Balões no nosso céu

para o João.

Neste nosso céu passavam balões… de todas as cores. Abríamos mais os olhos para vê-los rasantes sobre o telhado de casa, temíamos que eles se descontrolassem e colidissem. Seria uma tragédia, não? Os balões cruzavam nosso jardim, de lado a lado. Embelezavam o azul sombreado de nuvens esparsas daquelas Primaveras. Eram nossos, mesmo que à distância, naqueles instantes que por ali se quedavam.

Começavam ao amanhecer e seguiam a esmo. Porque eles não podiam estar nos céus pelas noites, nos enchiam o coração o dia inteiro – nossos sonhos então eram deles. Não era a leveza, nem a perfeição da forma, ou os mistérios físicos da sua flutuação. Era a paixão pelos céus que ele carregava. A paixão por nos encher daquela doçura que leite condensado nenhum é capaz – porque dura. Nosso jardim não era ponto turístico de algum lugar exótico do Oriente, nem faziam competições por ali. Nosso jardim vivia amor, eis a condição da paisagem repleta de balões sobre nossas cabeças. Enquanto cultivássemos o amor em cada centímetro daquelas terras, teríamos balões. Era condição que ali nos amássemos todos os dias, diante dos olhos de Deus e dos céus, sem preguiça, tédio ou brigas. Então eles voltariam no dia seguinte a cruzar nosso espaço apaixonado. As cores refletiam-se na nossa pele e refulgiam nossos olhos às vezes cegos pelo sol.

No nosso jardim o amor tinha hora marcada: acontecia todos os dias. Não éramos mesquinhos. Economizar amor é envenenar-se. Víamos amor em cada gota de chuva. Ouvíamos amor em cada zumbido dos zangões. Sentíamos o perfume do amor na grama cortada. Era um amor que fervia sob a pele e carecia de explicações. A cada palavra cuidávamos para que apaixonássemos um ao outro. O amor transcendia aqueles corpos e sentia-se no ar que respirávamos. Cada passo que um dava, olhava para o outro buscando a aprovação do coração alheio. O amor selava nossos caminhos. Porque o amor é assim exigente. Ele não dá bobeira. Ele não desiste. Ele atravessa o espaço que sequer compreendemos. Enquanto houvesse amor, haveria balões. E enquanto houvesse balões, amaríamos mais.

Foi um descuido. Um descuido qualquer. Faltou um bocadinho de amor. Faltou olhar nos olhos… faltou aquele “boa noite” sussurrado… faltou um abraço em meio às lágrimas… faltou dizer que sentia falta. Foi o descuido de imaginar que se sabia quanto amor ali existia, então não precisava mais ser dito. Amor proferido é sempre amor aumentado. Faltou sorrir um ao outro ao ouvir os sinos da igreja. Faltou lembrar do outro ao ouvir o apito do trem ao longe. Faltou colher as flores mais belas para o arranjo de boas-vindas. Faltou… amar ainda mais. Foi o descuido de acostumar-se aos balões enchendo de beleza aquele céu que era só nosso. O descuido de acreditar que nada mais era preciso fazer para tê-los sempre ali ao alcance do coração. Era preciso o único exercício digno da alma: amar.

E em amar nós falhamos. Déramos o amor por certo. Por presente naquele jardim tão bem cuidado. Achávamos que o amor nunca nos abandonaria a superfície tão sensível da pele. Acreditáramos que o amor alimentava-se de poucas palavras. Em amar nós falhamos. Cuidávamos daquele jardim da mesma forma, todos os dias, antecipando o olhar do outro, os balões engrandecendo aquele céu que, também, tanto amávamos. O amor, então demoramos a descobrir, não se prevê. O amor, enquanto amor, não é certeza nenhuma. Por mais que se cultive, o amor nos escapa num descuido qualquer do cansaço do dia, no olho tremido de uma noite mal dormida. O amor foge numa palavra mal interpretada. E os balões jamais voltarão a habitar nossos olhos desolados deste amor que nos escapa sem que desconfiemos…

Interlúdio

 

Chego sem aviso. Nunca te fiz promessas. Entrelaça-te nas minhas pernas. Sou a amante desalmada que partiu sem palavra. Trago meus problemas e partirei com eles: tu não os resolve, mas me alivia o fardo. Venho sempre com pouco ou quase nada de roupa – é contigo que sinto-me livre. Reclamam da tua frieza, ela me revigora. Passo horas – horas não, que contigo não sei contá-las – nos teus braços a rodopiar, sonhar. És inclemente, me puxa, me joga, me abraça afogado. Saio exausta, sem fôlego, caio no chão enquanto a tontura não passa. Me deixas exausta. Exausta, exaurida, acabada. E é como gosto. Vim te ver, de novo. Tinha que pôr a cabeça e a alma no lugar. Logo te abandonarei de novo e, vê, levarei mais alguns problemas. Não me importo. Contigo não sinto nem o peso do corpo. Me abandono contigo à sensualidade extra das manhãs, te procuro infalível nas paixões desesperadas dos finais de tarde. És minha segurança na vida – ninguém concordaria. És a única segurança que quero ter na vida – porque de segurança não preciso. Vê o mundo, muda sempre. E tu, não, meu ponto de equilíbrio. Me arrebatas trançando minhas pernas em ti. Puxas o meu cabelo. Me fazes tropeçar. E eu sorrio. Tens meu melhor sorriso. Nunca fizemos promessas um ao outro. Se te deixo nunca foi por querer. Só a ti sempre fui fiel. Enquanto tu deleitas tantas outras. E não me importo. Me deixas o corpo dolorido, a pele mais bonita, o olhar lânguido. Sou toda tua como nunca fui de nenhum outro. Seja justo, não te procuro só nos meus piores momentos. Tens minhas mais doces alegrias, é a ti que procuro quando tenho algo a comemorar. Conheces cada risco da minha pele, cada canto escuro da minha alma, cada prazer de todas as cores. Não me conheço como tu o sabes. Às vezes te procuro embriagada, digo coisas que esquecerei e me hipnotizas sem levar em conta meus desatinos. Tudo passa. Já me viste, mais de uma vez, chorar. Só tu e Deus. Tudo passa. Só por ti faço drama, atiro vasos contra a parede, esbravejo más palavras. É a tua falta. Só eu sei como me fazes falta. Não tem lembrança, nem foto, nem nada que te faça mais próximo. E a amante volta, larga tudo, vem sem avisar, se ajoelha ao te rever. Conta os problemas, meu bom ouvinte. Só tu me ouves. Te confesso as dúvidas e as angústias. E te ouço – ah, que deleite. Não sou de promessas. Nem te digo, está certo que sempre voltarei – um dia para ficar, quem sabe. És minha melhor metáfora. Se fosse definir carícia, diria: tu. Vais me confinando no vai e vem da ponta do dedão do pé e subindo, subindo… não sobra nada de mim. Dou risadas. Que me tiras do sério e da tristeza. Me tiras do chão. Me tiras o chão. Quando me devolves à vida, menina birrenta a refrear o instinto de voltar aos teus vais e vens. Não me pedes promessas. Eu jamais as faço. Lá me vou novamente, não voltarei daqui a pouco, desta vez. Quero teus dias de ressaca e de calmaria. Esteja preparado, aparecerei qualquer hora – que nossos intervalos sejam cada vez mais curtos. Quero te trazer conquistas a comemorar, quando eu voltar, mas não me importo. É no teu colo que, se precisar, eu choro. Não há promessas. Te levo sobre a pele e aqui de novo estarei em breve.

Uma inesquecível Primavera

 

Quero te desejar uma boa Primavera. Sei que me desejarias o mesmo. Sei, também, que isso não diz nada. Eu estava diante do mar de ressaca às 11h21 e garanto que nada mudou – nem o sol ficou mais quente, nem mais brilhante, nem surgiram flores pelos morros, nem o vento soprou mais sedutor. Nem eu, naquele instante, mudei. Sei, porém, que toda Primavera transforma a vida da gente. Repara. Não tenho estatísticas, não tenho provas. Mas, repara. Temos até a beirada do Verão para olhar bem. É preciso, porém, olhar de perto e com coragem. Coisa que não fiz com essas ondas enormes que hoje tomaram meus olhos a manhã toda. Às vezes, preferimos olhar de longe e com pontadas de covardia – ou seria medo?

O Inverno despediu-se com enterros. Levou-me um recente sossego. Levou-me a apatia de ser quem eu era há tanto tempo. Disse-me ele, com todas as letras: as coisas não se repetem, Fahya. Disse-me, também, enfurecido: de onde queres enganar-te a deixar o passado sobrevoar sobre o presente? Ele foi cruel comigo nas últimas semanas, arrasou-me, puxou-me as orelhas, disse-me cínico: não tens como continuar sendo a mesma, renova-te. Receio encontrá-lo daqui três Estações e ele me cobrar o que não tive forças para fazer. Ficaremos de mal, abraçados debaixo de casacos pesados.

Desejo-te uma bela Primavera. Que possamos esquecer – que mudar dá trabalho pra mais de uma Estação – um pouco quem somos. Desejo que ela nos prepare com calma para o turbilhão da próxima, quando é ainda mais difícil viver despidos das nossas fantasias. Quem dera a Primavera não tivesse sempre deixado suas cicatrizes e tatuagens na minha vida, obedeceria ao Inverno e jogaria o passado entre as rochas agora fustigadas injustamente pelo mar que vinga-se da sua saudade. Não foi de ontem para hoje que deixei de ter um passado, mas o Inverno sorrateiro tem toda razão. Como, então, despedi-lo, mandá-lo embora para a tumba fria da memória? Sei lá, será que já podemos almoçar e voltar a ver o mar?

Me ensinaram que só vivemos a repetição – das horas, dos dias, das Estações, dos mitos, dos fatos, das explicações, das datas tristes e festivas, dos arrepios e dos vícios. E o Inverno, sacana, me manda não pensar mais assim. Assim, de antes de ontem pra hoje. Levou-me pela mão até o costão e me explicou, deu exemplos, discutimos. Quase me convenceu. Lembrei que ele em breve partiria e resolvi não brigar mais. Prefiro despedidas com apertos de mão e sorrisos abertos. E hoje me sinto a aluna de férias com uma pilha homérica de tarefas a cumprir. Boa aluna que nunca fui, será que já podemos fingir que nada disso aconteceu e voltar para o sol com a missão do bronzeado primaveril?

Me conforta te dizer que, ao contrário do exigente e mandão Inverno, a Primavera é aquela amiga meio louca que nos empurra e apoia sem muita distinção. Ela deixa tomar banho de mar com a água fria debaixo do sol quente, sem se preocupar com a febre que virá de madrugada. Ela nos abraça e dança junto sob a chuva refrescante ao final do primeiro dia mais quente desde abril e está nem aí para os papéis importantes encharcados dentro da bolsa. Ela chega de mansinho, pedindo rouca que sintamos o prazer de andar descalço. Passa feito furacão guardando as blusas de lã, abrindo a garrafa de rum da geladeira. Ela não quer mais janelas fechadas, empurra tua mão para abri-las, sentir o vento na cara e nem ouses ligar ar-condicionado! Porque é só isso que ela quer: que tu sintas. E é assim que desejo sempre a Primavera: a sentir mais. Depois passaremos o sufoco das consequências de tanta ousadia – mas só no Verão.

Te desejo uma boa Primavera. Porque ninguém toma decisões nas Primaveras. Ela não nos julga – culpados ou penitentes. Ela busca encobrir nossos rastros de erros do passado. Vai, aos poucos, pedindo com jeitinho que a gente mostre o que existia adormecido no Inverno. Ela nos convida a vê-la, ao show que ela não deu às 11h21, mas que terá atrações todos os dias e madrugadas. Ela quer que a gente mude, pra melhor (talvez ela tenha ouvido minhas discussões acaloradas com o Inverno, não sei). Ela ri de mim, dessa ânsia aloprada em pegar tanto sol e estar com a pele em brasas antes da nossa hora marcada – talvez só o Verão saiba como gosto do cheiro do sol sobre a pele.

Desejo, a nós, uma inesquecível Primavera. Não esqueça, não se distraia: repara. O Inverno é pai das certezas; nem só de repetição é feita a vida, e o presente de passado se sufoca.

22 de setembro, 12h. Hora de almoçar e voltar para a praia.

Quando Fassbinder me traiu

Talvez esta história seja triste. Por algum tempo pensei nela com raiva, não tristeza. Os personagens não existem mais na minha história faz um bom tempo, mas uma coisa ficou. E eu não gosto das coisas que ficam…

Já fui traída – de várias maneiras, por amores, amigos, colegas de estudos e de trabalho, familiares. Não costumo esquecer as traições porque considero que é mais saudável assim. Nem queria vir contar histórias pessoais. Por algum tempo, como eu disse, eu senti raiva por ter sido traída por um namoradinho (no diminutivo pra demonstrar, com essa dificuldade que nos proporciona a palavra, o quão “pequeno” ele é).

Lá se iam dois anos (se não me engano) de namoro turbulento. Ele conheceu uma moça através de um primo e se falavam pela internet (tempos idos do msn, que eu não possuía, obviamente). Aí um dia ele comentou que ela havia falado do Fassbinder, diretor de cinema, que estava procurando filmes dele ou algo assim. Ele correu baixar loucamente todos os filmes do tal diretor (ele era assim, cheio de manias doentias). Eu, é claro, aquela vida louca, cheia, ocupadíssima como sempre. Numa viagem que eu fiz, ele convidou a tal moça para assistir aos filmes do Fassbinder. Aí, bem, vocês sabem o que o convite “assistir a um filme aqui em casa” quer dizer.

Eu descobri logo depois. Deixemos a podridão da história de lado. Eu pus um ponto final na “nossa” história (digna de um filme de terror intragável). E segui (ele ainda protagonizou cenas lamentáveis durante anos – sim, eu disse anos). Eu tive todos os sentimentos possíveis à época, e não sou boa moça quando com raiva. Mas sou boa com pontos finais.

O problema era o Fassbinder. O problema é o Fassbinder. Eu estudo e trabalho com cinema, desde antes do acontecido. Imaginem vocês, nunca vi um filme do Fassbinder. Por anos eu leio textos, críticas, notícias e volta e meia aparece “Fassbinder”. Hoje mesmo eu aqui imersa em trabalho e, pá, na minha cara, FASSBINDER. Já odiei este homem. Vejam vocês, ele me traiu sem nem saber! Porque traído, queridos, a gente é todo dia. Essa aí nem foi a pior. A mais baixa, talvez, porque digna do “nível” dos envolvidos. Mas o Fassbinder.

O problema é o Fassbinder. Um dia uma pessoa da família disse “quero ver o filme tal” e, pá, era do Fassbinder. Fiz que não ouvi e não toquei mais no assunto. Tinha que ser dele?! A cabeça da gente faz cada associação que é uma miséria. Eu já vi pessoas com esse tipo de (seria trauma?) e ficava toda metida “ah, nada a ver”. Pois é, tudo a ver. Tentei me consolar com um “não estou perdendo nada, deve ser ruim”. Vai na mesma linha de associar músicas a certas pessoas ou relacionamentos, depois que a coisa desanda a música vira outra aos nossos ouvidos. (nesse caso eu nunca tive problemas, tenho até playlists de todas as musiquinhas de amores e tal, coisa mais linda e diabética)

A traição não foi nada. Quem dera o Fassbinder não existisse na face da Terra e eu não tivesse que parar meu trabalho para vir aqui desabafar com vocês essa história. Da qual, aliás, hoje eu dou risada. Quando deparei-me com ele no texto de agora a pouco eu ri “seu safado, tu aqui de novo!”. Mas ainda não vi nenhum filme dele. Preciso assisti-los para poder dizer “é ruim mesmo” (rá!). A vida tem poucas coisas tão boas quanto você poder rir de algo tempos depois de ter passado maus bocados. Porque sofrer pelas mesmas coisas a vida inteira não dá – sempre tem algum sofrimento novo chegando.

Prometo contar, escrever análises longas e minuciosas, quando eu finalmente assistir ao Fassbinder. Aliás, sinto-o quase um amigo. Passamos por uma traição juntos. Não nos deixamos cair nem conspurcar por isso. Um dia faremos as pazes. Fassbinder tornou-se uma obsessão, longe de ter a ver com a história triste de vida, mas uma obsessão cinematográfica: será apoteótico o dia tão esperado de assisti-lo, com direito a muita pipoca, vinho, cobertas, paçoca (e comentários em voz alta, claro, porque eu falo com os filmes). A história será de fato triste se ele me decepcionar – e eu puder comprovar o “é ruim mesmo, viu, eu disse”.

Maratona Oscar 2016

 

Por que assistir aos filmes indicados ao Oscar? (quando a Academia é tão blábláblá, a indústria é tão isso e aquilo, a cerimônia é looonga e chata, tem tantas outras premiações mais interessantes e tudo o mais: porque me dá vontade (de sofrer)) Quando vi as indicações previ que seria um ano fraquíssimo (só não previ que seria um ano tããão sofrível). Se sou do tipo hollywoodiana uhul, adoro os filmões enlatados e tal: não (muito). Nem pretendo escrever sérias críticas aos filmes e, por isso, vai um pacotão com todos (de fato nenhum me despertou grandes emoções ou reflexões – o mínimo exigido de um filme, certo?). Acompanhei, porém, a discussão sobre a branquitude das indicações (surpresa?) e tenho a dizer que não é a realidade do fazer cinematográfico mundial (não, não vamos restringir a crítica aos mauzudos EUA) a inclusão – nas histórias criadas nas telas e na prática profissional – de negros, índios, mulheres e qualquer outra coisa que não seja homem branco (meia-idade rico). O fazer cinematográfico é elitista e machista. Isso se estende para a Academia que seleciona os filmes, está nos estúdios e nas produtoras (grandes, pequenas, de país periférico e dos grandes centros), está nas salas de aula de cinema. Está, aliás, no nosso olhar. Na nossa percepção – porque “o mundo é assim” e, portanto, é assim que o vemos. Se já é 2016 e ainda estamos patinando nisso, pois é, não será mudado amanhã (posso livrar meu lado ranzinza aqui e demorar muito: não quero). Aí vem a solução: então vamos liquidar os velhos da votação – porque, vocês sabem, os velhos também não servem pra nada no mundo, né. Idéias geniais estão sempre presentes nessas discussões. Antecipo: não gostei de Spotlight nem The Big Short – e o que mais me incomodou foi a inexistência de mulheres (tem a Rachel minúscula e sufocada no primeiro). Vamos criticar a Igreja Católica, mas só homens estão aqui, vejam; e no mundo dos negócios, como sabemos, só homens estão à altura. Fora isso, digo que a discussão não foi o mote do Oscar 2016 pra mim.

Sabe qual é o problema? O americanismo. Ah, Fahya, não viaja, é uma premiação americana. Claro. Sou brasileira e nem por isso preciso ser adepta do “não desisto nunca”, né? Então, o americanismo domina, corrói e até enfastia a maioria dos filmes. Não sei se é porque eles estão em ano eleitoral, se é porque o terrorismo “ameaçou o mundo civilizado” novamente nos últimos tempos, se é porque eles são assim mesmo (e isso a gente sabe). Tudo soa muito americano demais – in America we all win -, essas histórias de superação e o toque meio gaúcho de melhores em tudo no mundo. Explicarei abaixo no filme por filme. No mais, senti falta do drama tanto quanto dos negros (e os filmes com mais negros no elenco e produção são, aliás, os que mais investiram acertadamente no drama – Creed e Straight Outta Compton). E sou daquelas que daria o prêmio pra um filme que nem foi indicado para tal categoria (como vocês poderão perceber).

Se assisto aos do César, do Bafta, Sundance, Berlin, Cannes? Também (como aos do Oscar, na medida que consigo no submundo). E meu coração só se encontra nos filmes franceses, fazer o quê.

1. Brooklyn: Primeiro filme indicado que assisti (ano passado), antes das indicações e juro que nem me passou pela cabeça que era “filme pra Oscar”. A Saoirse está excelente – de menininha desvalida que mora num buraco à mulher classuda novaiorquina. A personagem é irritante (engana na cara dura o mocinho italiano – apesar do romance desinteressante dos dois). A história é boa, mas nada de mais. Achei que era filme inglês pra TV (sério). E, tcharãn, o americanismo: a velha história da formação do povo americano, Nova York o coração bondoso do mundo que recebe todos de braços abertos, onde quem não era ninguém terá sucesso e vida boa ao construir esta nação prodigiosa! Nem importa as pequenices do drama (se ela abandona a mãe e o lugar que lhe é tão familiar; o mocinho, também estrangeiro que luta pelo seu pedaço de terra e pelo futuro próspero), sobressai a magnitude de uma Nova York novinha. Ponto por ser uma protagonista mulher, mas não dá pra valorizar por ter drama na medida certa porque ele é feito de drama. (repensando, acho que peguei pesado, o filme é bom, mas, sei lá… não é grandioso)

2. Sicario: Meu Deus, me larga, um filme com o Del Toro! (já tem mais um com ele pra assistir e, bah, olha a má notícia: ele foi confirmado no próximo do eterno Star Wars: me sujeito a muita coisa para vê-lo, mas passarei) Eu a louca esperando conseguir esse filme (mas credo tem a chata da Blunt e seus olhos de peixe morto). E o americanismo, neste caso, não ficou pro fim: EUA se achando o bom (não falei?) e entra de boa no México pra resolver os problemas que eles bem entendem. Filme com policial americano já cheguei na saturação (agora só série por motivo de JLo). Decepção total com o personagem do Del Toro (mas duas horas vendo-o gostoso maravilhoso e cobiçável em alto grau) e a história se resumia a: vingança pessoal. Tem dó de mim um roteiro desses. Mas, dou o braço a torcer: Blunt está sensacional. Além das notas sobre a personagem (banho, magreza), ela fez um trabalho brilhante e aí é a primeira decepção com as indicações. Merecia concorrer. O estado miserável que a criatura alcançou no filme é digno de atriz que não tem estrelismo na cabeça (não estou falando na Jennifer Lawrence, juro, pois falarei mal dela mais a frente) e se “sujeita” (para muitas é isso) a um papel desses. Ficou só em categorias técnicas e Fotografia (sério, gente? Troca por The Danish Girl, ainda dá tempo, Academia).

3. The Revenant: filmão, né? Tu começa a assistir e “uou!” e eu pulava no sofá e “Dou direção! Dou fotografia! Dou pro urso!” (os prêmios, claro). Nem tinha saído a lista da Academia, só o mito que o filme já vinha há anos construindo sobre si mesmo. Até quem não é ligado em cinema ouviu alguma história. As condições da filmagem, o tempo do projeto (acho que li sobre há mais de dois anos). E o povo que chorou com Titanic a “Agora vai!” pro Di Caprio. Bem, eu ri em várias cenas. O Di Caprio faz um personagem meio (?) azarado. Quando ele tem o encontro fenomenal com o urso eu cheguei a pensar “mas vai morrer aí, e o resto do filme?”, pensei que seria uma coisa meio estoniana (ver 1944). E o urso? Sequência sensacional! Digna dos anais da História do Cinema. (e eu nem uso muito ponto de exclamação, pelo menos não quando escrevo) Aí o Di Caprio passa metade do filme quase morto jogado numa padiola. Acho que não será por isso que levará um Oscar, né. E quando ele cai do penhasco? Dei uma gargalhada. Falei, personagem azarado. A Fotografia é linda, a direção a gente conhece. Mas aí o filme acaba e pá: cadê a história? Segundo li, talvez a culpa seja da adaptação. No original envolvia a disputa por um rifle francês, no filme é a vingança pelo filho mestiço assassinado. Bem, o filme não prima pela história (não recebeu indicação de Roteiro). 1º: o cara anda pra lá e pra cá com gente que odeia… índios (e pro americano índios e mestiços dá no mesmo); 2º o cara quase morto pelo urso é deixado com… o mais sanguinário e que já deixou claro que não faria nada para salvá-lo E odeia índios e mestiços (very clever indeed). Aí já está acabada a história e a peregrinação dele para conseguir se vingar é uma sucessão de cenas bem dirigidas e bonitas – e só. Gostei do que li numa crítica colombiana, sobre ser apenas um exercício estético (visual) e deixar a desejar em tudo o mais. No dia seguinte ao filme, fui pegar um livro para ler e acabei com A Grande Solidão, da querida Janet Dailey. E não é que é sobre a exploração nas regiões de caça para pele nos EUA? Pois é. Não gostei, também, do discurso do filme, a inclusão proposital do personagem mestiço para mostrar um americaninho bom que teve filho com índio e defendeu a honra da mulher e do filho – visão super atualizada da realidade entre americanos e nativos da época – atualizada até demais. Aí está lá o Di Caprio fazendo discurso pelo meio ambiente, se encontrando com o Papa e tal. Só digo uma coisa: não coube. O americanismo aqui (apesar de um filme dirigido por mexicano, o que causa um baita estranhamento) é reescrever a imagem do heroísmo americano na conquista e povoamento da terra, no contato com os nativos (eles matavam, estupravam, dominavam e escravizavam os nativos que conheciam onde e como conseguir as melhores peles – um comércio valorizadíssimo à época -, numa atitude bem mais desrespeitosa do que a dos russos – que nem aparecem e coisa que muita gente desconhece). Diabolizaram o personagem do Tom Hardy (Sttalone na disputa, fica pra próxima, Hardy) sendo que ele, tenho pra mim, encarna o personagem real da situação. Mas daí a um roteiro e um diretor (americano?) fazerem um filme mostrando que a chegada dos americanos em boa parte do território “deles” não foi uma belezura, quando será? Mulheres? Oi, onde? Só como estuprada, mãe e em poucos segundos de imagem, claro, que história de conquista de terras é coisa de… homem.

4. The Hateful Eight: uma missão ficar acordada acompanhando os eternos diálogos (“ah, mas Tarantino é verborrágico” – verborrágico é uma coisa, isso aí é outra). Nas aulinhas de escrita por aí você ouve sempre a regra de que você precisa de ação, que as coisas aconteçam (tanto no roteiro, visualmente, quanto no romance ou no conto), precisa mostrá-las – o oposto do contador de histórias, aquele antigo, que só contava, que só diz a história (aquela que fica melhor com “e”). E aí temos o que dizem que a gente não deve fazer, cada personagem leva horas contando quem é, o que fez, porque está ali e etc, etc, etc. A idéia, o argumento, muito bons, a fotografia excelente (tô em dúvida entre ele e The Revenant, ainda ficaria com ele porque The Danish Girl não foi indicado), a trilha sensacional (Morricone, o Oscar é teu), atuações brilhantes (tudo de se esperar – e fica a questão: por que só a Jason Leigh foi indicada?). Novamente, história de “velho oeste”, óbvio que é coisa de homem, mas o conflito gira em torno de uma mulher criminosa e nem assim ela é a protagonista do filme – sério, né. Não saberia comentar o americanismo (talvez eu tenha dormido nessa parte), se lembrarem, só me dizer. Não sou fã do Tarantino e acho que ficaria um filmão se fosse reescrito sem os salamaleques dele.

5. Bridge of Spies: Tem Tom Hanks – e ele sabe escolher os filmes nos quais trabalha, por mais bobos que às vezes possam parecer. Filme bom, talvez o melhor exemplo do americanismo. Sério, os EUA são os bonzinhos que não fazem mal ao espião para poder, como sempre, salvar o mundo. E o Tom Hanks encarna o americano comum que se torna… tcharãn: herói! Sim, porque ele vai até aquela muvuca que é a divisão da Alemanha à época para salvar não um, mas dois americanos. Achei meio problemática a inclusão da história do estudante e do aviador, a do estudante foi uma coisa completamente jogada no meio do roteiro (sem chance de levar). Rylance está muito bem (se não fosse o Stallone, ele levaria). Os concorrentes de Design de Produção são fortes, mas eu fiquei particularmente inclinada por ele. Até porque seria a única categoria relevante, e ainda pegou fortes concorrentes (bobagem, é que eu gostei mesmo da Produção). Um Spielberg mediano como tantos dos últimos, sempre com uma boa história, mas que erra a mão em pequenices que a gente tem que lamentar. Ah, além do americanismo, o excesso de homens: pois, claro, Fahya, história de espionagem e alto escalão governamental no pós-Guerra, só tinha homem mesmo (li críticas sobre o pouco espaço que a esposa do Tom Hanks recebeu no filme e concordo). Mérito: acentuou o drama familiar (o final é essencial), coisa que precisava e que faltou em outros filmes (The Martian, um fracasso). É tão linear na sua americanidade que nem conseguiu muita relevância em nada, uma pena.

6. Trumbo: É assim que se faz filme. O pessoal de Spotlight e The Big Short aprenderiam algumas coisas com o personagem (real, o Trumbo) e com este filme. Pesa contra mim que gosto muito dos filmes sobre o mundo cinematográfico (Heil, Cesar!, tô te esperando), mas o filme tem tudo o que um filme precisa: conflito, drama (inclusive familiar – não menospreza esta relação (The Martian, não te deixaremos em paz)), bons e fortes personagens. Helen Mirren está ótima, mas nem adiantaria concorrer (nosso coração é da Alicia). Até os personagens estão bem definidos e não fica aquela sensação “pô, mas é coadjuvante?” (Alicia again). Sei que o povo é fissuradinho no Cranston, e até acho que ele mereceu a indicação (o filme merecia ao menos a indicação de roteiro), mas a concorrência está forte (exceto Damon, claro). Americanismo? Às avessas, por um lado, pois a “caça às bruxas” e a neurose americana é colocada em cheque – mas aí ele é herói, e vence apesar das vicissitudes da vida e da carreira (mas o americanismo aqui se apoia na própria teoria do herói e do roteiro, então ameniza e a gente faz que não vê). Aliás, os filmes roteirizados por ele valem a pena (pesa muito mais contra mim que sou fã da Era de Ouro de Hollywood).

7. 45 Years: filme para passar raiva. Foge, é claro, ao Hollywood, às convenções de ritmo e drama. Não tem americanismo (não é americano, dã) e nem excesso de homem. Aí já está o grande mérito do filme. Uma ilha no meio de todos esses. Pena que é história de casal (HAHAHA minha eterna implicação com historinhas de casal, sorry, sociedade). Rampling merecia o Oscar só por ter feito o filme, aguentado aquele personagem como marido. Mas a concorrência está forte (exceto a adoradinha de vocês, Jennifer). Durante o filme eu dei mil opções de como ela poderia matar o marido e se livrar daquele encosto (mas ela não aceitou nenhuma e ainda foi pra festa – a cena final é maravilhosa!). O drama, baseado no conflito da carta que chega com um passado que sempre foi presente, a sutileza das descobertas dela sobre uma vida inteira de mentira e enganação: que roteiro! Nem vou contar muito porque o filme vale ser assistido – inclusive a tensão da espera para que algo aconteça, sei lá, que eles embarquem na viagem para achar o corpo congelado, que eles se separem, qualquer coisa: e aí, a dose realista ao extremo, nada é feito, nada acontece, mantêm-se as aparências, a festa acontece e, pá, a última cena (quem é casado vai entender bem). Acho que a Rampling não leva e diante dos fracos indicados a roteiro, este seria um bom candidato.

8. Mad Max: acompanhei todo o bafafá dos fãs quando foi lançado e por nada me interessei em assistir (até vi textos escritos na inspiração pelo filme). Quando foi indicado a tanta coisa, me obriguei a assistir. Putz, aturei com pesar 47 minutos de filme e lamentei muito ter perdido todo esse tempo da minha vida (pára e pensa tudo o que dá pra fazer). Quem aqui na minha platéia assistiu até o final e gosta e entende desse tipo de filme comentou: simplório. Até entendi quando li que o storyboard foi feito antes do roteiro (que não há). Entendo também que vocês são fãs, tem aquela coisa do culto e tal, mas, né, nossos heróis sujam os pés de barro e a gente tem que aceitar (tipo eu com os filmes ruins e péssimos do Del Toro, gente). Difícil entender colegas de cinema pagarem pau por essa chateação. Ah, mas o foco foi nas mulheres, você não estava falando do machismo? Ah, mas esse tinha a perspectiva de construir alguma coisa, não só destruir. Pois é, mas diante de tanta coisa ruim e fraca, esses poucos (supostos) louvores não lograram êxito. (tô falando como burocrata pra me referir ao filme) O filme é ruim. Talvez a indicação de protagonista (no lugar da Jennifer); está no páreo para Design de Produção e alguma técnica de som, mas se não estivesse não faria falta. Um dia me expliquem: se o mundo estava destruído, de onde roupas, pneus, munição, motores e tudo o mais que exigiria plantações e indústrias – em desenho animado a gente dá uns descontos na lógica.

9. Spotlight: pois é. Aí teve uma sequência de filmes chatos, intermináveis e com problemas (mas que têm ganhado todos os prêmios) e Spotlight foi o primeiro deles. Entendo a questão da pesquisa para este roteiro, mas aponto duas coisas: 1. excesso de personagens que deixam tudo embolado, é o juiz isso, o padre aquilo, o fulano e o beltrano que a gente só ouve falar (e, posteriormente, um ou outro aparece), causa uma confusão que torna a história chata; 2. é filme “contra” a Igreja Católica, então, é claro, conta com a simpatia e o furor de muita gente (inclusive inúmeros críticos de cinema, em especial aquela leva de esquerdistas, libertários e afins), mas, sério, a questão do estupro e da pedofilia na Igreja já foi tratada à exaustão em tantos meios e nem estamos mais no olho do furacão, então o filme me pareceu deslocado temporalmente (pouco antes de postar este texto, li que Escorel também comentou isso) (mas os odiadores da Igreja adorarão). Novamente, a questão do drama. O filme prefere focar na redação do jornal, no trabalho de investigação, e deixa a desejar no que poderia angariar a simpatia do espectador: o drama vivido pelas vítimas. São poucos momentos dedicados a elas, com atores medíocres, resvalando no lugar-comum (tanto em direção de cena quanto no depoimento em si). Eu sou católica, não apóio nem concordo com a postura da Igreja em esconder os crimes, mas o filme não me sensibilizou: se eu ouvisse mais, ou visse a história pelo viés das vítimas, aí sim teria despertado a minha sensibilidade (e de milhões de outros católicos). Também li que os autores encontraram o ponto forte da narrativa quando descobriram que o próprio jornal fora indiferente à denúncia anterior, mas nem isso foi bem usado no roteiro, porque a gente entende que houve essa falha, essa omissão, muito tempo antes dela ser “revelada”. Americanismo? Claro, os detentores da alta moral e dos bons costumes a criticar uma igreja antiquada, violadora, anti-liberdade, do Velho Mundo onde se protegem criminosos (um americanismo que vai ao âmago da pretensão deles, talvez o pior americanismo presente em todos estes filmes). Redação do jornal e tudo em volta só tem homens, novamente, (vão dizer que jornal é assim mesmo?) e só tem a coitada da Rachel lá no meio com um papel muito meia-boca e de longe uma atuação fraquíssima dela (nem precisa ir muito longe: Southpaw). Mas ninguém tem chance com a Alicia este ano. Deram pra ela a incumbência de dois momentos importantes do filme, o depoimento de um abusado e o encontro com um padre abusador – e é tudo tão breve, pasteurizado, contracenando com ator que parece estar lá pra cumprir função. Além do momento que seria crucial, quando ela e o Ruffalo (conseguiram rejuvenescê-lo cortando o cabelo, a barba e dando aparência de limpeza, porque nos últimos que vi com ele a coisa estava acabada – homens deveriam aprender essa) tem aquele encontro na varanda, sobre a dificuldade de ter sido criado como católico e trabalhar naquele caso – e a cena é superficial, indiferente. Faltou drama, acho que é isso (nem a esposa do Ruffalo aparece, que poderia amparar o personagem no drama vivido por ele). Faltou qualidade no roteiro (quem sou eu para dizer se ele ganhou BAFTA, Sindicato dos Roteiristas e tal, né). Talvez Direção e Edição, por falta de concorrente. (os dias passam e só comprovo a minha teoria: a fama e o bafafá todo ficam MUITO a cargo da cruzada (rá!) contra a Igreja Católica que intelectuais, religiosos de outras crenças, humanistas, estudantes de gênero, povo da esquerda, ateus e tudo mais que aí couber travam contra a instituição e a fé – além dos seus representantes e praticantes; o povo assiste e diz “é bom” mas aí deslancha a falar mal da Igreja, de casos de abuso que conhece, e tudo o mais, sem se referir ao filme em si; ponto pra produção, pois falar mal da Igreja ainda dará ibope por séculos, o filme, porém, será esquecido depois de amanhã, podem observar)

10. Room: a grata surpresa. Eu esperava um suspense e o mais acertado foi apostar no que eu tanto reclamei dos outros: o drama. Tremblay merecia todas as indicações. Larson está tão dentro da personagem que fica difícil a gente achar excepcional (mas por mim, leva). Eu quis implicar com o roteiro, que se divide entre o tempo do cativeiro e a volta ao mundo exterior. Mas não posso. Há sensibilidade em aderir à mente dos dois (Jack e Joy) e nos levar pelo mundo visto por eles. Por isso também que Abrahamson é dos meus favoritos para Direção (não tiro todos os méritos já provados e comprovados do Iñarritú, facilmente o mais “qualificado” para levar), não por ter feito algo extraordinário, mas por ter alcançado o tom exato do roteiro. Vai além do drama, constrói um mundo (e não seria essa a essência do cinema?) pelos olhos daquele menino e daquela menina que tornou-se mulher também naquele mundo – e não neste. Talvez meu favorito também para melhor filme. Pelo mérito também de não ter americanismo, partir da visão particular da mulher e da criança (não tão raro no cinema, mas quase sempre filmes muito especiais), não levantar bandeiras ou ter falhas desfavoráveis no roteiro ou, ainda, parecer apenas uma aventura visual. Acerta onde todos os outros deixam a desejar. Talvez só em adaptação eu esteja na dúvida com Brooklyn.

11. Ex Machina: Alicia, menina, não tem corpão, não tem carão e é boa, hein? Discreta demais aqui para esbanjar e roubar a cena em The Danish Girl e candidata a futura queridinha. Não lembro de já tê-la visto e sou muito ruim em guardar nomes. O filme é bom. Por mim, leva Roteiro Original. A idéia é original, os protagonistas são medianos, mas não se prolonga em chatices e ainda acerta no final. Ficção científica? Não sei, mas até lembrei do Ray Bradbury e só por isso já sobe no conceito. Efeitos Visuais infelizmente não posso indicar por motivo do Urso. Três atores, um roteiro, uma locação e alguns efeitos visuais e consegue o que muita superprodução não chega aos pés (sim, tô falando de Mad Max, diretamente, e tantos outros indiretamente). Este ano conseguirei assistir todos os longas (documentários e animações inclusive, exceto Star Wars por motivo de não quero), normalmente não consigo, mas dou preferência para indicados a Roteiro e Fotografia, sempre as melhores surpresas (Nightcrawler, nunca esqueceremos). Não subestimem um bom roteiro.

12. Mustang: talvez o mais controverso dos indicados – desde o país de origem. Li algumas coisas curiosas a respeito, além da cansativa discussão, como apontado pela diretora, sobre ela ser turca, o filme é uma história turca, mas indicado pela França. Li duas críticas brasileiras, uma de crítico alternativo independente e outra de jornalão. Ambas demonstravam um senso raso de cultura (pra dizer o mínimo). O primeiro se referia ao exotismo do tema apresentado, como uma Turquia que não existe; o segundo apontava maniqueísmo na coerção de usar do sentimentalismo para angariar a simpatia do espectador (o tom da frase é proposital pois o linguajar do crítico deve ser ridicularizado também). Eu assisto novelas turcas e filmes turcos (até os mais comerciais). A Turquia é aquele pedaço de terra perdido entre o Ocidente e o Oriente e depois de tantos domínios ainda não firmou sua(s) identidade(s). Mas é, sim, um país muito machista que usa dos meios audiovisuais para incutir alguma aceitação na cabeça das mulheres (através de narrativas muito bem escritas, personagens e atuações fortes, superproduções). E aí é louvável que uma diretora turca, criada e estudada na França (o berço da liberdade, lembra?), volte seus olhos para o drama de cinco meninas turcas que personificam o linear turco entre Oriente e Ocidente e, a partir de um conflito (a reprovação do contato pornográfico – assim visto – com os meninos) simples, desenvolve uma história angustiante. Os códigos e procedimentos são claramente expostos e para qualquer mulher ocidental do século XXI emancipada é puro sofrimento e empatia em cada cena. O ponto alto é o caminho do suicídio de uma delas, tão docemente tratado, enquanto aqui não tem americanismo e os homens são colocados no seu devido lugar (machistas, opressivos, centralizadores) pela Lale, verdadeira heroína que supera traumas e desilusões para salvar a irmã que lhe resta. Se fosse uma novela turca, seriam todas casadas com maridos criminosos, estupradores, violentos e opressores de todo tipo, mas aprenderiam a amá-los loucamente. E isso o Ocidente talvez não tenha entendido muito bem (apesar de que não somos assim tão diferentes, vide as vidas que conhecemos e, como estamos falando de cinema e Oscar, o próprio 45 Years). Não assisti nem consegui ainda Saul Fia e El Abrazo de la Serpiente, mas dentre os outros, de longe meu favorito. É filme para ser visto não com os olhos de “ó, aquilo é exótico, é exceção, é coisa de gente não civilizada” porque a violência contra as mulheres em si não difere e não faz distinção entre Ocidente, Oriente, Primeiro ou Quarto mundo. (Extra: o crítico independente, quando foram anunciados os indicados e o queridinho brasileiro Que horas ela volta? ficou de fora, fez uma crítica ao filme colombiano, dizendo achar que já tinha passado o tempo de termos filmes latino-americanos louvados pela nossa pobreza em prêmios “lá fora” (atualizado: li hoje, antes de publicar o post, o crítico independente que agora assistiu ao colombiano: só faltou soltar palavrões) – achei tão uó, pois muito patriotismo nessa babação pelo filme da Regina Casé, onde que ele não é o latino-americano mostrando sua pobreza em festivais pelo mundo? Onde? Mais: fiquei super feliz com a indicação, pela primeira vez, de um filme colombiano (eles estão exultantes, foi aclamado em Cannes e tal), apesar de ainda não tê-lo visto, mas brasileiro é essa coisa rançosa que não se considera latino-americano e prefere fazer bico porque um filminho dele “perdeu” pra um hermano. Somos lamentáveis.) Em tempo: Labirinth of Lies deveria ter sido indicado e, sim, fortíssimo concorrente (bem do jeito que americano gosta), dos meus favoritos, inclusive.) Mas, pelo currículo de levar todos os prêmios, Saul Fia levará.

13. Theeb: bom filme, como 45 Years, a gente sente a mudança no ritmo e no tema das narrativas em referência aos americanos. Mas, o cinema do Oriente Médio já mostrou muita coisa melhor. Há uma naturalidade nos atores que sempre me fascina. Eu tiraria aquela sequência do posto da polícia e acentuaria (talvez, mas talvez seja meu ocidentalismo) a presença do trem e o consequente fim dos guias dos peregrinos – achei interessantíssimo o mote. Reparem na sequência do menino tirando a bala do criminoso e comparem com o Matt Damon tirando de si mesmo o metal que o feriu (tal qual a bala) – realismo versus heroísmo falso. Não acho dos mais fortes para levar. Mas também o do ano passado (Ada?) não era e levou. Não sei de nada. (crítica brasileira rendendo glórias ao filme, deve ser só porque é do Oriente – mais: parece que a intenção do diretor era fixar no menino e no seu desenvolvimento e não na questão “da época”, então, muito bem; baita produção, pelo que li)

14. The Martian: ruim, chato, interminável, com sérios problemas de roteiro, de efeitos visuais, um Matt Damon nos seus piores momentos (que não são difíceis), trilha óbvia, um porre sem a delícia do álcool. Preciso falar mais? Americanóide até o talo, colocaram a chefe da missão mulher porque óbvio eu ia dizer “só homem! só homem!”. A gente sabe quando autores colocam mulheres só por “cota”, não pensem que nos enganam. Queria que ele tivesse morrido em marte lá pelo décimo sol e já estaria de bom tamanho. Peguei antipatia até por batatas (sério). O que é o efeito visual, logo no início, da tempestade na qual ele é atingido? Que porcaria é aquela? E aquele foguete com uma lona (uma lona, gente) na ponta? E personagens que surgem do nada como o indiano matemático? Mas tenha santa paciência. Não deu nem pra dormir porque estava todo mundo tão indignado que era um tal de perguntas e comentários (depreciativos) durante todo o filme. Li uma entrevista com o autor do livro e o roteirista, sobre o processo de adaptação. O autor publicou o livro pela internet e gostaram da história (pelo que soube). Onde estavam os pais do Matt Damon? Por que chega a aparecer a família de outros da nave e dele nada? Cadê aquele drama que a gente gosta, dos pais exigirem da NASA que eles busquem o filho deles? E aquele no sense de mostrar “o mundo” todo na expectativa do resgate dele? E ele reclamando (mil vezes) das músicas da colega – ele foi o único que não levou? Acho que é isso, se ao menos o personagem tivesse carisma talvez alguma coisa se salvasse, mas não. Porque até hoje nunca – mas nunquinha – ouvi alguma mulher (ou homem) dizer que o Matt Damon é bonito gostoso (e olha que já vi mulher louca até pelo Nicholas Cage). Sobre as indicações, tem relevância em Design de Produção e talvez alguma técnica de som, mas eu não daria nada. Mais um que se não fosse pelo Oscar eu nem teria assistido. (reli e fiquei com vontade de falar mais mal ainda)

15. Inside Out: não sou nem fã nem profunda conhecedora de animação. Indicação por roteiro: sim, o argumento é bom, mas para um curta. Aquela peregrinação da Alegria e da Tristeza de volta para a “sala de controle” é longa demais, chata e repetitiva. Não merece roteiro, mesmo com concorrentes meia-boca. E, particularmente, não entendi o tanto que o povo adorou o filme. Em relação à animação: até agora só assisti Shaun, The Sheep Movie e entre os dois já dou para este. Tenho para assistir os outros e tentarei fazê-lo antes da premiação.

16. Straight Outta Compton: eu aprendi a gostar de assistir a um filme sobre a história de alguém, alguma coisa, da qual não conhecia nada. Então, para quem é fã talvez seja mais fácil apontar problemas em filmes biográficos. Não é o meu caso e só posso dizer: como filme eu gostei bastante. O americanismo fica por conta das histórias de superação, pelo negro pobre que fica rico – com um baita porém do “a que preço”, no que o “retorno” deles quase no final dá uma boa resposta. Mas é história de negros da periferia, novamente só homens, e como o americano é, sim, racista pra caramba. Eu dizia lá no início (acho que eu disse reli agora e: não disse, não), o excesso de americanismo não consegue velar seus preconceitos, aí sobra pro índio, pro negro, pra mulher. Ao final do filme fiquei meio nhé com a produção do Cube porque soou como filme institucional (e filme institucional eu tenho pavor desde que assisti a A Carne é Fraca – não tem putaria, é sobre bichinhos sendo mortos). Mas tanto quanto a história deles pode servir (e acredito que sirva mesmo) como modelo e exemplo (do que fazer e não fazer) para milhares de negros da periferia que ainda hoje sofrem o que eles sofreram (tal qual os negros das nossas periferias), acho que seria pouco provável que alguma grande produtora ou algum grande estúdio se interessasse – e logo viriam os “amenizadores” entre roteiros, atores e direção para tornar tudo palatável ao grande público. Gostei do roteiro, mas Ex Machina ganha pela simplicidade. Indicaria o ator coadjuvante que faz o que morre de AIDS, todos são excelentes atores, mas ele ganhou o filme – mais uma injustiça nas indicações. E daria um parabéns para iniciativas como essas porque eu que não entendo nada de rap nem nada conheci e gostei bastante – e, sim, o filme era rechaçado na hora de escolher porque todo mundo aqui torcia o nariz “ah, história de rap?”. Pois é. Preconceito há em todo lugar. E o cinema quebra muitos deles. (depois de assistir a Miss Simone, um baita par representativo dos negros americanos, hein? Achei bem colocados.)

17. Creed: daria roteiro, além do Sttalone. Foge um tanto ao americanismo e ao excesso de homens (apesar de ser uma história centrada neles). Tem a dose certa do drama, a mulher que adota o filho da amante do marido, a namorada surda, o encontro entre o protagonista e o Balboa, o drama a ser vencido pelo Balboa. E a idéia é muito boa, é meio metalinguístico, né? Balboa torna-se um personagem da ficção que surge como real, tipo um Sherlock Holmes. Não sou entendida nem nada no Rocky (falha minha, eu sei), mas o Sttalone está muito bem, aquele tipo de coadjuvante que a gente pergunta, “mas não é principal?” (Alicia, oi). Gostei do filme e foi o segundo filme de boxe no ano que eu gostei (Southpaw por motivo de Jake), é um esporte de periferia, do pobre americano que tem a chance de ser alguém na vida (fica claro em Southpaw e tantos outros), mas Creed nem usa isso porque o protagonista tem uma boa condição (larga o emprego estável) de vida por causa da mãe adotiva, então o roteiro não precisa patinar nisso. Não acho que o protagonista (Michael Jordan, nome de jogador de basquete ou estou enganada?) merecia mesmo indicação, mas a mãe dele deveria ter mais tempo no filme. Pois é, quem diria, eu elogiando filme de boxe e com o Sttalone.

18. Joy: não há glamour em uma pobre endividada que inventa um esfregão (e o problema do filme é tentar isso). Nem colocando a Jennifer Lawrence. Agora posso falar mal dela, só dela (além de tudo que já meti o pau nas linhas acima)? Não sei o que vocês vêem nela, sorry. E está provado quão insuportável é Jennifer Lawrence + Bradley Cooper + David O. Russell – nem preciso mencionar o americanismo doloroso que exala isso daí, né. De Niro e Rossellini ali num desperdício vergonhoso. E o filho dela que some durante o filme? Ah, gente, não dá. História de superação, com o americanismo do we can o tempo todo, mesmo levando golpe (mas aí não é que o americano é ruim, é só que precisava de um vilãozinho para mostrar ainda mais a superação dela). Joy, três filmes com este nome de personagem (Inside Out e Room), e sendo a Jennifer, aguardo notícias de muitas crianças batizadas. Chato, inconstante (começa meio fantasia, com as esquizitices dos personagens, da casa, do mundo dela quando criança e depois tudo normalzão), e ela só foi indicada porque… é ela – e a Academia e vocês a amam. Por mim ela não leva por ser ela e porque tem a Cate e a Brie no páreo (sem desmerecer em nada a Saoirse e a Rampling).

19. The Big Short: fiquei encasquetada com este e Spotlight. Não devo entender nada de roteiro (ou sou antiquada, conservadora, essas coisas). Achei chato. O tema é chato e técnico demais, as atuações beiram o ridículo, edição e direção com aquele excesso de explicações são cansativas. Por que no começo tem aquela baboseira meio Michael Moore para explicar e entreter (e parecer engraçadinho) e depois esquecem? Aquela mulher na banheira, gente? E depois as explicações vêm como no dicionário. Sério, se você precisa parar o teu filme a toda hora para explicar alguma coisa, algum termo, algum acontecimento, então o teu filme tem problemas. Porque eu tenho que assisti-lo sem precisar de uma mão ali me guiando e explicando o que obviamente nem eu nem milhões de pessoas conhece. Vejam Straight Outta Compton, precisou de quadros animados editados de explicação de alguma coisa? Não. É um filme que até uma branquela sulista latino-americana mediana como eu entende. Eu não quero assistir a um filme que mostre que eu sou burra. E o que são os atores? Parece que estão num circo o tempo todo com saltinhos e gritinhos e olhares enviesados. Como Spotlight, fica confuso (ou talvez eu que seja muito burra, dirão vocês). Pra mim, não funciona como filme. Tem 99 Homes sobre o mesmo fato e já o tenho aqui para assistir e comparar. O filme não tem nada de drama, tem o americanismo chato de Wall Street e só homens homens e homens (a esposa do Carell quase não aparece e tem a que é chefe de alguém lá – não lembro, sério). Eu disse, o que mais me incomodou foi esse excesso de americanismo em filmes chatos que todos juntos, então, me desanimaram muito. Claro que não entendi as indicações e não daria nenhuma. Deve ser porque sou burra, só pode. (tô relendo para ler atualizada a lista e: chato demais)

20. Carol: chato, chato, chato. Bobo, infeliz. Ah, e o maior problema é simples. Ver o passado com os olhos do presente. Não tem conflito, sério. Rooney Mara com aquela cara de biquinho sou boba, inocente e não sei de nada o tempo todo (como sempre). A questão crucial de, num drama de época, expor o homossexualismo feminino foi diminuída vergonhosamente. Se queria romance, então que voltasse os olhos do roteiro e do espectador para isso – e mesmo assim ficou devendo muito. É tudo amorfo, sem gosto, sem expressão. Não merece nada, só a Cate Blanchett com um corpão e a cara de diva hollywoodiana do século passado. Gente, como essa mulher alcançou isso tão bem? Nem tanto pela atuação dela no filme, ou pelo personagem, mas ela encarnou isso. Tá linda, querida. A gente nem presta atenção no filme, na história bobinha, só nela, suas caras, bocas e gestos e pensa: nasceu na época errada. Rita Hayworth te odiaria. (lembrei depois: as duas viajando de carro pelos EUA, não nos lembrou Lolita?)

21. The Danish Girl: juro que foi mais um renegado na hora do “o que vamos ver hoje?”, juro que deixei por último (foi penúltimo porque perdeu pro Steve Jobs). E digo com alegria que gostei muito do filme. Foi uma grata surpresa. Eu torcia o nariz quando lia que era uma bandeira dos movimentos LGBTS(etc) porque, como eu disse, tenho por filme que levanta bandeira a mesma antipatia do que por filme institucional. Mas é tudo tão lindo, tão bem-feito, tão esmerado, tão delicado (e tem a Alicia quase que o tempo todo) que eu gostei. Não conhecia a história das personagens reais e depois do filme pesquisei na internet. Fiquei meio cismada com a adaptação (a partir de um livro que foi “inspirado” no diário dela) porque, pelo que eu li, o roteiro cria bastante coisa e aí pensei se não seria melhor um filme que não usasse os nomes das personagens reais e só se anunciasse inspirado nelas. Mas, quer saber, adaptação e criação de roteiro tem isso mesmo e talvez eles tivessem as suas justificativas. No dia que assisti saiu uma crítica do filme num jornal acusando-o de ser conservador: então taí, deve ser por isso que gostei. Mas, vamos ao filme. Alicia Vikander rouba a cena, abusa da gente, nos leva no vai e vem de emoções de uma jovem mulher casada que vê uma brincadeira ousada abrir as portas da percepção do marido. O figurino é lindo (leva fácil), a fotografia é a mais bonita e bem-feita de todos os filmes que assisti para este Oscar (e nem foi indicada). Redmayne, eu não teria te dado o Oscar ano passado (o pavor que eu tinha daquele físico prejudicou minha avaliação do trabalho pois só a fez aumentar), mas por mim pode levar o segundo. Ele conseguiu o oposto do trabalho anterior, neste ele precisa da sutileza, ele precisa desaparecer na própria pele, no papel do físico ele precisou sair de si, agredir o nosso olhar, atravancar-se. De tanto ele precisar desaparecer na própria pele é que a Alicia cresce, torna-se seu amparo, seu entrave e, ao mesmo tempo, seu ombro amigo. Aquela menininha insinuante na cama com o marido se transforma numa mulher com a dúvida e a dor nas lágrimas. É lindo. Como é linda a descoberta, que a gente acompanha aos poucos, dele como Lili. Achei que o filme resvalaria para o lugar-comum quando ele sente a maciez das meias e do vestido no dia que posa para a esposa pela primeira vez, mas não. Ele começa a observar o mundo das mulheres (a cena dele observando os trejeitos de uma mulher na feira) e isso é que desperta nele o que talvez nem ele tivesse notado. Não conheço nem entendo o mundo das transexuais e afins, mas o filme foi capaz (sem precisar de quadros e telas explicativas, entendeu The Big Short?) de exibir este processo de redescobrimento – em especial a cena perfeita quando ele coloca o pinto no meio das pernas (desculpem, não soube como colocar de outro jeito). Não sei o que há da história real no caso do amigo de infância Hans (me larga, é o cara de Far From Madding Crowd, aquele com cara de homem que a gente pisa, chuta, larga, mas é gostoso e a gente sabe que é fiel e estará sempre ali – eu quero), que torna-se um personagem óbvio de contraponto a ele para a necessidade de amor masculino da Alicia, e ao mesmo tempo, também óbvio, a argumentação de que “ele era assim desde criança”. A alegria dele ao decidir pela cirurgia, as agruras do pós-operatório, a esperança de um dia ter filhos, tudo tão assimilado pelo trabalho do Redmayne que a gente se emociona junto e torce por ela. E é louvável (e, pelo que vi, a comunidade trans gostou também por isso) que não tenha caído na questão da atração sexual (ele nem demonstra sentir-se atraído por homens) pura e simples, mas mostrando como ela é por dentro, pelo viés da sensibilidade dela. Achei um excelente filme, com méritos que nem as indicações reconheceram à altura – mas diante do apanhado geral das escolhas, é fácil entender que, acima das questões cinematográficas está uma política e uma mentalidade que dificilmente daria o braço a torcer a um filme como este, infelizmente. Daria todos os prêmios que ele concorre (e mais alguns).

22. Steve Jobs: para um filme é uma baita peça de teatro. São três atos (1984, 1988 e 1998) encenados no stage (consciência) e backstage (inconsciência), nos quais um já falecido Steve Jobs se vê às voltas com o seu passado, dramas familiares e interpessoais, e os dirime ao dialogar incansavelmente com seu alter ego que é a Kate Winslet. Mas o crápula tem um final apoteótico ao ser aplaudido tal qual um ídolo do rock e perdoado pela filha porque faria (como fez, já o sabemos) o que todo filho esperaria de um pai: colocar mil músicas no nosso bolso. E fim. E aí como bom teatro tem incansáveis (para o espectador que tem todo o direito de cochilar em alguns deles) diálogos (ou seriam monólogos com a própria consciência? teatro gosta dessas coisas). Fassbender nos dois primeiros atos está o Roberto Justus escarrado (e dá uma agonia filha da mãe vê-lo). No terceiro ato, mais fisicamente do que na atuação, ele encarna o Steve Jobs que já foi delineado nos atos anteriores. Kate é baita atriz, mas, como Jennifer, é queridinha da Academia e talvez a indicação só por isso (já disse, Alicia wins). No mais, eu não gosto de teatro, então por mim pode passar. (caso excepcional a adoração ao mito do Steve Jobs, coisa que nunca entenderei, que um estudo aprofundado da juventude e do capitalismo de hoje jamais me farão compreender)

23. Shaun, The Sheep Movie: uma fofura. Sou suspeita, amo ovelhas, amo bichos, achei tudo uma gracinha e até como roteiro é superior ao Inside Out. Estou curiosa pelo brasileiro (assistirei este fim de semana) porque acho que os outros não me cairão nas graças. O detalhe de não ter falas é bem especial, como a relação do ser humano com filhotes e com a própria juventude. Gostei pacas (assim fica claro?).

24. Anomalisa: o horror, o horror. Sei lá, de embrulhar o estômago. Perderia a classe e diria “grande bosta”, mas eu sou educada. Não tenho tolerância pra filme com pretensões, sei lá, existencialistas contemporâneas. E dizer que a piada que dá origem ao título é com o Brasil.

25. What Happened, Miss Simone?: Então a melhor parte do Oscar ficou com os documentários. Instigante, no mínimo. Aliás, sabe o americanismo, a branquidão do Oscar, o machismo? Então, tudo aqui vai ao chão. Não é o melhor documentário, mas é uma boa obra de pesquisa de arquivo. Incomoda MUITO a filha (Produtora Executiva, por sinal) e o marido – além da falta de mais personagens, pois além dos dois, só temos mais uns dois amigos e Nina merecia mais depoimentos. Mulher negra, que sofreu violência doméstica contínua, explorada profissionalmente, que desencadeia doenças e distúrbios, que encontra na luta por direitos sociais e políticos a razão da sua arte (e alcança níveis de pouquíssimos) e declara sua insatisfação com o país onde nasceu (a frase dela sobre os EUA viver uma mentira é sensacional e, sim, verdadeira) e para onde decide não voltar. A personagem em si (e alguns dos melhores documentários prescindem deles) é extraordinária, mas (tem um mas) o documentário deixa a desejar em relação à visão porque restringe muito às mágoas da família. Bom documentário riquíssimo em material de arquivo (a melhor parte). Que mulher, que vida.

26. Cartel Land: Sensacional. Mireles é um baita personagem (o que eu disse acima?). Fotografia impecável, uma produção esmerada, ao todo. Diante das dificuldades de se fazer um documentário desses pra mim já está acima dos outros. É americanóide? Não, ele questiona o americanismo da fronteira, ele expande as fronteiras pessoais de quem vive lá. São um pouco chocante (e num momento parece que explorará isso desnecessariamente) as atrocidades dos cartéis, mas é só mais uma das formas de humanizar as peças envolvidas em todo o jogo cruel da fronteira. É tão bem dirigido, tão ousado (em acompanhar as missões, inclusive, que poderia ser só uma arma de gênero de ação), que a gente chega a esquecer que há um documentário, uma obra, uma intenção. Eu sou apaixonada por documentários, mas fiquei um tanto afastada e foi uma delícia me reconciliar com eles no drama tão vívido de Cartel Land. Nele há tudo o que faltou em Spotlight, Mad Max, The Big Short e outros – ficção, aprenda. Meu favorito, sem dúvida. Eu até deveria falar mais, mas é tão bom que ainda estou pensando.

27. Amy: duas coisas, simples assim: não há nada ali que a gente já não soubesse (até mesmo eu que não fui nem sou fã, mal conhecia umas duas músicas dela, não fiz questão nenhuma de acompanhar a carreira – mas o mundo fez por conta); e, justamente por isso, em mais um documentário todo feito com material de arquivo (inclusive de momentos muito íntimos) não houve o questionamento ou problematização da exploração da imagem dela – foi o que eu senti falta ao acabar. Desde o início há material de arquivo, festinha com as amigas, gravações em estúdio, viagens, a intimidade do casal, tudo, tudo, tudo, o pai que contrata uma equipe para acompanhá-la numa viagem de “recuperação” (e ali é o ÚNICO momento onde há um fôlego para a questão da exposição mórbida da personagem, quando mandam parar de gravar e o cara só finge e abaixa a câmera enquanto pai e filha discutem). Não há nada da vida dela que a gente já não soubesse, e é fácil associar a morte dela a isso. A vida dela não era… dela. Todos os fãs, todos os papparazzi, todos que fizeram piadas e entrevistas e corriam atrás dela na rua são culpados (sim, aquela criatura horrível com quem ela casou, também). Nem dá espaço pra gente questionar o marido e o pai, a culpa da exploração pelo dinheiro e sucesso (tal qual Nina, infelizmente) e a queda sem volta pelas drogas (breves momentos e depoimentos do marido causam uma revolta, mas tudo muito de leve), ou para tentar uma aproximação com a Amy como mulher (a bulimia é contada pela mãe, pela médica), é sempre ela pelos outros (como sempre foi pela imprensa). Então, sim, o documentário falha gravemente. É tão infeliz que exibe o corpo morto saindo da casa. É um urubu, literalmente, sobre o cadáver dela (além de associar a decadência profissional diretamente à morte, mas ela teve uma recuperação antes de morrer, tanto que esteve no Brasil). Tenho pena dela, ser explorada até depois de morta – tal qual como foi em vida. Ela merecia outra coisa, outra visão, alguma interpretação. E apesar da grandiosidade que alcançou em vida (que ela não queria nem deveria ter tido), com letras tão, mas tão, pessoais e num linguajar muito próprio, talvez a obra em si não perdure mais do que o mito (construído com a própria vida). Nem de longe merece ganhar – em honra, inclusive, a ela.

28. When Marnie Was There: mas o que que deu na Academia de escolher taaaaanta animação deprê?! Inside Out (“Divertida Mente” que de divertida não tem nada), Anomalisa, este e o brasileiro, só depressividade! Deuzulivre, gente! Adolescente depressiva que se sente renegada e uma história que envolve fantasmas e sei lá como se chama, que a gente mata tudo bem antes de explicarem mastigadinho. Chato e depressivo. Por isso continuo com Shaun. Não tenho muita tolerância, já disse, com essa depressividade toda. Muito contemporâneo pra mim. Gostei da animação, nem parece aquelas coisas quadradas japonesas, mas não deu.

29. O Menino e o Mundo: triste. Além do final óbvio (que quase mata o argumento), mergulha naquela máxima de que filme brasileiro tem que ter favela, futebol e carnaval. Poderia ser mais criativo, né? Não gostei. Não me agradou a depressividade, nem os desenhos, nem os personagens (acho que nada), nem a trilha. Desanimador.

30. Huundraaringen Som Klev Ut Genom Fonstret Och Forsvann: muuuito bom! Leva cabelo e maquiagem e poderia levar mais. O filme mais divertido de verdade entre todos os indicados! Tudo de primeira, uma baita história, atuações divertidas. Daqueles indicados que valem uma dúzia de chatice que a gente assiste.

(já é sábado, tenho aqui o War e The Look of Silence, quase completaria docs e estrangeiro – falta El Abrazo de la Serpiente, Saul Fia e o doc ucraniano, quero muito vê-los; não assisti (ainda) os indicados à trilha, mas já tenho alguns aqui, não perderei (50 Tons e 007 não), pois Selma foi inesquecível e injustiçado – tudo para depois da cerimônia)

(O post, na medida do possível, será atualizado – só estou naquela dúvida: o Oscar é neste domingo ou no próximo? É que estou meio perdida no calendário. Se você leu até aqui, meu obrigada, porque levei baita tempo escrevendo tudo isso.)

 

Quarenta e dois dias

Quando eu acordava, era você que eu via por primeiro. Não sei mais o que são meus dias sem você além de uma sucessão de horas passadas sem memória. Meu corpo sente a tua falta. Meus olhos sentem a tua falta. Nem em sonhos eu te vejo mais. Eu vivia num buraco escuro quando você surgiu. Fomos, sim, como dizem todas as canções, tão felizes juntos. Fomos feitos um para o outro. As melhores e mais belas coisas que eu fiz na vida, lá estava você. Ah, como sinto saudade das nossas fotos juntos. Com você eu me sentia viva. Pedalar pelas cidades na tua companhia era sublime, nem importava o fato de quase ser atropelada ou o suor abundante que escorria pelo corpo: eu estava com você. Quantas aventuras juntos? Quantas presepadas e quantos tropeços meus você presenciou? Sempre ali ao meu lado, consciencioso, firme e me transmitia tanta confiança. Era tão fácil confiar em mim, com você ao meu lado. Era tão fácil sorrir pra vida, sabendo que eu te teria comigo.

Tudo perdeu a cor. Tudo perdeu a graça. Voltei ao breu da vida. Sem desculpa e com muitas explicações e justificativas, você se foi. Se foi com alguma promessa vaga de voltar. Dizem que você vai bem, longe de mim. Dizem até que vai melhor assim. Mas eu me agarro à esperança de um dia te ver de novo. De um dia tê-lo novamente ali ao acordar. Sinto frio todos os dias, o dia inteiro. Dizem que estou pálida, que não me animo a nada, que não ponho os pés para fora de casa. E é verdade. É a falta de você. Como um presidiário com longa sentença a pagar, conto os dias da tua ausência em risquinhos na parede. O tempo é um castigo. Não sei o que fiz pra te perder e por mais que digam que não é culpa minha, me penitencio.

As flores do jardim, as árvores, os cachorros e gatos, todos sentem tua falta. Ou são meus olhos que vêem neles a falta que você faz. Por vezes, sinto que minha alma escoa junto à chuva, se perdendo em milhares de metros cúbicos pela terra encharcada. Tem dias que sinto-me à beira da loucura, como atada à punições severas e querendo fugir para uma terra onde possa encontrá-lo de novo. Acordar, abrir a janela e não vê-lo é o resumo do meu dia. Foi assim hoje e nos últimos quarenta e um dias. Então, sem você, abro inutilmente as cortinas da casa e espero o horário de fechá-las, sem que você tenha vindo me fazer sorrir. Sem que você tenha aparecido pra despertar em mim a vontade de encontrar o ângulo certo para captar uma bela foto. Sem que você me anime a sair pelas ruas novamente.

Quarenta e dois dias sem sol. Quarenta e dois dias penando neste calabouço. Mas, dizem, você vai voltar. Dizem que ali acima, em algum lugar, você está. Tenho até medo da minha reação quando você aparecer… talvez eu saia dançando pelo jardim, numa espécie de dança do sol; talvez eu cante enquanto percorro as ruas buzinando e gritando “ele voltou!”; talvez eu sinta tanta alegria ao mesmo tempo que não consiga acreditar nos meus olhos; talvez, pela minha natureza desconfiada, eu espere pra ver se você veio pra ficar; talvez, meu querido, eu abra a cortina e te dê meu melhor presente: este sorriso que só você conhece.

Mas, volte. Volte porque nem eu aguento minha pele tão branca, nem tenho paciência para usar tanta roupa. Volte porque todos aqui sentimos a sua falta. Volte, porque se não me deste a Primavera dos deuses que me inspira tantos amores, ao menos me prometa um Verão inesquecível na tua companhia.

Da terra onde há quarenta e dois dias não vemos o sol.

Vô centenário

Ao meu avô, Abib Cury, pelo seu centenário em 4 de junho de 2015.

Ele entrou pela porta e sorriu. “Ô, seu Cury, como vai?” era mais um amigo, um cliente que volta e meia aparecia com uma máquina de escrever Remington, meio velha, que engatava o R quando bem entendia. Ele entrava já dizendo, “A safada me judia, seu Cury. É eu precisar dela pra dar nisso.” e era recebido por um sorriso sem mostrar os dentes, o sorriso mais tranquilizador do mundo.

Se me perguntassem, eu diria que meu avô tranquilizava as pessoas. Pois eu não via viva alma ali entrar que não fosse em profundo desespero com suas máquinas travadas, sem fita, letra quebrada, debaixo do braço. E meu avô, ali do balcão em frente à porta sorria. Se eu fosse um pouco mais velha pensaria que ele era dessas pessoas que já viram tudo na vida e, por isso, a todo o mal, apenas sorri. As máquinas, sendo máquinas, enfim estragavam. E ele era esse herói que salvava a todos. Se eu via desespero nos olhos deles, a angústia é que dominava quando vinha com a minha máquina – primeiro as de conta, um tempo depois as de escrever – emperrada. E ele? Ele sorria e consertava, sem deixar de me mostrar o que tinha acontecido e como resolver. Com ele aprendi a aprender. Era assim, eu ficava ali e observava tudo. O torno, o esmeril, as bancadas, as enormes luminárias, eram os personagens das minhas histórias infantis.

E o movimento quase não parava. Entrava um, logo outro, era raro o nosso oficina ficar vazio. De vez em quando estacionava um carro e desciam várias máquinas, eram de alguma escola, comércio ou escritório. E lá iam elas para a prateleira preta no fundo do corredor, cada uma com o nome e o telefone do dono, anotadas num pedaço de papel de bobina de máquina. Ali elas dividiam o espaço com os garrafões de vinho. Ah! Se você fechar os olhos agora e imaginar o cheiro de graxa misturado com o cheiro do vinho conseguirá se transportar pra lá. Era gente da cidade inteira que parava ali. E tinha quem nem vinha arrumar máquina, aparecia só para conversar com o seu Cury, que debruçado no balcão sobre alguma revista ou jornal, falava de tudo do mundo todo – foi com ele que aprendi a ouvir.

Eu fui criada ali, entrava correndo por uma porta, me atirava voando pela outra, pedia uma ferramenta, sumia e voltava pra chamar para o café. A vó me mandava chamá-lo e eu voltava dizendo, “Vó, é o seu fulano que tá lá.” e ela já suspirava: era daqueles que a conversa ia longe. Eu participava como de um evento solene quando ele ligava o esmeril e quando ele ia até a cobertura do lado de fora pintar alguma peça com o jato de tinta. Com ele aprendi a me fascinar. Eu? Eu sabia onde ficava tudo ali, era só me pedir. Aquela tesoura preta gigante era minha obsessão, eu sempre queria cortar qualquer coisa só para poder usá-la.

Meu avô sorria e resolvia todos os problemas de todos, sempre. Naquela época as máquinas elétricas já tomavam o lugar das prateleiras. Hoje, com seus 100 anos, meu avô não teria máquinas de escrever para arrumar. E aqui do nosso oficina eu me imagino estragando de propósito a minha Olympia só para que ele, como um Aureliano Buendía, a arrumasse com suas mãos que são tão iguais às minhas – e eu a estragaria de novo. E assim passaríamos imunes ao tempo e ao mundo.

Foi na primeira máquina de escrever portátil que tive, presente dele, que escrevi meus primeiros versos. Daqui do oficina penso nas palavras como tranquilizadoras da saudade e necessárias à manutenção da alma – e me invade aquele cheiro de graxa e vinho. Pois sei que há famílias condenadas a cem anos de solidão, mas a nossa está condenada a morrer de tristeza.

Texto publicado no jornal Notícias do Dia, Caderno Plural – Confraria do Escritor. Joinville, 22 de junho de 2015.

Querida Ernestine…

Querida Ernestine,

vivemos num andar do inferno! No sétimo, não é mesmo? Não a sinto uma personagem, sinto-a uma amiga que conhece as mesmas dores que eu. Sabemos que há dores mais vis, as verdadeiramente insuportáveis, dessas sofremos também. Porém, não dominamos as paixões através do espírito. Nos enganamos, por vezes, a acreditar que somos senhoras dos nossos sentimentos e nada mais parece que uma troça. A cada buquê e bilhetes que recebias eu via os meus… enquanto vislumbravas o teu amado perfeito – que eles sempre são perfeitos – mergulhei junto nas tuas teorias. E quando descobrimos que eles não cabem no molde que tão alentadamente moldamos em longas horas de especulação? Os amamos quiçá ainda mais. A vida não é um livro, uma história com focalizadores e narradores oniscientes. Assim, nosso desespero em não saber o que se passa na cabeça e no coração do outro é incompreensível aos contadores de notas e aos olhos que vêem os números da bolsa. Temos consciência unilateral da história… e dos sentimentos. Que amores começam em atos levianos e somente esses são amores. Os atos levianos nos levam ao contentamento, à fixação do pensamento a toda hora do dia e da noite, aos sonhos, ao olhar insistente pela janela. E então o desespero de não saber o que se passa com o outro esvai-se para termos a certeza que nossa leviandade apaixonou-o. E amor que ama apaixona. Presas, então, de alegrias sublimes por pouco tempo esquecemos o desespero. Ele vem como o tapa mais cruel que mão alguma nos daria: sentimo-nos usadas. Fomos, então, um passatempo. Úteis quando havia tempo disponível. Ocupação temporária entre dissabores. Nosso desespero exposto ao escracho, à maledicência, à indiferença. Sentir-se usada é afogar-se em dúvidas: e os buquês, todos falsos? e os bilhetes, que nos abalavam a alma e que líamos e relíamos escondidas com sorrisos dançando nos olhos, todos friamente calculados? e a esperança alimentada com as promessas, impulso desinteressado? E quando encontrarem nos nossos olhos e palavras o enterro do desespero, jamais saberão que aqui (e aí) dentro ele pulsará ainda mais forte.

Vamos ao piano! Vamos aos estudos de história natural! Vamos dar ordens aos criados! Somos personagens de nós mesmas, fingimos a vida que temos. Não somos bonitas, não temos charme nem usamos as roupas que as moças usam. Temos a expressão imperiosa no olhar que ninguém saberá admirar. Vertemos lágrimas ardentes por alguém que mal vimos três vezes. Não temos, portanto, o mínimo do bom senso. Lançaremos ao fogo sem ler as longas cartas. Manteremos a face erguida durante jantares enfadonhos com os mestres do querer aparecer. Num mea-culpa exacerbado prometeremos mudar o que de certeza nos torna repulsivas. E o quão impossível nos é cumprir a promessa de jamais ser imperiosa! Queremos, até, mudar as roupas e os gestos infantis que nos caracterizam. Talvez amem mais uma mulher com trejeitos de trinta anos! E quem dera eu amasse como a de 28 do nosso querido, quem dera! Travei guerras comigo mesma para que eu não amasse sempre como aos quinze ou aos dezoito! Não há espírito que dome nossas paixões!

O desespero é o doce de coco do desprezo e do ódio por si mesma – como estes tornam-se obesos! E é o nosso destino. Da leviandade não nos arrependemos que só ela proporciona o amor verdadeiro, guardaremos sempre e sempre os buquês e os bilhetes, levaremos decoradas para a eternidade frases e palavras. Evitaremos melancolicamente os carvalhos e os lagos. Por um instante, num sussurrar de um vento distante que chegará de surpresa, cairemos de joelhos diante de todas as nossas resoluções. Todo o desespero que acreditávamos ter afogado as esperanças foi em vão. Teremos a idiota certeza de suplantar, no coração dele, todas as outras paixões. O vento passará breve e em seguida choverá.

Saber-se ou não amado complicará todos os fins.

E o futuro será resumido em poucas linhas.

Ernestine, esses dias me dei conta que sou uma personagem de mim. Vivemos naquele castelo a olhar pela janela, com olhar imperioso e atenção voltada aos livros (e filmes…). Desconfio que sabemos mais da vida do que os que vivem nos grandes salões com olhares agradáveis e amores sinceros. Dói-me, de fato, a despedida; dói-me menos porque sei que ganhei uma amiga. Depois de sangrá-los em algumas páginas, deixemos nossos desesperos, nossos desprezos e ódios trancafiados na torre a espiar involuntariamente o lago e o carvalho até que… até que a melancolia os tire dos nossos pensamentos.

Pela convivência da Primavera de 2013 à Primavera de 2014 (e de um breve encontro no Verão de um ano perdido no tempo), meu muito obrigada, Stendhal.

Nos encontraremos sempre.

Gabriel

 

– Quem é Lídia?

– Todo poema precisa de uma heroína.

– E você, como não tem uma, inventa.

– Baseado naquilo que vivo.”

Queria ter mais precisão na transcrição do diálogo acima. Talvez as duas últimas frases precisem de uma ou outra palavra. Sou péssima com citações, já disse. Enfim, acima da angústia, permanece o desejo de que as intenções das palavras tenham permanecido nesta breve adaptação.

E seriam os escritores algo além de criaturas que escolhem palavras com intenções (as intenções, bem entendido, das palavras, não dos escritores)? (vejam só, acabei de escrever uma frase curta na qual aparecia duas vezes a palavra “tentei” – ou seja, foi sumariamente eliminada, coisa fácil num teclado de computador) (mas tenho relutado e tido dificuldades para voltar a escrever direto nesta tela, não sei o que há, ela tem me repelido – as folhas parecem mais confortáveis)

Longe do meu desejo diante desta tela em branco falar, novamente, sobre narrativas, sobre o ato de escrever. Este desejo tem me acompanhado os pensamentos e os estudos. Resolvi escrever assim sem saber onde chegar e decidi começar por tal diálogo que me assombra pelas últimas horas.

Também não me parece digno de longas linhas o drama do filme. Na verdade não o acompanhei muito, estava em dúvida entre ele e um em outro canal e fiquei trocando entre os dois sem perceber que não estava dando bola para nenhum dos dois – e brincava com os bebês e curtia um momento obscuro.

Porém, ali havia algo, como no diálogo, que me toca os pensamentos dos últimos meses. Já não sabia mais o que fazer com um amor irrealizado e seus sintomas absurdos quando me dei conta, entre tanto trabalho, que deveria, então, escrever sobre. Com mais um livro de contos eróticos (não é bem isso, mas, deixa pra lá…) em vias de produção, decidi furar a fila dos trabalhos e escrever um sobre amores não realizados. Talvez também tenha sido influência das séries e filmes ingleses (e aquele com o Andy Garcia), nos quais encontrei alento sem fim.

E é isso. Amores não realizados. Há algo mais sublime no mundo amorístico? Há algo mais perfeito? Diriam que não há nada mais triste. Pois discordo. Triste é ver o fim real de um amor que concretizou-se, viveu, reviveu e foi, pelas esquinas da vida, destruído. Amores destruídos são tristes. A canção diz “todo o meu prédio já sabe que eu tenho um amor” e eu posso afirmar que todo meu minúsculo círculo de convivência já sabe que eu tenho um amor não realizado. Ah, eu falo sobre isso sem problemas. Cultivei o veneno das expectativas.

Escrever não é uma terapia. Criar mundos é abster-se de si. Não é a Fahya que rola no tapete da sala de TV com os bebês, ensinando e brincando, a mesma que se debruça horas a fio sobre telas e folhas em branco – ou que matuta dias sem fim por todos os cantos por onde anda. Não decidi ser escritora nem assim me intitulo. Tenho tentado assumir que escrevo. Como disse no post anterior, foi lendo, descobrindo aqueles mundos imaginários que quis criar meus mundos imaginários para além da minha cabeça atribulada.

Por esses dias acordei e me disse “quero um personagem”. Não estava contente com o que eu havia criado, ele parecia incerto. Escreverei sobre ele.

E García Márquez nos deixou. Já escrevi aqui sobre ele. A doença que o acometeu me fez pensar em como a vida pode ser cruel com o nosso corpo que nasce e cresce para apenas desintegrar-se. O primeiro livro que li dele foi Cem Anos de Solidão –lá se vão tantos anos... Na época nunca tinha ouvido falar em “literatura fantástica” e quase desisti dele nas primeiras páginas. E dali surgiram personagens, cenas, borboletas, bananas, peixes de ouro, nós no coração que me acompanham até hoje. Doze Contos Peregrinos me empurrou para esta guerra que é escolher palavras com intenções. Como o poeta do filme, crio meus heróis e heroínas… Gabriel me fez acreditar que um mundo inventado é sempre mais belo e lá atrás optei por ele – porque este aqui é tão desinteressante.

Por esses dias quis escrever que descobri em mim uma ânsia de interferir na vida das pessoas. De todos os sentimentos do mundo, tenho pra mim que o mais valioso é quando você interfere na vida de alguém – seja mostrando a ela algo que ela desconhecia, seja ensinando, seja lá como for. É o que eu sinto quando olhinhos se arregalam, me encaram e dizem “é mesmo! Eu nunca tinha pensado nisso!”. Conviver com os bebês me fez perceber mais isso. O mundo vai se descortinando aos olhos de outros… e você ser o responsável por isto é a melhor sensação da vida.

Não faz uma semana pensei, novamente, que insistia à toa em duelar com as palavras. E eis que a vida me respondeu. A cada leitor novo que se declara, ou que eu descubro, o sentimento aflora. Descubro-os mesmo naqueles completamente inesperados. E sentir que faço um pouco que seja pela vida de alguém já é tanto para mim.

Precisava dizer isso ao Gabriel. Ele fez muito pela minha vida (e não estou falando no caso de querer escrever). Como dizem os teóricos da literatura, as pessoas lêem para apreender a vida, para tentar entendê-la, para crescer como pessoa, ou até para fugir dela. Com Gabriel, tive tudo isso. Aqueles bilhetes, aquela chuva interminável, aquela rede com um gigante, aquele coronel, aquele impossível, todos eles mudaram meu olhar sobre o mundo, me fizeram ter 87 muito antes do tempo e nos piores (e como foram horríveis…) momentos me fizeram escapar deste mundo. Digo, a desrespeito de todos os amigos, de pais e irmãos, de namorados e casos, os mundos imaginários foram a melhor companhia – e, claro, somem a eles os seres de quatro patas.

A responsabilidade me sufoca. Ter leitores é angustiante – é como não saber se estou fazendo “certo”. Mas, como também já disse aqui, escrevo por mim, para vocês. Estudar sobre o ato de escrever é a soma: angustiante e sufocante. Tenho tentado lidar com tudo isso. E as histórias de amores não realizados surgem numa contemplação não de mim, mas das vidas nas quais poderei tocar com elas.

Um dos sonhos é conhecer a origem de Macondo. Um dia irei lá. Quem sabe meu filho, além do Sinfrônio José e do Zoroastro Artiaga, se chame Aureliano. E é a segunda vez, este ano, que fico com uma pontinha de tristeza por ter sido omissa em me declarar: a primeira foi ao Eduardo Coutinho, agora ao Gabriel. Porque eu já descobri como é forte ouvir uma declaração dessas. Não sinto pela morte do Gabriel, o tempo, a carcaça, as doenças. A morte do Coutinho foi mais traumatizante. Enfim, já faz tempo que a morte não é novidade pra mim. É impossível não ficar feliz com o fato de que eles, como tantos outros, estarão para sempre por aí fazendo muito pela vida de tantos de nós. Que nós saibamos fazer algo de bom com o que eles nos proporcionam, para nós e para os outros.

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