O que deixamos de fazer

Talvez eu tivesse acreditado, em algum momento, que não passaríamos a vida comendo fandangos. A vida adulta, eu digo. Eu cheguei a acreditar que, apesar de nos faltar o espírito de “vamos mudar o mundo” – que realmente nunca vi em nós – nós mudaríamos o mundo que, quando nos foi entregue, já era tão velho. As regras eram velhas, as pessoas tinham pensamentos e crenças ultrapassadas, as carteiras da escola de frente para o quadro: tudo era velho. O mundo, naquele tempo, parecia implorar para que nós, justo nós, o aliviássemos daquele fardo de ser tanta coisa ruim, antiquada, rançosa e deprimente. E nós, o que nós fizemos?

Nós nos calamos. Lembro que eu tinha até vergonha de ser católica praticante – não contava pra ninguém que acordava cedo também no domingo, todo santo domingo, para ir à missa -, porque éramos desafiadores com essas coisas de Deus e do que os pais nos impunham (a mãe exigia que fossemos à missa, mas eu vou até hoje porque gosto mesmo). E lá foram muitos de nós, que mal pisavam numa igreja, a casar de véu, grinalda, festança e tudo o que exigem as fotos que ficarão para a posteridade. Lembra aqueles álbuns horríveis, bregas, puídos, cheios de fotos com gente vestida com coisa anos 1970 como os dos nossos pais? Só mudou a moda da época – e ficamos mais bregas porque tem vídeo de ensaio fotográfico de casal. Ah, sim, claro, e agora é tudo digital.

Nós fizemos de conta que não era conosco. Mal estudamos sobre a ditadura, achávamos chato todo professor de História falar disso. Achávamos chato falar de Política, lembram? Nós éramos perfeitos alienados. Por isso eu deveria ter percebido que dessa história de mudar o mundo e fazer dele um lugar melhor nós não faríamos parte. Mas, em algum momento, eu acreditei. Acreditei que faríamos da Política nossa arma contra as injustiças e desmandos de um país tão pobre, tão capenga, tão travado no tempo. O país do futuro, lembram? Do futuro. Este futuro que estamos vivendo agora – e para o qual não fizemos nada de bom.

Nós não demos a devida atenção. Nos preocupávamos com a TV – sim, na nossa época ainda era ela que dominava nosso tempo. Muitas de nós – estou fora desta lista – queriam ser modelos. Muitas queriam vender a alma ao diabo para pagar um book. Vocês lembram que eu sei. As fotos devem estar escondidas aí em alguma caixa na casa dos pais, porque ninguém quer morrer de vergonha. Nós não nos educamos para cuidar do lixo, para reivindicar melhorias no nosso bairro, para que a cidade respeitasse o seu rio poluído, para que a água fosse economizada. Muitos de nós nunca sequer plantaram uma árvore.

Nós não pensamos nos nossos filhos. Nesses mesmos que temos adiado para depois dos trinta porque, afinal, gostamos de curtir a vida e essa coisa de ter uma penca de filhos desde cedo era coisa dos nossos avós e nós somos moderninhos e esclarecidos. Não pensamos que entregaríamos a eles um mundo em vias de autodestruir-se porque nós, justo nós, não cuidamos dele – mas estamos aí todo dia reclamando de alguma coisa nas redes sociais. Saímos do sofá, é verdade. Mas estamos zumbis nas telas de computadores e celulares. Nós não fizemos. E o que esperávamos disso? Que o mundo cuidasse de si mesmo sozinho?

Nós fomos egoístas. Fomos bem bobinhos pensando que a engrenagem seria trocada por algum sistema digital ultraeficiente sem que nós tivéssemos que fazer absolutamente nada. Em cada miojo que nós comemos durante a faculdade estava o tempo de três minutos (nem tão exatos assim) com o qual poderíamos ter feito alguma coisa. Faltou doar o tempo para passar um óleo na engrenagem. Faltou vergonha na cara para questionar as regras. Faltou bater boca para impor mudanças – às vezes, só no grito. Faltou que tivéssemos consciência de que fazemos parte do mundo e de tudo que está – ainda – velho e podre nele. O que foi que fizemos para que ele não estivesse pior do que quando nós tomamos as rédeas?

Porque ainda tem quem pense que as rédeas não estão nas suas mãos. É mais fácil pensar assim – apesar de que “pensar” não se aplica. Lamento pelos que, de fato, combateram aquele mundo que nos foi entregue: estes se foram cedo (e me fazem muita falta). Ficamos nós a falar do mundo como se não fosse conosco. Nem um mea-culpa é encontrado nas redes sociais – nem nos confessionários, eu arriscaria dizer. Faltou lembrar que vinha mais gente depois de nós – e tenho certeza que não cuidamos do que tínhamos. Tenho vergonha – quero dividi-la com vocês, tão culpados quanto eu – de ver tudo que deixamos de fazer. Por nós, também.

As redes

Na rede dos peixes
sem esperança
mãos calejadas
e meus olhos
lacrimejam

o sol
nos corta
em dois

O mar abençoa
o rio a desembocar
no barro das chuvas
ingrato ao meu desejo
de sempre tê-lo

o sol
nos queima
os ombros

Na rede da varanda
os olhos fecham
na serenidade
e quem sabe
as horas passam

o sol
nos atordoa
os sentidos

A brisa
não nos visita
há dois dias
três noites
e suamos bicas

o sol
nos encaminha
à lagoa

Foi-se

Eu deveria ter desistido – enquanto havia tempo. Deveria ter dito aquele “não” que ficou enrolado na língua que cedia e se lambuzava de arrependimento. Deveria ter arrumado a mala quando deu uma vontade irresponsável, quiçá cruel, e partido – sem volta. Deveria ter pensado em mim, senão sempre ou em primeiro lugar, pelo menos em algum momento. Deveria ter seguido quando fizeram sinal pra parar perto da estação e com um trem vindo noutra direção. Mas eu parei. E fiquei a olhar a poeira que o trem deixou para trás. Sem dó de mim.

Quando deveria ter acabado, eu coloquei reticências. Foi uma besteira, eu sei. São essas sucessivas besteiras. Eu deveria ter me afastado e quando vi estava ali bem no meio, envolvida até a raiz dos cabelos. Em algum momento eu deveria ter pedido ajuda – mas e o orgulho? Eu deveria ter descansado naquela tarde chuvosa depois do almoço. Deveria ter dito que eu te queria – tanto – ali, agora, logo, e que você viesse de qualquer jeito. Boba que fui, escrevi sinais. Você não leu. Eu deveria, veja só, ter sido clara e objetiva. Deveria ter aberto mão das metáforas – em tantas oportunidades da vida.

Uma única vez eu deveria ter dito sim – e quem sabe eu tenha dito, mas só em pensamentos. Deveria ter tentando uma vez mais, só uma, ao ver que o sonho se partia ao meio. Deveria, é certo, ter sido ainda mais feliz naquele dia, naquela ilha, ao deitar os olhos sobre o mar que me separava do mundo… Deveria ter desejado o bem a quem nem conheço direito. Por umas vezes eu deveria ter caminhado bem devagar sob a chuva, a pensar que a água me benzia. Deveria ter sentido o frio a me congelar as mãos numa noite sem esperança.

Eu deveria ter recomeçado a vida, em todos os ontens. Deveria ter deixado aquele remédio escondido debaixo da língua para jogá-lo fora quando me dessem as costas, e deveria ter engolido o gosto da desilusão com dois copos extras de água. Hoje mesmo eu deveria ter deixado o coração bater mais sossegado. Deveria ter rezado ao acordar, ansiando que o fardo ficasse menos pesado. Deveria ter suplicado a Deus que me ignorasse na minha mesquinhez.

Perdi a conta de quantas vezes eu deveria ter me penitenciado menos. Não quero lembrar de todas as vezes que eu deveria ter chorado – e segurei até os olhos racharem a beleza do mundo. Nem sei ao certo se houve algum momento que eu deveria ter sido mais dramática, entrado em desespero e me jogado ao chão. Deveria mesmo ter aprendido a compor para nessas horas ficar só com um violão a melodiar as coisas do coração. Eu nem sabia, mas deveria ter pensado mais no amanhã – viesse ele ou não, nunca se sabe. Às vezes, ele vem.

Deveria ter esquecido… e tomado aquele chá para dor de estômago. Deveria ter evitado uma gastrite, uma cirrose, uma anemia. Deveria ter pensado menos – bem menos, é claro. Deveria ter fechado os olhos antes que eles se arregalassem demais. E deveria ter perguntado qual caminho seguir antes da encruzilhada. Ou antes que a noite chegasse. Ou antes que minha alma se cansasse.

Pela metade

Arrisco

perder todo o fôlego

da vontade

em dias que não terminam

com ver-te

chegar junto à brisa

do meio da noite

Condenada

à impaciência

e ao desânimo

atraso planos

risco calendários

anoto feriados

Caem

as horas inquietas

sobre um Verão

quase pela metade

que completa

nossos sonhos

de banhos de chuva

de bicicleta

 

Lá se vai o mês

lá vem o acalmar

das ruas

e meus olhos fecham

o dia mal vivido.

Um sorriso muda tudo

Foi diante da moça do pedágio, nem tão moça assim, que a certeza verbalizou-se nos meus pensamentos e ao atravessar a cancela murmurei baixinho para nem eu ouvir, pois a música estava num volume muito alto. Talvez tenha sido o dia. Um dia daqueles que a gente quer correr ler o horóscopo só pra tira-teima se ele havia previsto que tudo seria tão bom. Tudo, não. Teve lá uma coisinha no meio do dia que não deixou-o nos trinques. Mas, uma coisinha? Pois é. Diante desta uma coisinha também a certeza mostrou-se.

Um sorriso, meu bem, muda tudo. Muda a tua atitude diante do mundo – e ele responde, sabia? Um sorriso muda a sorte de alguém. Muda a saúde também. Altera até contas bancárias (tente e verás). Você já sorriu para a pessoa que mais te sacaneia? Funciona, vai por mim. Um sorriso desarma as artilharias mais pesadas. Eu nunca parei para pensar, mas gosto de sorrir – de dizer muito com apenas um sorriso. Talvez seja por conta da paixão pela fotografia – onde não tem textão, não tem declaração, não tem legenda (não deveria, viu…) nem explicação: a fotografia diz tudo naquele instante congelado. E o que diz mais do que um sorriso? Nem mil imagens.

É com o sorriso que você recepciona alguém. Que você pode abrir as portas da tua alma para uma pessoa. E o teu sorriso, meu bem, pode dizer tudo para o outro. Mas, sei lá, as pessoas têm medo de dizer o que lhe vai pelo coração. Um sorriso destranca medos inconfessáveis e arrebenta diques inconscientes. Um sorriso muda tudo. Ele atravessa feito raio as ambições perdidas e as ilusões bem alimentadas. Ele guia os olhares opacos e as mãos nervosas. Um sorriso, apenas, apaixona. Te garanto.

Sorrir para a caixa do supermercado, para quem está limpando as escadas do prédio, para o atendente do drive-thru. Muda tudo. O sorriso a gente dá antes de receber um. Tem que chegar chegando com o sorrisão no rosto: está aqui, querido, meu sorriso e, saiba, ele muda tudo. É meio doação, meio moeda de troca. Feche a carteira, abra o sorriso. Abra a janela do carro e ao sentir o vento que vem do mar, sorria. É o vento, o mar, o final de tarde, é estar vivo. Não precisa de mais nada para sorrir. Por que você não sorri todo dia ao acordar, só pelo fato de estar vivo, vivíssimo, podendo abrir os olhos? Como disse o padre, não dê bobeira. Sorria, digo eu.

Um sorriso, dizem, até salva vidas. Vidas sem esperança, desiludidas, amontoadas de solidões. Um sorriso faz chorar. O inesperado de recebê-lo pode emocionar até os tímpanos. Às vezes você não tem idéia, mas tudo o que precisa é aquele sorriso na porta de casa. Um sorriso muda tudo, seca as roupas no varal, acalma mares revoltos, ilumina varandas escuras, lambuza de chocolate o rosto de uma criança, deixa as folhagens mais vistosas. Há quem não acredite, te garanto. Porque nunca sorriu para alguém. Nunca sorriu com o coração para ninguém. E é este o que mais precisa receber um sorriso – mas um sorriso persistente, renovador, fiel. Não é qualquer sorriso. E aí, verás, um sorriso muda tudo mesmo.

Um sorriso muda tudo. Muda a tua vida, mudando a minha. O sorriso é a agulha que vai cosendo as vidas entre alegrias e tristezas, entre abraços e mãos dadas. Um sorriso é o remédio para doenças incuráveis da alma. Um sorriso aproxima no inverno e une de vez no verão. Um sorriso, meu bem, muda tudo. Muda as Estações do ano, muda a idade nos cantos dos olhos. Muda endereços e praias preferidas. Muda o andar do relógio e a direção dos ventos.

Naquele dia eu me dei conta. Uma epifania daquelas verdades que o coração cala porque tanto já viu na vida que acredita em menos coisas do que pensa capaz. Um sorriso mudou tudo. Um sorriso tem sido minha arma quando a garganta aperta. Um sorriso é o que visto nesse dia a dia que, seja clemente ou inclemente, eu tenho que encarar. De certo modo, meu bem, este sorriso foi tudo o que me sobrou. É com ele que eu conto para toda a vida que ainda virá pela frente. E, podem comprovar: um sorriso muda tudo.

Restou

(à Mogli)

 

Restou

o vento entrando pela janela aberta

sobre fotos que nunca tiramos

e meu choro contido

de desacreditar no que lia

 

Restou

meu sorriso

do que passamos juntas

dos segredos que te confidenciei

e das discussões acaloradas

 

Restou

a culpa a voz silenciada

o som da tua gargalhada

o teu “não, só escuta”

e eu te ouvia – quieta

 

Restou

ser tua amiga

você minha única

sempre só fui boa com palavras

elas sopram teu destino

Ontem na praia…

O mar é tipo gente, tem seus bons e maus dias. Alguém, ou eu mesma, já deve ter dito isso. Tem dia que ele está lá, de boa, tranquilão. Porque até os mais estressados e ranzinzas têm seus dias de paz, não é? Aí tem dias que até a mais bela enseada se atira contra a orla em desespero e ímpetos de raiva. Às vezes foi uma noite mal dormida na companhia de uma tempestade. Eu não sei direito porque a tempestade e o mar não se dão, é toda vez que se encontram um tal de discutirem que, olha, não é pouca coisa. Talvez algum desentendimento do passado, daqueles que voltam sempre à tona das amarguras quando se encontram. Eu bem que queria saber.

Ontem foi assim. Cheguei na areia da praia cheia de maus pensamentos, querendo sangue. E me deparei com o mar a expulsar qualquer engraçadinho que quisesse nele adentrar. Não estava pra peixe, nem pra água-viva, nem pra alga, nem pra gente nem nada. Parecia mesmo querer ficar sozinho. Queria desvencilhar-se de tudo o que se aproximava. Eu é que não dei bobeira, fiquei quietinha, acalmando o instinto destruidor sentada na areia. A gente baixa a bola quando se depara com alguém em situação pior, né? O mar não me quis. O mar debulhava-se num intenso vento leste a proclamar suas revoltas. Não estávamos, então, num bom dia.

Mas como ficar mal diante dele? Como deixar que velhos costumes e inseguranças traiam os bons momentos da vida, ali a olhá-lo tão próximo? Impossível. A raiva dele escoou meu mau momento, levou-o embora consigo em ondas enormes. Despedaçou minhas bobagens de guria impulsiva como fez com as tábuas de alguma embarcação que ele atirou contra a praia. A areia povoava-se de restos de naufrágios, de todos nós que éramos repelidos por ele. Definitivamente ele não queria nossa companhia.

É sempre difícil deixá-lo – confesso. É difícil dizer-lhe um até amanhã – seja ou não o amanhã uma certeza. É ele que preenche meu coração. É nele que eu desejo pousar meus olhos. E, talvez, seus dias imprevisíveis seja o que mais me atrai a essa imensidão. É preciso atentar para as marés, para os ventos, para as fases da lua e tudo o mais. Mas é imprescindível estreitar a atenção e decifrar-lhe as vontades, seus amores e suas raivas. E continuarei a voltar todos os dias que puder, para enamorar-me deste mistério…

O pessimismo do mundo

A nossa felicidade é um erro. Pessoas passam fome, não vê? Pessoas sofrem vidas inteiras. Pessoas morrem nos hospitais, todos os dias. A nossa felicidade é um crime. Meu tempo em sorrisos e mergulhos é um desaforo contra o mundo. Somos desaforados, meu bem, em viver o amor. Porque não devemos ignorar o sofrimento alheio, porque devemos contrição em dias e noites de vigília. E eu, eu daria um naco desta felicidade para os infelizes inúteis de plantão e – claro – aos sofredores de dores reais. Simples assim. Por vezes seria mais eficaz que mil orações.

Eu já quis crer, inclusive, no futuro. Um futuro onde nossa felicidade não fosse contaminada pelos desamores alheios nem pelas tristezas de uns muitos. “Se parar pra pensar”, pois bem, penso sem parar. Não quero parar agora, nem aqui. Vamos em frente. A felicidade sempre será (mau) julgada. É como despertar uma ira dos deuses do mal aos desafiá-los com abraços à beira-mar. Como podemos ser felizes? Veja aí como o mundo se despedaça aos nossos pés: degolas em presídios, amigos em coma, crianças abandonadas por passarem fome, pais perdendo os filhos para a droga, pais que matam seus filhos e mulheres. Isso é mundo, meu bem? Que futuro terá este mundo?

Eu te espero aqui a pensar que não podemos perder um segundo. Perdoe de praxe essa minha eterna pressa – essa minha enorme gula pela vida (e por uns doces). Calculo o tempo, veja só. O futuro do mundo está condenado. E é isso que mais me motiva para jogar-me à margem das falsas esperanças. É preciso guiar-se por outras leis, por outros códigos de conduta. Os do mundo envelheceram e o levaram à desgraça. Precisamos de novos. Que não condenem a felicidade alheia – nem a nossa nem a de ninguém.

Quereria doar pedaços da nossa felicidade a ver se assim posso fazer mais pelos outros do que levar roupas velhas a um asilo, do que acender velas aos santos e do que doar cestas básicas às famílias pobres. Hoje é o que tenho a oferecer: pegue e vá ser feliz. Felicidade aquece, salva vidas e enche o bucho, sim. A gente é que é pessimista. Muito pessimista.

A nossa felicidade, meu bem, é o melhor que temos. Dirão até que é perda de tempo ou que não cumprimos as regras ou esperarão de nós coisas que nem imaginamos. Quererão que sejamos infelizes, por certo – é o que fazem algumas pessoas, sempre. Mas sou boa guardiã do que me interessa. Só não garanto que a louça esteja lavada quando você chegar, ou que eu tenha fechado a casa como deveria (acontece). Me perdoe de praxe essa falta de atenção e tempo para todas as coisas que deveriam ser menos importantes.

Mapas

Alvo fácil

aos teus pés

o mar se rendeu

inúmeras ilhas

donde desembarcar

 

Ao luar

lilás

amarraste

teu barco

às mãos atadas

do destino

 

longas estradas

percorres-te

e o sorriso

a navegar

tão perto

num ondular

crônico das tuas

palavras

 

Descobriste

os mapas

dos costões

e da liberdade

Os barcos quando vêm dar à praia

Eles vêm carregados de peixes quase mortos, no fim da tarde, antes do sol desaparecer detrás dos morros. Os peixes tão próximos d’água e aos últimos suspiros arregalam os olhos – de peixe morto. Os barcos tão pesados não afundam. Como nós, ao entrar na água tão pesados de problemas e decepções, não afundamos – boiamos leves e nem nosso peso nos atrapalha. Os barcos chegam à praia entre as pedras e a pequena ilha com seus semblantes coloridos. É o peixe do almoço do dia seguinte. É o camarão para o pastel do começo da noite. É o que nos une na caminhada à beira-mar. Os barcos chegam anunciando que o dia foi bom e já podemos sair da água quente e transparente do mar para saciar a fome que nos chama.

A praia cheia talvez ignore os cortadores de ondas a cruzar o horizonte em busca de suas casas. Essa gente de longe do litoral talvez só pense em furar ondas, tirar suas fotografias eternas de momentos efêmeros, pegar um bronzeado que não durará um ano inteiro. Não se preocupam com a poesia dos barcos chegando carregados de peixe – se o fazem todos os dias, há poesia?, sim, pois há dias em que voltam vazios… Não se preocupam com as trêmulas bandeirolas vermelhas e azuis que singram o céu azul de uma limpidez adorável. Só saberiam reclamar caso chovesse.

Poucos pares de olhos acompanham os naturais frequentadores das praias. Poucos se detêm na luz amarelada a extinguir sombras sobre os cascos de madeira. Quase ninguém procura os rostos de traços salgados a expressar alegria por uma boa pescaria – ou o pesar de um dia perdido. Diriam que dia nenhum é perdido no mar… dias em terra a suar e sangrar a vida é que são perdidos.

Os barcos quando vêm dar à praia enchem meu coração de cores, sol e prazer. Eles vão com a certeza fiel de voltar. E meus olhos transbordam de alegria ao vê-los dar à praia carregados de vislumbres de Deus. Estar no mar é aproximar-se um tanto Dele. Colocar os pés de volta na areia mole é afastar-se do Criador e resignar-se aos apelos mundanos. Contamos, eu nos dedos e os pescadores em ondas, em quantas horas estaremos de volta.

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