E você, pensa no outro?

As mais profundas mudanças sociais acontecem em tempos de crise – não sou eu que digo, está aí nos fatos ao longo da História. Não basta você querer que algo seja diferente, que um grupo seja visto e tratado de outra forma, que a mentalidade das pessoas conceba certos conceitos – não basta. É preciso que grandes (ou aqueles pequenos que causam uma explosão gigantesca) fatos intercedam. Não adianta nada só querer – não sei se estamos familiarizados com esta premissa hoje em dia. Querer algo bom é louvável, mas por si só não causa grandes transformações. Também não estou falando dos olhos que só vêem os próprios umbigos – aliás, para não deixar o texto fácil aos ataques, tentarei guardar um pouco o meu desprezo por essas pessoas. As coisas do mundo mudam porque as pessoas pensam no outro, jamais porque pensam em si. Não basta um pequeno grupo vítima de alguma injustiça ou atrocidade pensar nele, tentar lutar contra isso, é necessário que as pessoas de fora deste grupo pensem nele, no que aquelas pessoas sofrem e do que são vítimas. Infelizmente é assim. Deixemos, portanto, os umbigos de lado.

Independente se existe ou não, oficialmente, uma crise, passamos por tempos difíceis. Seja o preço da cebola que disparou ou as centenas de milhares de famílias que não estão em dia com as contas de cartão de crédito e financiamento da casa, o país não vai bem. É preciso deixar de lado, também, a fala do governo e de qualquer um contra o governo. Falo, portanto, do dia a dia, de nós, de pessoas. De todos que deixaram de ter aquele momento de ir ao cinema, de sair pra comer alguma coisa com o namorado ou com os amigos, de ir passear de carro aos domingos, de pagar a escola do filho, de pagar a conta de luz pra poder pagar o supermercado. De todos nós que abrimos mão de muita coisa pensando nos gastos e nos preços altíssimos. Claro, pode não ser o teu caso, querido leitor, e, então, não és um brasileiro comum.

Em tempos difíceis é fácil pensar ainda mais em nós mesmos. No quanto queremos sair dessa. E é justo neste momento de abrir mão de tanta coisa que o ser humano deveria pensar em quem já não tem muito – quem dirá abrir mão de algo. Na oração de Nossa Senhora do Desterro há uma passagem belíssima (me perdoem se já falei dela, mas uso-a com frequência): “Senhora do Desterro, olhai também por tantas pessoas em situação de desesperança, de aflição, em piores condições que as minhas.”. É num momento flagrante de ir orar por você ou por alguém ou alguma coisa que nos deparamos com isso: orar por quem (ser abstrato) está em piores condições, por quem necessita mais do que eu. Por pior que seja a nossa situação, por mais desesperadora, mais falida, haverá sempre alguém em piores condições que nós. Assim, a oração nos consola (num sentido religioso, que eu sei que nem todos compreendem ou acreditam) e nos faz agir como seres humanos – aqueles que não olham apenas para os próprios umbigos.

Trago a oração de Nossa Senhora do Desterro para tratar dos tempos difíceis. Somente nesses momentos o mundo pode mudar. E se não fizermos a diferença agora, jamais teremos a chance de fazê-la. Foi em tempos de guerra que as mulheres assumiram o trabalho “de homem” e saíram de casa para cuidar do sustento e fabricar armas para que seus maridos e filhos lutassem – e dali em diante ser mulher mudou.

E agora, em tempos de necessidade, quem precisa mais que nós? Pelo que conheço das pessoas, são poucas as que doam (roupa, utilidades para casa, comida, revistas, livros, tudo que uma vida precisa) com regularidade, que fazem da doação um hábito. Me dói conhecer pessoas que não doam. Para incorporar a doação como hábito é preciso aproximar-se de alguma entidade (um lar de crianças, de idosos, deficientes, instituições que cuidam de mulheres em situação de risco, orfanatos, instituições religiosas ou não que cuidam de famílias, que ofereçam ensino e cuidados, há de todo tipo, para casos e situações que nem imaginamos – em todas as cidades há), conhecê-la, saber como ela trabalha, a quem atende e do que precisa. É simples, em poucas horas você pode se inteirar disso. Em alguns dias ou meses é só acompanhar (às vezes por comunicados, mídia) as ações da entidade, ou procurar a história dela no município.

Conhecendo a entidade, é só doar. E doar, como diria o padre Juca, é doar aquilo que você precisa. Doar um sapato velho, uma roupa que você não gosta, tudo aquilo que você não quer mais, não é doar de verdade. O ato de doar algo a alguém é dar o que o outro precisa. O pensamento mais comum sobre doar é o que eu não quero pode ser útil a alguém – e isto é querer livrar-se de algo, não é, nem em última instância, pensar no que o outro precisa. Portanto, ao pensar em doar alguma coisa, separe aquilo que você imagina (ou sabe, pois as entidades podem repassar o que precisam no momento) que outra pessoa esteja precisando. E lembre que, quanto maior o guarda-roupa, menor o coração de uma pessoa.

Somos capitalistas, claro que sim. Somos consumistas demais e isso nem tem a ver com o capitalismo. Não cabe na discussão. Nossos hábitos não estão condenados a nada além da nossa consciência. Por isso sou dessas que condena sites de revenda de coisas que “enjoamos” ou “desapegamos”. Não é uma maneira de combater o consumismo ou mesmo dizer que temos hábitos diferentes da massa. É até pior, porque estes sites e comunidades geram ainda mais consumismo (vou numa liquidação, compro loucamente, depois fico meses com uma pilha de coisas que nunca usei e, rá, não tem problema, vou vendê-las e ainda ganhar um dinheiro – pra gastar de novo em coisas que…) e não geram fluxo de doação para quem precisa. Se eu já fiz isso de comprar coisa que nunca usei? Sim. Se eu já comprei por comprar? Sim. Se eu já peguei algo de que gostava e doei porque sabia que era necessário a alguém? Sim. Para alguns pode ser um caminho. Auto-analisar o próprio consumo, os próprios hábitos. Você precisa mesmo do dinheiro que vai ganhar vendendo meia dúzia de roupas e sapatos? Ou há alguém que precisa dessas peças mais do que você precisa deste dinheiro?

É simples. A gente só não faz porque se apega às coisas erradas. Não aprendemos a pensar no outro. É mais fácil um pai ensinar o filho a pensar no “amanhã” (guardar dinheiro, estudar pra ser alguém na vida) do que pensar no outro – até este outro que a gente nem conhece. Não é preciso, porém, tirar foto e postar nas redes sociais. Nem, meus queridos, esperar que o seu terreno no céu esteja garantido. Doar, lembrem, é porque o outro precisa. Não porque queremos mostrar nossas belas práticas diante da humanidade (nem sob a desculpa esfarrapada de que podemos “influenciar” positivamente os outros) ou porque nossa consciência já não comporta nossa lista de pecados. Se você pratica alguma boa ação (seja ela qual for – desde doações, trabalho voluntário, esmola a ajudar animais de rua e ajudar a construir hospitais) porque fazê-la te faz bem, você está fazendo isto errado. Seja por indicação terapêutica, de padre ou pastor, ou obrigação na firma, a ação em favor do outro nunca deve gerar a satisfação consigo mesmo nem qualquer tipo de prazer (se não me engano há algo de aristotélico nisso). Por isso deixamos os umbigos de lado lá no começo do texto.

Há quem pense que enfiar a mão no bolso atrás daquelas moedas que sobraram e jogá-las no chapéu de algum morador de rua é uma boa ação, é doar. Não é. É um ato de desprezo. Quem faz isso despreza a pessoa que cruzou o seu caminho lembrando-lhe que existe miséria e necessidade em todos os cantos – tanto quanto despreza aquelas moedas no seu bolso. Talvez seja um ato de auto-preservação do ser humano não querer ver as necessidades alheias, pois teme a qualquer momento passar por elas – passar fome, passar frio, não ter onde morar. Tememos tanto isso que preferimos ignorar que é um risco eminente pra todos nós, pois nunca se sabe (desculpem, não é argumento, mas o fatalista nunca se sabe é um mantra pra mim). Se não vemos vidas humanas em necessidade, podemos até acreditar que as necessidades em si não existem no mundo – e, portanto, não estamos suscetíveis a elas.

Há quem se engaje em qualquer campanha do agasalho, doações para atingidos por tornados e enchentes, e tantas outras que geram grande publicidade. É válido? Talvez. Diante de certos casos o próprio Estado deve intervir e ter, obrigatoriamente, um contingente de doações de artigos de primeira necessidade, mas o Estado é falho. E, vejam só, as pessoas não precisam de roupa só no inverno, porque ainda não é liberado andar pelado quando faz calor. Sim, no calor as pessoas também precisam de roupa – e, meus queridos, não vai dar pra usar aquele moletom que você doou no inverno. Essas campanhas de roupa de frio contam com o hábito que, em algumas regiões com estações bem definidas, as pessoas têm de guardar as roupas conforme o calor ou frio que faz. Aí, quando reabrem caixas, sacolas, guarda-roupas e se deparam com aquelas peças que nem lembravam mais, querem se livrar delas, vêem que já passou a moda daquela jaqueta estilo cowboy, daquela blusa com franjas, da saia longa. E, claro, quem é que vai andar por aí com roupa fora de moda. Melhor doar. Em situações muito extremas, para as quais nem nós, nem o Estado nem ninguém está preparado (como as grandes inundações de 2008 em Santa Catarina) todo esforço, se vier de um hábito, é válido. Se vai doar só porque está com pena ou o pessoal todo da empresa está fazendo, melhor não.

Pensar no outro não é fácil. Desapegar (de verdade e não como nome bonitinho pra site nem pra limpeza no coração) de verdade também não. Não nos ensinam isso. Nossas práticas correspondem ao que vemos no mundo: e não é correto, nem digno, que a gente critique o que acontece no mundo porque nós colaboramos diretamente com tudo. Sair por aí combatendo o que os outros (vejam, aqui há um outro outro: aqueles outros que tanto amamos odiar, desprezar, menosprezar porque eles fazem coisas erradas – aliás, o único outro do qual falamos com frequência) fazem de errado, o mal que eles praticam, não diz nada de bom a nosso respeito. Eu não preciso combater o mal que os outros praticam: eu posso praticar o bem. Posso, para começo de conversa, praticar o bem em relação a um outro qualquer. E isso sim vai fazer diferença no dia a dia, nos tempos de crise e vai empreender alguma mudança no mundo.

No jardim

A menina brinca com a boneca sob o sol

a areia suja seu vestido

o tempo todo ela sorri

sorri com ela as rosas e os jasmins

O sabiá a observa sem fazer ruído

cata minhocas e insetos

pensando no filhote que deixou no ninho

com medo que ele caia e se machuque

A avó borda uma toalha

sentada na sombra da varanda

repuxa os óculos que teimam em cair

e espia o cachorro que dorme a seus pés

Do nada, tudo parece sacudir

é a menina que vem chorando

aos soluços, agarra a boneca

que perdeu a cabeça.

The Book of Negroes (um desassossego)

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Há algo de filosófico em pensar que, quando temos as respostas erradas talvez tenhamos feito as perguntas erradas. Eu sempre penso nisso numa atitude de inquirir e questionar o que se pretende apresentar. Há, também, algo de filosófico em pensar se o problema que se apresenta está colocado da maneira correta.

Pensei em começar assim para justificar que, não desmerecendo outras lutas e pautas, aprendi muito uma forma diferente de ver uma mesma questão. Muito se reclama, no meio audiovisual, que faltam negros nas produções (nas telas e por trás delas). Não, não é só nas novelas brasileiras (ou mesmo em telejornais e etc.). O mesmo acontece na indústria cinematográfica e televisiva estrangeira. A TV americana, porém, trata isso de uma forma menos pior, digamos. Me parece que tem uma boa quantidade de produtos audiovisuais com personagens negros. Volta e meia esses “problemas” entram em discussão, o atual é sobre os salários das atrizes, depois do discurso politizado de Patricia Arquette ao receber o Oscar. Bem, seria repisar dados conhecidos demais dizer que os homens (brancos e blábláblá) dominam praticamente todas as áreas e tal. Não é isso que me interessa hoje.

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A despeito, também, dos estudos (dos quais realmente não sou detentora) decoloniais e afins, pois acredito que não se encaixe na minha idéia.

Assisti a minissérie canadense The Book of Negroes, dirigida pelo negro jamaicano Clement Virgo. Não pretendo ser spoiler nem tratar da trama, apesar de ter alguns tantos elogios. Enquanto assistia, me peguei pensando que não é só dizer “não há negros nos filmes, séries, novelas”. O brilhantismo da minissérie, pra mim, está no fato de pensar a fotografia para a pele negra. Estamos acostumados demais em ver as imagens de brancos, loiras, morenos, com luz e fotografia pensados para essas “cores”. Porém, há vários casos de audiovisuais que têm negros no elenco, sem perceber que eles se perdem nas imagens com luz apropriada para as peles brancas ali presentes. O trabalho de fotografia de The Book of Negroes é fantástico – mesmo que sutil demais para um olho desatento.

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Sim, a história é emocionante. Sim, cobre um período e fatos que não são de amplo conhecimento do povo em geral. Sim, é dar visão às atrocidades. Sim, é uma história de esperança. Sim, tem atuações brilhantes. Seria só mais uma série/minissérie que eu teria gostado (de época, óbvio), se não fosse o despertar de um olhar para as cores que compõem o quadro de um elenco negro. E assim eu acredito que a questão deva ser recolocada: não só faltam negros no audiovisual (na frente e atrás das câmeras), nem faltam temas e histórias que estejam em sintonia com os personagens negros, falta pensar como ver (no sentido literal) a pele negra nas telas. E, pra mim, isso faz muito mais sentido.

Do que eu estou falando? Da beleza que, em meio às desumanidades cometidas no enredo, surge da pele brilhante sob a chuva. Do uso intenso dos tons terrosos que combinam e dão realce à pele negra. De usar a paisagem fria, gélida, branca, casar com perfeição e não deixar um traço de sombra sobre o rosto negro, enquanto salta gritante a branquidão da pele dos outros que, estes sim, parecem destoar ali. É tão batido (apesar de ter um filme fofinho que trata bem disso, com a Juliette Binoche e, infelizmente, o Clive Owen), mas uma imagem vale mais que mil palavras (e eu sou do tempo que as imagens eram menos mentirosas e manipuláveis).

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Ou seja, só assistindo para entender. Mas, justifico-me novamente, este blog tem a premissa de ser campo para meus desassossegos. Então, cá está. Listo mais um deles. É uma minissérie que eu acho que nem chegou nem chegará no Brasil, passou em janeiro no Canadá e em fevereiro nos EUA, tem apenas seis capítulos e é baseada num livro de Lawrence Hill (acredito que sem tradução para o português), outras informações é fácil encontrar por aí. Sim, sou apaixonada por essa coisa de acesso quase irrestrito à arte e à cultura, então deixo avisado que tem para download em site seguro (só não vou deixar aqui por questões óbvias). Partindo da minha compreensão da fotografia da minissérie, confesso que já fui longe, por isso comecei com as atitudes filosóficas de mudar o ponto das questões que nos apresentam.

E só uma curiosidade, houve uma campanha para explicar o termo negroes no título, pois é ofensivo nos EUA, mas ele é explicado na história e, pá, assistam e não fiquem lendo spoilers.

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Ela e o Violino

Ela é joelho

Ela não sente seu peso

Ela não tem asas

Ela não é um beija-flor

Ela saltita como quem anda em brasas

Ela flutua como quem sente o amor

Ela é piruetas

Ela é cãibra sem pausa

Ela é furadas meias

Ela não pára quando sente náusea

Ela é som em nervos e músculos distendidos

Ela é carne em vibração das cordas ao seu ouvido

Ela se alonga, suspira e tira as sapatilhas.

Entre Poder, Liberdade e momentos de burrice

Acredito que não tenho, com este texto, respostas a dar. Também acredito que estou num momento da vida no qual dificilmente eu mudaria minhas convicções mais recentes, porém admito ter adquirido uma facilidade cética em relação às crenças e convicções alheias. Tenho pra mim que buscar respostas e verdades com muito afinco (como vejo fazerem ao meu redor) é um erro que se afasta do exercício da reflexão e morre mugindo nos braços da desilusão.

Dito isto, eu quero relatar algumas coisas pelas quais passei, das quais tive conhecimento e que se misturaram com fatos aí da vida real – e não creio que darei conta de expor aqui tudo o que pensei sobre, é claro.

Talvez seja bom partir da premissa de que não acredito no poder do Estado para o bem do povo. Ou, melhor colocado, quanto maiores os tentáculos do Estado sobre nossas vidas de cidadãos, piores as condições de vida – em todos os sentidos. Cheguei a isso faz um tempo, apesar de saber que a relação é complicada, pois não sou uma anarquista (já tive minha época) nem burra a imaginar uma nação, ou nações, ou grupos sociais auto-suficientes na gestão coletiva. Porém, a questão é simples: não quero um Estado que me proteja de mim, um Estado que diga o que meu filho pode ou não aprender (ou quando), um Estado para quem eu pago e que ele decidirá como vai me prestar os serviços dos quais eu preciso.

Também vou deixar claro que não sou militante ou sequer simpatizante dos movimentos sociais. O que, aliás, para bom entendedor significa que também não sou contra – mas, como eu disse, tenho sido cética em relação às convicções alheias. Melhor ainda, deixarei claro que em questão Política sou Liberal-Filosófica e, acima de tudo, pela Liberdade. A primeira poderá sofrer alterações ao longo do tempo (já fui Socialista, já fui Anarquista, já fui tanta coisa e, aparentemente, nunca deixei de ser utópica), contudo, a segunda é tão entranhada que jamais será desvirtuada. Eu sei de onde vieram essas formações, mas não cabe aqui a lenga-lenga explicativa. “Não o prazer, não a glória, não o poder: a liberdade, unicamente a liberdade.” (Fernando Pessoa no meu amigo O Livro do Desassossego) dá uma boa prévia de como ou de onde eu construí alguns princípios e não nos alonguemos mais nisso.

Não sou, então, de Esquerda, nem de Direita – muito menos de Extrema qualquer uma das duas. E se você vê o mundo a partir da viseira do dualismo, melhor parar de ler por aqui. E aos de má-fé, adianto que Neo-liberalismo nada tem a ver com o que estou pensando – é só mais uma infeliz prática de uma boa idéia. Deixados os dualismos de lado, prosseguirei.

Li uma reportagem (e pouco importa de onde) sobre pais que estavam processando o Estado para conseguir matricular os filhos antes da idade prevista. Na minha época, para entrar na primeira séria era preciso ter sete anos. Hoje, aos seis já é possível – sendo que o Ensino Fundamental aumentou um ano, a nona série. Pais querendo que seus filhos de cinco anos (incompletos, inclusive) tivessem o direito à matrícula. Pais defendendo que acompanharam os filhos e que eles têm total capacidade de acompanhar uma turma de primeiro ano. O relato dos pais, para mim, foi chocante. Eles, claro, afirmam que desejam o melhor para os filhos, ao colocá-los antes na escola porque os pequerruchos têm capacidade e seriam lesados com a proibição por um mero detalhe que é a idade. Meses antes de ler isso, eu tomei conhecimento do projeto do Governo Federal de, em alguns anos, obrigar todas as crianças de quatro anos a estarem matriculadas – ou seja, a matrícula obrigatória será para o que vem antes da primeira série. Meu choque, neste caso, aliou-se à revolta.

Por que o Estado deseja com tanta convicção que meu filho fique encarcerado numa escola desde os pouquíssimos quatro anos? A questão se colocaria assim para mim. Sei que muitos (a maioria?) dos pais matricula seus filhos com essa idade ou antes, em creches. Pensei que para muitos pais, o fato do filho “seguir seu rumo” aos quatro anos será de grande “ajuda” (para não dizer alívio). Maldade? Não, porque infelizmente tenho visto poucos pais que se alegram e aproveitam as dores e delícias de criar um filho por perto, poucos pais não delegam suas responsabilidades às babás, avós, professores, “tias” e o escambau. Claro, eles têm que trabalhar, eu sei, ó, mundo capitalista. Mas é assunto pra outra hora.

Meu susto é pensar que a educação (em todos os níveis) destas crianças está sendo empurrada para o Estado. Vejo isso com grande temor. Enorme temor. Entre a notícia lida e o conhecimento das mudanças do Governo (que, vale dizer, está fazendo uma campanha maciça para que as escolas e professores consigam fazer com que crianças de oito anos (tardiamente) saibam ler e escrever) li um livro que me fez temer ainda mais o andar da carruagem.

Há uma deficiência absurda entre as crianças ao exercitar a leitura e a escrita. Adotaram políticas inomináveis sobre “passar de ano” alunos que não tinham domínio do conteúdo previsto. E o não saber ler e escrever está na base. Eu vejo alunos de Ensino Médio (de Graduação, pós-graduação…) que não foram alfabetizados – e não são “alguns”, em certos lugares é a maioria. Os problemas que criamos hoje, só virarão precipício lá na frente. Por isso, tentei, por um lado, entender a iniciativa do Estado em obrigar a matrícula aos quatro anos como uma tentativa – sofrível – de que as crianças saibam ler e escrever aos oito anos. Porque, devem pensar, entrando com sete anos não é possível.

O livro me fez pensar num radicalismo: o Estado não domina o povo pela Economia, nem pela Cultura, nem pelo assistencialismo social. O Estado domina uma sociedade pela Educação. E a Educação, retirada da alçada dos pais, fica à mercê das intenções e intencionalidades do Estado. Quem dirá uma Educação que tira crianças aos quatro anos do seio da família e a encarcera em salas precárias, com professores descontentes (e muitos sem formação mínima), sob o domínio de pensamento deliberadamente pré-determinado – enquanto pais folgadamente se eximem das suas responsabilidades.

Não foi difícil juntar alguns pensamentos e concluir que não quero que o Estado interfira em nada na educação dos meus filhos. Ah, mas me sinto tão onipotente como os pais da reportagem ao saber o que é melhor para os meus filhos? Bem, me pareceu o erro comum aos que são pais. Porém, assumirei que qualquer coisa de errado no processo será minha culpa – nem do Estado nem de ninguém.

Mas, aí, entre as minhas muitas divagações os fatos exigem que eu não viva na minha bolha.

A partir dos meus princípios, fica muito difícil dar crédito, ou sequer prestar atenção a certos princípios alheios. Como li no Twitter uma vez, fica difícil imaginar que alguém vá às ruas gritar “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”. As incoerências dos partidários deste mundo dualista ferem até meu sentido de senso comum.

Eis que, numa folga, lendo uma bobagem, me deparei com um pequeno diálogo que uniu uma crítica tão atual ao bom humor sempre necessário:

(o personagem dizia, com orgulho, que não tinha TV em casa e que nunca assistia nenhum programa televisivo)

“Then how do you know what´s going on in the world?” Alice had to know.

“I have a laptop computer with Internet access,” he said. “That´s where the real news is.”

“A revolutionary,” Harley said.

“An anarchist,” Alice corrected.

– Diana Palmer, The Maverick

Eu ri e lembrei de tantas publicações que vejo nas redes sociais, lembrei de amigos, de algumas pessoas que se não existissem o mundo seria muito melhor, de tanta gente, enfim. Já ouvi personagens que se orgulham de dizer que não assistem TV – porque não basta você fazer algo, é preciso sentir-se superior aos outros.

O que tem tudo isso a ver com o que eu escrevi acima? Já chego lá (meu leitor já sabe, paciência em primeiro lugar ). Eu vejo essas manifestações – não, chega, a palavra já virou outra coisa. Eu vejo esses gritos raivosos contra os conglomerados midiáticos (ficou melhor que PIG ou grande mídia, né? A gente precisa reinventar!) e analiso as atitudes delas. Pois não vejo diferença entre a Veja e o Diário do Centro do Mundo. Já disse isso aqui. É contra o Jornal Nacional mas acredita cegamente em tudo que sai no site da revista Fórum. A incoerência mandou lembranças. Só o dualismo redundante e burro pode crer na verdade do órgão que diz só aquilo que eu quero ouvir. Sim, minha crítica atinge quem só lê a Veja no seu jornalismo panfletário para alimentar suas convicções contra isso ou aquilo.

E aí eu cheguei onde eu queria. Onde vamos parar? Que mundo, ou, melhor, que visão de mundo nós construímos ao só cercarmo-nos das idéias que vão ao encontro das nossas? Estaríamos todos presos nesse momento, como eu falei de mim no início, de não querer mudar nossas convicções e olhar com desdém as dos outros? Por que dispensamos o exercício intelectual de ler e conhecer concepções diferentes das quais preferimos? Eu disse, venho com perguntas, não tenho respostas. Cheguei a esse ponto porque percebi que tinha limitado muito o exercício de acompanhar as várias visões de uma mesma coisa. Digamos que fui perdendo a paciência, usando demais o “ocultar tudo de fulano” do Facebook, desistindo de ler textos que logo de cara usam refrões dualistas. Fui formando uma ilha protetora, se não das minhas concepções, mas das incoerências alheias.

E vamos aos exemplos práticos. Estava no centro de Curitiba no início de março. Um repórter parou e perguntou se poderia me entrevistar sobre a greve dos professores do Estado, que se arrastava a cerca de um mês. É claro que me dispus (sempre dou entrevistas, pra quem não sabe). O repórter começou perguntando se eu achava justa a greve. Eu disse que sim, que era a única forma, infelizmente, de eles serem ouvidos. Aí ele disse que já fazia muito tempo, que os alunos seriam prejudicados, principalmente os que fariam vestibular no fim do ano. Eu sorri e disse que era só eles adiantarem os estudos em casa, não deixarem o tempo passar em vão, e que tanto professores quanto alunos sofreriam, mas que o tempo sempre é recuperado. Basicamente a entrevista foi isso, e devo dizer que estava num bom dia, falei bem, não gaguejei, deixei claro ser favorável aos professores e que mimimi de aluno não pega.

Pois bem, a entrevista foi dada ao canal e-Paraná, “Rádio e Televisão Educativa do Paraná”, público, é claro. Fiquei até exultante (a ingenuidade é uma bosta) pois um canal “educativo” estava preocupado com… a Educação. Pois bem, o repórter me disse que horas passaria a reportagem. Eis que… minha entrevista não foi veiculada. E o resultado vocês podem conferir:

Por que colocariam uma professora apoiando a greve dos professores quando poderiam colocar um pai xingando os professores ao dizer que eles “incorporaram” as greves? (Não encontrei o vídeo do Jornal e-Paraná do dia 4 de março de 2015 no site do canal, só no Youtube, mas encontrei este http://www.e-parana.pr.gov.br/modules/video/showVideo.php?video=14985 mais recente, um dia antes do massacre que ocorreu em frente ao Palácio Iguaçu).

Os vídeos falam por si. E, vejam só, não é da Globo nem de suas afiliadas. É um canal estatal – idéia que agrada deveras aos mais politizados de alguns lados. Agrada aos, não sei, estou na dúvida se ingênuos, utópicos ou burros (por sinal, três sintomas que andam juntos) que acreditam em imparcialidade e acreditam em coisas do tipo:

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É simples. Qualquer meio, qualquer pessoa, moldará os fatos, as intenções, as restrições. Nós fazemos isso o tempo todo. Minha paciência foi perdida quando vi a insistência de pessoas criticarem o Jornal Nacional por não passar nenhuma reportagem sobre o HSBC, pois, é claro, ele é patrocinador do JN. Mas queriam o quê? Como a e-Paraná, queriam que eles colocassem alguém dando apoio à greve de vinte e cinco dias, uma das maiores da história do Estado, dos professores? Sério mesmo que acreditamos nisso? Somos, afinal, revolucionários, anarquistas ou burros?

E volto lá ao início. Não quero o Estado mandando e desmandando na Educação. Nem na mídia. Nem nos policiais. É burrice, acima de tudo, acreditar que um Estado de Esquerda, “pelo povo”, com TVs controladas por ele, será mais livre do que temos hoje. É burrice acreditar que um Estado de Centro ou Direita, neo-qualquer-coisa, terá só imprensa manipuladora e assentirá aos mandos e desmandos publicando receitas de bolo. E é uma burrice maior ainda nós nos mantermos fiéis às nossas convicções vendo o mundo desta bolha que é a internet dos sites salvos nos meus “favoritos” – porque é ali, a-rá!, que existe a verdade!

Por que nos sentimos superiores aos outros julgando-os com falácias e desdém? Por que querer acreditar num Estado qualquer – eu disse qualquer – que será por alguém que não eles, que estão no poder? O Poder jamais andará ao lado da Liberdade. Os tentáculos do Estado nos infantilizam, nos destroem, nos fazem passar fome (e não só essa que sinto porque são 11h e nem tomei café da manhã), criam crianças e adolescentes para si, para o apertar parafuso (tão bem exemplificado por Chaplin). Pois dos engôdos da humanidade, afirmar que o professor “faz pensar” é um dos maiores. Acreditar que entre professores e policiais, por exemplo, de um lado só há santos e, do outro, demônios é excetuar todas as questões morais e éticas (que são fascinantes e sobre as quais não li nenhuma reflexão) presentes.

E para além das incoerências gigantes, há as pequenas. Vi, com estes belos olhos castanhos de quem parece viver distraída, publicações em rede social com “ISSO A GLOBO NÃO MOSTRA” e anexava um vídeo… da RPCTV, afiliada da Globo no Paraná. Vi professores clamarem contra as atrocidades perpetradas aos seus colegas de profissão com um Português sofrível. Vi pessoas de bem quererem defender agressões desmedidas porque são greves orquestradas por órgãos sindicais. Vi a má-fé de quem divulgou vídeo (uma montagem de entrevista do governador com cenas das atrocidades – me nego terminantemente a postar o link aqui) que foi manipulado pela edição, a favor dos agredidos. Manipulação contra quem a gente demoniza, pode; contra quem a gente apoia, não pode? (os princípios éticos, como vemos, estão também no simples uso de um programa de edição que hoje um monte de gente domina, não só no ressurgimento de Eichmann nos personagens que recebiam ordens para atirar balas de borracha)

Eu pensei em tudo isso quando vi professores e policiais, ambos do mesmo “lado” – posto que funcionários do Estado -, num cenário de conflitos teóricos abandonados e de simples e pura violência. Eu penso em tudo isso quando tenho dificuldades em compreender os motivos que levam as pessoas a pensarem deste ou daquele modo. Eu não consigo deixar de pensar em quem tem, e não é coisa de momento, sempre as mais belas e duras certezas da vida.

Quanto maiores os tentáculos do Poder, mais sufocada será a nossa Liberdade. O Poder, encarnado nos seus personagens reais de mandantes do País, do Estado, do Município, é que vive livre – de condenações, de responsabilizações pelos seus atos ou atos sob sua competência. Estes personagens é que vivem livres para agredir e não serem demitidos no mesmo dia. Tirar o poder de quem “chegou lá” pelo voto lindo e democrático do povo (o voto: uma das piores ilusões que temos hoje em dia) não é como assinar a demissão de um caixa de supermercado que roubou, ou expulsar um participante do BBB que agrediu outro. Não. O Poder dá a Liberdade. Nós damos a liberdade para eles e perdemos a nossa. Não há Liberdade na Democracia (fica pra outra hora).

Só nos resta escolher em qual site ou canal veremos as imagens. E talvez por isso estejamos, burramente, brigando tanto por isso e achando que temos a “liberdade” de escolher nossos meios de informação.

O conflito

Eu gosto de histórias. Não existe mais a diferença entre estórias e histórias, mas minha preferência pela ficção em detrimento das histórias reais é um tanto acentuada. As histórias de ficção fazem mais parte de mim – até mesmo para entender a realidade e suas histórias. A predileção é um tanto maior, mas não tanto. Meu gosto por histórias me fez uma boa aluna em História, uma boa ouvinte (em especial de pessoas que não conheço), uma audiência feliz de novelas, filmes, seriados e séries (necessariamente nesta ordem), uma leitora (longa história) e uma pessoa que pensa que pode contar histórias, por fim. Em algum momento este gosto me levou a estudá-las, a compreendê-las, a destrinchá-las.

Em alguma aula do curso de Cinema, um professor disse que jamais conseguiríamos assistir a um filme do mesmo modo de antes, só pelo prazer ou lazer, sem o profissional e a análise do que víamos. Ele estava parcialmente certo. E o mesmo acontece com as novelas, as séries e seriados e, também, os livros. A percepção muda, o prazer não. Entre me distrair assistindo uma novela turca na noite de um dia excruciante e ler um Umberto Eco antes de dormir, a percepção não desliga.

E eis onde eu queria chegar: as histórias carecem de conflito. “Ah, mas isso é velho!” pois não, não é. Entre teóricos há discussões sem fim sobre “como” escrever uma história, fórmulas mirabolantes, dicas imperdíveis, conselhos esquecíveis e tal. E de fato há fórmulas de sucesso (que alguns autores usaram, usam e usarão). Há milhões de livros vendidos aqui e ali, há milhões de espectadores de produtos audiovisuais (aqui, é claro, pesam outros fatores além da “história”). Ainda assim, você conta uma história quando há um conflito – ou se perde em “aí isso… aí aquilo… aí…” e não a terminará nunca. Ou quando acabar vai ouvir um “era isso?”.

Sou noveleira, já fui mais, mas minha criação audiovisual começou nas novelas da Globo e da Manchete quando eu era pequena. Deixei de assistir novelas por um bom tempo, quando tenho tempo tento voltar a assiduidade que elas exigem. E foi nesse vai e vem que senti falta do conflito. A Globo já produziu novelas fantásticas – por mais que a gente olhe algumas do passado e perceba que a produção era precária, não é a questão. Porém, comecei a sentir falta do conflito nas novelas. O folhetim é aquela história contada em capítulos, que devem começar com um conflito e desenrolar a história por um tempo (relativamente longo), prendendo o espectador a cada final de capítulo. E o que acontece quando não há o conflito? No caso das novelas que tenho observado, tudo se resume a “segredos”. O conflito foi substituído, pobremente, pelos segredos dos personagens – que na maioria das vezes é rapidamente descoberto pelo público. Lembro bem de ter visto a propaganda de Avenida Brasil e de imediato ter reconhecido a trama de Revenge. A vingança não é, em si, um conflito. Não cheguei a assistir a novela (acompanhei as críticas), porém percebi que o que a manteve foram os segredos. Talvez tudo tenha começado com o “quem matou Odete Roitmann?”, minando o conflito e sugerindo o mistério. Mas, para haver um ciclo de mortes ou uma morte (lembrem que matar um personagem é a saída mais fácil para o autor) é preciso que exista um conflito que justifique a morte dele – alguém mais assistiu Tiro e Queda, na Record, na qual havia um assassino em série que sempre deixava uma rosa?

O que é, afinal, o conflito? É a disputa pela terra, é o conflito social, é a traição. Todas essas coisas que a gente vê a vida inteira. Benedito Ruy Barbosa, nosso Shakespeare, é o melhor exemplo. Suas novelas têm claramente o conflito desenvolvido, seja a briga pela terra, a disputa amorosa, a luta de classes – e até todas elas na mesma novela. Meu Pedacinho de Chão, mesmo sendo uma novela das seis, era explícita (apesar de utilizar um espaço visual lúdico) no conflito cidade X campo, dominação social, etc.. Era tão claro e presente o conflito que ele permeava a relação do casal romântico da trama, Zelão e a professora Juliana, pois ele um analfabeto e capacho do mandante da cidade e ela uma professora da cidade grande. Quem assistiu vai recordar a beleza e a situação de afastamento dos dois por ele sequer saber escrever um bilhete de amor para ela.

Eu conversava com uma pessoa que assistia a Império e perguntei: qual o conflito? Ao que ele não soube responder. Eu assisti só o começo da novela e percebi que era só mais uma novela baseada no segredo (o comendador não sabia da existência da filha) que geraria todo o espetáculo de vingança, aceitação, culpa e tudo mais. Como as novelas se sustentam sem conflito? Do mesmo modo que todo produto audiovisual. O star sistem, o carisma dos personagens (por isso temos visto a tentativa de criarem personagens cada vez mais fortes em manias, expressões e traquejos – Paulo Betti e Alexandre Nero na própria Império, Adriana Esteves em Avenida Brasil, Mateus Solano em Amor à Vida – são eles que alimentam frases em redes sociais e nas conversas do dia, é assim que surge o fanatismo, é um bordão, uma desmunhecada, o emblemático uso de só uma cor de roupa, as frases depreciativas sobre uma classe social ou gênero), os cenários e figurinos que em instantes chegam às lojas, a beleza fabricada de homens e mulheres (porque nos dizem que o corpo malhado do Cauã Raymond ou as esqueléticas como Isabelle Dummond são bonitos e gostosos e ponto), tudo isso é o que faz uma novela hoje – e não a sua história. O conflito foi esquecido, todos os personagens escondem alguma coisa, criam-se personagens que não honram a linhagem dos grandes da nossa teledramaturgia. O jeito abestalhado do Tonho da Lua ou o tilintar das pulseiras do Sinhôzinho Malta eram adendos à caracterização dos personagens, não os esgotavam.

O segredo é necessário às histórias? Mas claro! E não somente às de mistério. Bons leitores de Agatha Christie e companhia sabem disso. Em Arthur & George, por exemplo, vemos o personagem de Arthur Conan Doyle como um ser movido pelo mistério (apesar da frustrante tentativa dele de se desvencilhar do seu personagem famoso) mas que encontra no conflito (racial) a sua história. Dizem* que Shakespeare escondia do público alguns fatores explicativos essenciais para “aprofundar de forma ilimitada o efeito de suas peças”, ou seja, ele escondia a motivação, o princípio, ou as razões do personagem. Pense numa história que começa com um filho matando o pai, e você não faz idéia do que levou-o a isso. O choque de um parricídio aumenta a sua relação com a história – do que, pelo contrário, se a história te contasse de início que eles, na verdade, não são pai e filho. A idéia de Shakespeare não é criar uma história de mistério (o famoso quem matou ou qual o segredo de fulano) mas criar um véu estratégico para o conflito.

Tão fácil recorrer a Shakespeare para explicar a enorme diferença entre o conflito e o mero segredo. O segredo é uma ferramenta, dentre tantas outras, usada pelo autor para desenvolver o conflito. Na novela Sete Vidas, por exemplo, não vejo conflito. E o que poderia ser visto como um (irmãos se apaixonam) tenho pra mim que na verdade será “solucionado” pelo segredo que a mãe da moça esconde (seria Julia de fato fruto de inseminação?).

O público brasileiro, tão formado pelas novelas, ou não abraça mais os conflitos (na busca pelo imediatismo de um personagem que renda memes e frases para o Facebook?) ou tem sido subestimado pelos autores. Desconfio que seja um bom tanto de ambos. Os autores também querem o sucesso fácil dos milhões de comentários – Agnaldo Silva comentou esses dias, numa entrevista, que se ele falasse a sério sobre gays, seria ignorado. Faltou comentar que além de faltar conflito e sobrar segredos, as novelas hoje se especializaram em “chocar”, em fingir que estão atentas às mudanças e rearranjos sociais – preferia quando elas enfiavam o dedo nas mazelas sociais e políticas, mas a gente sabe que a Globo não faz mais isso. É a velha indústria cultural, você senta no sofá no final de um dia filho da mãe e vai assistir político roubando e mandando uma banana de um helicóptero? Não, isso você já vê o dia inteiro.

Me preocupa bastante ver como nossos autores (e diretores) têm copiado produtos audiovisuais estrangeiros. Já fomos mais originais. (e nem estou falando do cinema) Além da citada Avenida Brasil (a Globo inclusive passou uma ou duas temporadas de Revenge, na esteira do sucesso da novela), Sete Vidas parte do argumento do filme The Kids Are All Right e inclui histórias paralelas também idênticas a outros filmes (a história do Ângelo Antônio, que casou com uma mulher que tinha acabado de fazer inseminação artificial lembra um filme bobinho com a Jennifer Lopez, The Back-up Plan). A minissérie que prometia ser um escândalo (até porque flertou com o mundo da política, mas só ficou no flerte barato mesmo), Felizes para Sempre?, foi dizimada por conter “referências” (de referência para cópia é um salto bem pequeno) demais a séries e filmes – e um Fernando Meirelles sem graça se justificou ao dizer que o público não tinha percebido todas as “referências”, vai ver o público esperava criatividade de um diretor tão aclamado. Seria uma decadência anunciada?

Ao mesmo tempo, chega ao Brasil, pela Band, uma novela turca que fez e faz o maior sucesso no mundo todo desde 2006/2007. Eu já tinha ouvida falar dela, passou em países da América Latina antes de chegar aqui. Mil e Uma Noites difere em muito das novelas brasileiras. A começar pela cultura e pela citação clara (porém, em termos de história, não direta) do famoso livro de literatura árabe. O conflito é claro: Sherazade, viúva de um moço rico desprezado pelos pais, arquiteta de formação com um filho pequeno, precisa de um milhão para pagar o transplante que salvará a vida do filho. Numa cultura machista e apegada ao núcleo central da família, Sherazade é a pobre heroína que esconde da empresa que tem um filho, pois filhos prejudicam a carreira das mulheres (no Brasil empresas, bancos e etc. vêem da mesma forma, mas aqui escondemos bem), desde a morte do marido trabalhou de free lancer e tem uma vida precária. Num momento de desespero ela vai até o sogro (muito rico) que renegou o filho (e a nora e o neto), porque ele não quis o casamento arranjado com uma moça de família, e pede o dinheiro. Ele nega. A doadora foi encontrada e ela tem um fim de semana para conseguir um milhão. Ela então vai até o seu chefe arrogante e pede emprestado 900 mil (os amigos emprestaram cerca de 100 mil). Como machista, arrogante e frio que é, o chefe espezinha a moça (ela está em estágio probatório, apesar de ter ganho prêmios e projetos para a empresa) oferece o dinheiro em troca de uma noite. Uma noite. Ela se nega, mas volta atrás. E a tal noite acontece. Dinheiro em mãos, filho salvo.

Como o conflito se desenrola? O chefe apaixona-se por ela. E faz desse amor uma imposição na vida dela – na empresa e na vida pessoal. A situação é grave, pois ele tratou-a como uma prostituta (era o que ele pensava dela até saber o real motivo do “empréstimo”). O personagem do chefe torna-se obcecado por Sherazade – alguns dirão que é apaixonado, mas ele simplesmente impõe o amor dele, a persegue, sequestra, exige, dá presentes: se isso não é obsessão… A novela então é o desenrolar do conflito, agregando o par romântico que precisará transpor uma série de valores e princípios. Além disso, vemos no núcleo do sogro dela como são machistas, o valor do filho homem, a mulher como parideira o valor da família e da honra. No capítulo de hoje a mãe do chefe vai se opor ao amor do filho, porque Sherazade é viúva e já tem um filho – que não é dele. Numa das sessões de terapia com a empregada, o chefe pergunta “é possível ser pai de um filho que não é seu?” – algo que, desconfio, não seria jamais colocado na boca de um personagem brasileiro.

Mas o público parece estar nem aí para o conflito. Pois vejo uma torcida absurda pelo “sim” de Sherazade desde o primeiro momento. Coisas como “um homem bonito (?) e rico assim” deve ter, obrigatoriamente, um sim – independente do sentimento da moça ou da ofensa que ela sofreu. Quase todo o público brasileiro (masculino e feminino) já teria se jogado aos pés do rico chefe bonitão (quase, porque não me incluo). E assim a gente resume uma cultura, um povo, uma rede de princípios (não é à toa que precisamos de uma lei Maria da Penha). Pouco importa o conflito, ele é bonito e rico. E como não é novela brasileira, e pra mim a parte mais especial de Mil e Uma Noites, o público não faz idéia do que e como e quais os sentimentos deles em relação “àquela noite”. Nós mal vimos um beijo dele no ombro dela e ela indo embora no dia seguinte. Sem agarração, sem cena que induzisse à violação, nadinha. Como eu sempre digo: pra que contar tudo? Perde a graça. Mina o conflito.

Digamos que eu seja saudosista. Digamos que sinto falta até do que nunca tive, como dos folhetins que saía a cada semana um capítulo no jornal (como aparece em The Paradise, o frisson do público pelos personagens e pelo clima da história que acaba sendo usado comercialmente – foi o início de tudo), mas que foram derrotados pelo interesse da imprensa e pelo ego dos autores. Sou saudosista de boas novelas tanto quanto de um público mais… mais interessante, talvez? Felizmente, com livros, séries, seriados, filmes e novelas tão à mão hoje em dia, não sou saudosista de boas histórias. E sem conflito, nem os amores me parecem atraentes.

* in Como Funciona a Ficção, James Wood.

Moço Bonito

 

Tão bonito o moço

Porém de outra já é esposo

Tão alto e musculoso

Para o trabalho não muito disposto

 

Tão bonitos os olhos verdes

E já tem uma filha de quase dezesseis

Tão sedutor e sorridente

Mas tão mal no Português!

 

Tão bonitos são seus sonhos

E doces palavras as que ele diz

Depois dos dias risonhos

Sei que fará qualquer uma feliz

 

Nenhum crime é perfeito

Pouca coisa posso falar dos sentimentos. Do que vivi, muito sei; do que vi, mais ainda. O fogo se alastra, o gelo derrete. As estações não são mais as mesmas. Eu sei o que é isso. A cada ano nascem menos pessoas como nós. E os que são como nós a cada ano desaparecem em grande quantidade. Estamos perdendo o mundo para eles. Alguns ainda podem se salvar, e eu tenho apenas duas mãos. Pouca coisa posso falar dos sentimentos. Olho ali para o lado, olho para dentro. Não há mais tantos trens por aqui como antigamente. A miséria sobe o morro e a destruição segue além dele para onde a vista não alcança. Ano que vem, onde estarei? Nenhum crime é perfeito. Nenhum crime é perfeito. Eu preciso ir até eles. Adentrar naquilo que não me diz respeito e enterrá-los no peito para que venham até mim.

“O que fazer quando se está triste?” “Sorrir”

 

O menino fugiu de casa. Mas ele era muito novo.

Com o tempo, perdeu muito da vida. Com a perda da vida, perdeu muito de si mesmo.

Aí, não havia como voltar atrás. Mas, mesmo assim, foi. E indo se fez o pouco que havia para ser feito.

Num dia, encontrou outra casa – que não eram seus pais nem ele mesmo. Foi muito feliz por muito tempo.

A felicidade não acabou, porém se escondeu, ou foi esquecida. Sentiu-se triste, preferiu se deixar sozinho.

Escolheu fugir de novo. Fugiu de sua casa. Não fugiu de si mesmo porque aí não havia do que fugir.

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