Fuga intermitente

Nas ondas se desfaz

um devaneio

em crise e pêlo

de corpos cansados

A água amortece

o tempo da angústia

dura aqui eternidade

e um fim se alastra

como quem não quer

deixar de lutar

o sopro, a vida

Seria possível

fechar os olhos

imergir as preces

em sons de ondas

e dar passagem

ao esquecimento?

E assim escorre

cada pingo e nó

e água sem cheiro

nos dias de peso

e pressa e pés

Partimos

Assisto o trem partir

sob esperanças

macias são tuas palmas

e tuas inesperadas

chegadas

 

em tua companhia

o barco à deriva

invadiu a praia

das alegrias

 

em teu sorriso

a moça arredia

seguiu o instinto

da felicidade

 

Seguimos viagem

sob lembranças

doce é tua inocência

e tuas respostas

silenciosas

Inspirações ao acaso do tumulto

Um amor de conto de fadas

desses das páginas de romances do século passado

ou das páginas de crônicas de jornais

um amor dos tempos das viagens de trens

e dos silêncios à beira-mar

dois personagens que se apaixonam

mal se viram nem se tocaram

apaixonam-se, assim

pelas idéias e pelas palavras

Um amor sem tréguas

que incendeia as almas e as madrugadas

que insiste em atravessar avenidas

e deixar-se em bancos de praças

ou jardins de museus quase abandonados

Um amor à distância

de dias e horas e míseros minutos

os personagens, por vezes, encontram-se no porto

anseiam descobrir as manobras dos navios

e por ali observam as aves a devorarem

incautos peixes e siris

enquanto sossegadas capivaras descansam

ouvem o marulhar da baía e celebram

brindes de caldo de cana

Um amor que sobrevive

às cicatrizes

e promete possuir ilhas e barcos

para sempre navegar ao infinito

e às ilhas desconhecidas

devorando poesias sem rimas

e páginas perdidas em sábados de preguiça

os personagens se encontram

quando não procuram mais

almas gêmeas nem duras penas

e traçavam caminhos sem companhia

quiçá sem sonhos

travam diálogos desconfiados

e se correspondem por mensagens cifradas

em declarações que poucos lêem

sem saber a quem se destinam

garrafas jogadas ao mar das esperanças

Um amor sem fadas

nem percherons admiráveis

nem finais desencantados

nem bruxas malvadas

quem dera, versos rimados

Repousa no intervalo

das Estações e implora

pelas férias dos corações

entre datas esquecidas

e ilustres feriadões

os personagens viajam ao encontro

do amor.

7h29

A chuva fina

que abençoa

nossos dias

em novas

despedidas

 

e o Outono

enquanto eu

despreparada

faço promessas

de não mais

tua tristeza

existir

 

em estradas

de silêncios

e companhia

no sorriso

nosso

de cada

fotografia.

Espaços

Sementes de uva

na beira da calçada

esperam

 

O Outono

em meados de março

se aconchega

 

Ouço: os grilos

soluçam seus hinos

 

O amor fraquejou

aos sintomas do furor

hoje bebe desalentos

 

Do inimigo não se vê o coração

furamos seus olhos

e vertemos Justiça

Verde-esmeralda

Deixe saudade

do meu sorriso

ao subir a rua do morro

das ondas

em dia de mar revolto

da rede

no calor abafado

do sofá

na tarde calma

de pedalar

sob a chuva fria

 

Deixe saudade

de madrugadas

na Paraíso

dos silêncios

e dos telefonemas

daquela terça

de céu estrelado

da tristeza revisitada

no entra e sai do porto

do teu abraço

no verde-esmeralda

 

Vá, Verão…

deixe-me com toda a saudade

em cada entardecer

que ainda há

não me despeço já

e seja eterno no meu olhar

Vem pro bloco

Vem

pro bloco do Nós

 

veste tua fantasia

em mim

 

anuncia

os sonhos perdidos

as pegadas esvanecidas

 

Vem

varar madrugadas

 

entrelaça tua vida

na minha

 

imagina

o futuro juntos

a vida repartida

 

Vem

desfilar no meu olhar

 

fala da Bíblia

te recito Filosofia

 

suspira

prazeres e culpas

tensão e tontura

 

Vem

pro meu bloco

 

me inspira

a escrever poesia

 

às segundas

de Carnaval

 

e às quartas

varre as cinzas

pra debaixo

do quintal

Te espero

Diante das horas
que a lua leva para nascer
e o tempo entre uma onda e outra
a partirem-se no costão
eu te espero
No leve embalar
do meu corpo adormecido na rede
e o grilo a despertar o silêncio
sob a brisa da noite de Verão
eu te espero
Na cozinha vazia
formo e fogão ligados
velas acesas ecoam nossas músicas
os domingos assim serão
eu te espero
Na cama em meio às cobertas
em noites sem estrelas
Na estrada de chão
arrasada pelas tempestades
Em travessias de ferryboat
nas rodoviárias e praças
eu te espero
E o tempo de dois dias
ou uma semana
passa
tão lento como não gostaríamos
e saiba:
eu te espero.

paz

O sopro

do teu ar

nos meus lábios

 

em um segundo

paz

 

O verde

incomparável

do mar

 

no sábado

paz

 

O abraço

que aprendi

a amar

 

nos teus braços

paz

 

O menino

a saltar

do alto da pedra

 

no mergulho

paz

As redes

Na rede dos peixes
sem esperança
mãos calejadas
e meus olhos
lacrimejam

o sol
nos corta
em dois

O mar abençoa
o rio a desembocar
no barro das chuvas
ingrato ao meu desejo
de sempre tê-lo

o sol
nos queima
os ombros

Na rede da varanda
os olhos fecham
na serenidade
e quem sabe
as horas passam

o sol
nos atordoa
os sentidos

A brisa
não nos visita
há dois dias
três noites
e suamos bicas

o sol
nos encaminha
à lagoa

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