Recentemente li Uma página de amor, do Zola. Que eu lembre, foi o meu primeiro Zola. Um crime, certamente, dirão os literatos. É engraçado isso, quando as pessoas esperam que eu já tenha assistido a todos os filmes do mundo, assim como lido todos os clássicos. Não. E sei que alguns desses só quando eu estiver velhinha, antes disso, sem chance (Joyce, estou falando com você). Fiquei muito apaixonada, mas mais ainda impressionada pela destreza do autor. Fico especialmente deleitada quando encontro um livro de literatura de ficção que ocupe meus pensamentos mais do que qualquer realidade. Lembro de uma época que, dentre mil leituras obrigatórias e nada ficcionais, perdi o interesse por obras de ficção, cada um que eu começava achava-o desinteressante. Lembro, inclusive, qual foi que me resgatou para a velha leitora de ficção que eu sempre havia sido: Areia Pesada, do Anatoli Ribakov, num distante Verão quando eu ainda virava noites insones (na cama, lendo, é claro).
Sábado à noite? Sempre virei a noite. Lendo. Ou assistindo filme, sozinha. Eu sei, as pessoas saem, vão pra balada e tal. Nunca me atraiu. E por um período, quando acordava de madrugada para estudar Kant (não consigo imaginar nada mais solitário, pois ele um solitário), quase abri mão da literatura de ficção. Mas como uma criatura como eu viveu sem a ficção? Desconfio da resposta, mas jamais saberemos.
Conheço pessoas que nunca leram um livro de ficção. E vivem bem, podem ter certeza. Com a minha dificuldade para viver no mundo real, por muito tempo não sabia como essas criaturas viviam. Morei muitos anos sozinha e não tinha percebido como, da porta de casa pra dentro, o meu mundo era ficção e só ficção. Eu chegava, tirava sapato e roupa, pegava comida e mergulhava na ficção. Telefone no silencioso e e-mail fechado, aliás. Quando deixei de morar sozinha percebi a diferença. Entro no quarto, fecho a porta, ligo a TV ou abro o livro (e ai de quem me interromper).
Conheço (muitas mais) pessoas que nunca leram um livro de Filosofia. E vivem melhor ainda, é certo que sim. Há quem diga que Filosofia é um outro tipo de ficção – inimigos até ela tem. Sempre impliquei com o uso que as outras áreas (do conhecimento) fazem da Filosofia. E vejo de perto como muita gente sequer teve boas aulas de Filosofia. Aos meus alunos eu frisava que era essencial que eles dominassem a sua Língua, soubessem escrever, ler e falar bem e corretamente. Defendia que desde cartas de amor até entrevistas de emprego dependem e muito do quanto você consegue se comunicar, expressar, compreender. Na sala de aula tive contato com casos assustadores do tal analfabetismo funcional (e também vi isso na graduação, colegas que mal sabiam ler e escrever). E como uma professora de Filosofia se faz entender e entende os seus alunos sem o uso correto e pertinente da Língua? Expus isso para algumas turmas e tornei-me uma professora de Português também, pois corrigia e ensinava. Uma das coisas mais tristes que já vivenciei: o aluno inteligente que sabia se expressar, mas tinha uma escrita péssima.
Um exemplo simples: assisti a um capítulo do X-Factor Brasil. A maioria esmagadora cantou em inglês (por vezes sofrível, por vezes incompreensível, todos covers de sotaques e entonações). E um ou dois falavam corretamente o Português. Acompanho o X-Factor UK e é muito raro você encontrar participante, mesmo que de recônditos do país, que fale errado. Uma amiga esses dias comentou sobre um rapaz bonitão da academia que mandou mensagem de Whatsapp pra ela (que quase o considerava o príncipe encantado): não havia uma única frase compreensível. E o cara é graduado em Engenharia (engenheiros, os eternos sonhos de consumo da mulherada), faz isso e aquilo, tem tal carro. Ela desanimou consideravelmente.
Eu sei, todo mundo comete erros. Errar é uma coisa, não dominar é outra. Estou quase terminando de lapidar a idéia de que na escola básica deveríamos aprender só Filosofia e Português. É o que basta para entender o mundo. Sem partido, obviamente, mas só no plano ideal, pois a escola é feita por seres humanos e, sim, somos incapazes de imparcialidade. Dominar Filosofia e o nosso idioma faria do mundo um lugar melhor – que mundo o que, se fizer o nosso país melhor está de bom tamanho. E o que a ficção tem a ver com isso?
Quando lemos um livro de literatura de ficção sabemos que é ficção, certo? Deixemos a discussão para o pessoal dos Estudos Literários. Mas, sim. Não precisamos comprovar a veracidade dos fatos. E, contra fatos não há argumentos. Fatos são fatos, mas nem jornalistas nem advogados conseguem ser fiéis a eles. Porque, como disse acima, são seres humanos. Esperar imparcialidade de um jornal é como esperar que eu saia para a balada, queridos. E talvez eu devesse ter começado o texto falando de como sinto falta de um crítico do nosso tempo. Alguém que pondere sobre pessoas que tiram dez selfies por dia (passo mal quando vejo a “selfie no carro”) e, sim, a publicam em redes sociais. Alguém que traga a discussão da ficção X realidade para as timelines do nosso dia a dia. Por que hoje construímos quem somos através de posts tão bem (ou nada) calculados? Por que eu preciso dizer onde estou, com quem e quando? Ou, pior, por que preciso publicar uma foto de um determinado lugar, quando não estou lá, mas para que pensem que estou? São tantos os casos… Ah, mas tem gente pensando sobre essas coisas. Tem, sim. Mas não se fazem mais filósofos como os dos séculos passados.
Os filósofos foram aquelas pessoas que pensavam o seu tempo. Quando você pega um texto atual sobre algum assunto e o cara desenterra um filósofo que se referia a um outro momento da humanidade, há alguns problemas evidentes. Muitos são os problemas, aliás. Enfim, a discussão é longa e, bem, se ainda hoje defendemos com unhas e dentes a Democracia, é sinal de que a poeira do tempo desceu sobre nossos olhos.
Na Literatura, criticam muito os Naturalistas. Como se fossem autores de “obras menores”. E não sei de onde eu gosto tanto deles – apesar de, confesso, já ter pulado ou lido distraída as eternas páginas descritivas de paisagens. Neste livro do Zola, por exemplo, eu me transportava para Paris vista da janela da protagonista – nunca pisei em Paris e tenho uma memória imagética fraca da cidade, pois além da Torre Eiffel são poucas as referências. Um dia quero ir a Paris e não fotografar a Torre. Pois bem, poucos livros de ficção que eu li alcançaram uma veracidade em sensações como A Carne, do Julio Ribeiro. (pulei algumas páginas eternas das cartas, se não me engano? Sim.) A ficção vai mudando seus padrões e convenções, coitado do escritor que hoje se debruçar a esmiuçar o vôo de uma borboleta. Ou um diretor que esculpa o tempo como Tarkovski. E todos têm suas políticas a exibir mascaradamente.
Então, entendemos que o mundo é real (Platão discordaria) e o resto é ficção. Ficção mesmo, queridos, são meus sonhos dormindo. Todo o resto pode ser bem real. Mas, a falha que há ao compreendermos o mundo (a falta da Filosofia, do domínio da Língua) nos afasta do mundo da ficção que nos faria, por sua vez, compreender melhor as relações humanas, o mundo e suas traquinagens. Eis aí o megassucesso de filmes de super-heróis e afins, inclusive (argumento em processo). Mesmo na ficção há “níveis”, pois há a ficção engajada, a que traduz visões e sensações e sentimentos, há a ficção de puro entretenimento, etc.. Passei muito tempo abraçada à certeza de que a ficção era meu “mundo paralelo”. E de fato é quando leio A Carícia do Vento ou A Máquina do Amor (sim, foi ontem que me corroí de vontade de lê-lo novamente de novo mais uma vez e RESISTI bravamente pois ocupadíssima com coisas importantes – não sei se resistirei na próxima vez). Porém, sempre cito aqui filmes e séries, por exemplo, que desencadeiam reflexões e críticas, que fazem pensar sobre nosso modo de agir e tal. Não são exclusivamente um mundo paralelo para onde fujo. Esta, aliás, minha grande briga sobre as novelas de televisão, sempre desprezadas como obra artística e social, são grandes intérpretes de sociedades e pensamentos (brigarei toda vez que alguém quiser falar mal de novela).
Julgo que a ficção nos diz muito mais do que a realidade. Pobre daquele que vive na veracidade dos fatos. O documentário que acompanhou o impeachment da Dilma nos dirá mais ou menos do que se uma farsa fosse escrita, cheia de metáforas e hipérboles? (está aí essa febre chata de memes que apoia meu argumento) Saí do convívio com os historiadores ainda mais (muito mais…) crente de que as narrativas, as imagens, os discursos ficcionais servem mais à humanidade do que o sempre incompleto cientificismo deles. Sem jamais ignorar: somos seres humanos, com visões restritas, interpretações limitadas, e não lemos todos os livros do mundo, né?
O que, afinal, eu queria dizer? Nada, necessariamente. São pensamentos incompletos de quem está imersa num mundinho paralelo de novas e deliciosas reflexões. De quem está com um filme desenho animado de animais que falam e pensam e se pergunta: por que eu vou assistir isso? (desenvolvi uma dificuldade com filmes de bichos humanizados, desculpa) De quem tem pouco tempo para fazer muita coisa, daquelas importantes para a tal vida real, mas prefere parar para pensar e escrever – e depois se torturar que tem coisas por fazer. Tenho tempo pra tudo. Talvez até para reler A Máquina do Amor. Amanhã à noite, quem sabe.
* não quero usar mais a palavra “selfie”; usei-a para otimizar a compreensão do texto.
* não citei os filmes catárticos com a Keira Knightley nem as duas séries que assisti de uma vez só e me fizeram crer que o mundo “real” nem existia – sempre uma dificuldade e inconformidade a parte voltar destes mundos. Assunto mal resolvido por aqui. (rindo muito)
* talvez, apenas talvez, na próxima eu me atenha a refletir sobre o mundo da veracidade, porque enquanto ele for essa coisa que vocês pensam que é una, que existe A verdade, e o pessoal deveria ser imparcial está difícil.
* talvez, apenas talvez, eu ainda fale dessa coisa de achar que escritor escreve o que lhe vai pelo coração, acreditar em dom e inspiração e tals; pensei nisso antes de escrever, mas ficou de fora; como eu disse, pensamentos incompletos (ainda). Era isso, aliás, que eu queria usar para justificar a mudança de blog para site. Fica para uma próxima. Apenas uma preocupação conceitual.
O corpo pede descanso. Isso ainda não é nada. A cabeça precisa descansar. Nem a tríade bem conhecida do relaxamento universal funciona. Se sexo, banho e comida não resolvem… nada há de resolver. O tempo, provavelmente. A tensão acumulada pela espera que, sim, não é frescura, parece infinita. A tensão que deveria ser canalizada para aproveitar este tempo com o que precisa ser feito, pois depois será tarde demais e aí somará mais tensão ainda, só distrai, dispersa, irrita. Contra irritação não há tríade, só sexo mesmo. Não acredito que exista alguém que nunca fez sexo com uma pessoa irritada. Moralmente injusto é descontar nos outros, nos mais próximos, toda a tensão. Eles não têm culpa. Ninguém, na verdade, tem. Mas é quem está perto, é quem não te compreende. No meu caso é quem me oferece comida. Aliás, sou inclusive chantageada com comida. Eu gosto de ser chantageada. (seja esperta e não queira perder uns quilos JUSTO na mesma época de tensões homéricas – acho que nunca fui muito esperta) Juro que queria ter toda a tranquilidade da alma para dissertar, novamente e sempre, sobre o tempo. Contra ele hoje pesam todas as acusações. Sem chance. A cabeça precisa parar, o corpo precisa relaxar. São horas que se arrastam, válvulas de escape procuradas em todo canto e opções. E nada. O banho ajuda – mesmo em doses diárias quando a tensão é a longo prazo, não muito. Eu queria escrever a coisa mais bonita sobre o banho – os banhos, pois, chuveiro, mangueira, mar, rio, chuva (tanto tempo que não tomo banho de chuva…) – descrever com palavras difíceis a água morna escorrendo pelo corpo nu, o fechar os olhos no vapor do chuveiro, as risadas da companhia do banho gelado de mangueira num dia quente, resvalar para a única sensualidade possível da água sobre a pele. Não tem como. O banho é o banho e não há poeta nem palavra no mundo que o alcance. Que bom, né? Gosto dessas coisas intocáveis pelas palavras. Palavras, enfim, não dão conta de tudo no mundo. Mas, palavras ajudam a aliviar a tensão. Boas conversas, as interessantes, não as inteligentes. Sempre preferi conversas interessantes às inteligentes. Conversas que te façam esquecer a vida por algumas horas. Esses dias, assistindo a um filme, senti saudade do telefone – aquele sem fio, linha fixa. Era gostoso conversar por telefone, horas a fio. Não sei o que deu na gente ao substituir isso por tanta conversa escrita. Ou conversa de celular que dá até pra falar na estrada. Boa era a conversa no telefone sem fio, encontrar um lugar confortável na casa e ali ficar por horas. Já me vendi barato por boas conversas interessantes. Ah, mas tem também o vinho. Ou rum, ou cachaça, ou vodka ou whisky. Aliviam a tensão que é uma maravilha – mais recomendado, certamente, acompanhando a tríade. Porque descontar só no álcool dá merda. Ou chá de camomila, que o dano é menor. O fundo do poço, né? Imersa em tensão, cabeça cheia e se escorar no chá de camomila (uma xícara quentinha aqui ao lado, aliás, portanto fundo do poço onde estamos). Todas as alternativas são válidas. E a tensão não passa. Já fui uma pessoa muito nervosa. Daí virei meio tranquilona. Porque, né, não adianta arrancar os cabelos. Mas a minha seriedade com algumas coisas é demais. Daí surgiu a tensão. Quando tratada tem bons resultados – não, o tempo não passa mais rápido -, senão fica aquela coisa meio nem aí, tô aqui comendo mesmo, assistindo a uns filmes, demorando para ler o que tem que ser lido (aliás, pelo amor, preciso ler alguma coisa só pelo prazer de ler, não por obrigação), atrasando os passos por algumas fotografias. Haja saída. Cartas de tarot, talvez. A ida a uma cigana. O horóscopo, sempre. Alguma coisa que antecipe o tempo. Qualquer coisa. Tiveram o despautério de dizer que estou intratável! Refugiada em mim mesma, as pessoas não têm idéia do quão intratável eu consigo ser. Críticas, aliás, não ajudam em nada nessas horas. Agora há pouco o banho aliviou o cansaço do corpo e a tensão da alma. Passei metade dele me cobrando, porém. Mais dias virão. Haja tríade e seus acompanhamentos. Não tem mais paciência, me dá sorvete.
Todo mundo tem uma bagagem. Talvez importe mais, quando a gente olha pra si mesmo, o que deixamos fora da bagagem. É bem bonito o sentimento pequeno príncipe de ir leve e alegremente, mas quem vive não consegue. Tem a bagagem material e a sentimental. Acumular demais pode ser um problema para a primeira, e pode tornar-se um caos para a segunda. Adolescente já quer ter todos os sentimentos do mundo. Depois aprendemos que não é bem assim. Tem aqueles que chegam aos sessenta e nem sentiram nada do tudo que há para sentir. Viver não é para qualquer um, é preciso dar a cara a tapa.
Foi num diálogo simplório de uma série, o pai aconselhava a filha sobre o cara com quem ela estava saindo. O pai questionava o que ela sabia sobre o cara, qual era “a bagagem” dele. E não é sempre um mistério? Eu me agarro à idéia de que é melhor não conhecer as bagagens alheias. Todo mundo é sempre tão complicado – e aí basta a nossa bagagem complicada. Quando alguém chega na tua vida, ele não precisa ir abrindo as malas, espalhando a bagagem pela tua sala de visita. A idéia parece assustadora. E ali pelo meio da bagunça tem uma coisa ou outra que vão te dando pistas sobre toda aquela bagagem que ele preferiu não colocar dentro dos baús e das malas. (sim, porque tem baús também, é o que acontece, às vezes…) Leva mais tempo para descobrir o que ficou de fora. Porque só carregamos conosco aquilo que queremos que os outros saibam que temos. O resto a gente esconde. E tem coisas que é melhor esconder muito bem.
Desconfie de quem traz consigo pouco ou quase nada. Ou não viveu, ou esconde tanta coisa que decidiu seguir assim, à la principito. Sabe quando você faz uma viagem sozinha? E, claro, compra mil coisas, malas enormes, ao entrar e sair de avião, ônibus, táxi, se quebra toda pra colocar e tirar tudo, carregar carrinhos e tal? Então, dá trabalho. Se você for eu, paga mico, certeza. Conta com a colaboração, auxílio e presteza de pessoas maravilhosas que encontra pelo caminho – porque pessoas de bom coração vêem que você não consegue carregar tudo sozinha. Mas você não esmorece, não joga os bibelôs fora, não abandona aquela bolsa maravilhosa, não deixa a camiseta de lembrancinha pro teu pai. Às vezes você terá a sorte linda de poder contar com alguém para aliviar o peso, na maior parte do tempo, não. Porque você sabe que aquela é a tua bagagem – e cada um tem a sua.
Quem vai deixando as lembrancinhas pelo caminho é um fraco. Prefere o vazio (aqui vos fala quem não suporta nem paredes vazias). Quem leva o tanto de bagagem que consegue suportar no limite do esforço é um medroso – não confia nem no próprio taco para arcar com a própria vida. Porém, quem carrega excesso de bagagem (paga aquela taxa absurda das companhias aéreas: sempre lembrar, Fahya) morre soterrado sob ela – o ar não renova e vai sufocando, sufocando… É preciso carregar aquela bagagem que você precisa curvar um pouquinho a coluna, sentir os músculos do braço um tantinho estirados, fazer uma força extra ao agachar e levantá-la. E é preciso, também, saber que há dias que a vida pede só uma mochila – e nada, nada, nada mais.
Foi esses dias que o mp3 tocou três vezes My Way. Tenho algumas canções do Frank Sinatra, evidente. Juro que quando tocou a terceira vez eu pensei: é hoje que eu morro, só pode, And now, the end is near And so I face the final curtain, tanto a cigana quanto meus pressentimentos estavam errados, morrerei jovem antes de fazer tudo o que quero. Ela foi a primeira música (o correto é canção, mas não perco velhos hábitos) do dia, assim que saí pelo portão na manhã fria e ensolarada. Ia a caminho de uma coisa muito boa, daquelas que enchem a bagagem, a cabeça, a alma. E mais um passo nessa sinuosa tempestade que é cumprir os sonhos. Caminhei pensando que era um bom começo de dia (que se mostrava promissor), lembrei, como sempre, do Coutinho.
E ela tocou novamente pela hora do almoço. Ia seguindo alegremente, contente comigo mesma (essa mania nunca perderei). Porque podem dizer que eu penso demais, mas que eu acerto naquilo que quero, ah!, acerto!. Talvez nessa hora eu não tenha dado muita atenção. Andava distraída (esqueci quatro coisas, nunca me acontece, estava totalmente no mundo da lua), observando as pessoas, as construções, os sons, o mundo. Sem rumo, com horário. Quando me decidi pelo cachorro quente me satisfiz com a lanchonete quase vazia, a moça iniciante no trabalho, os ônibus que passavam na rua, repensava as últimas besteiras que tinha feito. Estava feliz e queria comemorar. Então comemorei.
Eis que estou na estrada quando ela tocou pela terceira vez. Bem, aí me ocorreu a idéia da morte e I’ve lived a live that’s full I’ve traveled each and every highway And more, much more than this I did it my way. Parece coisa de arrogante o tal I did it my way. E é. Precisa ser teimoso e arrogante para decidir o que quer colocar na bagagem. Não cabe discussão. Não há tempo para ouvir o outro. E, muito menos, colocar as cartas na mesa. Nem todos os dias são floridos, nem toda chuva é suspirante.
Pensei comigo que não seria um bom dia para morrer. Pô, logo agora! Tenho umas datas aí para esperar, uns compromissos para cumprir, umas mensagens para responder. Se fosse agora, fazer o quê. Mas, né, bem no meio dessas alegrias e tensões onde me meti? Medo da morte?, pois: I faced it all and I stood tall And did it my way. Já encarei coisas piores. Ali no meio da estrada, com uma bolsa apenas de bagagem, a alma transbordando e talvez até disposta a dividir o peso (dá vontade, mas passa), Regrets I’ve had a few But then again, to few to mention que a vida é longa e sempre tive esse orgulho besta de não me arrepender de nada – talvez alguns pequenos, bobos e insinceros, ou apenas um: que me valeria a vida inteira. Não, não seria o meu dia.
Não terminei ainda de encher os baús. A coluna me dói um pouco – por isso sei que estou certa. Dói dia sim, dia não. E talvez eu fale disso um dia, o mais provável é que eu nunca chegue aqui, ou na tua sala de visita, abrindo as malas e baús – porque os outros olham pra nossa bagagem com a cara de “hein?”. Parece que estou na estrada há tão pouco tempo e pasmo ao lembrar que já tive que me livrar de algumas bagagens pelo caminho. Hoje não conseguiria mais carregá-las todas. O que eu trago comigo é tudo aquilo que preciso para ser quem sou (e quem serei?) For what is a man, what has he got? If not himself, then he has naught.
Sem alarme, sobrevivi. Quem sabe foi alguma pane no mp3. Ou uma mensagem para que eu parasse e pensasse na vida. Ou não foi nada, Fahya, deixa de bobagem. Bem, me deixa que eu gosto das bobagens da vida. Não pesam em nada na bagagem.
Desligar o computador sem o sentimento de dever cumprido, mas pelo pesado fato de que não aguentava mais. Meu limite de computador sempre foi duas horas (exceto quando jogava virada na madrugada o SimCity 3000). E a vida passa e os trabalhos exigem dias excruciantes em frente a tela. Não tinha trabalhado o suficiente para o dia, não via o fim do túnel, ainda, e desliguei – num impulso. Dia difícil, idéias incompletas, espírito selvagem. Desliguei sem nenhum peso no dedo.
Nessa guerra quem ganha é a companhia. Saio pelo quintal com a gata e o cachorro. Dizem que um poeta disse “feche os livros e vá viver” e outro que a gente canta o quintal de casa. Foi naqueles dias quando ainda víamos o sol. Esgotada a mente o corpo precisava viver. Eu sou feliz no meu quintal – nem todos podem dizer isso, de verdade. O quintal é onde se cultiva, é semear, esperar, esperar, esperar e esperar (já disse esperar?), é a alegria do brotar, do desespero de falta e excesso de água. É regar, proteger, fazer muda. É transplantar. É coisa de velho, diriam, pois personagens que cuidam do seu quintal, na ficção, são os velhos (só reparem). O quintal é trabalho, cuidado e perseverança.
No perfume da lavanda, o cachorro educadamente deitado sob os galhos secos da videira, a gata ao lado se deleitando ao sol, olho para o céu. Que o quintal também tem céu. Enquadrado parte pelo concreto, parte pela palmeira e outro lado pelos galhos da árvore-que-eu-não-sei-o-nome (a que plantei quando criança e hoje está enorme) era a lua, as nuvens em forma de caminho e um jato a cruzar o espaço. E nasceu a vontade de, a despeito pelo amor ao quintal, estar no jato – fosse de e para onde fosse. Era voar, ir, voltar. Já morei próximo a um aeroporto e tinha por hábito ver os aviões da varanda – quando não ia até a praia vê-los sobre minha cabeça. E no meu quintal nunca vira um avião.
Dizem que a humanidade pode ser sempre dividida em dois. Os “esses” e os “aqueles”. Os que gostam de azeitona, e os que não gostam. E por aí vai. Senti aperto tão grande na alma, calei desejos e acendi penumbras. Fiquei a ver o jato. Depois até fui buscar a câmera para fotografar (o risco do jato não ficou como deveria, claro). Mas aqui tudo estava eternizado. A humanidade pode ser dividida entre a terra e o ar – os que criam raízes e os que criam asas. Eu criança nunca queria voltar para casa, de uma viagem. Eu adulta volto para casa meio contrariada, pela obrigação, e no mau humor do cão. Sabe aquela de que voltar é a melhor parte da viagem? Eu nunca soube. Quando criança nada me prendia à “volta”. Depois havia – ou há. São as raízes. Eu, logo eu, que não as tenho.
Viver na terra é para quem tem raízes. Para quem se vê em cada esquina. Para quem não vive sem sua rotina. Viver a viajar é para quem sente a vida num outro grau. Já morei onde eu podia fugir de casa (e, sim, eu morava sozinha) e, quem sabe, até voltar no mesmo dia. Podia ir até ali e este “ali” se traduzia num outro mundo. A humanidade de fato se divide entre a terra e o ar. E o eu hoje tem quintal e tem ânsias de voar. Tenho duas humanidades, será? Sou desumana ao dizer que viveria sem o meu quintal, por isso temo dizer. Mas sei que não posso viver sem o ar. E estranham quando nunca estou só num mesmo lugar. Talvez a longa tradição (que ainda não abandonei, nem pretendo) de passar a temporada de Verão na praia e o resto do ano na cidade (e se a cidade tiver praia, melhor ainda, mas, mesmo assim, irei para outra na temporada).
Talvez o tempo. O tempo juntou essas duas humanidades. E há tempo o suficiente para satisfazê-las a ambas. Não abro mais mão do meu quintal. Não posso mais abrir mão de voar. (talvez persista o incontornável mau humor do “cheguei”) Sei que fica mais difícil quando o trabalho dá uma folga e uma chuva interminável não permite que o quintal seja aproveitado. Aí só resta a birra e o consolo pós-contemporâneo de maratonas de séries terapêuticas na solidão. Foram, talvez, três dias a olhar desconsolada pela janela, a tentar todo tipo de distração com os cachorros e gatos mais enfezados que eu pelos pingos que não deram trégua. E o quintal para cuidar. E, agora, as passagens para comprar. As datas para planejar. O trabalho para dar conta. E ser uma só.
Para quem joga só de um desses lados da humanidade, tenho a esperar a desprezível incompreensão. Aos que nunca buscaram seus sonhos, sabem muito bem o que estão perdendo. Não descontem em mim suas frustrações. Ainda não consegui ser só uma; ainda me divirto tanto com os sonhos (em especial os de olhos fechados, num certo sentido, mas desses não posso falar). Se o tempo vier a mudar algo disso, terei muito a lamentar. Tenho raízes, mas água demais as apodrecem. Sem ar o corpo não respira – e não vive.
Anseio
que me vejam ao teu lado
que nunca conheças meu passado
e teu corpo da nuca aos calcanhares
só e só e só
e só meu
Anseio
namoro todo dia
no portão de casa
na calçada e na praia
no shopping e no sofá
que vejam que saibam
que invejem que cobicem
Anseio
gargalhadas e gritos
discussões sem fundamento
sustos e que o fogo
não caia em desuso
e boa noite sem muxoxo
Anseio
arranhões e portas batidas
verdades escancaradas
e que nunca descubras:
os meus sonhos pelas madrugadas
e o que faço quando te odeio
Anseio
a vida sem laços nem promessas
sem cartório nem padre nem pastor
e constantes torturas de amor
quando teus pensamentos forem
meus
e só e só e só e só
meus.
Talvez esta história seja triste. Por algum tempo pensei nela com raiva, não tristeza. Os personagens não existem mais na minha história faz um bom tempo, mas uma coisa ficou. E eu não gosto das coisas que ficam…
Já fui traída – de várias maneiras, por amores, amigos, colegas de estudos e de trabalho, familiares. Não costumo esquecer as traições porque considero que é mais saudável assim. Nem queria vir contar histórias pessoais. Por algum tempo, como eu disse, eu senti raiva por ter sido traída por um namoradinho (no diminutivo pra demonstrar, com essa dificuldade que nos proporciona a palavra, o quão “pequeno” ele é).
Lá se iam dois anos (se não me engano) de namoro turbulento. Ele conheceu uma moça através de um primo e se falavam pela internet (tempos idos do msn, que eu não possuía, obviamente). Aí um dia ele comentou que ela havia falado do Fassbinder, diretor de cinema, que estava procurando filmes dele ou algo assim. Ele correu baixar loucamente todos os filmes do tal diretor (ele era assim, cheio de manias doentias). Eu, é claro, aquela vida louca, cheia, ocupadíssima como sempre. Numa viagem que eu fiz, ele convidou a tal moça para assistir aos filmes do Fassbinder. Aí, bem, vocês sabem o que o convite “assistir a um filme aqui em casa” quer dizer.
Eu descobri logo depois. Deixemos a podridão da história de lado. Eu pus um ponto final na “nossa” história (digna de um filme de terror intragável). E segui (ele ainda protagonizou cenas lamentáveis durante anos – sim, eu disse anos). Eu tive todos os sentimentos possíveis à época, e não sou boa moça quando com raiva. Mas sou boa com pontos finais.
O problema era o Fassbinder. O problema é o Fassbinder. Eu estudo e trabalho com cinema, desde antes do acontecido. Imaginem vocês, nunca vi um filme do Fassbinder. Por anos eu leio textos, críticas, notícias e volta e meia aparece “Fassbinder”. Hoje mesmo eu aqui imersa em trabalho e, pá, na minha cara, FASSBINDER. Já odiei este homem. Vejam vocês, ele me traiu sem nem saber! Porque traído, queridos, a gente é todo dia. Essa aí nem foi a pior. A mais baixa, talvez, porque digna do “nível” dos envolvidos. Mas o Fassbinder.
O problema é o Fassbinder. Um dia uma pessoa da família disse “quero ver o filme tal” e, pá, era do Fassbinder. Fiz que não ouvi e não toquei mais no assunto. Tinha que ser dele?! A cabeça da gente faz cada associação que é uma miséria. Eu já vi pessoas com esse tipo de (seria trauma?) e ficava toda metida “ah, nada a ver”. Pois é, tudo a ver. Tentei me consolar com um “não estou perdendo nada, deve ser ruim”. Vai na mesma linha de associar músicas a certas pessoas ou relacionamentos, depois que a coisa desanda a música vira outra aos nossos ouvidos. (nesse caso eu nunca tive problemas, tenho até playlists de todas as musiquinhas de amores e tal, coisa mais linda e diabética)
A traição não foi nada. Quem dera o Fassbinder não existisse na face da Terra e eu não tivesse que parar meu trabalho para vir aqui desabafar com vocês essa história. Da qual, aliás, hoje eu dou risada. Quando deparei-me com ele no texto de agora a pouco eu ri “seu safado, tu aqui de novo!”. Mas ainda não vi nenhum filme dele. Preciso assisti-los para poder dizer “é ruim mesmo” (rá!). A vida tem poucas coisas tão boas quanto você poder rir de algo tempos depois de ter passado maus bocados. Porque sofrer pelas mesmas coisas a vida inteira não dá – sempre tem algum sofrimento novo chegando.
Prometo contar, escrever análises longas e minuciosas, quando eu finalmente assistir ao Fassbinder. Aliás, sinto-o quase um amigo. Passamos por uma traição juntos. Não nos deixamos cair nem conspurcar por isso. Um dia faremos as pazes. Fassbinder tornou-se uma obsessão, longe de ter a ver com a história triste de vida, mas uma obsessão cinematográfica: será apoteótico o dia tão esperado de assisti-lo, com direito a muita pipoca, vinho, cobertas, paçoca (e comentários em voz alta, claro, porque eu falo com os filmes). A história será de fato triste se ele me decepcionar – e eu puder comprovar o “é ruim mesmo, viu, eu disse”.