Para mañana

La antología de nuestros sueños

estuvo mirando estos días

fuéramos tan celosos

y nos traicionamos

Hubiera sido una estrella

mi deseo de ser feliz

contigo y brillaría

por todas las noches

Si tú ahogase mis miedos

en la lluvia fría del otoño

habríamos llegado a la primavera

Pero nos quedamos

infieles al despertar

de todo lo amor que teníamos

guardados para mañana

nos quedamos apáticos

al salir por las calles

llenas de dudas y tesoros

La vía tenia espinos dulces

donde me ha sangrado

el corazón y el pecho

he caminado sobre las manos

por dar-te esperanzas

de nuevos días y abrazos

piensa, no te quito las noches

piensa, no te quito la salida

piensa, no te quito la sonrisa

Habrá siempre la ventana abierta

y la cama caliente

y un té sobre la mesa

y yo a mirar la puerta

por las noches en el desierto

Negação

O ano confirmava: íamos em frente, no tempo apenas. Não queremos acreditar no que vemos, nessas ruas tomadas por idéias do passado. Negamos – o pior dos pecados de uma humanidade – que exista o nojo encalacrado pela cor da pele e pela religião do outro. E diziam que evoluímos, escreveram tratados, provaram-nos por a + b que descendíamos desse e chegamos a esta perfeição, a esta máquina que funciona tão bem. E criamos um mundo todo novo e que avança sem nos darmos conta, e este mundo cura doenças, desvenda DNA, constrói arranha-céus e trens-bala. Nossa máquina, quem sabe, não falha. Mas a mente, há um “mas”, ela jamais poderá ser explicada.

É 2017, eu garanto. Nos outros calendários, nem sei, é muito mais. E nem todo esse tempo nos livrou de querer a morte dos nossos iguais. Aliás, eis a questão: não queremos ser iguais. Não admitimos que somos iguais. Somos estúpidos, é certo. Nossa estupidez humana nos une. Vamos às ruas unidos pela ignorância. Apoiamos a estupidez de negar – a negação, a negação… – que fizemos (e fazemos) mal ao mundo onde vivemos. Talvez ainda mais difícil de acreditar, negar que este mundo está padecendo da nossa vida abusiva e do mal que nossas criações geraram. Negam, negam com a cara mais inútil da vida. Negam que o gelo se parte, que as Estações estão doidas, que o calor esquenta cada vez mais e o frio nos aterroriza. Negam, negam e negam que o lixo produzido entope as artérias do mundo. Negam que usinas e desastres ambientais estão ameaçando o ar que respiramos.

A negação é o último estágio da morte. Logo depois, morreremos. E vivemos esta negação hoje. Negamos, principalmente, que temos um passado árduo e cruel. Negamos que somos responsáveis pelos nossos rastros – negamos nossa humanidade, esta que nos une e que nos culpabiliza sem chance de defesa. Nossos atos são indefensáveis. Nossa culpa coletiva é homérica. Nossos pecados são inegáveis. Temos consciência disso, mas – sempre o “mas” – queremos negar como crianças mimadas que choram porque contrariadas.

Diziam que chegaríamos tão longe, imaginavam carros voadores e tudo. Eu sei. E acabaremos nas mãos da mais ínfima reação animal: matar-nos uns aos outros. Garanto que não será por comida, nem por território, nem pela reprodução da espécie. Será pela estupidez que nos caracteriza tão bem e que, de fato, é o que nos diferencia dos outros animais. Um pato não é estúpido. Nem uma jararaca. Não chegaremos lá, não nos demos esta chance. Preferimos ir às ruas reproduzir nossas estupidezes do passado, preferimos repetir os erros pois somos humanos. E errar é a reação mais humana possível.

Negamos. Negamos que tudo é tão precário. Negamos que esta vida é tão fugidia. Negamos que para ser humano é preciso sensibilidade. Negar as consequências de toda uma humanidade a viver desabridamente por tanto tempo, num espaço finito, é nosso segundo maior erro. O primeiro é negarmos que nossos atos desfazem nossa essência: somos humanos.

Os ensinamentos de quando acaba

Poderia ser simples como ouvir o canto dos pássaros, ou quem sabe morder uma maçã. Deixar sentimentos pelo caminho não deveria ser tão difícil – pelo menos no começo. Cada separação, cada amor desvanecido no convívio ou no vazio, deveria encerrar-se com um sorriso e um aperto de mãos. O choro vertendo, o coração descompassado, os gritos: a gente sempre sabe quando é o primeiro fim. No segundo dói um tantinho menos. No terceiro até a resignação aparece. Depois, dizem, vira coleção. Tem uns que a gente até esquece, de tão apático que nos sentimentos ao dar adeus. Eu diria, ainda, que chega uma hora nem adeus mais a gente dá. Acaba por acabar e está tudo bem.

Às vezes restam lembranças aqui e acolá. Para justificar que, quem sabe, foi verdadeiro. Ah, vai, foi mesmo. Porque lá nos primeiros a gente ainda pode ter a teoria “se é verdadeiro nunca acaba, se acabou é porque não era verdadeiro”. Ah, se a vida fosse como nós a imaginamos até os vinte anos! Às vezes, acaba. Mas o fim não nega o que houve. Só deixa de existir – por tantos tropeços e recomeços da vida que é impossível traçá-los em preto e branco. O fim nunca apaga tudo. O porvir nunca será imune ao passado (infelizmente, em muitos casos).

Foi verdadeiro, mas acabou. Aí a gente pensa que “nunca mais”, até o próximo, é claro. Porque a gente não quer passar por tudo aquilo novamente – e, por uma questão de proximidade do tempo, pensamos só na parte ruim, no fim, no adeus (que não houve), na separação dolorosa (ou não). Às vezes faz tanto tempo ou foi tão complicado que já sentimos distante o começo, a parte boa, os melhores momentos. Não sei vocês, mas o que é bom a gente pede bis, sim. Dá trabalho. Ah, dá! Ninguém diga que não. Conhecer o outro, desvendar-lhe os jeitos, olhares e manias, encantar-se com os pensamentos, coordenar rotinas e ajustar o tempo juntos. Dá uma porrada de trabalho. Mas compensa – aliás, dos poucos trabalhos que compensa na vida.

Quem sabe seja a última vez, nunca se sabe. Talvez desta vez os momentos bons predominem e a gente queira sempre ficar junto. Quem sabe a rotina e já saber ao outro de cor e de olhos fechados seja, ainda, um delicioso despertar dos sentidos. Talvez, desta vez, a gente não tenha uma lista de motivos para não querer nem dar adeus. Às vezes, acontece. E depois de ter sido tão longo o caminho a aprender a dizer adeus (sorry), este ensinamento da vida não nos seja mais útil nem se faça necessário. Porque é como na escola, a gente aprende a duras penas tanta coisa que depois de algumas provas nunca mais verá na vida. Em última instância, quem sabe, vale o aprendizado. Porém, difícil é aprender sem chorar, sem sofrer. Mas depois das lágrimas secarem, vocês sabem, os sorrisos sempre voltam. Às vezes, pra ficar.

(se) Insurgir

Levarão nossas mulheres

levarão nossos sonhos

e noites de núpcias

levarão nossas moedas


Tomarão nossas casas

nossos caminhos

e nossos olhos

tomarão nossas colheitas

nossa fé e nossas crenças


Farão nossas tradições

nossos cardápios

e nosso porvir


Levarão nosso sangue

nosso corpo

nossos corações

e nossas defesas


Tomarão nossos copos

nossas alianças

nossos pés calejados

e nosso baú de saudade

tomarão nossas vozes

e nossos ataques


Farão nossos enterros

nossos velórios

e nossa eternidade


Olharemos

de mãos cruzadas no peito

a carpir o choro

à espera, ainda,

do nosso salvador.

Nosso medo

Há dias que tudo o que se quer é uma boa noite de sono. Você deita querendo espantar o cansaço e adentrar o mundo dos sonhos. Mas, no meio da madrugada, o cachorro late insistentemente, late de forma agressiva. E você levanta para ver o que é. Na rua, um rapaz agride, física e psicologicamente, uma moça. Ela chora. Cachorros, vocês sabem, não toleram agressões. Nós também não deveríamos.

Caso você fosse um homem, eu diria que deveria intervir. Homens, diante do olhar dos seus iguais, tendem a recuar – quando sabem que estão errados. No caso, porém, era eu. Fiquei com receio de intervir e, por ser mulher, acabar junto à vítima. Recorri de imediato ao telefone. Na primeira ligação, “qual a sua emergência?”, só deu tempo de dizer que denunciava um homem batendo numa mulher na rua – a ligação ficou muda. Na segunda tentativa consegui fazer a denúncia e “Está registrado, se der enviaremos uma viatura”. Voltei para acompanhar o ocorrido, a moça havia se levantado (ela chegou a ficar no chão) e as agressões e ameaças verbais continuavam. Mais alguns minutos e eles seguiram. A polícia não apareceu.

Não foi a primeira vez que liguei para a polícia denunciando o mesmo tipo de agressão. Num caso era minha vizinha de porta de apartamento. A última vez foi uma menina sendo agredida pela rua, jogada contra o portão de casa. Em nenhum caso a polícia se fez presente. Em todas, me senti tão amedrontada quanto as vítimas. Toda mulher sabe o que é isso. Todos os homens também deveriam saber. Em todos os casos, como nesta madrugada, várias pessoas foram testemunhas. Ninguém fez nada. Ninguém faz nada. Nós não fazemos nada. Nenhum homem parou o carro e defendeu aquela moça. Eu já disse aqui e repito: enquanto os homens não entrarem nesta briga, seremos só feministas, feminazis, mulheres de mimimi. Tem mulheres, inclusive, que pensam assim.

Não somos só estatísticas. Somos mulheres agredidas diariamente. A moça desta madrugada tinha menos de vinte anos, com um vestido lindo, corpete salmão e saia rodada de tule preto. O cara que a agredia era algum amigo ou namorado. Ela chorava e ele a chutava. Acusava-a de não ter noção e decência. Ameaçava “vou ligar pra tua mãe” e chutava aquele corpo bonito e jovem encolhido no chão. Depois, ela chorava mais alto e acusava-o de alguma coisa ao que ele retrucava “foi sem querer” e ela “é sempre sem querer”. Meninas, moças, mulheres: todas somos vítimas de relacionamentos abusivos. Percebam o tamanho da estupidez e segurança deste idiota ao ameaçá-la de telefonar para a mãe, pois ele tem certeza que ela jamais denunciará sequer à mãe a agressão.

Eu nunca consigo saber o que é maior: minha revolta, meu medo, minha empatia, minha insegurança, minha covardia. Eu voltei para a cama. Tive sucessivos sonhos ruins. Os traumas e lembranças não perdoam. Toda mulher vive com eles, escondidos lá num canto, sem querer vê-los, mas jamais serão abandonadas por eles. Era só uma madrugada de sexta para sábado, eu queria dormir até mais tarde, eu queria repor as energias e pensamentos das últimas semanas exaustivas. Aquela moça só queria divertir-se, dançar, aproveitar a vida. Nenhuma de nós teve o que queria porque a realidade de ser mulher nos assombra quando menos esperamos. Eu quero vencer o medo, quero poder fazer mais do que pedir ajuda quando testemunho uma igual sendo agredida. Eu ainda não consigo.

A culpa não é do funk

“Meu filho gosta de funk!” parece ser a queixa dos pais brasileiros contemporâneos. Eu não me preocuparia com o funk. Sobre sexualidade acerbada não vejo novidade na canção popular. Preocupa-me, sim, a ausência de questões sociais e de grande importância atuais na canção popular de um modo geral. Parece, então, que só sofremos por amor – não sofremos mais com a desigualdade social, com o avanço da criminalidade, com a destruição da urbanização, com a educação precária. Nossos temas populares fixam-se na sexualidade, na dor de cotovelo (parece que esta sempre sentimos) e na ostentação. Ah, sim, lembrando que substituímos o “liga pra mim, não, não liga pra ele” pelo “troco likes”. Mera atualização.

Pergunto-me, os pais queriam que seus filhos gostassem de Schubert (exceto os virtuoses, claro)? Quais as oportunidades que eles mesmos dão aos seus filhos para que gostem dele? Ou, sei lá, os pais conhecem Schubert? Precisamos dar oportunidades de conhecimento cultural a eles, e certeza que isso não se resume a pagar o boleto da internet todos os meses. Esses pais dançaram macarena e o tchan? Esses pais não ouvem funk? (nem nas festinhas com os amigos?)

Um bom exemplo está nas telenovelas. Não há nada que acompanhe tão de perto nossa realidade do que elas na última década. Foi, aliás, como elas se reinventaram – e ficaram tão, mas tão, tediosamente chatas (mera opinião). As novelas tiveram que ir às favelas, empregadas domésticas foram alçadas ao protagonismo (e ao sucesso, claro, que a fórmula continua a mesma), a suburbana virou mocinha. É a telenovela que nos faz ver todos os dias uma moça policial que busca justiça e sofre nas mãos dos bandidos (que também têm família e coração, claro). De tanta realidade e politicamente correto, eu diria, elas perderam o seu encanto (aquele da fantasia, da metáfora, da crítica).

Assim, a canção perdeu seu encanto. A literalidade do funk parece-me desanimadora. Quem dera nossas crianças de hoje entendessem o que é uma metáfora, aí sim talvez tivéssemos funks metafóricos. Se os pais sequer ensinam poesia e figuras de linguagem aos filhos, se não os iniciam no mundo da fantasia, como querem reclamar do gosto pelo funk? O funk não é o problema. A canção popular também perdeu o seu encanto com duplas e solitários em busca do mero sucesso, dos carrões, mansões, jatinhos e investimentos – tudo alicerçado na venda da própria imagem (assunto para a próxima, prometo). Eles também não estão preocupados com profundidade alguma nos seus versos mais curtos que os tuítes. Ganha o mercado, ganha o artista. Perde a canção, perdemos nós.

Deveria chocar qualquer um de nós o fato de uma criança de onze anos nos prevenir, sobre um funk, “mas é pesadão”. O funk pesadão, em si, deveria nos chocar. Talvez tenhamos perdido o dom de nos chocar. Ou, talvez, choque uma criança alguém parar para ouvir Schubert. Diriam que é um comentário de quem parou no tempo. Mas eu duvido muito que a cultura pare no tempo. Ela, aliás, é o melhor retrato do seu tempo. Um dia tiraremos estes retratos envelhecidos da gaveta, para provocar a memória. Estaremos diante do quê?

Páginas em branco

Enquanto dormeseu escrevo furiosaas palavras que não se achegame penso no que me consomeem crimes desumanose estratégias viseu penso no trabalho da semanano quanto quero viajara subir escadarias e mirantesao teu ladocorro este tecladoatrás das idéias fortuitasque me abandonaramenquanto dormesquero que creiamno quanto tenho a dizermesmo quando tenhopáginas em branco a oferecer.

Quando ele vem

Quando ele vem, o sol esquenta a porta da frente de casa. O ar fica leve e meu sorriso – que é todo para ele – aflora. Este sorriso, que é dele, às vezes deságua em gargalhada, por vezes em risos frouxos e cócegas, e de vez em quando até entre olhos marejados. É no ombro dele que lágrimas silenciosas dizem tudo o que preciso. E me deixam pronta pra outra. Ele é sempre bem-vindo e tem seu lugar à mesa do almoço. É por ele que eu espero a semana inteira – quando não há os, também santos, feriados e folgas.

Antes de tudo eu quis o abraço dele. Eu, que nunca gostei de abraços – ainda não gosto, só do dele. É neste abraço que eu gosto de estar depois de dias e noites de tanto trabalho e agruras da vida. Essas que a gente tem que suportar, lidar, resolver e seguir em frente. Ele diz que eu sou boa nisso. Eu cá tenho minhas dúvidas. E quando eu pergunto como faremos com os percalços, ele me diz que passaremos por eles e os deixaremos para trás. Acho que nunca ouvi algo tão lindo. E, aliás, devo sublinhar as respostas perfeitas que ele dá (eu, que sou a lady das perguntas).

Quando ele vem, as gatas miam em algazarra. Meu cachorro agora tem seu melhor amigo. E eu nem sinto ciúme. A gente divide bons sentimentos numa boa. Ele toma meu tempo, quase todo meu tempo. E não saberia mais outra forma de ocupar as horas.

Quando ele vem, visto meu melhor humor ao acordar – mesmo que mal tenha dormido algumas poucas horas. Vasculho meu lado bom e distribuo minhas alegrias. Nem sempre, porém, sou só sorrisos. Ele já esteve ao meu lado nos piores momentos. Já ouviu meus impropérios (e acho que sou bem boa nisso). E ficou, ali, ao lado. Não só me abraçou como me levou ao alto do morro para termos aquelas conversas sinceras, profundas, entre almas que se entendem. E quando estou imersa em problemas, ele fecha janelas e cortinas ao anoitecer. Eu reparo.

Quando ele vem, até o dia na cidade fica bonito – com a chuva fina a nos levar para debaixo do cobertor ou o sol a nos garantir uma tarde no quintal. Nesses dias eu garanto o almoço me exibindo na churrasqueira. Ou apenas relembramos nossa história a confundirmos dias e meses. Ou desejamos nossas próximas datas juntos.

Quando ele vem de surpresa, é que eu tenho certeza.

Jaulas

Nos prenderam numa jaula e nem disseram porquê. Pediram que nos comportássemos. Pediram, claro, mas como quem manda. Porque sempre há quem manda. Preferimos não ver, não discutir, não nada. Só de vez em quando, por algum desencargo de consciência, nos rebelávamos. Como crianças a deixar pingar o picolé na blusa. Era só isso mesmo que nós conseguíamos fazer, não íamos muito além. Éramos fracos, somos fracos. E a jaula ali estava para nos enfraquecer. Como e porque, jamais saberemos. Por que nos queriam mais fracos do que já somos? Também não sabemos dizer. É que toda essa fraqueza limita nossos pensamentos, dentro da jaula não podemos pensar, nem questionar. Sentamos bonitinhos (porque somos bonitinhos no começo) a repetir a ladainha de todos os dias como eles nos (dizem que) ensinam. Eles ensinam. Deve haver algo nobre nisso. (Eu não saberia dizer.) Mas eu estava falando de como somos fracos. Repare. Somos, quase todos. Os fortes revidaram e não levaram a melhor. Porque a jaula era a mesma para todos – e somos cada um. Ninguém percebia que não tinha como dar certo? (Eu que pensava assim. Só eu?) Mas dava, vejam vocês, porque o poder e a força não estavam conosco. Eles, porém, sejamos justos, também haviam estado naquela jaula – agora só viviam em outra. Talvez eles tivessem entendido tão bem como funcionava aquilo tudo, por isso agora eram os que controlavam a jaula – de dentro da sua outra. Existem, então, ainda outras jaulas. Existem, não duvide. Conforme o nosso comportamento nesta, saberemos para qual iremos depois. Viver sem jaulas está fora de cogitação. Eu sei, meu amigo, é desolador – mas só para alguns, sabia? Sim, porque somos tão fracos e enfraquecidos que a maioria de nós jamais conseguiria viver sem o suporte e a força das jaulas. (Eu gosto de pensar que não sou dessas.) É tudo fantasia. Eu sei, eu sei, desmonta a idéia da coisa toda, desmonta esse texto, a divagação, a metáfora, tudo. Mas é fantasia crer que pode-se viver fora das jaulas. É uma condição, e é humana. Ou Humana. Sei lá, viu, porque os macacos devem ter suas jaulas também. Não? Quem sabe os elefantes ou as girafas. Talvez, então, uma condição do Ser. Para Ser é preciso estar na sua jaula. Não existe vida fora das jaulas (daria uma boa campanha publicitária, caso eles precisassem disso, obviamente). A força não precisa nos convencer de nada, ao contrário da publicidade. A publicidade, aliás, você sabem, faz parte de uma boa parte de jaulas. Onde fomos parar? Era pra ser só sobre a jaula, aquela primeira. A que nos mortifica os anos iniciais da vida. A que nos rodeia dizendo que é o melhor para nós, para o nosso futuro e, pá, acaba com nossos melhores dias. Ela encarcera sem que nós percebamos, sem que tenhamos desenvolvido capacidade de escolha ou sequer sentidos e noções para compreender o que ocorre conosco. É assim, entramos na primeira jaula sem nem saber como as coisas funcionam, assim nos tornaremos mais fracos (eu disse) e aceitaremos como as coisas são. Mas elas podem não ser. (Eu me agarro, às vezes, a isso – tão incerto.) Não sei direito o que aconteceu com as pessoas que fugiram da jaula (eu mesma já tentei e acabei voltando). Desconfio, porém. Ou apenas imagino. Se é condição, só a morte pode ser libertadora. Mas aí também não tem vida, nem escolha, nem opção. (Eu descarto, há quem não.) O que me incomoda de coração é que eles nem limpam a jaula, sequer lustram suas grades ou passam um perfume. Não as tornam minimamente atraentes. Poxa, acho um desrespeito. É assim que terminam nossas indignações. Rasas a reclamar de uma pintura nova para o mesmo velho de sempre. É assim. Somos fracos (eu disse).

Pela janela

Sabiá a catar

folhas secas

frio se faz

entre dias

de estiagem

e não chove

e não chove

e não chove

Sabiá a repousar

o olhar

sobre as árvores

a esperar

a Primavera

e choverá

e choverá

e choverá

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