Atire a primeira pedra

Atire a primeira pedra

Carregue consigo um saco grande, cheio delas

atire, também, as segundas e as terceiras pedras

atire a primeira pedra com gosto.

Infle-se de vontade

e atire-a com toda a força;

atire a primeira pedra.

Diante de pecadores

traidores e fornicadores

atire, claro, a primeira pedra.

Leve um caminhão cheio delas

empunhe uma a uma

e atire-as todas nos maus governantes.

Atire a primeira pedra

no teu pai, no teu avô

na tua irmã

quando descobrires que não são santos.

Atire a primeira pedra

na tua esposa

quando ela sorrir lábios carnudos vermelhos

para o moço da mesa ao lado.

Como bom pai que és

atire a primeira pedra

no teu filho com zero em Português

com as mãos sujas no almoço

que escondeu revista de mulher pelada

que respondeu pra professora

que bateu no vizinho pequeno

que chegou tarde da balada

que bebeu até cair

que engravidou a filha da costureira

atire, uma a uma.

Atire pela janela

a primeira pedra

no cara que estacionou no teu portão.

Guarde sempre algumas pedras

para algum caso de emergência

e não correr o risco

de ficar de mãos vazias.

Tenha pedrinhas guardadas

debaixo do teu leito

debaixo do banco da igreja

na gaveta do escritório

e, quem sabe, na cueca.

Atire a primeira pedra

e, em alguns casos, atire mais

todas que tiveres.

Não esqueça de ir ao riacho

pegar mais pedras

de todos os tamanhos.

Ao se deparar com larápios

assassinos, sonegadores

maus professores, vagabundos

e até alguns inúteis

não economize:

atire tuas pedras.

Quando elas acabarem

e deres as costas

sozinho então

estarás

e a dura lição

aprenderás

“vá e não peques mais”.

O teu segredo

Tem um segredo

escondido no teu quarto

a cada hora que cai

se derrete mais o teu peito

segredo que não contas

ao veneno do vento

que tens envolto

num lenço de quatro pontas

teu segredo deixa o ar frio

te consome em chamas

de medo e apreensão

te afoga no denso rio

Eu sei onde escondes

o teu segredo.

Na luz apagada

na porta fechada

no silêncio estático

a alma acesa

os olhos abertos

a pele trêmula.

Ovelha negra na sala

Laços se desatam

de lembranças vivas à flor da pele

desisto.

Fico a contemplar o vazio

que se espelha no futuro

do abandono.

É o pequeno pássaro que caiu do ninho

o peixe fora d’água

a ovelha negra na sala.

O biscoito da sorte lhe diz

“tudo o que poderia ter sido e não foi”

azar maior não há.

Se ainda haverá, não há quem diga.

Como se tivesse capinado

o Mato Grosso inteiro

se tivesse colhido o milho

de toda América Latina

ou se medisse todas as linhas férreas

dos Estados Unidos.

Poucos futuros sobrevivem

ao peso do passado.

Ah, se deixassem!

Se permitissem o descanse em paz

sete palmos acima.

E preparo-me para mais uma noite

de sono.

Deixa, deixa

Deixe

deixe que cresça

deixe que cresça tudo o que plantares

Deixe que cresça o teu amor pelo próximo

deixe que cresça o tempo que perderes

deixe que cresça pelas ladeiras teu descaminho sem volta.

Deixe que cresça o mato e teu olhar pela janela

deixe que cresça longe de ti os lagartos da existência

deixe que cresça o sorriso e deságue em gargalhada.

Deixa crescer o desamparo dos que te amaram – e fugiram

deixa crescer a vontade!

Deixa crescer tua pressa por voltar atrás

e todas as dores pelo mal que fizeste a alguém.

Deixa crescer a tua ânsia em ser… melhor.

Deixe que cresça a ganância da superioridade daquele

deixe que cresça as vaidades dos que te cercam

deixe que cresça limo nos desusos.

Deixe

deixe que cresça

deixe que cresça tudo o que dás ao mundo

deixe que cresça teu amor louco, cego e surdo

deixe que cresça a realidade dentro do teu quarto escuro

deixe que cresça no vazio as ofensas mais bruscas

deixe que cresça no alto da árvore o ninho de passarinhos.

Deixa crescer sem te preocupares

deixa crescer sem tirar-lhe os olhos

deixa crescer que um tanto de indiferença sempre cabe

deixa crescer até tudo aquilo que já sabes.

Deixa crescer pelos mares, teus sonhos

deixa crescer as chances de nunca mais partires

deixa crescer a saudade que sentem de ti

deixa crescer a lista de arrependimentos

e não esqueças de riscar alguns com o passar do tempo.

Deixa crescer a sombra ao despontar o sol

deixa crescer a distância entre teus dissabores

deixa crescer o que servirás à mesa.

Deixe que cresça espécies de amor em extinção

deixe que cresça amores que nunca vingarão

deixe que cresça perdões em profusão

deixe, deixe – deixe que cresça também um tanto de paixão.

Deixe que cresça o teu passado

deixe que cresça o teu ouvido no silêncio

deixe que cresça – e não esqueça de adubares.

Aos que te enfastiarem, sussurre

– Deixa, deixa.

Deserto

Salvo meu corpo

de afogar-se nos meus prazeres

encontrei por acaso uma bóia

E de tédio nela

me vi ao escurecer os sentidos

que gente dá muito valor ao sentir

Não quis não quis

gente também ama querer

e não basta: tem que ter

Salvei-me do sentir

do querer

e do ter.

Há prazeres que nos chegam sem querer

há prazer, até, no pensar

(não que eu seja daqueles que opõem o sentir ao pensar)

busquei o prazer no não – não ter, não querer, não ir, não voltar, não…

E era então deserto

40 dias e 40 noites

de tentações? não

Provações, (você tentou adivinhar). Também não.

De afirmação.

Tem quem é – poucos, que alguns disso se salvam

e são esses que provam diante de Deus ou do diabo.

Ser não lhe dá prazer – orgulho talvez

pra que se orgulhar de nada ter, de nada querer.

E era deserto então

frio noite, dia calor até do chão

engano ver nada no deserto – de milhões de grãos se faz a vida

engano ainda prever solidão – quem é está sempre consigo

Um cederia à tentação do pão

o da direita à tentação da imortalidade

o da esquerda à tentação da dúvida

Todos caem.

Quem não vê que o deserto é vastidão;

e os Filhos sobreviverão

a alimentar-se de miragens – das mais belas miragens.

Nota

Onde torres são erigidas

Pedaços de terra são perdidos e conquistados

Onde há guerra ao lado

E as pessoas querem ser corajosas

Um gole de bondade

Uns petiscos de solidariedade

Nada vai e tudo volta

Em nome de que eu existo?

Cá estou, meu senhor, este é meu nome

Sobrenome, religião, princípios

Aqui, veja, tem até a hora que sinto fome

Agora pode, senhor, dizer quem eu sou?

Os arranha-céus e os igarapés

As bandeiras hasteadas

E o discurso de paz

Talvez se eu lhe disser, senhor

Qual o meu livro favorito?

Se prefiro anéis ou brincos?

Qual o meu signo?

Então me dirá se: culpado ou inocente

Onde doces as vinganças

Amargas as vitórias

Os heróis de terno não sabem seu destino

Senhor, por favor, uma nota de pé de página:

Não ato laços, eu crio casos.

amor de sueños

En mis sueños

tu y yo

y toda una realidad

que de los males no quedaba nada

tu y tu vida

yo y mis defectos, miedos y todo lo comprensiva que soy

esperaba los ángeles y los santos en la escena

a endulzaren nuestro amor que hace tanto

había de ser amado

y repartido en noches y días de problemas y desilusiones

el amor no pide finales felices

ni contratos y casamientos

ni que le des tu juventud y deseos

ni certezas ni planes

Nuestro amor solo pidió

un sueño

una invitación para cenar

un postre que me hizo suspirar

y lo sabía que tu

tenía hijos y trabajo y descreencias

y me pidiera que nunca lo dejara solo

por primera vez sentí que sería yo

sin disfraces ni negaciones

y ahora teníamos la mitad de nuestras vidas

para darle uno al otro

Teníamos ahora este amor

que no es esclavo ni amo

ni secreto ni anuncio de jornal

ni para siempre ni hasta mañana

ni de una dosis ni de resaca

ni de mentiras ni de verdades

ni de soledad ni de placer

teníamos ahora

este nuestro amor que es de sueño.

Dos rios que atravessam cidades

Por que de ti afastam seus olhos?

Por que fingem que tu não existes?

Por que, num triste dia, deram-te as costas?

Cumpro aqui meu exílio

E faço-te companhia

Perdi horizontes sufocados a Norte e Oeste

E ficamos tu e eu a olhar quem não nos vê

Ó, Cachoeira!

Ouvi histórias de tuas glórias

Vejo-te sem poesia entre duas vias

Teu lodo não me detém em mistérios

E teu futuro não parece ter remédio

O que sabemos, tu e eu, do porvir?

Nada. E nada somado a nada

Já são águas passadas!

Tu, que trouxeste gente a esta terra

Mínguas em arrependimento

Da desgraça do que fizeram contigo

Tu que eras Rei límpido entre o verde

A sonhar-te um Nilo ou um Sena

O Tâmisa da proclamada Manchester

Entre suspiros querias ser o Tejo dos Poetas

Ou ouvir-te eternizado como o Danúbio

E para tantos sonhos

Não tens tamanho, não tens amor

Ó, Cachoeira

Teus jasmins arrancaram

E destruíram tua moldura de petit-pavê

À solidão te condenaram

Cercado por frondosos feios Ficus

Em tua cela de muros de pedra

Exilados nesta cidade

Aproxima-se o dia

Em que torres sufocarão o céu

E teu preto – cor do desprezo com que és tratado

Refletirá os corações – não mais tocados pelo sol

No jardim

A menina brinca com a boneca sob o sol

a areia suja seu vestido

o tempo todo ela sorri

sorri com ela as rosas e os jasmins

O sabiá a observa sem fazer ruído

cata minhocas e insetos

pensando no filhote que deixou no ninho

com medo que ele caia e se machuque

A avó borda uma toalha

sentada na sombra da varanda

repuxa os óculos que teimam em cair

e espia o cachorro que dorme a seus pés

Do nada, tudo parece sacudir

é a menina que vem chorando

aos soluços, agarra a boneca

que perdeu a cabeça.

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