Convidado

Esta boca

não tem teus beijos

nesta cintura

não tem sinais das tuas mãos

Tola fui

festa fiz

na tua chegada

e não te vais

para sempre.

Presença sutil

quando quase esqueci

teu cinismo me alcança

a nossa música toca

queres presente

me contas tuas conquistas

e eu não sou tua.

Por que não me esqueces?

Desacreditei o coração

te abandonei nos sonhos

tola fui

e quis tua vida

– esta que tu já tens.

Perca-me do teu caminho

guarde pra ti as ilusões

cala – o que não vivemos.

No jardim tem convidado

arrumei a casa

limpei as vidraças

ouço novas músicas

é hora de abrir a porta.

Antes e depois da chuva

Desligar o computador sem o sentimento de dever cumprido, mas pelo pesado fato de que não aguentava mais. Meu limite de computador sempre foi duas horas (exceto quando jogava virada na madrugada o SimCity 3000). E a vida passa e os trabalhos exigem dias excruciantes em frente a tela. Não tinha trabalhado o suficiente para o dia, não via o fim do túnel, ainda, e desliguei – num impulso. Dia difícil, idéias incompletas, espírito selvagem. Desliguei sem nenhum peso no dedo.

Nessa guerra quem ganha é a companhia. Saio pelo quintal com a gata e o cachorro. Dizem que um poeta disse “feche os livros e vá viver” e outro que a gente canta o quintal de casa. Foi naqueles dias quando ainda víamos o sol. Esgotada a mente o corpo precisava viver. Eu sou feliz no meu quintal – nem todos podem dizer isso, de verdade. O quintal é onde se cultiva, é semear, esperar, esperar, esperar e esperar (já disse esperar?), é a alegria do brotar, do desespero de falta e excesso de água. É regar, proteger, fazer muda. É transplantar. É coisa de velho, diriam, pois personagens que cuidam do seu quintal, na ficção, são os velhos (só reparem). O quintal é trabalho, cuidado e perseverança.

No perfume da lavanda, o cachorro educadamente deitado sob os galhos secos da videira, a gata ao lado se deleitando ao sol, olho para o céu. Que o quintal também tem céu. Enquadrado parte pelo concreto, parte pela palmeira e outro lado pelos galhos da árvore-que-eu-não-sei-o-nome (a que plantei quando criança e hoje está enorme) era a lua, as nuvens em forma de caminho e um jato a cruzar o espaço. E nasceu a vontade de, a despeito pelo amor ao quintal, estar no jato – fosse de e para onde fosse. Era voar, ir, voltar. Já morei próximo a um aeroporto e tinha por hábito ver os aviões da varanda – quando não ia até a praia vê-los sobre minha cabeça. E no meu quintal nunca vira um avião.

Dizem que a humanidade pode ser sempre dividida em dois. Os “esses” e os “aqueles”. Os que gostam de azeitona, e os que não gostam. E por aí vai. Senti aperto tão grande na alma, calei desejos e acendi penumbras. Fiquei a ver o jato. Depois até fui buscar a câmera para fotografar (o risco do jato não ficou como deveria, claro). Mas aqui tudo estava eternizado. A humanidade pode ser dividida entre a terra e o ar – os que criam raízes e os que criam asas. Eu criança nunca queria voltar para casa, de uma viagem. Eu adulta volto para casa meio contrariada, pela obrigação, e no mau humor do cão. Sabe aquela de que voltar é a melhor parte da viagem? Eu nunca soube. Quando criança nada me prendia à “volta”. Depois havia – ou há. São as raízes. Eu, logo eu, que não as tenho.

Viver na terra é para quem tem raízes. Para quem se vê em cada esquina. Para quem não vive sem sua rotina. Viver a viajar é para quem sente a vida num outro grau. Já morei onde eu podia fugir de casa (e, sim, eu morava sozinha) e, quem sabe, até voltar no mesmo dia. Podia ir até ali e este “ali” se traduzia num outro mundo. A humanidade de fato se divide entre a terra e o ar. E o eu hoje tem quintal e tem ânsias de voar. Tenho duas humanidades, será? Sou desumana ao dizer que viveria sem o meu quintal, por isso temo dizer. Mas sei que não posso viver sem o ar. E estranham quando nunca estou só num mesmo lugar. Talvez a longa tradição (que ainda não abandonei, nem pretendo) de passar a temporada de Verão na praia e o resto do ano na cidade (e se a cidade tiver praia, melhor ainda, mas, mesmo assim, irei para outra na temporada).

Talvez o tempo. O tempo juntou essas duas humanidades. E há tempo o suficiente para satisfazê-las a ambas. Não abro mais mão do meu quintal. Não posso mais abrir mão de voar. (talvez persista o incontornável mau humor do “cheguei”) Sei que fica mais difícil quando o trabalho dá uma folga e uma chuva interminável não permite que o quintal seja aproveitado. Aí só resta a birra e o consolo pós-contemporâneo de maratonas de séries terapêuticas na solidão. Foram, talvez, três dias a olhar desconsolada pela janela, a tentar todo tipo de distração com os cachorros e gatos mais enfezados que eu pelos pingos que não deram trégua. E o quintal para cuidar. E, agora, as passagens para comprar. As datas para planejar. O trabalho para dar conta. E ser uma só.

Para quem joga só de um desses lados da humanidade, tenho a esperar a desprezível incompreensão. Aos que nunca buscaram seus sonhos, sabem muito bem o que estão perdendo. Não descontem em mim suas frustrações. Ainda não consegui ser só uma; ainda me divirto tanto com os sonhos (em especial os de olhos fechados, num certo sentido, mas desses não posso falar). Se o tempo vier a mudar algo disso, terei muito a lamentar. Tenho raízes, mas água demais as apodrecem. Sem ar o corpo não respira – e não vive.

Anseios de um dia de amor

Anseio
que me vejam ao teu lado
que nunca conheças meu passado
e teu corpo da nuca aos calcanhares
só e só e só
e só meu
Anseio
namoro todo dia
no portão de casa
na calçada e na praia
no shopping e no sofá
que vejam que saibam
que invejem que cobicem
Anseio
gargalhadas e gritos
discussões sem fundamento
sustos e que o fogo
não caia em desuso
e boa noite sem muxoxo
Anseio
arranhões e portas batidas
verdades escancaradas
e que nunca descubras:
os meus sonhos pelas madrugadas
e o que faço quando te odeio
Anseio
a vida sem laços nem promessas
sem cartório nem padre nem pastor
e constantes torturas de amor
quando teus pensamentos forem
meus
e só e só e só e só
meus.

As tais cartas de amor

Sublinho as palavras mais difíceis

abandono as que desconheço

tua letra é pequena

tuas frases curtas são mesquinhas

falta sentimento na página

tão bem escrita

cheia de parábolas e metáforas

vazia de paixão por mim

Há esse amor que transborda

por si mesmo em cada linha

na tarefa intrincada

de traçar textos perfeitos

sem erros e sem afetações

suspeito um desejo

de abalar corações

se esmerando

no senso comum desfeito

nas paráfrases pomposas

e no culto ao inteligível

Esperei esta carta

sonhei uma declaração

senti a pele arder

as noites emudecerem o calor

quase perdi os sentidos como se fosse uma dama

ansiei lê-lo à mão trêmula

olhos embaçados e garganta fustigada

Recebi e li

um tratado, algo assim

um artigo, talvez

devo estudá-lo?

ou vais publicá-lo?

Que amor amado não se publica

atiro as folhas insípidas ao fogo

que cartas de verdadeiro amor

se escondem nas gavetas.

Quando Fassbinder me traiu

Talvez esta história seja triste. Por algum tempo pensei nela com raiva, não tristeza. Os personagens não existem mais na minha história faz um bom tempo, mas uma coisa ficou. E eu não gosto das coisas que ficam…

Já fui traída – de várias maneiras, por amores, amigos, colegas de estudos e de trabalho, familiares. Não costumo esquecer as traições porque considero que é mais saudável assim. Nem queria vir contar histórias pessoais. Por algum tempo, como eu disse, eu senti raiva por ter sido traída por um namoradinho (no diminutivo pra demonstrar, com essa dificuldade que nos proporciona a palavra, o quão “pequeno” ele é).

Lá se iam dois anos (se não me engano) de namoro turbulento. Ele conheceu uma moça através de um primo e se falavam pela internet (tempos idos do msn, que eu não possuía, obviamente). Aí um dia ele comentou que ela havia falado do Fassbinder, diretor de cinema, que estava procurando filmes dele ou algo assim. Ele correu baixar loucamente todos os filmes do tal diretor (ele era assim, cheio de manias doentias). Eu, é claro, aquela vida louca, cheia, ocupadíssima como sempre. Numa viagem que eu fiz, ele convidou a tal moça para assistir aos filmes do Fassbinder. Aí, bem, vocês sabem o que o convite “assistir a um filme aqui em casa” quer dizer.

Eu descobri logo depois. Deixemos a podridão da história de lado. Eu pus um ponto final na “nossa” história (digna de um filme de terror intragável). E segui (ele ainda protagonizou cenas lamentáveis durante anos – sim, eu disse anos). Eu tive todos os sentimentos possíveis à época, e não sou boa moça quando com raiva. Mas sou boa com pontos finais.

O problema era o Fassbinder. O problema é o Fassbinder. Eu estudo e trabalho com cinema, desde antes do acontecido. Imaginem vocês, nunca vi um filme do Fassbinder. Por anos eu leio textos, críticas, notícias e volta e meia aparece “Fassbinder”. Hoje mesmo eu aqui imersa em trabalho e, pá, na minha cara, FASSBINDER. Já odiei este homem. Vejam vocês, ele me traiu sem nem saber! Porque traído, queridos, a gente é todo dia. Essa aí nem foi a pior. A mais baixa, talvez, porque digna do “nível” dos envolvidos. Mas o Fassbinder.

O problema é o Fassbinder. Um dia uma pessoa da família disse “quero ver o filme tal” e, pá, era do Fassbinder. Fiz que não ouvi e não toquei mais no assunto. Tinha que ser dele?! A cabeça da gente faz cada associação que é uma miséria. Eu já vi pessoas com esse tipo de (seria trauma?) e ficava toda metida “ah, nada a ver”. Pois é, tudo a ver. Tentei me consolar com um “não estou perdendo nada, deve ser ruim”. Vai na mesma linha de associar músicas a certas pessoas ou relacionamentos, depois que a coisa desanda a música vira outra aos nossos ouvidos. (nesse caso eu nunca tive problemas, tenho até playlists de todas as musiquinhas de amores e tal, coisa mais linda e diabética)

A traição não foi nada. Quem dera o Fassbinder não existisse na face da Terra e eu não tivesse que parar meu trabalho para vir aqui desabafar com vocês essa história. Da qual, aliás, hoje eu dou risada. Quando deparei-me com ele no texto de agora a pouco eu ri “seu safado, tu aqui de novo!”. Mas ainda não vi nenhum filme dele. Preciso assisti-los para poder dizer “é ruim mesmo” (rá!). A vida tem poucas coisas tão boas quanto você poder rir de algo tempos depois de ter passado maus bocados. Porque sofrer pelas mesmas coisas a vida inteira não dá – sempre tem algum sofrimento novo chegando.

Prometo contar, escrever análises longas e minuciosas, quando eu finalmente assistir ao Fassbinder. Aliás, sinto-o quase um amigo. Passamos por uma traição juntos. Não nos deixamos cair nem conspurcar por isso. Um dia faremos as pazes. Fassbinder tornou-se uma obsessão, longe de ter a ver com a história triste de vida, mas uma obsessão cinematográfica: será apoteótico o dia tão esperado de assisti-lo, com direito a muita pipoca, vinho, cobertas, paçoca (e comentários em voz alta, claro, porque eu falo com os filmes). A história será de fato triste se ele me decepcionar – e eu puder comprovar o “é ruim mesmo, viu, eu disse”.

Olhos abertos de tanto amar

Dizem lá a sabedoria popular e as canções que o amor é cego, que quando a gente ama esquece que já sofreu um dia, e afins. Amar é não ver, mesmo. Aí vem aquele pessoal mais romântico (no sentido teórico) e não nos deixa esquecer que o ato de amar e a ilusão não se desgrudam. Poderia até acrescentar os da turma do “amar é sofrer” (porque, é claro, tem a ilusão e a cegueira aí no meio).

Diria que estão todos corretos – sabedoria popular, amor coisa milenar, quem sou eu para discordar ou querer dar aval. Eu amo meus bichos, a despeito de um destruir tudo o que vê, o outro revirar o lixo reciclável, a outra fazer xixi em qualquer lugar e tal. A gente ama e não quer saber dos defeitos, do quão as atitudes do outro nos incomodam, do trabalho e irritação que o convívio traz. Porque, enfim, “amor igual não há”. Ou algum outro verso semelhante. E dá pra amar e ser realista ao mesmo tempo (ou de vez em quando)? Não deve dar, pelo que sei. A realidade vai conspurcando o amor, vai por mim. A ilusão deve ser mantida, alimentada, exaltada. Iludir-se faz bem, é mais recomendado, aliás, para o bem viver do que a poesia.

É assim que o povo prefere viver, com doses cavalares de ilusão. E quem seria eu para discordar dos não dependentes de drogas (de todos os tipos)? Uma chata, porque eu discordo, obviamente. (senão não teria motivo para escrever estas linhas) Então digamos que o amor e a realidade não podem conviver pacificamente. Porque a realidade demanda olhos abertos, coração forte e pulso firme. Ou seja, dá trabalho. E é como falam da TV, depois de um dia excruciante no trabalho, de engolir sapo no trânsito e do patrão, a gente quer é sentar no sofá e esquecer o mundo (vale a abertura pirotécnica e vazia de uma Olimpíada, a novela das nove com mocinha chorosa, a série sensacional enlatada – em doses cavalares de ilusão, como diriam desde Adorno até os intelectuais de quinto mundo). A gente assiste a tudo isso como faz de conta que não se incomoda com descobrir que o cônjuge está bisbilhotando nossas conversas de Whatsapp.

Sempre fui muito criticada por ser… muito crítica. Um disparate evidente! (não o fato de eu ser crítica, mas de me criticarem por isso) Mas o texto não é sobre a Fahya. É sobre essa gente que ama, o que ou quem, e não quer abrir os olhos aos problemas e defeitos do objeto amado. Eu não me importo com o que/quem vocês amam (apesar de ter muita dificuldade em compreender alguns casos), mas fico, às vezes, estarrecida com a cegueira (aquela do começo do texto).

Eu amo praia e entendo quando os que não a amam se referem ao desconforto da areia comentário censurado e como a pele fica pegajosa depois do banho de mar. Ao contrário de quem ama cerveja e não reconhece que ela é azeda. Como existem pessoas que não gostam de praia, existem pessoas que não gostam de cerveja (três frases advogando em causa própria). Talvez amar seja uma balança onde a gente vai pesando e sobrepesando os prazeres e desgostos – cheguei agora a essa conclusão, e, quem sabe, poderia terminar o texto aqui. Porém, essencial é que tenhamos consciência dos prazeres e desgostos, não?

Vejamos um exemplo que muito me agrada. O cidadão joinvilense. Se você (o que eu duvido muito, então o exemplo seria “eu”) faz alguma crítica à cidade (ou Colônia, que fica mais próximo da realidade) dirão que é “falar mal” dela. O cidadão que exige e crítica, aponta incoerências e defeitos, deixa, imediatamente, de ser cidadão e torna-se alguém infeliz, insatisfeito, que só sabe falar mal de tudo (como se precisasse ser assim para arrepiar-se com a cidade). Repare, inclusive, nos jornais locais. Não há uma página de cobrança ou crítica, justo o contrário, muito fazem propaganda explícita para tentar convencer os cidadãos de que as merdas comentário não censurado são perfeitamente justificáveis e boas para a cidade. A despeito do que o cidadão vive, vivencia, sente na pele, ele precisa ser convencido de que aquilo é bom, para o bem dele. E ai de quem disser o contrário – esse aí é só um infeliz, nem joinvilense é, está de mal com a vida.

Cidades têm problemas. Cidades são bem ou mal geridas – em vários graus. Pessoas têm defeitos, agem bem ou mal, têm qualidades. Você pode amá-las, daí a querer fechar os olhos para a parte ruim, imagino que “todo amor que houver nessa vida” não bastará. Talvez a mediocridade (uma das minhas críticas, inclusive, à cidade) não perceba a diferença entre “criticar” e “falar mal” – sei bem como é difícil enfiar isso nas cabecinhas numa sala de aula de Filosofia. O senso comum é pai da mediocridade. Mais medíocre ainda é quem, com a capa falsa da crítica, diz que se você fala mal (rá!), então que faça melhor.

Você pode preferir amar cegamente – quem sou eu para impedir quem quer que seja de fazer o que bem entende – e exigirá que respeitem este amor. Na mesma mão eu vou continuar criticando. Porque não há amor maior no mundo do que o meu por analisar e criticar. Jogo até o argumento invencível do “nasci assim”. Pode perguntar por aí, ninguém nunca soube da Fahya sem ser assim. Então toda esta página e pouco foi para me justificar?

Não. Talvez eu quisesse apenas refletir sobre o amor. Ou sobre a realidade, quem sabe. Porque eu acredito muito que é preciso ter consciência sobre o que fazemos, sentimos, pensamos, queremos. E a ilusão é a serpente do paraíso que nos fisga a não adentrarmos às portas da consciência. Você pode amar o seu marido, daí a querer defender que ele não é um cafajeste e mau-caráter é outra coisa. Você pode amar e defender até a morte a sua mãe, daí a não reconhecer que ela é uma pilantra e mentirosa é outra coisa. (até a mãe entra nessa, viu?) é como ver um filmão, daqueles lindos, emocionantes e que são vazios.

Eu gosto muito do exemplo do cidadão joinvilense (pra você que me lê e não o conhece, não perca a oportunidade). Porque ele fica feliz com vinte minutos a menos no trajeto de ônibus pra casa, enquanto não está nem aí que fizeram mudanças absurdas em prol de ninguém menos que os empresários do transporte público. Porque ele não acha ruim a vocação industrial da cidade, enquanto tantas outras iniciativas e idéias são soterradas. Aliás, o pensamento, de modo geral, é soterrado numa cidade que nunca deu prioridade à educação. E, vocês lembram daquela máxima, se o povo não é educado, não conhecerá seus direitos, não será crítico (!) e não fará cobranças. Mas eles amam Joinville, com o Cachoeira podre, o JEC jogando mal, as enchentes periódicas, o asfalto ruim, a precariedade das universidades, a falta de acesso e valorização da cultura e formação de público, o pensamento limitado, o descaso com o meio-ambiente, a falta de leitos, a dependência pelas capitais próximas, o abandono dos espaços públicos, etc etc etc porque a consideram o melhor dos mundos. E trocam o sofá pelo banquinho desconfortável do bar da moda com um caneco de chope na mão. Porque todos temos direito às ilusões que quisermos.

Talvez eu já tenha dito aqui que jamais serei uma cidadã joinvilense (o que agradaria a muitos). Talvez exista um obstáculo intransponível, pois Joinville virou as costas para o mar e voltou seus olhos para a cerveja (uma piscadinha marota). Mas não é só o cidadão joinvilense que ama, viu? É só porque eu amo o exemplo. Repare bem e verá inúmeros amantes cegos ao seu redor. Amar de olhos abertos é uma experiência para poucos. Enquanto durar a vida, eu aconselharia maneirar nas pílulas de ilusão – mas quem sou eu para dar conselhos?! “Porque el amor cuando no muere mata” e as ilusões envenenam. Quando quiser abrir os olhos, talvez seja tarde demais…

Cuento de hadas

Es que me pierdo

en la incertidumbre

de tus ojos

en las incertezas

de mi vida

reflejo de lo que queda

por las calles

en tus cartas

que nunca he respondido

en los abrazos que no te he dado

en el amor que he renegado

con astucia

deja-me así

deja-me sin rumbo

deja-me sin destino

y sin recuerdos

deja que el tiempo despierte mis ojos

y todo lo que he dejado de hacerlo

por miedo

sea un dolor en carne y sangre

y viva yo infeliz para siempre.

O escritor

Bruto material à flor da pele

machadadas rente ao tronco

sem porém matar os galhos

deixando cair folhas dispersas

de propósito

trai-se em seu ofício

o escritor.

 

Abrupta descoberta do vício

do costume ou do prazer

escreve como quem desperta

de uma longa noite insone

e vê o sol

apaixona-se pelo seu ofício

o escritor.

 

Labuta inglória na gaveta

os delírios calculados

os devaneios racionais

as emoções desvairadas

permanecem

esvai-se no seu ofício

o escritor.

 

Desnudo invade o Outro

a catar roupas velhas

máscaras em desuso

hábitos inconfessáveis

e os publica

abandona-se ao seu ofício

o escritor.

Quem me dera ela fosse a medida de todas as coisas

Lânguida e arrasada na cadeira, braços caídos a encostar no chão, olhos fechados do rosto jogado para trás a banhar-se no sol do inverno daquela manhã. O grande cão cinzento ao lado, sonolento e atento aos passinhos do sabiá que revira a terra nova. Ela repara no vermelho diante dos seus olhos fechados, vira o rosto para a sombra, dizem que é o sangue que colore o escuro. Sente o vento inquieto bailando sobre a pele quente das mangas arregaçadas do moletom. Sussurros de prazer lhe dão o gozo do frio sobre o quente… e ela destina-se a não sair mais nunca dali. O sol das onze lhe dá o torpor de todos os prazeres do mundo. Ela é a medida de todas as coisas. A vida, assim, é bela. As coisas cheiram a jasmim do imperador. O som dos carros e vozes é o piar dos bicos-de-lacre sobre o mato. As intenções das pessoas são o afagar do focinho do cão no seu calcanhar. Ela vê o mundo através dos olhos fechados na penumbra avermelhada. É uma brincadeira de sol e sombra. As folhas caem da cerejeira como os dons são bem usados por todos. Ela é a medida de todas as coisas, assim, todos creem em Deus. Todos gozam os prazeres da carne como ela antecipa o chá quente que a espera dentro de casa. Ela abre os olhos a piscar-se intensamente buscando os galhos do hibisco sem flores. O livro desfolhado no colo demora-se a ficar nítido. Talvez ali tenha algo importante a ser lido. Talvez as pessoas preocupem-se com o que é sério a ser dito. Ela joga novamente a cabeça para trás até cair do encosto da cadeira. Fecha os olhos. O sol lhe queima a ponta do nariz arredondado. Um esboço de sorriso se achega quando ela ouve o cão sair correndo atrás do sabiá desprevenido que cutucava o canteiro das roseiras. Ela é a medida de todas as coisas, assim, cães têm asas. Homens têm dois corações, crianças não sentem dores. Ela pensa no horário, pensa nas páginas a serem lidas, nas árvores que precisam ser plantadas, e abandona-se igual ao sol e ao prazer. Ouve miados vindos da janela. Ouve os zunidos da rua. Ouve o eco do seu coração. E ouve o zumbido do ouvido. Ela é a medida de todas as coisas. As más-línguas, assim, são contorcidas em nós de silêncio. E os dias viram noites somente em estripulias debaixo dos lençóis – e cobertores, quando inverno. Os olhares acariciam em pré-abraços. As distâncias são vencidas com beijos levados pela brisa. E o sol se põe quatro vezes por dia. Porque ela é a medida de todas as coisas. Ela sente o mundo na medida do prazer daquele corpo estirado ao sol. E o mundo é do tamanho daquele jardim. Da altura da ameixeira. E precisa tanto dela como ela dele. O cachorro lambe seu braço e exige carinhos e atenções. Ela ergue a cabeça e sorri e manda-lhe beijo. Deixa a mão perdida sobre a cabeça do bichano. Talvez lhe dê uma insolação. Talvez lhe atrase o dia. Talvez lhe doa as costas. Talvez lhe chamem. Joga a cabeça para trás e não fecha os olhos. Distrai-se com o limite do céu. Ela é a medida de todas as coisas. E, a começar, não existem limites. Assim, nada traduz-se em palavras ou idéias: tudo é emoção. Emocionam-se perdidamente todos os seres sobre a Terra, diariamente, pelos amores e paixões, pelo que e por quem quer que seja. Entregam-se a desejos sempre, todos os viventes. Porque ela é a medida de todas as coisas. Fecha os olhos. O livro cai do colo e espatifa suas folhas na calçada. Ela estica as pernas. Ficará ali. Se não para sempre, ao menos até que, enfim, o mundo lhe caiba nas suas medidas.

Tentativas em vão de conquistar teu coração

Pintei as unhas, coloquei salto alto, fiz escova no cabelo

vestido de veludo, bolsa de festa, batom scarlet

e você não veio.

 

Me inscrevi na yoga, virei vegetariana, larguei o álcool

fiz meditação na praia, abri um brechó, aderi ao budismo

e você não apareceu.

 

Abri uma franquia, investi na bolsa, ganhei rios de dinheiro

comprei casa, carrão importado, frequentei as festas de luxo

e você não surgiu.

 

Fiz graduação, mestrado, doutorado, pós-doc, colecionei títulos

passei em concursos, me tornei a especialista das especialistas

e você nem deu as caras.

 

Virei dona de casa, aprendi a bordar, cozinhar, pintar e costurar

deixei a casa limpa, o jardim arrumado, a louça brilhando

e você não caiu do céu.

 

Emagreci, me inscrevi na academia, corri meia maratona

troquei o sorvete pelo supino, nadei na olimpíada

e você não bateu a minha porta.

 

Tirei todas as selfies do mundo, tive mil amigos no Facebook

fui a popular da cidade, virei amiga de famosos

e você nem se apresentou.

 

Fiquei triste, amigos tiveram dó de mim, só me vestia de preto

cortei os pulsos escondida, escrevi poemas de morte

e você não compareceu.

 

Coloquei a calça velha de moletom e o meião cerzido no calcanhar

peguei pipoca e chocolate, dei play no filme francês

e por você eu não espero mais.

Blog no WordPress.com.

Acima ↑