Quando acontecem coisas naturalmente românticas

No mundo da ficção não falta luz. Ou, quando falta luz, acontecem coisas românticas. Eu gosto de coisas românticas. Naturalmente românticas, não planejadamente românticas. É preciso acreditar demais no Destino e desconfiar demais das pessoas para pensar assim. E no meio do meio do dia eu só queria chamar alguém de biltre. Até ontem à noite queria braços e pernas e pescoços e cabelos para afagar. Tudo planejadamente romântico. Desculpem o intervalo, estava cá vasculhando quando não fui planejadamente romântica. Nunca? Nunca, bem está. Anoto mais esta culpa. Consequência da impaciência, das brigas constantes com o Destino, dá má interpretação dos sinais, de sempre supor-me muito mais carne do que alma e coração (e, apesar de por última, talvez seja esta a maior causa da culpa).

Suponho-me sempre muito mais carne, esta que envelhece e apodrecerá como um dia me lembrou uma amiga, e com veemência ignoro-me do resto. Aquele resto que não se vê – e São Tomé que sou, tenho dúvidas quanto à existência. Por isso, esses dias brindava vinho à frieza e fortaleza que trago invisível no peito. Visível era o decote do vestido tomara-que-caia vermelho. (E também assim me sentia invisível.) O vinho doce, a comida boa, o corpo se regozijando. Palavras tão fáceis da boca pra fora. E, quem sabe, não há brinde que salve. Não há falta de luz que acenda qualquer bobagem de “luz interior”. Não há. A ficção, sim ela, aviva… faz quase São Tomé acreditar que há algo aqui dentro. Eu teria sido daqueles jovens românticos de outro século a beber, comer, ficar endividado, jogar, e loucamente – naturalmente ou planejadamente? – morrer antes dos vinte. Seria, então, o caso de só o naturalmente romântico a tirar as dúvidas de São Tomé? Já mergulhei em tantos devaneios a crer que sim. Alcançaria o estado de suspirar pela falta de luz como se nem notasse e jamais quereria chamar alguém de biltre?

E sem querer citar, sinto como se todo deleite fosse obsceno. Desculpem o intervalo – estava cá a lembrar que o corpo padecerá. Como diz a canção, nem o diabo quis negociar minha alma vendo um mau negócio. Curiosamente desejo as coisas naturalmente românticas – seriam elas a dar algum valor à alma? Tenho pilhas de perguntas que talvez encontrassem respostas. Sei que das coisas planejadamente românticas já tirei todas as dúvidas e conclusões. Este intervalo foi longo, eu sei. Estava pensando se colocarei um ponto final. Caberia um ponto de interrogação no final, é verdade, mas considero muita pretensão. Estava pensando, também, se este bebê que chora foi fruto de algo planejadamente ou naturalmente romântico. Na verdade, primeiro há que se questionar se foi romântico. Os poetas daquele outro século também hoje se matariam, mas não pelos mesmos males. Fui ver que há um relógio de pulso ainda com pilha que me garante que tudo continua seguindo. A falta de luz, então, só interrompeu meus pensamentos. Já não sinto vontade de chamar alguém de biltre. Sinto que nem tenho mais vontade de que a luz volte. Lembro do brinde. Do brinde e do vinho. Nem o vinho esquentou-me ou abriu brechas na fortaleza. Será preciso mais que isso. A ficção, sim, me atira dúvidas no corpo que deseja e envelhece. Calma, procuro o ponto final, e confesso que sinto-me mais distante dele. A luz não voltou – faltam-me, de fato, as coisas naturalmente românticas para ignorar isso. Como ainda há relógio, não há fuga. Arrisco-me a dizer que sairei com uma fresta de esperança a desejar coisas naturalmente românticas – no acaso, no acidente, no imprevisível. É um risco. E digo isso porque não encontrava peça que encaixasse com peça, em mim, nos últimos tempos até faltar a luz e eu esquecer o biltre-ninguém e perceber o brinde e a ficção e as coisas românticas.

(chegou o rapaz que dá a luz e talvez seja esse o mundo sempre a dar seus pontos finais)

Não se deve ignorar o Destino

 

Confuso. Parecia tudo muito confuso. Uma semana mais sem pé nem cabeça da qual só ficava uma certeza: tinha sido filha da puta. E as coisas se ajeitavam de um jeito que não dava pra entender. Mas os dias, as horas, os segundos, vão seguindo e não tem intervalo nem legenda. Virou a lua, virou a semana. E tudo continuava confuso. Muito confuso. Fui aceitando aqui, respeitando ali. Sei lá, a vida joga, eu pego. Como o Leminski fala do Destino, o que pintar eu assino.

 

E era sobre ele que eu queria falar, de novo.

 

Não dá pra ignorar o Destino. Eu queria pegar o telefone, te ligar e dizer só isso. Eu repeti isso para mim mesma ontem a noite toda, a madrugada toda. Não dá pra ignorar o Destino. Você não percebe, eu sei o que se passa na tua vida, e conselho é bom, a gente dá, eu mesma distribuo aos montes por aí. Você não percebeu que as coisas começaram a mudar desde semana passada, tempestades virão, não é bom mexer com dinheiro nem tomar grandes decisões. E você foi lá e fez tudo sem ouvir o Destino. Eu não posso deixar de ouvir o Destino, porque o preço é muito alto. Já paguei algumas vezes – e não quero fazer de novo.

 

Dizem lá as runas, os tarôs, os I-chings, os horóscopos, as mandalas… é preciso ouvi-los. Falam em medo. Em escuridão versus luz no caminho. O medo e a escuridão nos fazem fechar os olhos ao Destino. Pois eu não posso. E aí nossos caminhos descruzaram de vez. Enquanto via os carros passarem, a poeira levantar, os postes acenderem, pensei que preciso sorrir mais. Sorrir mais para os outros – pois já faz um bom tempo que eu tenho sorrido muito para mim mesma e para a vida.

 

Preciso sorrir mais para os outros. E diz lá a runa, ou outro desses, para eu usar mais amarelo. Diz lá que caminhos serão abertos. Não posso ignorar o Destino.

 

Porque o Destino faz assim: vou caminhando para comprar pipoca do velhinho que sempre está ali, prefiro comprar dele do que do outro que fica próximo porque este só aparece quando tem movimento. Chego, peço “Uma salgada”, tiro um fone e… ele se vira, me olha nos olhos por uns eternos segundos e diz “Tinha uma canção que minha avó sempre cantava que dizia assim: a gente tem que gostar de quem gosta da gente.”. E foi no momento que nossas vidas mudavam, aqui e aí. Foi no exato momento. Caminhos que descruzavam-se para todo o sempre.

 

E tem mulheres que fazem de tudo para segurar um homem. Sabe, controlam, levam pé-na-bunda e voltam, nem é sexo, é ganância, é ambição. Ambição, é isso. Eu não sou assim. Sou destituída de ambição, não almejo grandes coisas. No máximo tenho visualmente cobiçado belezas. Tem muita gente ruim nesse mundo.

 

Não posso ignorar o Destino. Não tenho mais como ignorar quem eu sou. Quem sabe mais sorrisos. Quem sabe lutar contra a escuridão. Usar amarelo vai ser mais complicado. As dores de corno sem nem ter sido eu supero. Algumas horas, algumas coisas apagadas, rasgadas, escritas, resolvem. E tem tudo isso da vida que escapa a essa confusão – as coisas belas, os caminhos, as imagens lindas, o som do mar, os prazeres da carne, os telefonemas surpresa, os convites inesperados, as boas companhias, as conversas sensacionais, o flerte, uma boa tarde de trabalho. Quando o balde de confusão transborda eu me afogo em tudo isso. Mas, Destino, eu nunca esqueço de você. Tempestades virão porque o Destino está aprontando.

 

Pessoas vão ficando pelo caminho… sim, eu lamento. Porém, pior para elas. Tenho bons conselhos também – invariavelmente quem não ouve o Destino não vai ouvir alguém. Meus lamentos não duram mais que um incenso.

 

Eu nunca vou te dizer isso, mas ignorar o Destino é uma baita burrice. Dá não.

“O Tempo e o Vento” em tempos de inadequação…

Entrei no ônibus e já me sentia arrependida de ter convidado a amiga para ir ao cinema comigo. Desde o ano passado que vivo um conflito interno à espera do resultado final de uma adaptação para o cinema, pelas mãos do Monjardim, do monumento que é “O Tempo e o Vento”. O arrependimento não se explicava só por eu gostar da solidão das salas de cinema, mas porque eu temia que minhas reações (eu tenho reações durante os filmes) não fossem partilhadas ou sequer compreendidas. Tratava-se, para mim, de algo sério, profundo, porque são aquelas coisas que importam de tal maneira para nós que ninguém há de dar o mesmo valor.

Assim, já deixo avisado de antemão que minhas palavras serão embargadas de emoção. Pois minha relação com o Erico é pautada principalmente por ela, além da enorme admiração, e, felizmente, o filme não me afastou dela – a emoção.

Explico-me. Amo o Erico. Num tempo perdido em datas, li um trecho de “Um Certo Capitão Rodrigo” no livro de literatura e português da escola, bem o começo do livro com o famoso e inesquecível “Buenas e me espalho!”. Li aquela página de texto, olhei referência e, criança impressionável e curiosa que sempre fui, matutei. Algo me marcara naquele texto. Poucos dias depois, vasculhando os livros de minha mãe, encontrei o tal “Um Certo…”. Qual não foi minha alegria e, ainda criança, passei a tarde e começo da noite com ele. Nos anos seguintes, quando me faltava livro para ler, lia-o novamente. E fui descobrindo outros Ericos nas prateleiras de minha mãe e de minha avó. Era amor. Amor que dura já meus poucos anos de vida inteira. Mês passado ainda escrevi aqui sobre o último Erico que estava lendo, O Prisioneiro. Porque ele é o único autor que reluto ler todos de uma vez, com sofreguidão. E, assim, o Capitão Rodrigo tornou-se um amor que eu provavelmente nunca conseguirei devotar a alguém de carne e osso – Erico acabou com minha vida amorosa e eu nem me importo. Ana Terra é a inspiração para um sonho que eu tenho de uns quase dez anos e que, por coincidências do Destino, começou a tornar-se realidade nos últimos meses. Erico faz parte da minha vida. É daqueles que já se foram com o qual eu gostaria de ter uma conversa num lugar qualquer do mundo, nem que fosse para poder dizer o quanto ele já fez por mim. Nem estas palavras conseguem exprimir o que foram, então, todas as obras do Erico para mim. E era com o coração apertado que eu seguia para o cinema.

Eis que após os letreiros explicativos (desnecessários? provavelmente, e disso o próprio roteirista tem consciência), surge Fernanda Montenegro como a Bibiana envelhecida e Thiago Lacerda como Capitão Rodrigo – este que nunca envelheceu e jamais poderia. Numa visita atemporal, durante o cerco do casarão dos Terra-Cambará, os dois se reencontram. A entrada do capitão durante o cerco assemelha-se à chegada dele à cidade de Santa Fé pela primeira vez, garboso, distinto, desafiante. Os dois se encontram e conversam. Eis que então Bibiana começa a contar a saga dos Terra. Pois que a dos Cambará será sempre só e somente a de “um certo” Capitão Rodrigo. Fernanda como Bibiana será a narradora (e eu que sempre implico com narradores em filmes, dou o braço a torcer: foi mais uma idéia genial do roteiro para contemplar a grandiosidade da obra do Erico) e o filme voltará sempre para ela e o Capitão no quarto.

A amiga olha pra mim e diz: tu já está chorando e é só o prólogo! Pois sim. Me emocionei com a materialização do Capitão Rodrigo e de Bibiana idosa. Eles eram personagens meus. E nem nos meus sonhos mais extraordinários o Capitão Rodrigo teria as feições e o corpo do Thiago Lacerda – por favor, não que eu tenha achado ruim! Vê-los materializados foi a primeira emoção. E no prólogo já é possível perceber algo que será mais uma das coisas fantásticas do filme: os gestos. O encontro dos dois é permeado de toques, carinhos – repare bem no dedão de Fernanda acariciando a ponta do bigode de Thiago – uso completo do corpo. O amor de Bibiana e Rodrigo é exposto ali sem firulas por Bibiana ser uma idosa. A cena relembra os reencontros deles, todas as vezes que Rodrigo sempre voltava. Mas, me adianto.

E era sobre isso que eu precisava escrever.

Eu posso fazer algumas colocações sobre a fotografia, realmente muito boa, talvez previsível para o filme que se passa nos pampas em questão de enquadramentos e luz. Há excessos, há planos detalhes totalmente dispensáveis (e o diretor deve saber disso), numa tentativa de dar ares de “épico” sem necessidade. Eu realmente achei que o Monjardim poderia estragar tudo. E, vejam só, eu que sempre critiquei tanto “Olga” principalmente por aquele “fantasma” dela criança no final, fico aqui babando elogios por uma história que começa com a visita de um fantasma. Pois bem, no mundo do Erico eu compreendo estas presenças – quem não lembra da roca sempre a fiar à noite? A roca da mãe de Ana Terra foi uma das “imagens” que mais me prenderam ao ler a história dela. É um mundo de presenças. Uma das críticas que li antes de assistir ao filme foi sobre parecer “episódico” ao tentar ser um épico. E ele realmente é episódico, a cada episódio desses a narrativa volta ao quarto de Bibiana. Confesso que isso não me incomodou. Talvez porque nesses momentos podemos acompanhar a relação dela com Rodrigo, que não é “desenvolvida” no episódio deles. Talvez por eu guardar com tanta ternura a relação de Rodrigo com Bibiana é que eu tenha tido um deleite especial com estas cenas.

Da parte dos Terra temos a origem mítica do Pedro, enquanto da parte do Cambará temos a ausência de origens. E é esse o laço da relação Rodrigo-Bibiana. Esta, por sinal, é constantemente comparada (no livro) à Ana Terra, no jeito, na tempestividade, nas decisões, até na voz. Ana Terra teve também sua história de paixão, mas intensa, carnal. Bibiana encanta o capitão pela sua doçura, inocência. É um encontro improvável. É um amor reprovável.

A obra hercúlea de adaptar o livro para o cinema coube ao Tabajara Ruas e à Letícia  Wierzchowski (do “A Casa das Sete Mulheres”, lembram?). Acho curioso que não citem isso nas críticas e notícias. Monjardim fez o trabalho “menor” neste caso. Tabajara é, como pessoa e profissional, sensacional. Tive o prazer de ouvi-lo falar pessoalmente sobre esta adaptação. Na verdade, meus elogios vão diretamente ao trabalho dele que soube adaptar, muito mais que a história, o “estilo”, o jeito, do Erico contar histórias. Tabajara soube colocar certas falas (muito mais do que diálogos) marcantes do livro nos momentos certos para dar a devida grandiosidade da narrativa sem precisar se prender a inúmeras ações dos personagens. (e eu sabia algumas das falas de cor, repetia durante o filme, estimulada pelas cenas lembrava daquelas palavras que li há tantos anos…)

É preciso reconhecer que há um evidente esforço do roteiro em tornar o capitão Rodrigo um herói. Bem, ele é, mas… No livro acompanhamos a angústia do casamento de Bibiana com o coração na mão cada vez que Rodrigo vai jogar, quando a trai inúmeras vezes e em todas as suas escapulidas. Bibiana sofre. Sofre calada e forte e como ela mesma diz ao pai, nunca reclamou de nada nem de ninguém. Todas as “más ações” de Rodrigo são condensadas em duas sequências, quando ele expulsa um cliente pois não suporta mais vender purgantes e sai para jogar e beber (irritado porque o bebê não pára de chorar) na noite que a filha adoece. (no filme eles têm só Anita e Bolívar, Leonor não aparece – esta, aliás, tem o nome de uma paixão da adolescência de Rodrigo) O que falta ao capitão não é caráter, pois isso ele tem de sobra, mas ele sofre de algo compreensível (e, ah!, como o compreendo!): inadequação. A morte de Anita lhe arranca do peito um gemido doloroso em resposta a todas as acusações que podem lhe fazer. Ele é um homem de paixões, um homem de guerras – não é um homem de ficar atrás do balcão.

Mas falo demais. Pois eu só queria dizer que o mais magnífico no filme são os silêncios. Pouco se fala. Bibiana jovem tem uma dúzia de falas. O roteiro foi tão fiel às falas que soube usá-las magistralmente, inclusive na narração da Bibiana. E é assim que o filme se aproxima do “estilo” do Erico. A cena mais significativa é a noite de núpcias de Rodrigo e Bibiana, quando os dois deitam, se beijam e há um corte para o rosto – só o rosto – de Bibiana como Fernanda – e ali fica a câmera, a captar tudo naquela expressão. As cenas de sexo não são frequentes nos livros do Erico, e esta em especial ele descreve com uma poesia e uma força inigualáveis ao compará-la a um banquete ao qual o capitão vai com “calma” mas não esconde sua “sofreguidão”. É um parágrafo. E é demais! Aí é que eu digo que o roteiro se aproximou tanto do “estilo” do Erico, na maestria de conduzir a história. O mesmo se passa com as duas vezes que o capitão “volta” (uma de Rio Pardo quando ele vai fazer compras para a venda e outra da guerra) e grita ao longe “Bibiana! Bibiana!”. Nós sentimos a emoção dela vibrando ao ouvir aquela voz. O roteiro soube captar exatamente a mesma emoção do livro. Bibiana jovem, aliás, é muito bem interpretada pela Marjorie Estiano, com uma graça quase infantil, uma paixão devota ao seu capitão. Os silêncios são bastante evidentes na história de Ana Terra, pois há uma incomunicabilidade inerente àquela família no meio do nada onde aparece um índio ferido – todos eles economizam palavras.

É um filme de silêncios e gestos. Thiago Lacerda cabe ao papel de transformar o capitão Rodrigo num herói, apesar de eu sentir falta dos “olhos de rapina” – porém o sorriso dele cai feito luva no charme indescritível e sedutor do capitão. Fernanda e Thiago estão perfeitos. Os detalhes de um roteiro tão atencioso me deixaram comovida – vide a viola do capitão que fica no quarto de Bibiana e a medalha que ele usa na farda quando se casa (reparem como isso aparece no livro e nas imagens, para um espectador desatencioso pode passar batido). Do núcleo Ana Terra só a Cleo Pires me incomoda com aquele estilo “eu sou gostosa e pronto” o tempo todo. A minha Ana Terra é alguém mais seca, mais inconsciente de si (que é, aliás, o mote para a relação selvagem dela com Pedro).

Talvez seja esta, enfim, a crítica que tenho a fazer. Erico é ácido. Erico tem um quê dos russos. Tabajara é um romântico. E essa diferença pesa quando vemos o Capitão Rodrigo tão heróico de um enquanto no outro a cena da morte dele não é descrita – no filme ele desafia o velho Amaral e é alvejado pelas costas por Bento, seu inimigo (aquele da perninha do R! como esquecer?!); no livro ele deixa Bibiana e só depois vem a notícia da morte dele ao ter invadido de assalto a casa dos Amaral. “Poderiam dizer o que quisessem, mas ele tinha voltado pra mim.” (mais ou menos assim) a frase final de Bibiana… quantas vezes eu li esta frase em meio a alguma madrugada que me angustiava?

Fiquei encantada com o Rodrigo bisneto, um menino ruivo e lindo (menino ruivo! me derreto! quero um pra mim, já disse!), que será “doutor” na sua volta à cidade (algumas páginas adiante). E fiquei me perguntando se, Monjardim ou quem sabe o próprio Tabajara que é tão excelente escritor e roteirista quanto diretor, farão um filme dedicado ao O Retrato (parte de O Tempo e o Vento), pois as partes de Ana Terra e do Capitão são sempre as mais comentadas e adaptadas de todo O Tempo e o Vento, mas há outras tão boas quanto – sabemos que pesa a questão “heróica”, de “formação de um povo”, menos “contemporânea”. Depois desta experiência, confesso que passei do temor ao desejo de ver mais histórias do Erico nos cinemas.

A amiga sofreu, é claro. Ela fazia um comentário ou outro e eu já partia pra grosseria. Num momento comecei a comer de nervosa que estava (a história da Ana Terra me angustia) mas a partir da chegada do Capitão à Santa Fé nós duas vidramos os olhos, ouvidos e corpos na imensidão da tela e ali ficamos entre suspiros e revoluções do espírito.

Escrevi e reescrevi este texto algumas vezes, revi, reli… e queria comentar mais umas cenas, falar do duelo do Capitão com Bento, do Juvenal – personagem rústico e de maior presença no livro e talvez menos valorizado no filme, da Maria Valéria – mais uma personagem feminina fantástica do Erico mas que aparece mais depois do O Continente, do cenário da casa da Ana Terra – o melhor do filme, disparado, da ausência de citações a Bento Gonçalves, da minha concordância que há uma “pressa” no “episódio” do capitão, enfim, tantas outras coisas que comentei com a amiga (eu sou um porre pós-filme, confesso e poucos sabem) e nas quais volta e meia me pego pensando durante os dias. E, mais forte ainda, como me encantaram as cenas de Bibiana/Fernanda e do capitão – e acho que não tenho como explicar os motivos.

Escolhas

A vida é feita de escolhas. Sim, é clichê dizer isso. Mas é sobre o que tenho pensado, principalmente em resposta a muitas coisas que me dizem e que ouço por aí.

Li dois textos que me fizeram matutar sobre o assunto, além de conversas aqui e acolá. Um era sobre como as pessoas vêem quem viaja e que gosta de ter uma mochila da Bolívia, uma sandália de couro do Ceará, e de ter ido ao Museu do Ouro de Sabará, ou de frequentar cursos disso e daquilo aqui e lá – como se os gostos te rotulassem como elitista (fui obrigada a lembrar da Lota de “Flores Raras”). Não raro nos rotulam de arrogantes, metidos (“amostrados”, diriam os cearenses), privilegiados. Aliás, sobre a alcunha “privilegiados” eu desejo escrever um post em especial. O outro texto é um bem lindo e exato sobre “namore uma menina que viaja”. Tive até aquela comoção leve ao ler este, pois me vi em tantas daquelas linhas. A dica é boa, namore uma menina que viaja. E se você não tiver espírito para isso, não namore-a, pois você acabará por fazer muito mal a ela.

Em algumas discussões e no meio geral, o branco que estudou em escola privada e tal é tido, hoje, como privilegiado. Ainda tenho dificuldades em entender o raciocínio, mas não vou adentrar em questões sociais e políticas. Já andava traumatizada com essa questão de “privilegiada” por ser assim branquela e tal quando, ao comentar com uma pessoa sobre o meu apreço especial por viajar, eis que ela me diz “você é privilegiada”. Engasguei com este “privilegiada” (para ter uma idéia do engasgo, a conversa foi meses atrás). Privilegiada? Sério?

Aí uma amiga muito próxima, numa conversa (somos ambas bem francas, grossas e abertas, então as conversas não são floreadas e tal) na qual eu tentava animá-la (coisa, aliás, que faço com frequência), me disse “pra você é fácil”, porque ela dizia que precisava viajar para fugir e eu tentava fazer com que ela lembrasse que não adianta porque nunca fugimos de nós mesmas. Sabe, aquilo quase me doeu (não sou de ficar de mimimi). Pra mim não é fácil tanto quanto não é privilégio.

Sabe o que é, então? São as escolhas. Ninguém sabe do que, diariamente, eu abro mão para alcançar a realização de sonhos e empreitadas (algumas, a maioria até, de longa data). Porque eu nasci sabendo sonhar, e aí apanhei bastante para aprender a realizar esses sonhos – caso contrário, eu viveria insatisfeita, infeliz, raivosa com tudo e todos. É preciso escolher em tudo na vida. Com homem, por exemplo, você escolhe um e abre mão de outro (sei que tem quem pega mais de um ao mesmo tempo, confesso que comprovadamente não tenho muita capacidade para isso). Você escolheu esse, então terá o convívio com ele, do jeito que ele é. E vai abrir mão do outro que, sei lá, beija melhor, dança, tem olhos azuis, não tem mãe, mora em outra cidade. Nas escolhas já vem embutido o que você terá que “pagar”. E por isso escolher, tomar para si as rédeas da tua vida, é tão (mas tão) difícil.

Conheço quem não abre mão de um sapato de salto que custa seiscentos reais. Tem aquele que sai pelo menos três vezes por semana para sair para beber e comer (cada uma das saídas não custa menos que cento e cinquenta reais). Tem quem só usa roupa de marca. Tem quem pode fazer tudo isso e muito mais porque pode pagar por tudo. Ótimo! Tem quem acha que viajar é ir pra Natal, ou Porto Seguro, pela CVC ou tirar foto no Coliseu (aquele auto-retrato, sabe?) ou uma foto da Torre Eiffel vista lá de baixo (já vi tantas dessas e me pergunto: não dá pra subir? Porque nunca vejo fotos lá de cima. Confesso minha ignorância.).

Conheço quem não abre mão de andar de carro. Quem faz e fez de tudo pra ter uma casa/apartamento. Tem até quem compra coca-cola de latinha pra tomar em casa. Sei lá, quando falo de escolhas estou me referindo a modos de vida mesmo. Abrir mão das coisas não é nada fácil. Quem me conhece bem (mas bem mesmo) sabe que a primeira coisa da qual eu abro mão é do conforto. Sou super sem frescuras – e até tenho dificuldade para aguentar gente que é cheia de frescura, é verdade, mas eu tento.

Eu não abro mão de viajar. Se para isso terei que abrir mão de tantas outras coisas, farei com o maior prazer. O mundo aqui do Sul e Sudeste é muito caro. Sair para jantar é caro. Ter carro é caro. Beber, então, é caríssimo. Sim, abro excessões – cada vez mais raras. Foi o que sempre achei de ir ao cinema, que é muito caro. E por muito tempo na minha vida não frequentei os cinemas. Sou super fã de assistir a filmes em casa. De vez em quando me dou ao luxo de num dia de oferta e sala vazia ir ao cinema para deixar a alma flutuar no escuro diante da telona. O mundo por aqui é muito individualista, egoísta, intolerante. Eu prefiro andar de ônibus, é sempre uma experiência interessante. E também já é caro. Ando à pé, de bicicleta. Bebo em casa e sozinha – atualmente por alguns bons motivos.

Você não me verá em baladas nem em casas noturnas caríssimas – aliás, nem de graça. Às vezes digo pra alguém “vamos sair” e a pessoa logo me responde “não posso, estou sem dinheiro”. Pô, mas pra ir pra praia ou pra trilha precisa só do dinheiro do busão (porque eu sou farofeira, sempre tenho comida na bolsa). Aliás, no texto sobre namorar uma menina que viaja esse era um dos pontos: ela sempre terá comida e água na bolsa – porque sabe que a vida pode dar voltas, atrasos e recomeços. Já viajei com a roupa do corpo.

O problema é quem escolhe ter carro, sair toda semana, comer fora, comprar computadores, celulares e tablets de última, andar com roupas boas e caras e afins e não conseguir tempo ou dinheiro para aproveitar outras coisas da vida – vivendo eternamente insatisfeito, invejando e criticando quem leva outra vida. A minha vida não é melhor do que a de ninguém – muitos, se a conhecessem, diriam que é bem pior do que a da maioria. Mas, olhando de fora, é fácil apontar “privilégios” ou “luxos” e “facilidades” que não existem.

É só parar e se perguntar: o que eu realmente valorizo? Do que eu posso abrir mão por coisas que me importam mais? Eu mesma não abro mão de algumas coisas e pago por elas. As escolhas têm seu preço, incindindo principalmente na nossa felicidade e no sentimento de realização pessoal.

Escolher dedicar-se aos estudos por mais tempo também tem um preço. Você paga em tempo, noites sem dormir, dores de cabeça, irritações, “apertos”. Não é um luxo. Quando você escolhe estudar, trabalhar, namorar, ter casa, tudo ao mesmo tempo, vai abrir mão de muita coisa, ou pode abrir mão de alguma dessas e ganhar outras. Para quem escolhe profissões ou carreiras menos comuns (vide as “artísticas”) isso é muito mais evidente. Há sempre aquele momento quando você precisa acreditar no que faz, dedicar-se de corpo e alma, abrir mão de meios facilitadores e confortáveis, e seguir. E nenhuma escolha é fácil.

Eu bem que poderia passar a vida viajando (não sou daquelas que diz que viajar é bom mas voltar pra casa é melhor) e escrevendo. Isso me bastaria. Hoje ainda não posso. Quem sabe um dia. Então, vou fazendo uma coisa aqui, outra ali, abrindo mão disso e daquilo que não me importam de verdade, às vezes até abrindo mão de coisas que me fazem um tantinho de falta, para conseguir encaixar essas coisas que amo e que me são essenciais. Nessas escolhas diárias vou mantendo fé naquilo que quero ter lá na frente – que pode ser viver viajando e escrevendo, quem sabe. Amanhã sei que estarei diante de escolhas que poderão mudar este possível destino final – e essa é a parte mais gostosa da vida. Escolhas são meios, se você não sabe para onde vai tudo fica bem confuso e difícil.

Eu escrevi ali “coisas que amo” e queria dedicar um post todo só para o amor. Passei dos vinte anos e já sei o que amo. Porém, sei que posso vir a amar outras coisas que hoje ignoro. Amor mesmo, no sentido literal, filosófico, poético, o incondicional, sem o qual você não pode viver, que é tudo, te completa, te faz feliz. No meu caso não é um “alguém”, por exemplo. Sei quais são as coisas que amo, incondicionalmente mesmo, e por elas guio minhas escolhas e abro mão do resto. E, bem, quem não conhece o amor não pode mesmo fazer boas escolhas nem ser feliz. Viram como não é fácil?

Eu amo o tempo. Amo como ele sempre faz tudo tão bem. Amo o nosso relacionamento tempestuoso. E foi o tempo que me ensinou tão bem o valor e o peso das escolhas.

Não critico as escolhas dos outros. Mas que tem muita gente errando por aí porque não sabe o que ama, ah, tem! E também tem muita gente que já sofreu pra caramba até perceber que só seria feliz ao escolher de acordo com o que ama – sou particularmente admiradora de algumas dessas.

Ainda hoje me disseram que o lugar onde moro é pequeno. Realmente é. Com ele aprendi a ter uma vida mais leve, menos acumuladora. Este ano cometi desapego até com as bolsas. Fui me desfazendo do que não preciso, do que não quero, do que não me faz feliz. Foram cartas, roupas, sapatos, bolsas, utensílios de cozinha, papéis, muita coisa mesmo. Não quero tudo. Mesmo se eu fosse dessas pessoas que têm dinheiro o suficiente para ter tudo o que querem, sei que eu não seria assim. Certos excessos me desgastam espiritualmente. Sou feliz onde moro pela localização, pela vista da varanda, por ser pequeno e me ensinar com isso, por me permitir ter uma rotina tão “econômica”. Nem TV a cabo eu tenho – se for para “ver”, prefiro ver com meus próprios olhos. E é assim que eu percebo e ouço tantos comentários reprovando minhas escolhas.

Estou aqui com uma lista de exatamente sete coisas sobre as quais terei que fazer escolhas. O tempo corre e tenho que cumprir prazos de escolhas que já fiz. A conta bancária suspira saudades. As malas vivem feitas e desfeitas. As últimas escolhas se mostraram fantásticas e com bônus sobre algumas das escolhas da lista que citei acima. É uma sensação boa demais. São realizações pessoais das quais não vou abrir mão. Hoje nada estragaria minha felicidade, nem uns tetos que balançaram. E eu garanto que não há privilégio nem facilidade nenhuma em nada disso.

“I´m not drunk, I´m just crying in english” a igualdade e suas Flores Raras

Na ida, subindo a minha velha conhecida Barão do Cerro Azul, reparei num casal. Jovens, recém passados pela adolescência, ele caminhava abraçando-a por trás, os dois agarrados, riam. Na volta, sinaleiro fechado, na esquina, paradas entre tantas pessoas, duas moças, da mesma faixa etária do casal da ida, de mãos dadas, carinhos e afagos pra lá e pra cá. Fiquei me perguntando onde estava, afinal, a diferença que tantos vêem. Casais são casais, simples assim.

Dias antes eu havia me redimido de um erro que praticava e que até citei num post do ano passado por aqui. Fui ao cinema assistir a um filme nacional. (sim, confesso, sessão dupla com um argentino, mas estou melhorando) Eu não ia ao cinema, mas, enfim, a vida se encarrega dessas coisas. A escolha foi Flores Raras.

E eu lá, sala praticamente vazia, sozinha no meu lugar de sempre, em alguns minutos de filme pensei: preciso escrever sobre ele.

Flores Raras não emociona. Flores Raras é um filme brasileiro majoritariamente falado em inglês, com atrizes estrangeiras (não estranhe o LEG no ticket do cinema). Porém, uma grande atriz brasileira quase subaproveitada no cinema e que divide o protagonismo da trama é quem garante excelentes momentos. Glória Pires é forte, se impõe, diva (como dizem) sem divar (sem a frescura que se espera de um papel ou de uma atriz “diva”).

Fiquei na dúvida, em vários momentos, se a personagem da Glória Pires – Lota, uma arquiteta auto-didata brasileira, responsável pelo projeto do Aterro do Flamengo no Rio de Janeiro e, para mim, mais uma ilustre figura da nossa História que eu desconhecia – não representava o papel clichê da homossexual “machona”. Muita gente ainda (e não é só por questão de preconceito) vê os relacionamentos entre lésbicas como uma “mulherzinha” e uma “machona”, aquela coisa de quem é o homem e a mulher da relação. Por ainda existir este tipo de visão que talvez tenha me incomodado que o personagem resvalasse para esta concepção. E foi o que eu mais li nas críticas por aí, que a relação entre ela e Elisabeth Bishop havia se dado pela força da primeira e fraqueza (ou sensibilidade) da segunda – e que, em determinado momento, se inverte. Sinceramente, este tipo de crítica parece esvaziar, minimizar a relação entre as protagonistas.

A relação entre Lota e Elisabeth é o comum – a maioria dos filmes, novelas e livros têm histórias semelhantes. Talvez um pouco diferente seja a relação com a outra ponta do triângulo, a colega da escritora e com quem Lota morava e mantinha um relacionamento amoroso antes de conhecer Elisabeth. O mais curioso no filme é que a qualquer momento você pode substituir a personagem de Glória Pires por um homem. Em outros tempos talvez um diretor o tivesse feito “inspirado” ou em “homenagem” à história real das personagens por receio de colocar um casal homossexual tão forte nas telas. Felizmente, apesar dos pesares da nossa sociedade, não foi o caso.

Pareço me contradizer, eu sei. Não é o lado “comum” da relação que esvazia a construção das personagens. É justamente assim que o filme alcança sua grandeza. É por tratar uma relação homossexual da forma como estamos “acostumados” (sempre desconfie dos costumes) a ver uma relação entre homem e mulher no cinema que ele esmiuça preconceitos e pré-concepções – talvez até aversões. Fiquei aqui remoendo um adjetivo para descrever como o diretor faz isso, difícil encontrar. Naturalizar talvez venha a calhar, digamos que ele naturaliza a relação homossexual ao equipará-la às relações heterossexuais que são maioria esmagadora nos filmes de ficção. Acredito que isso pode incomodar quem ainda abraça preconceitos.

Um ótimo exemplo são as (quase) cenas de sexo. Quando Lota e Elisabeth saem no jipe para ver as corujas e ficam sozinhas pela primeira vez, a personagem de Glória Pires a beija e rola uma mão boba. Numa outra cena, as duas se beijam com ímpeto e Elisabeth já menos “inibida” joga Lota contra a parede de vidro. É uma cena de agarramento, só isso. Na cena de sexo mais propriamente dita há o clichê do sexo oral, enquadra a personagem deitada com expressões de prazer e câmera frontal “em cima da barriga” focando o vazio e aparece o rosto da personagem subindo. Só isso. Assim, tão “hétero” quanto outro filme qualquer.

Num momento em que se exarcerbam as diferenças, eu tendo a admirar, ainda, quem aponta as semelhanças. Claro que seguinte a concepção de igualdade entre diferentes do Aristóteles. Mas me causa estranhamento e aversão (apesar de até conseguir compreender certos posicionamentos agressivos e sectários) querer diferenciar o negro do branco, o homo do hétero, o rico do pobre e por aí vai. Pode ser uma visão simplista ou até ingênua, contudo, ainda acredito que frisar e enaltecer as diferenças só aumenta o abismo já existente entre os “lados”. Se um filme exibe uma relação homossexual de forma mais crua, com o que ela tem de mais “diferente” (e aqui não vou me alongar nas possibilidades, mas ando curiosa com o Tatuagem, por exemplo), a probabilidade de aumentar o preconceito, a aversão e afastar o público é grande. Flores Raras faz justamente o contrário. Mostra com destreza que relacionamentos são todos iguais.

Se é uma escolha para torná-lo mais palatável ao gosto do grande público? Não sei. Vindo do Barreto talvez seja. Cabem críticas ao filme, sem dúvida. A única coisa que eu realmente considero que ele deixou a desejar foi a forma como tratou a questão política do contexto e a rapidez com que se deu o desenrolar final da história. Sobre o primeiro ponto há outras críticas por aí, na Cinética inclusive. O final conta com um melodrama de cartas não enviadas (não sei se ocorreu na história real) que parece desnecessário e bobo. Há um breve atropelo nas sequências após a briga delas em Ouro Preto. Foi o que me incomodou de fato.

Além do mérito de “naturalizar” (péssima palavra, mas me falta uma melhor) a relação homossexual, melhor ainda é a construção dos personagens. As três, Elisabeth, Lota e a outra ponta do triângulo (não recordo o nome), tem atuações e construções maravilhosas. É assim que se constrói uma relação num filme, com entremeios, altos e baixos, nuances. Tentar simplificar ou linearizar relações afetivas na ficção sempre soa falso. As pessoas não são assim – por que os personagens teriam que ser?

Se a intenção era agradar ao grande público, acredito que acertou. Mas também não desgosta aos mais impertinentes (como eu). Se é um bom candidato à indicação ao Oscar? Não tenho dúvida. Se é um bom candidato ao Oscar de filme estrangeiro? Acredito realmente que sim (e não só porque é falado em inglês, o que já pode ter sido feito pensando nisso, como bem sabemos). Não teria críticas à indicação, nem a uma possível estatueta. Aliás, acho muito concebível a indicação da Glória Pires. Apesar de a personagem da Elisabeth ter um maior destaque, Glória Pires encontrou uma força incrível em todas as cenas. Nunca fui fã dela, talvez prejudicada por papéis da TV que tendem a se repetir e os quais acompanhei pouco.

A locação da casa da Lota é linda. A história da criação do Aterro do Flamengo é interessante (Lota, inclusive, é acusada de elitismo ao pensar um lago como o do Central Park – e isto me lembra o próximo post – pois no Brasil ser acusado de elitismo por pensar e desejar coisas interessantes é comum). Eu gosto do ator que faz o Carlos Lacerda (e não sei o nome dele – já disse, sou péssima com isso). Apesar de poucas externas num Rio de Janeiro de época, ele em nenhum momento torna-se sufocante. As denúncias da nossa cultura são sutis, mas não passam despercebidas como a compra (literalmente) de uma filha para a ex da Lota – cena dura, que nos deixa desconfortável e ao mesmo tempo, ao acompanhar o crescimento da menina, nos faz ter aquele pensamento cruel “será que não foi melhor assim?”. Há, porém, algo que me fez revirar os olhos e pensar “mas precisava?!” (o que sempre me lembra uma mania de diretores de novela da Globo e do Olga naquela cena final na qual ela olha para trás, antes de morrer, e se vê criança): quando Elisabeth encontra Lota morta, há um corte para o Aterro do Flamengo e as luzes piscam (ou se apagam, não sei). Pra quê?!

Eu também não conhecia a obra da Elisabeth Bishop nem muito da relação dela com o Brasil. É intrigante acompanhá-la com os olhos de uma boa americana em terras tupiniquins. Como também é fácil ser despertado para a obra dela ao assistir como nasceram alguns versos. Tudo isso para além da discussão sobre as almas do poetas e criadores, suas fragilidades e crueldades.

“I´m not drunk. I´m just crying in english.” é só uma das célebres frases dela. Ao contrário do que faz o filme, marcando a vida de duas personagens reais interessantíssimas, Elisabeth diz, num certo momento, que os leitores não devem conhecer os escritores. Frase que me levou a vários caminhos – inclusive enquanto eu caminhava pela Barão do Cerro Azul. Ainda não cheguei a uma conclusão, mas seguindo um pensamento do Moravia, tendo a acreditar que os leitores nunca estarão preparados para conhecer os escritores. Enquanto isso, o cinema é mais eficiente em nos contar histórias sobre quem escreve – assim poupamos escritores e leitores.

Chovia na Sexta-feira

 

Subiu quatro andares pela escada. Não agüentava mais o peso das sacolas. O cachorro do 301 latia incessantemente. Por duas noites seguidas não havia dormido por causa dele e como se não bastasse, o casal de recém-casados que morava no apartamento de cima brigara logo pela manhã. O supermercado, neste final de tarde chuvoso de sexta-feira, estava apinhado, não fazia idéia como sobrevivera. E também não fizera boas compras. A porta do apartamento no final do corredor, e lá vinha a lembrança de que ele estava uma bagunça. Completamente desorganizado e com a limpeza três semanas atrasada. Parou em frente à porta para procurar a chave.

Abriu a porta e colocou as compras para dentro. Evitou olhar para os lados. A bagunça parecia gritar e gesticular. As coisas queriam voltar para os seus lugares. Começou a desfazer as sacolas, arrumar o que havia comprado nas prateleiras e armários, logo toca o telefone. Vai até a mesa ao lado do sofá e tira o fone do gancho, diz alô e escuta a propaganda de alguma coisa da companhia telefônica. Nem escuta até o final e desliga. Conclui, sem pensar muito, que aquele havia sido um dia exaustivo, e por isso mesmo não era propício a reflexões demoradas. Decide sentar-se no sofá. As compras continuam parcialmente desempacotadas flutuando em meio à bagunça.

Pegou um catálogo de móveis que estava jogado no sofá e começou a folheá-lo. Mas isso não durou muito. Foi para o quarto, jogou a roupa que estava usando junto a tantas outras que por ali estavam. Deitou e ligou a televisão. O cachorro do 301 recomeçou sua manifestação de enfado, enquanto o barulho de panelas e gritos aumentava no apartamento de cima. Trocou de canal algumas vezes, não viu nenhum programa em particular, desligou a televisão. Virou-se, fez o sinal da cruz, rezou três pai-nosso e fechou os olhos. A janela do quarto estava aberta, a lua cheia tentava aparecer entre as nuvens mas estava longe de obter sucesso.

Nada como uma manhã de sábado para acordar tarde e ficar na cama sem ter o que fazer. Pois não era esse o caso. Levantou-se e foi ao banheiro, ele seria a primeira vítima da quase detetização que seria preciso fazer para deixar o apartamento, no mínimo, respirável. Tirou todas as roupas e toalhas que estavam lá e esfregou cada centímetro de azulejo. Depois foi a vez do quarto: lençóis, roupas, papéis, todos expulsos. Varreu tudo, tirou o pó, limpou a janela e levantou o colchão para ventilar. Nem parou para almoçar e seguiu direto para a sala. Foi empilhando os papéis, livros e catálogos na escrivaninha; as louças de refeições passadas foram jogadas na pia da cozinha. Calma, havia algo de estranho com a cozinha. Ela estava com um aspecto mais organizado que na noite anterior. O cachorro do 301, após uma breve pausa, recomeça a latir.

Já estava no segundo andar quando ouviu um assobio. Virou a cabeça de relance e viu uma criança pequena, no vão entreaberto da porta do 203, acenando. Dirigiu-se hesitante para a porta, a criança foi entrando e continuou acenando. Depois de alguns passos, já dentro do apartamento, a porta fechou-se. Outra criança, ou mais exatamente, a mesma, havia trancado a porta e sorria com a chave entre os dentes.

Estava entre as duas crianças, ambas sorrindo, idênticas na fisionomia e na ação. As crianças começam a entoar uma canção de ninar. As palavras não lhe ocorrem. As crianças dançam a sua volta, rodopiando. Um cheiro forte, vindo delas, vicia o ar. O apartamento começa a girar. As crianças param na sua frente, fazem um aceno, dão-se as mãos, correm em direção à janela, sobem, uma em seguida da outra, no parapeito e, sem cessar de sorrir, recomeçam a canção. As crianças, de mãos dadas, atiram-se pela janela. O chão do apartamento aproxima-se dos seus olhos. A calçada aproxima-se rapidamente das crianças.

Polícia. Ambulância. Sirenes. Vozes. Gritos. Vizinhos. Latidos. Choros. Não parara de chover. O calendário marcava lua cheia. Tempo de serenatas, passeios de barco, lobos uivando e caçando suas presas.

Domingo, mas o movimento do prédio só aumentara. Os velhos recebendo visitas dos filhos, netos, bisnetos. Os casais mais novos sendo vigiados pelos pais e amigos. Os filhos de pais separados sendo carregados e descarregados. Os solteiros chegando dos passeios. O sol fraco de inverno aparecia e gritava que a primavera viria em breve. Algumas pessoas acreditavam. Outras, apesar dos gritos, não ouviam. Muitas insistiam em teorizar contra.

As compras que estavam na cozinha, ainda dentro das sacolas, perguntavam-se quando chegaria seu momento de glória. As maçãs estragavam lentamente. O apartamento estava arrumado, as janelas abertas. O cão do 301 fora ao veterinário, depois de muitas reclamações veladas dos vizinhos, e estava tomando um calmante, não latia mais e todos esqueceram que um dia ele existira. O casal do apartamento de cima brigara no último final de semana, na frente dos pais dela que eram divorciados e ela, aos prantos, foi passar alguns dias com a mãe. O pai dela marcou de visitar o genro para assistirem futebol, torciam para o mesmo time, e disse que levaria a cerveja. Ninguém podia deixar de notar as novas vizinhas que mudaram para o apartamento 203. Três moças que estudavam e trabalhavam.

O jardineiro cumpria seu papel e plantava um pé de jasmim ao lado da calçada, na frente do prédio. O sol passeava. A lua às vezes aparecia. Para completar a semana, era sexta-feira. Chovia. A cidade estava conturbada. O cheiro de jasmim entrava pela janela do quarto e impregnava o colchão. Na sala, os papéis voavam com o vento e emprestavam ao ambiente um ar fantástico e bucólico. As compras, desprezadas nas sacolas, indignavam-se. As maçãs haviam desistido de esperar. A louça que estava na pia para ser lavada desistira e encaminhara-se para os armários. No sábado pela manhã o entra-e-sai do prédio recomeçara. A chuva esquecera-se de aparecer. O céu estava azul, as nuvens rodopiavam com o vento, uma mãe embalava um bebê no berço e cantava uma canção de ninar. As nuvens despediram-se e cederam seus lugares ao sol.

Histórias Vizinhas

 

Era quase a hora do sol se pôr, a rua estava deserta. Rua de cidade do interior, sem asfalto, algumas árvores pelas calçadas, casas antigas, jardins bem cuidados. Havia uma casa, de madeira, pintada de azul desbotado com janelas rosas que destacava-se das outras. Não só pela combinação gritante das cores como também porque era a única que parecia abrigar vida. Uma música, um pouco bolero, um pouco salsa, vinha de sua sala da frente. O som parecia embalar a rua e as árvores, ela ditava o ritmo do vento. O jardim também despertava a atenção pelo colorido e pela diversidade de flores e plantas. Apesar de pequeno, o terreno estava em comunhão com a casa e a música.

Uma menina loira, magra demais, com dentes de oito anos ainda não completos, corria, ou melhor, saltava pela rua em direção à casa. Trazia uma sacola de supermercado com tangerinas na mão direita e uma pasta preta no braço esquerdo. Ela abre o portão em estado precário do jardim e atravessa-o gritando e correndo ao mesmo tempo. Da janela da frente surge uma mulher loira, que pelos traços e sorriso diz ser sua mãe. A mulher está com um pincel na mão esquerda, e quando a menina entra na sala e lhe dá um beijo a sala apresenta-se como um ateliê de pintura. Muitas revistas, fotos e desenhos a carvão estão espalhados por todos os lados. Não pode-se mais chamá-la de sala pois não há nenhuma TV ou mesa de jantar. Apenas um velho sofá rasgado, embaixo da janela, um cavalete em frente e algumas almofadas pelo chão. A sala, não… o ateliê, o ateliê é grande e ocupa toda a extensão da parte da frente da casa. No canto esquerdo, entrando pela porta, há vários vasos com plantas grandes e de um verde saudável. Na parede em frente à porta há pequenos vasos, plantados também por alguém dito pequeno, com flores delicadas e coloridas. Não há mais nada ali. A pasta a menina deixa no chão, enquanto gira abraçada com a mulher. A menina começa a falar ininterruptamente e mostra as tangerinas. A mulher larga o pincel num pote com solvente e aperta as bochechas da menina, que sorri com o rosto sujo de tinta. As duas seguem para a porta que liga a sala, não é sala, é um ateliê, então, que liga o ateliê com o resto da casa.

Passada a hora do sol se pôr, chega de mansinho a noite que convida para conversas calmas e profundas. As duas estão sentadas na cozinha que tem uma porta para o quintal da casa. Quintal bem cuidado, com uma horta de temperos e árvores frutíferas. A cozinha também é simples. Sobre a mesa há um lampião que ajuda a iluminar o caderno da menina, há apenas duas cadeiras e um armário na parede, igual ao da pia. Não há fogão, somente um fogareiro de camping em cima do tampo da pia. A menina concentra-se arduamente para resolver as questões que não se mostram tão complicadas, mas ela não consegue fazer o que lhe é pedido sem esforçar-se demais. A mulher está sentada ao lado direito da menina e descasca uma tangerina. Aparece pela porta um cão sem raça, peludo e grande, abanando o rabo. Ele senta-se entre as duas e começa a latir. A mulher divide sua tangerina com ele que deita no chão de madeira para devorá-la.

Já é tarde. A rua continua vazia, o som da música se foi, agora nada tem vida. As janelas estão todas fechadas, os portões também. Poderia se prever alguma desgraça, ou infortúnio apenas, num cenário tão calmo que fosse assaltado por alguém desavisado. Mas o que acontece é outra coisa. Poderia se dizer que algo exatamente ao contrário? Não se sabe…

A lua minguante está alta. Algumas pessoas dormem tranqüilamente, outras não. As primeiras não estão necessariamente de consciência leve, são simplesmente pessoas que não pensam. As últimas, se não dormem tão bem, ou nem dormem, pensam. Pensam em coisas boas, sonhos talvez, ou em problemas e situações nas quais não gostariam de estar. Mas há quem esteja pensando na vida dos outros, pois a sua é tão sem paixão que é preciso viver a vida de alguém para suportar a própria. É uma dessas últimas que interessa agora. Ela, ou melhor, ele, é vizinho da casa da qual falava-se a pouco. E ele pensa na cena que viu na hora do pôr-do-sol. Aquela mesma que você viu. No entanto, ele viu só até o momento da chegada da menina. É um morador novo na rua, herdou a casa do tio que era solteiro, como ele, e havia ido morar lá para estar mais perto da avó, a única pessoa que restava da família. Ele está deitado numa cama de casal antiga, de madeira maciça, pesada e escura. A casa é a mais aristocrática da rua, pois a cidade não abrigava muitas pessoas de gosto tão austero. Não se pode dizer que a casa tinha um ar sombrio, seria dramatizar demais, porém seu jardim era triste e o mato tomava conta, assim como o cimento.

Como já foi dito, ele não estava dormindo. Imaginava, de olhos fechados, a cena que havia presenciado pela janela da frente da casa. Esta janela era da sala, uma sala mesmo, não era um ateliê porque nem ele nem o tio tinham ou pensavam que tinham algum dom artístico. Nem havia percepção artística neles. Ele seguia a menina com os olhos e reconstruía a entrada dela na casa. Após isto acontecer, ele começava a criar mentalmente os acontecimentos e, é claro, pode-se concluir que não eram fiéis aos narrados aqui. Por ter sempre vivido em ambientes sufocados, ele via a casa da menina do mesmo modo, cheia de móveis e pessoas. Crianças, prováveis irmãs e irmãos da menina, um pai displicente, como também havia sido o dele, uma mãe com as marcas do tempo e do trabalho escritas no rosto, como ele se recordava da sua. Ah, havia um cachorro que pulava e latia, e por isso era escorraçado da casa pelo pai furioso com o barulho das crianças e do animal. O pai reclamava exigindo que a mãe desse conta da bagunça, afinal ele queria um momento de paz para poder assistir à TV. Sim, nesta sala havia TV. E muitos móveis. A sujeira era visível, a desorganização era prova do excesso de trabalho que fazia com que a mãe deixasse as coisas por fazer.

Ele queria distanciar-se do quadro, tão familiar. Mas algo fazia com que ele fosse um observador quase personagem. A mãe foi servir a mesa e uma criança muito pequena, talvez a mais nova, puxou-lhe o avental, o que fez com que ela se desequilibrasse e ele, ali perto, estendeu a mão para segurar o prato que caía. A mãe olha para ele assustada, seu rosto desvanece num sorriso agradecido e cansado. Ela já não acredita que possa contar com a ajuda de alguém. Ele tenta transitar pela sala, uma náusea o toma de assalto. Não há espaço, nem ar puro. O pai fuma e bebe cerveja. De camiseta regata branca e suada, peito peludo, ele lhe atira um olhar de desprezo e não gasta seu tempo com o visitante onírico. Duas crianças brincam no espaço que há entre a TV e o sofá. Uma menina e um menino, mais ou menos da mesma idade. A menina puxa o cabelo do menino por conta de alguma desavença infantil. O pai escuta o grito estridente do menino, que começa a chorar teatralmente. A menina olha, como uma coruja, para o sofá onde o pai está sentado. Ele ergue-se imediatamente e berra. A cinta de couro, desgastada pelos anos de uso, é tirada com rapidez. A cena é congelada: a mãe arregala os olhos, entreabre a boca; as outras crianças postam-se como se estivessem numa cerimônia mística. A menina agressora, por assim dizer, treme um instante e mantém-se imóvel, o menino, o agredido, afasta-se lentamente da menina, que fica sozinha no meio do tapete vermelho e amarelo. A cinta vai baixando e no primeiro estalo seco do encontro do couro com a pele branca da menina a mãe soluça e agarra a menina mais nova como se houvesse uma tempestade e elas temessem os trovões. Algumas crianças fecham os olhos e parecem sofrer junto com a irmã, ou apenas recordar o seu próprio sofrimento de surras passadas. Mas outras crianças ficam extasiadas e não conseguem desviar o olhar, a dor não toma parte nos seus pensamentos, há apenas um espetáculo do qual eles participam, não importa se eles mesmos já estiveram no centro do picadeiro.

O vizinho vê a seqüência dos eventos numa lentidão ocasionada pelo seu cérebro que demora a organizar tudo aquilo. Ele mesmo sente o impacto de cada cintada, sua pele arde, seus olhos lacrimejam. A menina, que antes era agressora e agora é agredida, está em convulsões no chão, esparramada, desgrenhada, grita de dor, grunhe. O pai grita mais alto, fala em “paz”, manda que ela cale a boca, senão ele continuará a bater. A platéia assiste, cada um no seu devido lugar. O vizinho vira-se na cama, suspira e passa a mão nos olhos. Ele está suado. Abre os olhos e contempla o guarda-roupa, seu olhar vai para além do guarda-roupa, além do espaço do quarto. Nem ele sabe para onde.

Ele, depois de acordar, pois havia dormido um pouco, está sentado na janela da cozinha, que fica de frente para a parede lateral da casa azul. Há, ali, uma janela pequena de um quarto. Uma cama com lençol infantil, uma caixa de papelão com brinquedos baratos e um cavalinho-de-pau. A menina de seus pensamentos entra chorando no quarto, com as marcas da surra da noite anterior e outras que demoram a desaparecer. Ela fecha a porta e deita de bruços na cama. O pai entra logo em seguida, seu rosto aparenta um ar arrependido. Mas o vizinho vai entrando no quadro e vê que aquele rosto não trás nenhum arrependimento com ele. O pai senta na beirada da cama, fala baixinho com voz suave, o quanto uma voz de ferro pode ser suave, e passa a mão na cabeça da menina. O vizinho aproxima-se da cama, pelas costas do pai, e ouve-o dizer que nunca mais a machucará, que ele só quer o seu bem. Ele explica, com poucas palavras, que está cansado, que ela precisa aprender a ser obediente. O vizinho vê a mão do pai ir descendo pelo pescoço da menina numa carícia cortante. A menina soluça quase imperceptivelmente. A náusea toma conta dele e ele tenta sair dali, mas como algumas crianças que haviam ficado hipnotizadas no espetáculo da noite, ele fica ali, olhando a mão do pai descendo pela coluna da filha, passando pelas suas nádegas, apalpando-as, e seu olhar já não tem nenhum resquício de arrependimento. A mão ergue a saia da menina, ele diz que, finalmente, ela aprenderá a obedecê-lo. Ele tira brutalmente a calcinha da menina e a cheira de olhos fechados, extasiado. O vizinho acerca-se dos pés da cama, senta-se e vê o corpo seminu da menina. O pai levanta-se, abre a calça, apóia o joelho esquerdo onde ele estava sentado, depois as duas mãos, uma de cada lado da menina, e vai deitando-se devagar sobre ela. O vizinho fica ali, olhando. O suor escorre do pescoço e braços do pai, lágrimas dos olhos do vizinho.

Ele levanta-se da cadeira, já na sua cozinha, e leva consigo a xícara de café que está frio. Dirige-se a pia, joga o café no ralo e vai até o jardim pegar o jornal. Quando está descendo a escada, vê a menina loira passando na calçada da sua casa. Ela olha para ele e sorri timidamente. Ela carrega a pasta preta na mão direita. Ele sente-se nauseado e vira as costas para a menina, que arregala os olhos sem compreender e continua andando.

 

 

Domingo: Vivaldi e supermercados

 

Tocava Vivaldi e eu almoçava. Que porra era aquela? Era domingo e eu só queria sair. Tinha sol. Sol, entende? Semanas inteiras de chuva e era um domingo com sol. A lista do supermercado anotada na geladeira “ARROZ FRUTAS VERDURAS PIPOCA”. Antigamente e nem tão antigamente assim, supermercados não abriam aos domingos. Por que eles abriam, agora, aos domingos? Ninguém morreria de fome se eles não abrissem aos domingos. Supermercados, fechem aos domingos. Dêem aos seus funcionários o prazer dos domingos ensolarados. Ou dos domingos chuvosos, debaixo das cobertas com seus filhos, ou com os namorados fazendo filhos, matando ausências. Não irei ao supermercado. É um comodismo o qual eu não preciso. Anunciarei, à noite, em tom solene: não teremos pipoca para o filme de hoje. Com seis dias da semana para ir ao supermercado, por que eu iria no domingo?! Não via o fundo do prato. Eu só queria ir caminhando, com a parada para fumar meu cigarro diário escondido, até o parque. Queria sentar naquele banco em frente ao lago, fingir que era homem de exercícios na minha roupa de lycra e poliéster – e sem fôlego por causa do problema nos pulmões que o cigarro me dera. Ninguém desconfiaria. Sorririam como se eu fosse um deles – amante da natureza e da vida saudável. Queria ficar ali rindo escondido de todos que tropeçam naquela irregularidade da pista de caminhada. Por isso sento-me naquele banco. Imperdível. E Vivaldi. Acabei um prato e ele continua. Agora virá o prato principal. E ainda haverá sobremesa. Lá do banco espero ansioso aquela moça que caminha sempre bem devagar e com fones de ouvido. No mundo dela não existe mais ninguém. Ela olha e não vê. Como eu faço com meu sogro aqui ao lado. Que inveja dela! Frango assado e polenta. Que porra era essa?! O que adiantava ir ao supermercado se ela só cozinhava as mesmas coisas? Presto atenção… este trecho de Vivaldi eu intitularia “marcha para um suicídio”. Seria uma boa trilha para quando eu anunciasse “não irei mais ao supermercado aos domingos”. E a sobremesa. Pudim. Pudim, porra. O pudim da mãe, da vó, do buffet barato, de caixinha do supermercado. Pudim.

Vênus

 

Toda vez que olho o céu, e o faço todas as noites, procuro a estrela mais brilhante e penso que lá estão os que eu amo e que não estão mais ao alcance de um abraço. Pois quando eu era criança… nem tão criança porque já havia passado por aquelas coisas que nem adultos dão conta de viver, eu assisti àquele desenho, no qual o pai leão rei à beira da morte dizia ao filho que quando ele ficasse triste era para encontrar a estrela mais brilhante no céu e que lá estaria ele olhando pelo filho. Nem sei se foi nessa cena, sei que foi neste desenho. Enfim, desde então eu olho para o céu… e fico um tantinho mais triste quando as nuvens não me deixam encontrar a estrela mais brilhante.

Eis que encontrei uma bem bem bem brilhante, na porta de casa. Da varanda ou da rua, é só escurecer um pouco o céu e lá está ela, muito brilhante, sempre no mesmo lugar, por vezes solitária. A curiosidade me tomava: então agora eu tinha a minha estrela brilhante anti-tristeza com todos aqueles que eu amo do mundo de lá assim pertinho de mim?

Não, um dia descobri que não era uma estrela (bem achei que era estranha). Se eu fiquei triste? Não. Fiquei ainda mais feliz. Dizem que é Vênus. Sim, Vênus, aquele, o do amor.

E eu que já sou sempre fui (não se enganem, não é erro de digitação, é pra ser assim e contemplar um belo tempo verbal) apaixonada pelo amor, agora estou namorando-o. Me faz companhia, sempre olha por mim quando chego muito tarde em casa, passamos horas namorando na varanda, ao som de alguma canção, embalados em dúvidas e contemplações, admirando as companheiras de céu. Eu que ficava aqui a observar os aviões que chegam e partem, ouvindo e vendo um ir e vir charmoso, agora tenho companhia para tal. Às vezes brincamos de adivinhar qual o destino, ou a origem, do avião. Às vezes criamos histórias para seus passageiros. Às vezes prevemos tragédias. Vênus, aquele, do amor, não tira os olhos (ou o brilho) de mim. Às vezes… bem de vez em quando… ele não aparece, como hoje que umas nuvens de sujeira tomaram conta do lugar dele. Não sei se ele foi atender algum outro apaixonado, ou se foi intervir em alguma desavença, ou se anda enamorado de outra varanda. Eu não tenho ciúme. Senti falta dele quando vinha caminhando pela rua… senti falta dele quando fui fechar a varanda e senti falta da nossa longa e sorridente despedida – aquela de todo dia. Sei que amanhã, ou depois, ou depois, ele estará de volta. Por isso não me preocupo. O amor é assim. E é difícil chover por mais de três dias seguidos na Ilha.

 

Vênus

Toda vez que olho o céu, e o faço todas as noites, procuro a estrela mais brilhante e penso que lá estão os que eu amo e que não estão mais ao alcance de um abraço. Pois quando eu era criança… nem tão criança porque já havia passado por aquelas coisas que nem adultos dão conta de viver, eu assisti àquele desenho, no qual o pai leão rei à beira da morte dizia ao filho que quando ele ficasse triste era para encontrar a estrela mais brilhante no céu e que lá estaria ele olhando pelo filho. Nem sei se foi nessa cena, sei que foi neste desenho. Enfim, desde então eu olho para o céu… e fico um tantinho mais triste quando as nuvens não me deixam encontrar a estrela mais brilhante.

Eis que encontrei uma bem bem bem brilhante, na porta de casa. Da varanda ou da rua, é só escurecer um pouco o céu e lá está ela, muito brilhante, sempre no mesmo lugar, por vezes solitária. A curiosidade me tomava: então agora eu tinha a minha estrela brilhante anti-tristeza com todos aqueles que eu amo do mundo de lá assim pertinho de mim?

Não, um dia descobri que não era uma estrela (bem achei que era estranha). Se eu fiquei triste? Não. Fiquei ainda mais feliz. Dizem que é Vênus. Sim, Vênus, aquele, o do amor.

E eu que já sou sempre fui (não se enganem, não é erro de digitação, é pra ser assim e contemplar um belo tempo verbal) apaixonada pelo amor, agora estou namorando-o. Me faz companhia, sempre olha por mim quando chego muito tarde em casa, passamos horas namorando na varanda, ao som de alguma canção, embalados em dúvidas e contemplações, admirando as companheiras de céu. Eu que ficava aqui a observar os aviões que chegam e partem, ouvindo e vendo um ir e vir charmoso, agora tenho companhia para tal. Às vezes brincamos de adivinhar qual o destino, ou a origem, do avião. Às vezes criamos histórias para seus passageiros. Às vezes prevemos tragédias. Vênus, aquele, do amor, não tira os olhos (ou o brilho) de mim. Às vezes… bem de vez em quando… ele não aparece, como hoje que umas nuvens de sujeira tomaram conta do lugar dele. Não sei se ele foi atender algum outro apaixonado, ou se foi intervir em alguma desavença, ou se anda enamorado de outra varanda. Eu não tenho ciúme. Senti falta dele quando vinha caminhando pela rua… senti falta dele quando fui fechar a varanda e senti falta da nossa longa e sorridente despedida – aquela de todo dia. Sei que amanhã, ou depois, ou depois, ele estará de volta. Por isso não me preocupo. O amor é assim. E é difícil chover por mais de três dias seguidos na Ilha.

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