Negação

O ano confirmava: íamos em frente, no tempo apenas. Não queremos acreditar no que vemos, nessas ruas tomadas por idéias do passado. Negamos – o pior dos pecados de uma humanidade – que exista o nojo encalacrado pela cor da pele e pela religião do outro. E diziam que evoluímos, escreveram tratados, provaram-nos por a + b que descendíamos desse e chegamos a esta perfeição, a esta máquina que funciona tão bem. E criamos um mundo todo novo e que avança sem nos darmos conta, e este mundo cura doenças, desvenda DNA, constrói arranha-céus e trens-bala. Nossa máquina, quem sabe, não falha. Mas a mente, há um “mas”, ela jamais poderá ser explicada.

É 2017, eu garanto. Nos outros calendários, nem sei, é muito mais. E nem todo esse tempo nos livrou de querer a morte dos nossos iguais. Aliás, eis a questão: não queremos ser iguais. Não admitimos que somos iguais. Somos estúpidos, é certo. Nossa estupidez humana nos une. Vamos às ruas unidos pela ignorância. Apoiamos a estupidez de negar – a negação, a negação… – que fizemos (e fazemos) mal ao mundo onde vivemos. Talvez ainda mais difícil de acreditar, negar que este mundo está padecendo da nossa vida abusiva e do mal que nossas criações geraram. Negam, negam com a cara mais inútil da vida. Negam que o gelo se parte, que as Estações estão doidas, que o calor esquenta cada vez mais e o frio nos aterroriza. Negam, negam e negam que o lixo produzido entope as artérias do mundo. Negam que usinas e desastres ambientais estão ameaçando o ar que respiramos.

A negação é o último estágio da morte. Logo depois, morreremos. E vivemos esta negação hoje. Negamos, principalmente, que temos um passado árduo e cruel. Negamos que somos responsáveis pelos nossos rastros – negamos nossa humanidade, esta que nos une e que nos culpabiliza sem chance de defesa. Nossos atos são indefensáveis. Nossa culpa coletiva é homérica. Nossos pecados são inegáveis. Temos consciência disso, mas – sempre o “mas” – queremos negar como crianças mimadas que choram porque contrariadas.

Diziam que chegaríamos tão longe, imaginavam carros voadores e tudo. Eu sei. E acabaremos nas mãos da mais ínfima reação animal: matar-nos uns aos outros. Garanto que não será por comida, nem por território, nem pela reprodução da espécie. Será pela estupidez que nos caracteriza tão bem e que, de fato, é o que nos diferencia dos outros animais. Um pato não é estúpido. Nem uma jararaca. Não chegaremos lá, não nos demos esta chance. Preferimos ir às ruas reproduzir nossas estupidezes do passado, preferimos repetir os erros pois somos humanos. E errar é a reação mais humana possível.

Negamos. Negamos que tudo é tão precário. Negamos que esta vida é tão fugidia. Negamos que para ser humano é preciso sensibilidade. Negar as consequências de toda uma humanidade a viver desabridamente por tanto tempo, num espaço finito, é nosso segundo maior erro. O primeiro é negarmos que nossos atos desfazem nossa essência: somos humanos.

Os ensinamentos de quando acaba

Poderia ser simples como ouvir o canto dos pássaros, ou quem sabe morder uma maçã. Deixar sentimentos pelo caminho não deveria ser tão difícil – pelo menos no começo. Cada separação, cada amor desvanecido no convívio ou no vazio, deveria encerrar-se com um sorriso e um aperto de mãos. O choro vertendo, o coração descompassado, os gritos: a gente sempre sabe quando é o primeiro fim. No segundo dói um tantinho menos. No terceiro até a resignação aparece. Depois, dizem, vira coleção. Tem uns que a gente até esquece, de tão apático que nos sentimentos ao dar adeus. Eu diria, ainda, que chega uma hora nem adeus mais a gente dá. Acaba por acabar e está tudo bem.

Às vezes restam lembranças aqui e acolá. Para justificar que, quem sabe, foi verdadeiro. Ah, vai, foi mesmo. Porque lá nos primeiros a gente ainda pode ter a teoria “se é verdadeiro nunca acaba, se acabou é porque não era verdadeiro”. Ah, se a vida fosse como nós a imaginamos até os vinte anos! Às vezes, acaba. Mas o fim não nega o que houve. Só deixa de existir – por tantos tropeços e recomeços da vida que é impossível traçá-los em preto e branco. O fim nunca apaga tudo. O porvir nunca será imune ao passado (infelizmente, em muitos casos).

Foi verdadeiro, mas acabou. Aí a gente pensa que “nunca mais”, até o próximo, é claro. Porque a gente não quer passar por tudo aquilo novamente – e, por uma questão de proximidade do tempo, pensamos só na parte ruim, no fim, no adeus (que não houve), na separação dolorosa (ou não). Às vezes faz tanto tempo ou foi tão complicado que já sentimos distante o começo, a parte boa, os melhores momentos. Não sei vocês, mas o que é bom a gente pede bis, sim. Dá trabalho. Ah, dá! Ninguém diga que não. Conhecer o outro, desvendar-lhe os jeitos, olhares e manias, encantar-se com os pensamentos, coordenar rotinas e ajustar o tempo juntos. Dá uma porrada de trabalho. Mas compensa – aliás, dos poucos trabalhos que compensa na vida.

Quem sabe seja a última vez, nunca se sabe. Talvez desta vez os momentos bons predominem e a gente queira sempre ficar junto. Quem sabe a rotina e já saber ao outro de cor e de olhos fechados seja, ainda, um delicioso despertar dos sentidos. Talvez, desta vez, a gente não tenha uma lista de motivos para não querer nem dar adeus. Às vezes, acontece. E depois de ter sido tão longo o caminho a aprender a dizer adeus (sorry), este ensinamento da vida não nos seja mais útil nem se faça necessário. Porque é como na escola, a gente aprende a duras penas tanta coisa que depois de algumas provas nunca mais verá na vida. Em última instância, quem sabe, vale o aprendizado. Porém, difícil é aprender sem chorar, sem sofrer. Mas depois das lágrimas secarem, vocês sabem, os sorrisos sempre voltam. Às vezes, pra ficar.

A culpa não é do funk

“Meu filho gosta de funk!” parece ser a queixa dos pais brasileiros contemporâneos. Eu não me preocuparia com o funk. Sobre sexualidade acerbada não vejo novidade na canção popular. Preocupa-me, sim, a ausência de questões sociais e de grande importância atuais na canção popular de um modo geral. Parece, então, que só sofremos por amor – não sofremos mais com a desigualdade social, com o avanço da criminalidade, com a destruição da urbanização, com a educação precária. Nossos temas populares fixam-se na sexualidade, na dor de cotovelo (parece que esta sempre sentimos) e na ostentação. Ah, sim, lembrando que substituímos o “liga pra mim, não, não liga pra ele” pelo “troco likes”. Mera atualização.

Pergunto-me, os pais queriam que seus filhos gostassem de Schubert (exceto os virtuoses, claro)? Quais as oportunidades que eles mesmos dão aos seus filhos para que gostem dele? Ou, sei lá, os pais conhecem Schubert? Precisamos dar oportunidades de conhecimento cultural a eles, e certeza que isso não se resume a pagar o boleto da internet todos os meses. Esses pais dançaram macarena e o tchan? Esses pais não ouvem funk? (nem nas festinhas com os amigos?)

Um bom exemplo está nas telenovelas. Não há nada que acompanhe tão de perto nossa realidade do que elas na última década. Foi, aliás, como elas se reinventaram – e ficaram tão, mas tão, tediosamente chatas (mera opinião). As novelas tiveram que ir às favelas, empregadas domésticas foram alçadas ao protagonismo (e ao sucesso, claro, que a fórmula continua a mesma), a suburbana virou mocinha. É a telenovela que nos faz ver todos os dias uma moça policial que busca justiça e sofre nas mãos dos bandidos (que também têm família e coração, claro). De tanta realidade e politicamente correto, eu diria, elas perderam o seu encanto (aquele da fantasia, da metáfora, da crítica).

Assim, a canção perdeu seu encanto. A literalidade do funk parece-me desanimadora. Quem dera nossas crianças de hoje entendessem o que é uma metáfora, aí sim talvez tivéssemos funks metafóricos. Se os pais sequer ensinam poesia e figuras de linguagem aos filhos, se não os iniciam no mundo da fantasia, como querem reclamar do gosto pelo funk? O funk não é o problema. A canção popular também perdeu o seu encanto com duplas e solitários em busca do mero sucesso, dos carrões, mansões, jatinhos e investimentos – tudo alicerçado na venda da própria imagem (assunto para a próxima, prometo). Eles também não estão preocupados com profundidade alguma nos seus versos mais curtos que os tuítes. Ganha o mercado, ganha o artista. Perde a canção, perdemos nós.

Deveria chocar qualquer um de nós o fato de uma criança de onze anos nos prevenir, sobre um funk, “mas é pesadão”. O funk pesadão, em si, deveria nos chocar. Talvez tenhamos perdido o dom de nos chocar. Ou, talvez, choque uma criança alguém parar para ouvir Schubert. Diriam que é um comentário de quem parou no tempo. Mas eu duvido muito que a cultura pare no tempo. Ela, aliás, é o melhor retrato do seu tempo. Um dia tiraremos estes retratos envelhecidos da gaveta, para provocar a memória. Estaremos diante do quê?

Jaulas

Nos prenderam numa jaula e nem disseram porquê. Pediram que nos comportássemos. Pediram, claro, mas como quem manda. Porque sempre há quem manda. Preferimos não ver, não discutir, não nada. Só de vez em quando, por algum desencargo de consciência, nos rebelávamos. Como crianças a deixar pingar o picolé na blusa. Era só isso mesmo que nós conseguíamos fazer, não íamos muito além. Éramos fracos, somos fracos. E a jaula ali estava para nos enfraquecer. Como e porque, jamais saberemos. Por que nos queriam mais fracos do que já somos? Também não sabemos dizer. É que toda essa fraqueza limita nossos pensamentos, dentro da jaula não podemos pensar, nem questionar. Sentamos bonitinhos (porque somos bonitinhos no começo) a repetir a ladainha de todos os dias como eles nos (dizem que) ensinam. Eles ensinam. Deve haver algo nobre nisso. (Eu não saberia dizer.) Mas eu estava falando de como somos fracos. Repare. Somos, quase todos. Os fortes revidaram e não levaram a melhor. Porque a jaula era a mesma para todos – e somos cada um. Ninguém percebia que não tinha como dar certo? (Eu que pensava assim. Só eu?) Mas dava, vejam vocês, porque o poder e a força não estavam conosco. Eles, porém, sejamos justos, também haviam estado naquela jaula – agora só viviam em outra. Talvez eles tivessem entendido tão bem como funcionava aquilo tudo, por isso agora eram os que controlavam a jaula – de dentro da sua outra. Existem, então, ainda outras jaulas. Existem, não duvide. Conforme o nosso comportamento nesta, saberemos para qual iremos depois. Viver sem jaulas está fora de cogitação. Eu sei, meu amigo, é desolador – mas só para alguns, sabia? Sim, porque somos tão fracos e enfraquecidos que a maioria de nós jamais conseguiria viver sem o suporte e a força das jaulas. (Eu gosto de pensar que não sou dessas.) É tudo fantasia. Eu sei, eu sei, desmonta a idéia da coisa toda, desmonta esse texto, a divagação, a metáfora, tudo. Mas é fantasia crer que pode-se viver fora das jaulas. É uma condição, e é humana. Ou Humana. Sei lá, viu, porque os macacos devem ter suas jaulas também. Não? Quem sabe os elefantes ou as girafas. Talvez, então, uma condição do Ser. Para Ser é preciso estar na sua jaula. Não existe vida fora das jaulas (daria uma boa campanha publicitária, caso eles precisassem disso, obviamente). A força não precisa nos convencer de nada, ao contrário da publicidade. A publicidade, aliás, você sabem, faz parte de uma boa parte de jaulas. Onde fomos parar? Era pra ser só sobre a jaula, aquela primeira. A que nos mortifica os anos iniciais da vida. A que nos rodeia dizendo que é o melhor para nós, para o nosso futuro e, pá, acaba com nossos melhores dias. Ela encarcera sem que nós percebamos, sem que tenhamos desenvolvido capacidade de escolha ou sequer sentidos e noções para compreender o que ocorre conosco. É assim, entramos na primeira jaula sem nem saber como as coisas funcionam, assim nos tornaremos mais fracos (eu disse) e aceitaremos como as coisas são. Mas elas podem não ser. (Eu me agarro, às vezes, a isso – tão incerto.) Não sei direito o que aconteceu com as pessoas que fugiram da jaula (eu mesma já tentei e acabei voltando). Desconfio, porém. Ou apenas imagino. Se é condição, só a morte pode ser libertadora. Mas aí também não tem vida, nem escolha, nem opção. (Eu descarto, há quem não.) O que me incomoda de coração é que eles nem limpam a jaula, sequer lustram suas grades ou passam um perfume. Não as tornam minimamente atraentes. Poxa, acho um desrespeito. É assim que terminam nossas indignações. Rasas a reclamar de uma pintura nova para o mesmo velho de sempre. É assim. Somos fracos (eu disse).

Os fracos e covardes

O som – os romancistas diriam metálico – dos tipos a baterem contra o papel ecoou pela primeira vez depois de tantos – e muitos – anos aqui pelas paredes do Oficina, de onde vos escrevo. Tirei a capa protetora da minha Olympia e testei com dedos desacostumados. Ela, como uma amiga encantada pela lembrança, se não fosse tão pesada saltitaria na mesa. Respondeu-me como de costume, a ranhurar o sensível papel-jornal. Queria agradar-me, por certo. Tive que acertar-me com ela, pois o prelúdio fora de fato muito extenso. Lembrei-me dela, que jaz aqui ao meu lado todos os dias, como algo útil e belo – não apenas como um monumento. O monumento que refaz um trajeto da minha vida, que insinua a origem de todas as coisas. É sempre bom lembrar disso.

Era o Typewriter Day, 23 de junho. É curioso que sejamos instados a tirá-las do ostracismo para rememorar o que o seu som provoca interiormente. Não é curioso que exista um dia dedicado a elas. Alguns sites relembram que muitos dos grandes clássicos da literatura foram escritos nelas. Poucos dias antes eu comentava como é impossível o surgimento de um novo Machado de Assis. Vejam, ninguém mais tem tempo para dedicar-se à pena (literalmente). Nos formamos esses escritores mimados e incertos, artistas capengas da letra que mal pensada corre nessas telas digitais e em segundos são apagadas e reescritas. Vivemos do erro. Escrever, hoje, é um erro. Mais erramos do que acertamos. Há escritores que catam milho – expressão digníssima da Era das máquinas de escrever. “Máquinas de escrever”, que nome gordo de responsabilidade: uma máquina que comete o ato de escrever. Não é o ser humano que escreve, é a máquina diante dele que o faz. Hoje, aqui sentada diante do computador, com as idéias a correrem mais rápidas do que minha capacidade de digitar (que veio depois do aprendizado com a datilografia), a máquina apaga, corrige, colore, insere parágrafos, aumenta ou diminui letra. Faz-tudo.

O escritor, hoje, é uma farsa. Há uma máquina que faz tudo por ele. Há escritores que mal sabem escrever. A máquina, por sinal, inclui buscadores na internet, ao qual, não digam que eu contei para vocês, muitos escritores recorrem para escreverem seus livros (Deus há de perdoá-los). O escritor não imprime seus erros, escondidos num rápido ou lento ou reescritos em arquivos salvos sucessivas vezes ou deletados. Nós somos uma farsa. Jamais teremos um outro Machadão. A arte da escrita exige a entrega corajosa do esforço (quem já datilografou ou escreveu bastante a caneta sabe a que me refiro) contíguo ao corpo do escritor. Somos frívolos massageadores de leves teclados suaves e ergonômicos. Escrever não vem só da alma, as criaturas de hoje não entendem isso.

Ficamos mansos e amaciados. Somos vermes a mendigar temas cruciais à nossa época para escrever a próxima nulidade literária. Vejam que li esses dias sobre um romance qualquer que “retratava o vazio do nosso tempo” (imaginei um livro de páginas em branco, mas pelo tamanho da resenha duvido que seja). Outro se passava nas manifestações populares de 2013 (e nem era História do Tempo Presente). Outro, ainda, obviamente, falava de escritores nos dias de hoje e, obviamente, fazia uma crítica às críticas e ao consumo literário e aos escritores performáticos atrás de sucesso e incluía, antes que me esqueça, hashtags e a popularidade das redes sociais. Talvez não tenhamos nenhum Bruxo, em uma nova edição, pois esses assuntos da pauta da contemporaneidade são fugazes e reles diante de um olhar – aquele, famosíssimo (aliás, sempre que escrevo um superlativo também me recordo dele), que nos deixará com a eterna dúvida.

A culpa, talvez, não seja nossa. Talvez. A culpa talvez seja, justamente, da contemporaneidade. Deste mundo atroz que não nos sensibiliza nem nos torna seus amantes. O mundo nos repulsa, nos expele, nos atira de precipícios. Talvez, deste ponto de vista, não sejamos assim tão fracos e covardes, nós, os escritores. Talvez sejamos múmias a soltarmos a poeira da eternidade num caminhos pavimentado de word e pdf. E é o caminho que nos impede a fruição e um lugar aos pés dos grandes.

Faz um tempo eu dizia, quando as coisas do mundo pareciam tão fora de propósito, que chegaria o dia no qual eu abandonaria tudo e iria plantar batatas no alto do Maciço da Costeira. O lugar é desabitado (mas, obviamente surgiu alguém com a brilhante idéia de lá construir casas populares) e tem uma das vistas mais belas que já vi. Lembro de quando lá estive, os sons da humanidade no eco da distância, era como estar a parte dela. E foi esse o motivo que me fez recorrer à fuga imaginária de, um dia, fincar minhas idéias por lá, plantando batatas. Poderia, é claro, plantar tantas outras coisas, pois muito me agrada.

O mundo parece algo muito fora de propósito. Ele exige de nós consequências de escolhas que não fizemos. Nos cobra tanta coisa inútil. E mal temos tempo de remodelar nossa existência. Não existe, pois, depois da máquina de escrever, como existir um verdadeiro escritor. Ele está sujeito às condições da sua existência, do seu tempo, das distâncias e da falta de assunto que nos una – e não dure apenas um dia num trending topics.

Matéria-prima da criação

Eu li um artigo no qual o autor procurava as origens do desejo de criar que tem o ser humano. Seria algo estritamente humano e uma extensão do nosso corpo, como a roda, o pincel, etc.. Criamos coisas úteis, que potencializam nosso corpo e nosso intelecto. Mas, por outro lado, não criamos somente coisas úteis como um martelo, criamos, também um poema, que, a princípio, não tem utilidade alguma. Um filme, por exemplo, ou uma sinfonia, como ele cita, não têm utilidade.

Ele, então, chegou à conclusão de que criamos para dar sentido à vida, citando Gullar. Porém, o que me incomodou foi a afirmação de que somos pequenos, muito pequenos (houve uma insistência dele neste ponto) e que a vida precisa desta dimensão – que, se não a arte, somente a religião pode dar. Somos pequenos? A vida não faz sentido sem a arte?

Eu queria começar dizendo que não somos pequenos. Nem a vida precisa de nada, nem arte nem religião, para ter sentido. Criamos para preencher vazios. Consumimos arte e religião para preencher vazios. Talvez tenhamos tantos vazios que não temos coragem de assumir que isso se dá assim. Não passamos noites em claro assistindo a um capítulo atrás do outro de uma série do momento porque aquilo dá sentido à vida, mas sim porque temos uma vida vazia que, naquele momento, em vez de ser preenchida com uma boa noite de sono (ou, vá lá, tantas outras coisas) está sendo jogada fora com histórias e personagens que não fazem parte da nossa vida. Adolescentes que passam dias trancados no quarto lendo freneticamente estão na mesma situação, é um momento de entretenimento que se exaure na fuga da própria vida.

Faço, então, uma apologia à inutilidade das artes? Óbvio que não. Mas me parece que o autor do artigo tem essa verve tão clichê academicista niilista (o niilismo em si é tão blasé e clichê) de desfazer o valor intrínseco da vida, de não vê-la na sua maravilha e beleza, de superestimar os livros, filmes e músicas. O que criamos existe – ou deveria existir – como extensão desse encanto que há na própria vida. Consumir arte deveria ser a possibilidade de explorar mais o que sentimos na vida e um momento de entretenimento (de qualidade, por que não? qualquer um pode ler Shakespeare por mero lazer). Jamais criar ou consumir criações deveria ser considerado superior a viver.

Justifica-se, assim, também minhas ausências. Há muita prosa e poesia na vida. Há versos em conversas à beira-mar e fotografias de faróis. A crônica, em si, é a mais direta expressão da vida. Muito mais que os romances ou filmes de super-heróis. O problema é que, por vezes, temos muitos vazios. E não é preenchendo com a arte que deixamos de tê-los. Só a vida é capaz de dar sentido à própria vida. Não há filósofos nem prêmios Nobel que nos façam viver e sentir o que só a vida nos proporciona. Não há arte alguma que seja superior à vida, em nenhum sentido – e, vejam bem, não é a vida a matéria-prima da arte?

Eu gosto da idéia de discutir as razões ou motivações que nos levam a criar (também aí a questão de preencher vazios…). Como discutir quais os mecanismos que nos levam a consumir, talvez de mais fácil compreensão. Mas nessas discussões esquecemos de discutir a vida em si, de valorizá-la adequadamente e fugir ao supérfluo vazio corriqueiro de um mundinho pós-pós-moderno que aniquila vidas em cubículos sufocantes e pessoas cada vez mais afastadas umas das outras – e, no máximo, próximas dos seus psicólogos e personagens favoritos.

A (ex)república

Cantavam boas novas: era do outro lado de um outro mundo. Por enquanto aqui nuvens sombrias atarraxavam o nosso futuro. Mãos gigantes suprimiam as intenções e no outro dia de manhã nós é que tínhamos que levantar para trabalhar – amanhã, mesmo. Interesses sempre regeram os grandes – os estadistas, os heróis, os milionários, enfim – e neles não couberam nunca os nossos, essas pequenezas de vida digna, boa, acesso ao que precisamos e, bem, o básico. Diria que interesses envenenam a alma. Se sobrepõem ao amor, embaçam a visão.

Não víamos, também, é fato. Interesses cegam, de todos os lados, em todas as classes e situações. Meu interesse de vida digna não é menor que o seu de tráficos vários, e o defenderei com a mesma ferocidade. Me aguarde. Alguém sairá ganhando, sempre. Não temos, fica claro, interesses em comum. O teu bem não é o meu bem. E assim persistiremos nessa guerra vil e inválida, destruindo uma nação, um povo, um caminho em comum. Uma saída para tempos tão sombrios. Enquanto cada um morrer abraçado ao seu interesse. Enquanto cada um escolher um lado – diante das escolhas que já fizeram por nós.

Tentaria dizer: pensemos (com calma). Em vão. Pensar não é o forte do nosso povo. E não temos perspectiva de boas notícias – pois elas já vêm determinadas, agendadas, gravadas e provadas – porque somos o meio desse comércio todo no qual transformaram um país que poderia ter sido – e não foi, quiçá jamais será. Passou da hora de acreditar no futuro. Passou da hora de crer em líderes salvadores. Amanhã (restam poucas horas do hoje, mais um hoje que não nos valeu bem) teremos que levantar para trabalhar. Ninguém nos pagará mesadas enquanto estivermos presos. Ninguém nos mandará mochilas com quinhentos mil.

Amanhã. É o que nos resta: esperar pelo amanhã. Esperar pelo trabalho a ser feito – da melhor maneira possível, com um sorriso no rosto, de preferência -, pelo salário a cair na conta, pela preservação da vida num caos social, pela saúde que não nos faça passar por humilhações. Imprescindível não é esperar, é fazer o seu tanto, plantar e colher. Cuidar do nosso jardim. Era o que eu pensava hoje ao tirar os galhos secos dos pés de morango, ao regar o cacaueiro, a arrancar as couves secas. Precisamos cuidar mais e melhor dos nossos jardins.

Visto lá de cima, talvez uma revolução de jardins bem cuidados contamine os jardins que estão apodrecidos, tomados de erva daninha e de bichos predadores. Talvez os que não cuidam dos seus jardins e os deixam tomados por mato alto e pulgões sintam vergonha das suas práticas diante de tantos jardins com plantas e flores bonitas, árvores vigorosas e sadias, sem desleixo em combater ataques de insetos. É no que eu acredito. É o que eu faço – e, talvez, esqueçamos daquele ditado “faça o que eu falo, não faça o que eu faço” porque a imitação é umas das formas de apreender este mundo. Que este, o mundo, seja melhor. Que todos nos preocupemos em cuidar dos nossos jardins.

Só benção e reza!

Eu diria que dá para sentir no ar que se respira, porém é justamente como se trancasse as narinas. Ela quer matar, sufocar, humilhar – não há um pingo de humildade nas suas intenções. A maldade percebe-se no ar: escorre pelas paredes de pequenas salas e contamina o sangue de grandes famílias. Ela move as decisões de estadistas das maiores nações. A maldade, meu filho, revive no creque do pisar numa inocente barata.

Queria também poder dizer que dela é possível proteger-se: só benção e reza, para os que crêem, e olhe lá! A maldade não se impõe limites e é difícil dificílimo contê-la entre leis e tarjas preta. Porque é instintivo, o ser humano é o único animal que age instintivamente para fazer o mal aos seus semelhantes, pelo puro prazer ou por, simplesmente, prejudicar, fazer sofrer, lucrar algo com a maldade. Não é só para disputar a presa ou a fêmea (como diz a canção) que causamos voluntariamente mal ao nosso igual. É para vê-lo sofrer. É para sentir-se superior. É para destruir sua integridade, sua paz, sua família, suas posses, sua felicidade. É esta maravilha, o animal humano.

A maldade é pegajosa. Haja banho para limpá-la das nossas almas. Porque ela contamina, nos deixa doentes, desvirtua nosso dia e nossas ações. Sempre foi e sempre será mais fácil ceder à maldade – vai de você preferir o difícil na vida, ou simplesmente agir pelo que é correto. Fazer o mal ao próximo – nem precisa ser cristão, convenhamos – é inaceitável. Regozijar-se com a maldade deve ter explicações psicológicas, psiquiátricas, quiçá científicas. Humanas, jamais.

Talvez o amor cure. Há casos em que o amor pode curar um coração tomado pela maldade. Ele age assim porque não é amado, ou porque não aprendeu a amar, ou porque conviveu tempo demais sendo mutilado pela maldade alheia. Ou algum outro ou. E amar essas pessoas más é um dever (kantiano, por certo). É preciso amá-las para que elas percebam que o amor é mais, é maior do que o que elas têm oferecido ao mundo. Porém, deixem-me dizer-lhes: há casos em que o amor não basta. Há pessoas que não sabem (ou não querem, ou ou ou…) receber amor. Há pessoas para quem o amor é uma falsidade, uma superficialidade qualquer que não lhes enche o coração, não lhes corre nas veias nem lhes abre um sorriso. Aí não há amor que dê jeito e só a distância resolve.

Amar não é, por sua vez, nada fácil. Nem é para todos, sejamos francos. Amar é doar-se – e nem todos conseguimos. Talvez, apenas talvez, por isso tantos se encaminhem para a maldade. O mal pensa em si mesmo; o bem sabe que o amor é por e pelo outro.

Os dias de escuridão

É na escuridão que os olhos ficam mais abertos. Eles se ajustam ao não ver para enxergar melhor, ainda mais. Não ver é um modo mais delicado de ver. São os sons dessas vidas que suspiram em gozo pelos próximos instantes, que podem sempre ser os últimos. A escuridão só é perturbada por essa janela grande que dá para uma parede externa. Luzes de outros mundos em suave agitação chegam a amarelá-la. Mas os olhos devem chegar até ela e voltar. É aqui dentro que o mundo se justifica e luta por si mesmo.

É na escuridão que lhe dói o conceito de vida. Esse conceito que muda, meu pai, de cabeça para cabeça – e que não deve ser aceito nem combatido. Vidas são vidas: nem todos os olhos têm alcance para percebê-las. Justo seria dizer “senti-las”, mas emoções não são bons argumentos. (por isso tenho evitado-as, sempre) O escuro nos afoga, se dermos bobeira de fechar os olhos. O escuro traga nossa percepção do sensível do mundo para um saco inglório de roupas sujas e infectadas do qual logo quereremos nos livrar. Abra os olhos no escuro, abra ainda mais.

É na escuridão que o tempo desliza. A cada escuridão, um novo dia. Um novo e brilhante e calorento dia. É em meio a escuridão que esquecemos isso. Quem muito vê a escuridão deixa de crer que novos dias amanhecerão. São as vidas que roncam no escuro que velamos de olhos bem abertos. Nós temos a certeza de um novo dia e precisamos garantir os novos dias delas. É sutil deixar-se levar pelo escuro de um tempo que não passa, só se realiza, em poucos minutos, e claridade bruta e pálida.

É na escuridão que os sentidos despertam para a incompreensão. Como pode um mundo tão negro de intenções e ações? Tão negro de sentimentos sinceros e puros? Como podem amantes da escuridão, a ponto de andarem de vendas durante o dia? Por que existem dias tão escuros? Por que dias se transformam em noite em instantes? A escuridão nos aguça a alma para as questões perturbadoras que insistem em não ouvir respostas.

É na escuridão que eu fico todas as noites a pensar que a vida nada mais é, agora, do que fazer o que é preciso. É a força que gera o movimento. Não são imprescindíveis explicações, nem as fadadas emoções. É o mover-se na escuridão de olhos abertos e coração apreensivo enquanto calamos o que nos esvai nas veias ansiosas por chorar em silêncio no ombro amado.

Será escuro pelas próximas horas.

Somos todas elas

Ela não é só ela. Ela é todas essas aí que você consegue ver. E é, também, essas muitas outras que vieram antes dela. Ela sou eu. E sou minha mãe e minhas avós e minhas irmãs. Sempre foi difícil. Sempre foi mais sofrido. Em algum lugar inventaram tantas coisas sobre nós que hoje vivemos, ainda, sob o peso dessas cretinices. Porque tinham que colocar a culpa em alguém pelo pecado, porque tinham que dizer que um lado era mais fraco. E, vocês sabem, só fazem isso para poder afirmar que o outro é mais correto e mais forte.

Eu sou todas essas que morrem nas mãos dos seus maridos e ex-namorados, dos pais que não as aceitam, dos homens que também violam seus corpos. Essas que estão todos os dias nos jornais, que são baleadas aqui na frente de casa. Eu sou essas que fogem, se escondem, choram aos soluços agarradas aos seus filhos num ônibus pela madrugada. Eu sou aquela que tentou se defender com uma faca e aos gritos padeceu lutando. Eu sou a que viveu o inferno sob a terra a partir do dia que disse não a um homem. Eu sou aquela que machucou-se de todas as formas com o primeiro amor… e nunca mais amou igual.

Somos as que morreram na fogueira e as que foram as primeiras: médicas, engenheiras, advogadas. Somos, também, as que ficaram mal faladas. Faz parte da estrada. Nós quisemos o voto e não temos tempo para exercer a Política porque a nossa vida já é cheia de obstáculos. Nós queimamos sutiãs, mas nos ensinaram a não viver sem eles – de blusa branca, então! Desafiamos usando minissaias e calças: como se nossas roupas fossem espadas. Nós sabemos usar as armas mais belas.

Algumas ainda não sabem quem são pois arrastam-se sob o peso da tradição. Incorporam séculos de submissão e não ouvem os próprios pensamentos de libertação. Somos elas também, a gritar-lhes que lhes enganam com falsas flores e falsa proteção. São essas que nos obrigam a viver mais e melhor, a romper grilhões de séculos de mentalidades atrasadas camufladas de religião. São as pobres moças que ainda não viveram uma paixão e um dia saberão o que é decepção – enquanto isso xingam o feminismo.

Eu sou essa aqui. Neste corpo. Com esta cabeça. Tudo meu. Todos os dias sou feliz comigo mesma – e recomendo a todas nós. Não se trata de mim ou de você, ou deles. Falo de nós, por nós. A cada uma que aparece de olho inchado e acreditamos que bateu na porta, a cada uma que o BO ignora, a cada uma que esconde dos pais o que sofreu lá fora: a cada uma nos cabe um dia de silêncio. A cada salário mais baixo, a cada promoção negada porque pode engravidar, a cada assobio na rua, a cada piada idiota, a cada tarado que manda nude na internet, a cada conversa fiada na praia, a cada encochada: nós sobreviveremos. Com marcas. E um dia vocês respeitarão o nosso lugar, não por imposição, mas porque terão, enfim, superado suas limitações.

Blog no WordPress.com.

Acima ↑