Chovia na Sexta-feira

 

Subiu quatro andares pela escada. Não agüentava mais o peso das sacolas. O cachorro do 301 latia incessantemente. Por duas noites seguidas não havia dormido por causa dele e como se não bastasse, o casal de recém-casados que morava no apartamento de cima brigara logo pela manhã. O supermercado, neste final de tarde chuvoso de sexta-feira, estava apinhado, não fazia idéia como sobrevivera. E também não fizera boas compras. A porta do apartamento no final do corredor, e lá vinha a lembrança de que ele estava uma bagunça. Completamente desorganizado e com a limpeza três semanas atrasada. Parou em frente à porta para procurar a chave.

Abriu a porta e colocou as compras para dentro. Evitou olhar para os lados. A bagunça parecia gritar e gesticular. As coisas queriam voltar para os seus lugares. Começou a desfazer as sacolas, arrumar o que havia comprado nas prateleiras e armários, logo toca o telefone. Vai até a mesa ao lado do sofá e tira o fone do gancho, diz alô e escuta a propaganda de alguma coisa da companhia telefônica. Nem escuta até o final e desliga. Conclui, sem pensar muito, que aquele havia sido um dia exaustivo, e por isso mesmo não era propício a reflexões demoradas. Decide sentar-se no sofá. As compras continuam parcialmente desempacotadas flutuando em meio à bagunça.

Pegou um catálogo de móveis que estava jogado no sofá e começou a folheá-lo. Mas isso não durou muito. Foi para o quarto, jogou a roupa que estava usando junto a tantas outras que por ali estavam. Deitou e ligou a televisão. O cachorro do 301 recomeçou sua manifestação de enfado, enquanto o barulho de panelas e gritos aumentava no apartamento de cima. Trocou de canal algumas vezes, não viu nenhum programa em particular, desligou a televisão. Virou-se, fez o sinal da cruz, rezou três pai-nosso e fechou os olhos. A janela do quarto estava aberta, a lua cheia tentava aparecer entre as nuvens mas estava longe de obter sucesso.

Nada como uma manhã de sábado para acordar tarde e ficar na cama sem ter o que fazer. Pois não era esse o caso. Levantou-se e foi ao banheiro, ele seria a primeira vítima da quase detetização que seria preciso fazer para deixar o apartamento, no mínimo, respirável. Tirou todas as roupas e toalhas que estavam lá e esfregou cada centímetro de azulejo. Depois foi a vez do quarto: lençóis, roupas, papéis, todos expulsos. Varreu tudo, tirou o pó, limpou a janela e levantou o colchão para ventilar. Nem parou para almoçar e seguiu direto para a sala. Foi empilhando os papéis, livros e catálogos na escrivaninha; as louças de refeições passadas foram jogadas na pia da cozinha. Calma, havia algo de estranho com a cozinha. Ela estava com um aspecto mais organizado que na noite anterior. O cachorro do 301, após uma breve pausa, recomeça a latir.

Já estava no segundo andar quando ouviu um assobio. Virou a cabeça de relance e viu uma criança pequena, no vão entreaberto da porta do 203, acenando. Dirigiu-se hesitante para a porta, a criança foi entrando e continuou acenando. Depois de alguns passos, já dentro do apartamento, a porta fechou-se. Outra criança, ou mais exatamente, a mesma, havia trancado a porta e sorria com a chave entre os dentes.

Estava entre as duas crianças, ambas sorrindo, idênticas na fisionomia e na ação. As crianças começam a entoar uma canção de ninar. As palavras não lhe ocorrem. As crianças dançam a sua volta, rodopiando. Um cheiro forte, vindo delas, vicia o ar. O apartamento começa a girar. As crianças param na sua frente, fazem um aceno, dão-se as mãos, correm em direção à janela, sobem, uma em seguida da outra, no parapeito e, sem cessar de sorrir, recomeçam a canção. As crianças, de mãos dadas, atiram-se pela janela. O chão do apartamento aproxima-se dos seus olhos. A calçada aproxima-se rapidamente das crianças.

Polícia. Ambulância. Sirenes. Vozes. Gritos. Vizinhos. Latidos. Choros. Não parara de chover. O calendário marcava lua cheia. Tempo de serenatas, passeios de barco, lobos uivando e caçando suas presas.

Domingo, mas o movimento do prédio só aumentara. Os velhos recebendo visitas dos filhos, netos, bisnetos. Os casais mais novos sendo vigiados pelos pais e amigos. Os filhos de pais separados sendo carregados e descarregados. Os solteiros chegando dos passeios. O sol fraco de inverno aparecia e gritava que a primavera viria em breve. Algumas pessoas acreditavam. Outras, apesar dos gritos, não ouviam. Muitas insistiam em teorizar contra.

As compras que estavam na cozinha, ainda dentro das sacolas, perguntavam-se quando chegaria seu momento de glória. As maçãs estragavam lentamente. O apartamento estava arrumado, as janelas abertas. O cão do 301 fora ao veterinário, depois de muitas reclamações veladas dos vizinhos, e estava tomando um calmante, não latia mais e todos esqueceram que um dia ele existira. O casal do apartamento de cima brigara no último final de semana, na frente dos pais dela que eram divorciados e ela, aos prantos, foi passar alguns dias com a mãe. O pai dela marcou de visitar o genro para assistirem futebol, torciam para o mesmo time, e disse que levaria a cerveja. Ninguém podia deixar de notar as novas vizinhas que mudaram para o apartamento 203. Três moças que estudavam e trabalhavam.

O jardineiro cumpria seu papel e plantava um pé de jasmim ao lado da calçada, na frente do prédio. O sol passeava. A lua às vezes aparecia. Para completar a semana, era sexta-feira. Chovia. A cidade estava conturbada. O cheiro de jasmim entrava pela janela do quarto e impregnava o colchão. Na sala, os papéis voavam com o vento e emprestavam ao ambiente um ar fantástico e bucólico. As compras, desprezadas nas sacolas, indignavam-se. As maçãs haviam desistido de esperar. A louça que estava na pia para ser lavada desistira e encaminhara-se para os armários. No sábado pela manhã o entra-e-sai do prédio recomeçara. A chuva esquecera-se de aparecer. O céu estava azul, as nuvens rodopiavam com o vento, uma mãe embalava um bebê no berço e cantava uma canção de ninar. As nuvens despediram-se e cederam seus lugares ao sol.

Histórias Vizinhas

 

Era quase a hora do sol se pôr, a rua estava deserta. Rua de cidade do interior, sem asfalto, algumas árvores pelas calçadas, casas antigas, jardins bem cuidados. Havia uma casa, de madeira, pintada de azul desbotado com janelas rosas que destacava-se das outras. Não só pela combinação gritante das cores como também porque era a única que parecia abrigar vida. Uma música, um pouco bolero, um pouco salsa, vinha de sua sala da frente. O som parecia embalar a rua e as árvores, ela ditava o ritmo do vento. O jardim também despertava a atenção pelo colorido e pela diversidade de flores e plantas. Apesar de pequeno, o terreno estava em comunhão com a casa e a música.

Uma menina loira, magra demais, com dentes de oito anos ainda não completos, corria, ou melhor, saltava pela rua em direção à casa. Trazia uma sacola de supermercado com tangerinas na mão direita e uma pasta preta no braço esquerdo. Ela abre o portão em estado precário do jardim e atravessa-o gritando e correndo ao mesmo tempo. Da janela da frente surge uma mulher loira, que pelos traços e sorriso diz ser sua mãe. A mulher está com um pincel na mão esquerda, e quando a menina entra na sala e lhe dá um beijo a sala apresenta-se como um ateliê de pintura. Muitas revistas, fotos e desenhos a carvão estão espalhados por todos os lados. Não pode-se mais chamá-la de sala pois não há nenhuma TV ou mesa de jantar. Apenas um velho sofá rasgado, embaixo da janela, um cavalete em frente e algumas almofadas pelo chão. A sala, não… o ateliê, o ateliê é grande e ocupa toda a extensão da parte da frente da casa. No canto esquerdo, entrando pela porta, há vários vasos com plantas grandes e de um verde saudável. Na parede em frente à porta há pequenos vasos, plantados também por alguém dito pequeno, com flores delicadas e coloridas. Não há mais nada ali. A pasta a menina deixa no chão, enquanto gira abraçada com a mulher. A menina começa a falar ininterruptamente e mostra as tangerinas. A mulher larga o pincel num pote com solvente e aperta as bochechas da menina, que sorri com o rosto sujo de tinta. As duas seguem para a porta que liga a sala, não é sala, é um ateliê, então, que liga o ateliê com o resto da casa.

Passada a hora do sol se pôr, chega de mansinho a noite que convida para conversas calmas e profundas. As duas estão sentadas na cozinha que tem uma porta para o quintal da casa. Quintal bem cuidado, com uma horta de temperos e árvores frutíferas. A cozinha também é simples. Sobre a mesa há um lampião que ajuda a iluminar o caderno da menina, há apenas duas cadeiras e um armário na parede, igual ao da pia. Não há fogão, somente um fogareiro de camping em cima do tampo da pia. A menina concentra-se arduamente para resolver as questões que não se mostram tão complicadas, mas ela não consegue fazer o que lhe é pedido sem esforçar-se demais. A mulher está sentada ao lado direito da menina e descasca uma tangerina. Aparece pela porta um cão sem raça, peludo e grande, abanando o rabo. Ele senta-se entre as duas e começa a latir. A mulher divide sua tangerina com ele que deita no chão de madeira para devorá-la.

Já é tarde. A rua continua vazia, o som da música se foi, agora nada tem vida. As janelas estão todas fechadas, os portões também. Poderia se prever alguma desgraça, ou infortúnio apenas, num cenário tão calmo que fosse assaltado por alguém desavisado. Mas o que acontece é outra coisa. Poderia se dizer que algo exatamente ao contrário? Não se sabe…

A lua minguante está alta. Algumas pessoas dormem tranqüilamente, outras não. As primeiras não estão necessariamente de consciência leve, são simplesmente pessoas que não pensam. As últimas, se não dormem tão bem, ou nem dormem, pensam. Pensam em coisas boas, sonhos talvez, ou em problemas e situações nas quais não gostariam de estar. Mas há quem esteja pensando na vida dos outros, pois a sua é tão sem paixão que é preciso viver a vida de alguém para suportar a própria. É uma dessas últimas que interessa agora. Ela, ou melhor, ele, é vizinho da casa da qual falava-se a pouco. E ele pensa na cena que viu na hora do pôr-do-sol. Aquela mesma que você viu. No entanto, ele viu só até o momento da chegada da menina. É um morador novo na rua, herdou a casa do tio que era solteiro, como ele, e havia ido morar lá para estar mais perto da avó, a única pessoa que restava da família. Ele está deitado numa cama de casal antiga, de madeira maciça, pesada e escura. A casa é a mais aristocrática da rua, pois a cidade não abrigava muitas pessoas de gosto tão austero. Não se pode dizer que a casa tinha um ar sombrio, seria dramatizar demais, porém seu jardim era triste e o mato tomava conta, assim como o cimento.

Como já foi dito, ele não estava dormindo. Imaginava, de olhos fechados, a cena que havia presenciado pela janela da frente da casa. Esta janela era da sala, uma sala mesmo, não era um ateliê porque nem ele nem o tio tinham ou pensavam que tinham algum dom artístico. Nem havia percepção artística neles. Ele seguia a menina com os olhos e reconstruía a entrada dela na casa. Após isto acontecer, ele começava a criar mentalmente os acontecimentos e, é claro, pode-se concluir que não eram fiéis aos narrados aqui. Por ter sempre vivido em ambientes sufocados, ele via a casa da menina do mesmo modo, cheia de móveis e pessoas. Crianças, prováveis irmãs e irmãos da menina, um pai displicente, como também havia sido o dele, uma mãe com as marcas do tempo e do trabalho escritas no rosto, como ele se recordava da sua. Ah, havia um cachorro que pulava e latia, e por isso era escorraçado da casa pelo pai furioso com o barulho das crianças e do animal. O pai reclamava exigindo que a mãe desse conta da bagunça, afinal ele queria um momento de paz para poder assistir à TV. Sim, nesta sala havia TV. E muitos móveis. A sujeira era visível, a desorganização era prova do excesso de trabalho que fazia com que a mãe deixasse as coisas por fazer.

Ele queria distanciar-se do quadro, tão familiar. Mas algo fazia com que ele fosse um observador quase personagem. A mãe foi servir a mesa e uma criança muito pequena, talvez a mais nova, puxou-lhe o avental, o que fez com que ela se desequilibrasse e ele, ali perto, estendeu a mão para segurar o prato que caía. A mãe olha para ele assustada, seu rosto desvanece num sorriso agradecido e cansado. Ela já não acredita que possa contar com a ajuda de alguém. Ele tenta transitar pela sala, uma náusea o toma de assalto. Não há espaço, nem ar puro. O pai fuma e bebe cerveja. De camiseta regata branca e suada, peito peludo, ele lhe atira um olhar de desprezo e não gasta seu tempo com o visitante onírico. Duas crianças brincam no espaço que há entre a TV e o sofá. Uma menina e um menino, mais ou menos da mesma idade. A menina puxa o cabelo do menino por conta de alguma desavença infantil. O pai escuta o grito estridente do menino, que começa a chorar teatralmente. A menina olha, como uma coruja, para o sofá onde o pai está sentado. Ele ergue-se imediatamente e berra. A cinta de couro, desgastada pelos anos de uso, é tirada com rapidez. A cena é congelada: a mãe arregala os olhos, entreabre a boca; as outras crianças postam-se como se estivessem numa cerimônia mística. A menina agressora, por assim dizer, treme um instante e mantém-se imóvel, o menino, o agredido, afasta-se lentamente da menina, que fica sozinha no meio do tapete vermelho e amarelo. A cinta vai baixando e no primeiro estalo seco do encontro do couro com a pele branca da menina a mãe soluça e agarra a menina mais nova como se houvesse uma tempestade e elas temessem os trovões. Algumas crianças fecham os olhos e parecem sofrer junto com a irmã, ou apenas recordar o seu próprio sofrimento de surras passadas. Mas outras crianças ficam extasiadas e não conseguem desviar o olhar, a dor não toma parte nos seus pensamentos, há apenas um espetáculo do qual eles participam, não importa se eles mesmos já estiveram no centro do picadeiro.

O vizinho vê a seqüência dos eventos numa lentidão ocasionada pelo seu cérebro que demora a organizar tudo aquilo. Ele mesmo sente o impacto de cada cintada, sua pele arde, seus olhos lacrimejam. A menina, que antes era agressora e agora é agredida, está em convulsões no chão, esparramada, desgrenhada, grita de dor, grunhe. O pai grita mais alto, fala em “paz”, manda que ela cale a boca, senão ele continuará a bater. A platéia assiste, cada um no seu devido lugar. O vizinho vira-se na cama, suspira e passa a mão nos olhos. Ele está suado. Abre os olhos e contempla o guarda-roupa, seu olhar vai para além do guarda-roupa, além do espaço do quarto. Nem ele sabe para onde.

Ele, depois de acordar, pois havia dormido um pouco, está sentado na janela da cozinha, que fica de frente para a parede lateral da casa azul. Há, ali, uma janela pequena de um quarto. Uma cama com lençol infantil, uma caixa de papelão com brinquedos baratos e um cavalinho-de-pau. A menina de seus pensamentos entra chorando no quarto, com as marcas da surra da noite anterior e outras que demoram a desaparecer. Ela fecha a porta e deita de bruços na cama. O pai entra logo em seguida, seu rosto aparenta um ar arrependido. Mas o vizinho vai entrando no quadro e vê que aquele rosto não trás nenhum arrependimento com ele. O pai senta na beirada da cama, fala baixinho com voz suave, o quanto uma voz de ferro pode ser suave, e passa a mão na cabeça da menina. O vizinho aproxima-se da cama, pelas costas do pai, e ouve-o dizer que nunca mais a machucará, que ele só quer o seu bem. Ele explica, com poucas palavras, que está cansado, que ela precisa aprender a ser obediente. O vizinho vê a mão do pai ir descendo pelo pescoço da menina numa carícia cortante. A menina soluça quase imperceptivelmente. A náusea toma conta dele e ele tenta sair dali, mas como algumas crianças que haviam ficado hipnotizadas no espetáculo da noite, ele fica ali, olhando a mão do pai descendo pela coluna da filha, passando pelas suas nádegas, apalpando-as, e seu olhar já não tem nenhum resquício de arrependimento. A mão ergue a saia da menina, ele diz que, finalmente, ela aprenderá a obedecê-lo. Ele tira brutalmente a calcinha da menina e a cheira de olhos fechados, extasiado. O vizinho acerca-se dos pés da cama, senta-se e vê o corpo seminu da menina. O pai levanta-se, abre a calça, apóia o joelho esquerdo onde ele estava sentado, depois as duas mãos, uma de cada lado da menina, e vai deitando-se devagar sobre ela. O vizinho fica ali, olhando. O suor escorre do pescoço e braços do pai, lágrimas dos olhos do vizinho.

Ele levanta-se da cadeira, já na sua cozinha, e leva consigo a xícara de café que está frio. Dirige-se a pia, joga o café no ralo e vai até o jardim pegar o jornal. Quando está descendo a escada, vê a menina loira passando na calçada da sua casa. Ela olha para ele e sorri timidamente. Ela carrega a pasta preta na mão direita. Ele sente-se nauseado e vira as costas para a menina, que arregala os olhos sem compreender e continua andando.

 

 

Domingo: Vivaldi e supermercados

 

Tocava Vivaldi e eu almoçava. Que porra era aquela? Era domingo e eu só queria sair. Tinha sol. Sol, entende? Semanas inteiras de chuva e era um domingo com sol. A lista do supermercado anotada na geladeira “ARROZ FRUTAS VERDURAS PIPOCA”. Antigamente e nem tão antigamente assim, supermercados não abriam aos domingos. Por que eles abriam, agora, aos domingos? Ninguém morreria de fome se eles não abrissem aos domingos. Supermercados, fechem aos domingos. Dêem aos seus funcionários o prazer dos domingos ensolarados. Ou dos domingos chuvosos, debaixo das cobertas com seus filhos, ou com os namorados fazendo filhos, matando ausências. Não irei ao supermercado. É um comodismo o qual eu não preciso. Anunciarei, à noite, em tom solene: não teremos pipoca para o filme de hoje. Com seis dias da semana para ir ao supermercado, por que eu iria no domingo?! Não via o fundo do prato. Eu só queria ir caminhando, com a parada para fumar meu cigarro diário escondido, até o parque. Queria sentar naquele banco em frente ao lago, fingir que era homem de exercícios na minha roupa de lycra e poliéster – e sem fôlego por causa do problema nos pulmões que o cigarro me dera. Ninguém desconfiaria. Sorririam como se eu fosse um deles – amante da natureza e da vida saudável. Queria ficar ali rindo escondido de todos que tropeçam naquela irregularidade da pista de caminhada. Por isso sento-me naquele banco. Imperdível. E Vivaldi. Acabei um prato e ele continua. Agora virá o prato principal. E ainda haverá sobremesa. Lá do banco espero ansioso aquela moça que caminha sempre bem devagar e com fones de ouvido. No mundo dela não existe mais ninguém. Ela olha e não vê. Como eu faço com meu sogro aqui ao lado. Que inveja dela! Frango assado e polenta. Que porra era essa?! O que adiantava ir ao supermercado se ela só cozinhava as mesmas coisas? Presto atenção… este trecho de Vivaldi eu intitularia “marcha para um suicídio”. Seria uma boa trilha para quando eu anunciasse “não irei mais ao supermercado aos domingos”. E a sobremesa. Pudim. Pudim, porra. O pudim da mãe, da vó, do buffet barato, de caixinha do supermercado. Pudim.

Vênus

 

Toda vez que olho o céu, e o faço todas as noites, procuro a estrela mais brilhante e penso que lá estão os que eu amo e que não estão mais ao alcance de um abraço. Pois quando eu era criança… nem tão criança porque já havia passado por aquelas coisas que nem adultos dão conta de viver, eu assisti àquele desenho, no qual o pai leão rei à beira da morte dizia ao filho que quando ele ficasse triste era para encontrar a estrela mais brilhante no céu e que lá estaria ele olhando pelo filho. Nem sei se foi nessa cena, sei que foi neste desenho. Enfim, desde então eu olho para o céu… e fico um tantinho mais triste quando as nuvens não me deixam encontrar a estrela mais brilhante.

Eis que encontrei uma bem bem bem brilhante, na porta de casa. Da varanda ou da rua, é só escurecer um pouco o céu e lá está ela, muito brilhante, sempre no mesmo lugar, por vezes solitária. A curiosidade me tomava: então agora eu tinha a minha estrela brilhante anti-tristeza com todos aqueles que eu amo do mundo de lá assim pertinho de mim?

Não, um dia descobri que não era uma estrela (bem achei que era estranha). Se eu fiquei triste? Não. Fiquei ainda mais feliz. Dizem que é Vênus. Sim, Vênus, aquele, o do amor.

E eu que já sou sempre fui (não se enganem, não é erro de digitação, é pra ser assim e contemplar um belo tempo verbal) apaixonada pelo amor, agora estou namorando-o. Me faz companhia, sempre olha por mim quando chego muito tarde em casa, passamos horas namorando na varanda, ao som de alguma canção, embalados em dúvidas e contemplações, admirando as companheiras de céu. Eu que ficava aqui a observar os aviões que chegam e partem, ouvindo e vendo um ir e vir charmoso, agora tenho companhia para tal. Às vezes brincamos de adivinhar qual o destino, ou a origem, do avião. Às vezes criamos histórias para seus passageiros. Às vezes prevemos tragédias. Vênus, aquele, do amor, não tira os olhos (ou o brilho) de mim. Às vezes… bem de vez em quando… ele não aparece, como hoje que umas nuvens de sujeira tomaram conta do lugar dele. Não sei se ele foi atender algum outro apaixonado, ou se foi intervir em alguma desavença, ou se anda enamorado de outra varanda. Eu não tenho ciúme. Senti falta dele quando vinha caminhando pela rua… senti falta dele quando fui fechar a varanda e senti falta da nossa longa e sorridente despedida – aquela de todo dia. Sei que amanhã, ou depois, ou depois, ele estará de volta. Por isso não me preocupo. O amor é assim. E é difícil chover por mais de três dias seguidos na Ilha.

 

Vênus

Toda vez que olho o céu, e o faço todas as noites, procuro a estrela mais brilhante e penso que lá estão os que eu amo e que não estão mais ao alcance de um abraço. Pois quando eu era criança… nem tão criança porque já havia passado por aquelas coisas que nem adultos dão conta de viver, eu assisti àquele desenho, no qual o pai leão rei à beira da morte dizia ao filho que quando ele ficasse triste era para encontrar a estrela mais brilhante no céu e que lá estaria ele olhando pelo filho. Nem sei se foi nessa cena, sei que foi neste desenho. Enfim, desde então eu olho para o céu… e fico um tantinho mais triste quando as nuvens não me deixam encontrar a estrela mais brilhante.

Eis que encontrei uma bem bem bem brilhante, na porta de casa. Da varanda ou da rua, é só escurecer um pouco o céu e lá está ela, muito brilhante, sempre no mesmo lugar, por vezes solitária. A curiosidade me tomava: então agora eu tinha a minha estrela brilhante anti-tristeza com todos aqueles que eu amo do mundo de lá assim pertinho de mim?

Não, um dia descobri que não era uma estrela (bem achei que era estranha). Se eu fiquei triste? Não. Fiquei ainda mais feliz. Dizem que é Vênus. Sim, Vênus, aquele, o do amor.

E eu que já sou sempre fui (não se enganem, não é erro de digitação, é pra ser assim e contemplar um belo tempo verbal) apaixonada pelo amor, agora estou namorando-o. Me faz companhia, sempre olha por mim quando chego muito tarde em casa, passamos horas namorando na varanda, ao som de alguma canção, embalados em dúvidas e contemplações, admirando as companheiras de céu. Eu que ficava aqui a observar os aviões que chegam e partem, ouvindo e vendo um ir e vir charmoso, agora tenho companhia para tal. Às vezes brincamos de adivinhar qual o destino, ou a origem, do avião. Às vezes criamos histórias para seus passageiros. Às vezes prevemos tragédias. Vênus, aquele, do amor, não tira os olhos (ou o brilho) de mim. Às vezes… bem de vez em quando… ele não aparece, como hoje que umas nuvens de sujeira tomaram conta do lugar dele. Não sei se ele foi atender algum outro apaixonado, ou se foi intervir em alguma desavença, ou se anda enamorado de outra varanda. Eu não tenho ciúme. Senti falta dele quando vinha caminhando pela rua… senti falta dele quando fui fechar a varanda e senti falta da nossa longa e sorridente despedida – aquela de todo dia. Sei que amanhã, ou depois, ou depois, ele estará de volta. Por isso não me preocupo. O amor é assim. E é difícil chover por mais de três dias seguidos na Ilha.

Oriente e Ocidente, quais são as novas respostas?

Vou arriscar começar assim:
“Mas voltemos ao salvacionismo de vocês, os representantes da decantada civilização ocidental…”

Essa frase é uma das tantas que permeiam o diálogo entre a professora e o tenente durante o jantar de despedida deste. Meus sustos foram muitos (e positivos) ao começar a ler O Prisioneiro, do meu amado Erico Veríssimo.

Ainda uns dias antes eu assistia a Saramandaia (sim, assisto novelas) e ao ver uma cena histórica da TV brasileira com Tarcísio Meira e Fernanda Montenegro contracenando lembrei do O Amor nos Tempos do Cólera. Em seguida pensei no Garcia Márquez, outro amor da adolescência, e em como me sinto quando sei que um autor, diretor, ator não produzirá mais livros, filmes. Garcia Márquez não morreu, mas infelizmente por questões de saúde é pouco provável que escreva mais alguma coisa. Com Erico é assim. Os livros dele, tão importantes para mim, estão aí. Pensando nisso procurei um que eu ainda não tinha lido, mas que guardava nas prateleiras, assim, antegozando um prazer que um dia se extinguirá. Eis que um deles era O Prisioneiro. Para quem se apaixonou pelas histórias de O Tempo e o Vento, ele segue um caminho mais próximo do Senhor Embaixador. Em nada menos apaixonante.

E então me dei conta do que vinha acontecendo. Havia assistido ao O Príncipe do Deserto, com o gostoso do Antônio Banderas, esperando pura diversão. Porém, como normalmente acontece, não foi bem assim. Aí fui ler um romance de banca de revista no intervalo das cruzes da vida. Era um duplo. E? Eram histórias que se passavam entre “lá” e “cá”, com direito a sheikes, antiguidades perdidas no Egito e tudo a que se tem direito. Numa sucessão assim, já meio desconfiada, caio em mim ao intercalar, num dia, o diálogo da professora e do tenente com Terre et Cendres.

Foi então que a questão da Síria tomou proporções maiores com a ameaça (que nunca é só uma ameaça) do Obama. Não acompanhei as notícias, não sou especialista em relações internacionais, não li intermináveis análises ocidentais (nem de direita, nem de esquerda), não fiquei esfuziante com teorias de conspiração, não fiz a piada do nobel da paz declarar guerra… aliás, não fiz piada alguma. Não fiz comentário algum. Ouvi e li brevemente uma coisa aqui, outra ali.

Eu me dei conta, com Terre et Cendres, que tudo estava girando em torno da complexa relação Oriente versus Ocidente. O livro do Erico deu o soco final enquanto o filme me deixou com aquela sensação que, infelizmente, não sei descrever.

Talvez eu tenha aprendido a responder ao “ah, você é árabe?” com o esclarecimento “não, sou sírio-libanesa” antes de saber soletrar meu nome e sobrenomes direitinho. Sim, tenho, por parte de mãe, descendência sírio-libanesa, bisavó síria casada com bisavô libanês, vindos do Líbano para fugir das agruras e guerras e que foram parar no interior do Paraná. Convivi muito de perto em alguns (talvez poucos) anos muito intensos com meu avô, filho deles, e minha avó que havia convivido com a sogra por muitos e muitos anos. Minha bisavó manteve e passou a eles o que trazia do seu mundo. Eu cresci comendo os melhores “charutinhos” do mundo, rodando a manivela do moedor de carne para fazer o kibe mais delicioso que eu já comi, aprendi cedo, com minha mãe, a fazer mjadra, faço a melhor sfiha que eu conheço. Lembro de ter ouvido pouca coisa de árabe pela casa porque meu avô conhecia, entendia mais do que sabia escrever, minha mãe nunca aprendeu, e meu avô tinha amigos brimos.

Me orgulho muito disso. Por criação e por sangue, tenho forte muitos sentimentos e características dessa descendência.

Diante de uma relutância pessoal em escrever sobre algo tão intrincado, pensei em como no Brasil ainda é tão pouco conhecida e valorizada esta cultura. Hoje já exigem ensinar História da África nas escolas, mas a maioria dos brasileiros não tem um pingo de idéia sobre a História do Oriente. Eu sou sortuda e tive um professor muito bom que por interesse próprio havia estudado e conhecia a história dos povos árabes e dava aulas apaixonadas sobre. Até hoje, para dar a proporção da ignorância, me perguntam sobre a minha religião. Sou católica e minha formação religiosa vem justamente da minha bisavó síria – foi a religiosa mais fervorosa das minhas famílias, inclusive. Outro exemplo é perceber como as pessoas não têm idéia de onde vem o apoio (até onde li, único) da França ao provável ataque que o Obama fará. Quem estudou a questão da França e da Síria na escola?

Os povos árabes, talvez ainda de maioria sírio e libanesa, que vieram para o Brasil são uma massa informe retratados como mascates em filmes e novelas e livros – lembram do Nacib de Gabriel, Cravo e Canela? Na novela das nove da Globo, Amor à Vida, a família do Antônio Fagundes é Khury (há uma variação na grafia por conta da transliteração e, claro, dos problemas de comunicação da época da imigração), sobrenome bastante comum na região e que significa Padre. Não sei qual foi o motivo da escolha por um sobrenome árabe para a família porque a escolha não parece relevante nas características dos personagens nem na cultura – só se foi porque queriam ligar ao hospital famoso. Aliás, esse é um exemplo de que os que vieram pra cá também fizeram muito e não eram apenas mascates. Aliás, eu não vi direito nem entendi (a novela tem realmente coisas bem confusas), mas a irmã do Antônio Fagundes tem um filho que parece ter seu potencial na trama ligado à religião, mas eu não sei qual é.

Mas essas histórias muita gente não conhece. Hoje há levas de imigrantes árabes de outras nacionalidades e religião, é só andar ali pelo centro de Florianópolis e conhecer muçulmanos, egípcios, sauditas. Uma vez presenciei a cena de dois árabes (não sei a nacionalidade), um dono do restaurante onde estávamos, discutindo sobre um acontecimento da época e colocando a culpa nos judeus.

Diante da ignorância da história e da cultura – e eu diria mais: valores – de um povo, avultam opiniões e comentários, às vezes dignos de só saber pedir umas sfihas no Habbib´s.

Não vou recorrer ao academicismo nem ao Said e companhia. Aqui não é lugar pra isso.

Eu queria escrever sobre um sentimento. O sentimento que eu tenho por ter sangue árabe. Por ter presenciado fatos da minha família que se explicam (e muito) só por se ter em mente como e por quem fomos criados. Eu queria conseguir escrever sobre isso. Me sinto incapaz. Mas é com Terre et Cendres que eu vou tentar.

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O filme se passa no Afeganistão. Um avô, um neto. Uma missão. Uma guerra. E só. E é assim, com paisagens rarefeitas, palavras exatas, lapidadas, valores intrínsecos que o filme se concretiza. Não há drama como estamos acostumados, não há excessos. Há dor – por todos os lados, em todas as revelações. Não há posses, nem de terra, nem de nada. Enquanto assistia, senti uma necessidade de escrever sobre ele e foi na cena do bombardeio, mais exatamente no plano do menino no meio dos destroços, que ela se efetivou. O rosto daquele menino foi provavelmente a expressão mais contundente de todo o filme. A caminhada dele e do avô, a relutância camuflada em ver o filho e ter que lhe dar a notícia de que sua esposa e toda a família, exceto ele e o filho, morreram é angustiante. O personagem do menino é um dos melhores que vi até hoje no cinema. Não vou contar o motivo – vai que vocês se entusiasmam e decidem assisti-lo, né? Mas quando revela-se algo dele, você começa a percebê-lo de outro modo – e tudo fica ainda mais doloroso. Eu teria restrições em relação às imagens da esposa nua que aparece nos sonhos e delírios do avô, mas provavelmente é implicância minha. O personagem da banca ao lado da portaria das minas é um símbolo de sabedoria e experiência, característica dos povos árabes. Mas é nas minas, ao descobrir que o filho já sabe que a sua aldeia foi dizimada e continua lá trabalhando (sorry, contei!) que eu vi duas das características mais fortes que sinto tendo o sangue sírio-libanês: a família e a honra. São laços, valores, que talvez neste mundo ocidental (criação forçada, forjada, falsa, à guisa de poder e expansão, com os pés na ganância e sujos de sangue e violência) não tenham sido perpetuados. E é essa a diferença de uma tradição de milhares de anos diante de uma que tem algumas poucas centenas.

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O avô-pai sente-se ultrajado porque o filho, tendo recebido a notícia da praticamente certa morte dos seus familiares ficou lá trabalhando e não foi enterrá-los. Enterrar seus mortos, para os árabes, é uma questão de honra – seguida, obviamente, pelo apego e respeito à família.

Lembrei do A Hora mais Escura e de todo o embróglio que houve quando supostamente mataram o Osama Bin Laden e não deram um enterro digno e nos rituais da religião dele porque queriam evitar uma peregrinação ao local onde ele seria enterrado. No filme, aliás, o único ponto relevante é que em nenhum momento há (para o espectador) a confirmação visual de que o morto é o Osama e nem a agente confirma que ele é quem ela caçava.

E aí voltamos para a questão dos Estados Unidos. Não, não sou anti-americanista. Acho que posicionar-se assim nos dias de hoje é pura estupidez – e nem digo ideológica. Viva sem o que aquele país produz, dissemina, discursa e depois conversamos. O cara mais anti-EUA que eu conheci era um que bebia coca-cola de manhã, de tarde e de noite. E nem se dava conta do que fazia e do que falava. Me parece estupidez, também, buscar teorias conspiracionais sem fim. Me deu um cansaço ler “os EUA afirmam que foram usadas armas químicas na Síria”. Todo mundo lembra que eles afirmaram que havia armas químicas no Iraque, né? Aliás, tudo que eu via e lia se relacionava com a questão Oriente versus Ocidente, até a sensacional bosta O Ditador, do Sacha Baron Cohen. O filme merece uma análise mais detalhada, é verdade.

” – Mas acredita que este povo esteja suficientemente maduro para a liberdade?
– Não se trata de estar ou não maduro. Todo ser humano tem um direito natural à liberdade. E, afinal de contas, quem é que vai decidir no mundo que povo está ou não maduro, quem tem ou não direito à liberdade? Vocês? Por quê? Porque são fortes econômica e militarmente? Ou porque são os representantes da vontade divina na Terra?”

Eis que li isso no mesmo dia que tudo se deu: a ameaça americana e o Terre et Cendres. Erico Veríssimo escreve uma fábula contundente sobre o posicionamento estadunidense diante “dos outros”. Digo fábula porque os personagens não têm nomes (eu fiquei particularmente emocionada, porque gosto de escrever sem dar nome aos meus personagens), não há contexto, não há datas e referências históricas, nem geográficas. Ele nem cita que o tal país que vai decidir que povo está ou não maduro ou que tem ou não direito à liberdade é os Estados Unidos. Ele não precisa fazer isso. E é neste diálogo que a professora confronta o tenente, americano e mestiço (meio negro, meio branco – e há também a discussão sobre a condição do negro nos EUA da época), com esta superioridade americana diante de todos os outros. Os outros povos nunca estão maduros para a liberdade e porque eles detêm poder e armamentos são eles que definem as regras do jogo – e, claro, de lambuja, defendem os civis oprimidos e satanizados por ditadores cruéis.

A resposta da professora resume algo que eu sempre pensei antes de conhecer e refletir mais sobre as coisas: “O que eles ainda querem é viver a sua vida sob governo próprio e com liberdade.”. Eu já narrei aqui como vi a guerra do Iraque e Bagdá sendo bombardeada. Me dói. Porque não há presidente nem congressista nem povo americano que consiga compreender o que o povo “do lado de lá” pensa e como faz as coisas. Não estou, com isso, dizendo que apoio ditaduras – aliás, quero frisar que nem a cubana. E volto à professora: “- Saiba que detesto qualquer totalitarismo, seja qual for seu disfarce ou pseudônimo. Mas o que me alarma, tenente, é que, à força de combater os comunistas, vocês acabaram por imitar-lhes a linguagem, o método de ação e até a moralidade…”. Na época era o Comunismo que o mundo via ser o monstro construído pelos americanos. A professora diz ao tenente aquilo que também se aplica à ditadura das esquerdas (e, Brasil contemporâneo como bom exemplo, não só às ditaduras): prega-se e luta-se por algo que transfigura-se quando da tomada do poder. No guerra, os americanos vão para perpetuar as mesmas atrocidades que combatem. Terre et Cendres é sobre isso também.

Entre formas de governo e regimes econômicos, acho-os todos velhos. Sou contra totalitarismos. Mas não defendo nem acredito na democracia. Já fui defensora feroz dela. Hoje acho-a velha, ultrapassada, decadente, insuficiente para o nosso mundo. Antes mesmo de ler Paul Hirst, A Democracia Representativa e Seus Limites, talvez influenciada pelas leituras da Filosofia Clássica do começo do curso de Filosofia, vi que eu defendia algo que não fazia mais sentido porque nem era como na sua origem. Lamentei por alguns anos que dentre tantos intelectuais não tenhamos nenhum que tenha criado algo novo, uma forma de governo que contemple necessariamente (o mundo ocidental atual assim o exige) um modelo econômico que seja compatível e que contemple o mundo de hoje. Democracia não nos serve mais. Totalitarismos, ainda mais na América dos “ridículos tiranos”, são impensáveis. Monarquias são motivo de chacota. Mas, eu me pergunto, como então devemos organizar política e economicamente o nosso mundo? Não vejo respostas, e, assim, considero, sim, um crime querer atacar um país para levar as bonanças de uma sociedade falida como a nossa. Se não há uma proposta nova, os meios continuam velhos também. E virão as bombas.

Sei que parece utópico. E provavelmente a característica menos compreendida do utopismo seja a de acreditar que ele não é impossível. Eu quero crer que há ou haverão mentes capazes de dar uma resposta nova para os modelos políticos e econômicos ultrapassados. Lembro bem das aulas de História quando um professor, ao falar de reis, Estados, poderes, sempre os colocava assim: surgimento, ascensão, declínio e queda. Não seriam as histórias todas elas assim? Por que a democracia ou o capitalismo deveriam ser eternos? Meu ser intelectual quer crer que teremos alguma saída.

Ironiza a professora: “Mata-se em nome de Deus, em nome da Pátria e em nome da Democracia, essa deusa de mil faces cuja fisionomia verdadeira ninguém nunca viu.”. E assim Erico expandiu sua crítica, pois matar em nome de Deus, das pátrias ou de uma idéia como é a democracia, é simplesmente matar e nada mais. Me pareceu muito sutil esta frase porque a questão com os povos árabes ainda não tinha as proporções que tem hoje.

Eu seria utópica se esperasse que o mundo ocidental respeitasse o mundo oriental. Não há respeito e assim desconsideram-se os valores, as tradições, os milhares de anos e toda a complexidade do espaço e das pessoas que lá vivem. Não é preciso entender – até porque nem conseguiríamos – apenas respeitar.

Por isso, continuarei sem ler os deuses das análises políticas deste lado do mundo – e, talvez, também do outro. Li uma reportagem sobre uma moça egípcia que fez um documentário sobre as mulheres durante as últimas revoltas no país dela na qual ela dizia que foi motivada justamente porque o que diziam os jornais do ocidente (ela estava na Inglaterra na época) e também de lá não conseguiam contemplar a complexidade da situação delas. Surgem clichês, péssimas interpretações, análises ideológicas. Pretendo ignorar a esquerda ocidental anti-americanista. Estes, por sinal, são os que se atêm somente às ações dos EUA, seus interesses econômicos, e nunca voltam seus olhos para as condições do povo que tornou-se alvo dos ataques americanos. Eles são contra qualquer coisa que os americanos fazem – menos, talvez, à coca-cola.

Tenho o sentimento claro de que não posso fazer nada. Mas acho que a forma que eu lido com ele me foi passada pelo sangue sírio-libanês. Com tanta evidência do Oriente Médio, as pessoas poderiam, pelo menos, procurar saber mais do que e de quem se trata. Pelo menos. Assim eu ouviria menos a já tão chata “é muçulmana?”. Não, não sou. Tenho um Alcorão, estudei o Islamismo como estudei outras religiões porque amo isso (e porque tive um professor sensacional de Filosofia da Religião). Minha mãe tem medo de que eu me converta, vejam só. Me apaixonei pelo Islamismo porque me aproximou de certas coisas e porque conhecimento é assim: apaixona.

Já me alonguei demais, mas vou citar brevemente o único momento no qual comentei com outras pessoas a situação de eminente guerra na Síria. Foram três declarações: 1. ah, mas é que ele usou armas químicas lá, eles provaram; seguida de 2. guerra é guerra, não importa, e eu sou contra; e, por fim, 3. não interessa nada disso, eles (os EUA) sempre arranjam motivo pra se meter em tudo. São opiniões facilmente encontradas por aí. Já comentei sobre a primeira e a segunda (sim, falem do petróleo, do arsenal bélico que os EUA precisam desovar, etc). Faltou comentar a segunda, praticamente não ouvida por aí, e da qual eu compartilho: guerra é guerra e eu sou contra. Não adianta, sou contra violência, sou uma pacifista. Como disse antes, também não considero justificável o uso de armas químicas. Quem sabe, tal como com a democracia e com o capitalismo, não precisamos aqui de uma nova resposta? Como responder a um ditador que usa armas químicas (caso elas tenham sido usadas)?

Precisamos, enfim, de muitas novas respostas e idéias realizáveis. As que estão aí já não nos servem mais – e digo isso sobre o Ocidente, nas quais devem estar incluídas como tratar da relação com o Oriente Médio, posto que ela só tem sido uma sucessão de erros (uma sugestão: o conhecimento é um bom começo). Onde estão nossos intelectuais e políticos?

Afinal, como dizem, 2013 e ainda querem sair bombardeando os outros?

Cansei do convite para o café

Cansei do convite pro café. Cansei do convite pra assistir a um filme. Todo mundo já sabe o que ambos significam, né?

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Há pouco tempo fiquei com trauma de ir à biblioteca da universidade. Entrei, busquei o que eu queria, saí e um cara me barrou. Papo de “te vi, gostei de você e queria te convidar pra um café”. Agora até bibliotecas são campo de caça? Logo minhas bibliotecas sagradas? Aí um outro dia, na biblioteca de outra universidade, entro rápido, cabeça baixa, pego o que quero e saio correndo. À noite, no Facebook, lá vem um dizer que me viu, que eu passei ao lado dele. E veio com o mesmo papo. Eu tinha desconversado o convite pro café – afinal, todo mundo já sabe, não tomo café – e tinha fugido do convite para o cinema – ele ainda tinha sugerido um filme francês porque, óbvio, acha que eu só assisto coisa cabeça (o filme que ele sugeriu não era nem de longe cabeça, mas, vejam só, era francês). Aí ele insistia em me convidar para beber – afinal, todo mundo sabe que eu bebo bem – e eu me saí com “só bebo em casa e sozinha” – o que, aliás, tem sido verdade verdadeira.

Sabe, é chato. E eu cansei. Eu não aceito convite pra café não só porque não tomo café (e uns revoltados dizem “um suco, então!”) como porque acho totalmente sem criatividade o convite e porque sei o que ele significa. Não quero. Já vivi e vi coisas o suficiente para prezar a criatividade masculina em primeiríssimo lugar – posto que é tão rara. Também não aceito assistir a filmes na casa de ninguém. Ir ao cinema também não faço questão. Porque normalmente o cara já vem com a sugestão de um filme que acha que eu vou gostar.

É como me convidar pra ir pra praia. Só faz isso porque “sabe” que eu gosto de praia. (posso dizer com certeza que ninguém sabe “como” e “o que” eu gosto em praias) Tem esses, os que buscam te convidar ou falar de coisas que eles intuíram ou imaginam que sabem que você gosta ou te interessa. Soa tão falso. E falsidade eu dispenso. Eu não espero que a pessoa seja o que eu quero ou gosto. E qual relacionamento teria boa base num fingimento de coisas que se gostam ou são? Só para dali meses ou anos descobrirem que o outro era aquela – aquela velha – ilusão que temos a respeito daquele por quem nos apaixonamos?

Tem coisa pior: “acho que nós temos coisas em comum”. E quem disse que eu quero alguém que tenha coisas em comum comigo? Essa ouvi semana passada. E fiquei realmente “passada”. Sou muito mais de gostar do oposto, de ver discordância no relacionamento, de enfrentamento. Já disse, não acredito em alguém que sempre concorda comigo. Não acredito. E não suportaria alguém assim.

São tantas fórmulas prontas… e eu cansei. Disse minha amiga hoje que me vê escrevendo cartas (isso, essas de papel que vão pelo correio) para me relacionar com uma “certa” pessoa. Sabe, prefiro isso. Prefiro fugir da obviedade, sempre. Detesto as frases e convites feitos. Claro, incluo aí as variações do tipo “quer tomar uma sopa de batata?”, “vamos a um buffet de sopas?”, “também adoro pedalar”. Pois é, eu também nunca entendi a tara por sopa, mas, enfim…

Uma amiga relatou o caso da ex do marido dela. A guria, daquelas sem noção (fico pensando se não é ariana), vive rodeando a família do ex, os irmãos e tal. Cogitamos até que ela estivesse interessada em algum deles. Aí a amiga fez um desabafo numa rede social e indicou o site Par Perfeito pra moça. Eu, feliz da vida sem nunca ter entrado nesse tipo de site, fui ver como era.

Aí hoje outra amiga disse que recebeu e-mail deste e de outros dois, Match e eHarmony. Fui ver.

Primeira coisa que já achei incompatível comigo: escolher. Não sei… Amor escolhe até a cor de olho? Sério?

Match e Par Perfeito são iguais. Rola desde só sexo e casados até namoro sério ou só amizade. Nem em relação a isso eu tenho preferências. São poucas perguntas e você pode escolher faixa etária (eu sempre coloco dos 18 aos 53 – não pode ser (infelizmente) menor de idade nem da idade do meu pai pra mais), cor do cabelo, tipo do cabelo, “etnia”, peso, altura. Vejam só, nem coloquei foto mas fiz sucesso com meu um metro e sessenta e um. Nem preenchi tudo também porque não vejo sentido nem tenho paciência. Além da idade, assinalei duas coisas: não-fumante e signo. Se tivesse entre 18 e 53, não fumasse e fosse de três determinados signos, cairia na minha pesquisa. Porém, o site é burro e só me mandava capricornianos (que, obviamente, não estava na minha lista). Aliás, cheguei à conclusão que este tipo de site é ótimo para capricornianos. Sabe o tipo que chega e diz “quero uma loira, um metro e setenta, que tenha graduação, sem filhos, solteira”, então. Mas pra piscianos fica bem complicado. Sabe, nós esperamos o príncipe encantado chegar de cavalo branco no momento mais oportuno, na melhor quadratura da lua, trazido pela mão do Destino. Não é lindo?!

:D
😀

Recebi alguns e-mails de interessados. A maioria escrevia muito mal (para além dos erros de ortografia, inclusive). Aí já brochei. As frases feitas eram das piores. As tentativas de parecer ser aquilo (ou aquele) que eu buscava eram ainda mais frustrantes. Já me apaixono facilmente por pessoas inventadas por mim que cabem nos meus sonhos como ninguém. No caso das pessoas reais não preciso inventar nada – nem eles precisam inventar-se. Aliás, sobre “certa” pessoa (que talvez não dê em nada, para minha real tristeza) eu tinha um receio enorme e confessei-o para a amiga. Não seria só mais um “amor inventado” da minha parte? Me perguntei isso porque, bem, a história é complicada e interessante, mas senti que eu não poderia fazer isso com ele como já fiz algumas outras vezes. E eis que a amiga, querida, me diz que todos são. Todos são inventados? Então não devo me preocupar com isso.

Conversa vai, conversa vem, pergunto para a amiga o que faz de mim “namorável” (o que já considero uma praga) quando divagamos sobre nossos “problemas” de relacionamento. A resposta dela foi certeira e a conclusão foi de que homem gosta de sofrer. Aquilo que tanto falamos machistamente de “mulher de malandro” e que “gosta de apanhar” também é aplicável aos homens.

Enquanto conversávamos eu fiz o cadastro do eHarmony. Gente, que coisa interminável… levei mais de hora pra responder tudo! Quase dormi na frente da tela. Mas num momento comecei a me divertir com as questões. Eu sou um monstro – pensei enquanto analisava minhas respostas. Não tenho confiança no outro, não sou sociável, não sou compreensiva, priorizo a liberdade, coloco dinheiro em último lugar na vida. Um monstro. Aí o site, depois de vasculhar os recônditos da tua personalidade e sexualidade – só faltou perguntar qual posição sexual era a minha preferida e qual a cor do esmalte que estou usando, o que, aliás, seriam de suma importância! – ele fez uma busca para encontrar pessoas compatíveis comigo. E a busca foi mais interminável do que o questionário…

...

Enquanto esperava comentei com a amiga que, pelo tempo, o príncipe encantado deveria ter ido comprar o cavalo branco e eu já podia escolher as flores do buquê. E não é que… ele trava. Ficou um tempão buscando e nada. Como eu e a amiga já tínhamos falado, ia dar um erro do tipo “como já disse seu pai, do jeito que você é ninguém vai te aguentar”. Bem, até aí eu já estaria satisfeita!

O eHarmony me pareceu bem mais sério do que os outros. Mas todos mandam mil e-mails. No eHarmony até encontrei umas coisinhas interessantes (mas ele só encontrou nove indicados para mim), mas não vi as fotos. Aliás, em nenhum coloquei foto. Era só pesquisa de campo. Mas digo: eu julgo pelas aparências. Me condenem. No Par Perfeito só tinha feio. Feio ou velho assanhado. Mas todos feios. Feio não dá. Ah, não levem isso para quem procura mulheres! O índice de beleza feminina é bem maior! (sim, eu coloquei buscar mulheres também e até que apareceu coisas pegáveis)

pois é... me julguem.
pois é… me julguem. Retirado da melhor página do Facebook: Suricate Seboso!

Tem gente que serve pra isso, capricornianos e virginianos, por exemplo. Mas piscianos são mais raros de encontrar por essas bandas. Ah, tem leoninos por lá esperando elogios e aqueles que dizem “gosto muito do meu corpo, cuido muito do meu corpo, acho que um corpo bem cuidado é fundamental” (recebi um e-mail assim, acabei de copiar dele, e quando o cara escreveu “corpo” pela sétima vez eu parei de ler). Ou aquele que diz “adoro ler, mas faz séculos que não pego um livro, mas gostei bastante do Privataria Tucana”. Tem de tudo, gente. Eu não julgo só pela aparência, eu julgo pela escrita, pelas contradições, por tudo.

E aí a resposta da amiga sobre o motivo de eu ser “namorável” bateu com a análise de personalidade que o eHarmony fez. Uma análise muito boa! Em certos aspectos até melhor do que mapa astrológico. A conclusão é que eu não sirvo pra namorar, os que me querem pra isso é porque vêem como desafio, com a possibilidade de me domar. Tadinhos. Claro que saiu lá que sou egoísta, individualista, que ajudo os outros depois de pensar, diz assim, no resumo, “você consistentemente cuida de si mesmo” (em letras garrafais), diz que eu acho fundamental que as pessoas saibam cuidar de si mesmas, diz que eu não acredito que estou fazendo favor algum quando ajudo alguém (isso os amigos sabem bem!), diz que eu prezo a independência e que estímulo isso nos outros porque ter um tempo para cuidar de si mesmo é o que todos deveriam fazer, diz que sou responsável (óin), que sou muito dura comigo mesma e que isso me dá respaldo para ser crítica em relação aos outros (ui, gente, e eu pego pesado nisso), diz que apesar de tudo as pessoas admiram a minha franqueza (tenho cá minhas dúvidas).

E eu gostei particularmente da lista de “qualidades” que eu conquistei depois de responder às mil perguntas:

Intransigente

Franco

Astuto

Crítico

Empírico

Forte

Perspicaz

Cético

Esperto

(necessariamente nesta ordem!).

E aí eu perguntaria novamente pra amiga, já que ela concordou com a essência da minha análise de personalidade: por que mesmo eu pareço “namorável”?! Vejam bem, intrasigente ficou em primeiro lugar e está no lugar certíssimo!

Eu que pensava que não são características ou respostas ou cor de olho e altura que nos fazem encontrar o amor… continuo pensando assim. Também continuo acreditando que não são com convites clichês, falta de criatividade e pessoas tentando ser quem não são que se aproxima alguém. Porque não acredito na conquista, pois ela demanda submissão e eu não gosto disso. Não é preciso conquistar ninguém. É preciso aproximar. Eu me sinto muito próxima de pessoas que pensam um tanto muito igual a mim e um outro tanto justamente o oposto.

;)
😉

Entre os pensamentos que geram pauta para o blog estava o quanto a internet aproxima e afasta as pessoas. Pensava nisso semana passada. Sim, posso muito bem acabar me correspondendo por cartas com quem está do outro lado do mundo. Talvez me sinta mais próxima dele do que se eu ligasse a webcam do skype todo dia. Aliás, qualquer “todo dia” pra mim só causa a sensação de afastamento. Nada como me ver e falar comigo todo dia para me ter bem distante. Fica o alerta para algumas amigas, pois nos falamos com frequência pela internet, mesmo morando na mesma cidade (tá, eu sei que às vezes viajo demais) nos vemos pessoalmente pouco porque achamos que mantemos este contato. Apesar da minha falta de qualidades, sou um tantinho passional. Não duvidem.

Nunca conseguiria me sentir próxima de alguém que preenche uma ficha interminável de qualidades, defeitos e interesses num site. Nunca. A melhor coisa para aproximar ainda é uma boa conversa. Ah, me dirão, para isso que serve o convite do café! Não, não é. O convite já vem com vários comportamentos e idéias pré-determinados. E eu não gosto disso. Eu gosto do frisson, da ansiedade, do interessar-se, do convergir e do divergir.

Como nas redes sociais onde temos que responder mil coisas sobre nós… ou que publico mil coisas. Nada disso diz tanto assim de mim, não duvidem. Por isso cansei dos papos que já vêm roteirizados por isso que está aí respondido, preenchido, exposto. Eu quero o que não se sabe. E descobri isso quando me vi diante dele.

(ps: seja Destino ou não, aposto na “certa” pessoa e se não der em nada, de novo, estarei por aí; os cadastros foram devidamente deletados, pois serviu apenas como confirmação e pesquisa de campo.)

(ps2: sim, sei que farão objeções às minhas objeções a estes sites, mas a única coisa que eu consegui inferir de um dos inscritos foi que ele era racista, pois colocou que se interessava por todas as cores de pele, menos negra.)

(ps3: meses depois… a tal ‘certa’ pessoa não deu em nada – só fez crescer minha lista de mensagens não respondidas do ano – e encontrei numa outra pessoa, sem convites para café nem banalidades do tipo, através de uma excelente conversa toda a aproximação que eu precisava. Voltei a sentir coisas que há séculos não sentia. E nem usei nenhum site.)

(ps4: o ano é 2016, o texto todo continua válido, até a eterna espera por “certas” pessoas – só a idade dos candidatos que mudou, pois agora é de 18 a 59 anos. O tempo passa, meus caros.)

Quarto minguante

Eu sei, eu sei… nem vocês nem eu aguento mais versos que versam sobre coisas que… bem, deixa pra lá. Daqui a pouco será lua minguante e daí talvez o espírito mude e deixe de sofrer tantas dúvidas e hesitações. De dias intensos ficam alguns fragmentos:

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Entendi cedo na vida que as pessoas sempre precisam de justificativas, motivos e explicações. Nessas horas todos parecem ser bons capricornianos.
Ainda bem que a vida não é assim.

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Nunca entendi essas promoções de ligações “infinity”. Alguém fala infinitamente ao telefone? Nem começo de relacionamento aguenta tanto tempo de ligação. Eu ouço conversas alheias ao telefone. Sempre fico ouvindo e pensando na real necessidade da ligação. As pessoas falam banalidades, bobagens, ou nem têm o que falar. Não sou boa de estatísticas, mas pra lá de 90% das ligações para celular ainda começam com a pergunta “Onde você está?”. É a falta de costume ainda, afinal perguntar isso numa ligação para o fixo seria estranho.

Eu queria escrever sobre excessos. Tudo o que há de excesso na vida. Nem pensei no mais óbvio (e sobre o que já escrevi) do excesso relacionado ao consumismo e ao lixo, produtos que vêm com embalagens demais e tal. Pensei nos excessos aos quais nos entregamos (talvez) sem nem perceber. Você realmente precisa falar infinitamente ao telefone?

Há quem tenha três mil amigos no Facebook. “Amigos” ou conhecidos. Se duvidar até eu já “conheci” três mil pessoas na vida. Mas adicionar todas no Facebook? Alguém consegue acompanhar minimamente uma TL com três mil pessoas?

A vida é finita. Infinidades sem fim não parecem ser coisas da vida. Acredito que finalmente abracei o desapego e tenho exercitado a vida leve, o livrar-se de excessos – de todos eles.

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Florianópolis tem coisas engraçadas. O high society daqui rende boas risadas para bons observadores. Entrei num Lagoa cheio esses dias. No terminal da Trindade ele esvaziou um pouco e sentei lá atrás, no último banco (aquele que tem cinco lugares, onde eu detesto sentar). Reparei em duas mulheres, uma moça (dessas que não querem parecer muito moças) e uma senhora (dessas que não querem muito parecer senhoras), atravessando o corredor cheio do ônibus. Caracterização típica, tênis de marca cara, bolsa amarelona de marca no último modelo, calça jeans e camisetas de marca. Loiras, é claro (um dia hei de entender essa mania de querer ser ou parecer rica e pintar os cabelos de loiro – será pela associação com o ouro? – um dia hei de escrever sobre as personagens loiras e morenas dos filmes, como o de ontem, assunto o qual muito me interessa). A moça vinha bufando. A senhora, mãe da moça, se desequilibrava. Eis que a senhora diz, sem arrogância nem nada, pura constatação: “Nunca gostei de andar de ônibus”, se bate num rapaz e se joga no banco ao lado da filha – que está ao meu lado.
“Ninguém gosta, né, mãe” bufa rispidamente a detentora de toda a sabedoria do mundo. Olho para ela que parece não ver ninguém a sua volta, ou foi o excesso de maquiagem que escondeu alguma expressão.

Eu gosto. Eu adoro andar de ônibus. Até para viajar – um pouco menos, é verdade, quando não é viagem pelos meus trajetos conhecidos. Não me vejo andando de carro numa cidade. Me parece simples estupidez. Só. Cidade, pra mim, é à pé (adoro ainda mais), de ônibus ou de bicicleta. Bem, não sou “ninguém” segundo a sabedoria da moça. Fiquei pensando no que trazia a fala da mãe, pura especulação, mas, quem sabe… então ela já fora “pobre” e andara de ônibus. Ah, sim, porque ainda se associa pobreza ao ônibus em muitas cabecinhas. Como aquela imagem que circulava na internet sobre usar bolsa de marca e esperar no ponto de ônibus. Ando de ônibus e tenho bolsa até da M. Officer (estou vendendo-a, por sinal). Claro, não tenho nenhuma Louis Vitton – não acho bonitos os modelos. Nem, sei lá, nem sei as marcas direito. Mas tenho uma Nike, serve? Vejam só… você é pobre, anda de ônibus, mas tem bolsa de marca? E quem anda de carro e paga aluguel? É rico? Sei lá, gente… muita sabedoria unânime pro meu gosto.

Lembrei até de uma cena, protagonizada por um cineasta “famoso” de Florianópolis. Já viram riquinhos da cidade quando levam o carro para arrumar ou coisa parecida? Ficam perdidos. O tal cineasta saiu de uma concessionária ali no Itacorubi e foi em direção ao ponto de ônibus (aquele em frente à Oi, sentido Lagoa). Chegou ali e perguntou para uma senhora “Como eu faço pra ir pra Lagoa?!”. Ora, ora… Queria que a senhora, com sua testa franzida e olhos arregalados pela ignorância do cineasta, tivesse mandado pegar o ônibus no ponto do outro lado da rua. Claro, ele aproveitou para fazer um comentário bisonho sobre a demora. Dica: vai pra Canas, a cada quatro deles passa um Lagoa. Ah, esqueci, se você faz cinema em Florianópolis precisa morar e ter sua produtora na Lagoa. Lapso meu, sorry.

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Cheguei esses dias na academia e vi um cartaz de promoção. Adoro promoção. Diz lá que se eu colocar o adesivo da academia no meu carro, concorrerei a cem reais em compras na loja da academia.

Carro?

Já comentei o que penso sobre academias com estacionamentos lotados? Não?
Qual a lógica em ir para a academia de carro? Com tanta academia, já deve ter mais que padaria, pela cidade, jura que não tem uma perto da tua casa? Ou você precisa ir na que está na moda? Mesmo assim, acha muito caminhar, correr ou pedalar trinta minutos, uma hora, para ir à academia? Mas então por que você vai à academia?

Incredulidade me tomou. E eu que vou à pé? E quem vai de bicicleta? Nós é que deveríamos receber incentivo e não sermos privados de promoções. Quem comete a estupidez de ir de carro ganha “incentivo”?

Devo ter me perdido em alguma curva da humanidade, só pode.

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Passei uns dias lá e cá entre as três capitais do Sul do país.

Suspirei ao voltar para a Ilha e ser bem tratada aonde quer que eu vá. É o moço da peixaria, os motoristas, cobradores (lá na Brava um me disse “passa, querida” – muito amor), a caixa do supermercado, o coitado da loja de utilidades que não conseguia achar o que eu queria, o pessoal da academia, o dono do restaurante que sempre simpático me deixa usar o banheiro quando volto de uma caminhada mais longa pela praia, os motoristas que param nas faixas, o moço lindo da padaria (tanta paciência ele tem!), os novos donos da floricultura ao lado de casa.

O povo ilhéu é uma delícia. Simpático. Receptivo. Conversador. Eu, curitibana, ainda me encanto com isso. É um povo que sabe receber. Está acostumado com quem não é do lugar.

Quando atravessei a fronteira entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul pensei que é fácil entender porque Santa é eleito o melhor Estado para turismo do Brasil há anos. Facinho. Além de lindo em tantos sentidos e com tantas paisagens, para praticamente todos os gostos, é um povo que faz diferença.

Nunca me senti bem tratada no Rio Grande do Sul. Nunca. Ainda dou chance. Povo que não dá informação, que faz tudo como se fosse obrigação. Bem, se há cidades que cobram taxa para entrar e sair já percebemos a “receptividade”, né? Aliás, ao ver isso por lá lembrei da discussão que houve no verão quando a prefeita de Porto Belo disse que faria o mesmo. (lá no RS eles cobram “pedágio” que na verdade é na entrada e saída de certas cidades, porque não é, definitivamente, pelas estradas) Em alguns casos parece interessante a idéia, mas que não ajuda na sensação de receptividade, isso é.

Ah, Santa Catarina… meu coração se derrete por você mesmo nesses dias de frio e chuva.

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Aliás, que inverno longo e interminável… fazia tempo que não vivia um tão frio e tão longo.

Menos de um mês para a belíssima Primavera.

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E aí, quem sabe, não teremos mais versos aqui pelo blog. Ou teremos, mas aí dependerá da fase da lua, das mensagens que receberei, das notícias, das viagens agendadas, do compasso desassossegado do coração.

Não faço promessas. Porém, findo esse inverno, as chances de menos versos, até menos posts, ou versos mais apaixonados, são maiores.
Nada contra o inverno. Mas gosto de variar.

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Agora é esperar pra ver o que o quarto minguante me trará.

Ao Ovídio

 
Lia pouca poesia
E na hora da febre
Da loucura
Da dor

Era dos versos que precisava
Vasculhei prateleiras
Insinuei abater-me nas prosas
E não
Eram versos o que eu queria

Tinha pouca poesia
Prosa
História
Filosofia
Artes
Críticas
Confabulações
Sonhos antológicos
Tudo tinha
Poesia não

E aquela lombada fininha
Discreta e quase invisível
Salvou-me
Já havia passeado os olhos por aquelas linhas
Conhecera-o de um emprestado de uma amiga

Se era respeito
Hoje foi cumplicidade

E é assim
Não conseguia escrever
Nem tais nem porquês
E queria
Queria dizer
Queria sentir
Sem o quês nem por quens

Abro-o ao acaso
E é assim
Mais alto nos fala o que fala à alma
Era respeito pelo distanciamento
Foi cumplicidade pelo sentimento

Flores à pele
Revoltas ao coração
Surto à mente
Ele agora era cúmplice

Foi a flecha, menino
Flecha certeira, pobre de mim – não é assim?
Peço licença: “Agora queimo, e no peito vazio reina o Amor”
Se dizes, te digo eu que entoo o coro
Me aposso dos teus versos
São meus
Como um filho que damos ao mundo
Escrever é dar ao mundo aquelas palavras
– já não são mais nossas
Ceder ou lutar?
Lutar, sempre – te diria
Não confundas, não lutar contra – lutar por
Que se avive o fogo – que queime, destrua, lance labaredas visíveis a milhas
Que sopre o vento sul pela janela e o alimente

Há pessoas que passam pela vida
Sem perceber que o que alimenta o fogo
É o ar
Se sufocado, ele se extinguirá

Se os bois sofrem mais ao renegar o jugo
Venha dor, venha trabalhos forçados
Se fosse para
Entregar-se fácil
E evitar as dores
Teria arracado a flecha
Ou teria me lançado ao abismo para fugir da sua mira

Estenderei as mãos
Esfoladas e sangrentas
Já lhe aviso
E antecipo a rendição
Eis que só precisas de tempo – o tempo, não os ponteiros que giram

Mantenha bem atada a Boa Mente, o Pudor e as milícias – não os tenho como amigos
Faço festa entre iguais junto
Às Carícias, à Loucura, ao Furor e à Ilusão – somos do mesmo sangue

Se me amará ou eu sempre o amarei – pouco se me dá
Quebrei as bolas de cristal
O Futuro é a peça atrás da cortina
Desde que eu saiba meu nome
E onde conseguir água
Não quero conhecimento de nada

“Surgirão poemas” dirias tu
Rabiscos lhe entrego
Que não se tomem só beijos
Nem avareza
Sigam-se negações
Eu não faço objeções

Já disse
Do Futuro não quero palavra
Nem em verso nem em prosa
Talvez em promessas por carta
Ou ilusões em mensagens

Encontrei-te pela mão hábil do Destino
Esse velhinho, esse safado
Estou nas mãos dele
Fui flechada, atada, subjugada, amordaçada

Restava entregar-lhe o coração
E tu, mão amiga do Destino
Apostou-o num jogo
Entre palavras e mordidas
Não resisto – nunca
Às palavras e às mordidas

O meu Amor
Precisa de palavras – em verso prosa no embaçado do vidro
E de mordidas
Flechas não bastam
O menino que melhore suas artimanhas

Voltarás para as prateleiras
Dano feito
Estrago contabilizado
Feridas rasgadas
E um obrigado

Maratona Fotográfica de Florianópolis

A pauta do blog é assim como eu, nada burocrática, coerente, certinha, planejada. É volúvel, na falta de palavra melhor. Já prometi, em alguns posts, escrever sobre coisas que nunca apareceram por aqui. Não tenho compromisso com nada e essa é a melhor parte.

Tenho ali uma lista razoável de coisas sobre as quais quero escrever e volta e meia uma pula a fila. Detesto fila. Nunca fico numa fila. Enfim.

Ocupavam meus pensamentos dois assuntos sobre os quais pretendia escrever, na verdade três, mas nenhum deles estava maduro o suficiente, ou eu não estava com tesão o suficiente e eis que me deparo com a data de hoje: dia internacional da fotografia. Olho para a pauta e lá está, desde maio mais ou menos, a Maratona Fotográfica. Então, lá vai.

Ano que vem fará dez anos que, meio sem saber, me joguei para a Ilha. E, talvez, no mês que completarei dez anos morando na Ilha seja a minha despedida. Quem sabe. Nesses quase dez anos, participei de várias Maratonas Fotográficas.

Escrevo pouco sobre fotografia. É uma paixão antiga. É um amor. É um vício. É um impulso. E nesses tempos em que ando meio econômica nas fotografias (afinal, números não me importam – a questão dos excessos era um dos posts mais cotados para hoje) é um prazer extra escrever sobre elas. Não, não vou jamais me meter nessas discussões sobre a popularização da fotografia com celulares e câmeras digitais, nem sobre o que se perde com querer fotografar e filmar tudo, nem nada disso. Sinceramente? Acho bobo. Minha relação com a fotografia vem desde muito antes disso. E na minha família fotografia sempre foi assim. Por isso também que acho bobas essas discussões. Tenho pensado tanto nas “economias” que até sobre discussões tenho ponderado se valem a pena ou não. Vejam só. Nem eu me reconheço.

Bem, não lembro ao certo qual o ano que participei da Maratona Fotográfica de Florianópolis pela primeira vez. Lembro bem quando soube da primeira (não conhecia o evento), já meio instalada na Ilha, li uma notícia sobre, até me empolguei, mas não tinha câmera na época (boas histórias sobre isso) e me deram banho de água fria (como sempre quando se trata das pessoas a minha volta – mas já aprendi a lidar com isso). No ano seguinte, participei.

E digo: foi sensacional. Aliás, digo sobre todas as vezes que participei: foi sensacional.

Desde essa primeira vez, só não participei um ano. Motivos nada nobres, num período que tentei assumir outras vidas. Não eram pra mim. Voltei.

Participar da Maratona Fotográfica é uma experiência muito especial. Eu digo que é redescobrir a Ilha todo ano em dois dias. Sim, redescobrir porque de vez em quando, desde que pus os pés decididos a morar na Ilha, sempre me atiro a vê-la, descobri-la, senti-la, vivê-la. É das top cinco coisas que mais me dá prazer na vida. Segui sempre pelos meus passos, minhas vontades. E isso é importante pra mim.

Viver a Ilha é senti-la, olhá-la. E para o fotógrafo isso é essencial. Como eu dizia no post anterior, o fotógrafo diz muito mais dele do que qualquer ator ou modelo fotográfico. Nem quando escrevo digo tanto de mim do que quando fotográfo. Sabe, eu manipulo as palavras. Eu jamais usei programas para manipular imagens. Me contento com os recursos das câmeras, meus olhares e tudo isso que está aí em volta. Não sou, claro, fotógrafa de one shot. Com a maravilha da digital é possível escolher a melhor. Mas vim dos tempos da analógica, com moeda contada pra comprar filmes 24 poses e, bem, não dava pra desperdiçar.

Sim, sou conservadora neste ponto e prefiro as fotografias sem manipulação. No que, aliás, a Maratona é exigente.

Tradicionalmente a Maratona se resume a dois dias, algumas fotos (pode variar de ano para ano, entre doze e vinte e quatro), temas (às vezes amplos, outras vezes nem tanto), uma verdadeira correria e boa disposição. Uma vez foram realmente vinte e quatro horas initerruptas. Foi a vez mais desgastante. Pelos temas você percebe algumas intenções, afinal ela é promovida pela prefeitura. Mas desde a primeira vez que tive contato com a Maratona, a idéia que mais me chamou a atenção é “ver uma cidade que não é vista”, como foi a proposta deste ano. Por isso, não se fecham os olhos para os problemas da cidade, nem só se pensam as fotografias sobre o progresso e belezas. Eis o que me parece mais importante numa proposta dessas.

Fotográfos de qualquer lugar podem participar. Câmeras de qualquer tipo. Normalmente há divisão de grupo entre câmeras digitais e analógicas, às vezes entre profissionais e amadores.

Não participo pelos prêmios (só eu, né? como dizia um personagem de um filme ontem: é o único político que não se importa com dinheiro). Adoraria ganhar, é claro. Mas o desafio, a diversão, a correria, as fotografias: isso é que me interessa. Já ganhei prêmio por foto individual quatro vezes, se não estou enganada. Para ganhar conjunto acho que só estive no páreo uma vez. Não é fácil.

Ano passado fiz uma pesquisa no acervo da fundação cultural sobre as fotografias e apresentei uma exposição num evento sobre História Pública em São Paulo. Vasculhar as fotografias das maratonas de antes é um exercício maravilhoso para quem ama Florianópolis – e fotografia. A história da Maratona é preservada e permite muitas análises sobre a cidade, a cultura. Fico muito contente que a Maratona já esteja consolidada na nossa agenda cultural. Às vezes fiquei com receio que não fosse ter no próximo ano. Felizmente ainda não aconteceu isso.

Este ano duas coisas me fizeram querer escrever sobre a Maratona. Logo no começo do ano recebi um e-mail dos organizadores (mudou o prefeito, mudou tudo) perguntando quais sugestões ou críticas eu teria para eles considerarem para a de 2013. Eis que elogiei e fiquei com receio de grandes mudanças – às vezes posso ser muito conservadora, mas aí adoro mudanças e me adapto fácil. As mudanças não foram tantas, teve pela primeira vez uma especial para a participação de crianças, e eu fui, fotografei, me diverti, aproveitei, corri. Fiquei, novamente, feliz por ganhar uma individual.

A foto que ganhou não era, nem de longe, um elogio às belezas da cidade. É uma boa fotografia, dentro do tema. Eu gosto particularmente dela por alguns motivos. Aliás, ela até tem uma história. E por isso fiquei mais feliz por ela ter sido premiada. Eis o primeiro motivo, uma foto que “denunciava” (não gosto do termo) um problema da cidade foi premiada. Em alguns anos eu percebi que isso teria sido ignorado. O segundo motivo foi que, além da já conhecida exposição em algum espaço fechado da cidade, elas foram expostas em plotagens pelo terminal de integração do centro, o TICEN. Idéia sensacional. Eu sou cada vez mais contra que arte e cultura fiquem encarceradas em salões, galerias e afins. Recebi um e-mail da organização contando que eles fariam isso, mas como estava fora da Ilha, demorei uns dias até vê-la. Qual não foi minha surpresa ao ver a minha fotografia bem no pilar em frente ao ônibus que pego para ir para casa. Ganhar as ruas é uma emoção a mais. Ver as pessoas observando as fotografias é muito bom. As coisas precisam alcançar os outros. Como muitos escritores dizem, livro não é livro se não for lido. Eu diria isso sobre todas as artes, sobre toda produção cultural – e é no que muito insisto aqui, sobre audiovisual principalmente.

Eu não colocava fé no César Souza Júnior. Mas algumas atitudes dele como prefeito são boas. Infelizmente é política, e a ação da fundação cultural tem ligação com política. Não dá pra escapar. Porém, como diz lá o Aristóteles, só depois de morto é que podemos fazer juízo de alguém. Gostei das ações sobre a Maratona, como gostei que tenham tirado a fundação do Forte Santa Bárbara para lá instalar um museu da Marinha. Por que citar política neste post? Porque minha ingenuidade ficou lá atrás e sei que essas mudanças na Maratona vieram com uma mudança generalizada na organização do órgão cultural da cidade. Devo elogios à organização e às mudanças.

Voltando às fotografias…

Nunca tive equipamento sensacional de fotografia. Não acredito que só a câmera que faz as fotos. Conheço fotógrafos medíocres com equipamentos de ponta. Conheço fotógrafos sensacionais com câmeras fuleiras. Uma vez participei da Maratona e encontrei dois colegas do curso de Artes Visuais da UDESC, eu e um outro ganhamos em individual, ao que o terceiro que não havia ganhado (e tinha um puta equipamento) disse “ah, ano que vem eu ganharei porque vou ter um equipamento melhor”. Mal sabia ele o “equipamento” que eu tinha. Não é isso que ganha. Que faz diferença, em alguns pontos faz. E só. Fotografia, diz a própria história dela (só ver o motivo da comemoração da data de hoje), é muito mais que tecnologia.

Sobre as dificuldades… bem, não sou fã de muletas. Com excessão de uma vez que tive um carro para me levar pra lá e pra cá, participei todas as vezes de ônibus e a pé. Simples assim. E, aliás, mais adorável assim. Dispenso o carro. Sim, pegando ônibus na Ilha inclusive no domingo que é o dia da entrega com horário limite. O conforto e a praticidade não ganham meu coração. Gosto do visceral. Pode parecer discurso de looser, mas, enfim, quem me conhece sabe. Eu sei. E isso basta.

Acabo um fim de semana cansativo de Maratona feliz com novas fotos, gostando inclusive das que acabo nem escolhendo para enviar. Já me surpreendi e ri muito de uma das premiadas. Porque é assim, tem que sentir, ver, fotografar. A fotografia está nas pequenas coisas.

Sobre a premiada deste ano: caminhava pela Baldicero Filomeno, voltando de subir um morro para fotografar uns temas, quando começo a fotografar o esgoto a céu aberto. Fotografo de lá, de cá. Passa um senhor de bicicleta e fala alguma coisa. Eu evito prestar atenção, como faço com qualquer um que tente gracejos e afins na rua comigo. Mas ele pára e pergunta porque estou fotografando (não, eu normalmente não uso a camiseta que nos identifica como participantes da Maratona por motivos pessoais). Eu explico. E ele me conta a história da vala. A comunidade já reclamou dúzias de vezes para a prefeitura. É completamente aberta, risco de pessoas caírem, doenças, bichos. E naquela semana a prefeitura tinha mandado o cara cortar a grama em volta da vala, mas ele tinha cortado e deixado ali, ou seja, com o vento o mato estava caindo na vala e entupindo alguns pontos. As pessoas já tinham reclamado novamente e ele, ao me ver, pensou que eu era da prefeitura ou ia denunciar. Conversei com ele sobre o tema que eu fotografava e ele ficou feliz. Disse que tinha mesmo que mostrar aquilo ali que ninguém via. Agora, senhor (não perguntei o nome dele), posso te dizer que muita gente viu. Muitas pessoas viram na galeria, viram no TICEN. E vão ver aqui.

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Fotografia é um dos amores da minha vida por isso: é tanta coisa junto. Eu gosto das coisas assim, que não são únicas, que são tantas em uma só. E isso serve também para as pessoas. 😉 Serve pra mim. Não dá pra ser só uma coisa. Nunca.

(ps: as fotos mais “esteticamente” belas que já tirei nas maratonas não foram, à exceção de uma, premiadas, e isso é algo altamente elogiável.)

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