“O Tempo e o Vento” em tempos de inadequação…

Entrei no ônibus e já me sentia arrependida de ter convidado a amiga para ir ao cinema comigo. Desde o ano passado que vivo um conflito interno à espera do resultado final de uma adaptação para o cinema, pelas mãos do Monjardim, do monumento que é “O Tempo e o Vento”. O arrependimento não se explicava só por eu gostar da solidão das salas de cinema, mas porque eu temia que minhas reações (eu tenho reações durante os filmes) não fossem partilhadas ou sequer compreendidas. Tratava-se, para mim, de algo sério, profundo, porque são aquelas coisas que importam de tal maneira para nós que ninguém há de dar o mesmo valor.

Assim, já deixo avisado de antemão que minhas palavras serão embargadas de emoção. Pois minha relação com o Erico é pautada principalmente por ela, além da enorme admiração, e, felizmente, o filme não me afastou dela – a emoção.

Explico-me. Amo o Erico. Num tempo perdido em datas, li um trecho de “Um Certo Capitão Rodrigo” no livro de literatura e português da escola, bem o começo do livro com o famoso e inesquecível “Buenas e me espalho!”. Li aquela página de texto, olhei referência e, criança impressionável e curiosa que sempre fui, matutei. Algo me marcara naquele texto. Poucos dias depois, vasculhando os livros de minha mãe, encontrei o tal “Um Certo…”. Qual não foi minha alegria e, ainda criança, passei a tarde e começo da noite com ele. Nos anos seguintes, quando me faltava livro para ler, lia-o novamente. E fui descobrindo outros Ericos nas prateleiras de minha mãe e de minha avó. Era amor. Amor que dura já meus poucos anos de vida inteira. Mês passado ainda escrevi aqui sobre o último Erico que estava lendo, O Prisioneiro. Porque ele é o único autor que reluto ler todos de uma vez, com sofreguidão. E, assim, o Capitão Rodrigo tornou-se um amor que eu provavelmente nunca conseguirei devotar a alguém de carne e osso – Erico acabou com minha vida amorosa e eu nem me importo. Ana Terra é a inspiração para um sonho que eu tenho de uns quase dez anos e que, por coincidências do Destino, começou a tornar-se realidade nos últimos meses. Erico faz parte da minha vida. É daqueles que já se foram com o qual eu gostaria de ter uma conversa num lugar qualquer do mundo, nem que fosse para poder dizer o quanto ele já fez por mim. Nem estas palavras conseguem exprimir o que foram, então, todas as obras do Erico para mim. E era com o coração apertado que eu seguia para o cinema.

Eis que após os letreiros explicativos (desnecessários? provavelmente, e disso o próprio roteirista tem consciência), surge Fernanda Montenegro como a Bibiana envelhecida e Thiago Lacerda como Capitão Rodrigo – este que nunca envelheceu e jamais poderia. Numa visita atemporal, durante o cerco do casarão dos Terra-Cambará, os dois se reencontram. A entrada do capitão durante o cerco assemelha-se à chegada dele à cidade de Santa Fé pela primeira vez, garboso, distinto, desafiante. Os dois se encontram e conversam. Eis que então Bibiana começa a contar a saga dos Terra. Pois que a dos Cambará será sempre só e somente a de “um certo” Capitão Rodrigo. Fernanda como Bibiana será a narradora (e eu que sempre implico com narradores em filmes, dou o braço a torcer: foi mais uma idéia genial do roteiro para contemplar a grandiosidade da obra do Erico) e o filme voltará sempre para ela e o Capitão no quarto.

A amiga olha pra mim e diz: tu já está chorando e é só o prólogo! Pois sim. Me emocionei com a materialização do Capitão Rodrigo e de Bibiana idosa. Eles eram personagens meus. E nem nos meus sonhos mais extraordinários o Capitão Rodrigo teria as feições e o corpo do Thiago Lacerda – por favor, não que eu tenha achado ruim! Vê-los materializados foi a primeira emoção. E no prólogo já é possível perceber algo que será mais uma das coisas fantásticas do filme: os gestos. O encontro dos dois é permeado de toques, carinhos – repare bem no dedão de Fernanda acariciando a ponta do bigode de Thiago – uso completo do corpo. O amor de Bibiana e Rodrigo é exposto ali sem firulas por Bibiana ser uma idosa. A cena relembra os reencontros deles, todas as vezes que Rodrigo sempre voltava. Mas, me adianto.

E era sobre isso que eu precisava escrever.

Eu posso fazer algumas colocações sobre a fotografia, realmente muito boa, talvez previsível para o filme que se passa nos pampas em questão de enquadramentos e luz. Há excessos, há planos detalhes totalmente dispensáveis (e o diretor deve saber disso), numa tentativa de dar ares de “épico” sem necessidade. Eu realmente achei que o Monjardim poderia estragar tudo. E, vejam só, eu que sempre critiquei tanto “Olga” principalmente por aquele “fantasma” dela criança no final, fico aqui babando elogios por uma história que começa com a visita de um fantasma. Pois bem, no mundo do Erico eu compreendo estas presenças – quem não lembra da roca sempre a fiar à noite? A roca da mãe de Ana Terra foi uma das “imagens” que mais me prenderam ao ler a história dela. É um mundo de presenças. Uma das críticas que li antes de assistir ao filme foi sobre parecer “episódico” ao tentar ser um épico. E ele realmente é episódico, a cada episódio desses a narrativa volta ao quarto de Bibiana. Confesso que isso não me incomodou. Talvez porque nesses momentos podemos acompanhar a relação dela com Rodrigo, que não é “desenvolvida” no episódio deles. Talvez por eu guardar com tanta ternura a relação de Rodrigo com Bibiana é que eu tenha tido um deleite especial com estas cenas.

Da parte dos Terra temos a origem mítica do Pedro, enquanto da parte do Cambará temos a ausência de origens. E é esse o laço da relação Rodrigo-Bibiana. Esta, por sinal, é constantemente comparada (no livro) à Ana Terra, no jeito, na tempestividade, nas decisões, até na voz. Ana Terra teve também sua história de paixão, mas intensa, carnal. Bibiana encanta o capitão pela sua doçura, inocência. É um encontro improvável. É um amor reprovável.

A obra hercúlea de adaptar o livro para o cinema coube ao Tabajara Ruas e à Letícia  Wierzchowski (do “A Casa das Sete Mulheres”, lembram?). Acho curioso que não citem isso nas críticas e notícias. Monjardim fez o trabalho “menor” neste caso. Tabajara é, como pessoa e profissional, sensacional. Tive o prazer de ouvi-lo falar pessoalmente sobre esta adaptação. Na verdade, meus elogios vão diretamente ao trabalho dele que soube adaptar, muito mais que a história, o “estilo”, o jeito, do Erico contar histórias. Tabajara soube colocar certas falas (muito mais do que diálogos) marcantes do livro nos momentos certos para dar a devida grandiosidade da narrativa sem precisar se prender a inúmeras ações dos personagens. (e eu sabia algumas das falas de cor, repetia durante o filme, estimulada pelas cenas lembrava daquelas palavras que li há tantos anos…)

É preciso reconhecer que há um evidente esforço do roteiro em tornar o capitão Rodrigo um herói. Bem, ele é, mas… No livro acompanhamos a angústia do casamento de Bibiana com o coração na mão cada vez que Rodrigo vai jogar, quando a trai inúmeras vezes e em todas as suas escapulidas. Bibiana sofre. Sofre calada e forte e como ela mesma diz ao pai, nunca reclamou de nada nem de ninguém. Todas as “más ações” de Rodrigo são condensadas em duas sequências, quando ele expulsa um cliente pois não suporta mais vender purgantes e sai para jogar e beber (irritado porque o bebê não pára de chorar) na noite que a filha adoece. (no filme eles têm só Anita e Bolívar, Leonor não aparece – esta, aliás, tem o nome de uma paixão da adolescência de Rodrigo) O que falta ao capitão não é caráter, pois isso ele tem de sobra, mas ele sofre de algo compreensível (e, ah!, como o compreendo!): inadequação. A morte de Anita lhe arranca do peito um gemido doloroso em resposta a todas as acusações que podem lhe fazer. Ele é um homem de paixões, um homem de guerras – não é um homem de ficar atrás do balcão.

Mas falo demais. Pois eu só queria dizer que o mais magnífico no filme são os silêncios. Pouco se fala. Bibiana jovem tem uma dúzia de falas. O roteiro foi tão fiel às falas que soube usá-las magistralmente, inclusive na narração da Bibiana. E é assim que o filme se aproxima do “estilo” do Erico. A cena mais significativa é a noite de núpcias de Rodrigo e Bibiana, quando os dois deitam, se beijam e há um corte para o rosto – só o rosto – de Bibiana como Fernanda – e ali fica a câmera, a captar tudo naquela expressão. As cenas de sexo não são frequentes nos livros do Erico, e esta em especial ele descreve com uma poesia e uma força inigualáveis ao compará-la a um banquete ao qual o capitão vai com “calma” mas não esconde sua “sofreguidão”. É um parágrafo. E é demais! Aí é que eu digo que o roteiro se aproximou tanto do “estilo” do Erico, na maestria de conduzir a história. O mesmo se passa com as duas vezes que o capitão “volta” (uma de Rio Pardo quando ele vai fazer compras para a venda e outra da guerra) e grita ao longe “Bibiana! Bibiana!”. Nós sentimos a emoção dela vibrando ao ouvir aquela voz. O roteiro soube captar exatamente a mesma emoção do livro. Bibiana jovem, aliás, é muito bem interpretada pela Marjorie Estiano, com uma graça quase infantil, uma paixão devota ao seu capitão. Os silêncios são bastante evidentes na história de Ana Terra, pois há uma incomunicabilidade inerente àquela família no meio do nada onde aparece um índio ferido – todos eles economizam palavras.

É um filme de silêncios e gestos. Thiago Lacerda cabe ao papel de transformar o capitão Rodrigo num herói, apesar de eu sentir falta dos “olhos de rapina” – porém o sorriso dele cai feito luva no charme indescritível e sedutor do capitão. Fernanda e Thiago estão perfeitos. Os detalhes de um roteiro tão atencioso me deixaram comovida – vide a viola do capitão que fica no quarto de Bibiana e a medalha que ele usa na farda quando se casa (reparem como isso aparece no livro e nas imagens, para um espectador desatencioso pode passar batido). Do núcleo Ana Terra só a Cleo Pires me incomoda com aquele estilo “eu sou gostosa e pronto” o tempo todo. A minha Ana Terra é alguém mais seca, mais inconsciente de si (que é, aliás, o mote para a relação selvagem dela com Pedro).

Talvez seja esta, enfim, a crítica que tenho a fazer. Erico é ácido. Erico tem um quê dos russos. Tabajara é um romântico. E essa diferença pesa quando vemos o Capitão Rodrigo tão heróico de um enquanto no outro a cena da morte dele não é descrita – no filme ele desafia o velho Amaral e é alvejado pelas costas por Bento, seu inimigo (aquele da perninha do R! como esquecer?!); no livro ele deixa Bibiana e só depois vem a notícia da morte dele ao ter invadido de assalto a casa dos Amaral. “Poderiam dizer o que quisessem, mas ele tinha voltado pra mim.” (mais ou menos assim) a frase final de Bibiana… quantas vezes eu li esta frase em meio a alguma madrugada que me angustiava?

Fiquei encantada com o Rodrigo bisneto, um menino ruivo e lindo (menino ruivo! me derreto! quero um pra mim, já disse!), que será “doutor” na sua volta à cidade (algumas páginas adiante). E fiquei me perguntando se, Monjardim ou quem sabe o próprio Tabajara que é tão excelente escritor e roteirista quanto diretor, farão um filme dedicado ao O Retrato (parte de O Tempo e o Vento), pois as partes de Ana Terra e do Capitão são sempre as mais comentadas e adaptadas de todo O Tempo e o Vento, mas há outras tão boas quanto – sabemos que pesa a questão “heróica”, de “formação de um povo”, menos “contemporânea”. Depois desta experiência, confesso que passei do temor ao desejo de ver mais histórias do Erico nos cinemas.

A amiga sofreu, é claro. Ela fazia um comentário ou outro e eu já partia pra grosseria. Num momento comecei a comer de nervosa que estava (a história da Ana Terra me angustia) mas a partir da chegada do Capitão à Santa Fé nós duas vidramos os olhos, ouvidos e corpos na imensidão da tela e ali ficamos entre suspiros e revoluções do espírito.

Escrevi e reescrevi este texto algumas vezes, revi, reli… e queria comentar mais umas cenas, falar do duelo do Capitão com Bento, do Juvenal – personagem rústico e de maior presença no livro e talvez menos valorizado no filme, da Maria Valéria – mais uma personagem feminina fantástica do Erico mas que aparece mais depois do O Continente, do cenário da casa da Ana Terra – o melhor do filme, disparado, da ausência de citações a Bento Gonçalves, da minha concordância que há uma “pressa” no “episódio” do capitão, enfim, tantas outras coisas que comentei com a amiga (eu sou um porre pós-filme, confesso e poucos sabem) e nas quais volta e meia me pego pensando durante os dias. E, mais forte ainda, como me encantaram as cenas de Bibiana/Fernanda e do capitão – e acho que não tenho como explicar os motivos.

Escolhas

A vida é feita de escolhas. Sim, é clichê dizer isso. Mas é sobre o que tenho pensado, principalmente em resposta a muitas coisas que me dizem e que ouço por aí.

Li dois textos que me fizeram matutar sobre o assunto, além de conversas aqui e acolá. Um era sobre como as pessoas vêem quem viaja e que gosta de ter uma mochila da Bolívia, uma sandália de couro do Ceará, e de ter ido ao Museu do Ouro de Sabará, ou de frequentar cursos disso e daquilo aqui e lá – como se os gostos te rotulassem como elitista (fui obrigada a lembrar da Lota de “Flores Raras”). Não raro nos rotulam de arrogantes, metidos (“amostrados”, diriam os cearenses), privilegiados. Aliás, sobre a alcunha “privilegiados” eu desejo escrever um post em especial. O outro texto é um bem lindo e exato sobre “namore uma menina que viaja”. Tive até aquela comoção leve ao ler este, pois me vi em tantas daquelas linhas. A dica é boa, namore uma menina que viaja. E se você não tiver espírito para isso, não namore-a, pois você acabará por fazer muito mal a ela.

Em algumas discussões e no meio geral, o branco que estudou em escola privada e tal é tido, hoje, como privilegiado. Ainda tenho dificuldades em entender o raciocínio, mas não vou adentrar em questões sociais e políticas. Já andava traumatizada com essa questão de “privilegiada” por ser assim branquela e tal quando, ao comentar com uma pessoa sobre o meu apreço especial por viajar, eis que ela me diz “você é privilegiada”. Engasguei com este “privilegiada” (para ter uma idéia do engasgo, a conversa foi meses atrás). Privilegiada? Sério?

Aí uma amiga muito próxima, numa conversa (somos ambas bem francas, grossas e abertas, então as conversas não são floreadas e tal) na qual eu tentava animá-la (coisa, aliás, que faço com frequência), me disse “pra você é fácil”, porque ela dizia que precisava viajar para fugir e eu tentava fazer com que ela lembrasse que não adianta porque nunca fugimos de nós mesmas. Sabe, aquilo quase me doeu (não sou de ficar de mimimi). Pra mim não é fácil tanto quanto não é privilégio.

Sabe o que é, então? São as escolhas. Ninguém sabe do que, diariamente, eu abro mão para alcançar a realização de sonhos e empreitadas (algumas, a maioria até, de longa data). Porque eu nasci sabendo sonhar, e aí apanhei bastante para aprender a realizar esses sonhos – caso contrário, eu viveria insatisfeita, infeliz, raivosa com tudo e todos. É preciso escolher em tudo na vida. Com homem, por exemplo, você escolhe um e abre mão de outro (sei que tem quem pega mais de um ao mesmo tempo, confesso que comprovadamente não tenho muita capacidade para isso). Você escolheu esse, então terá o convívio com ele, do jeito que ele é. E vai abrir mão do outro que, sei lá, beija melhor, dança, tem olhos azuis, não tem mãe, mora em outra cidade. Nas escolhas já vem embutido o que você terá que “pagar”. E por isso escolher, tomar para si as rédeas da tua vida, é tão (mas tão) difícil.

Conheço quem não abre mão de um sapato de salto que custa seiscentos reais. Tem aquele que sai pelo menos três vezes por semana para sair para beber e comer (cada uma das saídas não custa menos que cento e cinquenta reais). Tem quem só usa roupa de marca. Tem quem pode fazer tudo isso e muito mais porque pode pagar por tudo. Ótimo! Tem quem acha que viajar é ir pra Natal, ou Porto Seguro, pela CVC ou tirar foto no Coliseu (aquele auto-retrato, sabe?) ou uma foto da Torre Eiffel vista lá de baixo (já vi tantas dessas e me pergunto: não dá pra subir? Porque nunca vejo fotos lá de cima. Confesso minha ignorância.).

Conheço quem não abre mão de andar de carro. Quem faz e fez de tudo pra ter uma casa/apartamento. Tem até quem compra coca-cola de latinha pra tomar em casa. Sei lá, quando falo de escolhas estou me referindo a modos de vida mesmo. Abrir mão das coisas não é nada fácil. Quem me conhece bem (mas bem mesmo) sabe que a primeira coisa da qual eu abro mão é do conforto. Sou super sem frescuras – e até tenho dificuldade para aguentar gente que é cheia de frescura, é verdade, mas eu tento.

Eu não abro mão de viajar. Se para isso terei que abrir mão de tantas outras coisas, farei com o maior prazer. O mundo aqui do Sul e Sudeste é muito caro. Sair para jantar é caro. Ter carro é caro. Beber, então, é caríssimo. Sim, abro excessões – cada vez mais raras. Foi o que sempre achei de ir ao cinema, que é muito caro. E por muito tempo na minha vida não frequentei os cinemas. Sou super fã de assistir a filmes em casa. De vez em quando me dou ao luxo de num dia de oferta e sala vazia ir ao cinema para deixar a alma flutuar no escuro diante da telona. O mundo por aqui é muito individualista, egoísta, intolerante. Eu prefiro andar de ônibus, é sempre uma experiência interessante. E também já é caro. Ando à pé, de bicicleta. Bebo em casa e sozinha – atualmente por alguns bons motivos.

Você não me verá em baladas nem em casas noturnas caríssimas – aliás, nem de graça. Às vezes digo pra alguém “vamos sair” e a pessoa logo me responde “não posso, estou sem dinheiro”. Pô, mas pra ir pra praia ou pra trilha precisa só do dinheiro do busão (porque eu sou farofeira, sempre tenho comida na bolsa). Aliás, no texto sobre namorar uma menina que viaja esse era um dos pontos: ela sempre terá comida e água na bolsa – porque sabe que a vida pode dar voltas, atrasos e recomeços. Já viajei com a roupa do corpo.

O problema é quem escolhe ter carro, sair toda semana, comer fora, comprar computadores, celulares e tablets de última, andar com roupas boas e caras e afins e não conseguir tempo ou dinheiro para aproveitar outras coisas da vida – vivendo eternamente insatisfeito, invejando e criticando quem leva outra vida. A minha vida não é melhor do que a de ninguém – muitos, se a conhecessem, diriam que é bem pior do que a da maioria. Mas, olhando de fora, é fácil apontar “privilégios” ou “luxos” e “facilidades” que não existem.

É só parar e se perguntar: o que eu realmente valorizo? Do que eu posso abrir mão por coisas que me importam mais? Eu mesma não abro mão de algumas coisas e pago por elas. As escolhas têm seu preço, incindindo principalmente na nossa felicidade e no sentimento de realização pessoal.

Escolher dedicar-se aos estudos por mais tempo também tem um preço. Você paga em tempo, noites sem dormir, dores de cabeça, irritações, “apertos”. Não é um luxo. Quando você escolhe estudar, trabalhar, namorar, ter casa, tudo ao mesmo tempo, vai abrir mão de muita coisa, ou pode abrir mão de alguma dessas e ganhar outras. Para quem escolhe profissões ou carreiras menos comuns (vide as “artísticas”) isso é muito mais evidente. Há sempre aquele momento quando você precisa acreditar no que faz, dedicar-se de corpo e alma, abrir mão de meios facilitadores e confortáveis, e seguir. E nenhuma escolha é fácil.

Eu bem que poderia passar a vida viajando (não sou daquelas que diz que viajar é bom mas voltar pra casa é melhor) e escrevendo. Isso me bastaria. Hoje ainda não posso. Quem sabe um dia. Então, vou fazendo uma coisa aqui, outra ali, abrindo mão disso e daquilo que não me importam de verdade, às vezes até abrindo mão de coisas que me fazem um tantinho de falta, para conseguir encaixar essas coisas que amo e que me são essenciais. Nessas escolhas diárias vou mantendo fé naquilo que quero ter lá na frente – que pode ser viver viajando e escrevendo, quem sabe. Amanhã sei que estarei diante de escolhas que poderão mudar este possível destino final – e essa é a parte mais gostosa da vida. Escolhas são meios, se você não sabe para onde vai tudo fica bem confuso e difícil.

Eu escrevi ali “coisas que amo” e queria dedicar um post todo só para o amor. Passei dos vinte anos e já sei o que amo. Porém, sei que posso vir a amar outras coisas que hoje ignoro. Amor mesmo, no sentido literal, filosófico, poético, o incondicional, sem o qual você não pode viver, que é tudo, te completa, te faz feliz. No meu caso não é um “alguém”, por exemplo. Sei quais são as coisas que amo, incondicionalmente mesmo, e por elas guio minhas escolhas e abro mão do resto. E, bem, quem não conhece o amor não pode mesmo fazer boas escolhas nem ser feliz. Viram como não é fácil?

Eu amo o tempo. Amo como ele sempre faz tudo tão bem. Amo o nosso relacionamento tempestuoso. E foi o tempo que me ensinou tão bem o valor e o peso das escolhas.

Não critico as escolhas dos outros. Mas que tem muita gente errando por aí porque não sabe o que ama, ah, tem! E também tem muita gente que já sofreu pra caramba até perceber que só seria feliz ao escolher de acordo com o que ama – sou particularmente admiradora de algumas dessas.

Ainda hoje me disseram que o lugar onde moro é pequeno. Realmente é. Com ele aprendi a ter uma vida mais leve, menos acumuladora. Este ano cometi desapego até com as bolsas. Fui me desfazendo do que não preciso, do que não quero, do que não me faz feliz. Foram cartas, roupas, sapatos, bolsas, utensílios de cozinha, papéis, muita coisa mesmo. Não quero tudo. Mesmo se eu fosse dessas pessoas que têm dinheiro o suficiente para ter tudo o que querem, sei que eu não seria assim. Certos excessos me desgastam espiritualmente. Sou feliz onde moro pela localização, pela vista da varanda, por ser pequeno e me ensinar com isso, por me permitir ter uma rotina tão “econômica”. Nem TV a cabo eu tenho – se for para “ver”, prefiro ver com meus próprios olhos. E é assim que eu percebo e ouço tantos comentários reprovando minhas escolhas.

Estou aqui com uma lista de exatamente sete coisas sobre as quais terei que fazer escolhas. O tempo corre e tenho que cumprir prazos de escolhas que já fiz. A conta bancária suspira saudades. As malas vivem feitas e desfeitas. As últimas escolhas se mostraram fantásticas e com bônus sobre algumas das escolhas da lista que citei acima. É uma sensação boa demais. São realizações pessoais das quais não vou abrir mão. Hoje nada estragaria minha felicidade, nem uns tetos que balançaram. E eu garanto que não há privilégio nem facilidade nenhuma em nada disso.

“I´m not drunk, I´m just crying in english” a igualdade e suas Flores Raras

Na ida, subindo a minha velha conhecida Barão do Cerro Azul, reparei num casal. Jovens, recém passados pela adolescência, ele caminhava abraçando-a por trás, os dois agarrados, riam. Na volta, sinaleiro fechado, na esquina, paradas entre tantas pessoas, duas moças, da mesma faixa etária do casal da ida, de mãos dadas, carinhos e afagos pra lá e pra cá. Fiquei me perguntando onde estava, afinal, a diferença que tantos vêem. Casais são casais, simples assim.

Dias antes eu havia me redimido de um erro que praticava e que até citei num post do ano passado por aqui. Fui ao cinema assistir a um filme nacional. (sim, confesso, sessão dupla com um argentino, mas estou melhorando) Eu não ia ao cinema, mas, enfim, a vida se encarrega dessas coisas. A escolha foi Flores Raras.

E eu lá, sala praticamente vazia, sozinha no meu lugar de sempre, em alguns minutos de filme pensei: preciso escrever sobre ele.

Flores Raras não emociona. Flores Raras é um filme brasileiro majoritariamente falado em inglês, com atrizes estrangeiras (não estranhe o LEG no ticket do cinema). Porém, uma grande atriz brasileira quase subaproveitada no cinema e que divide o protagonismo da trama é quem garante excelentes momentos. Glória Pires é forte, se impõe, diva (como dizem) sem divar (sem a frescura que se espera de um papel ou de uma atriz “diva”).

Fiquei na dúvida, em vários momentos, se a personagem da Glória Pires – Lota, uma arquiteta auto-didata brasileira, responsável pelo projeto do Aterro do Flamengo no Rio de Janeiro e, para mim, mais uma ilustre figura da nossa História que eu desconhecia – não representava o papel clichê da homossexual “machona”. Muita gente ainda (e não é só por questão de preconceito) vê os relacionamentos entre lésbicas como uma “mulherzinha” e uma “machona”, aquela coisa de quem é o homem e a mulher da relação. Por ainda existir este tipo de visão que talvez tenha me incomodado que o personagem resvalasse para esta concepção. E foi o que eu mais li nas críticas por aí, que a relação entre ela e Elisabeth Bishop havia se dado pela força da primeira e fraqueza (ou sensibilidade) da segunda – e que, em determinado momento, se inverte. Sinceramente, este tipo de crítica parece esvaziar, minimizar a relação entre as protagonistas.

A relação entre Lota e Elisabeth é o comum – a maioria dos filmes, novelas e livros têm histórias semelhantes. Talvez um pouco diferente seja a relação com a outra ponta do triângulo, a colega da escritora e com quem Lota morava e mantinha um relacionamento amoroso antes de conhecer Elisabeth. O mais curioso no filme é que a qualquer momento você pode substituir a personagem de Glória Pires por um homem. Em outros tempos talvez um diretor o tivesse feito “inspirado” ou em “homenagem” à história real das personagens por receio de colocar um casal homossexual tão forte nas telas. Felizmente, apesar dos pesares da nossa sociedade, não foi o caso.

Pareço me contradizer, eu sei. Não é o lado “comum” da relação que esvazia a construção das personagens. É justamente assim que o filme alcança sua grandeza. É por tratar uma relação homossexual da forma como estamos “acostumados” (sempre desconfie dos costumes) a ver uma relação entre homem e mulher no cinema que ele esmiuça preconceitos e pré-concepções – talvez até aversões. Fiquei aqui remoendo um adjetivo para descrever como o diretor faz isso, difícil encontrar. Naturalizar talvez venha a calhar, digamos que ele naturaliza a relação homossexual ao equipará-la às relações heterossexuais que são maioria esmagadora nos filmes de ficção. Acredito que isso pode incomodar quem ainda abraça preconceitos.

Um ótimo exemplo são as (quase) cenas de sexo. Quando Lota e Elisabeth saem no jipe para ver as corujas e ficam sozinhas pela primeira vez, a personagem de Glória Pires a beija e rola uma mão boba. Numa outra cena, as duas se beijam com ímpeto e Elisabeth já menos “inibida” joga Lota contra a parede de vidro. É uma cena de agarramento, só isso. Na cena de sexo mais propriamente dita há o clichê do sexo oral, enquadra a personagem deitada com expressões de prazer e câmera frontal “em cima da barriga” focando o vazio e aparece o rosto da personagem subindo. Só isso. Assim, tão “hétero” quanto outro filme qualquer.

Num momento em que se exarcerbam as diferenças, eu tendo a admirar, ainda, quem aponta as semelhanças. Claro que seguinte a concepção de igualdade entre diferentes do Aristóteles. Mas me causa estranhamento e aversão (apesar de até conseguir compreender certos posicionamentos agressivos e sectários) querer diferenciar o negro do branco, o homo do hétero, o rico do pobre e por aí vai. Pode ser uma visão simplista ou até ingênua, contudo, ainda acredito que frisar e enaltecer as diferenças só aumenta o abismo já existente entre os “lados”. Se um filme exibe uma relação homossexual de forma mais crua, com o que ela tem de mais “diferente” (e aqui não vou me alongar nas possibilidades, mas ando curiosa com o Tatuagem, por exemplo), a probabilidade de aumentar o preconceito, a aversão e afastar o público é grande. Flores Raras faz justamente o contrário. Mostra com destreza que relacionamentos são todos iguais.

Se é uma escolha para torná-lo mais palatável ao gosto do grande público? Não sei. Vindo do Barreto talvez seja. Cabem críticas ao filme, sem dúvida. A única coisa que eu realmente considero que ele deixou a desejar foi a forma como tratou a questão política do contexto e a rapidez com que se deu o desenrolar final da história. Sobre o primeiro ponto há outras críticas por aí, na Cinética inclusive. O final conta com um melodrama de cartas não enviadas (não sei se ocorreu na história real) que parece desnecessário e bobo. Há um breve atropelo nas sequências após a briga delas em Ouro Preto. Foi o que me incomodou de fato.

Além do mérito de “naturalizar” (péssima palavra, mas me falta uma melhor) a relação homossexual, melhor ainda é a construção dos personagens. As três, Elisabeth, Lota e a outra ponta do triângulo (não recordo o nome), tem atuações e construções maravilhosas. É assim que se constrói uma relação num filme, com entremeios, altos e baixos, nuances. Tentar simplificar ou linearizar relações afetivas na ficção sempre soa falso. As pessoas não são assim – por que os personagens teriam que ser?

Se a intenção era agradar ao grande público, acredito que acertou. Mas também não desgosta aos mais impertinentes (como eu). Se é um bom candidato à indicação ao Oscar? Não tenho dúvida. Se é um bom candidato ao Oscar de filme estrangeiro? Acredito realmente que sim (e não só porque é falado em inglês, o que já pode ter sido feito pensando nisso, como bem sabemos). Não teria críticas à indicação, nem a uma possível estatueta. Aliás, acho muito concebível a indicação da Glória Pires. Apesar de a personagem da Elisabeth ter um maior destaque, Glória Pires encontrou uma força incrível em todas as cenas. Nunca fui fã dela, talvez prejudicada por papéis da TV que tendem a se repetir e os quais acompanhei pouco.

A locação da casa da Lota é linda. A história da criação do Aterro do Flamengo é interessante (Lota, inclusive, é acusada de elitismo ao pensar um lago como o do Central Park – e isto me lembra o próximo post – pois no Brasil ser acusado de elitismo por pensar e desejar coisas interessantes é comum). Eu gosto do ator que faz o Carlos Lacerda (e não sei o nome dele – já disse, sou péssima com isso). Apesar de poucas externas num Rio de Janeiro de época, ele em nenhum momento torna-se sufocante. As denúncias da nossa cultura são sutis, mas não passam despercebidas como a compra (literalmente) de uma filha para a ex da Lota – cena dura, que nos deixa desconfortável e ao mesmo tempo, ao acompanhar o crescimento da menina, nos faz ter aquele pensamento cruel “será que não foi melhor assim?”. Há, porém, algo que me fez revirar os olhos e pensar “mas precisava?!” (o que sempre me lembra uma mania de diretores de novela da Globo e do Olga naquela cena final na qual ela olha para trás, antes de morrer, e se vê criança): quando Elisabeth encontra Lota morta, há um corte para o Aterro do Flamengo e as luzes piscam (ou se apagam, não sei). Pra quê?!

Eu também não conhecia a obra da Elisabeth Bishop nem muito da relação dela com o Brasil. É intrigante acompanhá-la com os olhos de uma boa americana em terras tupiniquins. Como também é fácil ser despertado para a obra dela ao assistir como nasceram alguns versos. Tudo isso para além da discussão sobre as almas do poetas e criadores, suas fragilidades e crueldades.

“I´m not drunk. I´m just crying in english.” é só uma das célebres frases dela. Ao contrário do que faz o filme, marcando a vida de duas personagens reais interessantíssimas, Elisabeth diz, num certo momento, que os leitores não devem conhecer os escritores. Frase que me levou a vários caminhos – inclusive enquanto eu caminhava pela Barão do Cerro Azul. Ainda não cheguei a uma conclusão, mas seguindo um pensamento do Moravia, tendo a acreditar que os leitores nunca estarão preparados para conhecer os escritores. Enquanto isso, o cinema é mais eficiente em nos contar histórias sobre quem escreve – assim poupamos escritores e leitores.

Chovia na Sexta-feira

 

Subiu quatro andares pela escada. Não agüentava mais o peso das sacolas. O cachorro do 301 latia incessantemente. Por duas noites seguidas não havia dormido por causa dele e como se não bastasse, o casal de recém-casados que morava no apartamento de cima brigara logo pela manhã. O supermercado, neste final de tarde chuvoso de sexta-feira, estava apinhado, não fazia idéia como sobrevivera. E também não fizera boas compras. A porta do apartamento no final do corredor, e lá vinha a lembrança de que ele estava uma bagunça. Completamente desorganizado e com a limpeza três semanas atrasada. Parou em frente à porta para procurar a chave.

Abriu a porta e colocou as compras para dentro. Evitou olhar para os lados. A bagunça parecia gritar e gesticular. As coisas queriam voltar para os seus lugares. Começou a desfazer as sacolas, arrumar o que havia comprado nas prateleiras e armários, logo toca o telefone. Vai até a mesa ao lado do sofá e tira o fone do gancho, diz alô e escuta a propaganda de alguma coisa da companhia telefônica. Nem escuta até o final e desliga. Conclui, sem pensar muito, que aquele havia sido um dia exaustivo, e por isso mesmo não era propício a reflexões demoradas. Decide sentar-se no sofá. As compras continuam parcialmente desempacotadas flutuando em meio à bagunça.

Pegou um catálogo de móveis que estava jogado no sofá e começou a folheá-lo. Mas isso não durou muito. Foi para o quarto, jogou a roupa que estava usando junto a tantas outras que por ali estavam. Deitou e ligou a televisão. O cachorro do 301 recomeçou sua manifestação de enfado, enquanto o barulho de panelas e gritos aumentava no apartamento de cima. Trocou de canal algumas vezes, não viu nenhum programa em particular, desligou a televisão. Virou-se, fez o sinal da cruz, rezou três pai-nosso e fechou os olhos. A janela do quarto estava aberta, a lua cheia tentava aparecer entre as nuvens mas estava longe de obter sucesso.

Nada como uma manhã de sábado para acordar tarde e ficar na cama sem ter o que fazer. Pois não era esse o caso. Levantou-se e foi ao banheiro, ele seria a primeira vítima da quase detetização que seria preciso fazer para deixar o apartamento, no mínimo, respirável. Tirou todas as roupas e toalhas que estavam lá e esfregou cada centímetro de azulejo. Depois foi a vez do quarto: lençóis, roupas, papéis, todos expulsos. Varreu tudo, tirou o pó, limpou a janela e levantou o colchão para ventilar. Nem parou para almoçar e seguiu direto para a sala. Foi empilhando os papéis, livros e catálogos na escrivaninha; as louças de refeições passadas foram jogadas na pia da cozinha. Calma, havia algo de estranho com a cozinha. Ela estava com um aspecto mais organizado que na noite anterior. O cachorro do 301, após uma breve pausa, recomeça a latir.

Já estava no segundo andar quando ouviu um assobio. Virou a cabeça de relance e viu uma criança pequena, no vão entreaberto da porta do 203, acenando. Dirigiu-se hesitante para a porta, a criança foi entrando e continuou acenando. Depois de alguns passos, já dentro do apartamento, a porta fechou-se. Outra criança, ou mais exatamente, a mesma, havia trancado a porta e sorria com a chave entre os dentes.

Estava entre as duas crianças, ambas sorrindo, idênticas na fisionomia e na ação. As crianças começam a entoar uma canção de ninar. As palavras não lhe ocorrem. As crianças dançam a sua volta, rodopiando. Um cheiro forte, vindo delas, vicia o ar. O apartamento começa a girar. As crianças param na sua frente, fazem um aceno, dão-se as mãos, correm em direção à janela, sobem, uma em seguida da outra, no parapeito e, sem cessar de sorrir, recomeçam a canção. As crianças, de mãos dadas, atiram-se pela janela. O chão do apartamento aproxima-se dos seus olhos. A calçada aproxima-se rapidamente das crianças.

Polícia. Ambulância. Sirenes. Vozes. Gritos. Vizinhos. Latidos. Choros. Não parara de chover. O calendário marcava lua cheia. Tempo de serenatas, passeios de barco, lobos uivando e caçando suas presas.

Domingo, mas o movimento do prédio só aumentara. Os velhos recebendo visitas dos filhos, netos, bisnetos. Os casais mais novos sendo vigiados pelos pais e amigos. Os filhos de pais separados sendo carregados e descarregados. Os solteiros chegando dos passeios. O sol fraco de inverno aparecia e gritava que a primavera viria em breve. Algumas pessoas acreditavam. Outras, apesar dos gritos, não ouviam. Muitas insistiam em teorizar contra.

As compras que estavam na cozinha, ainda dentro das sacolas, perguntavam-se quando chegaria seu momento de glória. As maçãs estragavam lentamente. O apartamento estava arrumado, as janelas abertas. O cão do 301 fora ao veterinário, depois de muitas reclamações veladas dos vizinhos, e estava tomando um calmante, não latia mais e todos esqueceram que um dia ele existira. O casal do apartamento de cima brigara no último final de semana, na frente dos pais dela que eram divorciados e ela, aos prantos, foi passar alguns dias com a mãe. O pai dela marcou de visitar o genro para assistirem futebol, torciam para o mesmo time, e disse que levaria a cerveja. Ninguém podia deixar de notar as novas vizinhas que mudaram para o apartamento 203. Três moças que estudavam e trabalhavam.

O jardineiro cumpria seu papel e plantava um pé de jasmim ao lado da calçada, na frente do prédio. O sol passeava. A lua às vezes aparecia. Para completar a semana, era sexta-feira. Chovia. A cidade estava conturbada. O cheiro de jasmim entrava pela janela do quarto e impregnava o colchão. Na sala, os papéis voavam com o vento e emprestavam ao ambiente um ar fantástico e bucólico. As compras, desprezadas nas sacolas, indignavam-se. As maçãs haviam desistido de esperar. A louça que estava na pia para ser lavada desistira e encaminhara-se para os armários. No sábado pela manhã o entra-e-sai do prédio recomeçara. A chuva esquecera-se de aparecer. O céu estava azul, as nuvens rodopiavam com o vento, uma mãe embalava um bebê no berço e cantava uma canção de ninar. As nuvens despediram-se e cederam seus lugares ao sol.

Histórias Vizinhas

 

Era quase a hora do sol se pôr, a rua estava deserta. Rua de cidade do interior, sem asfalto, algumas árvores pelas calçadas, casas antigas, jardins bem cuidados. Havia uma casa, de madeira, pintada de azul desbotado com janelas rosas que destacava-se das outras. Não só pela combinação gritante das cores como também porque era a única que parecia abrigar vida. Uma música, um pouco bolero, um pouco salsa, vinha de sua sala da frente. O som parecia embalar a rua e as árvores, ela ditava o ritmo do vento. O jardim também despertava a atenção pelo colorido e pela diversidade de flores e plantas. Apesar de pequeno, o terreno estava em comunhão com a casa e a música.

Uma menina loira, magra demais, com dentes de oito anos ainda não completos, corria, ou melhor, saltava pela rua em direção à casa. Trazia uma sacola de supermercado com tangerinas na mão direita e uma pasta preta no braço esquerdo. Ela abre o portão em estado precário do jardim e atravessa-o gritando e correndo ao mesmo tempo. Da janela da frente surge uma mulher loira, que pelos traços e sorriso diz ser sua mãe. A mulher está com um pincel na mão esquerda, e quando a menina entra na sala e lhe dá um beijo a sala apresenta-se como um ateliê de pintura. Muitas revistas, fotos e desenhos a carvão estão espalhados por todos os lados. Não pode-se mais chamá-la de sala pois não há nenhuma TV ou mesa de jantar. Apenas um velho sofá rasgado, embaixo da janela, um cavalete em frente e algumas almofadas pelo chão. A sala, não… o ateliê, o ateliê é grande e ocupa toda a extensão da parte da frente da casa. No canto esquerdo, entrando pela porta, há vários vasos com plantas grandes e de um verde saudável. Na parede em frente à porta há pequenos vasos, plantados também por alguém dito pequeno, com flores delicadas e coloridas. Não há mais nada ali. A pasta a menina deixa no chão, enquanto gira abraçada com a mulher. A menina começa a falar ininterruptamente e mostra as tangerinas. A mulher larga o pincel num pote com solvente e aperta as bochechas da menina, que sorri com o rosto sujo de tinta. As duas seguem para a porta que liga a sala, não é sala, é um ateliê, então, que liga o ateliê com o resto da casa.

Passada a hora do sol se pôr, chega de mansinho a noite que convida para conversas calmas e profundas. As duas estão sentadas na cozinha que tem uma porta para o quintal da casa. Quintal bem cuidado, com uma horta de temperos e árvores frutíferas. A cozinha também é simples. Sobre a mesa há um lampião que ajuda a iluminar o caderno da menina, há apenas duas cadeiras e um armário na parede, igual ao da pia. Não há fogão, somente um fogareiro de camping em cima do tampo da pia. A menina concentra-se arduamente para resolver as questões que não se mostram tão complicadas, mas ela não consegue fazer o que lhe é pedido sem esforçar-se demais. A mulher está sentada ao lado direito da menina e descasca uma tangerina. Aparece pela porta um cão sem raça, peludo e grande, abanando o rabo. Ele senta-se entre as duas e começa a latir. A mulher divide sua tangerina com ele que deita no chão de madeira para devorá-la.

Já é tarde. A rua continua vazia, o som da música se foi, agora nada tem vida. As janelas estão todas fechadas, os portões também. Poderia se prever alguma desgraça, ou infortúnio apenas, num cenário tão calmo que fosse assaltado por alguém desavisado. Mas o que acontece é outra coisa. Poderia se dizer que algo exatamente ao contrário? Não se sabe…

A lua minguante está alta. Algumas pessoas dormem tranqüilamente, outras não. As primeiras não estão necessariamente de consciência leve, são simplesmente pessoas que não pensam. As últimas, se não dormem tão bem, ou nem dormem, pensam. Pensam em coisas boas, sonhos talvez, ou em problemas e situações nas quais não gostariam de estar. Mas há quem esteja pensando na vida dos outros, pois a sua é tão sem paixão que é preciso viver a vida de alguém para suportar a própria. É uma dessas últimas que interessa agora. Ela, ou melhor, ele, é vizinho da casa da qual falava-se a pouco. E ele pensa na cena que viu na hora do pôr-do-sol. Aquela mesma que você viu. No entanto, ele viu só até o momento da chegada da menina. É um morador novo na rua, herdou a casa do tio que era solteiro, como ele, e havia ido morar lá para estar mais perto da avó, a única pessoa que restava da família. Ele está deitado numa cama de casal antiga, de madeira maciça, pesada e escura. A casa é a mais aristocrática da rua, pois a cidade não abrigava muitas pessoas de gosto tão austero. Não se pode dizer que a casa tinha um ar sombrio, seria dramatizar demais, porém seu jardim era triste e o mato tomava conta, assim como o cimento.

Como já foi dito, ele não estava dormindo. Imaginava, de olhos fechados, a cena que havia presenciado pela janela da frente da casa. Esta janela era da sala, uma sala mesmo, não era um ateliê porque nem ele nem o tio tinham ou pensavam que tinham algum dom artístico. Nem havia percepção artística neles. Ele seguia a menina com os olhos e reconstruía a entrada dela na casa. Após isto acontecer, ele começava a criar mentalmente os acontecimentos e, é claro, pode-se concluir que não eram fiéis aos narrados aqui. Por ter sempre vivido em ambientes sufocados, ele via a casa da menina do mesmo modo, cheia de móveis e pessoas. Crianças, prováveis irmãs e irmãos da menina, um pai displicente, como também havia sido o dele, uma mãe com as marcas do tempo e do trabalho escritas no rosto, como ele se recordava da sua. Ah, havia um cachorro que pulava e latia, e por isso era escorraçado da casa pelo pai furioso com o barulho das crianças e do animal. O pai reclamava exigindo que a mãe desse conta da bagunça, afinal ele queria um momento de paz para poder assistir à TV. Sim, nesta sala havia TV. E muitos móveis. A sujeira era visível, a desorganização era prova do excesso de trabalho que fazia com que a mãe deixasse as coisas por fazer.

Ele queria distanciar-se do quadro, tão familiar. Mas algo fazia com que ele fosse um observador quase personagem. A mãe foi servir a mesa e uma criança muito pequena, talvez a mais nova, puxou-lhe o avental, o que fez com que ela se desequilibrasse e ele, ali perto, estendeu a mão para segurar o prato que caía. A mãe olha para ele assustada, seu rosto desvanece num sorriso agradecido e cansado. Ela já não acredita que possa contar com a ajuda de alguém. Ele tenta transitar pela sala, uma náusea o toma de assalto. Não há espaço, nem ar puro. O pai fuma e bebe cerveja. De camiseta regata branca e suada, peito peludo, ele lhe atira um olhar de desprezo e não gasta seu tempo com o visitante onírico. Duas crianças brincam no espaço que há entre a TV e o sofá. Uma menina e um menino, mais ou menos da mesma idade. A menina puxa o cabelo do menino por conta de alguma desavença infantil. O pai escuta o grito estridente do menino, que começa a chorar teatralmente. A menina olha, como uma coruja, para o sofá onde o pai está sentado. Ele ergue-se imediatamente e berra. A cinta de couro, desgastada pelos anos de uso, é tirada com rapidez. A cena é congelada: a mãe arregala os olhos, entreabre a boca; as outras crianças postam-se como se estivessem numa cerimônia mística. A menina agressora, por assim dizer, treme um instante e mantém-se imóvel, o menino, o agredido, afasta-se lentamente da menina, que fica sozinha no meio do tapete vermelho e amarelo. A cinta vai baixando e no primeiro estalo seco do encontro do couro com a pele branca da menina a mãe soluça e agarra a menina mais nova como se houvesse uma tempestade e elas temessem os trovões. Algumas crianças fecham os olhos e parecem sofrer junto com a irmã, ou apenas recordar o seu próprio sofrimento de surras passadas. Mas outras crianças ficam extasiadas e não conseguem desviar o olhar, a dor não toma parte nos seus pensamentos, há apenas um espetáculo do qual eles participam, não importa se eles mesmos já estiveram no centro do picadeiro.

O vizinho vê a seqüência dos eventos numa lentidão ocasionada pelo seu cérebro que demora a organizar tudo aquilo. Ele mesmo sente o impacto de cada cintada, sua pele arde, seus olhos lacrimejam. A menina, que antes era agressora e agora é agredida, está em convulsões no chão, esparramada, desgrenhada, grita de dor, grunhe. O pai grita mais alto, fala em “paz”, manda que ela cale a boca, senão ele continuará a bater. A platéia assiste, cada um no seu devido lugar. O vizinho vira-se na cama, suspira e passa a mão nos olhos. Ele está suado. Abre os olhos e contempla o guarda-roupa, seu olhar vai para além do guarda-roupa, além do espaço do quarto. Nem ele sabe para onde.

Ele, depois de acordar, pois havia dormido um pouco, está sentado na janela da cozinha, que fica de frente para a parede lateral da casa azul. Há, ali, uma janela pequena de um quarto. Uma cama com lençol infantil, uma caixa de papelão com brinquedos baratos e um cavalinho-de-pau. A menina de seus pensamentos entra chorando no quarto, com as marcas da surra da noite anterior e outras que demoram a desaparecer. Ela fecha a porta e deita de bruços na cama. O pai entra logo em seguida, seu rosto aparenta um ar arrependido. Mas o vizinho vai entrando no quadro e vê que aquele rosto não trás nenhum arrependimento com ele. O pai senta na beirada da cama, fala baixinho com voz suave, o quanto uma voz de ferro pode ser suave, e passa a mão na cabeça da menina. O vizinho aproxima-se da cama, pelas costas do pai, e ouve-o dizer que nunca mais a machucará, que ele só quer o seu bem. Ele explica, com poucas palavras, que está cansado, que ela precisa aprender a ser obediente. O vizinho vê a mão do pai ir descendo pelo pescoço da menina numa carícia cortante. A menina soluça quase imperceptivelmente. A náusea toma conta dele e ele tenta sair dali, mas como algumas crianças que haviam ficado hipnotizadas no espetáculo da noite, ele fica ali, olhando a mão do pai descendo pela coluna da filha, passando pelas suas nádegas, apalpando-as, e seu olhar já não tem nenhum resquício de arrependimento. A mão ergue a saia da menina, ele diz que, finalmente, ela aprenderá a obedecê-lo. Ele tira brutalmente a calcinha da menina e a cheira de olhos fechados, extasiado. O vizinho acerca-se dos pés da cama, senta-se e vê o corpo seminu da menina. O pai levanta-se, abre a calça, apóia o joelho esquerdo onde ele estava sentado, depois as duas mãos, uma de cada lado da menina, e vai deitando-se devagar sobre ela. O vizinho fica ali, olhando. O suor escorre do pescoço e braços do pai, lágrimas dos olhos do vizinho.

Ele levanta-se da cadeira, já na sua cozinha, e leva consigo a xícara de café que está frio. Dirige-se a pia, joga o café no ralo e vai até o jardim pegar o jornal. Quando está descendo a escada, vê a menina loira passando na calçada da sua casa. Ela olha para ele e sorri timidamente. Ela carrega a pasta preta na mão direita. Ele sente-se nauseado e vira as costas para a menina, que arregala os olhos sem compreender e continua andando.

 

 

Domingo: Vivaldi e supermercados

 

Tocava Vivaldi e eu almoçava. Que porra era aquela? Era domingo e eu só queria sair. Tinha sol. Sol, entende? Semanas inteiras de chuva e era um domingo com sol. A lista do supermercado anotada na geladeira “ARROZ FRUTAS VERDURAS PIPOCA”. Antigamente e nem tão antigamente assim, supermercados não abriam aos domingos. Por que eles abriam, agora, aos domingos? Ninguém morreria de fome se eles não abrissem aos domingos. Supermercados, fechem aos domingos. Dêem aos seus funcionários o prazer dos domingos ensolarados. Ou dos domingos chuvosos, debaixo das cobertas com seus filhos, ou com os namorados fazendo filhos, matando ausências. Não irei ao supermercado. É um comodismo o qual eu não preciso. Anunciarei, à noite, em tom solene: não teremos pipoca para o filme de hoje. Com seis dias da semana para ir ao supermercado, por que eu iria no domingo?! Não via o fundo do prato. Eu só queria ir caminhando, com a parada para fumar meu cigarro diário escondido, até o parque. Queria sentar naquele banco em frente ao lago, fingir que era homem de exercícios na minha roupa de lycra e poliéster – e sem fôlego por causa do problema nos pulmões que o cigarro me dera. Ninguém desconfiaria. Sorririam como se eu fosse um deles – amante da natureza e da vida saudável. Queria ficar ali rindo escondido de todos que tropeçam naquela irregularidade da pista de caminhada. Por isso sento-me naquele banco. Imperdível. E Vivaldi. Acabei um prato e ele continua. Agora virá o prato principal. E ainda haverá sobremesa. Lá do banco espero ansioso aquela moça que caminha sempre bem devagar e com fones de ouvido. No mundo dela não existe mais ninguém. Ela olha e não vê. Como eu faço com meu sogro aqui ao lado. Que inveja dela! Frango assado e polenta. Que porra era essa?! O que adiantava ir ao supermercado se ela só cozinhava as mesmas coisas? Presto atenção… este trecho de Vivaldi eu intitularia “marcha para um suicídio”. Seria uma boa trilha para quando eu anunciasse “não irei mais ao supermercado aos domingos”. E a sobremesa. Pudim. Pudim, porra. O pudim da mãe, da vó, do buffet barato, de caixinha do supermercado. Pudim.

Vênus

 

Toda vez que olho o céu, e o faço todas as noites, procuro a estrela mais brilhante e penso que lá estão os que eu amo e que não estão mais ao alcance de um abraço. Pois quando eu era criança… nem tão criança porque já havia passado por aquelas coisas que nem adultos dão conta de viver, eu assisti àquele desenho, no qual o pai leão rei à beira da morte dizia ao filho que quando ele ficasse triste era para encontrar a estrela mais brilhante no céu e que lá estaria ele olhando pelo filho. Nem sei se foi nessa cena, sei que foi neste desenho. Enfim, desde então eu olho para o céu… e fico um tantinho mais triste quando as nuvens não me deixam encontrar a estrela mais brilhante.

Eis que encontrei uma bem bem bem brilhante, na porta de casa. Da varanda ou da rua, é só escurecer um pouco o céu e lá está ela, muito brilhante, sempre no mesmo lugar, por vezes solitária. A curiosidade me tomava: então agora eu tinha a minha estrela brilhante anti-tristeza com todos aqueles que eu amo do mundo de lá assim pertinho de mim?

Não, um dia descobri que não era uma estrela (bem achei que era estranha). Se eu fiquei triste? Não. Fiquei ainda mais feliz. Dizem que é Vênus. Sim, Vênus, aquele, o do amor.

E eu que já sou sempre fui (não se enganem, não é erro de digitação, é pra ser assim e contemplar um belo tempo verbal) apaixonada pelo amor, agora estou namorando-o. Me faz companhia, sempre olha por mim quando chego muito tarde em casa, passamos horas namorando na varanda, ao som de alguma canção, embalados em dúvidas e contemplações, admirando as companheiras de céu. Eu que ficava aqui a observar os aviões que chegam e partem, ouvindo e vendo um ir e vir charmoso, agora tenho companhia para tal. Às vezes brincamos de adivinhar qual o destino, ou a origem, do avião. Às vezes criamos histórias para seus passageiros. Às vezes prevemos tragédias. Vênus, aquele, do amor, não tira os olhos (ou o brilho) de mim. Às vezes… bem de vez em quando… ele não aparece, como hoje que umas nuvens de sujeira tomaram conta do lugar dele. Não sei se ele foi atender algum outro apaixonado, ou se foi intervir em alguma desavença, ou se anda enamorado de outra varanda. Eu não tenho ciúme. Senti falta dele quando vinha caminhando pela rua… senti falta dele quando fui fechar a varanda e senti falta da nossa longa e sorridente despedida – aquela de todo dia. Sei que amanhã, ou depois, ou depois, ele estará de volta. Por isso não me preocupo. O amor é assim. E é difícil chover por mais de três dias seguidos na Ilha.

 

Vênus

Toda vez que olho o céu, e o faço todas as noites, procuro a estrela mais brilhante e penso que lá estão os que eu amo e que não estão mais ao alcance de um abraço. Pois quando eu era criança… nem tão criança porque já havia passado por aquelas coisas que nem adultos dão conta de viver, eu assisti àquele desenho, no qual o pai leão rei à beira da morte dizia ao filho que quando ele ficasse triste era para encontrar a estrela mais brilhante no céu e que lá estaria ele olhando pelo filho. Nem sei se foi nessa cena, sei que foi neste desenho. Enfim, desde então eu olho para o céu… e fico um tantinho mais triste quando as nuvens não me deixam encontrar a estrela mais brilhante.

Eis que encontrei uma bem bem bem brilhante, na porta de casa. Da varanda ou da rua, é só escurecer um pouco o céu e lá está ela, muito brilhante, sempre no mesmo lugar, por vezes solitária. A curiosidade me tomava: então agora eu tinha a minha estrela brilhante anti-tristeza com todos aqueles que eu amo do mundo de lá assim pertinho de mim?

Não, um dia descobri que não era uma estrela (bem achei que era estranha). Se eu fiquei triste? Não. Fiquei ainda mais feliz. Dizem que é Vênus. Sim, Vênus, aquele, o do amor.

E eu que já sou sempre fui (não se enganem, não é erro de digitação, é pra ser assim e contemplar um belo tempo verbal) apaixonada pelo amor, agora estou namorando-o. Me faz companhia, sempre olha por mim quando chego muito tarde em casa, passamos horas namorando na varanda, ao som de alguma canção, embalados em dúvidas e contemplações, admirando as companheiras de céu. Eu que ficava aqui a observar os aviões que chegam e partem, ouvindo e vendo um ir e vir charmoso, agora tenho companhia para tal. Às vezes brincamos de adivinhar qual o destino, ou a origem, do avião. Às vezes criamos histórias para seus passageiros. Às vezes prevemos tragédias. Vênus, aquele, do amor, não tira os olhos (ou o brilho) de mim. Às vezes… bem de vez em quando… ele não aparece, como hoje que umas nuvens de sujeira tomaram conta do lugar dele. Não sei se ele foi atender algum outro apaixonado, ou se foi intervir em alguma desavença, ou se anda enamorado de outra varanda. Eu não tenho ciúme. Senti falta dele quando vinha caminhando pela rua… senti falta dele quando fui fechar a varanda e senti falta da nossa longa e sorridente despedida – aquela de todo dia. Sei que amanhã, ou depois, ou depois, ele estará de volta. Por isso não me preocupo. O amor é assim. E é difícil chover por mais de três dias seguidos na Ilha.

Oriente e Ocidente, quais são as novas respostas?

Vou arriscar começar assim:
“Mas voltemos ao salvacionismo de vocês, os representantes da decantada civilização ocidental…”

Essa frase é uma das tantas que permeiam o diálogo entre a professora e o tenente durante o jantar de despedida deste. Meus sustos foram muitos (e positivos) ao começar a ler O Prisioneiro, do meu amado Erico Veríssimo.

Ainda uns dias antes eu assistia a Saramandaia (sim, assisto novelas) e ao ver uma cena histórica da TV brasileira com Tarcísio Meira e Fernanda Montenegro contracenando lembrei do O Amor nos Tempos do Cólera. Em seguida pensei no Garcia Márquez, outro amor da adolescência, e em como me sinto quando sei que um autor, diretor, ator não produzirá mais livros, filmes. Garcia Márquez não morreu, mas infelizmente por questões de saúde é pouco provável que escreva mais alguma coisa. Com Erico é assim. Os livros dele, tão importantes para mim, estão aí. Pensando nisso procurei um que eu ainda não tinha lido, mas que guardava nas prateleiras, assim, antegozando um prazer que um dia se extinguirá. Eis que um deles era O Prisioneiro. Para quem se apaixonou pelas histórias de O Tempo e o Vento, ele segue um caminho mais próximo do Senhor Embaixador. Em nada menos apaixonante.

E então me dei conta do que vinha acontecendo. Havia assistido ao O Príncipe do Deserto, com o gostoso do Antônio Banderas, esperando pura diversão. Porém, como normalmente acontece, não foi bem assim. Aí fui ler um romance de banca de revista no intervalo das cruzes da vida. Era um duplo. E? Eram histórias que se passavam entre “lá” e “cá”, com direito a sheikes, antiguidades perdidas no Egito e tudo a que se tem direito. Numa sucessão assim, já meio desconfiada, caio em mim ao intercalar, num dia, o diálogo da professora e do tenente com Terre et Cendres.

Foi então que a questão da Síria tomou proporções maiores com a ameaça (que nunca é só uma ameaça) do Obama. Não acompanhei as notícias, não sou especialista em relações internacionais, não li intermináveis análises ocidentais (nem de direita, nem de esquerda), não fiquei esfuziante com teorias de conspiração, não fiz a piada do nobel da paz declarar guerra… aliás, não fiz piada alguma. Não fiz comentário algum. Ouvi e li brevemente uma coisa aqui, outra ali.

Eu me dei conta, com Terre et Cendres, que tudo estava girando em torno da complexa relação Oriente versus Ocidente. O livro do Erico deu o soco final enquanto o filme me deixou com aquela sensação que, infelizmente, não sei descrever.

Talvez eu tenha aprendido a responder ao “ah, você é árabe?” com o esclarecimento “não, sou sírio-libanesa” antes de saber soletrar meu nome e sobrenomes direitinho. Sim, tenho, por parte de mãe, descendência sírio-libanesa, bisavó síria casada com bisavô libanês, vindos do Líbano para fugir das agruras e guerras e que foram parar no interior do Paraná. Convivi muito de perto em alguns (talvez poucos) anos muito intensos com meu avô, filho deles, e minha avó que havia convivido com a sogra por muitos e muitos anos. Minha bisavó manteve e passou a eles o que trazia do seu mundo. Eu cresci comendo os melhores “charutinhos” do mundo, rodando a manivela do moedor de carne para fazer o kibe mais delicioso que eu já comi, aprendi cedo, com minha mãe, a fazer mjadra, faço a melhor sfiha que eu conheço. Lembro de ter ouvido pouca coisa de árabe pela casa porque meu avô conhecia, entendia mais do que sabia escrever, minha mãe nunca aprendeu, e meu avô tinha amigos brimos.

Me orgulho muito disso. Por criação e por sangue, tenho forte muitos sentimentos e características dessa descendência.

Diante de uma relutância pessoal em escrever sobre algo tão intrincado, pensei em como no Brasil ainda é tão pouco conhecida e valorizada esta cultura. Hoje já exigem ensinar História da África nas escolas, mas a maioria dos brasileiros não tem um pingo de idéia sobre a História do Oriente. Eu sou sortuda e tive um professor muito bom que por interesse próprio havia estudado e conhecia a história dos povos árabes e dava aulas apaixonadas sobre. Até hoje, para dar a proporção da ignorância, me perguntam sobre a minha religião. Sou católica e minha formação religiosa vem justamente da minha bisavó síria – foi a religiosa mais fervorosa das minhas famílias, inclusive. Outro exemplo é perceber como as pessoas não têm idéia de onde vem o apoio (até onde li, único) da França ao provável ataque que o Obama fará. Quem estudou a questão da França e da Síria na escola?

Os povos árabes, talvez ainda de maioria sírio e libanesa, que vieram para o Brasil são uma massa informe retratados como mascates em filmes e novelas e livros – lembram do Nacib de Gabriel, Cravo e Canela? Na novela das nove da Globo, Amor à Vida, a família do Antônio Fagundes é Khury (há uma variação na grafia por conta da transliteração e, claro, dos problemas de comunicação da época da imigração), sobrenome bastante comum na região e que significa Padre. Não sei qual foi o motivo da escolha por um sobrenome árabe para a família porque a escolha não parece relevante nas características dos personagens nem na cultura – só se foi porque queriam ligar ao hospital famoso. Aliás, esse é um exemplo de que os que vieram pra cá também fizeram muito e não eram apenas mascates. Aliás, eu não vi direito nem entendi (a novela tem realmente coisas bem confusas), mas a irmã do Antônio Fagundes tem um filho que parece ter seu potencial na trama ligado à religião, mas eu não sei qual é.

Mas essas histórias muita gente não conhece. Hoje há levas de imigrantes árabes de outras nacionalidades e religião, é só andar ali pelo centro de Florianópolis e conhecer muçulmanos, egípcios, sauditas. Uma vez presenciei a cena de dois árabes (não sei a nacionalidade), um dono do restaurante onde estávamos, discutindo sobre um acontecimento da época e colocando a culpa nos judeus.

Diante da ignorância da história e da cultura – e eu diria mais: valores – de um povo, avultam opiniões e comentários, às vezes dignos de só saber pedir umas sfihas no Habbib´s.

Não vou recorrer ao academicismo nem ao Said e companhia. Aqui não é lugar pra isso.

Eu queria escrever sobre um sentimento. O sentimento que eu tenho por ter sangue árabe. Por ter presenciado fatos da minha família que se explicam (e muito) só por se ter em mente como e por quem fomos criados. Eu queria conseguir escrever sobre isso. Me sinto incapaz. Mas é com Terre et Cendres que eu vou tentar.

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O filme se passa no Afeganistão. Um avô, um neto. Uma missão. Uma guerra. E só. E é assim, com paisagens rarefeitas, palavras exatas, lapidadas, valores intrínsecos que o filme se concretiza. Não há drama como estamos acostumados, não há excessos. Há dor – por todos os lados, em todas as revelações. Não há posses, nem de terra, nem de nada. Enquanto assistia, senti uma necessidade de escrever sobre ele e foi na cena do bombardeio, mais exatamente no plano do menino no meio dos destroços, que ela se efetivou. O rosto daquele menino foi provavelmente a expressão mais contundente de todo o filme. A caminhada dele e do avô, a relutância camuflada em ver o filho e ter que lhe dar a notícia de que sua esposa e toda a família, exceto ele e o filho, morreram é angustiante. O personagem do menino é um dos melhores que vi até hoje no cinema. Não vou contar o motivo – vai que vocês se entusiasmam e decidem assisti-lo, né? Mas quando revela-se algo dele, você começa a percebê-lo de outro modo – e tudo fica ainda mais doloroso. Eu teria restrições em relação às imagens da esposa nua que aparece nos sonhos e delírios do avô, mas provavelmente é implicância minha. O personagem da banca ao lado da portaria das minas é um símbolo de sabedoria e experiência, característica dos povos árabes. Mas é nas minas, ao descobrir que o filho já sabe que a sua aldeia foi dizimada e continua lá trabalhando (sorry, contei!) que eu vi duas das características mais fortes que sinto tendo o sangue sírio-libanês: a família e a honra. São laços, valores, que talvez neste mundo ocidental (criação forçada, forjada, falsa, à guisa de poder e expansão, com os pés na ganância e sujos de sangue e violência) não tenham sido perpetuados. E é essa a diferença de uma tradição de milhares de anos diante de uma que tem algumas poucas centenas.

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O avô-pai sente-se ultrajado porque o filho, tendo recebido a notícia da praticamente certa morte dos seus familiares ficou lá trabalhando e não foi enterrá-los. Enterrar seus mortos, para os árabes, é uma questão de honra – seguida, obviamente, pelo apego e respeito à família.

Lembrei do A Hora mais Escura e de todo o embróglio que houve quando supostamente mataram o Osama Bin Laden e não deram um enterro digno e nos rituais da religião dele porque queriam evitar uma peregrinação ao local onde ele seria enterrado. No filme, aliás, o único ponto relevante é que em nenhum momento há (para o espectador) a confirmação visual de que o morto é o Osama e nem a agente confirma que ele é quem ela caçava.

E aí voltamos para a questão dos Estados Unidos. Não, não sou anti-americanista. Acho que posicionar-se assim nos dias de hoje é pura estupidez – e nem digo ideológica. Viva sem o que aquele país produz, dissemina, discursa e depois conversamos. O cara mais anti-EUA que eu conheci era um que bebia coca-cola de manhã, de tarde e de noite. E nem se dava conta do que fazia e do que falava. Me parece estupidez, também, buscar teorias conspiracionais sem fim. Me deu um cansaço ler “os EUA afirmam que foram usadas armas químicas na Síria”. Todo mundo lembra que eles afirmaram que havia armas químicas no Iraque, né? Aliás, tudo que eu via e lia se relacionava com a questão Oriente versus Ocidente, até a sensacional bosta O Ditador, do Sacha Baron Cohen. O filme merece uma análise mais detalhada, é verdade.

” – Mas acredita que este povo esteja suficientemente maduro para a liberdade?
– Não se trata de estar ou não maduro. Todo ser humano tem um direito natural à liberdade. E, afinal de contas, quem é que vai decidir no mundo que povo está ou não maduro, quem tem ou não direito à liberdade? Vocês? Por quê? Porque são fortes econômica e militarmente? Ou porque são os representantes da vontade divina na Terra?”

Eis que li isso no mesmo dia que tudo se deu: a ameaça americana e o Terre et Cendres. Erico Veríssimo escreve uma fábula contundente sobre o posicionamento estadunidense diante “dos outros”. Digo fábula porque os personagens não têm nomes (eu fiquei particularmente emocionada, porque gosto de escrever sem dar nome aos meus personagens), não há contexto, não há datas e referências históricas, nem geográficas. Ele nem cita que o tal país que vai decidir que povo está ou não maduro ou que tem ou não direito à liberdade é os Estados Unidos. Ele não precisa fazer isso. E é neste diálogo que a professora confronta o tenente, americano e mestiço (meio negro, meio branco – e há também a discussão sobre a condição do negro nos EUA da época), com esta superioridade americana diante de todos os outros. Os outros povos nunca estão maduros para a liberdade e porque eles detêm poder e armamentos são eles que definem as regras do jogo – e, claro, de lambuja, defendem os civis oprimidos e satanizados por ditadores cruéis.

A resposta da professora resume algo que eu sempre pensei antes de conhecer e refletir mais sobre as coisas: “O que eles ainda querem é viver a sua vida sob governo próprio e com liberdade.”. Eu já narrei aqui como vi a guerra do Iraque e Bagdá sendo bombardeada. Me dói. Porque não há presidente nem congressista nem povo americano que consiga compreender o que o povo “do lado de lá” pensa e como faz as coisas. Não estou, com isso, dizendo que apoio ditaduras – aliás, quero frisar que nem a cubana. E volto à professora: “- Saiba que detesto qualquer totalitarismo, seja qual for seu disfarce ou pseudônimo. Mas o que me alarma, tenente, é que, à força de combater os comunistas, vocês acabaram por imitar-lhes a linguagem, o método de ação e até a moralidade…”. Na época era o Comunismo que o mundo via ser o monstro construído pelos americanos. A professora diz ao tenente aquilo que também se aplica à ditadura das esquerdas (e, Brasil contemporâneo como bom exemplo, não só às ditaduras): prega-se e luta-se por algo que transfigura-se quando da tomada do poder. No guerra, os americanos vão para perpetuar as mesmas atrocidades que combatem. Terre et Cendres é sobre isso também.

Entre formas de governo e regimes econômicos, acho-os todos velhos. Sou contra totalitarismos. Mas não defendo nem acredito na democracia. Já fui defensora feroz dela. Hoje acho-a velha, ultrapassada, decadente, insuficiente para o nosso mundo. Antes mesmo de ler Paul Hirst, A Democracia Representativa e Seus Limites, talvez influenciada pelas leituras da Filosofia Clássica do começo do curso de Filosofia, vi que eu defendia algo que não fazia mais sentido porque nem era como na sua origem. Lamentei por alguns anos que dentre tantos intelectuais não tenhamos nenhum que tenha criado algo novo, uma forma de governo que contemple necessariamente (o mundo ocidental atual assim o exige) um modelo econômico que seja compatível e que contemple o mundo de hoje. Democracia não nos serve mais. Totalitarismos, ainda mais na América dos “ridículos tiranos”, são impensáveis. Monarquias são motivo de chacota. Mas, eu me pergunto, como então devemos organizar política e economicamente o nosso mundo? Não vejo respostas, e, assim, considero, sim, um crime querer atacar um país para levar as bonanças de uma sociedade falida como a nossa. Se não há uma proposta nova, os meios continuam velhos também. E virão as bombas.

Sei que parece utópico. E provavelmente a característica menos compreendida do utopismo seja a de acreditar que ele não é impossível. Eu quero crer que há ou haverão mentes capazes de dar uma resposta nova para os modelos políticos e econômicos ultrapassados. Lembro bem das aulas de História quando um professor, ao falar de reis, Estados, poderes, sempre os colocava assim: surgimento, ascensão, declínio e queda. Não seriam as histórias todas elas assim? Por que a democracia ou o capitalismo deveriam ser eternos? Meu ser intelectual quer crer que teremos alguma saída.

Ironiza a professora: “Mata-se em nome de Deus, em nome da Pátria e em nome da Democracia, essa deusa de mil faces cuja fisionomia verdadeira ninguém nunca viu.”. E assim Erico expandiu sua crítica, pois matar em nome de Deus, das pátrias ou de uma idéia como é a democracia, é simplesmente matar e nada mais. Me pareceu muito sutil esta frase porque a questão com os povos árabes ainda não tinha as proporções que tem hoje.

Eu seria utópica se esperasse que o mundo ocidental respeitasse o mundo oriental. Não há respeito e assim desconsideram-se os valores, as tradições, os milhares de anos e toda a complexidade do espaço e das pessoas que lá vivem. Não é preciso entender – até porque nem conseguiríamos – apenas respeitar.

Por isso, continuarei sem ler os deuses das análises políticas deste lado do mundo – e, talvez, também do outro. Li uma reportagem sobre uma moça egípcia que fez um documentário sobre as mulheres durante as últimas revoltas no país dela na qual ela dizia que foi motivada justamente porque o que diziam os jornais do ocidente (ela estava na Inglaterra na época) e também de lá não conseguiam contemplar a complexidade da situação delas. Surgem clichês, péssimas interpretações, análises ideológicas. Pretendo ignorar a esquerda ocidental anti-americanista. Estes, por sinal, são os que se atêm somente às ações dos EUA, seus interesses econômicos, e nunca voltam seus olhos para as condições do povo que tornou-se alvo dos ataques americanos. Eles são contra qualquer coisa que os americanos fazem – menos, talvez, à coca-cola.

Tenho o sentimento claro de que não posso fazer nada. Mas acho que a forma que eu lido com ele me foi passada pelo sangue sírio-libanês. Com tanta evidência do Oriente Médio, as pessoas poderiam, pelo menos, procurar saber mais do que e de quem se trata. Pelo menos. Assim eu ouviria menos a já tão chata “é muçulmana?”. Não, não sou. Tenho um Alcorão, estudei o Islamismo como estudei outras religiões porque amo isso (e porque tive um professor sensacional de Filosofia da Religião). Minha mãe tem medo de que eu me converta, vejam só. Me apaixonei pelo Islamismo porque me aproximou de certas coisas e porque conhecimento é assim: apaixona.

Já me alonguei demais, mas vou citar brevemente o único momento no qual comentei com outras pessoas a situação de eminente guerra na Síria. Foram três declarações: 1. ah, mas é que ele usou armas químicas lá, eles provaram; seguida de 2. guerra é guerra, não importa, e eu sou contra; e, por fim, 3. não interessa nada disso, eles (os EUA) sempre arranjam motivo pra se meter em tudo. São opiniões facilmente encontradas por aí. Já comentei sobre a primeira e a segunda (sim, falem do petróleo, do arsenal bélico que os EUA precisam desovar, etc). Faltou comentar a segunda, praticamente não ouvida por aí, e da qual eu compartilho: guerra é guerra e eu sou contra. Não adianta, sou contra violência, sou uma pacifista. Como disse antes, também não considero justificável o uso de armas químicas. Quem sabe, tal como com a democracia e com o capitalismo, não precisamos aqui de uma nova resposta? Como responder a um ditador que usa armas químicas (caso elas tenham sido usadas)?

Precisamos, enfim, de muitas novas respostas e idéias realizáveis. As que estão aí já não nos servem mais – e digo isso sobre o Ocidente, nas quais devem estar incluídas como tratar da relação com o Oriente Médio, posto que ela só tem sido uma sucessão de erros (uma sugestão: o conhecimento é um bom começo). Onde estão nossos intelectuais e políticos?

Afinal, como dizem, 2013 e ainda querem sair bombardeando os outros?

Cansei do convite para o café

Cansei do convite pro café. Cansei do convite pra assistir a um filme. Todo mundo já sabe o que ambos significam, né?

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Há pouco tempo fiquei com trauma de ir à biblioteca da universidade. Entrei, busquei o que eu queria, saí e um cara me barrou. Papo de “te vi, gostei de você e queria te convidar pra um café”. Agora até bibliotecas são campo de caça? Logo minhas bibliotecas sagradas? Aí um outro dia, na biblioteca de outra universidade, entro rápido, cabeça baixa, pego o que quero e saio correndo. À noite, no Facebook, lá vem um dizer que me viu, que eu passei ao lado dele. E veio com o mesmo papo. Eu tinha desconversado o convite pro café – afinal, todo mundo já sabe, não tomo café – e tinha fugido do convite para o cinema – ele ainda tinha sugerido um filme francês porque, óbvio, acha que eu só assisto coisa cabeça (o filme que ele sugeriu não era nem de longe cabeça, mas, vejam só, era francês). Aí ele insistia em me convidar para beber – afinal, todo mundo sabe que eu bebo bem – e eu me saí com “só bebo em casa e sozinha” – o que, aliás, tem sido verdade verdadeira.

Sabe, é chato. E eu cansei. Eu não aceito convite pra café não só porque não tomo café (e uns revoltados dizem “um suco, então!”) como porque acho totalmente sem criatividade o convite e porque sei o que ele significa. Não quero. Já vivi e vi coisas o suficiente para prezar a criatividade masculina em primeiríssimo lugar – posto que é tão rara. Também não aceito assistir a filmes na casa de ninguém. Ir ao cinema também não faço questão. Porque normalmente o cara já vem com a sugestão de um filme que acha que eu vou gostar.

É como me convidar pra ir pra praia. Só faz isso porque “sabe” que eu gosto de praia. (posso dizer com certeza que ninguém sabe “como” e “o que” eu gosto em praias) Tem esses, os que buscam te convidar ou falar de coisas que eles intuíram ou imaginam que sabem que você gosta ou te interessa. Soa tão falso. E falsidade eu dispenso. Eu não espero que a pessoa seja o que eu quero ou gosto. E qual relacionamento teria boa base num fingimento de coisas que se gostam ou são? Só para dali meses ou anos descobrirem que o outro era aquela – aquela velha – ilusão que temos a respeito daquele por quem nos apaixonamos?

Tem coisa pior: “acho que nós temos coisas em comum”. E quem disse que eu quero alguém que tenha coisas em comum comigo? Essa ouvi semana passada. E fiquei realmente “passada”. Sou muito mais de gostar do oposto, de ver discordância no relacionamento, de enfrentamento. Já disse, não acredito em alguém que sempre concorda comigo. Não acredito. E não suportaria alguém assim.

São tantas fórmulas prontas… e eu cansei. Disse minha amiga hoje que me vê escrevendo cartas (isso, essas de papel que vão pelo correio) para me relacionar com uma “certa” pessoa. Sabe, prefiro isso. Prefiro fugir da obviedade, sempre. Detesto as frases e convites feitos. Claro, incluo aí as variações do tipo “quer tomar uma sopa de batata?”, “vamos a um buffet de sopas?”, “também adoro pedalar”. Pois é, eu também nunca entendi a tara por sopa, mas, enfim…

Uma amiga relatou o caso da ex do marido dela. A guria, daquelas sem noção (fico pensando se não é ariana), vive rodeando a família do ex, os irmãos e tal. Cogitamos até que ela estivesse interessada em algum deles. Aí a amiga fez um desabafo numa rede social e indicou o site Par Perfeito pra moça. Eu, feliz da vida sem nunca ter entrado nesse tipo de site, fui ver como era.

Aí hoje outra amiga disse que recebeu e-mail deste e de outros dois, Match e eHarmony. Fui ver.

Primeira coisa que já achei incompatível comigo: escolher. Não sei… Amor escolhe até a cor de olho? Sério?

Match e Par Perfeito são iguais. Rola desde só sexo e casados até namoro sério ou só amizade. Nem em relação a isso eu tenho preferências. São poucas perguntas e você pode escolher faixa etária (eu sempre coloco dos 18 aos 53 – não pode ser (infelizmente) menor de idade nem da idade do meu pai pra mais), cor do cabelo, tipo do cabelo, “etnia”, peso, altura. Vejam só, nem coloquei foto mas fiz sucesso com meu um metro e sessenta e um. Nem preenchi tudo também porque não vejo sentido nem tenho paciência. Além da idade, assinalei duas coisas: não-fumante e signo. Se tivesse entre 18 e 53, não fumasse e fosse de três determinados signos, cairia na minha pesquisa. Porém, o site é burro e só me mandava capricornianos (que, obviamente, não estava na minha lista). Aliás, cheguei à conclusão que este tipo de site é ótimo para capricornianos. Sabe o tipo que chega e diz “quero uma loira, um metro e setenta, que tenha graduação, sem filhos, solteira”, então. Mas pra piscianos fica bem complicado. Sabe, nós esperamos o príncipe encantado chegar de cavalo branco no momento mais oportuno, na melhor quadratura da lua, trazido pela mão do Destino. Não é lindo?!

:D
😀

Recebi alguns e-mails de interessados. A maioria escrevia muito mal (para além dos erros de ortografia, inclusive). Aí já brochei. As frases feitas eram das piores. As tentativas de parecer ser aquilo (ou aquele) que eu buscava eram ainda mais frustrantes. Já me apaixono facilmente por pessoas inventadas por mim que cabem nos meus sonhos como ninguém. No caso das pessoas reais não preciso inventar nada – nem eles precisam inventar-se. Aliás, sobre “certa” pessoa (que talvez não dê em nada, para minha real tristeza) eu tinha um receio enorme e confessei-o para a amiga. Não seria só mais um “amor inventado” da minha parte? Me perguntei isso porque, bem, a história é complicada e interessante, mas senti que eu não poderia fazer isso com ele como já fiz algumas outras vezes. E eis que a amiga, querida, me diz que todos são. Todos são inventados? Então não devo me preocupar com isso.

Conversa vai, conversa vem, pergunto para a amiga o que faz de mim “namorável” (o que já considero uma praga) quando divagamos sobre nossos “problemas” de relacionamento. A resposta dela foi certeira e a conclusão foi de que homem gosta de sofrer. Aquilo que tanto falamos machistamente de “mulher de malandro” e que “gosta de apanhar” também é aplicável aos homens.

Enquanto conversávamos eu fiz o cadastro do eHarmony. Gente, que coisa interminável… levei mais de hora pra responder tudo! Quase dormi na frente da tela. Mas num momento comecei a me divertir com as questões. Eu sou um monstro – pensei enquanto analisava minhas respostas. Não tenho confiança no outro, não sou sociável, não sou compreensiva, priorizo a liberdade, coloco dinheiro em último lugar na vida. Um monstro. Aí o site, depois de vasculhar os recônditos da tua personalidade e sexualidade – só faltou perguntar qual posição sexual era a minha preferida e qual a cor do esmalte que estou usando, o que, aliás, seriam de suma importância! – ele fez uma busca para encontrar pessoas compatíveis comigo. E a busca foi mais interminável do que o questionário…

...

Enquanto esperava comentei com a amiga que, pelo tempo, o príncipe encantado deveria ter ido comprar o cavalo branco e eu já podia escolher as flores do buquê. E não é que… ele trava. Ficou um tempão buscando e nada. Como eu e a amiga já tínhamos falado, ia dar um erro do tipo “como já disse seu pai, do jeito que você é ninguém vai te aguentar”. Bem, até aí eu já estaria satisfeita!

O eHarmony me pareceu bem mais sério do que os outros. Mas todos mandam mil e-mails. No eHarmony até encontrei umas coisinhas interessantes (mas ele só encontrou nove indicados para mim), mas não vi as fotos. Aliás, em nenhum coloquei foto. Era só pesquisa de campo. Mas digo: eu julgo pelas aparências. Me condenem. No Par Perfeito só tinha feio. Feio ou velho assanhado. Mas todos feios. Feio não dá. Ah, não levem isso para quem procura mulheres! O índice de beleza feminina é bem maior! (sim, eu coloquei buscar mulheres também e até que apareceu coisas pegáveis)

pois é... me julguem.
pois é… me julguem. Retirado da melhor página do Facebook: Suricate Seboso!

Tem gente que serve pra isso, capricornianos e virginianos, por exemplo. Mas piscianos são mais raros de encontrar por essas bandas. Ah, tem leoninos por lá esperando elogios e aqueles que dizem “gosto muito do meu corpo, cuido muito do meu corpo, acho que um corpo bem cuidado é fundamental” (recebi um e-mail assim, acabei de copiar dele, e quando o cara escreveu “corpo” pela sétima vez eu parei de ler). Ou aquele que diz “adoro ler, mas faz séculos que não pego um livro, mas gostei bastante do Privataria Tucana”. Tem de tudo, gente. Eu não julgo só pela aparência, eu julgo pela escrita, pelas contradições, por tudo.

E aí a resposta da amiga sobre o motivo de eu ser “namorável” bateu com a análise de personalidade que o eHarmony fez. Uma análise muito boa! Em certos aspectos até melhor do que mapa astrológico. A conclusão é que eu não sirvo pra namorar, os que me querem pra isso é porque vêem como desafio, com a possibilidade de me domar. Tadinhos. Claro que saiu lá que sou egoísta, individualista, que ajudo os outros depois de pensar, diz assim, no resumo, “você consistentemente cuida de si mesmo” (em letras garrafais), diz que eu acho fundamental que as pessoas saibam cuidar de si mesmas, diz que eu não acredito que estou fazendo favor algum quando ajudo alguém (isso os amigos sabem bem!), diz que eu prezo a independência e que estímulo isso nos outros porque ter um tempo para cuidar de si mesmo é o que todos deveriam fazer, diz que sou responsável (óin), que sou muito dura comigo mesma e que isso me dá respaldo para ser crítica em relação aos outros (ui, gente, e eu pego pesado nisso), diz que apesar de tudo as pessoas admiram a minha franqueza (tenho cá minhas dúvidas).

E eu gostei particularmente da lista de “qualidades” que eu conquistei depois de responder às mil perguntas:

Intransigente

Franco

Astuto

Crítico

Empírico

Forte

Perspicaz

Cético

Esperto

(necessariamente nesta ordem!).

E aí eu perguntaria novamente pra amiga, já que ela concordou com a essência da minha análise de personalidade: por que mesmo eu pareço “namorável”?! Vejam bem, intrasigente ficou em primeiro lugar e está no lugar certíssimo!

Eu que pensava que não são características ou respostas ou cor de olho e altura que nos fazem encontrar o amor… continuo pensando assim. Também continuo acreditando que não são com convites clichês, falta de criatividade e pessoas tentando ser quem não são que se aproxima alguém. Porque não acredito na conquista, pois ela demanda submissão e eu não gosto disso. Não é preciso conquistar ninguém. É preciso aproximar. Eu me sinto muito próxima de pessoas que pensam um tanto muito igual a mim e um outro tanto justamente o oposto.

;)
😉

Entre os pensamentos que geram pauta para o blog estava o quanto a internet aproxima e afasta as pessoas. Pensava nisso semana passada. Sim, posso muito bem acabar me correspondendo por cartas com quem está do outro lado do mundo. Talvez me sinta mais próxima dele do que se eu ligasse a webcam do skype todo dia. Aliás, qualquer “todo dia” pra mim só causa a sensação de afastamento. Nada como me ver e falar comigo todo dia para me ter bem distante. Fica o alerta para algumas amigas, pois nos falamos com frequência pela internet, mesmo morando na mesma cidade (tá, eu sei que às vezes viajo demais) nos vemos pessoalmente pouco porque achamos que mantemos este contato. Apesar da minha falta de qualidades, sou um tantinho passional. Não duvidem.

Nunca conseguiria me sentir próxima de alguém que preenche uma ficha interminável de qualidades, defeitos e interesses num site. Nunca. A melhor coisa para aproximar ainda é uma boa conversa. Ah, me dirão, para isso que serve o convite do café! Não, não é. O convite já vem com vários comportamentos e idéias pré-determinados. E eu não gosto disso. Eu gosto do frisson, da ansiedade, do interessar-se, do convergir e do divergir.

Como nas redes sociais onde temos que responder mil coisas sobre nós… ou que publico mil coisas. Nada disso diz tanto assim de mim, não duvidem. Por isso cansei dos papos que já vêm roteirizados por isso que está aí respondido, preenchido, exposto. Eu quero o que não se sabe. E descobri isso quando me vi diante dele.

(ps: seja Destino ou não, aposto na “certa” pessoa e se não der em nada, de novo, estarei por aí; os cadastros foram devidamente deletados, pois serviu apenas como confirmação e pesquisa de campo.)

(ps2: sim, sei que farão objeções às minhas objeções a estes sites, mas a única coisa que eu consegui inferir de um dos inscritos foi que ele era racista, pois colocou que se interessava por todas as cores de pele, menos negra.)

(ps3: meses depois… a tal ‘certa’ pessoa não deu em nada – só fez crescer minha lista de mensagens não respondidas do ano – e encontrei numa outra pessoa, sem convites para café nem banalidades do tipo, através de uma excelente conversa toda a aproximação que eu precisava. Voltei a sentir coisas que há séculos não sentia. E nem usei nenhum site.)

(ps4: o ano é 2016, o texto todo continua válido, até a eterna espera por “certas” pessoas – só a idade dos candidatos que mudou, pois agora é de 18 a 59 anos. O tempo passa, meus caros.)

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