Pela metade

Arrisco

perder todo o fôlego

da vontade

em dias que não terminam

com ver-te

chegar junto à brisa

do meio da noite

Condenada

à impaciência

e ao desânimo

atraso planos

risco calendários

anoto feriados

Caem

as horas inquietas

sobre um Verão

quase pela metade

que completa

nossos sonhos

de banhos de chuva

de bicicleta

 

Lá se vai o mês

lá vem o acalmar

das ruas

e meus olhos fecham

o dia mal vivido.

Restou

(à Mogli)

 

Restou

o vento entrando pela janela aberta

sobre fotos que nunca tiramos

e meu choro contido

de desacreditar no que lia

 

Restou

meu sorriso

do que passamos juntas

dos segredos que te confidenciei

e das discussões acaloradas

 

Restou

a culpa a voz silenciada

o som da tua gargalhada

o teu “não, só escuta”

e eu te ouvia – quieta

 

Restou

ser tua amiga

você minha única

sempre só fui boa com palavras

elas sopram teu destino

Mapas

Alvo fácil

aos teus pés

o mar se rendeu

inúmeras ilhas

donde desembarcar

 

Ao luar

lilás

amarraste

teu barco

às mãos atadas

do destino

 

longas estradas

percorres-te

e o sorriso

a navegar

tão perto

num ondular

crônico das tuas

palavras

 

Descobriste

os mapas

dos costões

e da liberdade

O Novo

O novo

é o que se repete

todo ano

 

é ver a mesma flor

no mesmo jardim

na mesma época

 

é banhar-se no mar

da mesma praia

em toda temporada

 

é beijar-te à meia-noite

sempre aos sábados

todas as semanas

 

é negar a si mesmo

enveredar caminhos

de outros tempos

 

todo ano

repete o que se

espera novo.

Não sabem

Se todos soubessem

não seríamos nós

 

os ventos sopram a favor

e entre linhas és meu leitor

 

apregoamos versos e verdades

ao desviar das maldades

 

as mãos cansam no limiar do dia

fechamos os olhos em sintonia

 

nas ondas do mar a espera em mim

e sacrifícios duram tardes sem fim

 

ah! se todos soubessem…

 

não seriam histórias

resumiriam as fofocas

não seríamos nós

a buscar noites frias

na segurança do balanço da rede.

Palpitantes

A saudade

fala todas as línguas

percorre vias públicas

nas rodas de skates

e rollers das crianças

desatentas

brilha nos olhos

das gatas que perambulam

no escuro

atrai as famílias

em bando para a foto

aos pés das árvores

de Natal da praça

duvida do que lhe

trará o futuro

incerto nas mãos

de alguém tão incauto

carrega lágrimas

que não disparam

diante do silêncio

elétrico do chuveiro

demora as horas

das distâncias em

quilômetros e metros

e dos relógios que

tremulam apenas

dez minutos

A saudade

cala todas as línguas

atira-se de pontes

afoga-se nas baías

agarra-se aos molhes

pega carona com os navios

pendura-se nos aviões

a sobrevoar recantos

de mares e amores

A saudade

mata todas as línguas

palpitantes de um beijo

ao quebrar das ondas

no entardecer.

Os braços

O peso do mármore

e os dedos esfolados

denunciam o perfil

atarracado e de mãos

grosseiras

 

À distância se vê

o escultor

 

A leveza dos tubos

a maciez das tintas

o leve não-tocar

do pincel sobre a tela

e a figura esquálida

porosa e frágil

 

Eis aqui

o pintor

 

O nervosismo do set

as neuras das atrizes

e a chuva no dia

de uma importante externa

percebe-se na velhice

precoce e na barriga

saliente

 

O sempre presente

Diretor de cinema

 

Às vezes trilha linhas

a machadadas e foice

esculpi palavras duras

e pinta doces expressões

entra em combate

ao cunhar sentimentos

usa armas nocivas

para atacar o âmago

do leitor

esfarela distâncias

ao atar declarações

ao vento ou ao vôo

das andorinhas

por isso o bíceps

arredondado

as mãos finas de

dedos longos e quentes

o antebraço firme

e o deltoide irresistível

 

Assim é

o (meu) escritor.

Encontro desmarcado

Bati três vezes na porta

antes de entrar

sonhos esquecidos

alma livre

e um punhado de sorrisos

trouxe na bolsa

 

Os pés descalços

em silêncio atravessaram

vales e enseadas

inundações e folhas secas

e o chão de madeira do teu quarto

coloriu as cicatrizes

 

Espia pela veneziana

a chuva que nos abençoa

– faz de mim

tua visita cativa

 

Se desmancha no ar este pó

(tempos do nosso abandono)

sob os lençóis

no recado no espelho

na dedicatória do livro

no porta retrato sobre a mesa

no chocolate na gaveta

no bilhete no bloco de notas

 

Traçado na rota

as velas enfunaram-se

o encontro desmarcado

tantas vezes

e desembarcamos atentos

na mesma praia.

Noitada

Quem vê

o vestido até o joelho

não nota

o lábio trêmulo

de desejo

 

Quem vê

o sorriso de moça comportada

não sabe o pecado que cometo

no breu do estacionamento

e com o nó da tua gravata

 

Quem vê

minha falta de jeito numa valsa

não desconfia o que te digo

ao pé do ouvido e o que faço

com o nó da tua gravata

 

Quem vê

meu olhar sem brasa

não imagina que eles te despem

dez vezes por minuto e só deixam

o nó da tua gravata

 

Antes de chegar

àquela rua sem saída

a boca seca

nem mais controlava

querer-te e ao

nó da tua gravata

 

Teu suor me molhava

como o temporal

que agora a cidade arrasa

e sob a pele quente

o desejo arrefecia

até, de novo, eu lembrar

da tua gravata

Anfitrião

Repara

no reflexo dos nossos passos no vidro da passarela

repara

no nosso sobe e desce as escadas

e no caminhar na praia:

seguimos em perfeita sintonia

 

Repara

na nossa risada

repara

nas nossas diferenças

e nos livros que já lemos:

é o que em comum temos

 

Repara

no mar ondulando sob nós

repara

na onda espatifada contra a pedra

e no sol amarelando nossa tarde:

abraçados pela orla ficamos

 

Repara

no meu olhar medindo prédios e morros

repara

no que eu quis dizer e titubeei

e como eu encosto a cabeça no teu ombro:

não sou fácil de ler

 

Repara

no quanto já andamos

repara

no quanto já nos contamos

e no tanto que ficou pro próximo encontro:

que os dias não voam

 

Repara

nos sinaleiros fechados

repara

nos vizinhos espiando

e nos gritos pela madrugada:

desconfiarão que tens namorada

 

Repara

no Baudolino que não te emprestei

repara

que não levei toalha

e no creme que eu deixei:

pistas que me levarão de volta

 

Repara

no tempo que levei pra chegar ao teu colo

repara

no silêncio das tuas lágrimas

e na esperança magoada:

em doses de madrugada eis a cura

 

Repara

no meu humor e nas surpresas

repara

na nossa janta improvisada

e nas nossas mãos entrelaçadas:

só faço dessas promessas

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