Vejo-as por todos os lugares para onde olho…
o quê?
palavras transformadas em imagens.
Vejo-as por todos os lugares para onde olho…
o quê?
palavras transformadas em imagens.
Quando a gente acha que já viu tudo… frase bem comum de se ouvir, né?
Pois é.
Lá pelo final do ano passado, fez sucesso na internet a divulgação de alguma cidade do Estado de São Paulo que havia sancionado uma lei proibindo o que vulgarmente se chama de “Dj do busão”, ou seja, o não-cidadão que coloca seu celular ou algo semelhante para tocar música sem fone de ouvido dentro do ônibus. Uma certa quantidade de pessoas, que visivelmente se sente incomodada com esta atitude, vibrou e divulgou dizendo que na sua cidade isto também deveria ser feito.
Eis que algumas outras cidades seguiram o tal exemplo.
Vale lembrar que nos ônibus de viagem há um aviso de que é proibido qualquer tipo de som no seu interior desde muito tempo.
E Florianópolis, a cidade da moda e dos modismos, aderiu recentemente ao sucesso e também sancionou uma lei semelhante. Segundo ela, não pode mais (se é que algum dia pôde) ser reproduzido qualquer tipo de som no interior dos ônibus municipais, quem deve fiscalizar isso são os motoristas e cobradores, os quais, sabemos, são os responsáveis pelo trajeto, pela segurança e afins dentro do ônibus. Afinal, não há como ter um fiscal dentro de cada veículo. Contudo, a tal lei não prevê nenhuma sanção grave, apenas diz que se algum passageiro não obedecê-la deverá ser colocado para fora do ônibus.
Eu, como boa cidadã que sou e nem um pouco fã que sou de Dj de qualquer tipo, deveria exultar com tal notícia. E não foi o que aconteceu. Bem pelo contrário.
Então sancionaram mais uma lei? Mais uma lei que precisa dizer às pessoas o que elas devem (ou não) fazer? Então lá vai a prefeitura, a câmara ou sei lá o que dizer ao cidadão e ao não-cidadão como se comportar, ou, no mínimo, que é necessário respeitar os limites: os seus e os dos outros? É isso mesmo?
A decepção foi enorme. Ainda mais desanimador é ver as pessoas discutindo esta lei. Se esse ou aquele deve fiscalizar e blá blá blá. No mesmo dia que vi a notícia presenciei o motorista do ônibus escolar colocar bem alto uma estação de rádio qualquer quando íamos para a escola à noite. As músicas fugiam completamente ao meu mais expansivo gosto musical. Este motorista não é, como motorista, dos melhores – tanto em comportamento quanto na direção. Ao contrário, justamente, do outro motorista da noite que não permite de forma alguma que os alunos ouçam suas músicas sem fone de ouvido dentro do ônibus. Ontem mesmo, ao entrar e ouvir um aluno sentado no fundo do ônibus ouvindo um funk no volume mais alto, ele dirigiu-se até ele e solicitou que desligasse. Enquanto isso não foi feito o ônibus não seguiu viagem.
O primeiro comentário irônico que me ocorreu foi que era uma piada dizer que motoristas e cobradores deveriam cobrar isso dos passageiros, pois perdi a conta de quantas vezes ouvi os sucessos vindos do Dj cobrador com seus mp3/4/5/6/7/8 (etc), celulares e dos motoristas também com seus aparelhinhos eletrônicos ou do próprio ônibus. Um fim de semana antes dessa notícia um motorista do Rio Tavares Direto ligou a rádio para ir do TIRIO ao TICEN e o caminho todo foi ao embalo de algo que chamaram de sertanejo universitário. Minha ignorância nessa área é enorme.
São tantas as contradições que cansam. Porém, o que é mais desprezível é ainda vivermos num mundo – e principalmente neste país paternalistazinho – no qual as leis precisam (será mesmo que precisam?) ser criadas para dar aquela palmadinha nas costas do não-cidadão e dizer, num sussurro “faz isso não, camarada”.
Sei que para quem acompanha o blog posso parecer contraditória, pois a alguns post atrás eu defendia uma lei que proibisse o cigarro e a bebida nas praias. Pois é, posso mudar de opinião. Como posso ter visões diferentes de problemas semelhantes.
Fui a favor da lei que proibiu fumar em locais públicos porque particularmente detesto cigarro. Sei que hoje ela é só mais uma lei – vide os terminais de ônibus de Florianópolis, onde as pessoas vão até a ponta (ainda debaixo do teto e em lugar público) para fumar e acham que estão “respeitando” a placa. Inclusive funcionários dos terminais fazem isso. Mesmo com esta lei em vigor já presenciei inúmeros casos de desrespeito. Um deles na rodoviária de Joinville, um cara fumando ao lado da placa, no meio da plataforma. Fui até o fiscal e ele disse que infelizmente isso ainda acontecia com frequência e, como era de se esperar, não fez absolutamente nada.
Ninguém faz nada. Esse é o povo brasileiro.
E aí você entra em sala de aula e tem que conseguir explicar que, por exemplo, não se pode ser “a favor” ou “contra” o homossexualismo.
Eu queria crer num mundo que não precisasse de leis para dizer o óbvio. Leis que determinam o que podemos ou não fazer sem, necessariamente, dizer o motivo nem como aplicá-las. Temos leis demais. E o povo se acostumou a isso, a ver se tem uma placa, uma lei, uma restrição que diga: “pode”, “não pode”. A tutela que não permite o povo sair da minoridade – como diria o querido Kant (é, acho que fiz as pazes com ele) – gangrena a nossa sociedade. O governo mantém todos sob sua tutela não só para controlá-los, mas para enterrá-los na sua própria ignorância.
Estão tão enterrados que você não vê o povo mesmo reclamar desse tipo de coisa. Reclamam os chatos, os intelectuais, os pseudo um monte de coisa, os metidinhos e afins. O povo curte a música tocada pelo Dj do busão. O povo não se incomoda com a fumaça do cigarro, isso é coisa de gente fresca e chata como eu.
Não seria preciso lei nem que um cobrador peça para colocar os fones se a população realmente reprimisse as atitudes do não-cidadão. Eu já nem dava muita bola para música nos ônibus, porque, né, haja tempo. Eu percebi isso com o advento (!) dos celulares com TV digital, era aquele povo no busão, nos pontos de ônibus, em qualquer lugar, assistindo o Jornal Nacional e a novela das oito. Nesse início eu até me irritava (TV, de um modo geral, tende a me irritar). Depois vieram as músicas (o que, por pior que seja, ainda é menos pior do que TV). E se está longe (no fundão, por exemplo, visto que eu gosto de sentar na frente – atestado de velha chata) eu nem dou bola. Se o barulho está alto e por perto, dou aquela olhada reprovadora com um meneio negativo de cabeça. Eu reprovo. Eu já pedi pra desligar. Pode fazer escândalo, pode ficar fazendo careta. Não me importa. Eu procuro ser cidadã. Mas somos tão poucos que eu realmente não acredito na eficiência nem no caráter generalizador dessa reprovação.
E aí você entra em sala e quer discutir assuntos graves como um de menor que dirige sem carteira alcoolizado e mata com alguns alunos que defendem a idade de dezesseis anos para tirar carteira de motorista.
E, sim, a educação está aí gritante em todos estes assuntos. Ah, a Política também, porque meu coração Liberal não me permite assistir a esse paternalismo tutelar calada.
E vou aqui esperar uma lei que proíba a idiota da vizinha de lavar a calçada e molhar a rua dia sim, dia não. Uma outra que proíba as pessoas de conversarem – pessoalmente ou pelo celular – dentro do ônibus de viagem quando eu quero dormir. Uma outra também que exija que montadores de móveis trabalhem aos sábados. Uma ainda que não permita as folhas do pé de maracujá de caírem na varanda. Simples assim. E a gente nem viu tudo.
Na semana passada, numa aula discutíamos a memória e a lembrança. A professora perguntou qual seria a cristalizada e qual a fluida. A memória é a cristalizada, fixa, dura. A lembrança é a fluida, a intangível. Quando eu havia me deparado com a questão no texto imaginei uma fotografia de alguém: a fotografia é o instante, a memória fixa, cristalizada, palpável da pessoa; as lembranças são aquilo que eu sinto toda vez que olho para a fotografia, os momentos que passei com aquela pessoa, a saudade que eu sinto, a reconstituição do momento no qual a fotografia foi tirada.
E eis que a memória e a lembrança pregaram-me uma peça.
Participei novamente este ano da Maratona Fotográfica de Florianópolis. Aí já se vão alguns anos participando. Já ganhei por foto, não pelo conjunto, uma ou outra vez. Não participo pela competição. Não sou, de modo algum, competitiva.
Participo, enfim, pela maravilha de poder redescobrir a Ilha a cada ano por uns dois dias. As surpresas que se encontram nos meus lugares tão conhecidos é que valem a pena.
Este ano não foi diferente. Tive boas e deliciosas surpresas, me senti transportada para o século XVIII, conheci pessoas especiais, etc.. Mas sobre a memória e a lembrança tive um momento singular e até certo ponto indescritível.
Digamos que as lembranças não possam ser ditas. Podemos até tentar descrevê-las e quem tomá-las para si poderá transformá-las em memória.
Andando pelo Ribeirão passei por uma rua que não conhecia. Eis que surge uma placa sobre o tal picolé da dona Nair Falcão (a lembrança me embota agora e não sei se é Nair mesmo o nome) que há cinquenta anos delicia o Ribeirão, a receita legítima. Fiquei intrigada, obviamente. Havíamos almoçado e um picolé num dia ensolarado pareceu tentador, além da curiosidade (minha) de conhecer mais um personagem da Ilha. Lá fui eu.
Uma senhora bem senhorinha atende e diz que tem de coco ou de chocolate. Pedimos dois de cada, eu escolhi coco. Dois reais cada um. No meio tempo de catar dinheiro para a senhorinha não precisar dar troco, pego o picolé e já experimento. Fico calada e parada. Minha irmã também abre o dela (de chocolate) e experimenta. Em seguida ela me olha. Sim, eu estava ali parada, sem palavras. As lembranças podem ser indizíveis. Mas minha irmã sempre consegue dizer tudo e solta “é o da vó!”. Talvez não tanto exclamação mas mais constatação. Era essa a constatação que meu paladar havia enviado para minha lembrança. Eis que aquele picolé, memória cristalizada de uma receita que eu conheço desde que me entendo por gente, revirou o meu mundo das lembranças. E eu não pensava, não dizia, apenas sentia e lembrava. A exatidão do sabor era chocante. Minha avó foi e sempre será única. Tudo o que eu lembro dela também. E aquela senhorinha que, apesar de ser uma velhinha, não lembrava em nada minha avó fazia um picolé que está materializado na minha memória, que é um pedaço da minha lembrança. Não senti regozijo, nem felicidade. Algum tipo de angústia talvez.
Fiquei ali, quieta, sem conseguir entender, chupando aquele picolé que pra mim sempre foi o melhor. Eu mesma já fiz esta receita algumas vezes, mas já faz algum tempo que não tenho feito. Era algo que não deveria ser tão desestruturador. Mas me senti perdida. Tentei encontrar uma explicação lógica: se eu perguntasse a idade da senhorinha, poderia comparar com a da minha avó e ver se seria, então, uma receita difundida na época, muito antes do surto de freezers kibon. Aí percebi que essa tentativa de explicar pelo conhecimento, pela razão, não fazia o menor sentido diante do que eu estava sentindo. Parei na sombra e terminei meu picolé ao lado da minha mãe, mais emotiva que eu.
A memória prega peças. A lembrança não só prega peças como nos deixa desconcertado diante da memória, daquilo que cristalizou e que mesmo assim talvez não seja passível de ser dita. Uma receita anotada num papel pode constituir-se memória, mas será apenas uma receita num pedaço de papel.
Claro que fiquei esperando “entender” (na verdade o termo não cabe aqui porque seria mais um entender sem a lógica) o que tudo isso significava. Estou num momento “sinais” e acredito muito nisso. Acredito mais do que entendo. Isso é fundamental. Não sei se entendi. Só sei que no mesmo momento a aula sobre memória e lembrança fez ainda mais sentido. Eu conseguia, afinal, explicar o fato. Mas foi só.
Enfim, e estiver passando pelo Ribeirão, desça a rua da Igreja Nossa Senhora da Lapa à direita. É tudo o que eu posso compartilhar.
Cena 1: Garrafa de vinho na pia. Pedaços de cortiça da rolha espalhados. Um saca rolha ao lado. Olhos fechados, mãos apoiadas na beirada da pia. Toca Nelson Gonçalves. A vela acesa.
E eu ali pensava nas questões de gênero: nunca senti tanto o machismo quanto naquela hora. Garrafas feitas para só serem abertas por homens. E eu não encontrava de jeito nenhum o meu saca rolha velho de guerra. Talvez tenha se perdido em alguma mudança. Talvez não. Ele era meu companheiro, sempre bebi sozinha e conseguia abrir as garrafas. E ali era a imagem do fracaso; mas fracasso só diante da garrafa. Enfim, eu não preciso do álcool. Enfim, eu não preciso de nada, nem de ninguém. E as coisas se esclarecem. Não há mais o “mudanças vão acontecer”; elas já aconteceram. Sim, já. E eu sou corajosa o suficiente, como sempre fui, para aceitá-las, acatá-las e colocá-las em prática. Prisões, censuras, cobranças só de quem não me conhece; e, enfim, ninguém realmente me conhece. Fácil compreender. No entanto, não há tempo pra perder com isso. E resolvi ouvir um CD para lembrar conquistas inéditas do passado. Pensei até em escrever sobre o passado, um passado bom, doce, vívido, vivido. O que me interessa e importa, hoje, é a loucura. E no amor não há loucura, é sanidade; só há certeza, segurança, exatidão. Perdi a exatidão numa curva do Canto da Lagoa. A segurança na trilha do Saquinho. E todas as certezas à beira-mar. Eu quero a loucura. E ela me quer, me chama. Eu não quero ninguém nem nada que me chame à sanidade, que me tira dos filmes do Buñuel. Que desligue meu aparelho de som. Não quero ninguém ao lado de quem eu não possa dançar. Eu assumi os desafios e só me vejo neles sozinha. Não cometerei o mesmo erro da última vez, eu aprendo com eles. Sou esperta o suficiente pra muita coisa. E a garrafa ficou ali despedaçada. E as músicas se sucederam. Fiz a trilha para os outros. Fiz a minha trilha que estava lá empoeirada, travada, esquecida. Eu quero a loucura de viver. Se já deixei de tê-la? Sim, talvez brevemente. Mas meu alarme andou disparado desde então. E eu não ouvia mais nada direito, até entender que era ele. Mas eu sou uma boa ouvinte. Eu quero a loucura, eu quero amigos – sim, meus bons amigos e novos amigos. Eu quero chegar em casa e não ter certeza se o que aconteceu realmente aconteceu, se eu vi o que eu vi, quero não saber o que eu sinto. Quem não quer nada disso, já é infeliz por opção. Eu escolho a loucura. Sim, eu faço coisas demais, eu corro demais, eu viajo (literalmente e não, segundo meus alunso inclusive) demais, eu durmo de menos – “balanceada” é uma coisa que não entra na minha vida. Nada depende de nada e relativismo de ser civilizado no mundo moderno são balelas. Delas também não preciso. Passagem comprada. Mala para arrumar amanhã. Ter certeza de onde acordará não serve pra mim. Também não me servem as grosserias, as cabeças duras, as ignorâncias. Não me serve a arrogância, que fique claro. Construo personagens, escrevo histórias e ainda tenho que escrevê-las quando amadurecem na minha cabeça. O vinho não foi bebido hoje, amanhã tomarei outro. Quem sabe eu compre um saca-rolha decente, quem sabe eu esqueça. Quem sabe eu consiga resolver meia dúzia de coisas pendentes esta semana, talvez não. Quem sabe eu dê conta de ler tudo o que tenho para ler, ou não. Quem sabe eu esteja sentindo falta das minhas meninas. Quem sabe eu ame ficar sozinha – e sempre tenha amado, e que o meu retiro de surpresa reeditado numa versão “ano inteiro” tenha me revivido isso de forma monumental. E vai que por tudo isso, ou quase tudo, eu não entenda crianças de dezesseis anos sofrendo por amor. E já dizia o Renato Russo, se dói não é amor. E se não dói, nem tira do sério, nem é loucura, então também não é amor. A dor é sempre opcional. A burrice também. E eu tenho que parar com a mania de ter pena das pessoas – vou anotar no meu quadro de recados. E muita coisa só existe na minha cabeça – e eu liguei pra minha Loira e disse pra ela me dizer isso, cara a cara, porque eu simplesmente precisava e só ela poderia fazer isso por mim. Não ganho nem perco, só me livro de problemas. Problemas não tenho, nem quero, muito menos os dos outros. E eu quero mesmo é só a loucura. Se não for pra isso, nem falem comigo.
Me sentia como um personagem do Buñuel. Passei dias me sentindo assim.
Como escrevi no post anterior, não cabe aqui relatar os fatos. No surreal, os fatos são o que menos importa.
O que eu posso relatar aqui é o meu sorriso sacana a tudo aquilo que “acontecia”. Me senti muito fdp.
Senti e pensei demais. Demais. Demais.
Sentir é inerente ao surreal, entender não. Abri mão de entender qualquer coisa esse ano. Já não entendo o que sinto, nem o que penso. E vejo isso em relação a algumas pessoas, a alguns lugares.
Mas a vida dá voltas e voltas, mais do que as do Canto da Lagoa. Mas o Canto da Lagoa também é bem surreal. Aquelas frases e imagens que surpreendem e não explicam me convenceram ainda mais do surreal dos meus dias.
Se o surreal estava contribuindo com a minha felicidade… deve ter incomodado alguém, não é mesmo?
Tem um monte de gente que não sabe ser feliz. E, aliás, não pode suportar a felicidade alheia.
E eu cruzo meu caminho com essa gente, que de “gente” não tem quase nada.
Contato com as pessoas?!
Caí do meu mundo surreal… quebrei a parede da sala de jantar. Deixei meu personagem ao ouvir um distante e confuso “corta”!
Bem, conseguiram o que queriam. O que eles não esperavam é que eu tivesse tomado gosto pelo surreal, tivesse encarnado o personagem – provavelmente voltarei para lá.
Pessoas não me dão medo nem irão controlar a minha vida. Tirei hoje de folga do mundo, fiquei comigo mesma. Amanhã prometo atentar os ouvidos para o “gravando” que o Buñuel vai gritar de lá onde quer que ele esteja.
Discutir relacionamento, as famosas DRs, deveria ser proibido em lugares públicos. Aliás, deveria ser proibido em lugares públicos, na presença de outras pessoas além do casal e também na internet.
Coisa das mais desagradáveis é ser testemunha involuntária de uma choradeira, de um barraco, de uma discussãozinha qualquer de casal. Eu que já não gosto nem no meu “casal” esse tipo de coisa – e, sim, pasmem, evito a todo custo e consigo, felizmente – acho ainda mais indigesto ter que presenciar as picuinhas de pessoas que (normalmente) demonstram que estão infelizes juntas.
A infelicidade, a mesquinhez, a mente pequena, o ciúme inútil, a cobrança excessiva – tudo isso destrói e afasta. Discutir sobre essas coisas (e sob o efeito delas) é ainda mais devastador. Só não percebe quem não quer.
A intimidade de um casal deveria dizer respeito somente a ele, mas não é isso que eu vejo por aí. Vejo vidas expostas para os melhores amigos e amigas, para parentes próximos, para colegas de trabalho e até, pasmem, para os amantes. A partir do momento que uma intimidade torna-se pública, ela já evidenciou a impossibilidade da existência de um casal.
E eu, queridos, não preciso ouvir a sujeira da lavação de roupas de vocês. Tenho estado irritada com o saudosismo, mas principalmente não tenho tolerado ser vítima dos respingos do mal relacionamento dos outros.
Sei que às vezes as circunstâncias levam a uma discussão inesperada em algum lugar público (a ânsia por criticar o outro, apontar o dedo em riste jogando acusações nobres do presente mas sempre temperadas com as mágoas do passado) ou na frente de alguém. Porém, além desses lapsos, imperdoável é colocar a própria intimidade em pauta na internet. E, pasmem, eu já vi muito isso.
Casais que atiram contra si mesmos negações e culpas, relatam passo a passo da derrocada sentimental que vivem nas suas páginas pessoais na internet deveriam ser punidos severamente. Claro, não falo em mais alguma lei sem sentido que poderia ser feita pelos nossos nada nobres políticos. Deveria haver uma “etiqueta” com sanções. Assim, comportamentos em desacordo poderiam ser facilmente puníveis.
Viver em “casal” não é fácil na maior parte do tempo, mas se a pessoa escolheu isso para si, ela deveria enquadrar-se nas limitações da situação – e poupar meus ouvidos.
Sim, pasmem, tudo isso para dizer: poupem meus ouvidos (e, de certa forma, meus olhos)!
Eu decidi que 2012 seria um bom, bom não, um ótimo ano. Decidi, meio que por acaso, que eu faria, neste ano, coisas que nunca havia feito na vida.
E eis que a minha decisão meio inconsciente, meio sem perceber, não ficou só no acordo tácito comigo mesma e com o destino, ela foi colocada em prática.
Talvez porque, como manda meu signo, eu tenha me reaproximado daquilo que eu sei que guia minha vida. E, sem querer, comecei a ver as coisas mudarem. Sem querer, me deixei guiar pelas coisas que aconteciam. Acima de tudo não tentei entender. E talvez seja essa a grande verdade da minha vida: não entender, apenas viver.
Porque as coisas se dão de uma forma que eu me agarro na minha fé (esta, felizmente, nunca me faltou) e não me pergunto nada. Querer explicar demais, querer respostas, não faz, em absoluto, parte do meu caminho. E as coisas sempre foram assim comigo. Talvez eu tenha passado por um período tão difícil (e põe difícil nisso) e tenha me curvado às dores, ao pessimismo, às exigências que as pessoas e que a vida comum, vulgar, trazem.
Eis que “me libertei daquela vida vulgar” e decidi assumir que a minha vida não tem explicação. Estou fazendo coisas, assumi certos riscos, que ninguém – e eu digo ninguém mesmo – consegue entender (nem mesmo acreditar, em alguns casos).
Nessa lista de “coisas que eu nunca fiz” eu coloquei algumas das quais eu já havia dito por diversas vezes “nunca farei”. Por quê? Porque eu gosto disso. Porque é disso que eu preciso. Porque cresci ouvindo minha mãe dizer “nunca diga nunca”. E eu sei que vai me faltar tempo, que algumas pessoas vão me ver menos do que gostariam e vão lamentar isso, sei (porque já sinto) que vou chegar ao cansaço com frequência. Porém, já passei por essas coisas, talvez seja a hora de repetir a dose. Sei que não tenho mais quinze nem dezoito ou vinte anos. Apesar disso, me sinto de novo com dezesseis! E tudo aquilo que não fazia sentido aos dezesseis, agora também não faz, e eu sei que é o certo.
Garanto pra vocês que a mente pequena, vulgar e mesquinha das pessoas não consegue entender (porque, enfim, mentes assim precisam entender tudo) alguém que tem duas profissões, mora em dois (ou mais!) lugares, vive uma vida dupla, quem sabe tripla, quadrúpla. Bem, talvez seja mal de família. Ou talvez seja uma necessidade real de não se deixar acomodar, de fugir da repetição, de não me enquadrar, de não querer e não conseguir viver sob rótulos. Pra mim, isso é simples. É até óbvio.
Estamos ainda em março mas eu poderia enumerar uma boa lista de coisas que já fiz e que nunca havia feito. Eu poderia. Mas não sei se ela faria sentido. Ando me furtando de, inclusive, publicar nas tais redes sociais esses “feitos”. Por quê? Logo eu que sou, sim, adepta delas. Porque talvez esteja espiritualmente em outro lugar. Ou porque não deu tempo. Ou porque debaixo de temporal fortíssimo com vento, raios a alguns metros e trovões o celular nem a câmera (que ainda não é à prova d´água – ou talvez até seja porque olha que ela já passou cada coisa!) peguem. Porque eles tiveram que voltar pro carro numa tentativa de que continuassem a funcionar enquanto eu ia lá pensar na vida num banho quente na lagoa do Peri. Ou porque sob um sol que prometia não aparecer, naquele lugar onde eu nunca havia estado, eu estava me queimando debaixo do guarda-sol, sem peixe nenhum no anzol e me divertia com o cara de tanga vermelha ao lado. Ou porque uma professora não pode ficar com o celular na mão o tempo todo publicando enquanto dá aula (como, aliás, fazem os aluninhos queridos – mas a professora é gente boa, não tem frescura e não se importa realmente com isso). Ou porque as idas e vindas para lugares inacreditáveis e fantásticos sejam tão inebriantes que o celular fica ali esquecido na bolsa, sem sinal. Porque a maioria dos melhores lugares do mundo não recebem sinal de celular, nem 3G nem nada. E essa é uma boa pedida! Talvez porque num belo dia de praia num excelente companhia, praia vazia, as aves almoçando um peixe espada de um cardume que passou a alguns minutos eu não havia levado a câmera. Tenho andado assim, mais leve. Mais despreocupada. Mais incoerente do que nunca. Mais satisfeita.
Sim, eu poderia enumerar muitas coisas. Falar e escrever sobre elas não faz sentido, por isso não o faço.
Acho que tudo isso estava anunciado nas cobras do final do ano passado. Há um surreal que cobre o que eu faço na companhia de um amigo que entra direto nessa lista aí do que eu nunca havia feito. E o surreal tem me perseguido esse ano. Confesso que estou me divertindo. Muito.
Às vezes me sinto quase como uma espectadora, aqui sorrindo com a vida como entretenimento que passa diante de mim. A vida é boa. Só não sabe disso quem não quer.
Tem quem frequenta o litoral apenas no verão. Eu não.
Moro na Ilha, frequento o litoral inclusive no inverno, quando ele se mostra tão introspectivo e prazeroso.
Santa Catarina tem um belo e diversificado litoral. Infelizmente uma parte dele é negligenciada pelo poder público; e, sabemos, a ignorância popular tão imensamente difundida no nosso país faz com que todos os lugares, cidades ou praias, sejam negligenciados pela população.
E é fácil ouvir turista e veranista reclamar da infraestrutura. É fácil. É fácil todo dezembro os jornais fazerem as mesmas reportagens sobre os problemas que o nosso litoral enfrenta.
Falta infraestrutura em todo lugar.
É com pesar que eu observo muitas coisas no nosso litoral (frequento e viajo por uma parte dele). Mesmo assim, podemos encontrar bons exemplos. No entanto, alguns bons exemplos, alguns cuidados básicos, podem ser barrados pela ignorância da população e pelo descaso público. Leviano é você que quer culpar o governo por tudo de ruim que acontece e existe; foi assim que a História Política ressurgiu: colocou-se sobre a Política a responsabilidade de tudo. Não se exclui da culpa o cidadão – e não o digo pelo senso comum “quem elegeu os políticos fomos nós, portanto somos também culpados”. Tanto na ação quanto na omissão está a culpa e a responsabilidade.
Considero tentador dar algumas alfinetadas sobre esse assunto naqueles que se consideram totens do bom mocismo e do cuidado com tudo e todos. Vejamos se conseguirei me controlar.
Um exemplo que eu lamento muito é a Penha. Uma pérola natural do nosso litoral norte, com uma vegetação ainda preservada e bem provida pela natureza que lhe deu encantos sem fim com praias de todos os tipos. Penha hoje está com a quase totalidade das suas praias com água imprópria para banho. E não é de hoje. A Praia Alegre, que já sofreu com a perda da orla e foi “reformada”, com águas pacatas, tranquilas, típica “praia para crianças” – onde, aliás, passei muitos verões – está podre. O cheiro fétido é nauseante e não permite nem que se fique na areia. Não há nenhum ponto próprio para banho atualmente na sua faixa de areia. Ano passado fui, desavisada, tomar banho lá. Em poucos minutos dentro da água comentamos sobre um cheiro ruim, de podre, no ar. Percebemos que a água sob nosso nariz é que fedia. Ela está assim há mais de um ano! Nada foi feito! Naquele mesmo dia pudemos perceber cerca de mais de dez cães na areia. A praia conta com banheiros químicos e chuveiros, o que deveria contrariar a tal qualidade da água. Aliás, todas as praias da Penha, inclusive a afastada Praia Vermelha, possuem chuveiros.
A Praia da Armação, inclusive a do Trapiche, e a Praia de São Miguel estão totalmente impróprias. Não é raro ver construções irregulares, cães, lixo, tudo que se posso imaginar. A Praia de São Miguel é linda, mas já sofre com essa sujeira a muitos anos, pois quando lá estivemos uma vez até tivemos casos de problemas na pele. É fácil se perguntar: mas cadê a Prefeitura?! E eu observo e digo: e por que cães na areia? por que todo esse lixo espalhado? por que você que tem casa aí não cuida do seu esgoto?!
Casos assim também ocorrem na Ilha. Sabidos são os pontos onde é impossível entrar na água do mar. Nos Ingleses tem um esgotão que sai no meio da praia, a lagoinha do norte é parcialmente suja, Canasvieiras, então! E o Sambaqui, Santo Antônio e Cacupé, área nobilíssima da Ilha? Por que as casas nobres e caras não cuidam do seu esgoto para que possamos ter uma orla (que já não tem areia como uma praia) ao menos limpa? Uma vez por lá, observei uma cena: no caminho do Sambaqui, numa entrada que dava acesso à areia, um carro estacionado em cima da vegetação. Olho mais adiante, uma criatura do sexo feminino sentada em direção ao sol nessas posições de meditação ridículas, com seu cachorrinho-pelúcia andando e defecando pela areia. Quão estúpida é essa cena? A criatura visivelmente alternática, com roupinhas pseudo-hippie e carrão importado. O que adianta um ser desses meditar e bater palmas para o sol? Se o sol pudesse, garanto que a teria fuzilado.
Eu defendi aqui, num post anterior, a construção da passarela do Essence na praia do Campeche. Justifiquei e houve até tentativas de pessoas ignorantes de ridicularizar a idéia. Pois bem, alguém que tenha o mínimo de conhecimento e percepção de mundo consegue concordar na construção de passarelas de acesso à praias como a do Campeche, com a quase totalidade da vegetação natural e até dunas preservadas. Não é preciso ir longe! A belíssima e extensa orla de Navegantes, aqui no nosso litoral, é um exemplo ate clássico disso. Em toda a sua extensão há passarelas que passam, sem prejudicar, sobre a vegetação e a areia e permitem o acesso à praia e a preservação. As duas coisas andam juntas. A ignorância, ali, é coibida o tempo todo e praticamente não se vê pessoas desconsiderando as passarelas e se embrenhando no meio da vegetação. Houve até uma tentativa de argumento de que na Ilha (Ingleses e Jurerê) as passarelas não eram usadas pelos cidadãos, o que ocasionava, do mesmo modo, a destruição da vegetação. Mas, vejam bem, então não vamos colocar passarelas porque as pessoas ignorantes não vão usá-las?! As passarelas deveriam existir em mais uma dúzia de praias, no mínimo! Como as trilhas da Ilha deveriam ter, pelo menos, uma estrutura básica de placas e territórios de parques e afins delimitados! Então porque as pessoas não respeitam não devemos nem fazer leis, não é mesmo?
Por isso que eu frisei que a ignorância das pessoas anda de mãos dadas com a negligência do poder público. O Campeche precisa de passarelas (só caminhar sentido sul saindo da Pequeno Príncipe e ver os “caminhos” pavorosos que estriam as dunas e a vegetação, onde inclusive há o vestígio humano mais deplorável: lixo). Jurerê também. Ingleses também. Daniela também. Galheta também. Piçarras também. E muitas e muitas outras praias do nosso litoral. Quanto mais intovado ele estiver, mais e mais rápido é preciso colocar passarelas. Pois senão não sobrará muito depois. Ela “liberdade” e “acessibilidade” que a praia possui no nosso contexto é que autoriza o descaso: qualquer um pode ir à praia; mas pouquíssimos cuidam dela como se deve. Eu cheguei a citar aqui no blog a proibição, em praias estadunidenses, de fumar à beira-mar; pois o toco do cigarro é uma sujeira minúscula e danosa, e foi o que fez Jurerê perder deu selo Azul ano passado. E aí as pessoas contra-atacam levantando as bandeiras da liberdade, do livre-arbítrio e o escambau que nem um pouco me interessa, para justificar que todos podem tudo. Pois não deveriam poder. Se não tem educação, bom senso, princípios básicos de higiene e respeito com o que é coletivo, não deveriam poder sair de casa. Simples assim.
Mas aqui é Brasil. Então devo me conformar com isso? Óbvio que não, deixo o conformismo para os fracos e ignorantes.
Não quero infraestrutura para os turistas. Não quero acessibilidade através de escadinhas para a praia porque eu não quero subir e descer pedras. Quero preservação. Eu cuido dessas belezas sem fim que eu tanto gosto de aproveitar e observar. Eu tenho educação. Eu cuido do meu lixo. Coisas que parecem tão bobas. Uma passarela, coisa que parece tão barato e simples. E são. São coisas bobas, são barato, são simples e infelizmente não vemos por aí!
É fácil reclamar. É fácil ser saudosista e bicho-grilo e querer fazer defesinha naturebóide de pseudo-esquerda infantilizada e sem razão. É fácil. O que parece difícil é ser cidadão, defender, querer cuidar, ser racional, realista e pensar pra frente. Difícil, pra mim, é admitir ignorante. É ver gente suja e irresponsável por aí. Isso pra mim é quase insuportável, porque se eu chego e chamo a atenção de um ser desses posso ir parar num hospital.
Esses dias, estava na praia, saindo do mar, quando vejo duas crianças pequenas brincando de jogar canudos de plástico na beirada do mar pra onda espalhar. Os pais deles estavam lá na areia, sentados e nem aí. Eu parei, chamei a atenção e tive que severamente explicar que aquilo sujaria o mar, que não era brinquedo e esperei até que eles ajuntassem todos os canudinhos e jogassem (não sem uma cara amuada) na lixeira.
Porque a educação está assim, relegada a ninguém. Ninguém se importa mais com nada. Quem vai se preocupar com passarelas, sujeira na areia, esgoto no mar? Quem? Eu me preocupo e faço a minha parte. Mesmo que por vezes seja defrontada (com frequência) pela ignorância e pelo descaso. Até pela ironia. E tudo isso independente do voto no dia da eleição. Nós, brasileiros, temos tanto o costume de discutir eleição porque não temos tudo o que vem antes. Se o povo se preocupasse e cuidasse da educação, da higiene, do respeito ao coletivo e ao próximo, nós não teríamos que nos preocupar com político negligente ou corrupto. Mas é mais fácil colocar a culpa na politicagem. Assim, sentam-se cômodos nas suas poltronas da sala de estar com TV a cabo.
Bom exemplo mesmo é o meu amigo que guarda todo cigarro que acabou de fumar (devidamente apagado) no bolso da bermuda, onde quer que ele esteja. E ele não me contou isso, eu o vejo fazendo sempre. Tão simples.
Eu vou contar a história da Vitória.
Faz algum tempo, na casa verde do outro lado da rua morava uma família. À primeira vista uma família comum, mãe, pai e dois filhos. Ela jovem, porém macerada, magrela e feia. Ele robusto, moreno de sol, bonito, peito cabeludo. Ela estava grávida. Com o tempo percebi que ele ficava em casa e ela não. Raramente a via. Ele era um exímio jardineiro. Tinha um olhar perfurante. Eu evitava qualquer contato, afinal nunca gostei de vizinhos. Mas ele era atraente e meu olhar volta e meia o observava. Ele ficava ali, cuidava do menino, Junior, da menina e depois de mais uma menina, o bebê. A única coisa curiosa, além do “dono de casa”, era que o nome dele era Fábio. Ou seja, o menino era Fábio Jr, como o cantor. Eu tinha dó do menino, tão novinho mas sempre mal-tratado pela mãe e ignorado pelo pai. Às vezes ate trocava sorrisos com ele. Um dia, ou uma madrugada, meu irmão assistia TV quando ouviu sons na rua, risadas, barulho de moto. Espiou e viu a mãe da família da casa verde descendo aos agarros da moto de um rapaz, tudo temperado com muitos beijos. Eis que a partir de então percebemos que isso era rotineiro nas madrugadas. Normalmente o carro, caminhão ou moto vinha da direção da BR… sempre um homem diferente. Isso me fez fantasiar sobre o Junior e fiquei com mais dó ainda dele, afinal, me parecia óbvio que ele não era filho legítimo. Criei eu minhas histórias enquanto observava já não tão disfarçadamente o moreno excelente jardineiro e dono de casa.
Passou alguns anos, cheguei eu para uma nova temporada e qual não foi o susto quando vi uma placa na casa verde: vende-se. Confesso que fiquei um tanto desanimada, pois já me acostumara a observar aquela família, em meio às brigas e agressões ao filho e ao carinho excessivo dispensado às meninas. Enfim, eles tinham ido embora. Em pouco tempo, vi colocarem uma placa na casa verde, já não era mais de vende-se: Dina Cabeleireira.
Ali surgiu um casal. Casal já de uma idade entre os quarenta. Ele com uma idade e os anos a mais na aparência que o mar dá aos seus navegantes, ela macerada, dura, nem tão feia. Na sala da frente ela montou seu salão. Entra e sai de carros e clientes da classe média alta da cidade – o que eu estranhava. Nem vestígios do jardim tão bem cuidado e sempre florido do moreno forte e dono de casa, ele havia se tornado um estacionamento para os carros das madames.
Quase na mesma época eu descobri onde se encontrava a família anterior da casa verde – agora na rua detrás, ainda mais perto da BR, numa casa sem reboco, mas com um jardim espetacular; Fábio sempre por lá com a menina no colo – com uma desprendida alegria. Porém, agora já não lhes observava o passo, a distância me impedia. De vez em quando ainda passo por lá. Por aí também surgiu a novidade: a tal Dina, a cabeleireira, estava grávida.
Eu não falo com nenhum vizinho, nem falava na época. Soube disso pela minha mãe que vez por outra conversava com uma vizinha amiga da tal Dina, uma velha que está (já naquela época estava) encolhendo – não só pela idade, mas por causa de uma doença, ela encolhe. Eis que boas coisas não se falavam, a idade da Dina já era avançada para uma gravidez. Ele era embarcado, ela com o salão, uma “imprudência”, uma “irresponsabilidade”, diziam as más línguas.
Cidade pequena, bairro distante e saúde precária. As previsões para aquela criança não eram as melhores. E ninguém pensava que poderiam ser ainda piores.
Em menos dos usuais nove meses, eis que nasce diante de problemas de saúde e complicações – tanto da mãe quanto da filha – nasce Vitória. (como frequentemente vemos, o nome foi principalmente pela “conquista” de chegar a este mundo – e eu sempre me pergunto onde está a “vitória” disso)
A alegria dos pais, casal já conformado em não poder ter filhos, era evidente. A menina crescia a olhos vistos, esperta, ligada em tudo e em todos, alerta, forte, robusta. Morena, cabelos escuros, sempre ali pela frente do salão, no colo da mãe, no carrinho e em pouco tempo tão grande já correndo e brincando com tudo. Apaixonou-se fácil pelo meu cachorro e volta e meia a via namorando-o à distância. Menina de uma curiosidade tocante (assim também fui). E eis que a família, um tanto diferente também, como a anterior, habitava a casa verde – agora já sem jardim.
Vitória tinha (e tem) alegria pela vida. Para os felizes, uma alegria contagiante; para os infelizes, uma alegria irritante. Menina comunicativa, levava e buscava as clientes da mãe, pela mão, até seus carros estacionados numa grama insípida onde antes havia um lindo jardim.
E o tempo, implacável e surpreendente como sempre, foi passando. A alegria de Vitória, com suas perguntas bobas e até inesperadas pela cerca do meu jardim, parecia a mesma. Eu não percebi nada.
E um dia eu volto novamente e reparo que na casa verde já não há mais a placa de cabeleireira. A casa parece triste, Vitória já não anda alegremente de um lado para o outro provocando os cachorros da rua. Eis que as más línguas se fazem presentes e alguém fala daqui que ouviu de lá que Dina havia morrido. Fora uma longa doença, apareciam umas perebas, não se sabia o que era – a agonia durou menos do que os menos de nove meses que trouxeram Vitória ao mundo. Para a morte, já se sabe, não é preciso tanto tempo. A morte está acima do tempo.
Vitória estava sumida. O pai estava presente – embarcado que era, passava longos períodos fora de casa. As más línguas faziam seu serviço e ainda enquanto Dina estava doente sussurravam que ela tinha AIDS (afinal, o que era aquilo que cada hora era uma coisa e ela definhava a olhos vistos?!). As más línguas, que não têm cara nem idade, murmuravam penas sem fim a uma menina tão novinha já sem a mãe, com um pai velho e ausente e uma mãe, bem, não era nem preciso comentários sobre o tipo de pessoa que pega AIDS.
Nenhuma dessas, porém, se dispôs a dar um caderno para a Vitória. Aliás, mal cumprimentavam a menina. No vai-e-vem da casa um dia vejo muitos balões nas portas e janelas e uma mulher abraçada à Vitória. Amiga da família ou parente distante, que agora se revezava nos cuidados com a menina – o pai preocupava-se com as “coisas de menina” que ela precisava saber. As más línguas, novamente, atiçavam e coçavam ao sugerir (porque as más línguas nunca indagam) o relacionamento de uma moça jovem com o viúvo dentro daquela casa. Era aniversário da menina Vitória, e eu pude ouvir aquelas vozinha estridente falando pelos cotovelos, rindo alto e comicamente, pude finalmente vê-la correndo de um lado a outro recebendo seus convidados. Todos ali faziam um esforço sem medida para que aquela menina voltasse a sorrir.
Num fim de semana, passou o “carro do picolé” e minha irmã comprou um monte (louca que é por sorvete e não tinha nada em casa). Quando o carro do picolé parou aqui, veio Vitória correndo porque também queria comprar. A moça que cuida dela deu algum dinheiro e ela voltou para casa com cinco picolés e aquela alegria que não custa nada. Cada um de nós chupava um quando minha mãe pegou alguns e levou para Vitória – há em certas pessoas, como minha mãe, uma alegria por ver a alegria alheia, que a motivam a alimentar a alegria dos outros para poder sorrir junto. “Quer, Vitória? Acho que não vamos comer tudo.” (às vezes os melhores gestos podem ser os mais mal interpretados, e minha mãe sabe disso) “Claro que quero! (com toda a desenvoltura deste mundo) E eu como tudo, pode deixar!” rapidamente começou a pegar com as duas mãozinhas aquele tanto de picolés, no mesmo momento a moça corria pegar uma bacia “Coloca numa bacia, Vitória, você não vai conseguir carregar tudo!” E a sofreguidão da menina parecia lhe responder “ora, se não!”.
Ontem ainda o pai de Vitória passou pedalando para um lado, ia ela falante, caminhando ao lado. Logo mais, volta pedalando o pai de Vitória, e logo ela caimnhando e falando aparece de novo. Foram e voltaram várias vezes. Já faz algum tempo que o pai dela tem ficado mais tempo em casa, talvez aposentdo, talvez em outro trabalho. Ela ri, brinca, inventa mil histórias e mundos ali sentada na grama quase inexistente – onde antes era um belo jardim e depois um estacionamento sem graça. Ela parece não perceber. Eu a observo, entre curiosa e pesarosa. Já ousei me perguntar que futuro terá Vitória… encerram-se vitórias na sua vida? Cidade pequena, bairro distante, falta tudo… o que isso pode reservar a alegre menina que ouço agora indagando seriamente o pai? Ela veio à vida diante de cenário tão ou mais aterrador e seu nome batizou sua conquista. Ela se salvará sempre das más línguas? Ou a alegria dela diminuirá sempre um pouco cada vez que se defrontar com elas? Viverá para sempre na casa verde?
Durante a semana, já em fevereiro, o movimento pela rua é quase nenhum (do jeito que eu gosto). É inevitável ouvir Vitória o dia inteiro. Sempre questionadora, efusiva, alegre, determinada. Ela incorporou-se aos meus dias, aos meus ouvidos. Já não sou a menina que observava o vizinho forte e moreno. Meus olhos a acompanham, robusta e morena, cabelos lindos, com um princípio de pesar que quer revelar-se em esperança, em fé. A vida a ser boa com Vitória.
E era a história de Vitória que eu queria contar hoje, porque senti assim uma alegria com um pingo de temor pelo futuro que aguarda esta menina que eu mal conheço, com quem troco poucas palavras e olhares. A vida dela não faz nem fará diferença nenhuma para nenhum de vocês e talvez ela já nem esteja mais aqui quando eu voltar – e talvez eu nunca mais venha a saber dela. Hoje eu queria falar dela, como quem fala de si sem ser egoísta.
Eu sei, eu sei. Ando pensando demais. Sei que não sou jornalista (e longe de mim isso). Sei que falar no Rio de Janeiro depois do último post parece insensato. Mas…
Eu estava assistindo (sem som, só dando aquela olhada no SAP) o jornal da Record no dia e no horário que caíram os prédios no Rio de Janeiro. Primeiras informações um tanto desencontradas (primeiramente era apenas um prédio), asneiras de jornalistas e repórteres à parte, um desespero latente e o povo urubu acampado em volta.
Eis que surgem algumas declarações. A primeira que chamou a atenção e “acalmou” o público informou que os prédios eram comerciais, ou seja, naquele horário não teria ninguém. A outra foi da Defesa Civil do Rio que afirmou que não havia chance de sobreviventes.
Como? Se houvesse alguém nos prédios, não teriam chance de sobreviver.
Eis que a preocupação era com o cheiro de gás, perigo de incêndio e explosões. E lá estavam bombeiros e Defesa Civil percorrendo os entulhos. E aí, logo em seguida, surgem parentes e pessoas afirmando que, sim, haviam vítimas.
Então, o óbvio às vezes precisa ser dito aos jornalistas (logo eles tão especialistas nisso), e as pessoas trabalham até às nove, dez da noite. Cerca de vinte e tantas pessoas estariam sob os escombros.
Eu acompanhei um bom tempo a cobertura da Record e o que surgia no Twitter sobre o fato.
Em pouco tempo surgiram feridos.
No dia seguinte o drama nos telejornais e afins foi grande. E eu fui pega de surpresa pelas máquinas e tratores tirando os entulhos. Hein? Como assim? E o resgate?! E a busca desenfreada e urgente pelos sobreviventes?!
Nesse meio do caminho eu me pronunciei ironicamente no twitter: afinal, pensem nesses prédios e na Copa, na Olimpíada. Não é só falta de aeroporto, o problema é bem mais embaixo.
E põe “embaixo” nisso.
Não teve um único meio de comunicação que condenasse o que estava sendo feito lá. Não houve resgate! Consideraram todos mortos e nem se deram ao trabalho de procurar corpos para devolverem aos familiares. A preocupação era retomar o trânsito e o tráfego normal da região no Rio. Eu já desconfiava disso quando ontem vi a primeira notícia de que um corpo foi encontrado no entulho que já havia sido retirado e jogado no aterro para onde foi levado. Hoje vi uma notícia obscura de partes de corpos terem sido encontrados neste mesmo aterro no meio do entulho. Partes de corpos. Ao que constava faltavam ainda cerca de onze pessoas desaparecidas. Onze corpos e já mais de noventa por cento do entulho havia sido retirado para poder trazer a normalidade ao caos que havia se instalado na região.
Que país de bosta é esse que preza e se preocupa com o tráfego, com a “normalidade” e nem se preocupa em encontrar sobreviventes, vidas?! Ou mesmo corpos!
Todos ouviram falar dos inúmeros casos de sobreviventes encontrados dias e dias depois em meio à devastação de acidentes naturais, como o terremoto do Haiti, o tsunami no Japão, e aqui nas nossas tragédias de Santa Catarina e no próprio Rio de Janeiro. Como, neste caso, quiseram antes de tudo limpar o local e tirar da mente das pessoas a imagem de que há uma irresponsabilidade indigna que ronda o nosso país, e nem se preocuparam com vidas? Será porque o número de mortos é baixo? Tipo, nem trinta pessoas. A tragédia na região serrana do Rio, ano passado, quase chegou aos mil mortos. Mil. Esses dias ainda eu me perguntava aqui se as centenas (e hoje já milhares) de mortes não significavam nada. Pelo visto não significam, não só não significam que nem querem contá-las.
Tirar a imagem da cabeça das pessoas (e da imprensa internacional, obviamente – o óbvio, tão caro aos jornalistas) é urgente, porque as pessoas tem memória curta. Amanhã já é outra notícia que “comove” o povo, como tudo sempre e sempre. Ninguém quer lembrar. Os únicos que vão lembrar (e que neste momento choram desesperados por não terem nem um corpo para velar e enterrar) são os poucos familiares que perderam alguém ali. E quem se importa com isso?
Eu? Você? O governador? A presidente?
A vida, além de não encontrar valor que a resignifique diante de uma prevenção que salve vidas, hoje não vale nem o gesto simbólico de vitimização – seja da imprudência, do descaso, da irregularidade, da corrupção que assolam o país.
Se não há mais a imagem catastrófica do entulho caído ao chão, criem mentalmente a imagem de partes de corpos espalhados no meio do entulho de um aterro qualquer. Para ajudar na criação, imagine que essas partes são os braços, ou as pernas, ou a cabeça do seu pai, da sua irmã, do seu namorado. Imagine um pedaço de um braço destruído por uma retroescavadeira com um anel que você reconhece. Para ilustrar, imagine um lugar fétido e cheio de urubus. Grotesco, não? Triste, diriam uns. Arrepiante. Sei que a maioria não vai nem imaginar. Porque com os outros é sempre mais fácil. O popular “não é comigo” é o fraco exame de consciência que professamos ao ouvirmos uma notícia como essa.
Se o exame é fraco, a consciência, então, é covarde.
Tudo, ali, foi covarde. Foi vil.