Alma segue

Alma segue atônita. Velha e imatura arrasta os pés na lama da decepção. Até a alma cansa. Se faz fechada na escuridão das tardes e no silêncio das refeições. Alma é vida, necessita movimento e inspiração. Mas querem e tentam calar a alma. Ela se cala, de fato. Se cala e se entristece. Nada mais a fará mudar. Não possui asas, é verdade, mas voa solitária sobre os escombros da má vontade e dos empecilhos que todos vêem em tudo o tempo todo. Há almas que perderam o sopro de vida, morrendo aos poucos suas mortes e abandonos – há quem não se deixe vencer pelas perdas e, nem por isso, mire ganhos.

Alma segue seus planos rabiscados na areia. Brinca de boiar no mar calmo. Finge ser feliz quando lhe admoestam cárceres improváveis. Ela é feliz, mas felicidade não se impõe nem se divide. Se é feliz sob a liberdade da alma que cobiça horizontes. Alma sabe que de nada adianta expressar-se, ouvidos não ouvirão, pensamentos não alcançarão. Alma segue por onde veio, a segurança do caminho é fazê-lo a todo instante, podendo sempre apagar os últimos passos ou retomar as últimas indecisões. Alma, por vezes, não sabe o que faz – jamais, porém, esquece o que lhe fazem.

Alma segue sorvendo o ar que lhe infla as vontades. Tentam cortar-lhe as asas e a esperança. Vê-se cercada por almas aflitivas, almas corroídas, almas já não mais almas pois sem vida. Desespera-se, é verdade. E quer abraçar-se mais firme às suas imposições quanto mais aflita se sente. É que a falta de vida lhe aflige. A falta de vida lhe sufoca (nunca a sufoque, nunca sufoque-a) e lhe irrita. Ela só precisa, sempre, sentir-se viva. Posto alma que é.

Alma segue. Dias seguem. Anos seguem. A vida segue.

Maratona Oscar 2018

Ah, a indústria! Que bela é a indústria! Ela produz tudo aquilo que queremos. E a Academia premia a indústria – premissa que nunca deve ser esquecida. Ninguém está premiando a arte. Bem entendido, prossigamos. Um belo dia a indústria descobriu que, também na indústria do cinema, sempre houve abusos, discriminação, disparidade, desigualdade, racismo, e toda essa leva de coisas ruins que a humanidade já produziu. E aí a Academia resolveu que ela não poderia mais reproduzir estes problemas que, apesar de sempre existirem (e serem, de certa forma, constantemente denunciados pelos produtos que ela mesma produz), eram velados. Escancaramos as portas. E o que sobrou?

Restou um Oscar politizado, um Oscar polarizado, uma premiação que atira para todo lado. “Uou, reparem, não somos racistas!”, “Veja bem, ninguém aqui é mais (!) machista!”, “Homofobia, como assim, isso não existe!”. E, de pronto, todos acreditarão. E ficaremos contentes de ter pela primeira vez uma mulher indicada à Fotografia. E temos indicados negros nas categorias de atriz coadjuvante, melhor ator e direção. Um sucesso. Temos, aliás, dois filmes de elenco negro entre os melhores. Temos uma diretora indicada, temos filmes que tratam de gays, nas categorias principais. Um sucesso.

Será?

A categoria mais concorrida está na Melhor Ator principal. Os cinco concorrentes estão excepcionais. Nos dois filmes mais cotados para levar a categoria principal as protagonistas mulheres convivem com dois coadjuvantes, num caso, e com uma criatura, no outro caso – que, se pudesse, certeza que teriam indicado (e levaria – não quero acreditar que foi inspirado no Redford). As estruturas, não deixemos a indústria nos enganar, permanecem.

E tudo politizou-se. Não sei. Parece só mais uma estratégia. Muitas boas intenções, o inferno perpetua-se. A indústria nada mais é que a indústria. Muitos confrontaram a Academia com seu racismo, mas poucos (quase ninguém?) veio tecer elogios às indicações “less white” desta edição. Povo ingrato. As produções, industriais que são, aproveitaram-se desta ânsia (do público?) e elaboraram suas histórias respondendo ao apelo. É o velho menu que nos é servido. Tem degustação, nos oferece muito, mas saímos insatisfeitos.

O que faltou? Boas histórias. Histórias sedutoras, emocionantes. Quando se faz muita política, o principal jaz calado, amordaçado, o cinema cansa. Que venha a premiação, cada vez menos assistida, com filmes de baixo público, a Academia talvez esteja preocupada com as coisas erradas.

 

Mudbound: Apesar de parecer uma boa história (e produção pobre) resume-se ao modo Netflix de ver o mundo, que contempla um anacronismo feroz nas produções de época (vide Anne with an A e similares). Hoje essas produções fazem sucesso com o mote de “dar ao público o que ele quer e pensa”, parece que controlam as postagens de Facebook e fazem séries e filmes com este conteúdo. Complicado, muito complicado (mas boa questão teórica). Eu perdi as esperanças quando surgiu a Ku klux khan – foi demais, né.

Lady Bird: Sério mesmo?

The Square: “Minha instalação deu um bafafá! Uau, vou fazer um filme sobre isso!”. Não, amigo. Bem, se ele mesmo disse que o filme estava chato e, por isso, colocou um macaco do nada, não precisamos dizer muito mais. Algumas das piores cenas do cinema de todos os tempos – mas, se você precisa pagar de descolado e inteligente e endeusar o filme porque ele é inteligente e “mete o dedo na ferida”, bem, bom proveito. A gente entende o que ele quer dizer – e ficar repetindo, tanto diálogos quanto o tempo das cenas, não precisa (ou ele pensa que o público é muito burro). Gostei da atuação do menino que vai tirar satisfações. E é mais uma vítima dessa crise de filmes que querem dizer tudo sobre tudo (até um dos meus favoritos deste ano, Three Billboards também sobre).

Darkest Hour: Bom, mas nada muito além. Figura do Churchill atrai pelo que disse e pelo que nunca se soube. Tem outro sobre ele, do ano passado. Elenco de TV (pra quem gosta das séries britânicas soa bastante familiar). Gary Oldmann fez um trabalho artesanal (mas, em se tratando de Academy, Day-Lewis há de levar para entoar o coro “fique!”). Fica a ligação com Dunkirk (nunca nos livraremos do fantasma da 2ª Guerra) e a dica para filme (com Mel Gibson) e série (australiana) sobre Galipoli. A melhor cena é do telefonema com o “Franklin” sobre de quem é a responsabilidade e as atitudes a serem tomadas, com a sutil metáfora sobre o avanço do terrorismo atual.

Dunkirk: Levará os técnicos, de som. Pretensão, sempre tem algum candidato assim. Tem falhas no roteiro que prejudicam a edição e personagens desnecessários (mas o mais indicado também tem). É o suficiente para descartá-lo.

Three Billboards…: Baita filme. Despertou amor e ódio. Roteiro arrasa e, apesar de não ter sido indicado à direção, por mim merecia. Os atores arranham a tela, não por menos que levou duas indicações de ator coadjuvante (vejam só, num filme com mulher protagonista e que a Frances leva ao máximo seu papel, os personagens masculinos não ficaram “por baixo”, receberam suas indicações – quando acontece de ter protagnista mulher em filme que é considerada “coadjuvante” porque o principal é homem). Frances vai além de Olive Kitteridge, onde já está excepcional. Apesar de ser parte fundamental do roteiro, a intenção de atirar para todo lado pesa um pouco – a cena do padre, por exemplo. Mas é um filmão, necessário em tempos de muito melodrama atado, sem enredo fortes e interessantes. O flashback com a filha é um golpe no espectador – e é o único flashback, pois o filme não fica tentando explicar nada. As reviravoltas são impressionantes, o argumento é sensacional. Mas é um filme tenso. Frances e Sam merecem. Melhor filme e roteiro também.

Victoria and Abdul: Bonzinho. Mais um filme que, a partir de um fato do passado, tenta fazer com que as pessoas reflitam os acontecimentos do presente. Percebe-se que a Europa precisa muito pensar sua relação com a cultura Oriental, discutir a questão dos refugiados e tudo o mais. Tem até filme pra TV que serve para alertar os pais de como seus filhos e filhas são recrutados pelo Islã. Concorre a figurino, mas perderá para Phantom Thread (com louvor), e maquiagem, que perderá para Darkest Hour (os dois são medianos, tanto faz).

I, Tonya: Um excelente filme. Tenso, também. Mas com atuações brilhantes, edição muito boa e história interessante (o que faltou muito este ano). A mistura de documental e ficção nem sempre dá certo, mas neste encontraram uma boa medida. Alisson leva, de certeza (até porque a concorrência está fraca).

Loveless: Filmão. Sabe cinema? Então, o filme mais cinema de todos os candidatos deste ano. Sei que há várias intenções e algumas realizações realmente boas, além dos interesses comerciais e tal. Mas russos (ainda) fazem um bom Cinema. Ele não explica, não insiste para o espectador entender, não se preocupa em inserir (pelo menos não de forma óbvia, apesar de já ter feito isso historicamente) as questões do presente, não se apequena. É uma narrativa sutil, seca e universal (talvez isso também tenha faltado à maioria dos outros concorrentes). É tão o oposto de The Square, por exemplo, que leva horas dizendo e repetindo suas idéias geniais – o cinema não precisa disso. É russo por excelência na narrativa e, claro, sabemos que é um cultura bem diversa da americana, por exemplo (também difere da do Oriente Médio, e por isso lamento muito ainda não ter tido acesso ao libanês). Quem dera o cinema fosse feito sem tantas pretensões, teríamos mais filmes assim.

Call me by your name: Revoltante. Como filme, como mais um “discursivo”, como algo em relação a levantar bandeiras. O filme é misógino, como já disseram, tem um argumento fraquíssimo, atuações pífias (o que é o robô americano?). Eu fiquei muito incomodada com o filme. Há duas sequências que mostram o quanto ele foi incapaz: a do diálogo deles diante do monumento da 2ª Guerra, supostamente subentendido mas que não diz nada absolutamente; e o discurso do pai para o filho sobre a atração por outros homens – aqui, talvez, uma das piores cenas de todo o cinema, porque cinema não se faz pra pregação. A teoria é que todo homem sente-se naturalmente atraído por homens. Simples assim. Mulheres, no filme, são para serem usadas (sexualmente mesmo no caso da moça que ele “namora” e a noiva de “aparência” do americano) e vivem deslocadas (a mãe dele não “entra” em nenhuma cena onde aparece, nem na atuação, nem no figurino, nada nada, tudo destoa). O grande argumento seria da impossibilidade de assumir-se homossexual diante da família e sociedade – porém a família dele (estranhamente) aceita e existe no filme um casal de gays assumidos (do qual ele debocha, por costume apenas). É tanta incoerência no filme que não dá. Sinceramente? É só um filme sobre um guri de dezessete anos com os hormônios á flor da pele em pleno Verão. Por isso que ele pega mulher, homem, fruta, o que vier (se fosse filme brasileiro teria uma cabra, certeza). Não há um desenvolvimento de relação afetiva entre os dois (até porque a atuação do americano dificulta muito). O guri só quer aliviar-se sexualmente. E quando a gente fala em verossimilhança (já caiu de moda, dizem uns) estamos nos referindo a pais que desconfiam ou sabem que um estranho está comendo teu filho, na tua casa, e apoiam isso. Não, sinceramente, a história não foi construída para que o espectador aceite este desenrolar. São argumentos que não se sustentam e uma história que tenta surpreender (a aceitação da família), mas que enfatiza a questão hormonal do adolescente, não os sentimentos e problemas da sociedade. Por mim não leva nada – e deveria ter muitas ressalvas do público homossexual.

On body and soul: Bom filme. Mas talvez não passe disso. Para ela é amor, pra ele é mais uma pegação – e o que era pra ser uma bela história de amor acabará no farelo do pão. Como isso se desenvolve é interessante com o pano de fundo do matadouro. Talvez seja muito expressivo visualmente sem encaixar bem. Os sonhos desaparecem, os abates também. Merecia indicação de Fotografia (jamais aceitarei terem indicado Ada). Com carreira de ter ganho Berlim, eu esperava mais.

La mujer fantástica: É bom. É o primeiro indicado ao Oscar nessa leva de produtos audiovisuais que querem atores trans para personagens trans – logo passará. Foi novela, curta e longa. “Não faz sentido” mostrar um personagem trans e colocar um homem/mulher para atuar. Cinema não é realidade, cinema é enganação. Mas, pela publicidade muito é feito. Está na moda buscar “representação”. A história é boa, apesar de alguns percalços como a tentativa de uma “pista falsa”, os humores da personagem. Cinema chileno é muito bom e América Latina é a mais corajosa em trabalhar com questões sociais difíceis no cinema, a gente sabe. Acredito que só a questão do ineditismo e representação é que levaram o filme a fazer carreira, ofuscando as suas faltas. E eis o grande ponto do Oscar deste ano, como comentei.

The disaster artist: Divertido. Foi um alento entre tanto filme pretensioso e pedante. É um etretenimento que não quer nada além de falar de cinema – rá! James Franco faz um trabalho acima da sua média (merecia indicação, apesar de ser a categoria mais concorrida este ano). Levaria, por mim, Roteiro adaptado com folga.

The shape of water: Eu queria dissecar este filme, como eles queriam fazer com a “criatura”. O filme é tão, mas tão ruim que só a indústria e a legião de fãs para justificar a indicação. Há muitos problemas. O enredo é o maior. E um diretor que não soube resolver os problemas em cena. O que faltou (que talvez salvasse o filme): o desenrolar afetivo entre a muda e a criatura. Porque (até mesmo pela insistência nas cenas de masturbação dela na banheira) o relacionamento deles se reduz a sexo. (remember Call me…) O personagem do amigo dela tem uma história paralela de homossexual e ilustrador decadente que em nenhum momento tangem o enredo – e isso é grave. Você não coloca um personagem coadjuvante com história própria (a menos que isso importe para a trama principal) – isso só acontece em novela. O personagem do chefão também tem sequências desnecessárias: em família (que aparece e desaparece sem mais), na compra do carro. Há uma vulgaridade gratuita em diálogos e cenas que diminui muito o filme. E, definitivamente, a sequência na qual a muda pede para que o seu interlocutor repita o que ela está dizendo, porque precisa que a gente entenda, foi a pior escolha do diretor (as “legendas” foram boas). Não se faz isso no cinema. Parece haver uma “homenagem” à TV e ao Cinema, nas citações e trilha musical. Porém, o que isso tem a ver com o enredo? A atriz que era do cinema e está num programa de TV, o “monstro” amazônico, a ilustração perdendo espaço para a fotografia, a disputa Rússia e EUA, todas as referências ao cinema de outras décadas. Mas qual a relação disso? E até agora ninguém soube me responder: por que colocar sal na água se ele era da Amazônia? (citar a Amazônia, neste sentido, eu poderia forçar a barra e entender como mais uma relação com o cinema hollywoodiano do passado que fazia referência esdrúxulas com a América Latina, mas não deu)

Get out!: Uma grata surpresa. Diante da politicagem no cinema, tornou-se uma resposta a tanta preocupação. Subversivo e irreverente, “o negro está na moda”. É negro que vocês querem? Então aí está. E competente, além de popular. Deveria levar de melhor filme e é boa disputa em roteiro original com Three Billboards – receio que minha última impressão, apesar de ter gostado tanto de Three Billboards, seja por ele. Hoje em dia, quem não quer ser negro? (se eu branca priveligiada dissesse isso…) O Daniel dá conta do papel, mas talvez uma atuação mais instrospectiva fosse necessária.

Phantom Thread: O filme te seduz. Minha escolha para Direção. E figurino, claro. A tensão (demorei para encontrar uma palavra que traduzisse o filme) é a carta na manga. Daniel está sublime. Mas o páreo está duro para Ator principal. Sei que falaram demais sobre a convivência com os artistas, a submissão, mas parece-me que tudo isso fica aquém das relações entre os personagens. Por isso, talvez leve atriz coadjuvante. Ah, trilha original também, claro. Ele é o azarão, provável que leve mais do que o esperado.

The Post: Ok, talvez o Spielberg consiga o efeito de A lista de Schindler novamente – ele continua tentando, mas não foi desta vez. Ok, entendemos o recado para a atualidade (mas precisava mais do que isso, né?). Meryl Streep não soube fazer o papel de mulherzinha no mundo machista, infelizmente. Ela cresce no papel só quando a personagem se supera. Não tem como levar.

Roman J. Israel, Esq.: Baita filme. Deveria ser indicado a Roteiro, até porque a concorrência está fraca. Inteligente, não buscou fatos do passado para falar do hoje, ele apenas atualiza um personagem, dá um tapa na cara das “revoluções” atuais – parece que são cada vez piores e cada vez menos tolerantes. Denzel está sensacional. Apesar da forte concorrência, da predileção da Academia pelo outro Daniel, ele merece levar (talvez não tenha outra chance). (ouvi dizer que ele recebeu dicas do Jake Gyllenhaal, o que explica muita coisa) Este e Get Out surgem como um ar novo no cinema – o que passa longe do Mudbound, por exemplo.

Molly’s Game: Por que foi indicado? Pela “relação” com os figurões de Hollywood (e, na verdade, porque protegeu os nomes). Só pode ter sido. Um roteiro que você ouve três vezes ao mesmo tempo a voz narrativa é insuportável. Valeu por rever Kevin Costner de volta em indicados ao Oscar e pelo melhor que tem no filme: Idris Elba. O papel dele é livre adaptação do advogado da personagem real – e talvez justamente por isso que se salve.

The greatest showman: Injustamente indicado apenas com a canção “This is me” (sensacional), merecia Maquiagem e Figurino, no mínimo (incluiria roteiro). Porque é um filme pro grande público, e musical só quando é pretensioso (vide últimas indicações) que merece. Ele tem discurso atualizado com tudo isso que nos preocupa hoje – esse mundo aí que tem tanta coisa ruim, há tanto tempo. Hugh Jackman não brilha porque divide a cena de igual para igual com todos e este é mais um ponto positivo. Celebra as diferenças e a arte para o grande público (coisa que a própria Academia tem renegado), temas que são criticados em outros filmes paparicados da lista e que tão elitizadamente arrotam suas teorias. Ele não. Ele diverte, entretém, emociona e coloca o dedo na ferida. Uma pena não ter sido reconhecido. As canções têm uma pegada de Michael Jackson, é um musical atual e nem dá tempo de bocejar. Dos poucos que indicaria para todos assistirem.

O que ainda não deu tempo (além dos candidatos a Documentário e Animação)

All the money in the world: (pretendo)

The Florida Project: (pretendo)

The big sick: (não sei se vai)

Logan: (até fiquei curiosa, porque gosto dos indicados a roteiro, mas…)

The insult: (quero muito)

Baby driver: (vale mesmo a pena?)

Rainha do tempo

Eu sou a rainha do tempo. Faço chover nos verões escaldantes para ter arco-íris na porta de casa. Renuncio às noites para pensar no futuro. Farei Verão onde meu olhar pousar, quando já for a Estação prévia do frio, com ondas a rebentar no molhe e a fazer tremer os faróis. Do cansaço mergulharei em águas cristalinas de maré baixa na companhia de peixes de rabo alaranjado. Meus olhos transformarão o tempo em cadeia das minhas paixões – e nem a realidade me subjugará.

O ponteiro cadencia no ritmo do balanço da rede – quando parada, o tempo suspende. E vemos as nuvens arrepiarem-se ao vento sul que veio rasgando a pressa e morreu lentamente entre as pedras do costão. Faço príncipes aos meus dias favoritos, às crianças que brincam ao sol, selvagens tão naturais como pequeninos ursos a caçar seus salmões, quando forem gente o verniz terá escondido grosseiramente os anseios de fazer guerra de algas putrefatas.

Meus castelos são de areia. Erigidos pelas mãos minúsculas de quem descobre que a água amolece e o ar endurece à beira da mais bela praia onde enterrei meu coração. Diante deles, possuo o mundo. Intransponível mundo. Inclemente mundo. Eis, apenas, o mundo. Meus castelos não sobrevivem às marés cheias. Mas reerguem-se todos os dias de inocência e sorrisos – e olhinhos concentrados. Neles encerro sonhos que não ousaria sussurrar a ninguém, vontades que assustariam qualquer razão, idéias que cultivo regadas à água com açúcar.

Sigo atalhos para encontrá-lo, ao mar, mais rápido. Temos encontro marcado. Nos vemos todos os dias, nem que seja em pensamentos. Desejo-o como à vida – que, lembrando, sempre precisa ser bem vivida. Encarcero-me neste corpo sob roupas e falas que são tão pouco de mim, para ele, dispo-me. Nossos encontros são à flor da pele. Sou o tal peixe fora d’água. O ar nos sufoca. Mas meu olhar vê mar entre paredes sem janelas.

Sou a rainha do tempo. Fomos amigos a vida toda. Agora reino soberana sobre seus destemperos e agonias. Limito-o a relógios sem pilha. Meus olhos farão Verão quando os suspiros tornarem-se frequentes. De olhos fechados, o tempo que voe livre e volte a mim com um sorriso.

É Carnaval!

Vista sua fantasia
Saia na avenida
Goze a alforria
Destes dias
É Carnaval!
Vem, escolhe a máscara
Seja hoje
Quem você quiser
Nos outros 360
A gente não vive
Apenas tenta
Chegar de novo
Com fôlego
A gritar
É Carnaval!
Junta em bloco
Sua a camiseta
Beba que não há amanhã
É Carnaval!
É o feriadão
Que a gente ama
Seja de rei ou de índio
É Carnaval!
Vista todas as fantasias
Arraste foliões
Em orgasmos de alegria
É, Carnaval…
Em teus braços

Todos podem ser deuses

Preces 

Rezo diante do mar. Faço preces com o corpo submerso na água e os olhos a distinguir a linha que separa o mar do céu – é a mesma que os une. Rezo a pedir proteção aos meus sempre mais do que a mim. Minha alma vaga abençoada sobre o tempo. Em idas e vindas os dias param sobre as ondas. Meu olhar fixo na ilha que cobiço. Rezo um Pai Nosso por mergulho. Que Deus sempre abençoe o mar e o nosso encontro. É no limiar da maré onde deposito o mundo, entro despida de coragem e ambições. Rezo angústias e aprecio milagres. Os peixes nadam na crista e eu sorrio: é doce viver no mar. Faço preces como quem ali jamais voltará; como quem não sabe se despedir. É o mar, eu e o céu: como não rezar? Deus ouve melhor uma prece acompanhada do quebrar das ondas. Mas nada peço. Ele sempre sabe, Ele ouve minh’alma. Os dias – que não existem além da areia da praia. Mundo, repara: e pára. Rezo que assim seja, cabelos molhados e dedos murchos. Nem o sol faz tanta falta – quiçá a chuva seja muita. No mar e diante de Deus é solidão absoluta. (sem ser só, esmoreço) Não há pedidos de ajuda, nem mãos estendidas. Rezo, que Deus abençoe as pessoas deste mundo. Rezo, o olhar à ilha como o futuro que me escapa, como o vazio e a distância que almejo, como os sonhos que alimento. Rezo, que Deus nos abençoe. 

Perdoei

Aprendi a inundar a alma

cada onda passa

sussurrando os nomes

dos inimigos

Atiraram – me pedras

Rogaram – me pragas

Derrubaram – me

Zombaram das minhas conquistas

Mergulhei

afoguei as desonras alheias

                em perdão. 

O mar se esbalda 

nos pecados dos desamados;

Desejam o mal

Respiram o mal

Alimentam – se de ver

Vidas se perderam

Lava, molha, afoga 

            perdoa. 
Perdoa aos que te doeram. 

Perdoa aos que sucumbiram. 

Perdoa como eu perdoei. 

Histórias de Natal–A Neve

A menina de cachos castanhos, sentada à janela aberta, com os cotovelos apoiados no beiral admirava o que via lá fora. Seu cachorro, sobre as duas patas traseiras, também olhava arregalado para a vasta branquidão. A mãe passava pela porta do quarto a trovejar “fecha esse vidro, menina, vai ficar doente nesse frio! Que mundo louco, em pleno dezembro! O mundo ficou louco! O mundo ficou louco!” e seguia atarantada pela casa, sem saber ao certo o que fazer – como muitas e muitas pessoas pelo globo afora.

Nevava. E a menina deslumbrada observava aquela maravilha em floquinhos a cair do céu e o tapete congelante e fofo que se espalhava pelo pequeno jardim e pela rua. Crianças sem roupas apropriadas corriam sem jeito, mães ficavam pelos cantos, espantadas e segurando sombrinhas. Nunca nevara por ali – como numa grande parte do mundo. As TVs tagarelavam aflitas em busca de explicações, especialistas, alguém que pudesse entender o que acontecia no mundo. Era dezembro, Verão no hemisfério Sul, previsão de calor; que nevasse no hemisfério Norte era esperado, mas estes assistiam atônitos à neve que se apoderava do mundo todo.

Naquele dia nevava em absolutamente todos os lugares do mundo. Alguns citavam que era o verdadeiro white Christmas all over the world, outros prediziam alguma tormenta de Deus ou a volta do Seu filho, muitos correram às igrejas e templos, poucos puseram-se em oração, milhões registravam o momento temendo que fosse efêmero – e tornando-o efêmero na sua experiência apenas sentida em fotografias e vídeos. E a menina suspirou e sorriu ao ver o céu despejar mais flocos de uma branquidão calmante e peculiar – sem dúvida peculiar naquela terra onde raramente fazia menos de vinte graus.

Cogitava-se algum erro brusco no cálculo dos metereologistas ou uma catástrofe não testemunhada pelos satélites ou, temia-se ainda mais, era, finalmente, a resposta da natureza ao modo de vida abusado e dispendioso de humanos que só exploravam e se reuniam em tentativas de absorver o impacto de uma população gigante num mundo finito. Ou, na verdade, não se sabia de nada. A menina ouvia a TV da sala ao lado na pequena casa, muito se falava e se mostrava, nada se sabia. Seu cachorro vidrado no branco que não motivava a sair e, vez ou outra, a olhava de soslaio como se de tudo soubesse. A menina sorria e seus olhos brilhavam.

Equipes de socorro e de prevenção de desastres foram chamadas às pressas no feriado do dia santo do nascimento do menino, largaram suas famílias, suas mesas fartas, seus presentes embrulhados. Políticos também, mas não compareceram – não parecia um problema que lhes dissesse respeito, afinal era algum capricho da natureza. Fazia-se cálculos e a preocupação aumentava, para onde escoaria toda aquela água depois de degelada?, as pessoas de países pobres do hemisfério Sul não estavam preparadas para um frio extremo, pois são de pasíses quentes, quantas vidas se perderiam?, e o mundo, todo branquinho, parecia – para alguns de pouca fé – ter chegado ao fim. A menina, porém, via o início naquela neve manchada de barro onde agoa alguns meninos pisoteavam tentando fazer um boneco.

A neve caía em paz cobrindo todo o mundo, misturava-se à areia das praias, espalhava-se sobre telhado e ruas, repousava sobre árvores que desconhecia. Florestas foram tomadas, cidades inteiras ficaram em silêncio sob seu manto, e ela sossegadamente não parava de cair naquela véspera e durante todo o dia seguinte. E a menina ali ficou, cotovelos doloridos, a observar a neve da sua janela. Ela sorria. Ainda persistia a dúvida e muita previsão foi feita. Nada, de fato, ainda se sabia.

A menina vivia numa casinha na periferia. Pai pedreiro e mãe costureira – que já se aventurava a arrumar um casaquinho para a filha, colocando um forro extra para agasalhá-la melhor naqueles dias tenebrosos. Com sorte, a menina terminaria a escola. Com muita sorte a menina conseguiria um emprego dali muitos anos. Sem sorte, sua vida seguiria… A menina suspirou pela milésima vez a contemplar a beleza que via. O cachorro, enrodilhado aos seus pés, gania baixinho como se tivesse pesadelos. A mãe dormia agarrada ao terço e com lágrimas secas nos olhos – o frio era caro, aquecer a casa, a menina, os bichos, muita roupa molhada e tudo isso lhe custava mais ainda a pregar os olhos.

O pai levantou-se da TV e passou na porta do quarto da menina, que estava na janela desde o primeiro floco de neve que caíra na véspera. A menina era sonhadora, um tanto avoada, o pai não quis atrapalhar a contemplação e foi deitar. Quem sabe ela estivesse sem sono mesmo. Preocupava-o o trabalho, tudo parado devido àquela neve suspeita e odiosa, sem dinheiro reserva, sem aquecimento na casa. Mas ele dormiria.

A menina suspirou mais uma vez e ao ouvir todos dormindo, a janela aberta ainda, sussurrou um “muito obrigada”. Apoiou o queixinho nas duas mãos e viu que, quanto mais o ponteiro se aproximava da meia-noite, mais a neve ia escasseando. Sorriu e deu mais uma olhada para o papel que trazia dentro da manga do casaco, a cartinha para o Papai Noel, que ela deixara naquele mesmo parapeito na noite anterior. Sorriu ao ler o recado “assim seja!” e a assinatura do velhinho das barbas tão brancas quanto a neve. Sorriu ao ver os montes brancos no jardim. Leu, mais uma vez, seus garranchos que ingenuamente explicavam ao Papai Noel que ela era pobre, como seus pais, e assim seria sempre, por isso pedia para ver a neve do Natal de que tanto ela via nas toalhas de decoração e nos filmes na TV.

A TV estava quieta. A menina esticou os bracinhos, estralou os dedos, viu a branquidão começar a sumir do entorno, feito mágica, e o céu deixar de despejar seus flocos. Era meia-noite. Ficou ali uns minutos ainda, sorrindo e agarrada à sua cartinha. Hoje ela dormiria feliz.

Histórias de Natal – A ceia

A mesa estava finamente decorada. Era o primeiro ano, em décadas, que não seria dona Lourdes a fazer a ceia do Natal. Ela preparava cada detalhe, durante uma semana, desde a louça que seria usada, os guardanapos decorados, até o peruzão recheado e assado durante horas para satisfazer todos os familiares, entre filhos, filhas, netos, genros, noras e agora até bisneto. A família era grande e, por isso, palpite não faltava. Mas dona Lourdes mantivera o poder em suas mãos: a ceia era sempre na casa dela, feita por ela.

Naquele ano ela esquecera o fogão ligado duas vezes, à noite. Também batera o carro pela primeira vez, porque não viu um pilar na garagem do prédio da filha mais velha. Aos burburinhos os parentes decretaram: ela estava velha. Um Alzheimer, talvez, em fase inicial. “Mãe, você já não pode fazer isso”, “Vó, não quero que a senhora fique sozinha” e todas aquelas preocupações. Desde a viuvez, há mais de vinte anos, ela tomara as rédeas da própria vida. E agora a consideravam gagá. Imprestável, inútil, incapaz.

Por isso, naquele dia 24 ela havia orientado a arrumação da mesa – tinham medo até que ela quebrasse a porcelana italiana, que algumas noras cobiçavam – e ficara sentada na sua poltrona. Fizera apenas duas exigências: a ceia teria que ser na sua casa e feita por alguém da família. Como ninguém tinha tempo, a nora, esposa do filho mais velho, se dispôs. Dona Lourdes, sentada ali, observava o vai e vem. Da cozinha vinha um cheiro indefinido. A nora estava com olheiras e gritava com os filhos.

– Oi, vó! Já está aí? – era sua neta mais nova, acabara de chegar de férias, pois estudava em outra cidade.

– Oi, minha querida! Estou só de olho. – cochichou a avó com um sorriso matreiro.

– Nem vou querer jantar, viu. Se não é a sua comida, nem quero! – disse a neta ao pé do ouvido da avó.

– Não se preocupe. Faremos jejum! – e dona Lourdes caiu numa gargalhada.

Todos sabiam do apreço da avó pela neta mais nova. Eram opostos, porém. Dona Lourdes fora criada como antigamente, o trabalho da mulher era cuidar da casa, do marido, dos filhos, aprendera a bordar, costurar, cozinhar, limpar e a artrose espalhada pelo corpo testemunhava quantas vezes ficara de joelhos a esfregar o chão – da loja de relógios do marido, inclusive – e quanta roupa lavara no tanque para que os filhos fossem impecáveis à escola. Laura tinha nem vinte anos, dez tatuagens, uma lista de ex-namorados que nem ela sabia de cor, o cabelo roxo, era feminista de ir às ruas, não sabia fritar um ovo e, somente nisso deixava sua avó horrorizada, usava roupas rasgadas. Nem preciso mencionar que Laura era o patinho feio, a ovelha negra, e o pai se alegrou quando ela decidiu estudar História na capital – ele não sabia conviver com a filha.

A família foi chegando, a nora se estressando, os presentes engordavam o chão da sala aos pés da árvore de Natal. A noite prometia. E dona Lourdes, impaciente, sentada na poltrona. Nunca ficara sem fazer nada na vida.

Anoiteceu. Risadas e presentes.

Foi quando o neto do meio, entre tantas netas, veio do banheiro.

– Vó, tá um cheiro ruim lá na cozinha. A vó não quer dar uma olhada?

Dona Lourdes, depois de abrir uns pacotes com toalhas e meias, levantou-se prontamente. Ela era necessária, então. Correu a passos firmes para a cozinha. O desastre era completo. O peru tivera perda total. Torrado por fora e cru por dentro. O risoto grudara na panela. A salada estava puro sal. A farofa queimara. A nora, que estivera cochilando sobre os braços na mesa da sala, ergueu a cabeça e chorou. “Tanto trabalho, meu Deus, mas, também, ninguém pra me ajudar…” e as lamúrias não foram poucas.

– Vou anunciar que não teremos jantar. – disse dona Lourdes seriamente.

– Mas, mãe, como não teremos jantar? As crianças estão mortas de fome. Eu também, claro. Como que alguém não consegue assar um peru?! – o filho demonstrava toda sua compreensão.

– Alguém? Por que, você consegue, Maurício? – a mãe repreendeu-o enquanto se dirigia à sala.

– Vó, espera aí. Te digo, eu resolvo, tá? – era Laura – Deixa comigo, nem fala nada com ninguém, eu já volto. – Amore, vem cá. – o namorado da vez, que ninguém ainda havia decorado o nome, veio e ambos saíram.

Dona Lourdes olhou e olhou. Não sabia como pegar aquilo direito. O silêncio de todos diante da mesa arruamda fora quebrado pela algazarra das crianças, contentes diante de tanta batata frita e hamburguer. Laura fizera as honras e dava mordidas satisfeitas no seu lanche.

– Bisa, tá delícia! – era o bisneto mais novo, dois aninhos.

Orgulhosa pelos créditos, porém lambuzada de ketchup e maionese e um hamburguer fugindo pelo canto do pão, dona Lourdes arrematou:

– Então é isso que vocês comem quando não estão na minha casa, é? – e sorriu para Laura.

Histórias de Natal – O Diabo

Só Diabo mesmo, diminutivo de “pobre diabo”, como ficou conhecido pelas redondezas. Vivia no barranco atrás de uma casa grande, em um barraquinho feito de lona e restos de madeira, do tamanho de uma casa de bonecas, mas sem a beleza, debaixo de um frondoso flamboyant. Quando chovia, vocês imaginem, o chão de terra era uma cachoeira. Os pezinhos saltitavam de pedra em pedra evitando o lodaçal. Eram pezinhos e pouco cresciam tão magrinho o menino.

Fazia de tudo um pouco pra lá e pra cá, moedas lhe davam ainda menos – por vezes um pão velho ou uma carne apodrecida – como se a Deus louvassem e suas almas salvassem. A pele escura demais para ser branco e clara demais para ser negro, todos lhe evitavam, ninguém o considerava igual. A casa grande era barulhenta e distante com seus filhos engomadinhos e aparelhos de liquidificador na cozinha. Ele nem luz tinha e se aquietava ao apagar a vela antes de dormir em paz.

Corria o boato de que a casa grande uma benção lhe fazia, pois desde que ele surgira cederam o barraquinho para morar e quando ainda muito pequeno leite lhe davam. O pastor assentia, a vizinhança achava bonito o gesto. E assim todos viviam.

Por aquelas terras, numa época muito chovia. Frio também fazia. O Diabo vivia com a roupa do corpo, o que sobrava das crianças que cresciam. Quase não falava e feliz muito sorria. Se virava com as moedas que ajuntava e com os peixes que pescava. Desde cedo aprendera a pescar: não era só por necessidade, também pescava porque aquilo lhe alegrava.

O Diabo a ninguém importava. O dono da venda bufava e de olho de rabo controlava os gestos do Diabo quando por ali ele passava a comprar algum vívere. As velhinhas o nariz trancavam quando por ele passavam. Os homens todos muito mal ficavam com sua presença – apesar de sempre lhe chamarem para pequenos serviços – a observar disfarçados um traço do perfil, o gesto, o jeito de caminhar e até o olhar límpido. O medo de reconhecer-se assombrava a todos. Assombraria-os para sempre.

Naquele dia o céu muita chuva prometia. As casas ressoavam os cânticos do nascimento de um outro menino, aquele que, dizem, à humanidade salvaria. Muita fartura se via nas mesas dos abastados donos de perus e galinhas e bois. Uma fartura menos farta nas casas menos grandes dos plantadores de arroz e milho e trigo. Até nas simples casas dos cultivadores de couve e morangos e bananas muito havia de comer e calor humano e presentes dados e recebidos. A tudo isso de longe o Diabo ouvia.

Sentadinho na sua banqueta à beira do rio o Diabo pescava. Parecia que até os peixes festejavam o nascimento e nada queriam de ser a sua simbólica ceia. Paciente e esperançoso, o Diabo atento vigiava a linha. A fome lhe chamava mas com essa ele bem demais se dava. As nuvens ribombaram, os raios trovejaram e lá vinha um carro lotado de alguns que de uma festa voltavam. O Diabo nada pescara e nem tempo teve de fugir dos pingos grossos. Ajuntava seus apetrechos já encharcado quando tudo se deu.

O carro rápido demais vinha. O motorista o bafo denunciava-lhe. A tragédia correu com o chão da ponte molhada direto à correnteza do rio. O Diabo imediato lançou a corda das brincadeiras de rio de dias de sol. Nadou com seu corpinho a puxar braços e pernas para as pedras às margens do leito. O Diabo, pobre diabo, nem saberia quantos salvou. E os braços fraquinhos, a fome turvando-lhe a vista, a água transbordando seu caminho e ninguém lembrou de a corda puxar, naquela noite de alegria e nascimento, onde se agarrava sem forças o Diabo a acenar. Cansou-lhe a alma de ser invisível e submergiu no turvo do rio enlameado com a chuva que o abençoava, enfim.

Pele

Queria fazer um corte, justo aqui próximo à garganta, e ir puxando a pele, descolando-a da carne… quero despir-me da minha pele. Ninguém sabe o que é estar nela, não é o que dizem? Pois, hoje, eu não quero estar na minha pele. Quero sentir-me só carne – carne viva, vivíssima, livre a sentir. Tem dias assim, que nem eu quero estar na minha própria pele. Quem quereria? Um dia, assim, eu sumo. Pego meu rumo sem volta, sem retorno a duzentos metros, não deixo saudades nem despedidas. Um dia eu fujo, sem pensar em quem fica, sem malas nem ilusões. É essa pele que, por vezes, não quero-a minha. Tudo o que ela já viveu, todas as lembranças que ela traz impressa – tem dias que não quero tê-las. Tem esses dias que quero ser somente carne, esta que vive embalada e submersa, protegida de si mesma por uma pele enrugada, manchada, que suporta e já suportou tanto. Um dia eu fujo pra nunca mais. Não responderei mais mensagens nem telefonemas – hoje esta pequenina liberdade significaria tudo pra mim – não darei satisfações nem nada. Um dia eu fujo para alcançar a liberdade plena da solidão. Não existe nada mais insuportável do que a convivência. É nessa pele de hoje que eu não quero estar. Desejo arrancá-la com as unhas, se preciso for, aos pedaços e ver-me livre, ao final de toda a história e experiência e obrigações que ela carrega sem que ninguém perceba. É só uma pele, afinal. Branca demais, comum demais. É a pele que limita meus nervos e carne e sangue contra este mundo – este, este mundo, este mundo do qual, um dia, fugirei. Um dia eu sumo, levo um sorriso escondido, o corpo despido, a carne pulsante, a pele em retalhos – e deixarei a vida abandonada aos restos do passado.

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