Olhos abertos de tanto amar

Dizem lá a sabedoria popular e as canções que o amor é cego, que quando a gente ama esquece que já sofreu um dia, e afins. Amar é não ver, mesmo. Aí vem aquele pessoal mais romântico (no sentido teórico) e não nos deixa esquecer que o ato de amar e a ilusão não se desgrudam. Poderia até acrescentar os da turma do “amar é sofrer” (porque, é claro, tem a ilusão e a cegueira aí no meio).

Diria que estão todos corretos – sabedoria popular, amor coisa milenar, quem sou eu para discordar ou querer dar aval. Eu amo meus bichos, a despeito de um destruir tudo o que vê, o outro revirar o lixo reciclável, a outra fazer xixi em qualquer lugar e tal. A gente ama e não quer saber dos defeitos, do quão as atitudes do outro nos incomodam, do trabalho e irritação que o convívio traz. Porque, enfim, “amor igual não há”. Ou algum outro verso semelhante. E dá pra amar e ser realista ao mesmo tempo (ou de vez em quando)? Não deve dar, pelo que sei. A realidade vai conspurcando o amor, vai por mim. A ilusão deve ser mantida, alimentada, exaltada. Iludir-se faz bem, é mais recomendado, aliás, para o bem viver do que a poesia.

É assim que o povo prefere viver, com doses cavalares de ilusão. E quem seria eu para discordar dos não dependentes de drogas (de todos os tipos)? Uma chata, porque eu discordo, obviamente. (senão não teria motivo para escrever estas linhas) Então digamos que o amor e a realidade não podem conviver pacificamente. Porque a realidade demanda olhos abertos, coração forte e pulso firme. Ou seja, dá trabalho. E é como falam da TV, depois de um dia excruciante no trabalho, de engolir sapo no trânsito e do patrão, a gente quer é sentar no sofá e esquecer o mundo (vale a abertura pirotécnica e vazia de uma Olimpíada, a novela das nove com mocinha chorosa, a série sensacional enlatada – em doses cavalares de ilusão, como diriam desde Adorno até os intelectuais de quinto mundo). A gente assiste a tudo isso como faz de conta que não se incomoda com descobrir que o cônjuge está bisbilhotando nossas conversas de Whatsapp.

Sempre fui muito criticada por ser… muito crítica. Um disparate evidente! (não o fato de eu ser crítica, mas de me criticarem por isso) Mas o texto não é sobre a Fahya. É sobre essa gente que ama, o que ou quem, e não quer abrir os olhos aos problemas e defeitos do objeto amado. Eu não me importo com o que/quem vocês amam (apesar de ter muita dificuldade em compreender alguns casos), mas fico, às vezes, estarrecida com a cegueira (aquela do começo do texto).

Eu amo praia e entendo quando os que não a amam se referem ao desconforto da areia comentário censurado e como a pele fica pegajosa depois do banho de mar. Ao contrário de quem ama cerveja e não reconhece que ela é azeda. Como existem pessoas que não gostam de praia, existem pessoas que não gostam de cerveja (três frases advogando em causa própria). Talvez amar seja uma balança onde a gente vai pesando e sobrepesando os prazeres e desgostos – cheguei agora a essa conclusão, e, quem sabe, poderia terminar o texto aqui. Porém, essencial é que tenhamos consciência dos prazeres e desgostos, não?

Vejamos um exemplo que muito me agrada. O cidadão joinvilense. Se você (o que eu duvido muito, então o exemplo seria “eu”) faz alguma crítica à cidade (ou Colônia, que fica mais próximo da realidade) dirão que é “falar mal” dela. O cidadão que exige e crítica, aponta incoerências e defeitos, deixa, imediatamente, de ser cidadão e torna-se alguém infeliz, insatisfeito, que só sabe falar mal de tudo (como se precisasse ser assim para arrepiar-se com a cidade). Repare, inclusive, nos jornais locais. Não há uma página de cobrança ou crítica, justo o contrário, muito fazem propaganda explícita para tentar convencer os cidadãos de que as merdas comentário não censurado são perfeitamente justificáveis e boas para a cidade. A despeito do que o cidadão vive, vivencia, sente na pele, ele precisa ser convencido de que aquilo é bom, para o bem dele. E ai de quem disser o contrário – esse aí é só um infeliz, nem joinvilense é, está de mal com a vida.

Cidades têm problemas. Cidades são bem ou mal geridas – em vários graus. Pessoas têm defeitos, agem bem ou mal, têm qualidades. Você pode amá-las, daí a querer fechar os olhos para a parte ruim, imagino que “todo amor que houver nessa vida” não bastará. Talvez a mediocridade (uma das minhas críticas, inclusive, à cidade) não perceba a diferença entre “criticar” e “falar mal” – sei bem como é difícil enfiar isso nas cabecinhas numa sala de aula de Filosofia. O senso comum é pai da mediocridade. Mais medíocre ainda é quem, com a capa falsa da crítica, diz que se você fala mal (rá!), então que faça melhor.

Você pode preferir amar cegamente – quem sou eu para impedir quem quer que seja de fazer o que bem entende – e exigirá que respeitem este amor. Na mesma mão eu vou continuar criticando. Porque não há amor maior no mundo do que o meu por analisar e criticar. Jogo até o argumento invencível do “nasci assim”. Pode perguntar por aí, ninguém nunca soube da Fahya sem ser assim. Então toda esta página e pouco foi para me justificar?

Não. Talvez eu quisesse apenas refletir sobre o amor. Ou sobre a realidade, quem sabe. Porque eu acredito muito que é preciso ter consciência sobre o que fazemos, sentimos, pensamos, queremos. E a ilusão é a serpente do paraíso que nos fisga a não adentrarmos às portas da consciência. Você pode amar o seu marido, daí a querer defender que ele não é um cafajeste e mau-caráter é outra coisa. Você pode amar e defender até a morte a sua mãe, daí a não reconhecer que ela é uma pilantra e mentirosa é outra coisa. (até a mãe entra nessa, viu?) é como ver um filmão, daqueles lindos, emocionantes e que são vazios.

Eu gosto muito do exemplo do cidadão joinvilense (pra você que me lê e não o conhece, não perca a oportunidade). Porque ele fica feliz com vinte minutos a menos no trajeto de ônibus pra casa, enquanto não está nem aí que fizeram mudanças absurdas em prol de ninguém menos que os empresários do transporte público. Porque ele não acha ruim a vocação industrial da cidade, enquanto tantas outras iniciativas e idéias são soterradas. Aliás, o pensamento, de modo geral, é soterrado numa cidade que nunca deu prioridade à educação. E, vocês lembram daquela máxima, se o povo não é educado, não conhecerá seus direitos, não será crítico (!) e não fará cobranças. Mas eles amam Joinville, com o Cachoeira podre, o JEC jogando mal, as enchentes periódicas, o asfalto ruim, a precariedade das universidades, a falta de acesso e valorização da cultura e formação de público, o pensamento limitado, o descaso com o meio-ambiente, a falta de leitos, a dependência pelas capitais próximas, o abandono dos espaços públicos, etc etc etc porque a consideram o melhor dos mundos. E trocam o sofá pelo banquinho desconfortável do bar da moda com um caneco de chope na mão. Porque todos temos direito às ilusões que quisermos.

Talvez eu já tenha dito aqui que jamais serei uma cidadã joinvilense (o que agradaria a muitos). Talvez exista um obstáculo intransponível, pois Joinville virou as costas para o mar e voltou seus olhos para a cerveja (uma piscadinha marota). Mas não é só o cidadão joinvilense que ama, viu? É só porque eu amo o exemplo. Repare bem e verá inúmeros amantes cegos ao seu redor. Amar de olhos abertos é uma experiência para poucos. Enquanto durar a vida, eu aconselharia maneirar nas pílulas de ilusão – mas quem sou eu para dar conselhos?! “Porque el amor cuando no muere mata” e as ilusões envenenam. Quando quiser abrir os olhos, talvez seja tarde demais…

Cuento de hadas

Es que me pierdo

en la incertidumbre

de tus ojos

en las incertezas

de mi vida

reflejo de lo que queda

por las calles

en tus cartas

que nunca he respondido

en los abrazos que no te he dado

en el amor que he renegado

con astucia

deja-me así

deja-me sin rumbo

deja-me sin destino

y sin recuerdos

deja que el tiempo despierte mis ojos

y todo lo que he dejado de hacerlo

por miedo

sea un dolor en carne y sangre

y viva yo infeliz para siempre.

O escritor

Bruto material à flor da pele

machadadas rente ao tronco

sem porém matar os galhos

deixando cair folhas dispersas

de propósito

trai-se em seu ofício

o escritor.

 

Abrupta descoberta do vício

do costume ou do prazer

escreve como quem desperta

de uma longa noite insone

e vê o sol

apaixona-se pelo seu ofício

o escritor.

 

Labuta inglória na gaveta

os delírios calculados

os devaneios racionais

as emoções desvairadas

permanecem

esvai-se no seu ofício

o escritor.

 

Desnudo invade o Outro

a catar roupas velhas

máscaras em desuso

hábitos inconfessáveis

e os publica

abandona-se ao seu ofício

o escritor.

Quem me dera ela fosse a medida de todas as coisas

Lânguida e arrasada na cadeira, braços caídos a encostar no chão, olhos fechados do rosto jogado para trás a banhar-se no sol do inverno daquela manhã. O grande cão cinzento ao lado, sonolento e atento aos passinhos do sabiá que revira a terra nova. Ela repara no vermelho diante dos seus olhos fechados, vira o rosto para a sombra, dizem que é o sangue que colore o escuro. Sente o vento inquieto bailando sobre a pele quente das mangas arregaçadas do moletom. Sussurros de prazer lhe dão o gozo do frio sobre o quente… e ela destina-se a não sair mais nunca dali. O sol das onze lhe dá o torpor de todos os prazeres do mundo. Ela é a medida de todas as coisas. A vida, assim, é bela. As coisas cheiram a jasmim do imperador. O som dos carros e vozes é o piar dos bicos-de-lacre sobre o mato. As intenções das pessoas são o afagar do focinho do cão no seu calcanhar. Ela vê o mundo através dos olhos fechados na penumbra avermelhada. É uma brincadeira de sol e sombra. As folhas caem da cerejeira como os dons são bem usados por todos. Ela é a medida de todas as coisas, assim, todos creem em Deus. Todos gozam os prazeres da carne como ela antecipa o chá quente que a espera dentro de casa. Ela abre os olhos a piscar-se intensamente buscando os galhos do hibisco sem flores. O livro desfolhado no colo demora-se a ficar nítido. Talvez ali tenha algo importante a ser lido. Talvez as pessoas preocupem-se com o que é sério a ser dito. Ela joga novamente a cabeça para trás até cair do encosto da cadeira. Fecha os olhos. O sol lhe queima a ponta do nariz arredondado. Um esboço de sorriso se achega quando ela ouve o cão sair correndo atrás do sabiá desprevenido que cutucava o canteiro das roseiras. Ela é a medida de todas as coisas, assim, cães têm asas. Homens têm dois corações, crianças não sentem dores. Ela pensa no horário, pensa nas páginas a serem lidas, nas árvores que precisam ser plantadas, e abandona-se igual ao sol e ao prazer. Ouve miados vindos da janela. Ouve os zunidos da rua. Ouve o eco do seu coração. E ouve o zumbido do ouvido. Ela é a medida de todas as coisas. As más-línguas, assim, são contorcidas em nós de silêncio. E os dias viram noites somente em estripulias debaixo dos lençóis – e cobertores, quando inverno. Os olhares acariciam em pré-abraços. As distâncias são vencidas com beijos levados pela brisa. E o sol se põe quatro vezes por dia. Porque ela é a medida de todas as coisas. Ela sente o mundo na medida do prazer daquele corpo estirado ao sol. E o mundo é do tamanho daquele jardim. Da altura da ameixeira. E precisa tanto dela como ela dele. O cachorro lambe seu braço e exige carinhos e atenções. Ela ergue a cabeça e sorri e manda-lhe beijo. Deixa a mão perdida sobre a cabeça do bichano. Talvez lhe dê uma insolação. Talvez lhe atrase o dia. Talvez lhe doa as costas. Talvez lhe chamem. Joga a cabeça para trás e não fecha os olhos. Distrai-se com o limite do céu. Ela é a medida de todas as coisas. E, a começar, não existem limites. Assim, nada traduz-se em palavras ou idéias: tudo é emoção. Emocionam-se perdidamente todos os seres sobre a Terra, diariamente, pelos amores e paixões, pelo que e por quem quer que seja. Entregam-se a desejos sempre, todos os viventes. Porque ela é a medida de todas as coisas. Fecha os olhos. O livro cai do colo e espatifa suas folhas na calçada. Ela estica as pernas. Ficará ali. Se não para sempre, ao menos até que, enfim, o mundo lhe caiba nas suas medidas.

Tentativas em vão de conquistar teu coração

Pintei as unhas, coloquei salto alto, fiz escova no cabelo

vestido de veludo, bolsa de festa, batom scarlet

e você não veio.

 

Me inscrevi na yoga, virei vegetariana, larguei o álcool

fiz meditação na praia, abri um brechó, aderi ao budismo

e você não apareceu.

 

Abri uma franquia, investi na bolsa, ganhei rios de dinheiro

comprei casa, carrão importado, frequentei as festas de luxo

e você não surgiu.

 

Fiz graduação, mestrado, doutorado, pós-doc, colecionei títulos

passei em concursos, me tornei a especialista das especialistas

e você nem deu as caras.

 

Virei dona de casa, aprendi a bordar, cozinhar, pintar e costurar

deixei a casa limpa, o jardim arrumado, a louça brilhando

e você não caiu do céu.

 

Emagreci, me inscrevi na academia, corri meia maratona

troquei o sorvete pelo supino, nadei na olimpíada

e você não bateu a minha porta.

 

Tirei todas as selfies do mundo, tive mil amigos no Facebook

fui a popular da cidade, virei amiga de famosos

e você nem se apresentou.

 

Fiquei triste, amigos tiveram dó de mim, só me vestia de preto

cortei os pulsos escondida, escrevi poemas de morte

e você não compareceu.

 

Coloquei a calça velha de moletom e o meião cerzido no calcanhar

peguei pipoca e chocolate, dei play no filme francês

e por você eu não espero mais.

Aguardo o futuro

Estava saindo do cabeleireiro e ela me pegou pelo pulso, virou minha mão com a palma para cima e disparou “ó, que vida tumultuada!”. Bem, se até a cigana se surpreendeu com o que viu, quem sou eu para falar… Em seguida ela se refez do deslize profissional e largou “tua linha da vida é longa, muito longa…” (reticências porque ela deixou no ar um intervalo). Eu sorri. Ela não. “Você vai viver muito e vai sofrer bastante também, vejo muito sofrimento na tua vida” e não tirava os olhos do mapa minucioso que se espalha pela minha mão. Bem, sorri novamente e disse que tudo isso eu já sabia. Ela levantou os olhos com o rosto apertado e não gostou do meu sorriso. “Vejo coisas tristes, moça. Muitas realizações, é verdade, mas uma vida e tanto. Não é sempre que eu encontro uma vida assim.” pensei, então, que era melhor eu compor um semblante mais compungido para não decepcioná-la. Ao mesmo tempo, quis animá-la. “Ah, não se preocupe, terei tempo para me acostumar a todas as voltas que a vida dá, já foram tantas até aqui, vou aprendendo”.

Tudo isso foi em instantes, diálogo rápido que quando escrito parece uma eternidade. Ela afrouxou um pouco meu pulso e quis que eu fosse para o canto da esquina com ela, pois ela me disse que viu coisas das quais queria me prevenir, avisar, ajudar. Foi aí que eu, pela primeira vez, puxei de leve meu braço e neguei com veemência. A vida não tem graça se a gente sabe o que virá, senhora. Dispensei-a (e ela pareceu preocupada, não apenas decepcionada como quem perde um lucro). “Mas, moça, talvez você precise de ajuda…” e eu, sorrindo, acenei negativamente com a cabeça e segui meu caminho. Talvez eu precise, mas nada nos previne do que a vida trará.

Talvez se ela tivesse me surpreendido de cara com algo que eu não soubesse, talvez se ela tivesse dramatizado mais (pode ser ingenuidade, mas achei sincera a preocupação). Talvez se o bichinho da curiosidade tivesse me picado. Mas o couro é velho e sabe bem que quanto antes algum sinal misterioso nos “ajuda” das coisas ruins da vida, pior será a queda. Aliás, se ela tivesse me oferecido contar as coisas boas que me acontecerão, aí sim eu teria ficado para ouvi-la. Se ela quisesse me confidenciar quais objetivos eu conseguirei alcançar, teria até pagado com o maior prazer. Mas se oferecer para antecipar as desgraças da vida? Já basta vivê-las e tê-las, depois, na memória. Saber antes eu dispenso.

Eu sei que viverei por muito tempo. Sei que perderei muitas pessoas que amo. Sei que (sofri) sofrerei. E como minha jornada será longa e tumultuada, tal qual foi até aqui, deixo de antemão algumas decisões (que poderão, é claro, mudar oportunamente). Quero uma casa no campo, com carneiros, cabras e cavalos pastando ao redor. Quero o silêncio das línguas cansadas, também. Tenho alguns livros, gostaria de tê-los por perto, mas quem sabe um dia já não possa mais lê-los – deixarei uma lista dos meus favoritos e peço que os leiam sempre para mim. Digo sempre, porque alguns eu de coração posso ler e ouvir para o resto da vida.

Tenho um HD só com discos e discografias. Por favor, se eu não tiver mais condições de dar play, não me deixem sem música. Dividam meu tempo entre o campo e a praia. E exijo que não me deixem perder nenhum nascer ou pôr-do-sol – talvez lá um dia eu não saiba mais o que é segunda-feira, ou para que servem os ponteiros do relógio, mas do sol eu jamais esquecerei. Tenho uma lista de filmes, novelas e séries especiais para quando chover, para os sábados à noite ou quando eu ficar doente. Talvez eu nem consiga mais enxergar direito, mas quero assisti-los até o fim, e legendados, por favor.

A gente nunca sabe muito bem o que vai acontecer no futuro. Sendo ele sombrio ou brilhante, ou um vai e vem de ambos, minhas preferências devem ser cumpridas. É claro que não esqueci uma lista das comidas essenciais. Se deixar faltar milho, por exemplo, depois que eu me for jamais deixarei a alma do responsável em paz. Não quero deixar desgostos ou desavenças para o futuro, por isso resolvo tudo hoje. O passado despedaça alguns futuros. No mais, cercada de natureza (se algo dela ainda resistir até o meu futuro…), de bichos, livros, música, filmes e comida, acredito que exigirei pouco da vida. Vejam, não exijo companhia. Talvez eu vá perdendo a memória aos poucos. Assim, acrescento as fotos nessa minha bagagem para o dia do amanhã. Quando eu esquecer, ainda poderei contemplá-las, com dúvidas e sem revivê-las; se a memória ainda não me falhar, poderei degustá-las inúmeras vezes.

Terei tempo para muita coisa, eu sei. E quando as condições não mais me permitirem os tumultos, a casa no campo, a praia, as companhias e os acompanhamentos ideais não me roubarão o sossego. Porque isso também a cigana não precisaria me dizer.

Clara manhã

A poeira paira no ar

do quarto de cortinas abertas

o movimento espraia o que há muito

se guarda e não se usa

 

Sopro a poeira

e ela baila abandonando-se

ao abismo desprotegido

da clara manhã

 

Tão pequenas e leves partículas

tal nosso coração

nossa coragem e determinação

Sentem-se sem chão

sem seu bibelô antigo a

dar-lhes aconchego e proteção

 

A luz as faz dançarinas

inquietas e sem coreografia

quanto mais o ar as atinge

chocam-se, corrigem prumos

desnorteiam e flutuam

 

Encontrarão em breve seu novo pouso

tal nossa ambição

nosso anseio e pulsação

na superfície lisa de uma mesa

na maciez de uma colcha

nas reentrâncias de um candelabro

num velho porta retrato

ou no espelho quebrado.

Festa na igreja

Os dois se encontraram pela primeira vez na festa da igreja. Lugarzinho afastado, pobre, construção de madeira que o padre queria fazer de tijolo porque naqueles dias que ventavam demais a missa ficava era vazia, ninguém aguentava o ar gelado, nem sob os auspícios da palavra do Senhor. Não que as casas da vila também não fossem de madeira, não era isso. Mas as casas contavam com seus fogões a lenha. O padre perdera noites de sono matutando se seria muito desrespeito colocar um fogãozinho a lenha também ali em frente ao altar, Deus era testemunha que ele só queria que o frio não afastasse os fiéis. Mas nunca tivera coragem de propor tal idéia ao grupo de oração que ajudava na organização da igreja. E os dias e noites frias não davam trégua, Deus que o perdoasse, mas naquele frio até ele perdia a vontade de presidir a missa.

Eles chegaram no final da tarde de sábado. Ficaram perto um do outro, depois de olharem um pouco desconfiados para o movimento. O padre, depois de muito insistir e peregrinar pela cidade próxima, havia conseguido bons prêmios para o bingo daquela noite. Um fiel do grupo de oração conseguira até uma serralheira elétrica com o parente rico que tinha uma loja de material de construção e ferramentas na beira da estrada. Os planos da reconstrução da igreja tomavam corpo. Do próximo inverno não passaria. Depois de quatro meses de organização, hoje era o dia da festa. O padeiro da vila com duas senhoras doceiras fizeram os quitutes, os ingredientes haviam sido doados pelo dono do supermercado do bairro próximo. Ele nascera na vila e sempre ajudava a igreja. Todo o dinheiro arrecadado com as vendas das comidas seria dado para a construção do novo templo.

Eles nem sentiam o frio. Pareciam estudar um ao outro e sem perceber se aproximavam devagarzinho. Talvez fosse noite de lua cheia, mas a cerração não permitia vê-la. Nenhum dos dois era dali, ele morava numa fazenda no caminho para a cidade, ela viera de longe. Nada disso importava. Eles observavam o padre, descabelado, com a gola do jaquetão surrado levantada, andando desvairado para todo lado, pois nada podia sair errado naquela noite. Um grupo de jovens, não muito grande porque a juventude naquela miséria e desolação não vingava, percorrera todas as fazendas e cidades vizinhas divulgando a festa, vendendo as cartelas do bingo e as rifas. As vendas foram um sucesso! Ou seja, muita gente viria. O padre temia que não tivesse comida o suficiente pra tanta gente, afinal, naquele frio, só esquentando por dentro. Sabendo disso, o irmão do padre, que não era muito de religião nem de nada, veio especialmente para montar uma barraquinha de quentão – que era a sua especialidade. Não haveria frio que resistisse, ele afirmava.

Ele parecia um pouco cansado, lá pelo meio da festa. Ela encostou-se num canto. O bingo ia alto, as botas e casacos encheram cada metro daquela pobre vila – nunca ali viram tanta gente. E as pessoas sorriam, comiam, bebiam, se abraçavam. O padre saltitava entre as mesas, apertando a mão de todos e se derretendo em obrigados – se reparassem bem, veriam que ele até suava! Ele sabia que o dinheiro todo talvez só desse para o material, que o trabalho seria dobrado para ele e todos os fiéis que ergueriam aquela igreja com as próprias mãos. E a satisfação de ver toda aquela gente participando da festa lhe bastava. Ele falava baixinho com Deus enquanto caminhava de uma mesa a outra. Aqui e ali de vez em quando surgia o grito do felizardo vencedor. Os prêmios eram cobiçados, disputados acirradamente na bola do desempate.

A noite findava. A comida acabara. Ainda havia quentão, mas o irmão do padre, que sempre tivera um fraco por bebida estava contando causos das suas viagens pelo país, sentado num banco à porta da igreja. Uma mocinha exausta servia as últimas bebidas para esquentar a retirada dos convidados. Os poucos carros iam se enchendo de caronas e pegando a estrada. Uma caminhonete parou perto dos dois que dormiam aconchegados no amor que surge do nada. Um rapaz forte só de camisa de manga comprida desceu e abriu a cerca. Um senhor achegou-se e perguntou qual era o dele. Os dois levantaram as cabeças com rugas nas testas. Sentiram o frio no corpo quando foram separados um do outro. O padre passou ali, agradeceu aos dois homens, passou a mão na cabeça do casal e retirou-se. O rapaz disse que levaria o macho, apesar do sorteio do bingo não especificar. O senhor disse que então ficaria com a fêmea, porque ele já tinha outra porca em casa. Se o rapaz quisesse, poderia levar o seu lá qualquer dia desses para ver se davam filhotes. O rapaz agradeceu e explicou que amanhã mesmo ele iria pro abate. E assim se separaram. Para sempre.

Quando você puder

Quando você ajuntar as folhas da última estação

e não se desfizer delas

mas deixá-las num canto criando vida

Quando você acordar de madrugada sem sono

e sair da cama disposta a tudo

sentindo o ânimo incansável dos felizes

Quando você tiver saudade dos longos caminhos

e da sensação de não saber onde está

somente com a memória a lhe guiar

Quando você sair na chuva fraca do fim de tarde

e sentir os pés encharcados e sujos de barro

ao se dar conta que está longe de casa

Quando você não souber mais correr dos medos

e deles se desvencilhar um a um

como quem joga cartas de amor ao fogo

Quando você puder parar para dar colo

e cantarolar baixinho oferecendo confiança

sem perturbar a calma das boas almas

Quando você perder as chaves, os documentos

e tudo o que lhe prende a um lugar

mas, ainda assim, quiser voltar

Quando você pular o muro da vergonha

e der adeus curto e sincero aos limites

como quem desabrocha fora de época

Quando você duvidar se merece um abraço

e preferir punir-se por um crime inafiançável

mas alguém bater à sua porta às lágrimas

Quando você fugir dos seus pensamentos

e dos seus doces subterfúgios

como quem espreita uma boa oportunidade

Quando você for fiel à calma

e abandonar as palavras duras e frias

como quem passou pelo que não deseja a ninguém

Quando você anotar as datas mais importantes

não para lembrá-las ano a ano

mas para enterrá-las no calabouço do passado

Quando você esgotar todo seu empenho e esforço

e sentar-se no chão úmido e sujo da estrada

como quem deixa passar o último ônibus

Quando você sentir as dores dos outros

e nem reparar mais nas próprias cicatrizes

como quem doou amores

Quando você puder ser quem sou

quem sabe neste dia

nos encontremos.

O amor de cada um

Gosto dessa distância. De não saber o que tens feito, de não ter notícia tua a toda hora. Não entendo essa gente que fica 24 horas enviando e recebendo mensagem, sabendo o que comeu, o que deixou de comer, o que dói e o que esqueceu. Essa desconfiança disfarçada de cuidado e interesse soterra o amor. Mas, veja bem, não sei como alguém pode dividir cama e banheiro. Se eu fico com a minha cama toda só pra mim (e umas gatas) e tenho exclusividade no banheiro, quem sabe o relacionamento possa ir longe. As pessoas gostam das coisas que corroem o amor: dividir conta, reclamar do arranhão no carro, o cesto de roupa suja cheio, o número estranho que liga tarde da noite, a toalha molhada (sempre ela) sobre a cama.

Eu não fui sempre assim. Aliás, eu nunca fui assim. Era dessas controladoras, obsessivas, exclusivistas, possessivas, desconfiadas e maldosas. Matei todos os amores da minha vida. Um a um. Alguns com requintes de crueldade. Um ou outro foi ferido antes, eu dei o tiro de misericórdia. Todos os amores morreram sufocados. O tempo e a distância alimentam o amor. Quanto mais tempo ele vive na expectativa e na ilusão, mais tempo ele durará. A realidade não foi feita para o amor.

Gosto de pensar que pensas diferente de mim; e que não mudará teus pontos de vista por minha causa. Gosto de saber que olhas para o que eu olho, com o mesmo carinho e devoção. Gosto de saber que vives com quem te ama, assim como eu. Gosto até que tenhas medo de vir falar comigo e eu, bem, todo mundo sabe, não é fácil falar comigo. Gosto de deixar o amor para quando se é lembrado. E isso de pensar no outro o tempo todo é coisa de ficção. Mas pensar no outro nos piores momentos, como uma válvula de escape, é amor.

Sempre tem aquele que, quando acredita estar apaixonado, enumera uma interminável lista do quão igual é ao ser pelo qual se apaixonou. Um, inclusive, me disse que até a falha da nossa sobrancelha era igual. Eu tenho espelho e nem sempre gosto do que vejo. Podemos seguir uma trilha semelhante, mas caminhos separados. O amor de Narciso é destrutivo. Gosto de ver além de mim, em você. Senão, melhor sozinha. Amar a si mesmo vem antes de estar disposto a dar amor a alguém. Gosto de não saber o que te vai pela cabeça, de não saber qual atitude terás numa determinada situação. O convívio dá o mapa da alma das pessoas. E somos tão repetitivos…

Gosto assim de não saber quem és. Desconheço o que me desagrada em ti. Não sei quais são as tuas manias que me irritam, o quão mal tu diriges. Nem sei se ficas irritado quando eu fico divagando em silêncio enquanto me contas algo que te aconteceu. Talvez você tenha alergia a incenso, a pêlo de gato e deteste cachorros. Talvez você me julgue pela quantidade (absurda) de bolsas que eu tenho, me considere egoísta, metida e chata. Quem sabe te desgoste eu ter religião. Ou, ainda, você jamais entenderá alguém que só dorme com o ventilador ligado. Não saber tem um gosto especial quando qualquer coisinha pode colocar tudo a perder. O amor não gosta de detalhes (desculpe-me, Roberto).

Gosto de saber que um dia não estarás roncando ao meu lado. E, também, que não terei vontade de matá-lo quando você quebrar minha louça de estimação. Nem ficarei vigiando teu telefone, entrando escondido no teu e-mail. Não me preocuparei, jamais, se demorares para chegar. Seja por medo de algum mal que te tenha acontecido ou que estejas fazendo a mim. O amor prevê tragédias. O amor não foi feito pra ser enjaulado. Ele resiste à saudade. Deixo-o correr livre, sem pressa, distraído. (por isso, às vezes ele cai em alguma armadilha) O amor é bicho selvagem que sabe sobreviver, sabe se defender, sabe lamber as feridas. Gosto que tenhas o teu e eu tenha o meu.

Hoje não terei “boa noite” com beijo na testa. E folgo em saber que nada de dormir de conchinha. Nem meus últimos pensamentos antes de dormir serão seus (nessa hora prefiro pensar em algum astro de cinema, pois a indução rende bons sonhos). Amanhã pularei da cama sem tempo para pensar em ti antes de começar meu ritual matutino. Se uma bobagem nos meus pensamentos ou um texto no jornal me fizer lembrar de ti, o sorriso aflorará. Quem sabe eu procure saber, ou acabe não tendo tempo. Ou me distraia com outro assunto.

Ou, quem sabe, a vida me surpreenda. Porque ela e o amor são amigos inseparáveis. E gostam de surpresas.

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