O conservadorismo em Joinville

Dizem que a imprensa é o quarto poder. Ouvi muito isso até que pouco mais de mês atrás eu e algumas pessoas sentimos na pele o poder que ela tem. De destruição, inclusive. Liberdade, pra mim, não tem poréns e sou daquelas que preza a liberdade de imprensa inclusive. O problema não é a liberdade da imprensa de publicar as asneiras, manipulações, mentiras e o que mais for, o problema é que as pessoas, dentro dos seus graus de instrução, culturais, valores religiosos, éticos e etc., têm níveis de compreensão diversos. Eu me sinto à vontade para ler todo e qualquer jornal, revista, assistir este ou aquele canal. Aliás, prezo muito isso porque considero enriquecedor. Analisar como, porque e o que está sendo veiculado é fundamental e é o que eu busco fazer. Por isso, desprezo quem me vem com o “ah, leu na Veja” e em seguida publica um link, sei lá, do Idelber Avelar – e se considera genial. Aliás, já devo ter escrito sobre isso.

Há quem seja oportunista e mal intencionado sem nem mesmo precisar da imprensa (a internet permite isso melhor do que em qualquer outra época). Oportunistas, pessoas mal intencionadas e maus profissionais há em todo canto – como comentei no último post. Há médicos bons e médicos ruins, há arquitetos bons e arquitetos ruins, há gerentes bons e gerentes ruins – e isso em todo lugar. Desejo aqui fazer uma análise (mesmo que longa) e usar tão somente a observação, sem recorrer muito a qualquer área específica do conhecimento ou a dados. Em um ou dois momentos talvez use coisas que a Filosofia conhece bem, mas que qualquer um pode saber – e usarei para fazer uma ironia deliciosa. Antes de começar, devo dizer que conheço pessoas que são professores em Joinville e não são profissionais ruins (para dizer algo além eu precisaria assistir às aulas deles, ouvir alguns alunos e tal). De outros tantos, porém, que conheci já não posso dizer o mesmo.

Dito tudo isto, vou ao que me motivou a escrever nesta tarde chuvosa de um típico sábado joinvilense. Algum dia na vida cogitei fazer a graduação em Jornalismo e até hoje agradeço não tê-la feito – não sei o que ensinam nesses cursos, mas o que vejo me apavora. Até fiz uma disciplina do curso na UFSC, mas, como sempre, foi com o professor banido do departamento. Ótimas aulas, aliás, e um belo dia encontrei-o no twitter. Quando você conhece um ex-esquerdista radical que por considerações práticas e intelectuais abandonou o esquerdismo você se sente menos só no mundo. Pense numa reportagem, num texto jornalístico. Leia vários e vá reparando nas semelhanças e tal. Não é difícil perceber as intenções e o formato. Como nos maus documentários, quando quem escreve/dirige quer dar status aos dados apresentados, ou uma mera interpretação gabaritada, convoca um estudioso, um “doutor”, um sabichão da área. Eles querem, simplesmente, colocar alguém para dizer aquilo que eles desejam, mas pelas palavras de alguém “entendido”, pois eles são meros jornalistas – não podem sair por aí falando de doenças, guerras e educação, seriam, pobrezinhos, acusados de dar a opinião. Às vezes penso que jornalistas ficariam melhor apenas com suas opiniões.

Agora, leia o seguinte texto: http://anoticia.clicrbs.com.br/sc/politica/noticia/2014/09/saiba-como-joinville-vota-para-presidente-da-republica-4608517.html

Li isto hoje pela manhã e confesso que uma revolta de várias ordens tomou conta de mim. Tuitei freneticamente, pensei, repensei, voltei a ler. Não conheço pessoalmente nenhuma das pessoas envolvidas. Fui ler porque desconfiei que o joinvilense vota sempre ao contrário do país, e vi, só na minha hipótese, uma confirmação para a idéia que tenho de que a nossa democracia, como prevista, não funciona. Pois ela foi pensada para uma cidade não muito grande onde o “todos” era apenas uma parcela não muito grande da população – e, neste caso, talvez ela funcionasse. Desconfio que tentar adaptá-la para um país de milhões de pessoas num espaço enorme é uma furada – mas é só mais uma das minhas teorias. E fiquei curiosa, também, porque ontem tive o prazer de conhecer um morador de Joinville que é daqueles que acredita que caminhamos (o Brasil) para uma ditadura cubana. Já tinha ouvido falar dessas pessoas, mas nunca tinha conhecido pessoalmente. Elas existem – e, apesar de serem hoje motivo de chacota, prefiro manter minhas dúvidas. Pensei, antes de ler o texto, “aí estão pessoas como esta”.

Mas me surpreendi com o texto da tal reportagem. Diz ele que em apenas duas vezes o eleitorado joinvilense não acompanhou o resto do país. Porém, o mais surpreendente veio depois. O “argumento da autoridade” (sim, é intencional para remeter às falácias – não sabe o que é? Dá uma googlada rápida) foi o que me deixou abismada. Foram, então, convocados dois especialistas, dois profissionais que entendem de… (algo) para analisar o dado que a reportagem expõe: o joinvilense, por duas vezes não acompanhou a votação para presidente. Os dados são: em 2006 e 2010, os candidatos do PSDB superaram, em votos, os candidatos do PT – o que, como sabemos, não ocorreu na contagem geral dos votos.

Eis que, então, após dois parágrafos de dados, é dada a palavra ao, devidamente apresentado e já, só por isso, gabaritado, “professor de Sociologia e Ciência Sociais da Univille”. Temos alguém com formação e, tentou-se deixar bem claro, currículo – dizer de qual universidade não foi à toa. Como eu disse, não conheço pessoalmente o tal professor. O conheço, porém, do twitter. Comecei a segui-lo meses atrás. Foi difícil. Ele mesmo parecia gostar da pretensão dos títulos e currículo que possui. Depois de ler alguns absurdos, intelectuais e ideológicos, deixei de segui-lo – Twitter, te amo, queria que o mundo fosse como você. Tive meus motivos e pronto, era uma pessoa que eu não desejo conviver nem na ágora virtual que é o twitter.

O tal professor afirma que Joinville é constituída por conservadores, que quando alguém aparece com “idéias e propostas incomuns” não é bem aceito. Segundo ele, ainda, baseado em algum conhecimento histórico, a cidade não era conservadora e tenta usar como fato o dado de uma greve geral da indústria e comércio em 1917. Vamos analisar: os cidadãos legitimamente joinvilenses é que não são conservadores, pois ele afirma que “antes não era assim”, conservador é aquele que torce o nariz para o novo, e como consequência dos dados que a reportagem quer interpretar, quem vota PT não é conservador, este é quem vota no PSDB: um dualismo simples. Outra coisa que podemos perceber: quem participa de greve não é conservador. Pois se os cidadãos participaram de uma greve geral em 1917, então não são conservadores: eis o argumento da autoridade.

Mas agora vem o melhor: ele afirma categoricamente a origem do conservadorismo na cidade. A leva de pessoas do campo, do interior de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná, a partir das décadas de 1940 e 1950 é que tornou a cidade conservadora. Eu preciso copiar as palavras dele (pelo menos a ele atribuídas pela reportagem) literalmente porque não há como explicar um argumento desses:

“— Foram essas pessoas que deram a Joinville uma característica conservadora. A gente costuma dizer: você pode até sair do campo, mas o campo não sai de você. Quem mora no campo sempre vê a mesma paisagem, o mesmo rio, tem a mesma rotina. As pessoas de cidades grandes estão mais abertas a mudanças — argumenta.”

Ele sentencia que “essas pessoas” é que tornaram Joinville uma cidade conservadora (vejam que ele não usa sequer o termo “predominante”). Analisemos: todas as pessoas que moram no campo vêem sempre a mesma paisagem, o mesmo rio e têm a mesma rotina. E, por isso, (como se fosse uma consequência óbvia) não conservadoras. Já que o convocado diz ter formação na Filosofia, eu lembraria do próprio Heráclito, filósofo até que bastante conhecido pela famosa idéia de que nunca entramos duas vezes no mesmo rio. Pois o rio, professor, nunca é o mesmo. Mas o seu camponês olha sempre para o mesmo rio? A paisagem do campo, exposta às intempéries, às estações do ano, aos períodos de plantio e colheita, é sempre a mesma, professor? O que há de mais mutável do que a natureza em si? Sobre a rotina: uma pessoa que mora no campo tem uma rotina mais excruciante e repetitiva do que o assalariado dos grandes centros urbanos (maioria da população destas regiões) que trabalha das 8h ao meio-dia e das 13h30 às 18h, pensando no trajeto casa-trabalho e trabalho-casa (de ônibus ou de carro ou de trem – sempre os mesmos), nos colegas, no ambiente, no trabalho repetitivo de um caixa de banco ou de um cirurgião, sempre no mesmo horário, passando pelos mesmos lugares, tendo o mesmo tempo para as mesmas coisas (refeições, família, etc.)? E há, ainda, uma contradição absurda. Pois se pessoas de grandes cidades “estão mais abertas a mudanças”, o que dizer do joinvilense hoje? Porque ele se refere a um suposto conservadorismo de pessoas que para cá vieram nas décadas de 1940 e 1950. Mas a “maior cidade do Estado” se orgulha tanto – mas tanto – de ser “cidade grande”. E os joinvilenses nascidos de 1970 e 1980 pra cá, na tal “cidade grande”, não têm, então, como serem conservadores porque não vêem sempre a mesma paisagem e o mesmo rio (Sim! Sim! Sim! Entendam aqui a ironia pesada que estou fazendo, você que conhece a paisagem da cidade desde esta época e conhece nosso velho Cachoeira). Que contradição feia, professor!

Há uma regra básica da Lógica (e nem precisaríamos recorrer a ela, pois qualquer pessoa com um raciocínio razoável compreende) que afirma que, se encontramos um único caso que negue uma afirmação, esta é falsa. Ou seja, se ele afirma que “todo morador do campo que veio do interior de SC, PR e RS é conservador” eu afirmo que conheço um – e nos basta um só – desses que não é conservador. Ou seja, o argumento todo dele cai por terra. Um exemplo para ficar bem claro: alguém afirma “todos os cisnes são brancos” (pois ele só havia visto cisnes brancos) e existe um, mesmo que só um, cisne negro, portanto a afirmação é falsa.

Afirmações generalizantes são, por excelência, comprometedoras – mas aqui temos afirmações categóricas. Mas, depois de seguir o tal professor no twitter, não me admira que ele tenha dado essas declarações. A reportagem, contudo, continua pois o jornalismo é uma prática imparcial, como todos sabemos. Nos é apresentada uma outra autoridade, também professora e cientista social da mesma universidade, que diz que Joinville não é tão conservadora assim e justifica: elegeu, anos atrás, um prefeito do PT. Lembram do ovo e da galinha que citei no último texto? E voltamos ao dualismo que para estes dois cientistas sociais (que devem ter algum renome na cidade…) é claro e evidente: votou no PT é “progressista” (nas palavras da professora temos, finalmente, um adjetivo para aqueles que não são conservadores), votou no PSDB é conservador. Você aí, meu amigo, que já votou nos dois… abrace uma crise existencial, a gente deixa.

Como se não bastasse, a professora diz que os cidadãos são progressistas quando se trata da economia (mas não argumenta) e interpreta as diferenças nas duas eleições ao apoio do senador Luiz Henrique da Silveira. Algo mais ou menos assim: o joinvilense vota em quem o atual senador mandar (para quem não sabe, LHS já foi prefeito da cidade por duas vezes e foi governador do Estado). Além de conservador, o joinvilense é boi mandado do Luiz Henrique da Silveira.

Há tantas coisas que se auto-evidenciam no discurso destes professores e justificam minha revolta. Os “joinvilenses”, na fala do professor, são os que fundaram a cidade, e estes têm valores e princípios louváveis – pois não são conservadores. Sim, o conservadorismo aqui é implicitamente negativo e ponto final. Todas as pessoas que moram em Joinville sem terem seu vínculo familiar (e de sobrenome, coisa que é, ainda hoje, praticada na cidade) ou de origem com os primórdios da cidade, não é joinvilense. Aí há xenofobia explícita – de dar inveja ao parodiante “fora haole” da Ilha de Santa Catarina. Há uma parcela da sociedade joinvilense que não considera “joinvilense” aqueles que para cá vieram, como meu avô. Sim, meu avô é nascido no interior do Paraná (vê só, não era do campo, era da cidade e não gostava do lugar onde vivia) e veio para Joinville exatamente entre as décadas referidas pelo professor. Tenho cá pra mim, tomando meu avô como exemplo, que uma pessoa que se sente insatisfeita com o lugar onde vive, que está no interior e se arrisca, arrisca tudo o que tem, expõe a si e a sua família aos dissabores de uma mudança tão radical (ainda mais naquela época em que as distâncias não eram suprimidas como hoje) em busca de um emprego melhor, de condições melhores de vida, de estudo, de possibilidades, não é alguém que se possa, imediatamente, ser considerada “conservadora”. E meu avô se considerava, com muito orgulho, joinvilense. Casos de xenofobia em Joinville não são raros. O próprio prefeito do PT que foi citado referiu-se a um residente de Joinville que se considera joinvilense como se assim não o fosse e que não deveria intervir na cidade – o vídeo foi divulgado na internet. Por isso fiz questão de dizer, linhas acima que conheci um morador de Joinville que acredita na que viveremo uma ditatura cubana em breve – morador porque ele não é nascido aqui, mesmo que aqui trabalhe e tenha sua família há anos que se perdem no tempo. Meses atrás eu tive o desprazer de conhecer uma pessoa no twitter – um machista e ignorante da pior espécie – que morava em Joinville e se considerava tão joinvilense, apesar de manter o orgulho de ser um gaúcho do interior, que me xingou pacas (inclusive me acusou de “manezinha” – para relembrar a rixa chata -, gente, sou curitibana, tá? Quando forem xingar, xinguem direito) porque acompanhou uma conversa minha com um outro joinvilense (nascido em Tubarão!) sobre os problemas da cidade. O tal joinvilense-gaúcho era daqueles que não aceita que falem qualquer coisa da cidade-exemplo do Estado. Volta e meia me deparo, na minha TL, com menções a essa criatura e dá deprê porque me lembro que pessoas assim existem.

Alguém já se perguntou o que seria de Joinville sem aqueles que vieram de outros Estados e até de outros países? Sei lá, o único joinvilense ilustre que conheço que é daqui mesmo é o Juarez Machado, eu acho. Vejam só que curioso, Carlito Merss, o prefeito do PT, é de Porto União (interior de SC). Luiz Henrique da Silveira é de Blumenau. Ambos, então, são conservadores! Está explicado porque o joinvilense elegeu, extraordinariamente uma vez, um candidato do PT, não foi a tal “parcela progressista” da cidade – deve ser lenda, professora. E o Luiz Henrique, evidentemente, é conservador porque não apoiou o Lula em 2006 nem a Dilma em 2010. Mas, pera, o PMDB é o vice da Dilma. Será que entre o dualismo do ovo/PSDB e da galinha/PT há um meio, a casca talvez, que é o PMDB nas relações políticas?

A imprensa está aí, prestando cada vez mais desserviço ao público. Na contramão, temos que estar cada vez mais com as orelhas em pé. Porém, o que me revolta é ver análises rasas e até preconceituosas como essas feitas por professores que se gabam (e como se gabam, no caso do professor) de terem os diplomas e currículos que têm. E, pior, estão em sala de aula. Estão influenciando e manipulando (sim, num sentido muito negativo) as mentes dos alunos que estão ainda em formação intelectual. Muitos alunos, como eu comentava no post anterior, não têm boa formação em casa, não fazem boas leituras, e são cada vez mais desincentivados a ter consciência crítica das coisas. Os professores não ensinam ou estimulam, doutrinam. E aí, presidente Dilma, vamos desmoralizar as Ciências Humanas e Sociais mesmo – nem que seja para espantar um perigo.

Para alunos do Ensino Médio, na disciplina de Filosofia no segundo ano, eu sempre digo que vamos desenvolver a crítica e que, para isso, temos que superar o senso comum e nossas prisões (religiosas, familiares, ideológicas, etc.). O primeiro ano serve como um primeiro momento de contato dos alunos com a Filosofia, contato este difícil, pois eles só vêem Filosofia depois de oito ou nove anos na escola – qual é, então, a importância dela agora que eles estão quase saindo? Despojar-se de preconceitos, princípios, dogmas e do senso comum é um exercício árduo que brinda com um descortinar de novas impressões e sensações – é mágico. É um processo. Causa um alvoroço, é verdade. Mas faz pensar – e não vejo a Filosofia com outra “finalidade”.

Sei que não é, de modo algum, o objetivo de um texto do A Notícia de poucas e pobres linhas provocar a reflexão das pessoas. É, no mínimo, tendenciosa ao querer explorar a relação do eleitorado joinvilense com o partido que ele elege. Não quer nem ao menos levantar a discussão sobre como vivemos numa democracia que uma cidade inteira elege um presidente que não é aquele que vai governar por quatro anos. Que esses não são os objetivos da imprensa a gente entende. Mas ver dois professores das Ciências Sociais partirem para teses preconceituosas, limitadas e estúpidas é lamentável e, sim, revoltante. Não foi a primeira vez que conheci legítimos joinvilenses das Sociais com mentalidades que alimentam dualismos, preconceitos e xenofobia. Eu sempre disse que o problema de Joinville (vejam, falo da cidade) é a mentalidade dos joinvilenses (e, pelos exemplos, joinvilense é um termo que pode ser bastante expansível, né?). Diante de um texto de jornal corroborado por professores locais e relembrando certas coisas e discursos, tenho um vislumbre de onde vem esta tal mentalidade à qual me refiro.

Desejo, por último, dizer que conheço joinvilenses da melhor espécie. Na minha família a maioria é joinvilense. Meu irmão era um legítimo joinvilense. Meu avô e minha avó que para cá vieram há tanto tempo se consideravam joinvilenses. E eu sei que foram pessoas como eles que fizeram desta a tal maior cidade de que tantos se orgulham. Como se orgulham das suas origens alemãs. Orgulho, se bem pensado, não faz mal. As mentes pequenas é que fazem mal, principalmente quando permeadas por intenções da pior espécie. Xenofobia e preconceitos fazem mal. Dualismos categóricos fazem mal.

Eu imagino que bem estaríamos se joinvilenses considerassem e respeitassem os joinvilenses. Até eu, que não tenho nada com isso, ficaria feliz – nem que fosse pelos meus avós.

Ps: obrigada aos meus alunos queridos por eu nunca mais conseguir falar em “senso comum” sem dar umas gargalhadas.

Querida Ernestine…

Querida Ernestine,

vivemos num andar do inferno! No sétimo, não é mesmo? Não a sinto uma personagem, sinto-a uma amiga que conhece as mesmas dores que eu. Sabemos que há dores mais vis, as verdadeiramente insuportáveis, dessas sofremos também. Porém, não dominamos as paixões através do espírito. Nos enganamos, por vezes, a acreditar que somos senhoras dos nossos sentimentos e nada mais parece que uma troça. A cada buquê e bilhetes que recebias eu via os meus… enquanto vislumbravas o teu amado perfeito – que eles sempre são perfeitos – mergulhei junto nas tuas teorias. E quando descobrimos que eles não cabem no molde que tão alentadamente moldamos em longas horas de especulação? Os amamos quiçá ainda mais. A vida não é um livro, uma história com focalizadores e narradores oniscientes. Assim, nosso desespero em não saber o que se passa na cabeça e no coração do outro é incompreensível aos contadores de notas e aos olhos que vêem os números da bolsa. Temos consciência unilateral da história… e dos sentimentos. Que amores começam em atos levianos e somente esses são amores. Os atos levianos nos levam ao contentamento, à fixação do pensamento a toda hora do dia e da noite, aos sonhos, ao olhar insistente pela janela. E então o desespero de não saber o que se passa com o outro esvai-se para termos a certeza que nossa leviandade apaixonou-o. E amor que ama apaixona. Presas, então, de alegrias sublimes por pouco tempo esquecemos o desespero. Ele vem como o tapa mais cruel que mão alguma nos daria: sentimo-nos usadas. Fomos, então, um passatempo. Úteis quando havia tempo disponível. Ocupação temporária entre dissabores. Nosso desespero exposto ao escracho, à maledicência, à indiferença. Sentir-se usada é afogar-se em dúvidas: e os buquês, todos falsos? e os bilhetes, que nos abalavam a alma e que líamos e relíamos escondidas com sorrisos dançando nos olhos, todos friamente calculados? e a esperança alimentada com as promessas, impulso desinteressado? E quando encontrarem nos nossos olhos e palavras o enterro do desespero, jamais saberão que aqui (e aí) dentro ele pulsará ainda mais forte.

Vamos ao piano! Vamos aos estudos de história natural! Vamos dar ordens aos criados! Somos personagens de nós mesmas, fingimos a vida que temos. Não somos bonitas, não temos charme nem usamos as roupas que as moças usam. Temos a expressão imperiosa no olhar que ninguém saberá admirar. Vertemos lágrimas ardentes por alguém que mal vimos três vezes. Não temos, portanto, o mínimo do bom senso. Lançaremos ao fogo sem ler as longas cartas. Manteremos a face erguida durante jantares enfadonhos com os mestres do querer aparecer. Num mea-culpa exacerbado prometeremos mudar o que de certeza nos torna repulsivas. E o quão impossível nos é cumprir a promessa de jamais ser imperiosa! Queremos, até, mudar as roupas e os gestos infantis que nos caracterizam. Talvez amem mais uma mulher com trejeitos de trinta anos! E quem dera eu amasse como a de 28 do nosso querido, quem dera! Travei guerras comigo mesma para que eu não amasse sempre como aos quinze ou aos dezoito! Não há espírito que dome nossas paixões!

O desespero é o doce de coco do desprezo e do ódio por si mesma – como estes tornam-se obesos! E é o nosso destino. Da leviandade não nos arrependemos que só ela proporciona o amor verdadeiro, guardaremos sempre e sempre os buquês e os bilhetes, levaremos decoradas para a eternidade frases e palavras. Evitaremos melancolicamente os carvalhos e os lagos. Por um instante, num sussurrar de um vento distante que chegará de surpresa, cairemos de joelhos diante de todas as nossas resoluções. Todo o desespero que acreditávamos ter afogado as esperanças foi em vão. Teremos a idiota certeza de suplantar, no coração dele, todas as outras paixões. O vento passará breve e em seguida choverá.

Saber-se ou não amado complicará todos os fins.

E o futuro será resumido em poucas linhas.

Ernestine, esses dias me dei conta que sou uma personagem de mim. Vivemos naquele castelo a olhar pela janela, com olhar imperioso e atenção voltada aos livros (e filmes…). Desconfio que sabemos mais da vida do que os que vivem nos grandes salões com olhares agradáveis e amores sinceros. Dói-me, de fato, a despedida; dói-me menos porque sei que ganhei uma amiga. Depois de sangrá-los em algumas páginas, deixemos nossos desesperos, nossos desprezos e ódios trancafiados na torre a espiar involuntariamente o lago e o carvalho até que… até que a melancolia os tire dos nossos pensamentos.

Pela convivência da Primavera de 2013 à Primavera de 2014 (e de um breve encontro no Verão de um ano perdido no tempo), meu muito obrigada, Stendhal.

Nos encontraremos sempre.

A presidente Dilma não tem mesmo nada contra a Filosofia e a Sociologia?

Entre cansada de ouvir “por educação, saúde e segurança” e revoltada com as declarações de candidatos e governantes sobre seus planos para a educação mais especificamente, me veio aquele sentimento de obrigação de dizer cá umas coisinhas. Eu queria muito evitar. Mas, pelo visto, não consegui. Pois ao contrário de uma maioria, eu acompanho a campanha política, assisto e ouço as propagandas, procuro os sites de alguns candidatos, leio e vejo entrevistas. Faço isso desde antes de eu ter o direito de, alegremente, aos dezesseis anos fazer meu título.

Foi minha educação, em casa, e minha formação intelectual que me fizeram assim. Eu assistia às propagandas da época que o Voltolini era candidato a prefeito – e nunca ganhou, tadinho. Eu ia com minha avó e com minha mãe votar no Círculo Operário (alguém lembra?), chão de tábuas, uma mesinha com um biombo de papelão, cédulas de papel, e fazia o X por elas. Fui ao aeroporto de Joinville pela primeira vez para ver o Affif (alguém lembra?). Lembro de meu avô e meu pai conversarem sobre as dúvidas que tinham sobre o Collor – antes mesmo de tudo o que aconteceu. Certo que não entendia tudo desde o começo, mas ouvia e via bastante. Não foi, porém, suficiente para frear meus arroubos juvenis dos dezesseis – confesso. Para terminar o circunlóquio histórico, conto que foi um choque o dia que vi no título de eleitor da minha mãe que ela o fez, pela primeira vez, no ano que eu nasci. Vá lá, não faz tanto tempo assim… minha mãe não teve o orgulho que eu tive de fazê-lo (e sentir-se um pouco gente) aos dezesseis.

E são esses jovens de dezesseis e dezoito as grandes vítimas das campanhas. Não têm boa formação escolar, muitas vezes não a têm em casa também, são confinados aos pensamentos de tutores intelectuais duvidosos, sentem-se sempre insatisfeitos com o agora e esperançosos com o futuro. São eles que mais caem no discurso de políticos que acenam com maravilhas – sejam as que já fizeram, sejam as que ainda farão. São eles que acreditam que o que eles têm/são foi por algum tipo de benesse ou benção do Estado. E assim, assustadoramente, pensam a vida inteira.

Como citei, a tríplice “educação, saúde e segurança” é repetida para além da exaustão. Pensei em usar como critério não votar em nenhum que resvalasse nela: acreditem, a chance de votar nulo para todos os cargos é enorme – só reparem. Conversando com minha mãe, ela dizia quais os pontos principais que procurava num candidato, de acordo com a idade e situação dela. Pois eu sou um tanto chata, como todos sabem, e discordei. Política, pra mim, é por todos e para tudo. Eu sei, vocês não são assim. Não consigo atinar ao certo como este pensamento egoísta veio parar na política. Ah, sim, na Política não há o pensamento egoísta, na politicagem, sim. E esta é o que se pratica hoje. Na politicagem a gente vende o voto para aquele candidato que enche o nosso tanque de gasolina, dá um emprego pro filho, consegue vaga na creche mais perto de casa. E vota naquele que oferece alguma benesse que agrada aos nossos interesses. Desculpa, gente, não consigo.

Minha mãe descartou, por exemplo, a preocupação com a educação porque os filhos (graças a Deus) não estudam mais. E aí eu tive que, novamente, discordar. (Cêis acham que é fácil ser minha mãe? É, não.) Soltei: e teus netos? E fui adiante: um monte de problema que a gente tem na sociedade é decorrente da educação. E não são? Eu sei, eu sei. Colocar toda a culpa e responsabilidade na educação já tornou-se discurso batido. Mas não irei para este lado.

Numa propaganda da Dilma sobre educação, ela cita a lei que entrará em vigor obrigando as crianças a partir de quatro anos a entrar na escola. Quatro anos. Ela diz, também que há um compromisso com a alfabetização de todas as crianças até os oito anos. Oito anos. Faz auto-elogios rasgados aos cursos profissionalizantes e PRONATECs da vida. Citava, como o Vignatti e tantos outros, a “valorização” do professor. Todos, acredito que sem exceção, falam em implantar o período integral nas escolas de todos os níveis. Por último, a “modernização” das escolas e do ensino (?) é também amplamente prometido.

Lhe digo que foi a propaganda da Dilma que despertou minha revolta. Crianças de quatro anos sendo obrigadas a ir para a escola? Para garantir (ou prometer) a alfabetização das mesmas só aos oito anos? Eu ainda não tenho filhos, mas enquanto assistia comentei que filho meu jamais – jamais – irá para a escola aos quatro anos de idade.

Fazendo mais uma digressão: eu entrei na primeira série aos sete anos recém completados. Não canso de contar a história do meu primeiro dia de aula: a caminho da escola disse ao meu pai que não queria ir. Aí ele me respondeu: se você não for, o pai vai preso. Imaginem o drama, senti um nó na garganta. Sei que por muitos anos a imagem do meu pai preso foi a única coisa que me manteve na escola. Detalhe: eu entrei na escola aos sete anos já sabendo ler, escrever, somar, subtrair, dividir, multiplicar e identificando formas geométricas. Sim, orgulhosamente eu conto, também, que fui alfabetizada em casa, pela minha irmã. Minha mãe foi professora, inclusive da minha irmã, mas não foi ela que me alfabetizou. Contudo, em casa e na rua eu sempre fui corrigida, ensinada, e sempre tirei minhas dúvidas ao ver descortinado o maravilhoso mundo das letras quando via placas, folders, legendas. A alfabetização é o teu passaporte de liberdade para o mundo. Qualquer um que viaja para outro país sem conhecer o idioma sabe do que eu estou falando. Qualquer um que conhece pessoas semi-analfabetas, analfabetas ou analfabetos funcionais sabe do que eu estou falando. Até hoje sou saudosa que aos sete anos eu sabia fazer contas melhor do que sei hoje.

Ah, mas sou uma branca, classe média, nascida e crescida em grandes centros de grandes cidades. Sou aquilo que chamam de privilegiada. As primeiras vezes que ouvi isso achei que era xingamento, hoje tomo como elogio. Sou, sim, privilegiada – pela família que tenho. E, por favor, não cometam a falácia de dizer que não posso escrever sobre lugares, cores de pele, situações sociais que não aquelas às quais eu pertenço. Eu sei que vocês são espertos e não farão isso. E já fui tantas vezes acusada disso que acharia extremamente repetitivo da parte de vocês.

Eu conheço de perto o que o analfabetismo, coroado por professores e alimentado por pais negligentes, causa na vida das pessoas. Pauto aqui o que escrevo sobre educação pelo que vi e vivi. Fui uma aluna difícil. No começo da adolescência eu lia muito, via filmes e documentários e tal. A repetição da escola era mortal pra mim. Além do mais eu tinha boa memória e rever tantas coisas não me motivava em nada. Conhecia alguma coisa do ensino em outros países e via lá fora soluções que não eram implantadas aqui. Sou do tempo de quadro de giz e livros didáticos, papel e lápis. Lembro bem quando fiz meu primeiro trabalho em Power Point, na quinta série, e fui a única a usar tal recurso. Tínhamos computador porque era o trabalho do meu pai e da minha irmã e eu era uma autodidata nessas coisas de informática. Foram dois trabalhos que me marcaram desta época, sobre tsunamis e sobre o Fagundes Varella. Ambos feitos no computador, porém com conteúdos tirados nos livros e enciclopédias de casa e da biblioteca.

Para tentar ser objetiva: considero um crime colocar crianças de quatro anos na escola. Ao ver tantos candidatos prometendo o ensino integral, me perguntei: pra quê? Vão ensinar mais? Vai ficar mais tempo na escola pra quê? E a “valorização” do professor se resume a salários mais altos. Simples assim. Médicos e engenheiros são profissionais valorizados na sociedade desde quando passam no vestibular porque os salários iniciais previstos não são menos que cinco mil reais. Só por isso, vai ver. Professor, de ensino fundamental e médio sejamos claros, é um profissional desvalorizado (e não estou me referindo aos salários) porque de casa não se valoriza o ensino. Me referi aos professores de ensino básico porque na nossa sociedade o status do professor universitário é outro, e não me venham de ladainha. E as promessas de tablets para todos os alunos? Vontade de dizer para um candidato desses: vai lá, entra na sala de aula e tenta dar aula para aqueles olhos enfiados nas telas touch screens. Tenta, malandro. Porque enquanto escolas debatem como proibir o uso do celular e dos tablets em sala de aula, os candidatos dizem que vão dá-los a todos!

Sim, há problemas no ensino. Não, não serão resolvidos com crianças sendo obrigadas a frequentar escolas nem com tecnologia de ponta distribuída entre alunos e professores nem com salários mais altos para professores nem com crianças e adolescentes trancafiados em escolas por mais horas. Não.

Minhas reflexões iam por aí… não só como professora ou como futura mãe e estudante. Fui uma aluna difícil, já disse, e no ensino médio eu larguei os estudos. Não tinha capacidade nem interesse algum em Matemática, Física e Química; detestava o ambiente escolar (pessoas); morria de tédio na carteira (mais comum era me ver de cabeça baixa lendo durante as intermináveis aulas); tirava notas boas a medianas; elaborava colas geniais para as disciplinas desinteressantes mas para as quais eu precisava de nota. Tive, na época, problemas familiares e tal, e um dia resolvi não mais estudar. Dizem que minha mãe passou maus bocados (e eu acredito nos testemunhos, já disse, ser minha mãe não é fácil). Só por ela que eu tive idéias mirabolantes para voltar a estudar. Me sentia muito esperta na época. Nunca fui nerd, nem CDF, nem gênio. Só achava tudo aquilo muito entediante.

Como professora eu aprendi que é preciso atrair os alunos, com o meu comportamento, com idéias, com provocações. Mas meus piores momentos como professora sempre foram as dificuldade institucionais alocadas nos alunos. Adolescentes são inteligentes, são espertos, são maliciosos, sabem se expressar, são pessoas completas. E eu nunca pude chegar ali na frente deles e ignorar isso. As dificuldades que eles traziam das aulas de Português, as dificuldades que eles traziam das aulas de História e Geografia. Os problemas seríssimos no simples ato de ler e escrever corretamente. Problemas que vinham das famílias, pais enlouquecidos pelas notas dos filhos, pais ignorantes (no sentido pejorativo) que incutem nos filhos o desinteresse pelo conhecimento, pais ausentes, a violência que cada um traz na sua história. Eu vejo adolescentes inteligentes na minha frente, mas marcados pelos crimes das instituições. E dói. Dói muito. Por isso que cada reconhecimento, cada comentário numa avaliação, cada elogio, cada mensagem é que significa, pra mim, a tal valorização do professor. É saber que entre tanto descaso eu consigo fazer o meu trabalho. O Estado, alguns professores e as famílias não têm idéia do mal que causam às crianças e adolescentes.

É quadro e giz e, no máximo, livro didático e você tem que dar aula de Filosofia. Mas eles são inteligentes e você não os subestima, é claro. Dispenso fácil qualquer projetor, slide, tablets. Queria, ao menos, uma biblioteca. Sabiam que há inúmeras escolas que sequer têm bibliotecas? Ou muitas que têm mas vivem fechadas porque não há funcionário responsável?

Fui pensando em tanta coisa até desistir de escrever sobre. Diriam que são coisas muito pessoais. Mas não pude me calar ao encontrar, parcialmente, resposta para algumas das minhas dúvidas na entrevista da Dilma ao Bom Dia Brasil ontem (22 de setembro).

Ao falar de educação, ela proferiu uma frase que selou de vez minha indignação – seguida do que pareceu, no momento, uma proposta/resposta. A presidente do Brasil consolida a idéia de que o ensino é maçante e critica as doze disciplinas às quais os alunos são submetidos – e frisa que dentre estas doze estão Filosofia e Sociologia. Ao perceber o ato falho, ela em seguida acrescenta: nada contra Filosofia e Sociologia. Não, presidente, nadinha contra as Humanas e Sociais, né? A fala dela sugeriu uma reforma curricular que não ficou clara em absoluto. Ou seja, deu uma resposta que eu queria. Então, teremos, de fato, uma reforma curricular? Em quais moldes? Seguindo quais exemplos já existentes? Por que, presidente, esta proposta de reforma curricular não foi apresentada na sua propaganda na TV? Era o que eu queria perguntar. Tudo o que eu desejo para o ensino no país é uma reforma curricular – evitando a demagogia do período integral e de doação de tablets. Sobre reforma curricular eu sonhava nos meus tempos de aluna do ensino regular. Concordo que a resposta seja uma reforma curricular, em primeiro lugar, e uma rigorosidade com os profissionais da educação. Contudo, o único misto de sentimento e pensamento que pude ter foi temor. Temi pela volta do tecnicismo do ensino escolar – tal qual na Ditadura, lembra, presidente? Meu pai aprendeu marcenaria na escola, o que lhe vale muito até hoje e eu sempre elogiei, mas as razões para eles ensinarem isto nas escolas não era das melhores. Há anos o Brasil entrou em crise de profissionais das engenharias, das tecnologias e correu-se a abrir cursos e dar incentivos para formação. Ficou claro que nos espelhamos na China. Hoje temos dados que comprovam que não faltam profissionais formados nas áreas da educação, mas há desinteresse na profissão. Não passou o tempo em que era mais fácil passar para as licenciaturas e era lá que paravam os que “não davam em nada” ou não eram muito inteligentes? O interesse em transformar escolas em meros centros formadores de técnicos e de mão-de-obra qualificada para Exatas e Tecnológicas é evidente – e muito preocupante.

Vai ver por isso que não saber ler nem escrever não faça muita diferença. Ah, e vai ver que por isso Filosofia e Sociologia sejam tão dispensáveis. E é, queridos, no que muita gente acredita.

Me revolta ver a situação do ensino. Me revolta ver uma presidente falar assim. Me revolta ver que não é na escola que devemos ser incitados (pois não é algo que se ensine) a pensar.

Soluções? Respostas? Abraço os filósofos e sociólogos. Primeiro ponto: não desejo que o Estado diga o que e como meu filho deve aprender. Segundo ponto: responsabilizo, antes de qualquer coisa, os pais pelos filhos que colocam no mundo. E se a lei fosse que todo pai e mãe deve ser o responsável pela alfabetização do próprio filho até os sete anos? Quantos pais e mães se revoltariam a bradar que isso é “responsabilidade do Estado”? E se as escolas fossem só três dias por semana? E se as “escolas” fossem criação de comunidades de pais e professores que elencassem suas prioridades e interesses, assim como voltadas para os talentos e habilidades dos alunos? E fossem financiadas pelos pais em conjunto com verbas públicas? Princípios liberais demais para um país que está preso em “o que veio antes, o ódio ao PSDB ou o ódio ao PT”, não é mesmo?

Vejamos alguns pontos que não vejo sendo discutidos e que são menos “liberais”: traduções, preços e acesso a livros; política menos dispendiosa e corrupta de livros didáticos; bibliotecas em todo – todo – lugar; acesso a conteúdos on line (como li numa entrevista esses dias, inclusão digital não é disponibilizar conexão); currículos de graduação e pós abertos e verdadeiramente multidisciplinares (palavrinha mágica que ouço desde o fundamental e não, não é só colocar um trabalhinho que una conteúdos de História e Geografia ou Física e Química); formação avançada no ensino médio para mapear as habilidades e interesses dos jovens antes da graduação (medida que não é do interesse tecnicista); a não ideologização do ensino, principalmente nas áreas Sociais e Humanas (difícil, hein?); contemplar mais áreas específicas do conhecimento (meu problema atual); rever as disciplinas como Artes e Educação Física que não devem ser meros “passatempos” para o aluno, mas que são essenciais na qualidade de vida, raciocínio e desenvolvimento intelectual e físico.

Pois repito: não desejo que Estado algum determine o que vai entrar na cabeça do meu filho. E pais analfabetos, como alfabetizariam os filhos? Bem, aí talvez nós olhássemos de vez para a vergonha que é ter um número tão alto de adultos analfabetos. E não os jogaríamos nos CEJAs e outros cursos relâmpagos que só dão diplomas para conseguir “empregos qualificados”. O retorno e o vínculo entre pais alfabetizados que alfabetizam os próprios filhos seria inestimável, tanto para as famílias quanto para a sociedade.

Ah, sim, outra objeção possível: e o tempo? Como fazer com o tempo dos pais que só trabalham e trabalham e trabalham (ó, a sociedade consumista assim o exige!)? Lembrei, então, do que me motivou de vez a escrever esta longa revolta: a propaganda do Dário Berger ontem na TV. Sabe o que ele disse? Que vai lutar pelo ensino em período integral por você mãe (sim, ele disse mãe) trabalhadora que quer ter onde deixar seus filhos. Preciso comentar o machismo ultrapassado de colocar nas costas da mãe a obrigação de criar e cuidar dos filhos ou o óbvio não precisa ser frisado? Só a mãe trabalhadora não tem onde jogar o filho. Vejam bem, eu sei que há uma maioria de “mães de família” e que talvez, só talvez, ele esteja de olho nesta fatia do eleitorado – porém não acho que seja o caso, pela falta de inteligência da propaganda acredito mais no machismo mesmo.

Então finalmente um candidato teve a cara de pau (bem estilo do Dário) de dizer com todas as letras o que é, afinal, o ensino integral. É ter onde jogar crianças e adolescentes. Não tenho confiança numa sociedade que faz filhos e depois acha que é dever do Estado dar tudo para eles, desde saber as vogais e consoantes, e, ainda mais, cuidar deles a maior parte do tempo – porque o que sobra hoje é pai e mãe que mal convivem com os filhos. Por que fazem filhos? Eu fico na dúvida. Se não tem tempo para levá-lo pra escola, pra jogar bola, pra levar pra passear, pra assistir TV junto, pra fazer as tarefas de casa, pra ensinar como funciona um motor de carro (ah, eu aprendi, papi ensinou!), pra levar pra cozinha pra fazer bolo, pra contar uma história antes de dormir, pra levá-lo num museu… pra que tê-los? E, sério, não preciso ser mãe pra saber, mas estão perdendo (ambos) a melhor parte.

Vejam só, os problemas são bem mais graves do que julgam as vãs propagandas e promessas eleitorais. Deve ser falta de Filosofia e Sociologia na escola (né, querida presidente?). Tive alguns excelentes professores e guardo comigo muitas coisas (reflexivas) que aprendi com eles. Uma delas é que governo nenhum quer que o povo pense – desde antes até hoje, tudo igual. Filosofia e Sociologia, como as Artes (incluo aí a Literatura e as aulas de redação, mas é extensível às Humanas em geral), não são aquelas disciplinas que você tem que decorar fórmulas, cálculos e conceitos. Como acrescentei no parênteses, História e Geografia também devem incitar à reflexão e ao pensamento crítico. Minha crítica sempre foi que não nos deixassem pensar. Aprendi muita coisa com as Exatas também, apesar de não ter muita afinidade e ter também um certo desinteresse. Estive num museu de ciência e tecnologia esses dias e me diverti horrores com tudo que eu aprendi algum tempo atrás e que uso pouco ou quase nada no meu dia a dia. Por isso, sim, uma reforma se faz necessária – mas antes nas cabeças das pessoas. E, não, isso nada tem a ver com políticos.

Vocês sabiam que fui chamada de “revoltada” por muitos professores? Até na graduação (na banca de mestrado meu orientador disse que eu tinha “idéias próprias”, não sei se foi elogio ou desabafo). Aí minhas revoltas acabam assim em quatro páginas – e ainda são insuficientes. Pensei mil coisas que não vieram parar aqui. Qualquer hora vou reler e anotar o que esqueci de escrever. Ah, esqueci de comentar que lamento ver meus colegas das Artes, Humanas e Sociais como os grandes apoiadores (e supostos intelectuais) deste governo que deixou claras suas intenções acerca do ensino, além do desprezo com as nossas áreas. E, vejam só, para quem largou os estudos por alguns meses e só voltou por pena da mãe, porque recebeu bolsa de estudos e foi sempre uma aluna difícil e irritante, sinto-me ainda mais privilegiada por ser moradora de grandes centros urbanos e que ainda não parou de estudar. E nem pretende. Ah, jamais subestimem o que eu conheço daquilo que vocês concluem que eu não devo conhecer. Só uma dica.

“y yo sentir”

 

Antegozando o prazer dos sucos de acerola que se encontravam nas minúsculas flores brancas que eu via da janela, pensei: não tenho porque ficar triste. Terei dias de sol, terei sucos de acerola, verei meu cachorro pulando para comê-las do pé, terei banhos de mar, terei destinos novos a me deliciar. Sem rumo, sem horários a cumprir, sem novas paixões, sem certezas: e cá estava a sorrir e a dançar. Uma lunática, diriam. Uma mimada, de fato. Uma sonhadora, sem dúvida. Ah, sou daquelas que pára a vida para gozar o pôr-do-sol. Senão a vida não é nada mais que um senão. Das guerras travo as mais distintas e tem dias que não quero ganhar. Pensava em enterrar amores, de novo. Ou quase-amores. Talvez amanhã eu pense em prazos. Não conheço nada que dure para sempre e assim enterro e dou fins como se, sim, houvesse amanhãs. Há amanhã: não tenho porque ficar triste. Não tenho bens móveis, nem imóveis nem uns meio-parados-meio-andando. Não tenho dinheiro no banco. Não tenho carne da minha carne nem sangue do meu sangue. Não tenho contratos. Tenho uma dívida ou outra para que alguém sempre lembre de mim, para ouvir ao menos o telefone tocar. Tenho passagens compradas porque parar me mata. Não leio mais notícias. Tenho cá novas dúzias de fotografias. Espero que no próximo ano a cerejeira da minha janela dê frutos que já será hora. O canteiro de roseiras cresce com vigor. Não deixo mais de apreciar o sobe e desce dos aviões. Sei que tem quem não precisa mais de mim – dói, de dor entendo, sobre qualquer outro sentimento nunca sei direito o que fazer. Desconfio que faço, agora, o que é certo pois as gatas retornaram a minha cama e de prazeres elas entendem. Devorava uma sopa de feijão acompanhada de um Vitor Hugo e pensei: preciso de malícia. Reparei bem e falta-lhe, ó, Mundo, malícia. A doce malícia, não a vil. Preciso do sol a queimar a pele e de pés descalços, não nego. Talvez, até, esteja precisando de palavras. A Primavera já levou muitos dos meus amores – é quando mais a vida me tira quem amo e a quem um dia amei. E, sei lá, é nela que boto fé. Não tenho porque ficar triste, o inferno não dura a vida toda. Sofrer de véspera é meu lado perua (vê só, nunca usei estampa de oncinha), mas antegozar o intangível é o quê? Sei não. Não sei se quero saber. Como diz a canção “tu empeñada en que querías ser feliz y yo sentir”.

que lhe cabe

Amara as madrugadas. Amara o pôr-do-sol. Amara, um dia, ver o sol raiar. Amara ver a lua nascer. Amara as intermináveis conversas em horas que todos calavam. Amara o lilás das fotos do incerto do dia, quando não se sabia se luz havia. Amara as manhãs em que a alegria não via o relógio mudar o ponteiro. Talvez nunca tivesse amado o meio, em que não era manhã nem noite e demoravam-se a ir embora – as tardes. Amara ouvir os começos vagarosos do dia e os fins exaustos dos mesmos. Amara os silêncios. Quando pensava demais eram só eles que tinham autorização para lhe fazer companhia. Silêncio de si, do dia, das bocas alheias. E lhe custava, agora, sequer pensar nas bocas alheias. Deixemos pra lá. Amara um por vez, alguns ao mesmo tempo, sem muita contradição, e mudava seus amares às vezes conforme a estação, às vezes ao sabor do humor ou até da idade. Nunca foi sempre a mesma. E não entendiam. Por isso agora ela já não se importava – sofria um tantinho, é claro, só para acreditar que não era assim tão desumana como lhe diziam. Tinha tanto amor, quem sabe.

Ama os fins de tarde. Se fosse o capítulo de um livro, o título de um filme ou de uma canção, seria: os minutos dos desejos. Pois é ali naquele tempo mais pra cá ou pra lá entre o dia e a noite que os desejos estão à flor da pele. Não é ao amanhecer, nem na alta madrugada. E o fim de tarde, de fato, não existe. Ele fica perdido entre minutos que calculam o hemisfério, a despedida do sol, a demora da lua, os encontros e desencontros astrais. E talvez por isso fosse amor contínuo. Para quem vive aos números, não existe o fim de tarde – pois a tarde acaba às 18h no mesmo instante que começam os protocolos de “boa noite”. Quem lhe dizia “bom fim de tarde!”? Ninguém. E no aflorar dos desejos é que existe o melhor do dia. Um silêncio frio reinava sobre os impropérios de uma TV esganada em algum andar do prédio e da furadeira incansável do vizinho que prolongara a manhã e a tarde. O fim de tarde é o ar frio de qualquer estação que súbito avança até os ossos. É este instante. O fim de tarde é a folga dos pensamentos suplantados por puros – nem tão puros – desejos. São as partidas. E a solidão de quem fica. Não há um poro que não respire o fim do dia. Ou da tarde, que a noite ainda é do mesmo dia. São os corredores e xícaras vazias. É a mão fresca a massagear a nuca. É esticar a coluna. É o olhar vago e o suspiro. Ama os fins de tarde como jamais amara alguém. Às vezes ouvia até o zumbido do ouvido e ficava a desejar. Desejava fechar os olhos e deixar a vida entregue às promessas da noite. Às vezes era só nesse instante do fim de tarde que a vida lhe pesava de verdade. Nas outras horas ela fingia carregá-la com grande alegria, esforço e vontade. Ela desejava fazer confidências, confessar medos, rasgar verdades. E calava. Desvairava pensamentos distantes da realidade, esta que a todos os outros momentos lhe espancava a alma. Pois desejava e desejos são da alçada da alma. E a noite tão solícita com as falsas esperanças das pessoas chegava sem hora. Deixava-a ali a obrigar-se a seguir. Apreciava o frio nos pés e mãos, o corpo dolorido, mas já não era mais possível. Os sons que espantavam o silêncio, o violão da aula que começara no andar de cima, os carros chegando na garagem, as portas que batiam, a luz artificial: os desejos não mais vibravam na pele. Era a noite. Já não sabia ao certo, mas por esses tempos as noites pouco lhe importavam se não trouxessem algum prazer ilícito. De resto as via como as malvadas que lhe sacavam os desejos à flor da pele. E eles ficariam ali encantados sob um manto de obrigações e olhos sem destino até o próximo fim de tarde. Ama os fins de tarde que é o amor que lhe cabe.

Tempo é amor

 

Diálogo real

– É casada? Namorado? Um ficante? Um rolo qualquer? – ele me interrompe com cara séria.

– Não. Não. Não. Não. – eu, com um sorriso complacente – Você me pergunta isso toda semana, sabia?

– Sei, sim. De um dia pro outro pode mudar. – ele, ainda sério.

– Ah, não… acho muito difícil. – já preparo meu sorriso de ‘vou fazer uma piada idiota’ quando o assunto fica sério. (sempre faço isso e sei que não adianta, mas não desisto)

– É isso que eu não entendo. – sim, a seriedade já me assusta.

– Não entende o quê? – aí libero meu sorriso extra-mega-super-simpático.

– Você não ser casada, não ter um namorado grudado em você. Você… (uma ênfase, uma pausa, uma coragem) você seria a melhor esposa. Como é que não tem ninguém com você? – como se fosse possível, ficou ainda mais sério.

– Ah, eu seria uma boa esposa? Você nem sabe se cozinho tão bem e, ó, não passo roupa e nunca peguei um bebê no colo. – eu sei, eu sei, minhas tentativas de fazer piada falando sério são um fracasso.

– E daí? Eu poderia passar a vida inteira ouvindo você falar. – e aí ele combina a seriedade com um sorriso encantador (pois eu já ouvi isso antes e já vi dúzias de sorrisos encantadores na vida).

– Ah, aí eu duvido mesmo. Ninguém suporta me ouvir, sabia? Começo a achar que isso aí é cantada barata. Conheço as pessoas e me conheço, falo demais, de mil coisas e ninguém aguenta mais que meia hora. – eu, séria com um meio-sorriso sarcástico querendo encerrar o assunto.

– Eu gosto de te ouvir. Tudo o que você fala, sabe? Me faz ter idéias. Me faz querer falar de mim. – a seriedade desapareceu, o sorriso também, e pude vislumbrar uma melancolia.

– Mas eu já não te disse que pensar demais faz mal? – dou o meu melhor sorriso – Deixe esse mal pra mim, acho até que já me dou bem com ele.

– Mas nunca vou entender você sozinha. – não sei se foi insistência ou persistência dele, mas com sorriso maroto.

– É que não depende dos outros, entende? Depende de mim. E por mim, só você sabe, viu?, tenho preferido conviver com as idéias. – aí a melancolia era minha, sem seriedade e sem sorrisos.

– É… não sei se entendo. – e aí um anjo dos céus interrompeu a conversa que já tinha ido longe demais.

Pessoas especiais: tenho o prazer de tê-las na minha vida. Este 2014 mucho loco me presenteou com algumas delas. Mas, quase tudo de bom que 2014 me deu, também me tirou. Este rapaz do diálogo é mais uma dessas pessoas especiais e tornou-se ainda mais nas últimas semanas. Não foi a primeira vez e sei que não será a última que passarei por um interrogatório sobre ser ‘sem’ marido/namorado/ficante/peguete. Não vou escrever sobre como, ó, a sociedade oprime as solteiras e como as cabeças nos obrigam a estar com alguém. Lá fora as coisas realmente são assim, aqui não.

Fiz a piada de não cozinhar tão bem nem passar roupa ou segurar um bebê (é tudo verdade, viu?) porque eu sei o que um homem ainda espera de uma mulher como conjugue. É triste mas é real – não seria a realidade sempre algo triste? Comentava, esses dias, com umas pessoas sobre isso e chegamos à conclusão (li alguma coisa que me levou a isso também, mas nem lembro o quê) que o homem continua com a mesma visão machista, mas agora ele exige que ela trabalhe. Eu juro que não vou escrever muito sobre essas questões porque estou perturbada e bêbada de Stendhal – guru, amigo, irmão de pensamento. Do jeito que os homens querem as mulheres eu não quero ser esposa/namorada/amante. Já disse, meu último relacionamento acabou no exato instante que ele quis discutir a estampa da cortina da cozinha do apê dele. Mas, Jesus, quero nascer de novo se for pra passar por isso.

Eu quero escrever sobre dois pontos: as palavras (que não devem ser ditas) e o tempo. Sobre as palavras há uma preocupação de ordem acadêmica e criativa, confesso, que me persegue há anos e agora vou me dedicar a estudá-la com mais afinco, mas pra hoje temos algo informal. E sobre o tempo… bem, o amor pode ser aquilo que inventaram só pra justificar nossa procriação, mas o tempo existe sim.

Sou reconhecida por falar (demais, diriam uns) e fui sincera quando disse que ninguém me aguenta muito falando, muito menos pelo resto da vida. Dizia lá uma pessoa querida da minha adolescência que devemos casar com quem gostamos de conversar porque quando tudo acaba, só resta um bom papo (já devo ter escrito isso aqui, além de falar demais ainda me repito). Passei muito tempo acreditando nisso. Até que aprendi a delícia do silêncio a dois. Já pensou se eu fosse casar com todos que me deleito conversando?! Ia ganhar cartão de pontuação de fidelidade de cartório. Mas, não, pois se tem algo que afasto com veemência da minha vida é a banalidade. E as palavras banalizam as relações. Eu raramente digo o que sinto. Porém, não deixo de sentir jamais. Tem um exemplo que vou antecipar aqui sobre o dizer não dizendo. Na “Esse cara sou eu” do Robertão, que eu acho linda-maravilhosa-perfeita e suspiro toda vez que toca, tem um verso – só um – que eu diria pro Rei trocar. Quando ele canta “e no meio da noite me chama pra dizer que me ama” (eu sei, os malas reclamam dessa música – seria porque despertou neles o quanto eles não são ‘esse cara’ para suas respectivas? (quando homens) e porque despertou, nelas, o quanto o ‘cara’ delas não tem nada de especial?). Eu mudaria o “dizer” por “mostrar”. Só isso. Porque o meu ‘cara’ deve me chamar no meio da noite pra mostrar que me ama. Poderia ter resumido o parágrafo todo por “atitudes valem mais que palavras”, mas, vê, falo/escrevo demais.

Escrevo, é um hábito, um exercício, uma profissão de fé. Gosto de ver idéias em palavras (apesar de que a praia agora é outra). Mas eu não sou palavras. Muito menos relacionamentos o são. Em tempos de Whatsapp é difícil entender, eu sei. Quem diria que chegaríamos a este ponto da revolução tecnológica para ficarmos dependentes de comunicação viciada em… palavras (mal) escritas. Nem Bradbury teria previsto algo tão insignificante.

E, enfim, sobre o tempo. Além do Stendhal, sei que o último fim de semana maravilhoso me fez voltar os pensamentos a esta questão. Quis escrever sobre ela faz uns meses, porém 2014 não tem sido querido. Sim, a teoria de que o amor é algo inventado (e não é exclusividade cristã) para nos diferenciar dos animais e justificar nossa procriação não é minha. Lembro de ter pensado isso em algum momento glorioso da minha adorável adolescência (enquanto as amiguinhas namoravam desde os doze anos com quem hoje já são casadas) e é bem provável que fui influenciada por algo que li na época – sim, eu lia muito, foi o que me estragou pro resto da vida. Também não é nada original que amar é doar o seu tempo. Despender tempo com as coisas e as pessoas é a única real demonstração de amor que existe. Em especial para uma pessoa que é solitária por prazer. Não são declarações (as quais, aliás, acho que nunca fiz – pensava cá esses dias), não são buquês de flores, não são cartões e bilhetinhos, não são presentes caros, não é apresentar para os amigos/família, não é nem aquele sussurro ao pé do ouvido na alcova (sim! Também quero escrever sobre isso) nem andar de mãos entrelaçadas. É dedicar tempo. E, ah!, como tenho amado por estes meses!

Fui no aniversário de uma amiga de longa data e eu era a única sozinha ali – eu e a aniversariante. Todos os outros convidados eram casais. Já não sou das mais sociáveis, como todos sabem, e no meio de um papo que girou sobre “dormimos juntos sexta, sábado e domingo” (todos deram esta mesma resposta e ficaram analisando se configurava união estável ou não e tal – havia advogados no recinto) e os financiamentos da Caixa para comprar o apê, além de onde o piso ou o forno de embutir era mais barato, é óbvio que entrei em tédio profundo. Elas ali querendo parecer sensuais e gostosas e maduras e eles a fazerem piadas infantis e poses ridículas e comentários idiotas. Fui me servir e encontrei a aniversariante pegando refrigerante, aí fui obrigada a comentar “E aí, só nós duas sobrando ali no papo de casal. Mas tem cachorro-quente, aí é a nossa praia, né?” e ela deu uma sonora gargalhada. Ela me conhece faz muito tempo, sabe de histórias e histórias, e eu posso dizer o mesmo dela. Aliás, o cachorro-quente estava fantástico. Já avisei a mãe dela que passarei lá qualquer dia desses pra comer mais.

Amar não é escolher o piso do apê. Ninguém vai me convencer disso. Amar é doar-se. É doar o teu tempo para estar com, conversar com, ajudar no que for preciso, só fazer companhia, assistir à novela e ao horário eleitoral junto, pedalar junto, ir ver o pôr-do-sol junto, ouvir (de verdade) o outro. É deixar os compromissos um pouco pra depois só pra poder ficar ali deitado junto, ninando e afagando as saudades e dores do outro (que, às vezes, são nossas também). É mudar toda a rotina pra encaixar tempo pra todos que são dignos do nosso amor. É levar no médico, é levar pra vacina – e não, não é por mera obrigação. É ter tempo para parar tudo o que está fazendo (mesmo diante de prazos apertados) para explicar bem uma coisa que o outro tem dificuldade. É deixar o tempo escorrer em gotas de nós mesmos. Posso não acreditar no amor que me contam, mas conheço bem o tempo.

Tenho amado intensamente neste ano. E, não fosse o tempo, amaria ainda um tanto mais. Tenho feito verdadeiros milagres e preciso de mais alguns até dezembro. Amo tanto e tantos e tanta coisa que tenho me deixado em segundo plano – sei que não deveria, mas… Também tenho feito papel de idiota, é claro, como sempre. Porém, diálogos como o citado aqui me fazem ter certeza de coisas bem especiais. E deixemos a questão do dinheiro (ah! Stendhal!) para outra hora e a discussão sobre ter que deixar de amar por falta de tempo ainda não está pronta.

E é isso, estou que é só amor. Culpa do Stendhal. Do fim de semana. Culpa dos meus ilustres pensamentos. Qualquer dia volto a escrever coisas sérias.

porta do desejo

 

Há portas abertas

Duas à esquerda

e uma à direita

Me basta um passo

o caminho está à distância de um braço

 

 

A vida e o seu gastar sola de sapato

tão aos poucos, tão sem perceber

vai a sola deixando de si

pedaços mínimos.

 

 

Sinto que já deixei sapatos aos prantos

pelas bordas dos caminhos.

Solas furadas machucam.

Troquei sapatos cá e lá

e hoje já não mais.

 

 

Ando descalça, por fim

 

 

Assim, não há mais o que deixar

não há mais o que ter

não há mais o que perder

ou sarar.

Não há.

 

 

Pés fortes e cicatrizados

estão agora diante das três portas.

Escolha feita seguirei

sem pensar nem levar as perdas.

Sou de promessas

dessas de prometer a si mesma

e prometi levar comigo

só o que cabe em mim

e o que comigo caminha.

 

 

Temo meus pensamentos

admito não ter razão

entrego-me de corpo e alma

ao que me consome.

Diante das portas, hesito

hesitações me correm pelas veias

sempre

e à porta desejo

seguirei sem pejo.

Todo dolor

 

Todo dolor

es insoportable

cuando necesito

el silencio

para callar mis lamentos

de las cosas que Dios me quita

de los reveses de la vida

porqué decir el dolor en palabras

es imposible

 

 

en mis sueños

– lúdicos y infantiles sueños

un abrazo suyo

llevaría el dolor y las personas malas

para él fundo del océano

hasta que el aire les cerrase los ojos

nadie echaria de menos quienes hacen daño a los otros

 

 

Todo el dolor

es incomprensible

no me engaño, pues no me hace más fuerte

solo hace sufrir y hasta llorar

Todo el dolor

Te hace infeliz

y si tienes ganas de gritar

hágalo con placer

porque callar-se

es imposible

 

 

la realidad

es incomparable

si lo supiera como traicionarla

me iba a poner mi mejor fantasía de sinvergüenza

la amaría una noche y otra

haría aquellas promesas de alcoba al pie del oído

y después la repudiaría

así como son todos los amores incontrolables

la amaría por desprecio

para llevarle conmigo su astucia

y su insolencia

 

 

Todo el dolor

tan solo duele

y hacemos poesía

y no tenemos presunción

de decir nada más que

el dolor

solo duele

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