A (ex)república

Cantavam boas novas: era do outro lado de um outro mundo. Por enquanto aqui nuvens sombrias atarraxavam o nosso futuro. Mãos gigantes suprimiam as intenções e no outro dia de manhã nós é que tínhamos que levantar para trabalhar – amanhã, mesmo. Interesses sempre regeram os grandes – os estadistas, os heróis, os milionários, enfim – e neles não couberam nunca os nossos, essas pequenezas de vida digna, boa, acesso ao que precisamos e, bem, o básico. Diria que interesses envenenam a alma. Se sobrepõem ao amor, embaçam a visão.

Não víamos, também, é fato. Interesses cegam, de todos os lados, em todas as classes e situações. Meu interesse de vida digna não é menor que o seu de tráficos vários, e o defenderei com a mesma ferocidade. Me aguarde. Alguém sairá ganhando, sempre. Não temos, fica claro, interesses em comum. O teu bem não é o meu bem. E assim persistiremos nessa guerra vil e inválida, destruindo uma nação, um povo, um caminho em comum. Uma saída para tempos tão sombrios. Enquanto cada um morrer abraçado ao seu interesse. Enquanto cada um escolher um lado – diante das escolhas que já fizeram por nós.

Tentaria dizer: pensemos (com calma). Em vão. Pensar não é o forte do nosso povo. E não temos perspectiva de boas notícias – pois elas já vêm determinadas, agendadas, gravadas e provadas – porque somos o meio desse comércio todo no qual transformaram um país que poderia ter sido – e não foi, quiçá jamais será. Passou da hora de acreditar no futuro. Passou da hora de crer em líderes salvadores. Amanhã (restam poucas horas do hoje, mais um hoje que não nos valeu bem) teremos que levantar para trabalhar. Ninguém nos pagará mesadas enquanto estivermos presos. Ninguém nos mandará mochilas com quinhentos mil.

Amanhã. É o que nos resta: esperar pelo amanhã. Esperar pelo trabalho a ser feito – da melhor maneira possível, com um sorriso no rosto, de preferência -, pelo salário a cair na conta, pela preservação da vida num caos social, pela saúde que não nos faça passar por humilhações. Imprescindível não é esperar, é fazer o seu tanto, plantar e colher. Cuidar do nosso jardim. Era o que eu pensava hoje ao tirar os galhos secos dos pés de morango, ao regar o cacaueiro, a arrancar as couves secas. Precisamos cuidar mais e melhor dos nossos jardins.

Visto lá de cima, talvez uma revolução de jardins bem cuidados contamine os jardins que estão apodrecidos, tomados de erva daninha e de bichos predadores. Talvez os que não cuidam dos seus jardins e os deixam tomados por mato alto e pulgões sintam vergonha das suas práticas diante de tantos jardins com plantas e flores bonitas, árvores vigorosas e sadias, sem desleixo em combater ataques de insetos. É no que eu acredito. É o que eu faço – e, talvez, esqueçamos daquele ditado “faça o que eu falo, não faça o que eu faço” porque a imitação é umas das formas de apreender este mundo. Que este, o mundo, seja melhor. Que todos nos preocupemos em cuidar dos nossos jardins.

Mesmeriza

Preciosa certeza que tens

entre o peito e as mãos

que tecem teus vãos

de silêncios e lágrimas

Vadia tua crença

de que não mudaste

com os dias de frio

amparados na solidão

Mesmeriza um porvir

que abominaste outrora

corre, foge à armadilha:

são sonhos de oásis

Repara na idade da alma

que trocou-te a roupagem

por translúcidos vestidos:

andas devagar e leve

 

que te invejam o nascer livre do sorriso

e o livre do corpo a amar sem peso.

Penitência

Era pra ser melhor. Mas, dizem, só temos essa vida. E é dela que temos que fazer – não tirar – o melhor. Às vezes dá mais trabalho, raramente quase não depende de nenhum esforço. Eu começo aqui e em duas linhas quero desistir, pois cansaço, sono, uma certa tristeza me invade. Mas o caminho trilhado é sempre longo. Não se chega a nada bom em dois curtos passos. E amanhã nunca é uma certeza – pelo menos, até o momento, tenho certeza que não conseguirei tempo para terminar e publicar este texto, portanto, é melhor que o faça agora. Enquanto escrevia a frase anterior me veio à memória a imagem de um sonho que tive, faz tempo. A cabeça funciona assim, sempre tão mais rápido do que esses dedos que deslizam céleres pelo teclado ou ainda mais veloz do que este corpo que implora por cama – anda viciado, eu diria. O sonho, só para esclarecer, não tem nada a ver com o que se passa agora: talvez apenas saudade de dormir, ou de sonhar, ou uma sinapse fora do lugar.

É pra ser melhor. Tem que ser. Sem nenhuma obrigação, que fique claro. Tem que ser porque queremos que seja. Queremos que seja melhor para nós. “porque merecemos”: não chegaria a tanto. Porque, pelo bem e pelas boas ações, temos que fazer o melhor. Não cabem acusações ou discussões. Há o reto a seguir sem desvios. Eu lia esses tempos uma crônica do Saramago, que me fez uma bela companhia, na qual ele falava de como o escritor dá vida ao entorno dele, ao escrever. Como um mundo surge, e aqui solitária neste oficina frio e mal iluminado, e preenche minha visão de mundo – a qual eu dissemino porque as gavetas são poucas e já estão cheias. Talvez ele falasse também disso, dos autores que não são publicados. Ou li naquele jornal de literatura, agora estou confusa. (perdoem, passa das 22h e a cabeça a rememorar sonhos, a desejar sono) Mas, vejam, extraordinariamente há uma anotação aqui que comprova a ligação destes dois pensamentos. É em um bloco que eu deveria carregar comigo – estou, novamente, tentando.

É melhor. Não preciso me enganar, é sim. (tomei um chá de cidreira e laranja, acordada por milagre no momento – daqui a pouco transcrevendo sonhos ao vivo) É porque começou diferente. É porque eu, finalmente e pela primeira vez, estou disposta (e me empenhando, juro) a fazer e ser melhor. Só por isso já valeria, mas não basta. Sou exigente – todos concordam. Dizia lá o Saramago que o cronista é chato, e nada mais chato do que a cronista ficar falando em sono (contagioso, só pode, tomem cuidado) a toda hora. Somos chatos porque evidenciamos o que ninguém quer ver. Porque pegamos o sono e trazemos para o meio dessas páginas enquanto acreditamos que devemos ser melhores – dando o exemplo, diga-se de passagem. Anotei aqui que o Affonso não é um cronista chato, mas, me desculpem, não sei qual a associação que eu fiz no momento da anotação (por isso que não consigo manter o hábito da caderneta de anotação, as idéias não funcionam depois). Talvez tivesse algo interessante a dizer. Leiam-no e depois me digam se vocês entenderam qual a minha idéia, mas antes leiam o Saramago. Há algo, eu garanto.

Acabo de fechar a caderneta (e colocá-la na gaveta quando ela deveria ir direto para a bolsa) e nela ainda há, pelo menos, umas três idéias de texto – uma descartada, pois o tempo condena ao desuso as mais prementes necessidades. Senti falta de escrever. E é – sempre – preciso escrever. Sempre e sempre. E nem é o tempo. Nem a falta de idéia (nunca). Ou o vazio da experiência (jamais). É minha falta de compromisso. Condenada e julgada. Minha penitência é o próprio crime. Avisem que voltei e nunca deveria ter me ausentado, eu sei. E é nesse turbilhão que a vida segue (e é como eu gosto que ela seja). E que estamos bem. E que sejamos melhores.

Só benção e reza!

Eu diria que dá para sentir no ar que se respira, porém é justamente como se trancasse as narinas. Ela quer matar, sufocar, humilhar – não há um pingo de humildade nas suas intenções. A maldade percebe-se no ar: escorre pelas paredes de pequenas salas e contamina o sangue de grandes famílias. Ela move as decisões de estadistas das maiores nações. A maldade, meu filho, revive no creque do pisar numa inocente barata.

Queria também poder dizer que dela é possível proteger-se: só benção e reza, para os que crêem, e olhe lá! A maldade não se impõe limites e é difícil dificílimo contê-la entre leis e tarjas preta. Porque é instintivo, o ser humano é o único animal que age instintivamente para fazer o mal aos seus semelhantes, pelo puro prazer ou por, simplesmente, prejudicar, fazer sofrer, lucrar algo com a maldade. Não é só para disputar a presa ou a fêmea (como diz a canção) que causamos voluntariamente mal ao nosso igual. É para vê-lo sofrer. É para sentir-se superior. É para destruir sua integridade, sua paz, sua família, suas posses, sua felicidade. É esta maravilha, o animal humano.

A maldade é pegajosa. Haja banho para limpá-la das nossas almas. Porque ela contamina, nos deixa doentes, desvirtua nosso dia e nossas ações. Sempre foi e sempre será mais fácil ceder à maldade – vai de você preferir o difícil na vida, ou simplesmente agir pelo que é correto. Fazer o mal ao próximo – nem precisa ser cristão, convenhamos – é inaceitável. Regozijar-se com a maldade deve ter explicações psicológicas, psiquiátricas, quiçá científicas. Humanas, jamais.

Talvez o amor cure. Há casos em que o amor pode curar um coração tomado pela maldade. Ele age assim porque não é amado, ou porque não aprendeu a amar, ou porque conviveu tempo demais sendo mutilado pela maldade alheia. Ou algum outro ou. E amar essas pessoas más é um dever (kantiano, por certo). É preciso amá-las para que elas percebam que o amor é mais, é maior do que o que elas têm oferecido ao mundo. Porém, deixem-me dizer-lhes: há casos em que o amor não basta. Há pessoas que não sabem (ou não querem, ou ou ou…) receber amor. Há pessoas para quem o amor é uma falsidade, uma superficialidade qualquer que não lhes enche o coração, não lhes corre nas veias nem lhes abre um sorriso. Aí não há amor que dê jeito e só a distância resolve.

Amar não é, por sua vez, nada fácil. Nem é para todos, sejamos francos. Amar é doar-se – e nem todos conseguimos. Talvez, apenas talvez, por isso tantos se encaminhem para a maldade. O mal pensa em si mesmo; o bem sabe que o amor é por e pelo outro.

Não passa nem passará

Alento

é o tempo

passou e eu quis fugir

dobrou esquinas

respirei em descompasso

Alento

é a solidão

ficou e eu quis sumir

varou noites

tomei indecisões

Sem alento

é a roda, gira

e a tarde e um dia

e nada se desvia

nem se nega

Sem alento

é o mesmo guia

e o que não devia

e sigo perdida

foi-se a vida

Dia de folga

Hoje não é dia
do trabalho
nem do trabalhador
Hoje quem não tem folga
é o amor

O amor que tece
o sofá em cores de riso
e a cama em suspiros

Hoje a folga é nossa
folgo em saber:
és meu tempo
sou tua pauta

O amor reverbera
as paredes da cozinha
do quanto me vale
ter tua companhia

Hoje é feriado
para a distância
para os dias da semana

O amor acampou
na chegada do frio
entre música ao longe
e perigos de cidade grande

Hoje somos nós
por todos os hojes que virão
em dias primeiros ou 26
por todos os nós
que desataremos – juntos.

Fuga intermitente

Nas ondas se desfaz

um devaneio

em crise e pêlo

de corpos cansados

A água amortece

o tempo da angústia

dura aqui eternidade

e um fim se alastra

como quem não quer

deixar de lutar

o sopro, a vida

Seria possível

fechar os olhos

imergir as preces

em sons de ondas

e dar passagem

ao esquecimento?

E assim escorre

cada pingo e nó

e água sem cheiro

nos dias de peso

e pressa e pés

Os dias de escuridão

É na escuridão que os olhos ficam mais abertos. Eles se ajustam ao não ver para enxergar melhor, ainda mais. Não ver é um modo mais delicado de ver. São os sons dessas vidas que suspiram em gozo pelos próximos instantes, que podem sempre ser os últimos. A escuridão só é perturbada por essa janela grande que dá para uma parede externa. Luzes de outros mundos em suave agitação chegam a amarelá-la. Mas os olhos devem chegar até ela e voltar. É aqui dentro que o mundo se justifica e luta por si mesmo.

É na escuridão que lhe dói o conceito de vida. Esse conceito que muda, meu pai, de cabeça para cabeça – e que não deve ser aceito nem combatido. Vidas são vidas: nem todos os olhos têm alcance para percebê-las. Justo seria dizer “senti-las”, mas emoções não são bons argumentos. (por isso tenho evitado-as, sempre) O escuro nos afoga, se dermos bobeira de fechar os olhos. O escuro traga nossa percepção do sensível do mundo para um saco inglório de roupas sujas e infectadas do qual logo quereremos nos livrar. Abra os olhos no escuro, abra ainda mais.

É na escuridão que o tempo desliza. A cada escuridão, um novo dia. Um novo e brilhante e calorento dia. É em meio a escuridão que esquecemos isso. Quem muito vê a escuridão deixa de crer que novos dias amanhecerão. São as vidas que roncam no escuro que velamos de olhos bem abertos. Nós temos a certeza de um novo dia e precisamos garantir os novos dias delas. É sutil deixar-se levar pelo escuro de um tempo que não passa, só se realiza, em poucos minutos, e claridade bruta e pálida.

É na escuridão que os sentidos despertam para a incompreensão. Como pode um mundo tão negro de intenções e ações? Tão negro de sentimentos sinceros e puros? Como podem amantes da escuridão, a ponto de andarem de vendas durante o dia? Por que existem dias tão escuros? Por que dias se transformam em noite em instantes? A escuridão nos aguça a alma para as questões perturbadoras que insistem em não ouvir respostas.

É na escuridão que eu fico todas as noites a pensar que a vida nada mais é, agora, do que fazer o que é preciso. É a força que gera o movimento. Não são imprescindíveis explicações, nem as fadadas emoções. É o mover-se na escuridão de olhos abertos e coração apreensivo enquanto calamos o que nos esvai nas veias ansiosas por chorar em silêncio no ombro amado.

Será escuro pelas próximas horas.

Partimos

Assisto o trem partir

sob esperanças

macias são tuas palmas

e tuas inesperadas

chegadas

 

em tua companhia

o barco à deriva

invadiu a praia

das alegrias

 

em teu sorriso

a moça arredia

seguiu o instinto

da felicidade

 

Seguimos viagem

sob lembranças

doce é tua inocência

e tuas respostas

silenciosas

Inspirações ao acaso do tumulto

Um amor de conto de fadas

desses das páginas de romances do século passado

ou das páginas de crônicas de jornais

um amor dos tempos das viagens de trens

e dos silêncios à beira-mar

dois personagens que se apaixonam

mal se viram nem se tocaram

apaixonam-se, assim

pelas idéias e pelas palavras

Um amor sem tréguas

que incendeia as almas e as madrugadas

que insiste em atravessar avenidas

e deixar-se em bancos de praças

ou jardins de museus quase abandonados

Um amor à distância

de dias e horas e míseros minutos

os personagens, por vezes, encontram-se no porto

anseiam descobrir as manobras dos navios

e por ali observam as aves a devorarem

incautos peixes e siris

enquanto sossegadas capivaras descansam

ouvem o marulhar da baía e celebram

brindes de caldo de cana

Um amor que sobrevive

às cicatrizes

e promete possuir ilhas e barcos

para sempre navegar ao infinito

e às ilhas desconhecidas

devorando poesias sem rimas

e páginas perdidas em sábados de preguiça

os personagens se encontram

quando não procuram mais

almas gêmeas nem duras penas

e traçavam caminhos sem companhia

quiçá sem sonhos

travam diálogos desconfiados

e se correspondem por mensagens cifradas

em declarações que poucos lêem

sem saber a quem se destinam

garrafas jogadas ao mar das esperanças

Um amor sem fadas

nem percherons admiráveis

nem finais desencantados

nem bruxas malvadas

quem dera, versos rimados

Repousa no intervalo

das Estações e implora

pelas férias dos corações

entre datas esquecidas

e ilustres feriadões

os personagens viajam ao encontro

do amor.

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