Festival de Dança de Joinville, algumas considerações – e emoções, e críticas…

Cheguei faz pouco tempo da última noite competitiva do 31º Festival de Dança de Joinville. Neste ano pude ir a quase todas as noites, só não fui na noite de gala e nas duas noites de dança Urbana. Já frequentei muito o festival, os palcos abertos e a competição oficial, desde os tempos do Ivan Rodrigues. Acompanhei a construção do Centreventos, o tempo das arquibancadas sem cadeiras. Não fui todos os anos, é verdade. Lá se vão dez anos que nem moro exclusivamente em Joinville. Mas sempre que o tempo, a agenda e o dinheiro permitiram, estive presente.

Sim, eu gosto de dança. Não, espetáculos de dança não são (ou foram) corriqueiros na nossa região. Fiz ballet por um bom tempo e aprendi a amar. Não sou crítica, me faltam qualificativos para tal. No Festival, eu sou público.

Passei a semana inteira tecendo comentários sobre o Festival lá no Twitter e refletindo sobre algumas coisas que pude observar. Acompanhei um pouco a imprensa durante a semana e assisti agora a pouco ao Globo Repórter.

A primeira impressão: os ingressos. Fui comprar pela internet no segundo dia de vendas normais. Achei a taxa do site cara e resolvemos ir comprar na bilheteria do Centreventos. Sem filas, tranquilo. Porém, a noite dos campeões estava esgotada. Para os dias comuns de competição várias áreas estavam “bloqueadas”, disse a moça que não eram liberadas para a venda, ou seriam cortesia, ou liberadas depois. Isso já me desgostou. Segundo dia de vendas e tive que pegar lugares ruins porque quase não havia ingressos. Chegando em casa tentei pelo site e consegui os dois “últimos” lugares para a noite dos campeões, a mesma que a atendente havia dito que estava esgotada. Em alguns anos foi exigido o RG do comprador do ingresso, para evitar, sabiamente, cambistas e afins. Senti falta disso. Primeiro, os “bloqueios” para patrocinadores, autoridades ou seja lá o que for, depois a chance de qualquer um poder comprar sem identificação: duas formas de ter uma disponibilidade bem ruim para o público em geral.

Na noite de abertura o Ely, presidente do Instituto Festival de Dança fez seu discurso. Quando ele agradeceu aos patrocinadores e ao investimento público eu mentalmente acrescentei: e ao público. O senhor Ely esqueceu de agradecer, no seu discurso, a quem realmente faz o Festival. Se as cadeiras do Centreventos estiverem vazias, sabemos que nem grandes patrocinadores como Itaú e Boticário nem a Lei de Incentivo à Cultura ou sequer a Prefeitura vão apoiar e investir no Festival. Achei que foi uma falha muito grande do presidente do Instituto. Porém, era o segundo momento no qual eu, como público, sentia que talvez eu não esteja sendo levada muito em conta.

O Balé do Uruguai fez apresentações lindas, perfeitas. A platéia respondeu com aplausos mornos. Fui das poucas, inclusive, a aplaudir de pé. Parecia que aquelas pessoas estavam ali por obrigação.

Tenho essa implicância com platéia. Sabe cidade que tem o evento social da semana? Pois é. As pessoas vão porque é o evento social, não porque se interessam pelo espetáculo/show. Eu detesto quando um desinteressado desses senta ao meu lado. Já fui em shows nos quais tinha gente por perto que tinha “ido por ir”. Nada mais irritante. A pessoa não aplaude, faz comentários cretinos, não respeita.

Enfim, acho que a platéia não esteve à altura do espetáculo do Balé Nacional do Uruguai.

No sábado começou uma verdadeira provação em relação à platéia. Os problemas se repetiram a semana inteira, um pouco menos ontem e hoje. Me explico.

Primeiro: não dá pra ficar de entra e sai durante o espetáculo. Cadê a organização para impedir isso? Num espetáculo é falta de respeito com quem está lá assistindo ficar gente entrando e saindo o tempo todo. Tem horário e intervalo para isso.

Segundo: torcida. Sim, o festival é uma competição. Mas – MAS – é uma competição de espetáculos de dança, não é o joguinho de handball do colégio. No sábado teve apresentações de dança Folclórica de escolas de Joinville. Ao meu lado sentou um grupo de adolescentes que conversaram – isso mesmo, con-ver-sa-ram – a noite toda. Eram torcedores do grupo do Positivo (ou Posiville como chamam). Durante as apresentações de Contemporâneo eles não calaram a boca nenhum instante, mesmo quando eu e pessoas em volta reclamaram. Quando foi anunciado o grupo do Posiville eles começaram um berreiro absurdo com gritos de “Vai, Carol! Vai, fulano! Lindaaa!” enquanto o tablet gravava tudo e no meio ainda conversavam. Gente, educação nessas horas faz falta. Não dá. Faltou educação para saber como se comportar num espetáculo de dança E respeito pelos outros, pelas pessoas que estão ali para assistir a um espetáculo de dança. Detalhe: não ganha o grupo que tiver mais gritos da platéia. Além disso, logo depois das apresentações dos grupos para os quais eles torciam, levantaram e ficaram em pé, pra lá e pra cá durante as apresentações que seguiam. Aí perdi a paciência e pelo menos nessa hora se tocaram que estavam atrapalhando. No domingo o caso se repetiu, torcida imensa. Teve gente que só entrou na hora do grupo que interessava. Infelizmente a torcida do joguinho de handball se repetiu em outras apresentações (felizmente não ao meu lado) de grupos de outros lugares. Gritos de “linda! fulana!” ainda foram ouvidos.

Terceiro: erros da produção do festival. Inúmeros erros de iluminação, de som, etc.. Tanto que um grupo de sábado, danças folclóricas de Cuiaba (se não estou enganada), teve o direito de se apresentar novamente no domingo porque foi prejudicado pelos erros da produçao durante a apresentação. No sábado o número de erros foi enorme, mas eles persistiram durante a semana. Pequenos para o tamanho do festival? Talvez. Mas justamente pelo tamanho e pela idade não podemos esperar deslizes desse tipo. Outro detalhe: as câmeras que passam ao vivo no telão não contam nem com ajuste de temperatura de cor.

Quarto: a ausência do nível Avançado fez muita, muita falta. Tanto no Clássico, mas mais ainda no Jazz, Sapateado e Contemporâneo. O Avançado era aquele momento que surpreendia, que tirava o fôlego, que inebriava. Não li a respeito dos motivos de terem tirado o Avançado este ano, mas já li pessoas que concordaram comigo que fez falta.

Não vi o Centreventos cheio todos os dias. Em alguns dias o barulho da chuva atrapalhou e denunciou que não temos o lugar perfeito para apresentações deste tipo. O principal problema do Ivan Rodrigues, na época, era o tamanho. Ele já não suportava mais o público do Festival que crescia a cada ano. Eu passei sufocos – literalmente, afinal era criança e sempre fui baixinha – no Ivan. Já vi o Centreventos lotado para noites do Festival, como ano passado – aliás, a edição dos trinta anos foi memorável. Até ano passado a arquibancada não tinha cadeiras, o que era muito bom porque tinha aquilo de chegar cedo para garantir lugar e eu desconfio que cabia mais gente. No primeiro ano do Festival no Centreventos, fui com minha avó (assídua frequentadora e entusiasta do Festival, com quem aprendemos a ir) e ganhamos almofadinhas para sentar na laje fria da arquibancada. Depois disso fui até no show do Mister M lá. As cadeiras da arquibancada são muito desconfortáveis e várias já estão quebradas – na quarta-feira sentei em uma que machucou minha perna. Nos dias de chuva havia goteiras pela platéia – no dia de chuva mais forte uma parte da arquibancada do lado esquerdo estava isolada com fita.

No domingo fui acompanhada de mais pessoas, uma com dificuldades de locomoção. Chegamos com o carro ali pela entrada da Beira-rio (as vagas para deficientes devidamente identificados, como era o caso, ficam ali bem na entrada, afinal é próximo da rampa para acesso, como deve ser) e fomos informados de que não havia acesso por ali, que deveríamos dar a volta pela Orestes Guimarães. Deixamos a pessoa com dificuldades ali, acompanhada, e formos dar a volta. Na entrada mostramos a placa de identificação de deficiente e, para nossa surpresa, mandaram estacionar lá no meio, bem distante das vagas especiais. Fiquei indignada. Para que servem as vagas especiais do estacionamento? Que, aliás, estavam vazias! E, sim, havia acesso do estacionamento lá de trás até as vagas. Os elevadores do Centreventos são pequenos e estão em estado deplorável. Na abertura não fomos de carro, mas acompanhei uma pessoa com dificuldade de locomoção pelo elevador e já tinha achado bem ruim, pois os botões nem funcionavam direito e havia fila. A situação foi constrangedora quando, no domingo, pessoas que iam para o camarote acharam que o elevador era exclusividade deles. Pois eu acho que os elevadores deveriam ser exclusividade de pessoas com necessidades especiais, idosos, mães com crianças no colo, pessoas com dificuldades de locomoção. Elevador não é luxo. Acessibilidade, pelo jeito, é. Sim, há rampas de acesso, não só escadas, mas são longas rampas que para quem tem problemas não são mais fáceis que escadas. As arquibancadas, por exemplo, não são feitas para idosos e pessoas com qualquer dificuldade de locomoção. Felizmente eu tive a idéia de deixar na porta e ir estacionar o carro, porque ela não teria como percorrer a distância do carro até a platéia.

Aí delineava-se algo que me preocupou e me fez lembrar a fala da abertura. Que valor tem a platéia? Que respeito se dá a quem vai prestigiar o “maior” festival de dança do mundo? (já disse que joinvilense tem esse complexo com o adjetivo “maior” – é tudo “maior” por aqui, mas…) Eu como platéia me senti inúmeras vezes desrespeitada. Dificuldade para conseguir ingresso (os valores até que têm se mantido, mas já paguei só cinco reais para sentar na arquibancada bem feliz da vida!), dificuldade de acesso, entra e sai durante espetáculo, falta de educação do público, erros da produção… Lembro novamente: se não houver platéia, não haverá espetáculo.

A melhor “redondeza” de platéia são os bailarinos educados. Tive o prazer de ter alguns desses vizinhos. Prestam atenção, respeitam as apresentações e as pessoas em volta, comentam só nos intervalos, se emocionam junto com quem se apresenta – isso sim é lindo! não a torcida de handball – vibram, fazem suas apostas, sabem fazer silêncio, sofrem junto com os escorregões e com os bailarinos que transcendem seus próprios limites. Aliás, tive o prazer de ouvir conversas entre eles e de conversar com alguns. Muitos mostravam um descontentamento com vários aspectos do Festival. Parece que a concorrência entre os nomes de companhias de dança já “estabelecidas” no festival não tem agradado muito. O que me lembra a insistência do jornal local A Notícia em colocar em questão o aspecto “competitivo” do festival. Esses dias foi uma matéria que cogitava como seria o festival se não houvesse competição, se os grupos continuariam se inscrevendo, se haveria público. Hoje foi a entrevista com uma professora de dança (ou algo do tipo, nem lembro o nome dela) que critica o aspecto anti-pedagógico da competição, diz que não é “festival”, mas concurso de dança e que não são bailarinos, mas alunos. Tentei ponderar muitas coisas que ela disse, mas tive que discordar veementemente com o “não são bailarinos”. Mesmo sendo alunos, coisa que acredito que não só na dança, mas em todas as áreas, somos sempre alunos, eles são bailarinos sim. Se é anti-pedagógico, não sei. Contudo, desconfio que o público joinvilense já não é frequentador do festival. Até para ser público é preciso aprender. Quase não conheço joinvilense que vai ao festival. Aliás, joinvilense adora se orgulhar, inclusive de que aqui tem o “maior” festival do mundo, mas a maioria nunca pisou numa noite competitiva. Eu, quando criança, nem entendia que era competição, eu ia assistir porque gostava.

Preciso abrir um parênteses neste texto que já se alonga demais. Mas é necessário. Me dói muito ver, como já comentei aqui e em outros espaços, a Casa da Cultura fechada. Desde que Joinville virou o único lugar fora da Rússia a ter uma escola do Bolshoi que a Escola Municipal de Ballet, que ficava na Casa da Cultura, tem sido ignorada. Foi ali que fiz meus anos de ballet. Era ali que as artes efervesciam na cidade. Pagava vinte reais a mensalidade e tinha espaços excelentes, professores de altíssimo nível e muitos bailarinos empenhados. Não me conformo em ver tudo isso desprezado. E não me conformarei. Vem pessoas do país todo para concorrer no Bolshoi, número candidato/vaga é absurdo. Nem todos podem frequentar o Bolshoi, e aí?

Tenho a forte impressão de que o joinvilense não é o assíduo frequentador do festival. Desconfio que a maior parte da platéia é composta por bailarinos e pela “torcida” dos grupos que se apresentam. Pena. O Festival não deveria ser somente para os bailarinos. Deveria ser para a cidade, para a região, para o Estado. Mas, uma platéia, seja ela do que for – dança, teatro, música, cinema – precisa ser formada. Não, não estou falando que só os “entendidos” sabem apreciar. Digo que cultura é aquilo que aprendemos a valorizar, que temos o contato para conhecer, gostar, amar. Nem eu nem a maioria das minhas colegas de ballet da Casa da Cultura daquela época éramos bailarinas profissionais em potencial. Mas ali se formava um público. Minha avó nunca fez dança mas tinha orgulho do evento da cidade e sabia apreciar por apoiar incondicionalmente o festival desde a sua criação. Público se forma. Se forma sendo valorizado, dando acesso. Quando surgiram os palcos pela cidade sentíamos essa diferença. As pessoas tiveram mais contato, paravam para olhar. Lembro que era a única na escola a ir ao festival, até o ano que foram incluídas as danças de rua (hoje chamadas “danças urbanas”). Na época até meu irmão foi ao festival. Amigas que nunca tinham ido também foram – e hoje não vão mais. A dança de rua atraiu um público que tem aquele preconceito burro com ballet clássico que é “parado”, “chato”. Dificilmente havia noite só de ballet, então eu optava por ballet e danças folclóricas que também sempre gostei. Este ano achei danças folclóricas decepcionantes – e não foi só porque já cansei de ver as coreografias de danças do norte e nordeste das escolas daqui de Joinville, algumas até repetidas entre duos e conjunto de um ano para outro. Mas um dia ou outro e nas noites de encerramento assisti a jazz, contemporâneo, sapateado e hoje sou apreciadora de todos. Só danças urbanas que ainda não caiu nas minhas graças – na noite dos campeõs ano passado gostei bastante de algumas apresentações. Público assim se forma, se contagia, se conquista.

Entre a dor de corno e a lascívia das apresentações de jazz, à criatividade e técnica em extremos do sapateado, aos conceitos do contemporâneo, à emoção e beleza exótica das folclóricas e à exatidão, luxo, beleza, encanto e graciosidade do clássico, eu fui me fazendo apreciadora e amante. E assim pode ser com qualquer um.

Torço pelo Festival. Torço pelos bailarinos que têm nele um grande espaço. Acredito que as discussões estão colocadas, principalmente sobre o futuro que se quer para ele. Seja competitivo ou não, com grandes patrocinadores ou não, mas com público. Com a valorização de quem vai lá assistir a um espetáculo. Como componente de formação de público de cultura e arte, dos quais nosso Estado é tão carente.

Sobre as apresentações, devo dizer que me arrepiei com as dores de corno do jazz, aplaudi entusiasmada a lascívia, sorri para a beleza que alguns grupos apresentaram. Guardarei com muito carinho a apresentação do grupo de Itapema, que disputou danças folclóricas. Queria ver mais apresentações assim daqui do Estado e menos “maracatus”, “marias bonitas” e “caboclinhos”. Vi bailarinos de clássico tão pequeninos e frágeis que me deixaram de queixo caído – falho por não dar nomes – pela graça, alegria e beleza ao executarem coreografias com engenhosidade e destreza. Fiquei com um gostinho de quero mais sem o Avançado. Fui ao delírio junto com a platéia com algumas “Esmeraldas”, com o Passantes Anônimos do grupo de sapateado de hoje, com a criatividade.

Ano passado abusaram do uso de cenários. Este ano pouquíssimos usaram cenários, mas tivemos um crescimento no uso de projeções. Tudo enriquece. Tudo nos deslumbra. Uma noite só de sapateado teve altos e baixos. Os grupos tiveram maior destaque, assim como jazz. Os Grand Pas-de-Deux me fizeram chorar e senti pena dos jurados. Na primeira noite eu daria o primeiro lugar para todos. Os solos masculinos ainda são os mais admirados porque demonstram força e coordenação fora do comum.

Faço questão de poder continuar sendo público do Festival. Na medida do possível dou um jeito na agenda, no tempo e no bolso para não perder momentos de emoção, admiração, arrepios e sorrisos permeados com muitos aplausos. Sim, porque eu nem sei bater palmas, mas bato. E faço cara feia pra quem vai até lá e não se dá o trabalho de bater palmas, mesmo que sem coordenação como eu. No Globo Repórter, uma bailarina mostrou seu pé machucado pela sapatilha de ponta e, com lágrimas, disse que os aplausos compensam qualquer coisa, que é tudo para eles. Fiquei com lágrimas nos olhos enquanto assistia. Minhas implicâncias não são à toa. Eles merecem.

Ps: publiquei o texto de madrugada e depois lembrei de comentários que faltaram. Não posso deixar de fazer um: os banheiros. Sujos, sujos, sujos o tempo todo. É o tipo de evento que precisa de uma pessoa o tempo todo fazendo a limpeza. Esse problema é decorrência de outro, gravíssimo: tem só DOIS banheiros no Centreventos no andar das platéias. DOIS. As filas no intervalo são enormes, impraticáveis. Há um no térreo para os bailarinos. Fila também. Banheiros pequenos e insuficientes para toda a platéia.

Ps2: As câmeras. Acabei de voltar da noite dos campeões e lembrei que ficou faltando isso. A organização diz que não é permitido tirar fotos e filmar, mas muita gente faz (eu inclusive). Só um aviso: não dá pra tirar foto de espetáculo com flash. Não dá. Ou seja, não tire. Não. E não.

Diz

 

E se perguntarem por mim, coisa que eu sei que não farão, diz que tirei o ano para trabalhar. Diz que tenho amado amores inconfessáveis. Diz que tenho colocado cadeado nas intenções, diz que o Destino tem me negado paixões em outros braços. Diz que tenho viajado, tenho tirado temporadas cá e lá. Diz que tenho pensado… diz que tenho arquitetado caminhos e esperanças. Diz que tenho me ausentado do mundo aqui de fora porque o meu mundo está em erupção. Diz que tenho ignorado os gemidos agonizantes do coração. Diz, também, que fiz as pazes com o tempo e com os prazos. Diz que já entendi que 2013 é tempo de plantar – logo mais, quem viver, verá. Diz que é tempo de escolher as palavras certas. Diz que ando daquele jeito, amante das palavras. Diz que tenho investido meu tempo, meu dinheiro, minhas palavras. Diz que tenho buscado apoio no vazio e no silêncio. Não esqueça de dizer que abri mão de acordar dos mais belos sonhos. Diz que encontrei quase tudo o que me deixa completa. Diz que assumi riscos – trabalho, invisto nas palavras, planto as sementes escolhidas – e ando sorrindo com o canto da boca. Diz que meu olhar anda mais perdido que nunca. Diz, por fim, que logo será a época da colheita…

Quando o cinema apaixona

 

Estive no 2º Festival Internacional de Cinema de Curitiba e escrevi algumas críticas de filmes que tive o prazer de assistir lá. Publico aqui uma especial. No site do jornal Gazeta do Povo há outra sobre o curta baiano “Menino do 5”.

Apaixonar-se pelo cinema acontece com muitos de nós. Os motivos, ou os causadores disso, variam bastante. Mas a experiência de apaixonar-se pelos filmes que nos deslocam no próprio sentimento que temos pelo cinema é das mais inesquecíveis. Amar o cinema é fácil, entender porque sentimos isso, não.

Aqueles filmes que falam sobre o cinema, que realizam um cinema que ainda não vimos, são os mais desafiadores. O desafio é jogado para os espectadores que têm a missão de torcer o nariz ou abrir o coração. Assim é a recepção de filmes como Cuauhtémoc e Leviathan pelo público. E esses são filmes que vão mostrar algo que ainda não vimos ou ouvimos e temos alguns minutos para abraçá-los ou ignorá-los.

Cuauhtémoc incomoda, desloca. Começa agressivo com um rock pesado e letreiros que são imagens. Ele discute sobre como fazer aquilo que eles estão, ao mesmo tempo, fazendo. Se você tem o dinheiro de Hollywood, você escolhe onde colocar um fresnel, decide as coisas, dizem eles. Peça central do discurso é a condição do fazer cinema, é assim que eles discutem que hoje é preciso esconder a precariedade desta prática, pois mostrá-la “é coisa da década de 70”. Num mundo onde qualquer um faz um vídeo com uma DSLR ou uma cybershot, o que é, então, fazer cinema? As falas se justapoem, há ruídos, nas imagens vemos coisas que não sincronizam com os sons, é difícil entender tudo o que é falado. Mas é nítida a sensação de que eles estão discutindo o que pretendem. Ouvimos colocações de que o cinema é enganação, mas que ali não há mentirosos.

Assim, a segunda parte do curta parece ser a concretização da primeira. Eles fazem um outro filme. Mostram a precariedade com a flecha do mouse aparecendo de vez em quando nas imagens que criam espaços e preenchem o olhar que flana pela tela. As imagens lúdicas são acompanhadas pela trilha sonora clássica que estimula uma fluência com as cores da tela. E é assim que ele se completa. Eles fizeram um filme sem o dinheiro de uma produção hollywoodiana, sem enganar e explorando a suposta precariedade. A realização é o obejtivo da prática.

Numa produção de porte bastante diferente, Leviathan mostra um cinema que cria expectativas e as remolda. A sinopse oficial leva muitas pessoas – ou todas elas? – a um engano. Seria fácil esperar de Leviathan algo na linha de Terráqueos (Earthlings) ou A Carne é Fraca, documentários que expõem as fissuras na relação entre os animais e os seres humanos. De fato, o documentário acompanha a pesca industrial. Porém, temos aqui algumas das mais belas imagens já feitas pelo cinema. A beleza das estrelas-do-mar brilhando lá no fundo, as gaivotas acompanhando o barco, os peixes movendo-se pelo chão do barco, as conchas sendo abertas com faca pelos pescadores e sua sinfonia, tudo isso causa uma experiência visual e sonora que pode abarcar toda a sua relação com o filme, deixando pouco espaço para a reflexão sobre a violência entre os homens e as criaturas do mar.

Diria, sem exagero, que o brilhantismo da direção da cena do barco pesqueiro filmado frontalmente nas ondas do mar é a cena mais bela e inesquecível que já vi numa sala de cinema. Como todos os planos têm um tempo particular, ali, além da beleza, me prendi em tentar decifrar como ela havia sido feita. Parece que a câmera foi colocada num anzol na ponta de uma linha de pesca e lá fica a flutuar, indo e vindo, de frente para o barco. Esplêndida, inesquecível, belíssima.

A tecnologia e as condições financeiras permitiram que os realizadores de Leviathan conseguissem um material visual e sonoro que surpreende pelo inédito. Ao acompanhar o nível do chão com os peixes deslizando temos imagens que são atraentes, apesar da realidade crua que elas nos denunciam. O começo brutal, com planos pouco compreensíveis, sons estridentes e muita escuridão podem assustar o espectador desavisado e até espantá-lo. O tempo, inclusive, é um personagem central neste documentário. Os planos têm o seu tempo interno, o espectador pode observá-los à vontade, percebê-los, contemplá-los. As ações e movimentos são longamente mostrados pela câmera que às vezes se movimenta cadenciadamente, às vezes fica parada. As cenas vão se sucedendo sem diálogos nem voz off explicativos mas muito bem concatenadas na lógica da sequência determinada pela direção.

Com pouco mais de uma hora de documentário, há um longo plano fixo frontal de um pescador que assiste à TV sentado ao lado de uma mesa. Nesta, vemos um pacote de salgadinho aberto, um pote de comida industrializada. Não há frutos do mar servidos para os pescadores. As arraias destroçadas maquinalmente não são consumidas pelos seus algozes. Cuauhtémoc e Leviathan são assim, nos servem alimentos que não estavam no cardápio, nos oferecem aquilo que menos esperamos. Como o pescador, podemos acabar caindo no sono ou despertarmos de um sono profundo.

115 anos de cinema brasileiro: na História ou distante dela?

 

O dia de hoje é comemorado por um fato curioso: a primeira filmagem realizada em terras brasileiras, por um italiano. Já dizia lá o Bernardet que significa muito o Brasil comemorar o dia do Cinema Brasileiro (“nacional” implicaria muitas coisas) justamente quando foi feita a primeira filmagem, não a primeira exibição. Até hoje isso prevalece: valoriza-se mais a produção, menos a exibição. O fato de o primeiro realizador ter sido um estrangeiro também é curiosa: o Brasil importou muitos profissionais de cinema durante muito tempo – pouco houve ao contrário. O cinema veio de fora, pelas mãos de estrangeiros. Por essas e outras que “nacional” implica muitas coisas, inclusive por quem é feito e para quem é feito.

 

Semana passada tive o prazer de participar de uma oficina com o Fábio Andrade, editor da revista Cinética. Fábio é uma pessoa acessível (coisa difícil na área), as idéias e concepções dele sobre crítica cinematográfica casam muito com as minhas e foi uma delícia gratificante as discussões. Entre tantas coisas, uma frase dele me chamou a atenção justo no dia que lembrei que hoje seria dia do cinema brasileiro. Vou a ela: “Hoje, com a internet, a gente consegue assistir a praticamente tudo. Menos cinema brasileiro, esse é quase impossível de assistir.” Para um crítico, é imprescindível assistir a muitos filmes, a tudo que passar nas telas (e estiver disponível para baixar). E Fábio levantou uma questão que eu já trouxe algumas vezes aqui: a dificuldade em conseguir assistir ao que se produz no país.

 

Casos recentes de curtas e longas, inclusive catarinenses, realizados com edital principalmente, que tiveram inúmeras exibições pelo país e até no exterior e aqui nada – tipo caviar, a gente só ouve falar. Tal filme (curta/longa) ganhou prêmio não-sei-onde e foi exibido X números de vezes lá e acolá, aquela chuva de elogios (?!) nas redes sociais e afins e… nada de passar no Brasil e, no caso específico, Santa Catarina. Por quê? Eu me perguntei isso várias vezes. Medo? Descaso?

 

Antecipando um ponto, volta a questão: filme realizado com financiamento público que evita o próprio público? E os filmes que são realizados com financiamento público e cobram ingresso? Pois é. Reclamam da quantidade de cópias que os cinemas exibem de blockbusters e afins – a maioria dos cineastas brasileiros reclama disso – mas todos sabem que ainda existe a má vontade do brasileiro sobre o próprio cinema. Eu mesma já cheguei no cinema e preferi assistir a um filme estrangeiro, quando tinha duas opções e um era brasileiro. Se não todos, a maioria de nós já fez isso – alguns sempre fazem. Não pretendo abordar todos os problemas do cinema brasileiro, seria pretensão demais.

 

Quando pensava sobre o dia de hoje, lembrei do posicionamento do Paulo Emílio, destacado no seu trabalho escrito e professado por quem o conheceu pessoalmente. Todo filme brasileiro merece ser visto, dizia ele, e um filme brasileiro nos diz mais do que todos os outros de fora – afirmações com pequenas variações. Ouvi isso na graduação de cinema, assim como ouvi aquela máxima (que hoje me parece a mais covarde e rançosa) de que no Brasil, independente de qualquer coisa, o que sempre predominou foi o “fazer” filmes. Digo covarde e rançosa porque a realização sobrepõe-se a tudo, inclusive à exibição (reproduzindo a idéia da “origem” do cinema por essas terras), desprezando, desta forma, o seu próprio público que em contrapartida também o despreza. Concordo com Paulo Emílio, todo filme brasileiro merece ser visto, e todo filme daqui me diz muito mais do que qualquer outro de fora. Não, não acho um posicionamento nacionalista, ufanista ou qualquer bobagem da qual os fãs de Said poderão me acusar. É uma questão de formação, de consciência. Nem que seja uma questão econômica, afinal, a esmagadora maioria dos filmes brasileiros é paga por nós. Eu sei, dói tirar dinheiro do bolso para comprar o ingresso de um filme brasileiro se eu, de alguma forma, já paguei por ele. Bem, resta garimpar as exibições gratuitas. Mesmo que em alguns casos sejam raras e dificultadas, veja lá um curta de Santa Catarina que depois de rodar o país foi exibido em Fpolis num dia 30 de dezembro. Pois é, parece que não querem mesmo que o público brasileiro – e, vejam só, não estou falando de público de festivais! – assista aos filmes daqui. O motivo? Pois é, quem nos responderá?

 

Na minha família sempre ouvi o preconceito com filmes brasileiros: só tem putaria e palavrão. Nem falavam da questão do áudio, outro preconceito bastante difundido. Lembro que o primeiro filme brasileiro que assisti no cinema foi o do Menino Maluquinho, com a escola. Aliás, antes de entrar na universidade, só havia assistido a quatro filmes no cinema. Um deles daqui. A quinta vez que tentei ir assistir a um filme brasileiro (“O Xangô de Baker Street”) com minha mãe e minha avó (num ato de ineditismo total) fui barrada porque não portava a identidade. Vejam só. É uma peripécia conseguir assistir aos filmes brasileiros. E os cineastas reclamam de número de cópias, verbas para lançamento e cotas nos cinemas!

 

Me apaixonei pelo cinema brasileiro aos poucos. Foi uma picada aqui, outra ali e de uma hora para a outra me descobri apaixonada. Me encantava ver aquele povo, aquela realidade, aqueles lugares tão conhecidos nas telas. Sou até bem bairrista, vide a alegria em descobrir o “Burguesa” ou o “Ditadura Reservada”. Sou nacionalista, pelo jeito, porque gosto de garimpar paisagens brasileiras (na vida real) nos cinemas (um dia tentarei escrever sobre isso de “cinema” e “cinemas” – teoria em formação), garimpar sotaques, realidades. Sou bem bairrista em me apaixonar pela Curitiba em “Estômago”. Levo um soco no estômago por assistir “Menino do 5”, gravado em Salvador, e ver um espaço que não conheço mas com uma realidade que transcende os limites dos mapas. Me apaixonei perdidamente pela câmera cheia de destreza e consciente de uma linguagem própria do Glauber Rocha. Me apaixonei pelos críticos, historiadores e cineastas que tanto escrevem sobre o nosso cinema. Sou tão bairrista que olho com desconfiança para um Padilha que fez sucesso aqui e foi lá pra fora dirigir Robocop.

 

Poderia escrever mais parágrafos elencando minhas paixões. Vocês sabem, paixões são meu forte. Porém, essa paixão é ofuscada por algumas questões. Eu queria ver o cinema brasileiro independente. Queria vê-lo desatrelado dos intermináveis editais e financiamentos. Eu queria vê-lo maior de idade. Queria vê-lo superar-se – e aqui me refiro ao modo de produção e à linguagem. Cinemas novos não acontecem do nada. Cinemas crescem superando-se a si mesmos. É preciso crescer e não estou falando nos números, pois não sou a ANCINE para ficar divulgando números para tentar dizer algo que me parece sempre vazio. É preciso superar essa idéia de que “O Som ao Redor” ter tido cerca de 200 mil espectadores é um resultado “louvável”, tendo em conta o orçamento e a “competição” com blockbusters ou ainda por ser um filme “cult”. Para que ele se supere eu sonho com duas coisas: que os profissionais do setor tenham caráter e sejam realmente profissionais e que os que não são assim não ensinem os estudantes dos cursos de cinema a serem como eles – aquela velha história, pegar dinheiro para abrir produtora, meios de burlar orçamentos e prestações de contas, como viver só às custas de dinheiro público. É um círculo vicioso. Não criam nada novo com as obras e mantém um sistema falido (bem, “falido” é relativo, porque tem muita gente ganhando dinheiro com isso). Queria ver Meirelles, Furtado, Murat, Barreto´s family, Babenco e todo esse povo sem correr atrás de editais. Queria ver milhões de espectadores seja para “Pernas pro Ar” tanto quanto para “O Som ao Redor”.

 

Minha paixão é ofuscada por ainda não ter conseguido assistir a “O Som ao Redor”. Por ser, como disse o Fábio, tão difícil assistir aos filmes brasileiros. Mas marquei de assistir a “Elena” neste sábado, gratuitamente, em Joinville, numa exibição organizada por um grupo ligado a uma faculdade. Pra quem não sabe, muitos festivais só aceitam filmes que não foram ainda divulgados, por exemplo, na internet. E os realizadores acatam isso, preferem mandar seus filmes para inúmeros festivais a simplesmente colocá-los à disposição do público em geral. Público de festival, todo mundo sabe, é restrito e restritivo. Resta a pergunta: quem faz isso então produz para qual público? Para o crítico de revista, “crítico” de jornal e bonequinho, cinéfilos e alunos de cinema? Interessa formar platéia ou não?

 

Mas, caramba, falar de cinema com essa multidão toda nas ruas?! Pois é. Pensei nisso também. Cadê os cineastas? Cadê os cineastas nas ruas? Os cineastas brasileiros já testemunharam levantes, greves, fizeram “o que a TV não fazia”, mostraram o que as pessoas não viam. E cadê os cineastas quando temos o maior número de pessoas nas ruas em toda a nossa História? Cadê cineastas se posicionando, apoiando ou sendo contra? Acompanho algumas discussões de grandes cineastas e críticos e não vi uma palavra sobre o assunto. “Ah, mas essas manifestações estão sendo gravadas por milhares de celulares.” E isso tira a posição do cineasta? Então aquela imagem linda do povo sobre o teto do congresso com as sombras refletindo nas abóbadas não pode ser significada e ressignificada pelo cinema? É isso mesmo, colegas? Por que a comunidade cinematográfica se acovarda diante desta multidão? Tem medo que o dinheiro do próximo edital não caia na sua conta? Então já tivemos cineastas melhores, porque eles burlavam deliciosamente isso. Ah, não sabia? Será que estudamos cinema brasileiro mais do que aquela uma ou duas disciplinas perdidas em quatro anos de curso?

 

Normalmente, os filmes brasileiros mais aplaudidos são os que esmiuçam a nossa realidade. Ou que a ironizam, como o “Saneamento Básico”. Pois é, falar em cinema hoje com ruas cheias de gente insatisfeitas com (quase) tudo. Mas cadê o cinema pra protagonizar isso? Mostramos a realidade (quais realidades?) e nessa h♦ora damos um fade out? Brasil fazendo História e o cinema não sai da sua redoma?

 

Eu apoiaria menos festivais (muitos só comem dinheiro público também). Apoiaria salas de cinema públicas (“como na França” dizem tanto por aí). Apoiaria exibição de curtas antes dos longas nos cinemas. Será que os produtores e diretores apoiam? Ou está bom assim? E volto a dizer: quero cinema brasileiro independente. Quero editais de fomento, incentivo, não de sustento. O cinema brasileiro dá lucro, vamos superar esse mito e sair da zona de conforto.

 

 

125

 

Fernando Pessoa faria, hoje, 125 anos. Um geminiano. Desses que nos tiram o chão, nos alçam às alturas, nos deixam com os sentidos todos misturados. (mas hei de desconfiar sempre de que ele tem alguma coisa de pisciano)

 

Já devo ter escrito tudo isso aqui antes. Leio Pessoa aleatoriamente, volta e meia, para pensar (ou não), acender a alma, despertar os sentidos… para tudo e nada.

 

Eis que essa semana tem sido tão intensa, profusa, exigente com a escrita e com uma dose espetacular de crônica nos meus dias que não pude deixar de lembrar dele (vide aí dia dos namorados e de Santo Antônio e as tais cartas ridículas – mas em especial da melhor declaração de amor que alguém poderia fazer e a qual um dia desejo dizer para um amor) e de brevemente lembrar do padroeiro do blog.

 

Para quem conhece Pessoa, as palavras não são dispensáveis. Para quem não o conhece, só digo uma coisa: leia, agora. Se não te tocar a alma, não considere-se uma alma.

 

Para quem me conhece, sabe que o blog poderia ter alguns outros padroeiros, mas ter sido ele tem um motivo muito especial.

 

 

Experimentando idéias

 

“Pensando? Ela teria dito que não. Estava tentando apoderar-se de alguma coisa, ou desnudá-la, de forma que pudesse olhá-la e defini-la; agora, já fazia algum tempo que vinha experimentando idéias, como se fossem diversos vestidos tirados de cabides.” – Doris Lessing, O Verão Antes da Queda.

 

E foi assim que compreendi novamente o sentido de tudo, inclusive de continuar a escrever também para o blog. Fico assim tentando apoderar-me de alguma coisa, tentando desnudar os sentidos, as pessoas, as coisas, a vida. Tento olhar e definir. Experimento, enfim, idéias. Tiro esses vestidos dos cabides e vou experimentando, analisando, jogando uns sobre os outros. Escrever tornou-se isso, seja uma crítica de um filme, um livro de contos, um texto acadêmico, uma carta, um e-mail, um twitte: experimentar idéias.

 

Ao me ver caminhando por aí, parada, deitada, olhando o nada saiba que estou no momento provador: tiro vestidos dos cabides. Se eu estiver sempre assim, tanto melhor.

 

 

Delete

 

Ontem cogitei seriamente em apagar o blog. Não sei se ele serve para alguma coisa, mas acima disso, pois que não sou pessoa de utilidades, não sei se ele ainda faz sentido pra mim.

 

Não tenho escrito o que quero. Isso me irrita muito.

 

Aí lendo Rubem Alves (a leitura dele vai a conta-gotas pois é deliciosa e me faz pensar em mil coisas, quanto mais delicioso o livro mais quero que ele demore para acabar – livros são como os relacionamentos, sempre terão fim) de madrugada encontrei esta: “Mas quando se inventem estórias não se está procurando a verdade, e sim a beleza.”.

 

Escrevi aqui, por esses dias, que queria histórias. E maldita Língua que fez cair o tão mais coerente “estórias”. Preciso de histórias e estórias. Dane-se a verdade. Procuro mesmo a beleza. Não a tenho encontrado em lugar algum, em nada nem em ninguém. Se não é pela beleza, não escreverei mais.

 

Ninguém sentirá falta. Minha vida (daquelas conclusões boas que a gente encontra pelo caminho) não faz diferença para ninguém.

 

“Escrevo, mas não tenho nem teoria nem método.” me disse o Rubem. Não tenho. Não quero ter. Não terei. Danem-se as teorias e os métodos. Só preciso de histórias e estórias. Porque o que eu busco é a beleza. Não há beleza nas teorias e métodos. Não há beleza na maioria das palavras desperdiçadas por aí. Guardarei a raiva para aguçar a memória, pois esta se faz de boba com qualquer palavra bem colocada.

 

Não vou engolir a revolta de não escrever o que quero. Não engulo minhas revoltas. E talvez este seja o mais intrigante do mundo virtual, assim que eu apagar o blog ele nunca terá existido. Tenho me sentido tentada a apagar rastros digitais da minha vida e tentar manter apenas os reais. Já foi uma vida, agora seria apenas uma experiência.

 

Enfim, preciso de histórias e estórias. Busco apenas a beleza.

 

 

A pedidos: a volta dos relacionamentos

 

Eu poderia dizer: não gosto (ou acredito) em relacionamentos. Seria reduzir demais a discussão. Para começar, quero separar as duas coisas: sentimentos e relacionamentos. Sentimentos vivem melhor sem os relacionamentos, e estes acabam com os primeiros. Sim, relacionamentos fazem mal aos sentimentos.

 

Por que falar novamente sobre relacionamentos? Porque me pediram, porque andei pensando sobre e porque tenho observado algumas coisas. Recentemente vi alguns (e não foram poucos) relacionamentos terminarem. E nem falo desses namoros de três meses. Vi casamentos de dez anos, relações estáveis (no papel) de cinco anos, namoros de dois, quatro anos, acabarem do nada. Claro, do nada nunca é. O que pude observar é que a iniciativa partiu dos homens e “sem explicação” – o que levou as mulheres a dizerem “ele tem outra”. Sabe, acho que nem seria o caso. Mas, enfim, numa situação dessas sempre queremos uma explicação ou um culpado. Que seja a outra.

Já terminei alguns relacionamentos. Sou péssima com relacionamentos. Quer dizer, reconheço que há coisas lindas e deliciosas nos relacionamentos – não sou estúpida – mas acredito que a convivência e a balança que existe em todos eles não são pra mim. Manter um relacionamento é muito difícil e, mesmo assim, tem um monte de gente por aí que consegue. Será?

Vi um casamento de dez anos chegar ao fim através de e-mail. Minha mãe ficou chocada. Eu já terminei um relacionamento por e-mail (vejam bem, já havia terminado presencialmente umas três vezes e o cara não entendia, só me restou o meio virtual). Pelo que me lembre, sempre fui eu a terminar os relacionamentos. Namoro mesmo, com toda pompa e circunstância e com direito a “relacionamento sério” no Facebook, só um. Ah, sim, nunca gostei de namoro. Me explico. Desde cedo via aqueles casaizinhos na escola e pensava (provavelmente dizia), se namorar é andar de mãos dadas, sentar no banco da praça e tomar sorvete no shopping, eu dispenso. E sempre dispensei mesmo. Não é pra mim.

Aí virão dizer que sou recalcada, que é pela proximidade do dia dos namorados e blábláblá. Não. Vejam só, já passei muitos “dias dos namorados” acompanhada e (tenho testemunhas!) na maioria esmagadora deles nem dei bola pra data. Se eu disser que só tive dia dos namorados duas vezes não estarei exagerando. Aliás, um deles foi publicado aqui no blog. O restaurante do qual eu falava naquele post nem existe mais. Nem o namoro da época.

Os relacionamentos têm esta capacidade de corroer, deteriorar, consumir o sentimento. Já ouvi de muitas casadas “ah, não é mais a mesma coisa, a gente se respeita (isso não cabe em todos os casos, vejam bem) e tal e coisa”. Nunca é a mesma coisa. É que tem os bens, os filhos, as carreiras, os salários (que juntos, todos sabem, rendem mais e possibilitam financiamentos e afins), as famílias. Já vi situações nas quais as pessoas não se separaram por conta do apartamento que foi comprado em conjunto, porque não se via voltar para a casa da mãe, essas coisas. Isso me apavora. Já não há o sentimento que havia, ambos estão infelizes e o que segura a relação é… o dinheiro ou coisa que o valha?

 

Não é pra mim. Já vivi sentimentos e histórias muito boas. Muito. Relacionamentos nunca tive algum que sequer me desse saudade. E provavelmente já estou velha para cair em conversa de homem. O convite para o café ou o cinema daquele que só quer, na verdade, sexo, pouco me interessa. Declino na hora – e muitas vezes nem educadamente. E os joguinhos? Sério, gente? (cá está minha cara de tédio) Homens e pirralhos a fazerem joguinhos de te deixar no vácuo, fazer cena para despertar ciúme, um dia todo querido, carinhoso e cheio de promessas, no outro se esquivando… alguém ainda cai nisso? Sério? Será que eles percebem o quanto são repetitivos? Eu gosto de boas conversas, nunca neguei isso. E como falava em outro post, não é porque eu converso com um cara (como com o tatuador ontem) que eu estou colocando uma placa “disponível para sexo”. Deus me livre fazer sexo com todas as pessoas com quem consigo ter uma boa conversa. Aliás, tem aqueles que não conseguem ter dois minutos de conversa (nem estou aferindo a qualidade da conversa) e nem para sexo servem.

 

Sempre tive mais amigos homens do que mulheres – questões de praticidade e falta de frescura. Contudo, já reparei num dado interessante. Quando não estou em algum tipo de relacionamento com o sexo oposto, os amigos homens somem. Pois é. Depois da primeira paixão, lá se vai muito tempo, por um amigo, criei a regra “amigos, amigos, homens à parte”. As amigas comentavam sobre a tal friendzone, aqueles amigos que num dado momento você já não sabe se é algo a mais, seja da tua parte ou da dele. Tenho uma amiga em especial que é doutora na área. E eu acho que pessoas que caem nessa armadilha são aquelas que têm a questão do relacionamento muito forte, gostam da convivência, se apegam às pessoas, gostam da rotina. Porque amizade tem muito disso – e de amizade eu entendo. Passei por uma situação, ano passado, que era isso – ao que tudo indica. Não me apaixonei pelo meu amigo, mas confesso que já não sabia se o mesmo não tinha se passado com ele. Resultado: perdi um amigo. E perder amigo eu não aceito. Já disse, se tem uma coisa que eu sei fazer bem é ser amiga – sou das melhores. Esses dias estava ao mesmo tempo conversando coisas interessantíssimas com três amigas – uma que já é amiga há uns quinze anos (desde os tempos do Fundamental), a outra há uns sete anos (do tempo da graduação) e outra que conheci superficialmente na graduação mas que virou amizade há uns dois ou três anos. E tenho amigas de várias idades. Nunca fiz distinções de nada. Por prezar tanto a amizade que não tolero que outras coisas a prejudiquem. Infelizmente nem todo mundo é assim.

 

O que eu vejo dos relacionamentos é que as pessoas incluem neles muitas coisas que deveriam ficar de fora. Eu sempre fui muito radical, por exemplo, no quesito “família”. Não precisa (nem faço questão) conhecer a minha, nem quero (aliás, tenho pavor) de conhecer a do outro. Só dá merda. Sempre digo que o homem ideal é órfão. Quanto menos coisas “burocráticas” fizerem juntos, melhor. Por isso não acredito na reprodução em cativeiro (me explico, casais que trabalham juntos, que se conhecem no trabalho, no mesmo curso, essas coisas). Acredito que tempo e distância, bem dosados, fazem um bem danado aos relacionamentos. Sabe a vontade de estar junto? É boa, mas ficar o tempo todo junto vai fazer ter vontade de não estar junto. São coisas que a gente vai aprendendo com a vida. Dinheiro: nunca (eu disse nunca? repito: nunca) deve ser envolvido numa relação – nunca. No meu caso fórmulas prontas e repetição também estão fora – sei que tem quem adore rotina e sempre os mesmos programas, eu acredito que repetição mata qualquer coisa. Sinceridade sempre é essencial. Sabe o que eu sempre ouvi? Que não eram sinceros comigo porque “já sabiam como eu iria reagir”. Gente, vocês não têm noção de como isso me deixava com raiva. Sabe como eu vou reagir? Então me deixe reagir! Não esconder o que não deve é um conselho que todo casal deveria ter em mente. No meu caso não é bom esconder nada, porque invariavelmente eu descubro. E aí, ah, aí eu reajo. Tenho péssimas reações acerca de algumas coisas, é fato. Mas aí eu pergunto, relacionamento não é saber aguentar e conhecer o outro? Minhas péssimas reações vão junto, não tem como “evitar”. E, aliás, essas péssimas reações hoje são bem poucas. Troquei-as pela indiferença. Nem perco meu tempo tendo “reação”, só viro as costas. As testemunhas não são poucas.

 

Esses dias conversava com uma amiga (que está numa situação crítica, daquelas que a gente faz a tempestade antes dela acontecer) e ela me incentivava a seguir adiante na situação com um rapaz. No dia seguinte comentei uma coisa com ela e o conselho era justamente o oposto “não faça isso, não fale!”. Indaguei sobre a contradição e ela só me respondeu “daqui a pouco você vai estar como eu”. Pensei, pensei, e segui o conselho. Não fiz, não falei. Sim, fiquei um pouco (bem pouco) mal com isso. Eu queria ter feito, queria ter falado. Pensando bem, duvido que eu ficasse como ela. Já disse, estou velha pra isso. A gente aprende. Mas, também, não quis correr o risco. Todo relacionamento acaba. Disso eu sei. O problema, nesses casos, é o sentimento. Desses nunca consegui escapar – mas tenho conseguido rebolar bem ultimamente, acho que ando mais desconfiada. No relacionamento é possível colocar regras, limites. No sentimento não. (ia colocar um palavrão aqui, melhor não) E tenho cá pra mim que sou daquelas que ama amar – não necessariamente amar este ou aquele. E aí, ah, aí a coisa complica um tanto mais.

 

Além da decepção com os amigos que somem quando estou sozinha (vão à m, queridos) como agora, me dei conta de algo que me decepcionou ainda mais. Conversava esses dias sobre o que é apaixonar-se. Me disseram que nos apaixonamos pela pessoa, pelo jeito dela, pelo que ela diz, faz. Pois é. Já se apaixonaram por mim por causa disso. E minha decepção foi constatar que em todos – todos – os casos em pouco tempo eles tentavam domar tudo isso. Sim, tentavam me domar, meu tom de voz, minha risada, minhas loucuras, meu descontrole, e tantas outras coisas que nem vou listar aqui. O motivo? Não sei. Não é fácil conviver comigo, eu sei. Então, fica a sugestão, ao invés de querer domar, se mande. Faça como eu, ao ver que tentavam me domar, ou que o relacionamento desandaria, ponha um fim. Não há sentimento que me segure num relacionamento que já não existe mais. E sentimento é daquelas coisas que precisam ser regadas e alimentadas todo dia, se você terminar o relacionamento e seguir adiante ainda com algum sentimento, ele não vai sobreviver muito tempo – só se você se der ao trabalho de alimentá-lo, o que eu não recomendaria. Não se torne um mal-amado, recalcado, chato.

 

Iludir-se é bom, até recomendo, mas jamais sobre os outros. Não me contento com pouco. Talvez eu sempre queira demais. Eu ainda acredito que até num relacionamento isso é bom. Assim sinto que as coisas se movem, que têm um objetivo. Já vi muita vida desperdiçada porque parou no apartamento financiado juntos, empregos estáveis, segurança e “respeito”. Tem quem é feliz com isso, longe de mim querer crer que todos almejam o “movimento”. Nunca acreditei lá no poeta de que é impossível ser feliz sozinho. Vejo muita gente desesperada por “ter alguém”, um relacionamento. Acho que essas pessoas acreditam no poeta, ou querem desesperadamente acreditar. Ainda sou mais daquele clichê que se a pessoa não consegue ser feliz consigo mesma, jamais o será com um “outro”. Eu nunca consegui me divertir tanto com alguém do que me divirto sozinha. O problema é que as pessoas não querem “ser feliz” com o outro, elas querem prazer, elas querem segurança (ou o velho golpe mesmo), elas querem crescer profissional e financeiramente, elas querem alguém pra tirar o lixo, para ter companhia pro cinema, pra ir no Madero no dia dos namorados, ou alguém que lhes mande flores.

 

Eu? Eu não guardo datas. Eu nunca sei quando começou ou terminou um relacionamento (tem gente que me pergunta essas coisas). Eu não dou bola pro dia dos namorados. Nunca recebi um buquê de flores (nem da família) – como me disse uma vez uma aluna, ao receber um em sala, “flor a gente leva para os mortos”. Levo muito em conta a felicidade e já descobri que pra isso não importa nada ali da última frase do parágrafo anterior. Vi pessoas descobrirem que você não pode depositar nos outros a sua felicidade – grande lição, aliás.

 

Ah, só para encerrar (penso demais, escrevo demais, falo demais – pouco nunca foi meu forte), falar sobre as coisas ajuda pra caramba. Falar sobre relacionamentos, principalmente com quem você está, resolve muita coisa. Eu falo de tudo – menos de sentimentos. Sentimento tem que ser sentido, percebido, descoberto. E nessa história não há erros ou acertos.

 

 

Uma nuvem, cordas e uma pulga

 

Era uma nuvem. Parecia uma nuvem. Pairava sobre mim, até onde a vista alcançava. Cordas, havia cordas por todos os lados, me prendiam, me amarravam e me impediam qualquer movimento. Eu via uma pulga na minha mão – pulava, mordia, pulava – e nada podia fazer. Coçava e eu a observava. Imóvel. As cordas ninguém as veria. E eu não me mexia. Queria ser atriz, para viver tantas histórias. Viver amores, dores, idas e vindas. Minha alma aflita não se cansava de perturbar meus pensamentos. Eu procurava incessantemente um botão com o qual pudesse desligá-los – não o encontro. Não dormia, meus pensamentos não deixavam. Ser atriz seria um jeito de me desatar daquelas cordas invisíveis. Ou, talvez, eu devesse apenas deixar de ler e assistir a filmes. Já não cabem mais em mim tantas histórias. Preciso de histórias. Já não cabe mais em mim ter consciência da infinidade de belezas do mundo – todas as que eu não vi, as que nunca verei e as que já testemunhei. Minha cabeça não explode porque são idéias, pensamentos, mas se tudo fosse físico nem metade disso caberia nela e ela já teria ido pelos ares. Talvez, então, abrir mão dos livros e filmes. Mas, também, talvez abrir mão da visão. Ver tudo sempre o tempo todo me exauri. Eu vejo, não vejo mortos como fantasmas, mas até eles povoam meus olhares construídos de lembranças. Olho para quase tudo e, imagine se olhasse para tudo, já teria ficado cega. A falta da visão, talvez, consiga me deixar ordenar melhor a cabeça e mente aflitas. E os sons? E as falas? E o olfato? E o tato – ah! o tato! -? Preciso de histórias. Escrevo tanto e, para mim, não digo nada. Essas cordas e ali ao lado um copo de água – nem sede eu tenho – que eu cobiço mas desprezo. Não é o corpo que eu desejo alimentar e regar. Quer dizer, será que não? O corpo tem outras fomes. Ele, provavelmente, sente mais do que a tal alma e a desconfiável cabeça. A visão, a audição, o olfato, o tato – ah! – não são só meio para chegar ao intangível da alma. Pensei em me cercear de tudo – já que o mundo me cerceia de tantos e tantas coisas. Ir me podando aqui, ali. Podaria, também, os problemas. Insistiria em podar meus pensamentos por um pouco de sono. Sono? Eu disse sono? Pra que me serviria o sono? Ah, sim, pelos sonhos – aqueles que sonhamos dormindo – que são a plena realização do corpo e da alma. Neles ainda sou feliz. Neles não há nuvem nem cordas. Neles até quem eu quero me visita. Neles as paisagens se propagam. E meus olhos se abrem. Tudo continua ali: pulga, cordas, nuvem. Ah, há luz também. Se ao menos houvesse sol eu lembraria daquele amor que um dia me disse que onde não há sol não há vida – ou, mesmo não tendo, eu lembro dele. Aqui não há sol. Diria um Lógico “Se não há sol, então não há…”. (completem pois me dói demais colocar cada letra de um pensamento tão grande) E, talvez, seja esse sentimento de que há vida demais (para ser vivida) e eu, nem sendo atriz, conseguirei viver o mínimo que desejo. Nem penso no mínimo, nem o mediano – não gosto dessas quantidades e do que elas implicam – o máximo me parece bom, mas bom é pouco. Sempre gostei de transbordar. Não sou muito ecológica e tampo o ralo para ver a água da torneira enchendo a pia até começar aquele fio de água a transbordar e se transformar numa mini cachoeira – espetáculo visual e reflexivo. Gosto do verbo, da ação: transbordar. Assim as coisas não cabem em coisas, assim desafiamos espaços. Talvez se eu olhasse mais para a pulga, tomasse consciência da coceira, planejasse um ataque seguido de execução. (para quem não entendeu, esta seria a realidade) Mas, não, para falar a verdade nem tinha me dado conta da coceira. Olho para a pulga e, pelo tamanho, fico imaginando se é um fêmea, se tem filhos, se é adolescente se esbaldando na gula. Preciso de histórias. Talvez, enfim, se fosse uma injeção (vide meu pavor a elas) a realidade me vencesse. Mas, não. Minha cabeça acionaria o botão de emergência (sem eu não precisar de um segundo de raciocínio – ele é evoluído) e eu desmaiaria, desligaria todo o meu sistema nervoso, ficaria inconsciente. Às vezes ele faz isso, toma uma medida drástica contra a realidade. Preciso de histórias. Sim, de histórias na realidade – mas, vejam bem, estou descartando alguns roteiros desinteressantes, tenho apreço pelas fortes emoções, para a adrenalina, para a beleza; digo mais, dispenso também as histórias repetitivas, as sem sal nem açúcar e congêneres. A nuvem. As cordas (invisíveis). A pulga. Pulga? Nem lembrava dela. Talvez atriz. Talvez um plano (hein?) de fuga. Talvez um salvador todo de preto, empunhando uma adaga com cabo madrepérola, montado numa moto cor vinho. Talvez o sono. Talvez os livros. Talvez, enfim, uma luta feroz, árdua, dolorosa e longa de roer as cordas com os dentes e as unhas. Se ao menos houvesse sol. Só entro numa luta se eu sei que haverá uma boa recompensa. E não falo de bens – pouco me importam os bens, o material, não quero ter nada, nem hoje nem nunca. Enquanto cogito uma recompensa, há a nuvem e as cordas (invisíveis). Porque a pulga, até ela, debandou e foi lá ver seu filho, ou, quem sabe, procurar outro sangue.

 

As pimentas do Rubem

 

Não era para eu estar escrevendo neste exato momento, mas não resisto.

 

Nem vim contar que ontem vi mais uma estrela cadente, não foi em Guaíra, foi no Campeche mesmo, e bela como da outra vez – o pedido também foi o mesmo da outra vez.

 

Mas é que passei uma parte do fim de semana com o Rubem Alves (sim, já citei-o aqui sobre as Gerais) e desde que li um texto dele há uma idéia fixa martelando meus pensamentos. Já escrevi uma vez sobre o ato e os motivos de escrever para o blog, de vez em quando falo disso.

 

Estou num momento de descrer um pouco das palavras como comunicáveis para os sentimentos, por exemplo. Tanto que me peguei pensando que não escrevi sobre Teresina e escrevi sobre Belo Horizonte. O que eu sinto é real demais, está sempre tão na superfície, à flor da pele. Porém, quem me vê acha que tenho sangue de barata. É só para iniciados. E as palavras?

 

Decidi que não quero nunca mais ouvir um “te amo” (ou “eu te amo”, ou “amo-te”, qualquer variação). Decidi isso, assim, baseada na incomunicabilidade das palavras e na crença de que sentimentos e tantas outras coisas devem ser expressos e sentidos – jamais ditos. Demonstre. Aja. Isso me basta. Tenho me furtado às palavras dessas veredas… mas não perco uma boa conversa. Isso me lembra outro post dessas últimas semanas – talvez o mais incompreendido do blog até hoje. Tenho simplesmente afastado as palavras das coisas, das pessoas, dos sentimentos. Acredito que não das idéias.

 

Assisti a um dos melhores filmes que já vi no cinema, filme feito para a sala escura, para a telona. Era sobre sentimentos. Havia poucas palavras, uma dose exata e deliciosa de música, uma direção de babar, uma incomunicabilidade dolorosa, sons bem percebidos (como o tique-taque do relógio numa sala onde duas pessoas não falam – aqui, agora, é o que ouço, somente o relógio me agitando). E a cena que mais disse tudo neste filme foi a da protagonista lambendo o ombro do seu amante. Ela nunca conseguiria explicar isso para o marido.

 

Enfim, “O que escrevo não é o que tenho; é o que me falta.”, diz ali o Rubem. Pensei mil coisas para conseguir justificar com esta frase – inclusive a falta que eu tenho com trazer coisas do meu cotidiano para o blog e tantas outras questões. Rubem respondia à questão (que nunca lhe foi feita) se ele é mesmo como escreve e tascava “Escrevo o que não sou”. Sim, sim… e aqueles que dizem que, ao escrever, não conseguimos fugir de nós mesmos? Não sei. Sobre o poeta escrever para invocar a coisa ausente faz ainda mais sentido… Pensando cá com meus botões cheguei à idéia que escrevo pelo que me falta, sem jamais chegar a citá-lo. Eis a incomunicabilidade das palavras. Escrevo o que me falta, talvez não consiga ser tão fiel ao que não sou, mas decididamente não escrevo tudo – muito menos o que sinto. E eu? Sou mesmo como escrevo?

 

Esses devaneios acabaram sendo dirigidos para todos os tipos de escrita do momento – livro, blog, dissertação, e-mails, chats, diário (oh, yes! retomei-o!) – e geraram um momento de auto-reflexão monumental. Me deu até vontade de mandar um e-mail para o Rubem agradecendo às pimentas (vejam só, ele é mineiro e ao falar em pimentas não esqueço as maravilhosas lá do Mercado Central), como ele mesmo diz no começo do livro “Pois há idéias que se assemelham às pimentas: elas podem começar incêndios nos pensamentos.”. E lembrem-se de nunca tomar água para apagar o incêndio de uma pimenta. Se para começar um incêndio não é preciso fogo, foi feito o estrago.

 

 

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