso e pedante. É um etretenimento que não quer nada além de falar de cinema – rá! James Franco faz um trabalho acima da sua média (merecia indicação, apesar de ser a categoria mais concorrida este ano). Levaria, por mim, Roteiro adaptado com folga.

The shape of water: Eu queria dissecar este filme, como eles queriam fazer com a “criatura”. O filme é tão, mas tão ruim que só a indústria e a legião de fãs para justificar a indicação. Há muitos problemas. O enredo é o maior. E um diretor que não soube resolver os problemas em cena. O que faltou (que talvez salvasse o filme): o desenrolar afetivo entre a muda e a criatura. Porque (até mesmo pela insistência nas cenas de masturbação dela na banheira) o relacionamento deles se reduz a sexo. (remember Call me…) O personagem do amigo dela tem uma história paralela de homossexual e ilustrador decadente que em nenhum momento tangem o enredo – e isso é grave. Você não coloca um personagem coadjuvante com história própria (a menos que isso importe para a trama principal) – isso só acontece em novela. O personagem do chefão também tem sequências desnecessárias: em família (que aparece e desaparece sem mais), na compra do carro. Há uma vulgaridade gratuita em diálogos e cenas que diminui muito o filme. E, definitivamente, a sequência na qual a muda pede para que o seu interlocutor repita o que ela está dizendo, porque precisa que a gente entenda, foi a pior escolha do diretor (as “legendas” foram boas). Não se faz isso no cinema. Parece haver uma “homenagem” à TV e ao Cinema, nas citações e trilha musical. Porém, o que isso tem a ver com o enredo? A atriz que era do cinema e está num programa de TV, o “monstro” amazônico, a ilustração perdendo espaço para a fotografia, a disputa Rússia e EUA, todas as referências ao cinema de outras décadas. Mas qual a relação disso? E até agora ninguém soube me responder: por que colocar sal na água se ele era da Amazônia? (citar a Amazônia, neste sentido, eu poderia forçar a barra e entender como mais uma relação com o cinema hollywoodiano do passado que fazia referência esdrúxulas com a América Latina, mas não deu)

Get out!: Uma grata surpresa. Diante da politicagem no cinema, tornou-se uma resposta a tanta preocupação. Subversivo e irreverente, “o negro está na moda”. É negro que vocês querem? Então aí está. E competente, além de popular. Deveria levar de melhor filme e é boa disputa em roteiro original com Three Billboards – receio que minha última impressão, apesar de ter gostado tanto de Three Billboards, seja por ele. Hoje em dia, quem não quer ser negro? (se eu branca priveligiada dissesse isso…) O Daniel dá conta do papel, mas talvez uma atuação mais instrospectiva fosse necessária.

Phantom Thread: O filme te seduz. Minha escolha para Direção. E figurino, claro. A tensão (demorei para encontrar uma palavra que traduzisse o filme) é a carta na manga. Daniel está sublime. Mas o páreo está duro para Ator principal. Sei que falaram demais sobre a convivência com os artistas, a submissão, mas parece-me que tudo isso fica aquém das relações entre os personagens. Por isso, talvez leve atriz coadjuvante. Ah, trilha original também, claro. Ele é o azarão, provável que leve mais do que o esperado.

The Post: Ok, talvez o Spielberg consiga o efeito de A lista de Schindler novamente – ele continua tentando, mas não foi desta vez. Ok, entendemos o recado para a atualidade (mas precisava mais do que isso, né?). Meryl Streep não soube fazer o papel de mulherzinha no mundo machista, infelizmente. Ela cresce no papel só quando a personagem se supera. Não tem como levar.

Roman J. Israel, Esq.: Baita filme. Deveria ser indicado a Roteiro, até porque a concorrência está fraca. Inteligente, não buscou fatos do passado para falar do hoje, ele apenas atualiza um personagem, dá um tapa na cara das “revoluções” atuais – parece que são cada vez piores e cada vez menos tolerantes. Denzel está sensacional. Apesar da forte concorrência, da predileção da Academia pelo outro Daniel, ele merece levar (talvez não tenha outra chance). (ouvi dizer que ele recebeu dicas do Jake Gyllenhaal, o que explica muita coisa) Este e Get Out surgem como um ar novo no cinema – o que passa longe do Mudbound, por exemplo.

Molly’s Game: Por que foi indicado? Pela “relação” com os figurões de Hollywood (e, na verdade, porque protegeu os nomes). Só pode ter sido. Um roteiro que você ouve três vezes ao mesmo tempo a voz narrativa é insuportável. Valeu por rever Kevin Costner de volta em indicados ao Oscar e pelo melhor que tem no filme: Idris Elba. O papel dele é livre adaptação do advogado da personagem real – e talvez justamente por isso que se salve.

The greatest showman: Injustamente indicado apenas com a canção “This is me” (sensacional), merecia Maquiagem e Figurino, no mínimo (incluiria roteiro). Porque é um filme pro grande público, e musical só quando é pretensioso (vide últimas indicações) que merece. Ele tem discurso atualizado com tudo isso que nos preocupa hoje – esse mundo aí que tem tanta coisa ruim, há tanto tempo. Hugh Jackman não brilha porque divide a cena de igual para igual com todos e este é mais um ponto positivo. Celebra as diferenças e a arte para o grande público (coisa que a própria Academia tem renegado), temas que são criticados em outros filmes paparicados da lista e que tão elitizadamente arrotam suas teorias. Ele não. Ele diverte, entretém, emociona e coloca o dedo na ferida. Uma pena não ter sido reconhecido. As canções têm uma pegada de Michael Jackson, é um musical atual e nem dá tempo de bocejar. Dos poucos que indicaria para todos assistirem.

O que ainda não deu tempo (além dos candidatos a Documentário e Animação)

All the money in the world: (pretendo)

The Florida Project: (pretendo)

The big sick: (não sei se vai)

Logan: (até fiquei curiosa, porque gosto dos indicados a roteiro, mas…)

The insult: (quero muito)

Baby driver: (vale mesmo a pena?)

O mundo não é justo

(porque o mundo não é justo)

Invade minha tarde estes parênteses e respinga nuvens no sol que, finalmente, se alastra pelo quintal. Penso nas praias poluídas e nas mortes de jovens envolvidos no tráfico. Tem, também, essas cidades cada vez mais caóticas e que nos deixam doentes. O mundo não é justo, concordo. Ele exige que eu trabalhe quando queria tomar banho de mar. Ele tira das nossas vidas aqueles a quem amamos. Ele transforma uma chuva melancólica num desastre que avança pelas casas. Seria, porém, o mundo justo apenas pelo fato de ser como queremos?

O mundo não é justo porque não estamos juntos. Talvez tudo seja assim simples. Como este quintal onde rolinhas namoram nos telhados, galhos secos caem com o vento, o cão lambe meus dedos e a gata reluz seu laranja ao sol. Talvez nesta simplicidade falte a sua companhia a ouvirmos o som dos carros que nos chega da avenida e o silêncio de mais um fim de dia. O mundo não é justo, enfim, porque há espaços vazios onde vontades encontram-se insatisfeitas.

Porque o mundo não é justo eu queria lançar barcos ao mar em jornadas de buscas infinitas. Eu queria, por vezes, não ser eu. Porque o mundo não é justo nada me falta se a medida é o tempo. Mas, falávamos do mundo. Há, acaso, algo que nos entristeça mais do que tal assunto? Eu conheço a beleza e o amor e sei que nem a beleza e o amor contidos na esperança nos fazem ver o mundo com alegria. Nós deixamos o mundo de pés sujos, alma partida e rosto desfigurado e ele nos responde não sendo justo.

E se acaso fosse justo, juntos estaríamos; a contemplar o pôr do sol, a ansiar as espigas de milho que cozinham na panela e a dormirmos na certeza de mais um dia sem faltas nem saudades. Se acaso o mundo fosse justo, quem sabe, mal caberíamos nele, impregnados de incertezas e medos. Porque o mundo não é justo ainda não é sábado.

Adeus 17h01

Nossos invernos, meu bem, findaram na última Primavera – aquela que eu te disse que seria inesquecível. Este inverno se esvai sob vestidos frescos e sandálias de dedo. O inverno cansou de se fazer presente em nossas vidas, resolveu dar luz aos dias e calor às noites. Sentiu-se intimidado, logo ele que nos retrai ao excesso de roupas e precauções, com a nossa felicidade e achou melhor não aparecer desta vez… ao que dizem, até sugeriu que a Primavera pegasse leve com as suas famosas enxurradas (lembra da penúltima? que lavou de vez nossos pecados e desesperanças por mais de quarenta dias?) e nos regalasse com o seu amarelo mais doce.

Agora a pouco, nas suas últimas horas, o céu que torrou nossos corações foi sendo tomado por nuvens tristonhas. Parecia até que o inverno estava queixoso de não ter nos dado aqueles dias de cobertas e aconchegos no nosso sofá. Parecia o olhar de um grande lutador que se dá por vencido. O frio penetrante e os teus olhos cabisbaixos deixaram de existir quando entendemos que os adoradores do calor (ensopados de suor) respeitam a saudade dos inverneiros. Ou, quem sabe, que a sedução dos adoradores do calor derretem as desconfianças dos inverneiros sob faróis ao final dos molhes.

Este inverno se esvai com cara de contrariado. Veio, talvez, por pura obrigação. Chateou-se todas as vezes que nos viu aos beijos de sorvete e milkshake. Retirou-se das nossas fotos nos costões ao alto diante de mares com poucas tainhas. O inverno arrefeceu diante do calor dos nossos abraços. Não quis nem chover sobre nossas noites de leituras e vinho.

Sei que fiquei sem fondue. Mas sorri ao ver as amoreiras, a cerejeira, os limoeiros, a jabuticabeira e as pitangueiras a florirem carregadas antes da hora. Descobri, mais uma vez, que meu sangue corre nos veios delas. O inverno, porém, não negou-nos os morangos cada vez mais vigorosos. O amor eu não sei, mas a natureza é sábia.

Nossos invernos, meu bem, serão eternas primaveras a florirem doces frutos que teremos o prazer de colher do pé. Mesmo que, por vezes, os mares de ressaca insistam em aparecer, estaremos juntos a admirá-los, de mãos dadas. Neste último minuto, desejo que o inverno siga em paz para deixar a minha eterna amada Primavera esgueirar-se pelas frestas das tuas incertezas e das minhas irritações. É ela, a Primavera, meu bem, e te prometo: será inesquecível.

Os fracos e covardes

O som – os romancistas diriam metálico – dos tipos a baterem contra o papel ecoou pela primeira vez depois de tantos – e muitos – anos aqui pelas paredes do Oficina, de onde vos escrevo. Tirei a capa protetora da minha Olympia e testei com dedos desacostumados. Ela, como uma amiga encantada pela lembrança, se não fosse tão pesada saltitaria na mesa. Respondeu-me como de costume, a ranhurar o sensível papel-jornal. Queria agradar-me, por certo. Tive que acertar-me com ela, pois o prelúdio fora de fato muito extenso. Lembrei-me dela, que jaz aqui ao meu lado todos os dias, como algo útil e belo – não apenas como um monumento. O monumento que refaz um trajeto da minha vida, que insinua a origem de todas as coisas. É sempre bom lembrar disso.

Era o Typewriter Day, 23 de junho. É curioso que sejamos instados a tirá-las do ostracismo para rememorar o que o seu som provoca interiormente. Não é curioso que exista um dia dedicado a elas. Alguns sites relembram que muitos dos grandes clássicos da literatura foram escritos nelas. Poucos dias antes eu comentava como é impossível o surgimento de um novo Machado de Assis. Vejam, ninguém mais tem tempo para dedicar-se à pena (literalmente). Nos formamos esses escritores mimados e incertos, artistas capengas da letra que mal pensada corre nessas telas digitais e em segundos são apagadas e reescritas. Vivemos do erro. Escrever, hoje, é um erro. Mais erramos do que acertamos. Há escritores que catam milho – expressão digníssima da Era das máquinas de escrever. “Máquinas de escrever”, que nome gordo de responsabilidade: uma máquina que comete o ato de escrever. Não é o ser humano que escreve, é a máquina diante dele que o faz. Hoje, aqui sentada diante do computador, com as idéias a correrem mais rápidas do que minha capacidade de digitar (que veio depois do aprendizado com a datilografia), a máquina apaga, corrige, colore, insere parágrafos, aumenta ou diminui letra. Faz-tudo.

O escritor, hoje, é uma farsa. Há uma máquina que faz tudo por ele. Há escritores que mal sabem escrever. A máquina, por sinal, inclui buscadores na internet, ao qual, não digam que eu contei para vocês, muitos escritores recorrem para escreverem seus livros (Deus há de perdoá-los). O escritor não imprime seus erros, escondidos num rápido ou lento ou reescritos em arquivos salvos sucessivas vezes ou deletados. Nós somos uma farsa. Jamais teremos um outro Machadão. A arte da escrita exige a entrega corajosa do esforço (quem já datilografou ou escreveu bastante a caneta sabe a que me refiro) contíguo ao corpo do escritor. Somos frívolos massageadores de leves teclados suaves e ergonômicos. Escrever não vem só da alma, as criaturas de hoje não entendem isso.

Ficamos mansos e amaciados. Somos vermes a mendigar temas cruciais à nossa época para escrever a próxima nulidade literária. Vejam que li esses dias sobre um romance qualquer que “retratava o vazio do nosso tempo” (imaginei um livro de páginas em branco, mas pelo tamanho da resenha duvido que seja). Outro se passava nas manifestações populares de 2013 (e nem era História do Tempo Presente). Outro, ainda, obviamente, falava de escritores nos dias de hoje e, obviamente, fazia uma crítica às críticas e ao consumo literário e aos escritores performáticos atrás de sucesso e incluía, antes que me esqueça, hashtags e a popularidade das redes sociais. Talvez não tenhamos nenhum Bruxo, em uma nova edição, pois esses assuntos da pauta da contemporaneidade são fugazes e reles diante de um olhar – aquele, famosíssimo (aliás, sempre que escrevo um superlativo também me recordo dele), que nos deixará com a eterna dúvida.

A culpa, talvez, não seja nossa. Talvez. A culpa talvez seja, justamente, da contemporaneidade. Deste mundo atroz que não nos sensibiliza nem nos torna seus amantes. O mundo nos repulsa, nos expele, nos atira de precipícios. Talvez, deste ponto de vista, não sejamos assim tão fracos e covardes, nós, os escritores. Talvez sejamos múmias a soltarmos a poeira da eternidade num caminhos pavimentado de word e pdf. E é o caminho que nos impede a fruição e um lugar aos pés dos grandes.

Faz um tempo eu dizia, quando as coisas do mundo pareciam tão fora de propósito, que chegaria o dia no qual eu abandonaria tudo e iria plantar batatas no alto do Maciço da Costeira. O lugar é desabitado (mas, obviamente surgiu alguém com a brilhante idéia de lá construir casas populares) e tem uma das vistas mais belas que já vi. Lembro de quando lá estive, os sons da humanidade no eco da distância, era como estar a parte dela. E foi esse o motivo que me fez recorrer à fuga imaginária de, um dia, fincar minhas idéias por lá, plantando batatas. Poderia, é claro, plantar tantas outras coisas, pois muito me agrada.

O mundo parece algo muito fora de propósito. Ele exige de nós consequências de escolhas que não fizemos. Nos cobra tanta coisa inútil. E mal temos tempo de remodelar nossa existência. Não existe, pois, depois da máquina de escrever, como existir um verdadeiro escritor. Ele está sujeito às condições da sua existência, do seu tempo, das distâncias e da falta de assunto que nos una – e não dure apenas um dia num trending topics.

Benção aos amores

Ele vem recheado de tainhas e de narizes a escorrer. Irrompe nossas casas com o cheiro do guardado das cobertas e casacos. Traz, em si, um amor próximo, solícito e silencioso diante de fondues e chocolates quentes. É possível amar mais no frio. É imprescindível despir-se de si no frio, para que os outros nos vejam melhor. Não seria hora de esconder-se sob pesados sobretudo a amordaçarem nossas vontades. É no Inverno que o bem germina nos corações.

Como num vagar invisível, o frio aparentemente sem vida nos brinda com o crescente amor que florescerá na Primavera. É sob as crostas de preguiça e gordura acumulada (ninguém é de ferro e dizem mesmo que comemos mais nesse período, vide as guloseimas das festas juninas – porém, há quem não goste) que vamos projetando os dias de mais disposição e vida ao ar livre. Enquanto isso, olhamos pela janela a admirar um sol fraco que cruza valente o ar gélido dos dias.

Precisamos, agora mais do que nunca, de calor humano. Ou dos animais, é claro (quem tem gato que o diga). Precisamos nos aconchegar num abraço. Precisamos de companhia para debaixo das cobertas, no sofá, a comer pipoca e assistir a um filme (que seja bom ou ruim, tanto faz). Precisamos de viagens em companhia. Precisamos de pés juntos perto da lareira – ou do aquecedor. O vinho é mais saboroso quando dividido em mais de uma taça. A cama fria não é convidativa. Sopa é momento de celebração à vida: nunca a tome sozinho. Até mesmo a paçoca, vocês sabem que dividi-la é símbolo do mais puro e doce amor. Aquece algum recanto da alma doar moletons, meias, calças e cobertores a quem sente o frio sorrateiro a invadir-lhe a esperança.

É Inverno, recebo-o de braços abertos (e sopa de feijão no fogão). Agora eu gosto dele, dizem as boas línguas. Que ele nos proteja das almas frias e não nos prive dos desejos. Que ele nos abençoe os amores e nos prepare para sentir mais – mais calor, mais sintonia, mais cumplicidade.

O espetáculo

Vejam o espetáculo chegando ao fim… ele cedeu suas últimas horas ao ar de descanso que tomará o seu lugar. O espetáculo que iluminou nossos dias, que atraiu as multidões às praias, que nos fez sorrir mais. O Verão é este espetáculo do qual eu não abro mão. Ele enche as pessoas de vida, aos poucos catequiza até aqueles que detestam o suor abundante e o sol que lhes fodem os olhos. Nós plantamos na Primavera, para ver crescer no Verão. E com cresce! Como é vigoroso tudo o que cresce no Verão.

O espetáculo nos despe das nossas mais ardorosas dúvidas e das roupas, é claro. Ele carrega ao longe as nossas vergonhas e não há celulite que fique mais feliz do que num shortinho. O ar circula mais pelos ambientes e pelos nossos pulmões, é um espetáculo respirarmos mais – exceto, bem, aqueles que preferem respirar filtros sujos de ares-condicionados. Ele descortinou todos os dias, amanhecer após amanhecer, esperanças rasgadas. E trouxe consigo luares apaixonados pelos costões… e pelas lagoas. Entre um sol e uma lua, ou mesmo quando eles se cruzavam pelo céu, as pessoas encenavam passeios, conversas despreocupadas, cervejas geladas e paqueras mediadas por biquínis minúsculos.

Eis o nosso Verão, este espetáculo de descobertas, risadas e horas passadas na preguiçosa rede. Eu sempre confiei nele, ele nunca me decepcionou. Mas um espetáculo é sempre diferente do outro, lembrem-se. Ele passa três Estações a preparar sua programação especial, cheia de surpresas e palpitações – às quais eu aguardo ansiosa, desde já.

O Verão nos aproxima, nos deixa cochilar no sofá numa tarde abafada. Ele traça caminhos que desconhecíamos e nos faz ver melhor à noite. Ele dá passagem a nossa falta de tempo, insiste que não joguemos promessas ao vento. Em todas as suas sessões há o aviso: aprecie bem tudo a sua volta. E é o Verão, este espetáculo, que nos ensina, para toda a vida, o que é o amor. Nos marca a ferro e fogo a tristeza da despedida, de todas as despedidas – principalmente aquelas sem o último adeus. Nos dá exemplo de companheirismo, daqueles para todos os dias e para todas as ocasiões. Nos leva às confissões e confianças inabaláveis. Nos faz superar as piores terças-feiras (e muitas outras ainda virão). Nos leva às igrejinhas de comunidades distantes para ver o sol passeando sobre nossas cabeças protegidas por alguma árvore que eu nem sei o nome.

É só o espetáculo do Verão que nos ensina a amar; que amar é, sempre, reaprender a viver. E não há melhor época (e por isso as férias são no Verão…) para reparar em como caminhar novamente – um pé depois o outro, um pé depois o outro… Voltam do Verão satisfeitos e felizes os que dele desfrutaram todas as alegrias e se vêem, hoje, pessoas melhores.

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