Enquanto os bons se calam, falarei dos maus

É impossível obrigar alguém a amar outro. Impossível. Amar não lhe dá o direito de ser amado. Simples assim. Tantas são as artimanhas, os jogos, as falas, os anúncios que, porém, tentam ter para si o amor do ser supostamente amado.

Talvez eu quisesse falar do machismo. Talvez eu quisesse falar da violência. Ao pensar sobre o peso que é ser amado, eu chegaria fatalmente a ambos. Eu escrevi, ano retrasado, sobre preferir saber que se é amado. Pois não sei – e já naqueles tempos não me declarei, como, aliás, não tenho o costume de fazer. Declarar-se a alguém é colocar um peso, uma responsabilidade sobre o outro. Eu, porém, hoje sei que não sou em nada responsável, nem culpada, nem devo carregar como um fardo o fato de alguém ter se apaixonado por mim. Falei em culpa, sim, porque é como muitos tentam fazer com que o ser amado se sinta – e assim submeter-se àquele amor.

Eu fui conhecer o machismo a pouco tempo atrás, vendo em algumas famílias, em alguns relacionamentos. Na minha família eu não via isso. O senso de igualdade entre homens e mulheres, pra mim, sempre foi natural. Também não faz muito tempo eu conheci a violência que decorre do machismo – e do que alguns ignóbeis chamam de amor. Não, não pensem na obviedade da violência no sentido de agressão, tapa na cara, essas coisas. São agressões muito piores, são cicatrizes que perduram, são manipulações psicológicas mais profundas.

Eu não sei se algumas pessoas são tão maltratadas por aí que ao se deparar com alguém que as trate bem, com educação, cortesia, amizade, já desenvolvem um afeto imediato que costuma explodir num “estou apaixonado” inconsequente. Eu trato bem algumas pessoas, esporadicamente sou simpática, sou educada, gosto de ter amigos e são sempre especiais pra mim. Acontece que isso tudo é facilmente estragado por alguma declaração infeliz. E aí o cara se declara pra você e acha natural e obrigatório que você sinta exatamente o mesmo por ele – e normalmente não descansará enquanto isso não acontecer. Generalizar é a saída mais tranquila ao escrever, por isso posso dizer “os homens são assim”, sendo que há exceções (cada vez mais raras?) – mas enquanto a maioria ruim andar por aí a agir das piores maneiras, os poucos bons serão colocados na mesma classe.

Quando escrevi sobre o “declarar-se ou não, eis a questão” eu pensava justamente no peso absurdo que eu depositaria nos ombros do ser que eu amava. Pensava na situação, dele e minha, e em como eu complicaria tudo – no fim, nem precisei dizer porque, vejam só, há coisas que não precisam ser ditas. Se eu tivesse feito isso, teria rompido coisas tão boas. Teria perdido muito. Ah, Fahya, mas é um risco que se corre. Beleza, eu sou caxias, não corro riscos. Talvez as declarações só devam chegar às palavras quando já foram devidamente ditas de todas as outras formas. Tudo isso é fruto do meu romantismo, é claro. O que eu vejo acontecer não é bem assim.

Cedo descobri que declarar-se a um homem tem um efeito inerente a todos: massagear o ego. Me declarei somente para a primeira paixãozinha infantil. Depois nunca mais. Não sei o que fazem com a criação desses meninos que tornam-se homens tão idiotas. Meninos são criados – pelas mães, inclusive – para serem os melhores, os bons, os donos mandões de tudo, os machos, os predadores, os sedutores, os que conseguem tudo o que querem. Enquanto não temos educados nossas meninas para dizerem “não”, para terem noção das suas escolhas e dos seus desejos, consciência dos seus princípios e limites – mas elas andam por aí acreditando o contrário. E os meninos tornam-se rapazes e homens que seguem com a certeza que suas paixões, seus amores, tudo será imposto pela sua vontade. E as meninas estão aí apaixonadinhas sem nem saberem direito como e porque, submissas, violentadas de tantas formas, calando traumas que as perseguirão por toda vida. Ah, sim, sim, há mulheres ruins, que manipulam, seduzem, tornam-se carrascos dos seus homens, essas também não valem nada, eu sei – e são muitas. Mas falo aqui das maiorias, e também do que conheço por experiência – pois não posso falar do que não conheço.

Quando um homem se declara, queridas, ele quer tomar posse, quer que você ceda, quer encantá-la por ser amada. E só. Ele não se preocupa se você sente o mesmo ou sequer algo próximo, se você vai autorizar a corte (eu sei, eu sei, ninguém mais fala nisso, mas sou do século passado). Ele exige ser amado em igual ou maior intensidade. É o ego que fala mais alto. Ele a quer submissa. E se você for educada e desconversar, ir levando, desviando nos momentos mais íntimos e espinhosos e tal, chegará um momento em que as coisas sairão do controle. Em tudo ele verá algum jogo teu, algum interesse maior do que só um contato de amigo ou colega, e te culpará. Ah, ele te culpará! E você se sentirá culpada. Pensará em mil coisas que não deveria ter dito, que não deveria ter feito, nos convites descompromissados que não deveria ter feito – porque na cabeça doente dele, tudo isso queria dizer outra coisa. A mulher é criada para se sentir culpada. Eu sou culpada por colocar os peitos num decote. Culpada por colocar uma saia curta. Culpada por passar um batom vermelhão. Culpada por usar aquele salto que dá uma empinada na bunda. Sou culpada por ter uma conversa interessante. Culpada por querer bem sem olhar a quem. Culpada por ter uma risada gostosa. Aí, tudo o que a gente é e faz pesa na consciência e a gente fica mudando uma coisinha aqui, outra ali, só pra não se deparar com homens exigindo posses que não lhes são por direito.

E sinto dizer que muitos homens fazem de propósito com que a mulher se sinta culpada pelo que ela é, faz e usa. E nós, na maioria das vezes, não percebemos isso na hora. E assim vai se instalando a pior forma de violência: a psicológica. Eu, graças a Deus, nunca fui estuprada, que é a forma de violência física da posse. Mas desconfio que talvez as violências psicológicas sucessivas possam, a longo prazo, ser bem piores. A violência da perseguição – em meios virtuais e reais. A violência do uso da tua imagem – é ultrajante pensar no que homens fazem ao copiar ou ao olhar as tuas fotos nas redes sociais, ou fotos de perfis de páginas e tal. A violência que vai cerceando tua liberdade, tua espontaneidade no trato com as pessoas. Sim, porque por causa de uns muitos ruins, você acaba agindo com rispidez, se esquivando dos outros, impondo limites ao que faz, ao que fala, ao que publica – porque teme o mau uso que farão disso.

Eu já me cerceei muito no mundo real e no mundo virtual por causa das pessoas (e não são poucas) ruins com as quais já tropecei na vida. E isso me dá raiva. Já deixei de frequentar lugares, já deixei de sair em certas cidades, já deixei de fazer coisas que adorava, me policio absurdamente nas redes sociais e, sim, até aqui no blog. Meus traumas, minhas experiências ruins, é que foram me fazendo deixar de ser quem sou. E poucas coisas me irritam tanto. Infelizmente, na lista de pessoas que fazem com que eu restrinja minha liberdade, primeiro estão parentes (algumas das piores pessoas que conheci) e em segundo os homens. Não falo sobre o caso dos parentes. Mas sobre os homens eu quase sinto a obrigação de falar – sem parecer a recalcada, sozinha, infeliz porque não o sou. Vejo meninas tão imaturas já declarando amores eternos. Vejo meninas ali já submissas ao primeiro que lhe impôs suas vontades – e muitas jurarão até a morte que foi vontade delas também. É porque vejo pais e mães a reproduzirem o molde de educação do macho e da fêmea – porque, de fato, eles são assim e não vêem outras realidades. Falta educação sentimental e sexual, falta experiência e reflexão sobre os atos – seus e dos outros.

E as mulheres a suspirarem por qualquer um que lhe faz uma declaração. Por qualquer “te amo” por sms ou WhatsApp. A se sentirem desejadas por qualquer um que lhe envia a foto do pinto (sim, pinto, pênis é muito científico e pau é vulgar) por qualquer chat ou meio virtual. E, vejam bem, as estratégias de jogo desses homens e rapazes é tão igual, as curtidas nas fotos, adicionar em redes sociais, DMs, conversas sobre como somos perfeitos, ou já chegam junto se fazendo de gostosões porque você parece descolada e liberal. Pois “liberal” é um adjetivo que me segue há tempos (eu até queria ter agradecido direito ao que assim me chamou pela primeira vez) e poucos se referem a isso no sentido político – pois comigo ele é polivalente.

E não é só no mundo virtual. Já relatei aqui, é até numa biblioteca! Desscralizaram todos os espaços. E juro pra vocês que me interromper em certos momentos é um erro mortal – meus solitários banhos de mar, por exemplo. Porque as mulheres não são iguais – e isso é demais para as pobres cabeças masculinas que têm pouco alcance e usam as mesmíssimas estratégias repetidas vezes. Pois sou dessas que é amiga do tempo, que aprende cada vez mais com ele, que coleciona experiências como maior riqueza que qualquer poupança. E hoje não acredita que alguém possa ser conquistado – e nem afirmo que um dia tenha acreditado nisso. E, vejam só, homens e mulheres estão aí no jogo da conquista, casais são formados assim – como num cabo de guerra para ver quem cede primeiro. Sobre jogos, só tenho me interessado por xadrez – com uma xícara de chá durante um temporal.

Sobre os homens que não se encaixam nas vilezas sobre as quais discorri: são poucos e se calam diante das atrocidades que os seus colegas de gênero praticam diariamente. Se calam diante das inúmeras notícias de mulheres perseguidas, agredidas, assassinadas que vemos todos os dias – confesso que é das que mais acompanho. Não levantam a voz a condenar seus amigos. Há os homens que perseguem – vão até o trabalho dela, fingem que estavam passando na rua onde ela mora, a esperam na frente da escola/faculdade – uma mulher e a coagem. Há os que ferem as mulheres ao mandar conteúdo pornográfico, fotos e afins por meios digitais. Há os que manipulam os sentimentos tentando atraí-las com aquilo que elas gostam – filmes, bichos, crianças, jantares, passeios, presentes. E me dirão que há as mulheres que gostam disso tudo. Pois eu pergunto: gostam ou se calam? Gostam ou temem dizer não, bloquear, denunciar, fugir, pedir proteção?

Nós tememos. Nós temos vergonha de dizer o que acontece. Temos vergonha de dizer que nos sentimos indefesas diante dos abusos e das insistências – nada pior do que um homem insistente. Temos vergonha de recorrermos aos mais próximos, amigas e familiares, e expor o que muitos vão dizer que é nossa culpa – fomos nós que fomentamos aquele comportamento obsessivo, explorador, doentio, possessivo, tarado. Sim, muitos pensam assim. Me parece que o simples fato de ser mulher fomenta qualquer um desses comportamentos em muitos homens. Tememos a agressão física de dizer um não (vejam aí notícias de moças espancadas em baladas porque negaram um beijo) sem perceber que a violência psicológica contínua é muito pior. Tememos pela nossa vida. Quantas mulheres morrem, por ano, porque terminaram um relacionamento?

Sei que há graus maiores e menores dessas violências – mas chamo a atenção para o fato de que qualquer conversinha mais ousada num app pode chegar a crimes maiores. No momento que se rompe a primeira barreira, qualquer outra será de menor importância.

Digo e repito (e um dia escreverei sobre isso) que sou uma pessoa do século passado. Então dirão que todas essas minhas preocupações parecem antiquadas. Pois bem, elas derivam de relações e da educação, entre homens e mulheres, de séculos e séculos atrás. Talvez tenhamos até aumentado os meios de violência. E certeza que temos despreparado meninas e meninos para o mundo, temos nos calado, fazemos que não vemos o que acontece, lhes damos uma suposta liberdade.

Disse muito do que queria dizer. Faltaram algumas coisas que acabaram não se encaixando. Sobre relações entre homens e mulheres, cabe lembrar daquilo que toda criança pequena aprende: a pedir desculpa (queria escrever sobre isso, coisa mais rara de se ver por aí). Entre caminhadas pela praia, banhos de sol e de mar, leituras truncadas, observação do entorno (real e virtual) eu só decidi mesmo escrever sobre tudo isso (entre algumas situações bem pessoais) depois de assistir a Despues de Lucia – tão mais no cerne da questão do que todas essas minhas três páginas. A violência não tem sido pensada adequadamente – e, claro, não falo de murros na cara.

Instruções para o bem acordar

Pule da cama. Mas que seja antes do sol nascer. Contra todos os conselhos dos ortopedistas, pule num salto perfeito ou desajeitado, tanto faz, mas pule. Sorria. Veja que acordou cercado por quem ama – e que te ama também. Jogue o edredom para o lado. Dê os breves adeus matutinos. Vá até o jardim, mate um pernilongo. Ouça os sons aterradores do que se passa lá longe pois aqui nem os passarinhos acordaram. Num impulso – nada mais que um impulso – tire a camisola, coloque o primeiro vestido leve que você encontrar no escuro, pegue a câmera fotográfica e vá ver o sol nascer – tamborilando mentalmente aquele verso teu velho conhecido e protagonista de tantas risadas: “hoje eu acordei querendo ver o mar”. Caminhe com uma dose de ansiedade, não querendo perder a hora exata dele nascer, mas sem relógio, nem celular, nem app para dizer se você está atrasada. Saia sem lavar o rosto. O cabelo? Passe a mão de leve naquele redemoinho que você conhece bem e continue caminhando. Escova pra quê? A chave da casa na mão direita, a câmera no ombro – e nada além de um vestido e um chinelo de dedo. Sem escovar os dentes, é claro. Sem ter tomado aquele copo de água irrepreensível de todos os despertares. Caminhe pensando em nada, repare em como a rua principal está vazia, em como as luzes dos postes ainda estão acesas. Suba um morro, dois morros. Pense em coisas desconexas como quem folheia um livro do qual já sabe o enredo mas pouco interessam as cenas. Sinta o conforto das coisas que conhecemos tão bem e das quais nos afastamos por um tempo, só para voltar a vê-las todas no mesmo lugar e do mesmo jeito. E então pare lá no alto e… veja o mar. Sorria. Repare no quadro pronto, todos os elementos tão perfeitamente dispostos. Não é preciso muito, tire a câmera e fotografe. Por quê? Porque é preciso alimentar a alma. Trata-se disso: acorde e vá alimentar a alma, sem ter alimentado o corpo, nem a vaidade, nem os sentimentos, nem as tristezas, nem os remorsos. E porque você acredita que as coisas estarão sempre ali esperando por você, mas o mundo pode, em algum momento, não se importar com as coisas que lhe são caras. E aí, ao menos, você talvez tenha as fotografias para sorrir num dia distante. Deixe-se contemplar o mar calmo na maré alta, repare nos postes à beira-mar que não estavam ali da última vez, sorria para aquela ponta com pedras onde você sempre foi feliz, estenda o olhar para aqueles morros ao longo de quilômetros, morros e mar, que fazem parte da tua vida. Todo aquele mundo é seu – sendo você dele. “Eu vim correndo na frente do sol” mas não pare ali a rever a vida inteira. Jogue a vida inteira do alto do morro naquele mar que de tão manso, certeza tão traiçoeiro. Desça uns degraus e sente. Agora perceba aquilo que não é óbvio no quadro. Busque o que outros olhos não veriam. Repare nas cores. Ah! As cores! As cores recém-descobertas dos amanheceres. De toda vida, pense somente no ano que findou há pouco, quando você viu mais o sol nascer do que se pôr. A amante do pôr-do-sol agora o trai com o nascer. E vivem todos felizes. Sorria ao ver aqueles barcos de pesca a cruzarem lentamente o mar, divirta-se com a idéia de pedir a um deles que te leve lá longe para ver mais de perto o sol, algum dia, nascer. Se não fosse hoje, você xingaria o fio de luz dos novos postes que agora te atrapalham as boas fotografias. Mas, hoje, você vai fotografar aquele passarinho com a minhoca de café-da-manhã contra o vermelhão de um sol que começa a gritar. Busque, sempre, aquilo que parece estar oculto aos olhos, aquilo que olhos ligeiros nunca veriam, aquilo que quem ali passa todo dia jamais teria percebido. Descubra como olhar o que qualquer um diria que é tão belo. Cartões de memória gigantes são para isso. Sentada ali no degrau, frisa fresca, mato alto, mar ao pés. Sorria. E então fotografe cada segundo do sol que se anuncia. Não há nada tão belo que não possa ficar ainda mais. A beleza da natureza é a única que sempre se supera. O sol veio, as nuvens protagonizaram belezas sem fim, o mar nunca lhe deixará viver sem ele. Sorria. E caminhe de volta cumprimentando os quatro gatos da senhora que mora na casa branca com azul. Desça os morros, abra o portão, deite-se e fique a pensar naquele amor que foi tão lindo e acabou-se – e em como fazia tanto tempo que você não pensava nele – no frescor que entra pela veneziana, em como os peludos dormem tranquilamente na cama ao lado. Pense na vida, coisa boa ou ruim, pouco importa pois um sono leve lhe toma e os sonhos desencontrados de nada valerão. Alimente os desejos do corpo – sempre depois dos da alma. Levante de novo! Deixe a cama desarrumada, abra portas, janelas, solte os peludos, sorria, coloque a gaiola para fora. Sorria ao ver o varal cheio de roupas encharcadas – pois você saiu ontem à noite e deixou-as ao léu, e voltou só depois do temporal. Lembre como o céu tem te dado tantas belezas. Coloque um disco na vitrola. Faça um nescau gelado – alimentar o corpo, nunca esqueça. Deixa a lata fora do armário, deixe as portas dos armários abertas. Passe as fotos para o computador e por onde for passando deixe tudo fora do lugar: a escrivaninha, o sofá – aquele que você, em qualquer outro dia, aos berros xinga quem deixou desarrumado – a mesa da cozinha, os quartos alheios, o banheiro. Não coloque nada no lugar! Enquanto isso, pense no que você teria para fazer hoje e, sorrindo, decida deixar tudo para amanhã. Tudo! Invente coisas para fazer hoje – mas só aquelas que você não precisa ou nem deve fazer. Liste: fazer alguma receita com o siri da geladeira, mandar uma mensagem avisando que aqueles filmes que queremos assistir acabaram de chegar – que as coisas feitas em companhia têm um gosto diferente -, lembrar de baixar os episódios do Poirot, trocar o colchão, ir à praia à tarde, telefonar para quem precisa ouvir tua voz hoje. Desista de pensar nas pessoas ruins: hoje nada vai lhe apagar o sorriso do rosto que, você reparou agora no espelho, tem o traçado da boca um pouco torto. Não faça nada pela manhã, deixe tudo para o resto do dia. Jogue umas roupas na máquina, deixe as molhadas no varal, sim, de propósito, observe os peludos, dê um galho verde para o passarinho, coloque a rede na varanda, procure a sombra. E sorria. Veja qual o santo do dia, qual o melhor dia da semana para pescar. Pegue o livro de receitas daquele cozinheiro que você é fã, sente onde o vento bate mais forte. Sorria. E deixe a vida vir como quem foi ver o mar.

Sonhos de Miss Potter: aos leitores

 

Um dia desses li um texto politiqueiro totalmente ausente de qualidade, desses que publicam em blogs coletivos regionais, e nos comentários um leitor fazia boas considerações sobre a precariedade da falta de argumentos do autor. Eis que, na resposta deste ao comentário, ele não se ateve ao conteúdo do que foi dito, mas dizia que tinha visto o perfil do leitor no Facebook e que surpreendeu-se ao ver que era um jovem e não um aposentado reaça (ou algo assim) com tempo para escrever bobagens. O autor do texto é pessoa que nem merece mais meus comentários, as atitudes dele falam por si. Porém, na sequência, o autor dizia que este ou aquele leitor deveria ler um livro – no sentido de, imagino eu, insultá-lo.

Tentei encontrar algum jeito de começar este texto. Foi difícil. Nem acho que este exemplo foi o melhor. Tenho me deparado com tanta gente ignóbil que usá-las como exemplo é uma tentação. Mas, enfim, é disto que quero falar: livros.

Ler livros não te faz uma pessoa melhor, nem mais inteligente, ou mesmo culta (sábia, então, nem cogitemos). Frases feitas que dizem isto ou que viajar te faz uma pessoa melhor são mais vazias do que um balão – pois este ainda tem ar. Conheço pessoas que já viajaram o mundo e como pessoas são as mais horripilantes. Conheço (ainda mais) pessoas que já leram muito – e muito – e são algumas das piores do mundo. Então, a falha no argumento “vá ler” é evidente e auspiciosa. Porque o contrário também é fato: há pessoas inteligentes, sábias, bondosas que nunca leram um único livro – muitos, inclusive, por nem terem acesso.

Eu não gosto da arrogância esnobe de quem “lê” e exibe isso para mostrar-se superior aos outros. Já considerei uma qualidade a pessoa ler, hoje a coloco em categorias: “lê mas é um pedante”, “lê mas é burro feito uma porta”, “lê mas é só para postar no Facebook”, “lê por algum suspeito complexo de inferioridade”, tem categoria de todo tipo.

Mas, vejam só, muita gente lê. Gente de todo tipo. Gente que lê livros de todo tipo. Ano passado me deparei com algumas situações que foram o estopim para esta reflexão. Entre grupos de aspirantes a escritores (não esqueçam do “aspirantes” pois eles mesmos com qualquer oficina ou curso já se intitulam “escritores”) é tão comum ouvir que há mais gente que escreve do que gente que lê – como, ó, uma dor do ofício num mundo tão ignorante. De fato, há muita gente que escreve – ainda bem, não? Qualquer um pode escrever, qualquer um pode publicar. Ainda bem. Mas na questão dos números acredito que precisaríamos de dados mais precisos, um cálculo de quantos escritores existem, quantos livros são vendidos, quantas pessoas lêem, essas coisas. Como já é sabido, desfiz minha amizade com os números, mas seria uma pesquisa interessante.

Entre escritores, pseudo-escritores, aspirantes a escritores, alunos e professores de Letras e todo esse pessoal da área, infelizmente há muitos preconceitos, esnobismos e narizes torcidos. Talvez o pior deles é achar que literatura (no caso) só interessa a entendidos. Dentistas, médicos, engenheiros, analistas de sistemas, donas de casa, policiais, balconistas, economistas, jardineiros, lêem, se interessam, gostam e, sim, entendem de literatura. Subestimar os leitores é uma fraqueza de caráter que pouco se vê em outras profissões.

Eu quero escrever. Não sou escritora. Talvez, um dia. Eu sou leitora. Deixei de lado os trabalhos em audiovisual porque tropecei em péssimos colegas de profissão e como é um trabalho coletivo a coisa não deu muito certo. Sempre apreciei o trabalho solitário do escritor – qualquer trabalho solitário me agrada mais. Sempre apreciei a prática solitária da leitura. Não levo jeito com as pessoas (tenho bons motivos). Me meti a estudar a arte da escrita e foi uma aventura – literalmente em alguns momentos. Mas conhecer alguns escritores e aspirantes a tal foi nefasto. Não me sinto solitária, porém, na crítica. Escritor também é dessas profissões que podem agregar prestígio e fama, aí já viu, né.

Sobre a crítica e o glamour da profissão, em 2014 surgiram algumas vozes dissonantes. Para ser escritor hoje você precisa ser uma estrela, uma pessoa famosa, fazer participações brilhantes e teatrais em feiras de livro, precisa tirar selfies com fãs, etc.. Não basta escrever, é preciso atuar no mundo real. É preciso ser descolado, claro – hoje em dia todos precisam, não? Também vimos escritores reclamando que o ganha pão vem de escrever para jornal, escrever textos encomendados, viver da miséria dos cachês de participação em feiras e eventos. Escrever não dá dinheiro – afirmação duvidosa. Ou se você ganha dinheiro é porque escreve coisas populares – vulgo, ruins.

Entre meus estudos me deparei com este problema: a literatura se coloca (é colocada, obviamente) sobre todas as outras artes, é-lhes superior. O texto escrito é, ainda, elitizado. Por mais que estudos (dentro das universidades, na quase totalidade, infelizmente) tentem desmistificá-la, popularmente ainda é assim. Para ficar mais breve e claro, para apreciar música é só preciso ouvir, para apreciar artes visuais é só preciso ver. Em primeiro lugar, ser alfabetizado ainda não é para qualquer um,  interpretação de texto, coesão e coerência e essas coisas todas, precisam ser ensinadas. O acesso às artes determina muita coisa.

Minha relação com os livros nunca foi de amante, muito menos possessiva. Quando criança eu lia porque gostava, porque passava o tempo, porque eu ficava sozinha. Meus pais nunca leram pra mim, nunca fui obrigada a ler livro algum. Foram, porém, marcantes a prateleira de livros da minha mãe e as coleções da Barsa dela e da minha avó. Na Barsa fiz muita pesquisa escolar, descobri muita coisa do mundo. Por muitos anos eu ia todo dia na biblioteca da escola, pegava dois livros infanto-juvenis, lia na mesma tarde e devolvia no dia seguinte para pegar outros dois. Logo vieram os romances (quando a escola liberou o resto da biblioteca pra minha idade), os contos, Sherlock Holmes, Agatha Christie (da prateleira do pai), literatura brasileira (de trechos de textos que eu encontrava nos livros didáticos de português e anotava os autores) e tudo mais. Sim, tudo. No ensino médio comecei a ler Filosofia porque encontrei a edição Os Pensadores em casa. Na época eu frequentava quase que diariamente a biblioteca pública de Joinville, onde me apaixonei por Fernando Pessoa, Stanislaw Ponte Preta, Nelson Rodrigues, Gabriel Garcia Márquez. Ia muito ao sebo Colin, mas dinheiro era coisa que eu não tinha. Qualquer trocado que eu conseguia corria pra lá procurar alguma coisa e foi assim que descobri uma das minhas paixões literárias: os best-sellers românticos e romances de banca de revista (Harlequin, Bianca, Julia, e essas delícias todas). No sebo tinha uma bancada de “Um real” que me atraía pelo valor, é claro. E aí eu catava alguma coisa lá. Se é literatura boa ou ruim? Pouco me importa. Tem dias que é só do que preciso. Até a graduação eu lia muito. Durante os cinco excruciantes anos de graduação eu li muito menos do que queria das coisas que gostava, mas li muita coisa por obrigação que foram proveitosas – outras nem tanto. Talvez eu tenha ficado mais chata para a leitura. Tive crises de não querer ler nada, de não achar nada interessante. A ficção, então, foi quase deixada de lado. Desde então tive períodos de não ler praticamente nada. E volta e meia surge um romance qualquer, um clássico qualquer, um livro de contos despretensiosos qualquer que me faz ficar ali docemente quietinha e encantada por algumas horas.

Minha história como leitora é igual a de muita gente. Mas não me confundam com esses que gozam prazeres como o “cheiro das páginas” ou a “capa sublime da Cosac&Naify” – cheiro de livro pra mim é cheiro de mofado, guardado e velho. Não. Eu amo a LP&M pockets, a Martin Claret foi uma mão na roda em vários momentos. Foi na graduação que comecei a sentir o cheiro esnobe dos adoradores de livros. Comentários sobre editoras, edições, capas e blábláblá. Eu não dava bola nenhuma pra isso – se tentei dar, felizmente passou. O que importa num livro? O que ele nos diz. Por isso hoje leio até num Kindle.

Sim, aderi aos livros digitais (com atraso, pois um Kindle durante o mestrado teria sido um anjo). Por quê? Porque é mais leve de carregar na bolsa (em 2014 eu mal desfiz mala e bolsa), porque tem muita – mas muita – coisa disponível de graça em digital (até aqueles que a gente não encontra em lugar nenhum) e nem ocupa espaço nas prateleiras. É uma delícia. Tanto quanto qualquer livro de papel. Sem frescura.

No final do ano eu ia participar de uma antologia de aspirantes a escritores (alguns já se intitulavam tal…). Me desgostou muito ver que o esnobismo estava presente. O que interessava? Uma edição primorosa. E só. E para isso, claro, pagaríamos caro. Não participei, é claro. Queriam uma edição à la Cosac e o que importava mesmo era a divulgação, que fossem enviados cerca de quarenta exemplares para jornalistas, críticos e afins com folders e tal. Afinal, eu iria participar de uma antologia para ter meu nome num jornal e um lançamento com comes e bebes fantástico ou para que as pessoas – pessoas – lessem minhas histórias? Senti que meus princípios e meus interesses divergiam do grupo. Como sempre.

Foi pouco depois disso que me deparei com um filme doce e interessante. Miss Potter, com a Renée Zellweger. Não sei se o comentário é pouco modesto, mas me vi muito na personagem/escritora. Além da posição dela como mulher da época (o fantasma que anda grudado nela é hilário, única coisa que nós mulheres não temos mais hoje, o resto é a mesma situação social, apesar de quererem que acreditemos no contrário), duas coisas me marcaram. Logo no início ela diz “o bom de começar uma história é que você nunca sabe onde ela vai te levar” (algo assim, vocês sabem como sou para citações). E é exatamente como me sinto quando escrevo – feliz e encarando uma aventura que eu não sei onde irá me levar. Ou seja, de nada serviram as aulas, as leituras e toda a teoria que diz que devo ter tudo programado e previsto sobre personagens, conflitos e tal. O outro ponto foi o que ela afirmou ao fechar o contrato para ser publicada: o preço. Deveriam ser baratos para que qualquer um pudesse comprar. Senti um aperto no peito durante o filme. É isso. O acesso. Qualquer um deve poder ter acesso. Para vocês terem uma idéia, a tal antologia da qual não participei sairia por trinta e dois reais (entre 120 e 160 páginas). Trinta e dois! Perto do natal entrei numa rede de livrarias e os mais vendidos (o novo da Fernanda Torres, algum John Green e tal) estavam por trinta e nove reais. A julgar que vivemos num país que tem vale-cultura a cinquenta reais e salário mínimo de setecentos e oitenta… sem contar a ausência de bibliotecas nas pequenas, médias e grandes cidades que poderiam suprir a demanda de quem não tem dinheiro para comprar livros.

Simpatizei muito com Miss Potter. A relação com a família que não reconhece o seu trabalho, o apaixonar-se por homens que admirem e consigam entender o que ela faz (isso é essencial), o pouco importar-se com as regras e blábláblás, o processo criativo, a preocupação da acessibilidade aos livros, o descaso com o dinheiro. Assistir ao filme me deu um suspiro alentador no final de um ano e tanto – e muito dedicado à escrita.

Sobre o acesso: o que importa é ler, o resto é esnobismo. Há quem viva bem sem ler. Há quem não viva sem ler – como um querido que me confidenciou que ficava mal se não lesse um pouco, ao menos, por dia (menos aos sábados por questão religiosa). Mas tenham certeza que ler, só por isso, não faz de ninguém melhor – alguns só ficam mais esnobes, pretensiosos, arrogantes, pedantes, ignorantes. Eu gosto de ler (amo meu gosto bagaceiro) e gosto de quem gosta de ler despretensiosamente. Às vezes é difícil ler um clássico, tenha cem ou quinhentas páginas. Às vezes é difícil entender porque tal livro ou autor é tão falado e elogiado e pra gente ele não diz nada. É o gosto subjetivo kantiano, não precisamos desesperar. Cada um gosta do que lhe causa prazer! E mesmo a literatura se pretendendo tão superior, a relação se dá do mesmo jeito.

Podemos ter centenas de títulos em abarrotadas prateleiras ou livro nenhum em casa e frequentarmos bibliotecas. Isso não diz nada sobre nós. Vira notícia quando descobrem que Marilyn Monroe tinha clássicos nas suas prateleiras, eis o que o mundo nos proporciona. O livro que me reabilitou depois das muitas leituras específicas do mestrado foi o Corta pra Mim, do Marcelo Rezende. Dizem que isso depõe contra a minha pessoa. Diria um outro querido que “clássico é o que fica” e as emoções que sentimos diante de uma história que lemos ficam, então é um dos nossos clássicos. E as prateleiras não estão em nenhuma sala ou quarto.

Agradeço às conversas que acrescentaram muito a essas reflexões. Agradeço às pessoas que me fizeram, no bom e no mau sentido, a ver as coisas de outro modo neste último ano. Agradeço aos leitores, meus e de outros textos, pois somos mais especiais como leitores do que como escritores.

(seguem links que li e me fizeram pensar nisso tudo e muito mais; sobre as perguntas do Michel Laub, caso um dia eu seja escritora, vou adorar responder qual o meu signo!)

http://oglobo.globo.com/cultura/livros/diario-de-um-viajante-contrariado-13540191

http://oglobo.globo.com/cultura/livros/andre-santanna-as-coisas-nao-sao-bem-assim-13541352

http://www.peterrabbit.com/en/beatrix_potter/beatrixs_life

http://elpais.com/elpais/2014/11/17/eps/1416222276_076944.html

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/michellaub/2014/12/1564329-perguntas-ao-escritor.shtml

Sem motivo

Quem dera fosse o espírito natalino. Quem dera fosse um peso na consciência sobre, sei lá, qualquer coisa. Quem dera fosse uma lista das últimas aventuras. Quem dera o motivo para escrever hoje fosse qualquer coisa boa que deixasse as pessoas de cara (ainda usam a expressão ou sou muito antiquada?) como a minha vida é fascinante.

Pois isso nunca desejei. Pois faz tempo guardo minha vida a sete chaves porque, bem, as pessoas não têm bons sentimentos. Pois depois de mais de mês volto a escrever aqui sem motivo algum.

Esses dias me peguei apreensiva e um tanto triste ao me deparar com escolhas alheias. Disse cá pra mim que eu preciso – com urgência – parar de ficar assim, pois as escolhas são dos outros. E nem afetam minha vida. Mas digo-lhes que minha experiência e meus pensamentos me impedem. Vejo as pessoas fazerem certas coisas e, oh, Lord, fico muito apreensiva. Pelas dificuldades que enfrentarão, porque não estavam sob juízo perfeito ao tomar certas decisões, porque seguem a boiada e não refletem. Sim, sim, quanta arrogância, certo?

E aí cheguei a duas conclusões quase epifânicas. Sou arrogante. Desconfio disso faz tempo demais. Eu não só pareço arrogante, eu sou. Aparentemente, lido bem com tal defeito. A arrogância de achar que sei mais que os outros – é o principal sintoma. Decorre, claro está, de uma velhice precoce que a vida, esta querida, me impôs. A gente fica velho antes da hora porque a vida antecipa uns capítulos e aí pula outros, fica uma loucura, e a cabeça, ah! a cabeça tem que dar jeito em tudo – os que dão jeito, envelhecem, os que não, perecem pelo caminho. Não pereci. Não tombei. Não ganhei todas as batalhas, mas sobrevivi. E aí, nessas guerras da vida, eu aprendi que o grande trunfo de todos os vencedores é saber quando retroceder. Calma, este é outro assunto.

A segunda, então, foi mais acachapante. Foi do nada que me dei conta. Estava pensando em uma situação (vida alheia com a qual não tenho nada a ver) e me ouvi (cá com meus botões) dizendo resignada “que sejam felizes”. É uma expressão que eu uso porque, afinal de contas, é só o que importa na vida – e não importa o jeito que ela estiver, dá pra ser feliz. No momento que eu disse isso me ocorreu uma lembrança. Eu digo isso já faz um tempo e nunca havia dito em situações iguais a qual me referi desta vez – não irei, de jeito nenhum, revelar qual era a tal situação. Meu normal é criticar, meter o pau, partir pra arrogância de achar que quem está na situação está fazendo uma grande burrada sem perceber. E, desta vez, só me saí com o “sejam felizes”. Porém, na mesma situação, com outras vidas alheias, uma pessoa que eu conheço sempre disse “sejam felizes”. Eis que esta pessoa sempre demonstrou uma sabedoria que eu, do alto da minha querida arrogância, nunca percebi.

Esta pessoa é daquelas que nunca deseja o mal a ninguém, que nunca fez mal a ninguém, que nunca me deixou nem de brincadeira falar algo de ruim pra quem quer que fosse. (ps: as pessoas, porém, em quase nada retribuíram isso, viu) A tal situação, evidentemente ruim para as pessoas envolvidas, em nada pode ser mudada por mim – portanto, só me resta, sabiamente, desejar que, dentre tudo de ruim que elas vão enfrentar, consigam de algum jeito ser feliz.

Mandar à merda é uma expressão que eu guardo com zelo (desculpem aí a baixeza). Uso-a muito de vez em quando e só em momentos de extraordinário descontrole. Mas, vejam só, diante de uma situação, eu olho ou penso na pessoa e chego à conclusão que a pessoa já está na merda, com uma vida de merda, num relacionamento de merda (ou na merda por estar sem um), faz escolhas de merda, num emprego de merda – mandar à merda não faz sentido, e não desejo nada, nem de bom nem de ruim, à pessoa. Ao contrário do caso acima, no qual eu desejo que encontrem pelo menos algo de bom, aqui me é indiferente.

E esta era a falta de motivo. Sinto um cansaço enorme das mesmas coisas que vejo todos os dias. Vocês aí publicando como são felizes, comemorando sempre as mesmas coisas, divulgando coisas que vocês acham que vão salvar o mundo e o planeta, se entupindo de frases de efeito e de auto-ajuda – tudo regado com muita foto desfocada e imagens fofinhas. Ah, sim, é fim de ano, então abundam, também, as fotos-comprovantes de que agora, só por agora, vocês foram lá fazer uma boa ação por alguém (invariavelmente crianças ou animais – cachorros e, no máximo, gatos). Sei lá se é pra chegar dia 31 com a consciência limpa ou porque é o espaço que há antes das fotos na praia e na piscina. Enquanto isso, passam o ano todo desejando – mesmo que só no pensamento – coisas ruins a torto e a direito.

Não comentei que um dos motivos de tamanha arrogância é que sempre fui muito crítica – antes mesmo de eu saber o que era isso. Ficava matutando demais sobre as coisas, é sempre horrível. As professoras da escola odiavam meu alto índice de críticas, meu pai vive apavorado com isso, não há homem que resista. Eu gosto de críticas. Vivo bem com elas. E adotei a prática da auto-crítica (não foi conselho de psicólogo). Sou carrasco de mim. Claro, não espero que todo mundo seja assim, mas, convenhamos, como faltam pessoas que pratiquem a auto-crítica! Faltam espelhos para tanto ego inflado. São esses que só vêem o mundo, não conseguem se ver nele. Junto à arrogância vem um brinde: o desprezo.

Vou cantar aquela música do tédio com um T bem grande pra vocês agora que as vidas alheias me despertam muito mais desprezo (e, em certos casos, nojo). Enquanto isso, os inocentes vítimas dos amores de alcova, os heróicos desbravadores dos caminhos tortuosos, os honrados homens e mulheres que não mancham suas escolhas, os ingênuos de corações aflitos, os que têm fé e os que acreditam em algo ou alguém terão o direito de ser feliz, entre uma tempestade e outra, e desejo que não percam as coisas boas que trazem no coração.

Não quis nenhum motivo para escrever e juro que não economizei na arrogância.

De onde a chuva me faz refém dos meus sonhos e pesadelos

A Stendhal, Tchecov e ao leitor (des)conhecido:

Esses dias fui tomada pela ânsia de dizer a você, Stendhal, como os 28 fazem diferença. Como é tão diferente amar aos 16 do que amar aos 28. Dias depois voltei ao começo: já terei amado? Alguém tão leviana, impulsiva, apaixonada, pode amar? Não sei. Estive, sim, ocupada com mil compromissos e problemas, cheguei às raias da rispidez e extrapolei a impaciência – e, por vezes, me peguei pensando, nos breves minutos que meus olhos permaneciam abertos quando deitava minha cabeça no travesseiro, nos porquês do coração. Devo lhe dizer, caro amigo, que aprendi mais com você do que com meus raros relacionamentos. Pensamos tão igual sobre o amor! Pretensão minha, é claro. Você é um estudioso, teórico e praticante do tema e eu… eu não chego a ser simples iniciante – quando muito. Deveria escrever ao Goethe, também, para pôr um fim a minha obsessão por ele – e por tentar recontar a história do nosso amado Werther, se não com Charlotte, enfim, na vida. E é aí que entra meu amantíssimo Tchecov, pois ficar só falando de mim seria mais que enfadonho. Tchecov apaixonou-me em poucas linhas. Tchecov falava da vida de um jeito… como a vida é. Lembro de ter passado algumas horas com ele, em longas noites na varanda, com nós na garganta. Nunca fiquei tanto tempo imersa nas histórias – nem antes de conhecê-lo, nem depois. Em Tchecov não havia finais. Mas havia ponto final para todas as histórias. E eu chegava ali no ponto final, me sentia mal, abraçava o livro e olhava para algum lugar no meio do nada. Um dia, pouco tempo depois, supus, novamente, estar apaixonada. Eu que sempre dissera “não perder tempo” com essas coisas. Estava lá pensando demais em uma pessoa, sendo conquistada por longas conversas. Mas… havia algo que eu não sabia dizer. Quando encontrei-o pessoalmente, emprestei o livro do Tchecov – não é um hábito meu emprestar livros, que fique claro, mas o ato em si queria demonstrar algo sem nem mesmo eu saber. Descobri tarde demais que meus atos sempre querem dizer algo – que normalmente eu desconheço. Acredito que o livro fez diferença para ele, e eu pude discorrer horas seguidas numa euforia entusiástica sobre minhas teorias. Se foi amor? Não sei. Já tinha pra mim, desde aquela época, que se é amor dura, e se não dura é porque não foi amor – outras influências, eu sei. Hoje talvez eu pense diferente. Sim, amigos, eu mudo minhas idéias, concepções e teorias. Mas, infelizmente, em algumas coisas eu não mudei nada… nada. E até acredito que é isso que me faz escrever hoje. Voltando à história, o amor acabou, o amor virou alguma espécie de violência obsessiva da parte dele, de indiferença da minha parte e… ele usou Tchecov contra mim! Eu deveria, portanto, nunca mais indicar meus gostos, preferências, leituras e músicas, para que não pudessem, em algum momento, usá-las contra mim. Não é mesmo? Mas sou péssima aluna da vida. Tanto tempo se passou e vi Tchecov com outros olhos por questões profissionais e de estudo. De resto, nada mudou. Suas histórias, Tchecov, não têm finais… mas têm, sempre, o último ponto final. Como já disse tanto, eu gosto dos fins, gosto de pôr o ponto final no seu devido lugar. Porém, ninguém nunca me ouviu falar que eu sei fazer isso bem, ou que não dói, ou… que, sei lá. A carta começa a parecer meio vaga, não? Imaginem minha pretensão de escrever tanta bobagem para dois mestres das letras e da vida. Pois, saibam, que a regra sobre não escrever quando se está confusa é muito válida – e eu deveria usá-la mais.

Não sei se já amei – não sei se amo. Poderia partir para o clichê “mas sinto tanto!”. Sinto, é verdade, o que não pode ser traduzido em palavras. Confesso só para vocês que as possibilidades de manipulação pela escrita me assustam deveras. Palavras nunca são sinceras. Palavras nunca dizem tudo. Vejam só, quero viver da escrita e não confio nas palavras. Podemos, então, partir para os meus defeitos. Não confio. Algo, lá atrás, quebrou minha confiança – não em algo ou alguém, mas o sentimento de confiança – e eu nunca consegui reavê-la. E quanta dor isso me causa – só eu sei. Às vezes, eu só queria confiar um pouco que fosse… em mim, no que eu faço, em alguém, em alguma coisa. Não consigo. Eis a causa de tantos dissabores e atitudes infelizes da minha parte. Sou apaixonada, e paixão nós sabemos como é. A paixão destrói. A paixão consome. A paixão possui. A paixão não constrói um lar, não dá de comer, não tem um longo caminho pela frente. Eu sei, eu sei… me desculpe pelo resumo tão pobre, Stendhal. Mas, veja só, se os 28 já chegaram, por que a paixão não foi embora? Por que atraio justo por aquilo que mais me afasta das pessoas? Quis escrever, dias atrás, para dizer que eu desconfiava que tinha mudado. Que eu sabia ser mais despojada da minha imaginação traiçoeira, que eu havia me desapegado das exigências, que eu não era, imaginem!, mais tão sanguessuga. Eis que nada mudou. Eis que devo só amargar (sim, eis a exatidão) meus desalentos, minhas atitudes impensadas e, ah!, minhas frustrações. Não conheço ninguém que seja tão débil a lidar com elas como eu. Nunca quis que me prometessem a lua ou coisa que o valha, acharia até meio meloso. As frustrações vêm da falta que os gestos podem fazer – pois só eles dizem tudo o que palavra alguma poderia. Os gestos! Ah, Stendhal, me diverti tanto com suas histórias! O que o amor – ou qualquer das suas dúvidas – nos faz fazer! Ah, Tchecov… o amor nunca tem final. Lembrei de ti justamente porque pensei que você adoraria o site dos 140 caracteres. Imaginei-te um gênio dos começos, meios e finais em tão poucas letras e espaços. Pois é por uma dessas que você é tão comentado e estudado. Quantos amores começam e terminam em 140 caracteres? Nas suas mãos, muitos. Na vida? Ah, a vida tem lá suas complicações. Ou, como diria um ex-leitor meu, nós é que a complicamos. Sem fins, estou certa, se não complicam, pelo menos ficam muito complexas. Demais, até, para alguém como eu. Admiro as pessoas resolutas, as que sabem o que querem, as que tomam as rédeas dos próprios sentimentos, as que resolvem suas frustrações com o suicídio. Admiro-as, sinceramente. Já tentei ser assim, sabiam? Fracassei. Sou um fracasso até para querer dizer o que (acho) que sinto. Porque não acredito que alguém pense que as idéias, o trabalho, os estudos tomem todo o meu tempo. Jamais. Como diria uma (que eu acho que ainda é) amiga, sou zen só na superfície, por dentro sou mar revolto. E a tempestade não passa.

Os 28 fizeram diferença em eu me dispor a voltar a… amar. Porque sou sempre pega de surpresa e, como lema leminskiano, tenho esse pacto com o Destino, o que pintar eu assino. Talvez eles tenham apenas me ajudado a abrir os olhos e perceber que só coleciono fracassos. Sobre aquele que eu emprestei o teu livro, Tchecov, quando eu não sabia o que sentia (apesar de desconfiar que sentia algo) eu me disse várias vezes “se não for um grande erro, será o maior acerto”. Porque eu já tinha a convicção de que amar não era coisa pra mim. E não é, né? Só se eu fosse muito estúpida para continuar tentando e prejudicando os outros. Não há “maior acerto”. E sobre os erros, “grande” deve ser pouco. Eu sei que prejudiquei e até fiz mal (dentre os voluntários e involuntários) a certas pessoas. Sei que é isso que pensam de mim e o que sentem. É que poucas pessoas têm um instinto de auto-preservação tão alerta quanto o meu. Ou, até, poucas pessoas querem tanto aprender o que é amar – e, de fato, não conheço ninguém que tenha a confiança quebrada para sempre. Vocês devem conhecer o Glauber, outro amigo meu, e numa madrugada tensa e difícil ele me fez companhia. Numa carta que ele escreveu a alguém (não lembro, sou péssima nessas coisas) também tomei a pretensão de ver meus pensamentos na cabeça dele. Dizia ele “vou estudar, escrever e namorar” – e, pensei, quero mais da vida? E aí ele passava as seis linhas seguintes comentando que não era nenhum Apolo ou Don Juan (repararam nas nossas semelhanças?), e entre as três coisas, namorar é o mais difícil para alguém tímido, que não goste de “mocinhas frívolas”, que prefira as cultas e inteligentes e despreze os flertes baratos e passageiros. Me digam se não saltei da cadeira numa euforia assustadora e gritei pra mim: é isso, é isso! Por fim, ele diz querer amar como no século passado “romance ardente e perigoso”. Seria o amor algo tão sem graça e sem perigos? Eis nossa falta de comunhão?

O que me falta de amor, transborda da companhia de vocês. Eu tento ser uma aluna aplicada – só aqui na teoria. Eu espero do amor tudo aquilo que parece não ser da alçada dele. Só me resta não machucar mais ninguém. Eu, me machucar? Ah, posso não ter aprendido muita coisa nessa vida, mas quanto a lidar com minhas dores eu me viro. E agora quero encerrar pois não disse nada e quero dizer, ainda, tanta coisa… só sei, queridos, que finais sem fins me deixam desnorteada. Só sei que minhas atitudes não têm sido boas. E faço com a vida, no momento, o que fazia com os contos do Tchecov: abraço-a e fico com o olhar perdido no nada.

De onde a chuva me faz refém dos meus sonhos e pesadelos, daquela varanda nossa conhecida, de quem desconfia do mundo e das palavras, Fahya.

Sobre sacramentos e A Razão

Finda a apuração do primeiro turno das eleições para presidente, no domingo, fomos tomados por um clima nada ameno no mundo virtual. Como tenho reparado, o mundo real – com o qual sempre tive uma relação difícil – anda bem mais agradável do que o virtual. Foi questão de segundos para começar uma enxurrada de podridões de ambos os lados – posto que foi decidido que há lados na politicagem, segundo os ingênuos eleitores. Contudo, não escrevo hoje para falar de campanha e eleições. Quero apenas comentar o que, dentre toda a falta de argumentos que tenho observado, me chamou a atenção.

Uma pessoa, considerava amiga até, postou vários posts contra um dos candidatos (ela que mal aparece no Facebook) com insultos e uma agressividade que me assustou. A base dos textos era a ignorância e a falta de razão (no sentido de raciocínio, não de “estar com a razão”) do outro, um “o que você, que vota em fulano, tem na cabeça”, ou “quem pensa, quem tem o mínimo disso ou daquilo não vota em fulano”. Naquele momento fiquei de fato surpresa. Então eu, que não tinha votado na mesma pessoa que ela, era irracional, burra, estúpida. E não é que isto foi e tem sido usado por ambos os “lados” desde então? Mais ou menos assim: você vota em quem eu voto, então você é inteligente, pensa, percebe as coisas do mundo e é um poço de boas informações; se não, você é burro, mal-informado, idiota, cego, apesar dos diplomas e tal, não percebe nada!

Talvez me sinta superior demais a alguém que se restringe a dizer uma coisa dessas. Talvez eu tenha me sentido acuada por tal nível de acusações e despautério. Me silenciei. Tenho visto e lido coisas, de ambos os “lados”, que analiso, penso, reflito, tento, principalmente, identificar a origem aqui com meus botões e minhas teorias. Em particular, tenho até discutido. Mas só. Internet é esfera pública, melhor manter-se moderadamente afastada. Por isso, não vou nem comentar o que penso sobre o que está acontecendo – e sobre o que penso das pessoas nestas circunstâncias.

Dias antes estava pensando sobre uma idéia que aprendi num livro. Ler livros é melhor do que ler as TLs alheias. Livros mudam a minha vida, idéias me apaixonam. Livros mudam a minha percepção do mundo. Pensei até em escrever este texto para o dia dos professores, pois o autor que quero citar aqui foi-me apresentado pelo estimado e adorável professor Lupi, o melhor dos melhores. Livros têm esta capacidade, como algumas poucas pessoas, de entrar na vida da gente, mexer com pensamentos e sentimentos, destrancar portas e escancarar janelas. Estou, há uns três dias, lendo um que faz, novamente, esta reviravolta na minha vida. Não são todos, por isso é preciso ler sempre, para encontrá-los.

Professor Lupi um belo dia nos passou Mircea Eliade para ler. Historiador das religiões, Mircea é um querido. Não, não o conheço, digo isso só pelas idéias dele. Tínhamos que ler o Tratado de História das Religiões. E eu sempre fui apaixonada por religiões, amava Lupi (o único professor que disse que eu era uma boa aluna!), amava as aulas maravilhosas e perfeitas dele e na época eu estudava pacas. Fui ler com uma gana sem igual. Era uma época que, sendo das mais difíceis em tantos aspectos, eu vivia inimaginavelmente muito feliz.

Cheguei onde queria, porque não vim falar, falar e não dizer nada nem dar aula sobre coisa alguma. Há uma consideração do Mircea à qual eu já voltei tantas vezes: como nós renegamos tanto a nossa condição animal, suplantando-a pela nossa capacidade racional. Segundo ele, o homem moderno, diferente do homem arcaico, é incapaz de viver sua vida orgânica. Com vida orgânica ele se refere diretamente à sexualidade e à nutrição. O homem moderno abraçou de tal forma a razão que esconde (literalmente, como nos mostra a História dos Costumes) seu funcionamento orgânico. Ele aponta que a sexualidade e a nutrição foram vivenciados como sacramentos por culturas anteriores. Em termos teóricos ele julga que a psicanálise e o materialismo histórico é que foram os responsáveis por desmerecer e até ignorar a sexualidade e a nutrição como sacramentos.

“Para o moderno não passam de atos fisiológicos, ao passo que para o homem das culturas arcaicas são sacramentos, cerimônias por cujo intermédio se comunica com a força que representa a própria vida.” como não concordar que a sexualidade e a nutrição nos ligam diretamente com a vida? Sendo um homem moderno! Então devo ser uma mulher muito arcaica. A sexualidade e a nutrição são duas (das quatro) coisas que fazem eu me sentir viva, literalmente. São momentos cerimoniais, concordo plenamente, durante os quais sentimos a vida. O homem moderno, porém, carece de sentir-se vivo, como é fácil observar por aí.

Assim, me sinto muito estranha quando pessoas proclamam tanta racionalidade. Eu gosto muito de animais. Já faz um tempo adotei a prática (acho até que já contei isso aqui) de não chamar as pessoas e seus “problemas” por nomes de animais – porco, anta, cachorro, vocês sabem. Dou adjetivos que qualifiquem qualidades e defeitos das pessoas, não xingo os coitados dos animais. A idéia do Mircea já vivia incubada lá nos meus delírios adolescentes com “Invejo os bichos Invejo os bichos Que só brigam por comida e sexo” (thanks, Barão Vermelho!). Os homens arcaicos viviam mais próximos (proximidade física, não em evolução) dos animais, os conheciam e observavam – e não era através da tela da TV no Discovery. A proximidade com os animais permitia que eles desenvolvessem uma relação mais respeitosa e inteligente com o que podiam aprender. Eu aprendo (e muito!) com os bichos.

Sexo ser usado para, sei lá, contar vantagem de quantas pegou na balada, para subjugar pessoas que lhe são, de alguma forma, inferiores, e tantas outras formas torpes é coisa do homem moderno. Os arcaicos vêem o óbvio, a reprodução (consequência) e o prazer (como consequência imediata) – uma bela cerimônia com a vida. Alimentar-se pra postar foto na internet, pra fazer check-in e todo mundo saber que você foi no lugar mais top (HAHAHA) ou caro da cidade, pra mostrar como você é saudável ou que tuas escolhas políticas coincidem com tua alimentação é coisa do homem moderno. O homem arcaico come porque disso depende sua vida e eis mais uma cerimônia prazerosa. Eu sou tão arcaica que gosto de todo o ritual de escolher, preparar, arrumar a mesa, servir, comer com quem compartilha do mesmo prazer, e é uma das minhas cerimônias preferidas – não gosto de comer sozinha e tem que ser um momento único e ponto. Até tenho esse sentimento de disputa com os outros em relação à comida, nada mais arcaico!

Os racionais homens modernos extinguiram o prazer – e abrigam-se em pseudo-prazeres muito estranhos, como, sei lá, possuir bens e guardar dinheiro, coisas que em nada nos ligam à força da vida. Procuraram submeter a sexualidade e a nutrição às leis, às regras rapidamente mutáveis do tempo das sociedades, ao nosso mundo obscuro, aos eternos tabus. Quer algo mais moderno do que os tabus? Assim, sentem-se suprassumos detentores da razão – sim, porque, pelo visto, só há uma.

Mircea acrescenta a dimensão de conexão com a realidade que há entre o sentir a força da vida que o aproxima do existir como ser (numa perspectiva ôntica como se diz nos termos da Filosofia, que é o estudo do ser) e o liberta dos automatismos da vida, que são as coisas sem sentido e sem conteúdo. E eu me pergunto, quantas coisas o homem moderno faz que são esvaziadas de sentido e conteúdo? Tão praticantes dos automatismos, detentores da razão que fazem mau uso da sexualidade (sua e da dos outros) e da nutrição, o que são os seres modernos? Seres que, inclusive, desprezam quem procura praticar sacramentos que os liguem à vida. Os sacramentos, como estudados pela História da Religião, são muito antigos, Mircea faz várias preleções sobre eles e não se originaram só nas religiões que a gente conhece. São praticados pela humanidade, como citei, na busca pela comunhão com a vida. E seres racionais, é claro, não precisam disso.

Sinto-me tão próxima do homem arcaico e dos animais. Sinto-me em boa companhia. Não quero parecer contraditória, pois afirmei que gosto de idéias e elas pertencem ao campo da razão. A questão é pesar, é não tirar o espaço de uma pelo da outra. Segundo as publicações de milhões de brasileiros, como eu não voto como eles eu sou estúpida, indigente intelectualmente. Como tendo a ser querida comigo mesma, vejo que procuro usar a razão sem fazer disso o que me diferencia dos outros seres racionais. E voltei ao Mircea para não esquecer que somos, antes de tudo, animais. Do nosso organismo é que depende a nossa vida, sem sexualidade e sem nutrição o ser humano deixará de existir – e diante disso de nada adianta ser o mais racional dos racionais, sorry.

Sou uma pessoa altamente religiosa. Pratico ritos, sacramentos e cerimônias. Tenho minhas quatro relações com o sentir-se viva. Gosto de pessoas religiosas que buscam a ligação com a vida. Acredito que não me dou muito bem com os homens modernos. Parece, também, que não sou tão racional quanto meus amigos. Ainda bem.

Diria Aristóteles, ou mesmo o meu horóscopo de hoje, que o acertado é a justa medida. É o que eu busco, apesar de ser tão dada aos exageros – principalmente em alguns sacramentos, porque sentir-se viva é tão bom que não dá vontade de parar. Mas exagerar na razão eu pratico só ocasionalmente.

Logomarcas

 

Ficou ali observando e pensando nas pessoas e nas suas vidas tristes. Qualquer um sentiria pena, qualquer pessoa de bem com os pensamentos mais óbvios e ridículos. Não sentia pena. Desnudara-se de sentimentos em relação às pessoas, talvez. Ah, as pessoas! O grande mal do mundo. Ao mesmo tempo tão intrigantes e interessantes e repulsivamente abomináveis. E os abomináveis nem eram os serial killers, abundantemente eram os mais instruídos e donos de tantos bens móveis, imóveis e imateriais. Enquanto os intrigantes eram as figuras mais insuspeitas da face da Terra. Qual a porcentagem de uns e de outros? Difícil dizer. Impreciso, talvez. E, ainda talvez, uns pudessem ser ambos. O mundo ficaria tão bem sem as pessoas. Tinha convicção disso. E olhava ao redor pensando no quanto nada daquilo nunca nos últimos cinquenta anos mudara – nada. E ali viviam e trabalhavam e circulavam as pessoas mais jovens, antenadas e eficientes do momento. Antes delas as mesmas jovens, antenadas e eficientes de outras décadas por ali circularam – mas umas não viam as outras e agora a logomarca ali na torre era moderna, diferente, de linhas curvas. A logomarca unificava toda a mudança, a novidade, o tempo. Alguém mais percebia que aquilo não mudava era nada? As vidas tristes que por ali passavam, fosse num estágio da vida de uns e outros, fosse a vida inteira para alguns, as vidas tristes são sempre as mesmas. E são, sim, tristes. Ninguém diria isso, entre rodízios de sushi, noitadas regadas a cerveja, encontros permeados por altas discussões culturais e teóricas, apartamentos recém-decorados, carros novos, viagens e compras no exterior. Ninguém diria. Eram, assim, o topo da pirâmide. Bem, se não o topo, aqueles que elogiadamente galgavam todos os degraus para um dia lá perdurarem. E a tristeza, onde estava que só ela via? Ali, saltando aos olhos. Vidas tristes também, reparem, devem ser vividas. Ela mesma não usufruiria tão bem da sua vida se não houvesse essa inundação de tristeza em volta. Seria, talvez, menos feliz se não percebesse a enrascada que eram as vidas tristes daquelas pessoas. Via a logomarca, as cores, o entra e sai, os gestos – Ah! Os gestos! Gestos irrefletidos e, por isso (desconfiava), tão hermeticamente iguais. Gestos que viviam anos-luz distantes das almas. – e nada lhe parecia autêntico. Nada lhe parecia vida. E, no entanto, eles riam, ouviam música alta, combinavam programas maravilhosos, tomavam banho de piscina, cuidavam do corpo e da mente. Chegou a duvidar das próprias observações. Quem sabe aquilo tudo poderia ser algo que chamamos de vida. Seu apego às dúvidas não lhe permitia deixar de considerar isto. Pensava em tudo que via, nas fotografias tão candidamente postadas todos os fins de semanas, nos compromissos selados em noivados e compromissos sérios, nas viagens metodicamente exibidas, no prazer com que alardeavam que trabalhariam, trabalhariam e trabalhariam… pensava. Ainda assim lhe pareciam vidas tristes quando ela pegava da lupa e buscava a espontaneidade. Buscava, ali apreciando o vento entre as árvores, a naturalidade de tudo aquilo – até mesmo das piadas ruins. E por falar em árvores, não pôde deixar de reparar em como as pessoas evitavam o sol matutino e se aglomeravam debaixo da única árvore da rotatória. Eram vidas tristes as que fugiam do sol e buscavam uma nesga de sombra. Autômatos, será? Por isso lhes faltavam a espontaneidade e a naturalidade? Um estudo comportamental elucidaria que é o agir por imitação, a ação como cópia. Quem não imita e não copia, pode, enfim, não ter uma vida triste. Seria o fim do mistério? Talvez ela não quisesse encontrar uma solução. Apesar de ter identificado o problema, tinha a tendência dos cientistas que mais se apaixonam pelos problemas do que pelas respostas. O Show do Milhão é que precisa de respostas. Não, não, não, não falaremos em dinheiro. O programa do homem do Baú foi só um exemplo feliz. Chegou a pensar na rispidez da crítica. Justifica, com frequência, que adota o silêncio porque as pessoas e suas vidas tristes não suportam dedos nas feridas. E a crítica, tão demonizada nos cultos da sociedade, até lhe fazia gargalhar surpresa no meio da calçada. Não deixava, porém, de ser ríspida, ácida, cutucante. Achava a vida tão sem graça quando não podia cutucar os outros. Evitava, é certo, porque, as pessoas, enfim, ah! as pessoas! Aquelas vidas tristes sobreviveriam. Ela, não se sabe. As vidas tristes são blindadas contra as verdades da vida e, numa comparação menos feliz e menos criativa, são como as baratas – passará o fim do mundo e elas continuarão. Se sobreviver, será sempre feliz – um tanto mais feliz porque não perderá, como um espírito de porco inspirado, a chance de observar de perto aquelas vidas tristes. Se sobreviver, ficará muito mais tempo observando as levianas mudanças das logomarcas, as famílias se formando, as dúvidas cruéis sobre os vestidos de noiva – e, também, não deixará de sorrir ao som das trovoadas, ficará ao sol matutino, longe da sombra confortante, não postará a foto do manjar dos deuses que foi seu almoço, nem dividirá com ninguém aquilo tudo que lhe passa pelo coração.

Era como se desejasse a Primavera

Era como se desejasse a Primavera

Todas as vezes que sentia-se só

as árvores em botão, as rosas se abrindo

o sol a castigar de dia e a brisa em companhia com a lua

os animais a rolarem de desejos.

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A Primavera, em si, nada resolvia

– nem lhe arrumava companhia.

Quem dera, a distraía.

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E ano após ano, ansiava pela Primavera

Às vezes depositava confiança nela

Às vezes só queria lamber as feridas

Muitas vezes apaixonava-se

E, de vez em quando, ia ao inferno

Uma vez ou outra lhe chegavam desgraças

____

Como o anjo com pés sujos de barro

não era sempre que a Primavera

só lhe arrancava sorrisos.

____

Era como se desejasse a Primavera

Sempre que a esperança lhe faltava

Era como se desejasse a Primavera

Ao ver a palidez no espelho

Era como se desejasse a Primavera

Quando as palavras tiravam férias

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Ficava brincando de sonhar

Entremeava desejos

Refreava impulsos

Tirava longas horas para passear

Trocava o olhar

Admirava a paz

Refazia seus hábitos

Jurava com voracidade – e nunca cumpria

Sonhava com precipícios

Tentava ser mais sincera

Derrubava seus muros

Rearranjava teorias

____

Era como se desejasse que nesta Primavera

ela reaprendesse a confiar.

Era como se desejasse que a partir desta Primavera

ela fosse sempre feliz.

Era como desejar que esta Primavera

nunca acabe.

____

(não tenho escrito, tenho lido pouco (depois de uma overdose de leitura), diriam que me falta inspiração, eu digo que tenho me preparado para dias lindos, tenho apreciado cada segundo dos dias com menos roupas e de um calor que me faz melhor, tenho pensado – não muito – bem melhor; e só por brincadeira escrevi uns versinhos colegiais para matar a saudade)

As mãos

Tamborilava as mãos sobre qualquer superfície como expressão da carência que sentia. Passava as mãos por corrimãos de escadas, espaldares de cadeiras, puxadores de gavetas, alisava a textura das colchas… as mãos tornavam-se ágeis dias e noites. Incansáveis observadoras das sensações que o mundo – duas doses melancólico, uma triste e três solitário – tão pouco ainda lhe proporcionava. Sentir… jamais imaginara falta que faria. Não estava a pensar em sentimentos, desses nunca nos livramos. Sentir sensações. As mãos tentavam sentir mais. Arrastavam-se pelas prateleiras do supermercado. Demoravam-se afagando os pêlos dos bichanos. Enrodilhavam-se na lã das cobertas. O calor e o frio: como lhe faziam falta. Supria, com as mãos, as sensações que lhe faltavam no corpo todo – e nisso não queria de jeito nenhum pensar. De jeito nenhum. De tanto jeito, não havia jeito: pensava. E pensava… e qualquer contato lhe atarantava. Um dia se perguntara se não sabia mais o que era sentir. Talvez não. Gostava tanto de água, como todos sabem, e se deliciava em senti-la em todas as temperaturas – aí não eram só as mãos que se esbaldavam. Deixava estar o corpo molhado debaixo do chuveiro e, apesar do seu carinho pelas toalhas macias, ficava em frente ao espelho vendo o reflexo da luz nas gotas espalhadas pelo corpo até que tivessem sumido. Achava a pele molhada um quê mais bela e serena. Pegara essa mania de rolar o cabelo entre os dedos, de vai e vem dos dedos no pescoço, de traçar o contorno dos lábios com o polegar. Quanto mais concentrada, durante um trabalho ou problema, mais seus dedos desenhavam o teclado do computador, as bordas da escrivaninha, os limites estreitos da caneta. Até quando dormia, vejam só, na cama larga e firme, as mãos em meio aos sonhos deslizava pelos lados vazios, subia e apertava curiosa os travesseiros. Ou subia um pouco mais e enganchava os dedos na cabeceira de ferro frio como se ali acorrentada estivesse. Apreciava até quando faltava luz só pelo prazer de andar com as mãos espalmadas ao lado do corpo decorando cada aspereza das superfícies. Nem assim avivava as lembranças de sensações há muito desgastadas e abandonadas. Sobre algumas, se perguntava: um dia, as terei de novo? Não sabia. Talvez nem soubesse mais como eram – que para a memória também serve a máxima: a prática melhora a performance. Só o que lhe restava, com um raio, eram legítimas alucinações. E tudo ficava preso em imagens. Imaginar, todos sabem, não é sentir. As mãos não imaginavam, apenas passeavam por um mundo que perdera um pouco da sua leveza. E seu humor lhe garantia que elas, felizes e saltitantes entre texturas e calores e frios, não lhe bastavam. Nem elas, nem a imaginação. E, por isso, às vezes tentava ver-se livre da imaginação e do pouco que as mãos lhe faziam sentir. Sem nada para substituí-las, o mundo a apavorava e ela voltava correndo fazer as pazes e deixava-as – as mãos e a imaginação – livres.

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