O desassossego que o curta “Pouco mais de um mês” me causou

Estive no Festival de Cinema de Gramado por um golpe do Destino (o in anda num nível altíssimo) e um encontro me fez voltar ao Festival Internacional de Cinema de Curitiba, no qual estive em julho. Na oficina de crítica cinematográfica (a qual já mencionei aqui) nós assistiamos a vários curtas e escrevemos sobre eles. Sobre um em especial eu não consegui (ou não quis) escrever. E foi o diretor/protagonista e a protagonista dele que eu encontrei em Gramado. Senti que era, enfim, um sinal para que eu finalmente escrevesse sobre ele. Não que ele não tenha méritos para uma crítica, nem que eu já não tivesse escrito tudo mentalmente. Só lidava com alguns pontos delicados.

Quando um filme mexe mais intimamente conosco é que ele se torna mais difícil, e digo mais difícil no sentido de retirar certas partes pessoais da análise. Eu não sinto problema em escrever quando fico muito entusiasmada com as qualidades de um filme. Enfim, ontem ainda assisti a um filme que tinha tudo para ser uma bobagem ruim que eu iria adorar e terminei odiando-o – assim, sem ódio, mas com frustração. Era mais um sinal de que eu precisava escrever sobre “Pouco mais de um mês”.

O curta do diretor/protagonista André Novais Oliveira tem tanta relevância numa fórmula aparentemente banal que eu volta e meia me surpreendo. Vejam só, uns dias antes de Gramado eu presenciei (na verdade eu poderia ter participado da discussão, mas invariavelmente eu não concordo com as pessoas e já aderi ao “cálice” para evitar ser sempre tachada de “do contra” ou “chata”) uma discussão sobre o ato de fotografar. Afirmavam que o fotógrafo é aquele que se esconde. Discutiu-se sobre a timidez do fotógrafo e como o ato de colocar-se atrás da câmera é uma forma de sempre se esconder. Ora, colocar-se atrás das câmeras, pensei cá com meus botões, é talvez a forma mais explicíta de mostrar-se aos outros. Eu digo muito mais para vocês com aquilo que fotografo e filmo do que com as fotos e vídeos nos quais apareço. Me parece simples o raciocínio, porém não simplista. Eu digo muito mais com o olhar que eu exibo das coisas do que direcionando o meu olhar para uma lente.

E quando um diretor decide protagonizar o seu roteiro que é um relato da sua história pessoal? Quanto há de revelação e de escondição (desculpa, gente, faltou palavra e ando contagiada pelo vocabulário lindo de Saramandaia)? Quanto André Novais pretendia revelar com “Pouco mais de um mês” e quanto ele pretendia esconder?

Foram questões, confesso, que eu ainda não havia formulado completamente nestes termos. Num primeiro momento, ao final do curta, li os créditos e percebi que a estória era a história do próprio diretor e não gostei. Torci o nariz, digamos. Mas havia tanta coisa ali que eu não poderia reduzi-lo a isso. Quando encontrei-os pessoalmente em Gramado percebi a força do esconde/revela do por trás e pela frente da lente. Muitas vezes não temos a imagem do diretor de um filme que assistimos, mas reconhecemos a maioria dos atores (digo maioria porque eu sou meio tapada nisso e nem sempre reconheço – já passei por isso).

Nos primeiros minutos, um quarto na penumbra, câmera parada, leves movimentos de um edredom numa cama, vozes sussurram uma conversa banal. A expectativa pelo que virá a seguir prende a atenção, não a cena em si. Em alguns momentos parece que nada mais virá, que será um curta de casal, numa conversa banal na cama. As falas dos personagens são tateantes, titubeiam, se estranham. Eis que ele levanta e o mágico acontece. Ela mostra que pela fresta da cortina há uma espécie de câmera escura que projeta as imagens da rua no teto do quarto. Aquilo ali fascina, inebria, prende o espectador. E, por mim, não importa quantos minutos tivesse o curta, poderia ser só sobre aquelas imagens.

Senti uma pontinha de decepção quando eles saíram do quarto e voltaram à banalidade. E o curta, a relação dos dois, se resume a isso: banalidade de um relacionamento. Eles comentam como se conheceram, os indícios de que o casal está numa fase de rodeios para aferir quem é o outro são evidentes. Aí o título faz sentido. É aquele tempo de relacionamento, pouco mais de um mês, quando você já dorme (literalmente, não estou usando eufemismo para sexo) na casa do outro mas se sente um idiota ao derrubar água na cozinha que não é a sua. É aquele vai e vem, um terreno minado onde vamos pisando para ver aonde o outro esconde suas bombas. E o que isso tem de terrível e adorável, tem de banal. Todo o “conhecer o outro” tem isso. Nenhum relacionamento – curto, longo, médio, sério, divertido, arrasador, doloroso – escapa desta etapa.

No meio do diálogo deles surgem também os indícios de que eles estão em Belo Horizonte. O encontro deles foi no (belíssimo) Palácio das Artes, num festival de cinema. Gameleira pra lá, Afonso Pena pra cá. E, confesso, pela recente ida às Gerais e por uma meia dúzia de motivos que não cabe escrever aqui, talvez esta relação com Belo Horizonte é que mais tenha me travado para escrever sobre o curta. E, também, tenho esse bairrismo, todo mundo sabe. Já escrevi sobre isso quando citei a emoção de ver uma Joinville cinematográfica. Como também já comentei sobre não sentir mais nada ao ver imagens do Rio de Janeiro (e escrevi isso antes de conhecê-lo: acrescento que nada mudou). A referência àqueles lugares trouxe a banalidade a uma proximidade irresistível.

É extremamente desconfortável vê-los num impasse que, para qualquer um que já tenha tido um relacionamento, na verdade não existe. Ele não quer avançar os limites dela. Sabe o famoso “não quer atrapalhar”? Também não quer parecer algo que ela não goste. Ela, por outro lado, deixa claro que já teve outros relacionamentos e que distanciamento ou cautela é normal. É o momento de medir o outro, de medir o quanto quer mostrar de si mesmo. Talvez muitos filmes, entre dramas e romances, já tenham tratado disso. “Pouco mais de um mês” faz isso, num curto espaço de tempo e com uma situação dramática, só que de forma especial. Fica ainda mais especial quando você se dá conta de que é uma “história real”. Acredito que a escolha por protagonizar a própria história (a namorada do André atua como namorada) desvenda e responde à questão de que quem se “esconde” atrás da câmera na verdade se expõe muito mais. Digamos que André se superexpôs – sim, pensando no termo da fotografia.

Ao vê-los juntos em Gramado eu sorri. Então o relacionamento ia bem. Não foi só mais um caso mal resolvido que nos rende inspirações sem fim para a criação. Que bom. Além disso, me peguei várias vezes pensando qual havia sido o momento que despertara o argumento do roteiro. Será que foi a água espalhada pela cozinha? As imagens do teto do quarto dela? Ou a cena irretocável da espera do ônibus no ponto? (quem nunca levou o caso/rolo/amante/namorado até o ponto de ônibus não sabe o que está perdendo!)

Seja lá qual tenha sido, o banal estava presente. Por mim, teria sido mágico se ficasse apenas no quarto escuro. E eu teria adorado. Quando eles saem daquela penumbra mágica, lúdica, cinematográfica, para entrar num mundo tão cru, realista, idiossincrático, eu me senti deslocada. E foi isso o que o filme de ontem também fez. Não me contaram estórias cinematográficas, sonhadoras (como eu adoro), mesmo que não de conto de fadas, mas daquelas que agradam quem acredita tão piamente no Destino. Me levaram a ver o mundo mais próximo do que ele é. Me fizeram esquecer que havia ali uma tela a nos separar. Quando André abre a cortina (e quando o ator do outro filme faz as contas da diferença de idade entre ele e ela) ele apaga, coloca um “the end” ao mágico da vida (e do cinema), e joga a água fria e insípida da realidade na minha cara. A confusão, as frases soltas, o titubear, as incertezas, as cicatrizes, o desconforto, tudo vem à tona.

E o que dizer de mim, que amo tanto o cinema quando ele me leva para lugares que não existem quanto quando ele me joga as piores coisas da vida – qualquer coisa que seja ligada à realidade já basta – na cara? Mulher de malandro, no mínimo. Porque, afinal, a vida não é filme (já aprendi) e haja banalidade para ser feliz.

(Ps: não, isto não é uma crítica cinematográfica.)

(Ps: vocês sabem, o blog é desassossegado e é claro que um curta que causa tanto desassossego nesta alma que lhes escreve merecia umas palavras.)

(Ps: sim, escrevo críticas por aqui, sobre curtas, longas, coisas que assisto na TV, no comput, nos festivais. Ah, adoro assistir a curtas. Quem quiser me enviar algum ou indicar para assistir on line mesmo, só dizer. Provavelmente escreverei sobre.)

Sobre as aulas de Filosofia

 

Eu pensava, esses dias, em duas coisas, por motivos diversos e até opostos, que servem muito bem para ilustrar meu sentimento em relação ao que vou escrever.

Por motivos nada nobres eu refletia sobre as coisas que fazemos por fazer, aquelas coisas que servem somente para “constar”. Não encontro motivação em mim para fazer essas coisas, obrigações as quais você sabe que ninguém vai dar bola, que deveriam servir como controle, verificação, análise de algo, mas que na verdade já foram extirpadas das suas funções e existem somente para constar. Pensava numa lista dessas coisas (pense aí na sua, garanto que não será difícil) quando me deparei com um texto publicado no site da Carta Capital. Li e reli a manchete e pensei que não poderia ser o que dava a entender. Mas era.

 

Eis: http://www.cartacapital.com.br/revista/760/os-adolescentes-e-a-filosofia-9201.html

O texto faz alguns comentários sobre a disciplina Filosofia nas escolas. Ela atualmente já é obrigatória no ensino médio, para quem não sabe.

 

Pois bem. Um texto preocupado com a Filosofia em sala de aula? Mas de onde um editor teria aceitado isso? Mas que diacho queria o autor escrevendo sobre algo tão insólito, sobre algo que ninguém está nem aí?

 

E aí lembrei do meu pensamento dos últimos dias e uma máxima que trago sempre comigo: Na vida sempre há o botão “surpreenda-se”. O motivo deste pensamento é muito nobre, nem comparável ao anterior.

 

Aí, agora a pouco no banho, depois de um exílio forçado de escrever para o blog (com a pauta anotada ali e crescendo, mas confesso que este furou a fila), destruída de cansaço e de mal com o bom sono, juntei as duas idéias e resolvi escrever.

 

Fiz a graduação em Filosofia sempre dizendo que não seria professora. Nunca me vi como professora. Sempre achei que isso não era pra mim. Tanto que fiz somente o bacharelado. Fiz por vontade e necessidade pessoal. Tive péssimos professores de Filosofia na escola. Tive aulas vergonhosas de Filosofia. Na verdade nem sei se tive algum professor que fosse realmente formado em Filosofia. Mas tive Filosofia como disciplina da segunda série do ensino fundamental até o primeiro ano do ensino médio. Sim, pois é. Lembro até hoje dos livros da Pimpa. Aquilo tudo nunca fez muito sentido pra mim, confesso. Eram livros curtos que as professoras insistiam em ler aos poucos (eu lia tudo de uma vez só e depois achava chata a demora em terminá-los em sala).

 

Para muitos, as aulas de Filosofia são somente para “constar”, como em muitos cursos de graduação (no bacharelado de Comunicação Social, habilitação Cinema e Vídeo, era assim com a Sociologia também, por exemplo, ambas “para constar” e enquanto não fizeram uma reforma curricular para tirá-las, não sossegaram). É aquela aula “chata” que “não serve pra nada”. Afinal, o que um administrador precisa entender de Filosofia, não é mesmo?

 

A questão da didática sempre foi um problema. Não fiz licenciatura porque as disciplinas eram fracas, superficiais, “para constar”. Muitos dos professores do curso de Filosofia não sabiam nada de didática, por exemplo. Não havia estímulo nenhum em formar professores de Filosofia (que é quase o único campo de atuação profissional da área), vivia-se num mundo à parte, nunca era comentado em sala sobre o ofício de professor de Filosofia para o ensino médio nas disciplinas curriculares do curso.

 

A maioria dos que se formaram não estão em sala de aula. A maioria nunca nem entrou numa sala de aula – alguns, para ser sincera, para o bem dos alunos. Muitos, como eu, procuravam outras coisas no curso do que uma profissão.

 

Eis que aí entra a idéia do surpreender-se com a vida. Um dia, entrei em sala de aula como professora de Filosofia. Hoje, dar aula de Filosofia (assim com de Cinema – e cabe um comentário: tenho nos dois a paixão porque eles tratam de quase tudo da vida, e isso muito me agrada) está no top 10 das coisas que eu amo fazer na vida. É estimulante. É desafiador. É enriquecedor. Eu jamais poderia ser uma professora de matemática, por isso não vou dizer que dar aula de um modo geral é das melhores coisas da vida. Acho, sim, que um requisito para ser um bom professor é amar aquilo com o que ele trabalha. Os melhores professores que conheci são assim.

 

Quando li o texto da Carta Capital, pensei em mil coisas que vi em sala de aula como aluna e como professora. Me senti esfuziante quando li que o autor escreveu algo que eu sempre disse sobre ler os próprios autores, não livros didáticos burros. Vejam, hoje ainda usam os livros didáticos da Marilena Chauí – pois é, aquela, a esclerosada apocalíptica. As declarações dela são famosas, vergonhosas eu diria, e ela é das mais assíduas defensoras do governo atual, ou seja, nada de estranhar que os livros dela sejam comprados a rodo com dinheiro público para serem usados em sala de aula. Mera coincidência? Eu tive que brigar na escola para poder disctribuir os livros para as turmas dos primeiros anos (não havia para todas as séries, assim que decidi dar para aqueles que usariam nos três anos) e não deixá-los lá trancados na salinha atrás da biblioteca, inutilizados. Eu tirava dinheiro do bolso para tirar cópia dos textos que seriam lidos em sala. Infelizmente no livro didático não havia textos dos filósofos.

 

Qualquer um pode ler qualquer filósofo. Na graduação eu implicava quando alguns professores indicavam comentadores para leitura e não os próprios filósofos. Eu fiz meus alunos lerem os filósofos. Foi uma experiência incrível, por exemplo, dar trechos do Dicionário Filosófico, do Voltaire, para eles lerem. Lemos Platão, lemos até Kant! Aliás, lemos Benjamin também! E eles se deram muito bem! Lembro quando numa aula de Filosofia no livro tinha uma história em quadrinhos do Maurício de Souza sobre a Caverna do Platão, acho que eu estava no primeiro ano do ensino médio. Fiquei revoltada com aquilo. Uma história em quadrinho? Como se eu não fosse capaz de ler o texto? Pois fiz o contrário, li o trecho da Rapública com meus alunos do primeiro ano e como exercício eles desenharam a caverna depois de discutirmos sobre o que era aquilo tudo.

 

São coisas assim que me fizeram ter certeza de que a Filosofia não é algo só “para constar”. Por que eu fui fazer a graduação de Filosofia se tive tantas experiências ruins em sala de aula no fundamental e no médio? Justamente pelo que o autor aponta: eu li os filósofos. Eu li o Dicionário do Voltaire, sem entender um monte de referência, nos intervalos da aula no ensino médio. Eu li Kierkegaard. Eu li Sartre. Eu li Marx. Eu lia muita coisa. Aquele mundo me seduziu. E é um pouco isso que um professor faz em sala de aula, ele dá o caminho para que o aluno se deixe seduzir por algo que pode simplesmente mudar a vida dele.

 

A Filosofia não serve só para constar. Ela serve a tudo na vida. Quem lê os livros de Filosofia tem a chance de tornar-se uma pessoa melhor, muito melhor. Claro, é um erro lógico dizer que todos que lêem livros de Filosofia tornam-se pessoas melhores, não é o caso – e entre os professores que eu tive há inúmeros exemplos. Lembro que quando decidi fazer o vestibular, no site da UFSC dizia “o aluno terá o diploma de bacharel ou licenciado em Filosofia, ele não será ‘filósofo’ somente com o diploma pois para isso é necessária a publicação de livros na área e reconhecimento” (algo assim) e já usei essa explicação várias vezes quando alguém faz a piadinha infeliz de “filósofa”.

 

Por isso só posso concordar com o autor quando ele diz que a leitura de textos filosóficos ajudaria na compreensão e interpretação de texto e que aulas de Lógica contribuiriam em muito também. Sobre os alunos não serem fãs de Lógica, bem, a gente até gosta, mas às vezes não entende muito – mas há coisas mais difíceis. Essa semana, por exemplo, há um encontro internacional de Lógica, Epistemologia e áreas afins aqui em Florianópolis. Não vi, na programação, nada relacionado ao ensino de Filosofia. Nada. E é organizado por professores do departamento de Filosofia da UFSC. Há eventos direcionados, mas como em outras áreas, deveria haver, senão em todos, pelo menos na maioria, a preocupação com o ensino.

 

Sobre o texto eu não concordo com o segundo parágrafo, me parece que ele está um pouco desatualizado. Continuo sem saber de onde ele tirou idéia para escrever sobre isso, não que não seja extremamente importante e necessário, justamente pelo contrário. Mas o surpreender-se com a vida vem, muitas vezes, justamente dessas coisas que todos tomam como somente “para constar”.

 

Aliás, fazendo uma análise pessoal, tenho tendência a gostar das coisas que ninguém gosta, que gostar daquilo que dispensam, de gostar daqueles que são ignorados. É um mal que eu tenho, pelo jeito. Chego ao ponto de gostar daquilo que até eu mesma desconsidero. É um bom exercício, recomendo.

 

Não digo, com tudo isso, que devamos colocar os alunos do ensino médio a lerem Quine (só porque acho que isso nem eu mereci). Agora, não vamos subestimá-los. Também não vamos cair na vala comum de nietzschá-los, por favor. O curso de Filosofia da UFSC, para a Sepex deste ano, vai fazer trabalhos sobre ele para atrair jovens do ensino médio. Precisa? Achei que uma boa porcentagem dos que fazem vestibular para Filosofia já era motivada pelos textos do alemão cheio das frases de efeito. Filosofia, gente, serve também (e muito!) como auto-ajuda. Que o diga Schopenhauer, né?

 

Conheço poucos que abraçaram a carreira de professor de Filosofia. A maioria entocou seu diploma, muitos foram fazer o curso porque era mais fácil passar no vestibular e precisam de ensino superior para algum concurso ou coisa do gênero. Não há, também, estímulo para formar professores de Filosofia. Não acho que professor ganhe tão mal quanto alardeiam por aí. Sim, acho que médicos, políticos e engenheiros ganham demais. (é aquele velho abismo da desigualdade, tão nosso conhecido) E, por outro lado, médicos, políticos e engenheiros ajudam muito menos na formação das pessoas. Não é mesmo?

 

Infelizmente ainda são aceitos professores sem formação nenhuma na área para preencher as vagas. Esses e outros comentários sobre a situação real nas escolas ficam evidentes nos comentários do texto (sim, leiam com aquela ressalva e só se tiverem estômago forte, recomendação boa para a leitura de qualquer espaço de “comentários” na internet hoje).

 

Enfim, bom saber que há alguém se preocupando com isso e escrevendo sobre numa revista de maior circulação. Não gosto das coisas que ficam encarceradas nas salas de aula, escolas, universidades. Queria que pais lessem isso e pensassem nas aulas de Filosofia dos filhos. Queria que não os livros didáticos não fossem decididos pelo lobby politiqueiro de sempre.

 

Acredito cegamente que certas coisas mudam as pessoas e mudam a vida das pessoas. Sei que a Filosofia faz isso, até com alguns espíritos obtusos que andam por aí. E, afinal, o botão “surpreenda-se” está sempre aí esperando ser pressionado. Eu recomendo. (e nem gosto de ficar recomendando nada porque isso parece arrogância; peço licença por este excesso)

 

 

Agradecimentos especiais – semana “amo todo o mundo”

Eu ia me jogar no sofá por algumas merecidas horas de descanso entre dias estafantes de atividades intensas em vários setores da minha vida. Mas, entre as muitas pernadas que dei hoje, voltando para a casa com a sensação mais plena do mundo, uma euforia contagiante, sorrindo muito além dos lábios, escrevi mentalmente um post de agradecimento.

Eu poderia agradecer pessoalmente, enviar mensagens no Facebook, e-mails, telefonemas e sms. Mas, não. Quero colocar aqui cada um que hoje eu sinto a necessidade de agradecer.

Ano passado reencontrei no Facebook uma antiga amiga, a primeira amiga mesmo da vida, dos tempos do ensino fundamental no Elias Moreira. Já faz tempo moramos pertinho mas faz tempo que não nos vemos pessoalmente. Numa conversa pelo FB, cada uma contando da vida presente quando ela me diz que não esperava me ver trabalhando com cinema, que, naqueles tempos idos dos nossos doze, treze anos, ela achava que eu seria uma escritora. Talvez a Flávia não saiba, se não sabe vai ficar sabendo por aqui, mas a companhia dela das nossas leituras de Sidney Sheldon e afins foi muito importante pra mim. Nós líamos e trocavamos impressões, comentários. Foi a primeira pessoa com quem tive essa experiência. E é uma coisa sensacional! Até hoje sinto falta, às vezes, de ter com quem comentar os livros que leio, os filmes que assisto, as séries, as pinturas e esculturas… Ela foi a primeira e uma das únicas. Quando ela me disse aquilo ali ano passado, significou tanto, principalmente porque eu estava num momento “daqueles”. Agradeço à Flávia pela companhia lá no passado, por ter sido musa inspiradora de um poema meu (inédito!) de quando eu soube que ela estava grávida e pela fé que colocou em mim, antes mesmo que eu mesma acreditasse em mim.

Porque já estou naquela idade que não mudo tanto de alma, mas tenho algumas com as quais convivo. Troco uma pela outra, algumas já velhas conhecidas. E não tem nada mais difícil na vida do que acreditar em si mesmo. Eu demorei muito pra isso (e hoje ainda não digo que acredito completamente!). Sim, também tenho uma pontinha de necessidade que os outros acreditem em mim. Senão, me considero patologicamente louca.

Agradeço à Andréia por ter sido um encontro inesperado na minha vida, com aquele jeitinho calmo, organizado, certeiro. Canceriana e paulista, tinha tudo para nunca bater o santo comigo. Mas nas nossas longas conversas de vizinhas de quarto dizia coisas que me faziam pensar e acreditar. E isso vale tanto para o mundo acadêmico (colocar criadores no mundo acadêmico é complicado!) quanto para o mundo artístico. Lembro que numa das últimas provas do curso de Cinema cheguei a usar um trecho de uma das nossas conversas na resposta! Na última vez que nos vimos no ponto de ônibus da UDESC, ela me disse algo sobre o mestrado que ribomba todos os dias na minha cabeça – e chegou ao alerta máximo nos útlimos dias! A Andréia é o oposto de mim, pequena, inquisidora, bastante estudiosa, centrada. Sempre é um choque. E choques me fazem bem. Conviver com ela é sempre construir um pedaço da vida, com pensamentos que vão longe.

Agradeço alguns professores que me fizeram amar literatura, reflexões, arte. Não quero citar todos aqui. Tinha um que sempre me provocava, lia o que eu escrevia e desdenhava só para me deixar com raiva e me levar a fazer algo melhor. Funcionava! Eles sabiam que lá no fundão tinha uma pessoa com quem eles poderiam conversar sobre as coisas do mundo, enquanto a turma fazia os exercícios de inglês ou matemática. E, bem, por tudo isso perdoavam as colas que eu passava em algumas provas.

Me dei conta de que a lista é enome! Quero até agradecer ao moço simpático da agência dos Correios que me atendeu hoje e discutiu Cecília Meireles e José Saramago comigo.

Agradeço alguns amigos, uns até nem são mais meus amigos hoje. Não guardo rancor. Não tenho ódio de ninguém. Não guardo mágoa. Agradeço um em especial, que em longas e intermináveis conversas pessoalmente e por msn levantava minha bola, acreditava mais em mim do que eu mesma na maior parte do tempo, que nunca me poupava elogios, me chamava de doida, me chamava quando precisava de alguém que tivesse criatividade e competência, que dizia que eu deveria escrever um livro. Agradeço a três “exs”, os quais também guardo os nomes, por terem me permitido ser quem eu era, em conversas sem noção e deliciosas sobre filmes, músicas e livros, sobre a vida, a política, as pessoas. Um em especial me empurrou de um penhasco e eu sei que ele faz idéia do bem que me fez com essa atitude. Até hoje lembro daquele penhasco, paguei caro, mas vale cada dia. Aliás, foi nele que fui buscar, tanto tempo depois, inspiração para dar um fogo no trabalho dos últimos dias. E a inspiração, devo dizer, foi exatamente a mesma de tanto tempo atrás! Ah, agradeço também a dois “exs” em especial, que não acreditavam em mim, não me apoiavam, me viam com os olhos da vida deles e que, por isso mesmo, foram tão essenciais para que eu soubesse o que eu queria da vida. Já disse, não guardo mágoa, nem rancor, nem nada. Foram encruzilhadas no meu caminho. Quando me vi diante de ter que escolher para onde ir, tive que abrir mão deles, mas não abri mão de mim. E essa lição foi fundamental!

Santo de casa não faz milagre, por aqui muito menos. Mas a família, acreditando ou não, sempre aguenta (e vai aguentar!) minhas decisões e loucuras. Não tenho pena deles porque sei que eles sempre aguentam o rojão, é nossas especialidade: sempre sabemos que podemos contar uns com os outros.

Agradeço em especialíssimo à Erica. Amiga inesperada (pisciana, afinal) que surgiu aí no convívio longe da faculdade. Compartilhamos muita coisa em comum, principalmente essa ternura pelas durezas e dores da vida, mas somos muito diferentes. É minha lua em sagitário. Conversas literárias e cinematográficas! Compartilhamos uma cruz em especial: acreditar em si mesmas. É difícil. Ela não acredita tanto nela quanto eu (às vezes) acredito em mim. Mas deveria. Eu acredito muito nela. Se não fosse pelo apoio, incentivo, empurrão, insistência dela, não teria feito algumas coisas que fiz. Eu teria me apoiado na preguiça, no “não vai dar certo”, na procrastinação, na dúvida. Quero que ela lembre disso quando cogitar se apoiar nessas bengalas aí. A gente até sente aquele medo de vez em quando, mas tem que ir com medo! Nunca seremos as melhores (complexo pisciano) e isso não importa. Erica, muito muito muito obrigada! Por tudo! E deixo claro: eu também acredito em você.

Agradeço àquelas amiga que não discutem livros e filmes comigo, nem dão muita bola para tudo aquilo que eu penso em fazer e ser na vida, mas que me dão momentos de diversão, fofocas, passeios e que sempre estão por perto. Porque até eu de vez em quando só preciso me distrair. Não que os outros amigos não me proporcionem isso, cada um tem suas doses certas!

Agradeço à Cleuza pelas discussões, por ela ser quem é, por entender o que é termos sempre que nos reafirmarmos a todo instante, seja pela cor da nossa pele, seja pelo nosso trabalho, seja pelas escolhas que fazemos da vida. nem acho que só temos os cursos de Cinema e Filosofia em comum. Temos tanto em comum que vivemos discutindo quase tudo! Agradeço pelos elogios de sempre, sobre fotografias, textos, comentários. Eu tenho tanto problema com elogios que guardo todos! Acho que até hoje não agradeci a oportunidade de ter trabalhado ao lado dela no documentário “Semeadura” que foi fundamental pra mim (quem me conhece sabe que sempre falo dele) e que estreitou ainda mais nossa relação. Faço as coisas porque amo. Todo mundo sabe disso. A Cleuza foi uma daquelas pessoas que anos atrás acreditou em mim naqueles momentos que nem eu entendia que eu precisava fazer isso. Também quero dizer pra ela que acredito muito nela. Muito mesmo. Acredito que nossas discordâncias são muito mais importantes do que se concordassemos em tudo. Eu, pelo menos, não cresceria e não teria pensamentos e reflexões tão desenvolvidos.

Agradeço à Jules por se dizer minha fã. Vejam só, tenho fãs. Ou fã, né. Pelas poucas mas especiais discussões, pelos elogios. Agradeço à Fran, aquela menina de lindos cabelos cacheados que é minha leitora assídua, que foi mais uma virginiana a ficar curiosa com a menina branquela que só se vestia de preto e sentava no fundão da sala. Pra Fran eu sou a vida louca que ela não tem nem teria, mas que ela se diverte acompanhando. Agradeço pelos elogios às fotos e aos textos, mesmo eu sendo uma amiga tão pouco presente. Agradeço alguns que não são assim amigos do peito, mas que o mundo me permitiu contatos aqui e ali e com os quais discuto coisas que sempre estão comigo. Agradeço alguns dos leitores assíduos do blog, como não poderia deixar de ser, por volta e meia fazerem seus comentários em off e me darem retornos inesperados sobre muita coisa que eu escrevo aqui. Vocês são demais! Agradeço até mesmo aqueles que vivem me lendo (ficou dúbio isso) e nunca comentam, só de vez em quando deixam escapar, ou nem isso. Até vocês são especiais pra mim.

Hoje, depois de mais uma missão cumprida, eu só sentia isso: necessidade de agradecer.

Citei mais especificamente as pessoas que estão por perto. Algumas nunca saberão que eu tinha o que agradecer. Mas eu sei o lugar que cada uma delas tem nessa trajetória toda. Fiquei parecendo uma grande mal-agradecida com tantos agradecimentos para colocar em dia. Não é verdade… não me julguem mal. É que em relação às pessoas sou de atos e não de palavras. Sempre as agradeci do meu jeito, com nenhum “obrigada”. Mas hoje eu precisava deixar esse jeito sem-jeito, meio tímido, meio sem graça, meio incomunicável e dizer com todas as letras.

Enfim, mereço agora aquela ida ao sofá. Mereço umas horas de descanso. Se não mereço, me darei ao luxo! Estou numa daquelas semanas “amo todo o mundo” e isso me faz um bem danado. Não poderia deixar passar a oportunidade de agradecer a quem merece, vocês que nem têm idéia do quanto são culpados por algumas coisas.

Porque “De Amor” entrou para a (minha) história

Não sou nenhuma entendida em música, já comentei isso aqui. Que me perdoe Schopenhauer, música pra mim é sentimento, emoção e estado de espírito.

Passei por um período de coração atribulado faz algumas semanas. Momento crítico mesmo. Emoções à flor da pele, reviravoltas, desejos e realidade assim num turbilhão. Andava pela Ilha, trabalhava e levava minha vidinha pacata, solitária e feliz. E o coração a me arranjar problemas sem fim. Hoje os problemas são outros e felizmente dei um cálice ao coração. As coisas de vez em quando ficam sob controle, às custas de deleites errados e preocupações reais. Pois bem.

 

Naqueles dias de tempestades emotivas havia anotado na agenda o show da Lilian. Dia quatro de julho no teatro da Ubro. Minha agenda, a sem cabeça e sem rumo. Numa correria inacreditável, entre contratempos sem fim, lá estava eu, oito e meia da noite na porta do teatro. E, pá, tive que dar uma volta na quadra atrás de caixa eletrônico aberto. Finalmente consegui sentar lá no fundo da platéia, sozinha naquele pequeno e tão intimista teatro. Intimista sim, o que já me deixava um pouco incomodada. Não sei, às vezes ando nessas de me distanciar das pessoas e com o coração em revoluções eu dispenso coisas intimistas porque não, ninguém pode saber o que se passa aqui dentro.

 

Lilian, ex-colega de PET Letras, catarina morando no Rio de Janeiro, comadre twitteira, noveleira, de programas de música como Ídolos, The Voice (foi assim que nos reencontramos depois de tanto tempo pelo Twitter), admiradora de personagens e atores tal qual eu. Virginiana. Nos tempos de graduação e PET eu já a ouvia contar dos shows, de quando e onde teria. Nunca fui a nenhum. Naqueles tempos eu não ia a nada de eventos sociais, festas ou qualquer coisa do gênero. Até parece que hoje vou… Enfim, nunca tinha ouvido a Lilian cantar. Ouvi faz algum tempo, quando ela ainda estava em Florianópolis, vizinhas da Trindade, pelos links que ela divulgava no Twitter. Gostei. E aí teve uma gravação dela para aquela música da abertura da novela O Rei do Gado (sou péssima com títulos e afins, faço relações esdrúxulas, eu sei). Linda, linda, linda. Fiquei com a música na cabeça por dias seguidos.

 

Um dia Lilian comentou que estava fazendo um curso de composição com o Leoni (e suspiros à parte) e entrou naquele momento de criar coragem para se assumir compositora. Apoiei com muito entusiasmo! Se elogiam tanto a voz da Lilian, eu estendo os elogios à pessoa, à sensibilidade para as coisas a nossa volta. Temos visões em comum, coisas dessas que passam pela educação, pela família, por valores. Via nela uma compositora especial em potencial. E vieram as primeiras canções. “Égide” é um marco, muito bem estruturada, linda. E “Motivo” me lembra muito uma canção menos conhecida do Cazuza mas que é uma das minhas favoritas, do Burguesia, a “Quando eu estiver cantando”, é quando a gente fala, escreve, canta, daquilo que faz mas, principalmente, faz porque acredita.

 

Não sou do tipo fã atirada, declarada, expansiva. Eu sou na minha, todo mundo sabe. Aliás, quem me via no PET sabe que essa impressão é forte. Mas ali naquela platéia tão intimista, a Lilian bastante expansiva, falava com as pessoas, fazia imitação, cantava. Felizmente eu no meu cantinho escuro no fundo podia observar tudo (essa mania) e não estava preparada para uma coisa. Coisa que acontece com a gente que vive de emoções. Gente que está sempre disposta ao Destino.

 

Eu não tinha ainda ouvido “De Amor”, composição da Lilian. Quando começou senti aquele aperto na garganta. O coração, esse feliz desavisado, no meio do seu turbilhão de casos e acasos, disparou. Porque com música é assim. Com filme é assim. Com versos e prosas é assim. Com desenhos e pinturas é assim. Eu sinto, eu vejo, eu ouço, e estou o tempo todo em mim. Naquele momento Lilian cantava o que nem eu sabia direito que ia aqui por dentro. Quando as coisas entram tanto em mim, quem sai sou eu. Saí do show e nem fiquei para dar um abraço porque nada do que eu dissesse poderia fazê-la entender o que aquilo tinha significado pra mim. Saí caminhando sozinha pelas ruas do centro, pensativa, sentindo um arzinho frio na pele, com o olhar em algum lugar que até hoje não sei onde. “De Amor” ribombou em mim por dias a fio. Passado o drama hoje me sinto na obrigação de escrever isso aqui.

 

 

Lilian é uma artista porque é isso que artistas fazem conosco além de dominarem técnicas e conhecimento. Agora “De Amor” já é daquelas “marcadas” na minha vida. De longe musicalmente, mas pelos motivos semelhantes na minha história, ela me lembrou “Tua Canção”, do Barão. E digo pra Lilian: estar entre Barão e Cazuza nas minhas referências pessoais é muita responsabilidade!

 

 

Festival de Dança de Joinville, algumas considerações – e emoções, e críticas…

Cheguei faz pouco tempo da última noite competitiva do 31º Festival de Dança de Joinville. Neste ano pude ir a quase todas as noites, só não fui na noite de gala e nas duas noites de dança Urbana. Já frequentei muito o festival, os palcos abertos e a competição oficial, desde os tempos do Ivan Rodrigues. Acompanhei a construção do Centreventos, o tempo das arquibancadas sem cadeiras. Não fui todos os anos, é verdade. Lá se vão dez anos que nem moro exclusivamente em Joinville. Mas sempre que o tempo, a agenda e o dinheiro permitiram, estive presente.

Sim, eu gosto de dança. Não, espetáculos de dança não são (ou foram) corriqueiros na nossa região. Fiz ballet por um bom tempo e aprendi a amar. Não sou crítica, me faltam qualificativos para tal. No Festival, eu sou público.

Passei a semana inteira tecendo comentários sobre o Festival lá no Twitter e refletindo sobre algumas coisas que pude observar. Acompanhei um pouco a imprensa durante a semana e assisti agora a pouco ao Globo Repórter.

A primeira impressão: os ingressos. Fui comprar pela internet no segundo dia de vendas normais. Achei a taxa do site cara e resolvemos ir comprar na bilheteria do Centreventos. Sem filas, tranquilo. Porém, a noite dos campeões estava esgotada. Para os dias comuns de competição várias áreas estavam “bloqueadas”, disse a moça que não eram liberadas para a venda, ou seriam cortesia, ou liberadas depois. Isso já me desgostou. Segundo dia de vendas e tive que pegar lugares ruins porque quase não havia ingressos. Chegando em casa tentei pelo site e consegui os dois “últimos” lugares para a noite dos campeões, a mesma que a atendente havia dito que estava esgotada. Em alguns anos foi exigido o RG do comprador do ingresso, para evitar, sabiamente, cambistas e afins. Senti falta disso. Primeiro, os “bloqueios” para patrocinadores, autoridades ou seja lá o que for, depois a chance de qualquer um poder comprar sem identificação: duas formas de ter uma disponibilidade bem ruim para o público em geral.

Na noite de abertura o Ely, presidente do Instituto Festival de Dança fez seu discurso. Quando ele agradeceu aos patrocinadores e ao investimento público eu mentalmente acrescentei: e ao público. O senhor Ely esqueceu de agradecer, no seu discurso, a quem realmente faz o Festival. Se as cadeiras do Centreventos estiverem vazias, sabemos que nem grandes patrocinadores como Itaú e Boticário nem a Lei de Incentivo à Cultura ou sequer a Prefeitura vão apoiar e investir no Festival. Achei que foi uma falha muito grande do presidente do Instituto. Porém, era o segundo momento no qual eu, como público, sentia que talvez eu não esteja sendo levada muito em conta.

O Balé do Uruguai fez apresentações lindas, perfeitas. A platéia respondeu com aplausos mornos. Fui das poucas, inclusive, a aplaudir de pé. Parecia que aquelas pessoas estavam ali por obrigação.

Tenho essa implicância com platéia. Sabe cidade que tem o evento social da semana? Pois é. As pessoas vão porque é o evento social, não porque se interessam pelo espetáculo/show. Eu detesto quando um desinteressado desses senta ao meu lado. Já fui em shows nos quais tinha gente por perto que tinha “ido por ir”. Nada mais irritante. A pessoa não aplaude, faz comentários cretinos, não respeita.

Enfim, acho que a platéia não esteve à altura do espetáculo do Balé Nacional do Uruguai.

No sábado começou uma verdadeira provação em relação à platéia. Os problemas se repetiram a semana inteira, um pouco menos ontem e hoje. Me explico.

Primeiro: não dá pra ficar de entra e sai durante o espetáculo. Cadê a organização para impedir isso? Num espetáculo é falta de respeito com quem está lá assistindo ficar gente entrando e saindo o tempo todo. Tem horário e intervalo para isso.

Segundo: torcida. Sim, o festival é uma competição. Mas – MAS – é uma competição de espetáculos de dança, não é o joguinho de handball do colégio. No sábado teve apresentações de dança Folclórica de escolas de Joinville. Ao meu lado sentou um grupo de adolescentes que conversaram – isso mesmo, con-ver-sa-ram – a noite toda. Eram torcedores do grupo do Positivo (ou Posiville como chamam). Durante as apresentações de Contemporâneo eles não calaram a boca nenhum instante, mesmo quando eu e pessoas em volta reclamaram. Quando foi anunciado o grupo do Posiville eles começaram um berreiro absurdo com gritos de “Vai, Carol! Vai, fulano! Lindaaa!” enquanto o tablet gravava tudo e no meio ainda conversavam. Gente, educação nessas horas faz falta. Não dá. Faltou educação para saber como se comportar num espetáculo de dança E respeito pelos outros, pelas pessoas que estão ali para assistir a um espetáculo de dança. Detalhe: não ganha o grupo que tiver mais gritos da platéia. Além disso, logo depois das apresentações dos grupos para os quais eles torciam, levantaram e ficaram em pé, pra lá e pra cá durante as apresentações que seguiam. Aí perdi a paciência e pelo menos nessa hora se tocaram que estavam atrapalhando. No domingo o caso se repetiu, torcida imensa. Teve gente que só entrou na hora do grupo que interessava. Infelizmente a torcida do joguinho de handball se repetiu em outras apresentações (felizmente não ao meu lado) de grupos de outros lugares. Gritos de “linda! fulana!” ainda foram ouvidos.

Terceiro: erros da produção do festival. Inúmeros erros de iluminação, de som, etc.. Tanto que um grupo de sábado, danças folclóricas de Cuiaba (se não estou enganada), teve o direito de se apresentar novamente no domingo porque foi prejudicado pelos erros da produçao durante a apresentação. No sábado o número de erros foi enorme, mas eles persistiram durante a semana. Pequenos para o tamanho do festival? Talvez. Mas justamente pelo tamanho e pela idade não podemos esperar deslizes desse tipo. Outro detalhe: as câmeras que passam ao vivo no telão não contam nem com ajuste de temperatura de cor.

Quarto: a ausência do nível Avançado fez muita, muita falta. Tanto no Clássico, mas mais ainda no Jazz, Sapateado e Contemporâneo. O Avançado era aquele momento que surpreendia, que tirava o fôlego, que inebriava. Não li a respeito dos motivos de terem tirado o Avançado este ano, mas já li pessoas que concordaram comigo que fez falta.

Não vi o Centreventos cheio todos os dias. Em alguns dias o barulho da chuva atrapalhou e denunciou que não temos o lugar perfeito para apresentações deste tipo. O principal problema do Ivan Rodrigues, na época, era o tamanho. Ele já não suportava mais o público do Festival que crescia a cada ano. Eu passei sufocos – literalmente, afinal era criança e sempre fui baixinha – no Ivan. Já vi o Centreventos lotado para noites do Festival, como ano passado – aliás, a edição dos trinta anos foi memorável. Até ano passado a arquibancada não tinha cadeiras, o que era muito bom porque tinha aquilo de chegar cedo para garantir lugar e eu desconfio que cabia mais gente. No primeiro ano do Festival no Centreventos, fui com minha avó (assídua frequentadora e entusiasta do Festival, com quem aprendemos a ir) e ganhamos almofadinhas para sentar na laje fria da arquibancada. Depois disso fui até no show do Mister M lá. As cadeiras da arquibancada são muito desconfortáveis e várias já estão quebradas – na quarta-feira sentei em uma que machucou minha perna. Nos dias de chuva havia goteiras pela platéia – no dia de chuva mais forte uma parte da arquibancada do lado esquerdo estava isolada com fita.

No domingo fui acompanhada de mais pessoas, uma com dificuldades de locomoção. Chegamos com o carro ali pela entrada da Beira-rio (as vagas para deficientes devidamente identificados, como era o caso, ficam ali bem na entrada, afinal é próximo da rampa para acesso, como deve ser) e fomos informados de que não havia acesso por ali, que deveríamos dar a volta pela Orestes Guimarães. Deixamos a pessoa com dificuldades ali, acompanhada, e formos dar a volta. Na entrada mostramos a placa de identificação de deficiente e, para nossa surpresa, mandaram estacionar lá no meio, bem distante das vagas especiais. Fiquei indignada. Para que servem as vagas especiais do estacionamento? Que, aliás, estavam vazias! E, sim, havia acesso do estacionamento lá de trás até as vagas. Os elevadores do Centreventos são pequenos e estão em estado deplorável. Na abertura não fomos de carro, mas acompanhei uma pessoa com dificuldade de locomoção pelo elevador e já tinha achado bem ruim, pois os botões nem funcionavam direito e havia fila. A situação foi constrangedora quando, no domingo, pessoas que iam para o camarote acharam que o elevador era exclusividade deles. Pois eu acho que os elevadores deveriam ser exclusividade de pessoas com necessidades especiais, idosos, mães com crianças no colo, pessoas com dificuldades de locomoção. Elevador não é luxo. Acessibilidade, pelo jeito, é. Sim, há rampas de acesso, não só escadas, mas são longas rampas que para quem tem problemas não são mais fáceis que escadas. As arquibancadas, por exemplo, não são feitas para idosos e pessoas com qualquer dificuldade de locomoção. Felizmente eu tive a idéia de deixar na porta e ir estacionar o carro, porque ela não teria como percorrer a distância do carro até a platéia.

Aí delineava-se algo que me preocupou e me fez lembrar a fala da abertura. Que valor tem a platéia? Que respeito se dá a quem vai prestigiar o “maior” festival de dança do mundo? (já disse que joinvilense tem esse complexo com o adjetivo “maior” – é tudo “maior” por aqui, mas…) Eu como platéia me senti inúmeras vezes desrespeitada. Dificuldade para conseguir ingresso (os valores até que têm se mantido, mas já paguei só cinco reais para sentar na arquibancada bem feliz da vida!), dificuldade de acesso, entra e sai durante espetáculo, falta de educação do público, erros da produção… Lembro novamente: se não houver platéia, não haverá espetáculo.

A melhor “redondeza” de platéia são os bailarinos educados. Tive o prazer de ter alguns desses vizinhos. Prestam atenção, respeitam as apresentações e as pessoas em volta, comentam só nos intervalos, se emocionam junto com quem se apresenta – isso sim é lindo! não a torcida de handball – vibram, fazem suas apostas, sabem fazer silêncio, sofrem junto com os escorregões e com os bailarinos que transcendem seus próprios limites. Aliás, tive o prazer de ouvir conversas entre eles e de conversar com alguns. Muitos mostravam um descontentamento com vários aspectos do Festival. Parece que a concorrência entre os nomes de companhias de dança já “estabelecidas” no festival não tem agradado muito. O que me lembra a insistência do jornal local A Notícia em colocar em questão o aspecto “competitivo” do festival. Esses dias foi uma matéria que cogitava como seria o festival se não houvesse competição, se os grupos continuariam se inscrevendo, se haveria público. Hoje foi a entrevista com uma professora de dança (ou algo do tipo, nem lembro o nome dela) que critica o aspecto anti-pedagógico da competição, diz que não é “festival”, mas concurso de dança e que não são bailarinos, mas alunos. Tentei ponderar muitas coisas que ela disse, mas tive que discordar veementemente com o “não são bailarinos”. Mesmo sendo alunos, coisa que acredito que não só na dança, mas em todas as áreas, somos sempre alunos, eles são bailarinos sim. Se é anti-pedagógico, não sei. Contudo, desconfio que o público joinvilense já não é frequentador do festival. Até para ser público é preciso aprender. Quase não conheço joinvilense que vai ao festival. Aliás, joinvilense adora se orgulhar, inclusive de que aqui tem o “maior” festival do mundo, mas a maioria nunca pisou numa noite competitiva. Eu, quando criança, nem entendia que era competição, eu ia assistir porque gostava.

Preciso abrir um parênteses neste texto que já se alonga demais. Mas é necessário. Me dói muito ver, como já comentei aqui e em outros espaços, a Casa da Cultura fechada. Desde que Joinville virou o único lugar fora da Rússia a ter uma escola do Bolshoi que a Escola Municipal de Ballet, que ficava na Casa da Cultura, tem sido ignorada. Foi ali que fiz meus anos de ballet. Era ali que as artes efervesciam na cidade. Pagava vinte reais a mensalidade e tinha espaços excelentes, professores de altíssimo nível e muitos bailarinos empenhados. Não me conformo em ver tudo isso desprezado. E não me conformarei. Vem pessoas do país todo para concorrer no Bolshoi, número candidato/vaga é absurdo. Nem todos podem frequentar o Bolshoi, e aí?

Tenho a forte impressão de que o joinvilense não é o assíduo frequentador do festival. Desconfio que a maior parte da platéia é composta por bailarinos e pela “torcida” dos grupos que se apresentam. Pena. O Festival não deveria ser somente para os bailarinos. Deveria ser para a cidade, para a região, para o Estado. Mas, uma platéia, seja ela do que for – dança, teatro, música, cinema – precisa ser formada. Não, não estou falando que só os “entendidos” sabem apreciar. Digo que cultura é aquilo que aprendemos a valorizar, que temos o contato para conhecer, gostar, amar. Nem eu nem a maioria das minhas colegas de ballet da Casa da Cultura daquela época éramos bailarinas profissionais em potencial. Mas ali se formava um público. Minha avó nunca fez dança mas tinha orgulho do evento da cidade e sabia apreciar por apoiar incondicionalmente o festival desde a sua criação. Público se forma. Se forma sendo valorizado, dando acesso. Quando surgiram os palcos pela cidade sentíamos essa diferença. As pessoas tiveram mais contato, paravam para olhar. Lembro que era a única na escola a ir ao festival, até o ano que foram incluídas as danças de rua (hoje chamadas “danças urbanas”). Na época até meu irmão foi ao festival. Amigas que nunca tinham ido também foram – e hoje não vão mais. A dança de rua atraiu um público que tem aquele preconceito burro com ballet clássico que é “parado”, “chato”. Dificilmente havia noite só de ballet, então eu optava por ballet e danças folclóricas que também sempre gostei. Este ano achei danças folclóricas decepcionantes – e não foi só porque já cansei de ver as coreografias de danças do norte e nordeste das escolas daqui de Joinville, algumas até repetidas entre duos e conjunto de um ano para outro. Mas um dia ou outro e nas noites de encerramento assisti a jazz, contemporâneo, sapateado e hoje sou apreciadora de todos. Só danças urbanas que ainda não caiu nas minhas graças – na noite dos campeõs ano passado gostei bastante de algumas apresentações. Público assim se forma, se contagia, se conquista.

Entre a dor de corno e a lascívia das apresentações de jazz, à criatividade e técnica em extremos do sapateado, aos conceitos do contemporâneo, à emoção e beleza exótica das folclóricas e à exatidão, luxo, beleza, encanto e graciosidade do clássico, eu fui me fazendo apreciadora e amante. E assim pode ser com qualquer um.

Torço pelo Festival. Torço pelos bailarinos que têm nele um grande espaço. Acredito que as discussões estão colocadas, principalmente sobre o futuro que se quer para ele. Seja competitivo ou não, com grandes patrocinadores ou não, mas com público. Com a valorização de quem vai lá assistir a um espetáculo. Como componente de formação de público de cultura e arte, dos quais nosso Estado é tão carente.

Sobre as apresentações, devo dizer que me arrepiei com as dores de corno do jazz, aplaudi entusiasmada a lascívia, sorri para a beleza que alguns grupos apresentaram. Guardarei com muito carinho a apresentação do grupo de Itapema, que disputou danças folclóricas. Queria ver mais apresentações assim daqui do Estado e menos “maracatus”, “marias bonitas” e “caboclinhos”. Vi bailarinos de clássico tão pequeninos e frágeis que me deixaram de queixo caído – falho por não dar nomes – pela graça, alegria e beleza ao executarem coreografias com engenhosidade e destreza. Fiquei com um gostinho de quero mais sem o Avançado. Fui ao delírio junto com a platéia com algumas “Esmeraldas”, com o Passantes Anônimos do grupo de sapateado de hoje, com a criatividade.

Ano passado abusaram do uso de cenários. Este ano pouquíssimos usaram cenários, mas tivemos um crescimento no uso de projeções. Tudo enriquece. Tudo nos deslumbra. Uma noite só de sapateado teve altos e baixos. Os grupos tiveram maior destaque, assim como jazz. Os Grand Pas-de-Deux me fizeram chorar e senti pena dos jurados. Na primeira noite eu daria o primeiro lugar para todos. Os solos masculinos ainda são os mais admirados porque demonstram força e coordenação fora do comum.

Faço questão de poder continuar sendo público do Festival. Na medida do possível dou um jeito na agenda, no tempo e no bolso para não perder momentos de emoção, admiração, arrepios e sorrisos permeados com muitos aplausos. Sim, porque eu nem sei bater palmas, mas bato. E faço cara feia pra quem vai até lá e não se dá o trabalho de bater palmas, mesmo que sem coordenação como eu. No Globo Repórter, uma bailarina mostrou seu pé machucado pela sapatilha de ponta e, com lágrimas, disse que os aplausos compensam qualquer coisa, que é tudo para eles. Fiquei com lágrimas nos olhos enquanto assistia. Minhas implicâncias não são à toa. Eles merecem.

Ps: publiquei o texto de madrugada e depois lembrei de comentários que faltaram. Não posso deixar de fazer um: os banheiros. Sujos, sujos, sujos o tempo todo. É o tipo de evento que precisa de uma pessoa o tempo todo fazendo a limpeza. Esse problema é decorrência de outro, gravíssimo: tem só DOIS banheiros no Centreventos no andar das platéias. DOIS. As filas no intervalo são enormes, impraticáveis. Há um no térreo para os bailarinos. Fila também. Banheiros pequenos e insuficientes para toda a platéia.

Ps2: As câmeras. Acabei de voltar da noite dos campeões e lembrei que ficou faltando isso. A organização diz que não é permitido tirar fotos e filmar, mas muita gente faz (eu inclusive). Só um aviso: não dá pra tirar foto de espetáculo com flash. Não dá. Ou seja, não tire. Não. E não.

Diz

 

E se perguntarem por mim, coisa que eu sei que não farão, diz que tirei o ano para trabalhar. Diz que tenho amado amores inconfessáveis. Diz que tenho colocado cadeado nas intenções, diz que o Destino tem me negado paixões em outros braços. Diz que tenho viajado, tenho tirado temporadas cá e lá. Diz que tenho pensado… diz que tenho arquitetado caminhos e esperanças. Diz que tenho me ausentado do mundo aqui de fora porque o meu mundo está em erupção. Diz que tenho ignorado os gemidos agonizantes do coração. Diz, também, que fiz as pazes com o tempo e com os prazos. Diz que já entendi que 2013 é tempo de plantar – logo mais, quem viver, verá. Diz que é tempo de escolher as palavras certas. Diz que ando daquele jeito, amante das palavras. Diz que tenho investido meu tempo, meu dinheiro, minhas palavras. Diz que tenho buscado apoio no vazio e no silêncio. Não esqueça de dizer que abri mão de acordar dos mais belos sonhos. Diz que encontrei quase tudo o que me deixa completa. Diz que assumi riscos – trabalho, invisto nas palavras, planto as sementes escolhidas – e ando sorrindo com o canto da boca. Diz que meu olhar anda mais perdido que nunca. Diz, por fim, que logo será a época da colheita…

Quando o cinema apaixona

 

Estive no 2º Festival Internacional de Cinema de Curitiba e escrevi algumas críticas de filmes que tive o prazer de assistir lá. Publico aqui uma especial. No site do jornal Gazeta do Povo há outra sobre o curta baiano “Menino do 5”.

Apaixonar-se pelo cinema acontece com muitos de nós. Os motivos, ou os causadores disso, variam bastante. Mas a experiência de apaixonar-se pelos filmes que nos deslocam no próprio sentimento que temos pelo cinema é das mais inesquecíveis. Amar o cinema é fácil, entender porque sentimos isso, não.

Aqueles filmes que falam sobre o cinema, que realizam um cinema que ainda não vimos, são os mais desafiadores. O desafio é jogado para os espectadores que têm a missão de torcer o nariz ou abrir o coração. Assim é a recepção de filmes como Cuauhtémoc e Leviathan pelo público. E esses são filmes que vão mostrar algo que ainda não vimos ou ouvimos e temos alguns minutos para abraçá-los ou ignorá-los.

Cuauhtémoc incomoda, desloca. Começa agressivo com um rock pesado e letreiros que são imagens. Ele discute sobre como fazer aquilo que eles estão, ao mesmo tempo, fazendo. Se você tem o dinheiro de Hollywood, você escolhe onde colocar um fresnel, decide as coisas, dizem eles. Peça central do discurso é a condição do fazer cinema, é assim que eles discutem que hoje é preciso esconder a precariedade desta prática, pois mostrá-la “é coisa da década de 70”. Num mundo onde qualquer um faz um vídeo com uma DSLR ou uma cybershot, o que é, então, fazer cinema? As falas se justapoem, há ruídos, nas imagens vemos coisas que não sincronizam com os sons, é difícil entender tudo o que é falado. Mas é nítida a sensação de que eles estão discutindo o que pretendem. Ouvimos colocações de que o cinema é enganação, mas que ali não há mentirosos.

Assim, a segunda parte do curta parece ser a concretização da primeira. Eles fazem um outro filme. Mostram a precariedade com a flecha do mouse aparecendo de vez em quando nas imagens que criam espaços e preenchem o olhar que flana pela tela. As imagens lúdicas são acompanhadas pela trilha sonora clássica que estimula uma fluência com as cores da tela. E é assim que ele se completa. Eles fizeram um filme sem o dinheiro de uma produção hollywoodiana, sem enganar e explorando a suposta precariedade. A realização é o obejtivo da prática.

Numa produção de porte bastante diferente, Leviathan mostra um cinema que cria expectativas e as remolda. A sinopse oficial leva muitas pessoas – ou todas elas? – a um engano. Seria fácil esperar de Leviathan algo na linha de Terráqueos (Earthlings) ou A Carne é Fraca, documentários que expõem as fissuras na relação entre os animais e os seres humanos. De fato, o documentário acompanha a pesca industrial. Porém, temos aqui algumas das mais belas imagens já feitas pelo cinema. A beleza das estrelas-do-mar brilhando lá no fundo, as gaivotas acompanhando o barco, os peixes movendo-se pelo chão do barco, as conchas sendo abertas com faca pelos pescadores e sua sinfonia, tudo isso causa uma experiência visual e sonora que pode abarcar toda a sua relação com o filme, deixando pouco espaço para a reflexão sobre a violência entre os homens e as criaturas do mar.

Diria, sem exagero, que o brilhantismo da direção da cena do barco pesqueiro filmado frontalmente nas ondas do mar é a cena mais bela e inesquecível que já vi numa sala de cinema. Como todos os planos têm um tempo particular, ali, além da beleza, me prendi em tentar decifrar como ela havia sido feita. Parece que a câmera foi colocada num anzol na ponta de uma linha de pesca e lá fica a flutuar, indo e vindo, de frente para o barco. Esplêndida, inesquecível, belíssima.

A tecnologia e as condições financeiras permitiram que os realizadores de Leviathan conseguissem um material visual e sonoro que surpreende pelo inédito. Ao acompanhar o nível do chão com os peixes deslizando temos imagens que são atraentes, apesar da realidade crua que elas nos denunciam. O começo brutal, com planos pouco compreensíveis, sons estridentes e muita escuridão podem assustar o espectador desavisado e até espantá-lo. O tempo, inclusive, é um personagem central neste documentário. Os planos têm o seu tempo interno, o espectador pode observá-los à vontade, percebê-los, contemplá-los. As ações e movimentos são longamente mostrados pela câmera que às vezes se movimenta cadenciadamente, às vezes fica parada. As cenas vão se sucedendo sem diálogos nem voz off explicativos mas muito bem concatenadas na lógica da sequência determinada pela direção.

Com pouco mais de uma hora de documentário, há um longo plano fixo frontal de um pescador que assiste à TV sentado ao lado de uma mesa. Nesta, vemos um pacote de salgadinho aberto, um pote de comida industrializada. Não há frutos do mar servidos para os pescadores. As arraias destroçadas maquinalmente não são consumidas pelos seus algozes. Cuauhtémoc e Leviathan são assim, nos servem alimentos que não estavam no cardápio, nos oferecem aquilo que menos esperamos. Como o pescador, podemos acabar caindo no sono ou despertarmos de um sono profundo.

115 anos de cinema brasileiro: na História ou distante dela?

 

O dia de hoje é comemorado por um fato curioso: a primeira filmagem realizada em terras brasileiras, por um italiano. Já dizia lá o Bernardet que significa muito o Brasil comemorar o dia do Cinema Brasileiro (“nacional” implicaria muitas coisas) justamente quando foi feita a primeira filmagem, não a primeira exibição. Até hoje isso prevalece: valoriza-se mais a produção, menos a exibição. O fato de o primeiro realizador ter sido um estrangeiro também é curiosa: o Brasil importou muitos profissionais de cinema durante muito tempo – pouco houve ao contrário. O cinema veio de fora, pelas mãos de estrangeiros. Por essas e outras que “nacional” implica muitas coisas, inclusive por quem é feito e para quem é feito.

 

Semana passada tive o prazer de participar de uma oficina com o Fábio Andrade, editor da revista Cinética. Fábio é uma pessoa acessível (coisa difícil na área), as idéias e concepções dele sobre crítica cinematográfica casam muito com as minhas e foi uma delícia gratificante as discussões. Entre tantas coisas, uma frase dele me chamou a atenção justo no dia que lembrei que hoje seria dia do cinema brasileiro. Vou a ela: “Hoje, com a internet, a gente consegue assistir a praticamente tudo. Menos cinema brasileiro, esse é quase impossível de assistir.” Para um crítico, é imprescindível assistir a muitos filmes, a tudo que passar nas telas (e estiver disponível para baixar). E Fábio levantou uma questão que eu já trouxe algumas vezes aqui: a dificuldade em conseguir assistir ao que se produz no país.

 

Casos recentes de curtas e longas, inclusive catarinenses, realizados com edital principalmente, que tiveram inúmeras exibições pelo país e até no exterior e aqui nada – tipo caviar, a gente só ouve falar. Tal filme (curta/longa) ganhou prêmio não-sei-onde e foi exibido X números de vezes lá e acolá, aquela chuva de elogios (?!) nas redes sociais e afins e… nada de passar no Brasil e, no caso específico, Santa Catarina. Por quê? Eu me perguntei isso várias vezes. Medo? Descaso?

 

Antecipando um ponto, volta a questão: filme realizado com financiamento público que evita o próprio público? E os filmes que são realizados com financiamento público e cobram ingresso? Pois é. Reclamam da quantidade de cópias que os cinemas exibem de blockbusters e afins – a maioria dos cineastas brasileiros reclama disso – mas todos sabem que ainda existe a má vontade do brasileiro sobre o próprio cinema. Eu mesma já cheguei no cinema e preferi assistir a um filme estrangeiro, quando tinha duas opções e um era brasileiro. Se não todos, a maioria de nós já fez isso – alguns sempre fazem. Não pretendo abordar todos os problemas do cinema brasileiro, seria pretensão demais.

 

Quando pensava sobre o dia de hoje, lembrei do posicionamento do Paulo Emílio, destacado no seu trabalho escrito e professado por quem o conheceu pessoalmente. Todo filme brasileiro merece ser visto, dizia ele, e um filme brasileiro nos diz mais do que todos os outros de fora – afirmações com pequenas variações. Ouvi isso na graduação de cinema, assim como ouvi aquela máxima (que hoje me parece a mais covarde e rançosa) de que no Brasil, independente de qualquer coisa, o que sempre predominou foi o “fazer” filmes. Digo covarde e rançosa porque a realização sobrepõe-se a tudo, inclusive à exibição (reproduzindo a idéia da “origem” do cinema por essas terras), desprezando, desta forma, o seu próprio público que em contrapartida também o despreza. Concordo com Paulo Emílio, todo filme brasileiro merece ser visto, e todo filme daqui me diz muito mais do que qualquer outro de fora. Não, não acho um posicionamento nacionalista, ufanista ou qualquer bobagem da qual os fãs de Said poderão me acusar. É uma questão de formação, de consciência. Nem que seja uma questão econômica, afinal, a esmagadora maioria dos filmes brasileiros é paga por nós. Eu sei, dói tirar dinheiro do bolso para comprar o ingresso de um filme brasileiro se eu, de alguma forma, já paguei por ele. Bem, resta garimpar as exibições gratuitas. Mesmo que em alguns casos sejam raras e dificultadas, veja lá um curta de Santa Catarina que depois de rodar o país foi exibido em Fpolis num dia 30 de dezembro. Pois é, parece que não querem mesmo que o público brasileiro – e, vejam só, não estou falando de público de festivais! – assista aos filmes daqui. O motivo? Pois é, quem nos responderá?

 

Na minha família sempre ouvi o preconceito com filmes brasileiros: só tem putaria e palavrão. Nem falavam da questão do áudio, outro preconceito bastante difundido. Lembro que o primeiro filme brasileiro que assisti no cinema foi o do Menino Maluquinho, com a escola. Aliás, antes de entrar na universidade, só havia assistido a quatro filmes no cinema. Um deles daqui. A quinta vez que tentei ir assistir a um filme brasileiro (“O Xangô de Baker Street”) com minha mãe e minha avó (num ato de ineditismo total) fui barrada porque não portava a identidade. Vejam só. É uma peripécia conseguir assistir aos filmes brasileiros. E os cineastas reclamam de número de cópias, verbas para lançamento e cotas nos cinemas!

 

Me apaixonei pelo cinema brasileiro aos poucos. Foi uma picada aqui, outra ali e de uma hora para a outra me descobri apaixonada. Me encantava ver aquele povo, aquela realidade, aqueles lugares tão conhecidos nas telas. Sou até bem bairrista, vide a alegria em descobrir o “Burguesa” ou o “Ditadura Reservada”. Sou nacionalista, pelo jeito, porque gosto de garimpar paisagens brasileiras (na vida real) nos cinemas (um dia tentarei escrever sobre isso de “cinema” e “cinemas” – teoria em formação), garimpar sotaques, realidades. Sou bem bairrista em me apaixonar pela Curitiba em “Estômago”. Levo um soco no estômago por assistir “Menino do 5”, gravado em Salvador, e ver um espaço que não conheço mas com uma realidade que transcende os limites dos mapas. Me apaixonei perdidamente pela câmera cheia de destreza e consciente de uma linguagem própria do Glauber Rocha. Me apaixonei pelos críticos, historiadores e cineastas que tanto escrevem sobre o nosso cinema. Sou tão bairrista que olho com desconfiança para um Padilha que fez sucesso aqui e foi lá pra fora dirigir Robocop.

 

Poderia escrever mais parágrafos elencando minhas paixões. Vocês sabem, paixões são meu forte. Porém, essa paixão é ofuscada por algumas questões. Eu queria ver o cinema brasileiro independente. Queria vê-lo desatrelado dos intermináveis editais e financiamentos. Eu queria vê-lo maior de idade. Queria vê-lo superar-se – e aqui me refiro ao modo de produção e à linguagem. Cinemas novos não acontecem do nada. Cinemas crescem superando-se a si mesmos. É preciso crescer e não estou falando nos números, pois não sou a ANCINE para ficar divulgando números para tentar dizer algo que me parece sempre vazio. É preciso superar essa idéia de que “O Som ao Redor” ter tido cerca de 200 mil espectadores é um resultado “louvável”, tendo em conta o orçamento e a “competição” com blockbusters ou ainda por ser um filme “cult”. Para que ele se supere eu sonho com duas coisas: que os profissionais do setor tenham caráter e sejam realmente profissionais e que os que não são assim não ensinem os estudantes dos cursos de cinema a serem como eles – aquela velha história, pegar dinheiro para abrir produtora, meios de burlar orçamentos e prestações de contas, como viver só às custas de dinheiro público. É um círculo vicioso. Não criam nada novo com as obras e mantém um sistema falido (bem, “falido” é relativo, porque tem muita gente ganhando dinheiro com isso). Queria ver Meirelles, Furtado, Murat, Barreto´s family, Babenco e todo esse povo sem correr atrás de editais. Queria ver milhões de espectadores seja para “Pernas pro Ar” tanto quanto para “O Som ao Redor”.

 

Minha paixão é ofuscada por ainda não ter conseguido assistir a “O Som ao Redor”. Por ser, como disse o Fábio, tão difícil assistir aos filmes brasileiros. Mas marquei de assistir a “Elena” neste sábado, gratuitamente, em Joinville, numa exibição organizada por um grupo ligado a uma faculdade. Pra quem não sabe, muitos festivais só aceitam filmes que não foram ainda divulgados, por exemplo, na internet. E os realizadores acatam isso, preferem mandar seus filmes para inúmeros festivais a simplesmente colocá-los à disposição do público em geral. Público de festival, todo mundo sabe, é restrito e restritivo. Resta a pergunta: quem faz isso então produz para qual público? Para o crítico de revista, “crítico” de jornal e bonequinho, cinéfilos e alunos de cinema? Interessa formar platéia ou não?

 

Mas, caramba, falar de cinema com essa multidão toda nas ruas?! Pois é. Pensei nisso também. Cadê os cineastas? Cadê os cineastas nas ruas? Os cineastas brasileiros já testemunharam levantes, greves, fizeram “o que a TV não fazia”, mostraram o que as pessoas não viam. E cadê os cineastas quando temos o maior número de pessoas nas ruas em toda a nossa História? Cadê cineastas se posicionando, apoiando ou sendo contra? Acompanho algumas discussões de grandes cineastas e críticos e não vi uma palavra sobre o assunto. “Ah, mas essas manifestações estão sendo gravadas por milhares de celulares.” E isso tira a posição do cineasta? Então aquela imagem linda do povo sobre o teto do congresso com as sombras refletindo nas abóbadas não pode ser significada e ressignificada pelo cinema? É isso mesmo, colegas? Por que a comunidade cinematográfica se acovarda diante desta multidão? Tem medo que o dinheiro do próximo edital não caia na sua conta? Então já tivemos cineastas melhores, porque eles burlavam deliciosamente isso. Ah, não sabia? Será que estudamos cinema brasileiro mais do que aquela uma ou duas disciplinas perdidas em quatro anos de curso?

 

Normalmente, os filmes brasileiros mais aplaudidos são os que esmiuçam a nossa realidade. Ou que a ironizam, como o “Saneamento Básico”. Pois é, falar em cinema hoje com ruas cheias de gente insatisfeitas com (quase) tudo. Mas cadê o cinema pra protagonizar isso? Mostramos a realidade (quais realidades?) e nessa h♦ora damos um fade out? Brasil fazendo História e o cinema não sai da sua redoma?

 

Eu apoiaria menos festivais (muitos só comem dinheiro público também). Apoiaria salas de cinema públicas (“como na França” dizem tanto por aí). Apoiaria exibição de curtas antes dos longas nos cinemas. Será que os produtores e diretores apoiam? Ou está bom assim? E volto a dizer: quero cinema brasileiro independente. Quero editais de fomento, incentivo, não de sustento. O cinema brasileiro dá lucro, vamos superar esse mito e sair da zona de conforto.

 

 

125

 

Fernando Pessoa faria, hoje, 125 anos. Um geminiano. Desses que nos tiram o chão, nos alçam às alturas, nos deixam com os sentidos todos misturados. (mas hei de desconfiar sempre de que ele tem alguma coisa de pisciano)

 

Já devo ter escrito tudo isso aqui antes. Leio Pessoa aleatoriamente, volta e meia, para pensar (ou não), acender a alma, despertar os sentidos… para tudo e nada.

 

Eis que essa semana tem sido tão intensa, profusa, exigente com a escrita e com uma dose espetacular de crônica nos meus dias que não pude deixar de lembrar dele (vide aí dia dos namorados e de Santo Antônio e as tais cartas ridículas – mas em especial da melhor declaração de amor que alguém poderia fazer e a qual um dia desejo dizer para um amor) e de brevemente lembrar do padroeiro do blog.

 

Para quem conhece Pessoa, as palavras não são dispensáveis. Para quem não o conhece, só digo uma coisa: leia, agora. Se não te tocar a alma, não considere-se uma alma.

 

Para quem me conhece, sabe que o blog poderia ter alguns outros padroeiros, mas ter sido ele tem um motivo muito especial.

 

 

Experimentando idéias

 

“Pensando? Ela teria dito que não. Estava tentando apoderar-se de alguma coisa, ou desnudá-la, de forma que pudesse olhá-la e defini-la; agora, já fazia algum tempo que vinha experimentando idéias, como se fossem diversos vestidos tirados de cabides.” – Doris Lessing, O Verão Antes da Queda.

 

E foi assim que compreendi novamente o sentido de tudo, inclusive de continuar a escrever também para o blog. Fico assim tentando apoderar-me de alguma coisa, tentando desnudar os sentidos, as pessoas, as coisas, a vida. Tento olhar e definir. Experimento, enfim, idéias. Tiro esses vestidos dos cabides e vou experimentando, analisando, jogando uns sobre os outros. Escrever tornou-se isso, seja uma crítica de um filme, um livro de contos, um texto acadêmico, uma carta, um e-mail, um twitte: experimentar idéias.

 

Ao me ver caminhando por aí, parada, deitada, olhando o nada saiba que estou no momento provador: tiro vestidos dos cabides. Se eu estiver sempre assim, tanto melhor.

 

 

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