Nunca haverá Paz

Existe uma certa quantidade de “tipos” de seres humanos, como uma tipologia mesmo. Dentre eles há os psicopatas, os homicidas, os totalitários, os pedófilos, os estupradores, os vários maníacos. Parece haver uma ilusão coletiva de que a disseminação da civilização, o desenvolvimento científico e tecnológico, a comunicação avançada, a democracia, e todas essas conquistas humanas trazem com elas a extinção desses tipos humanos indesejados.

Recentemente, o mundo todo ficou chocado com o massacre na “terra da paz” como alguns meios de comunicação chamaram o ocorrido em Oslo. Mais de oitenta pessoas mortas. O grande atentado terrorista que foi o ataque às Torres Gêmeas marcou e mudou a História Mundial. Todos ainda lembram da tragédia de Realengo há alguns meses. Não há ciência ou tecnologia ultra avançadas que extinguirão estes seres humanos, estes tipos de seres humanos.

Não podemos pensar que Hitler ou Napoleão foram casos únicos, específicos, que só tiveram a repercussão que tiveram, que quiseram dominar o mundo, porque viveram nos séculos passados. Homens como eles estão por toda parte ainda hoje. Os tipos humanos continuam sendo os mesmos.

Então, me perguntariam, onde estão os hitlers de hoje?

Pois bem. Eis que temos aqui um problema. Diria, até, arriscando um palpite que a democracia, por exemplo, é um grande problema. Diria que a repressão pelo politicamente correto, a perseguição moral que temos o tempo todo são grandes problemas também.

Há pessoas que têm desejo de matar. Isso é normal. Eu mesma conheço algumas. Contudo, matar é crime, há punição, é mal visto. Há pessoas que têm prazer em causar dor, em esquartejar, em maltratar, seja algum animal ou ser humano. Há pessoas que só sentem desejo sexual pelo estupro. Tudo isso existe, não pode ser ignorado. Mas o que acontece com essas pessoas diante de um mundo que criminaliza quase tudo, que inibe? Tornam-se, na maioria dos casos, retraídos.

Nos séculos passados essas pessoas levavam vidas mais “tranquilas” pois suas “necessidades” eram mais facilmente saciadas. Havia guerras, guerras sangrentas, onde homens podiam matar, ser violentos, causar dor, elevar seus egos. Ou devemos pensar que as guerras aconteciam somente por questões maiores? Não são as questões políticas que devem ser levadas em conta.

A humanidade padece de escapes. Com tanta civilidade nós perdemos isso e por isso surgem massacres e atentados que não podem, de outra forma, serem mais que retraimento. O retraído pode viver uma vida inteira sem dar vazão às suas “necessidades”, mas não acontece com todos. Alguns precisam de válvulas de escape ou simplesmente não conseguem controlar sempre seus impulsos.

Fiquei pensando que muitos desses jovens que cometem massacres não existiriam se tivessemos guerras como antigamente. Se tivessemos mais regimes totalitários, os egos inflados, os torturadores, os assassinos teriam seu “espaço”.

Contudo, caminhamos na trilha do “bem total”. Há um sopro de obrigação de civilização por todos os lados. Algumas culturas são condenadas porque possuem características rústicas, atrasadas, pré-históricas. E o mundo, principalmente o ocidental, clama pela democracia, pela moral, pela igualdade de cor e gênero, pelo correto. Esse clamor parece querer colocar ali no canto escuro a natureza do ser humano.

Não há mundo desenvolvido, tecnologia, que consiga extirpar os “maus” seres humanos do mundo. E, pensem bem, há um perigo imenso nisso, pois condenamos um Hitler que queria extirpar a raça “ruim” do mundo. Se pensarmos que há tipos que não se enquadram no “bem total” e que eles precisam deixar de existir estaremos agindo como os “piores” seres humanos. É aquela história que se repete diariamente nos comentários sobre algum assassino, estuprador, drogado quando dizem “devia morrer mesmo”, “esse não merece viver”, “isso aí uma camaçada de pau resolve”. Os “bons” seres humanos agem e pensam muito próximo do que eles condenam.

E o mundo parece preferir viver nessa bolha onde há susto e espanto a cada massacre. Não há. Em se tratando de seres humanos não pode haver surpresa nenhuma diante destes fatos.

O que me preocupa é ver uma população refém dessa imagem de que o mundo democrático desenvolvido e tecnologicamente avançado seria perfeito e não deveria conter algo inerente a ele mesmo, a humanidade. Não há uma paz que conviva com os tipos dos seres humanos. A paz é uma mentira, uma hipocrisia.

O maior erro será sempre condenar o criminoso com os mesmos parâmetros dele. E hoje todos somos criminosos. Esse policiamento da moral e do “certoXerrado” reprime e inibe perigosamente os seres que não encontram nem válvulas de escape nem “tratamento”.

Diante dos preceitos tão corretos e morais de vocês, eu sou criminosa. Eu tenho anseios que não podem ser saciados sem que eu seja levada à prisão. Acredito que você também têm. Talvez você prefira fazer de conta que não. Eu não tenho válvula de escape, somente posso me convencer hipocritamente de que o mundo democrático civilizado no qual eu vivo me obriga a controlá-los. E controle, meus queridos, não é algo infalível.

Se quem não reprimia tanto ou nada suas “necessidades” antigamente não era criminoso ou, pelo menos, era menos mal visto é porque a sociedade tinha consciência da existência deles. Podemos discutir que não era a melhor forma de “tratá-los”. Porém, ignorá-los, definitivamente, é ainda pior.

Me preocupa ainda mais ver que essa “onda” de democracia, civilidade, moral e afins só se agiganta e aumenta sua hipocrisia e fé desenfreada na paz e na ignorância dos seres humanos que somos.

As melhores coisas da vida

Ser adolescente é difícil. É tanta coisa que acontece conosco e com os outros. Mas fica ainda mais difícil quando temos que encarar os problemas e dramas de adultos. “As melhores coisas do mundo” não é uma lista em forma de filme com tudo aquilo de bom que existe no mundo. Ele é um filme que entra na vida de dois adolescentes, irmãos, Pedro e Mano. Eles vivem um cotidiano comum para a maioria dos adolescentes entre primeiras descobertas, paixões, brigas, bebidas. Pedro é contido e intenso, Mano é bobo e inseguro. Carol é a menina que não faz parte do todo, a ovelha negra porque não é vaidosa nem anda só com as meninas. Os estereótipos ali desenhados em adolescentes são perfis de muitos estereótipos adultos. No colégio, a vida vai entre garotos conquistadores que fazem uma lista das meninas que já “pegaram” e quais já perderam a virgindade com eles num arquivo com fotos no computador, “nossos pais nunca tiveram isso, cara” é o comentário triunfante, e meninas loiras mais desenvolvidas para a sua idade que “dão pra todo mundo” e arrasam corações. Porém, além do óbvio há personalidades fortes como a menina que se veste diferente e toca bateria, e por isso é tachada de “sapatão”. Pedro assume para si uma maturidade que não é própria da sua idade. Ele tem um namoro de longa data e quando perguntado por seu irmão como foi sua primeira vez ele diz que “gozou antes”, mas que depois “rolou legal”. Foi com a namorada num hotel duvidoso no centro da cidade “não tão vagabundo quanto os outros e mais limpo”. Pedro é um rapaz introspectivo que vive às voltas com a paixão pela fotografia e pela escrita, tem um blog no qual escreve poesias e angústias. Mano só quer perder a virgindade, ou pelo menos o personagem assim se apresenta no começo.

 

 

No entanto, o filme assume ares de gente grande quando o pai deles sai de casa porque está namorando um outro homem. Se o pai sair de casa abala os meninos, descobrir o motivo vai mudar um (Mano) e exarcebar a maturidade precoce do outro (Pedro). “Descobrir que sua família não existe é uma bosta”, desabafa Mano.

 

Mano é o tipo de garoto que anda em bando e zomba de todos. Ao se deparar com a situação do pai, logo percebe que poderá virar motivo de zombaria. Ele pede até para o pai não ir mais buscá-los no colégio. Mano começa a perceber que zombar da menina que se veste diferente não é tão simples quanto pareceu ao fazer uma caricatura dela. Carol, por outro lado, apesar de ouvir do professor de Física que não pertence ao “rebanho”, mostra-se frágil diante de um garoto como as meninas mais bobas do rebanho. Aliás, o professor de Física é a paixão de Carol – homem mais velho, que a entende e a elogia. Essa paixonite pelo professor é que vai desencadear mais um drama adulto na vida dessas quase crianças. Ao beijar o professor ela não espera que todo o colégio fique sabendo. A notícia se espalha e ela culpa Mano, pois só havia contado a ele. Injustiça, então, torna-se o prato do dia. Mano vê que ser injusto é muito fácil. Se ele antes era injusto, agora são com ele.

 

Pedro não percebe, com os silêncios e ausência de sorrisos, que seu namoro vai mal. É como se Pedro levasse aquilo tudo tão a sério que não há opções como terminar o relacionamento. Mas é bem isso que acontece. Ela diz que estão juntos desde os 15 anos, é muito tempo. Se há outro? Não. Mas há um “outro” que a diverte. Pedro perde o chão e compra um terreno em Marte.

 

Os pais deles resolvem ajudar Pedro mandando-o ao psicólogo. “Terceirizar a afetividade” como critica o namorado do pai quando sabe da atitude deles. Pedro vive no seu mundo pedindo ajuda para quem quiser ler no seu blog, pois dentro de casa se vislumbra apenas uma violência contida nos seus gestos e palavras.

 

Os adolescentes, então, experimentam definitivamente porque esta fase é chamada de “transição”. Não é só mais rir do colega diferente nem dizer se a aula é chata ou não. O seu pai é gay, seu único e grande amor não é mais feliz ao seu lado. Amigos traem, as verdades e os segredos são poderosos.

 

Os últimos filmes brasileiros sobre adolescentes me surpreenderam. Ao lado de “As melhores coisas da vida”, de Laís Bodanzky, está “Antes que o mundo acabe”, de Ana Luiza Azevedo. Ser adolescente não é uma bobagem, é muito mais doloroso e perigoso do que os pais costumam acreditar. No caso de Mano e Pedro, o que o primeiro tinha de inseguro e o que o segundo tinha de maturidade precoce vai ser invertido. Pedro corre atrás de sua amada, não aceita o fim, aceita até dividí-la com o “outro”. Mano decide fazer parte de uma chapa pela eleição no colégio na qual é levantada a bandeira da diferença, corre atrás de fazer um abaixo-assinado pela volta do professor de Física, quer reparar danos. Mano apanha de uns colegas que descobriram que seu pai é gay. Seu melhor amigo é que espalhou a história do beijo do professor para afastá-lo de Carol. Esse melhor amigo diz que “ele ficou diferente desde quando o pai começou a dar a bunda”.

 

Mano assume as responsabilidades na hora que elas se apresentam. Pedro já não se encontra mais. A solução final drástica de Pedro para a sua dor é mais dolorosa para os outros do que para ele, ele já se decidiu, afinal. “O suicídio é a grande questão filosófica”, ele cita Camus. O distanciamento dele em relação a todos é tão contraditório pois ele se despede no seu blog (que é público). Mas só o namorado do pai, o qual ele ignora, é que lê sua aflição.

 

A partir de um momento, tudo parece caminhar para este desfecho: os irmãos assumem seus papéis, transitam na transição da insegurança para a maturidade precoce. Para alguns, esta transição se faz leve e natural. Para muitos adolescentes não, porque eles se vêem no meio de um turbilhão que não lhes diz respeito, que eles não querem, mas tudo está ali na sua frente e eles precisam tomar uma atitude.

 

Decidir sobre a própria vida é a atitude mais madura que se pode esperar de uma pessoa. Não é à toa que a maioridade penal é aos dezoito anos. Não é nessa época que muitos devem escolher qual curso fazer na universidade? De um dia para o outro você terá que decidir sobre a sua vida. Contudo, falta a atenção dos outros sobre você para compreender suas escolhas. Parece-me, sempre, que nenhuma dessas escolhas é sem pé nem cabeça. Como espectadores oniscientes do filme, nós compreendemos perfeitamente as atitudes de Mano e Pedro e até antecipamos algumas delas. Na vida, porém, não somos tão oniscientes, nem espectadores. Mano pode ser seu irmão, Pedro pode ser o meu irmão.

 

Nessas escolhas e nas brincadeiras sérias do colégio é que se definem caráteres. Aqueles meninos serão homens, aquelas meninas, mulheres. Alguns só decidirão realmente sobre a suas vidas tardiamente, outros nunca. Mano e Pedro moldam o seu caráter em instantes de decisões, de decepções e de arrependimentos.

 

O filme acompanha isso falando a língua desses adolescentes que serão seus espectadores: Pedro tem um blog, o pai assume um relacionamento homossexual, uma menina do colégio é blogueira de fofocas, as fofocas se espalham pelo celular de todos, há violões e baterias. Na minha época não era assim, não tínhamos blogs, homossexualismo era mais tabu que hoje, não tínhamos celular. Fora a linguagem deles, o drama, os conflitos eram os mesmos. As decisões de gente grande, também. E assim ele fala para todas as gerações, para todas as idades. Há quem sinta-se nostálgico, outro há de se sentir triste, algum achará divertido.

 

Ao final, Pedro revela que sentia-se “uma bomba prestes a explodir” e que acaba realmente explodindo. E qual adolescente nunca se sentiu assim? Boom!

“o homem é a cabeça da mulher”

“o homem é a cabeça da mulher”

Folheando meu caderno de anotações encontrei esta frase que ouvi num dos últimos casamentos que fui. Aliás, parece que todo mundo resolveu casar este ano. E, definitivamente, eu serei a última a casar dentre todos que eu conheço. Tem gente que vai até casar de novo antes de eu resolver fazer isso. Porque é preciso pensar antes de casar, e se você realmente pensa, não casa.

Já me perguntaram tantas vezes se eu tenho algo contra casamento. Bem, digo e repito: tenho. Principalmente se for o meu.

Não tenho nada a ver nem julgo as escolhas dos outros. Reprovo a incoerência, é claro. Também não vejo com bons olhos atitudes inconsequentes.

Mas, leiam novamente a primeira frase. O casamento era sionista, a moça tinha dezesseis anos e era católica, o rapaz tinha nem vinte anos, acho, e a família já segue esta religião há tempo. Confesso que fiquei surpresa e me diverti com o casamento religioso. Certo, casamento não é algo para ser divertido, mas eu me divirto com cada coisa! O anterior, por exemplo, era católico e eu achei um casamento “show”, no sentido de que parecia mais um show com amiga da noiva cantando, declarações para esse ou aquele, santa entrando, outra cantando e padre fazendo piadinhas. O sionista tinha uma orquestra de trinta pessoas que ocupava metade do ambiente. As pessoas muito bem vestidas e sérias. Os pastores, completamente perdidos, anotaram na Bíblia todas as passagens que citavam as palavras “marido” e “esposa” e ainda leram um trecho do livro de Ruth em um contexto errado. Enfim, eu lá de vestido curto, cabelo curto, unhas roxas, destoava e recebia olhares assustados, por isso não poderia externar esse divertimento todo.

E as minhas amigas por aí se casam. Sobre isso nada tenho a dizer.

Porém, por que elas abrem mão da independência, da altivez, da individualidade delas? Eu conheci essas mulheres ainda meninas, meio mulheres, que faziam o que bem entendiam, iam e vinham quando e como queriam, estudavam, trabalhavam, tinham o dinheiro delas, ou dependiam do pai, aproveitavam a vida sem depender de um “sim” ou “não” de um cara. Elas tinham cabeça, e boas cabeças. Mas esses caras uma hora resolvem sair da casa dos pais, ou chegam perto dos trinta anos e decidem ter alguém para lavar a louça e as cuecas deles.

E é aí que não consigo entender. O homem é a cabeça da mulher? O homem manda? Entendo e temo que se o homem paga, ele manda! E isso eu sempre falei. Homem que sustenta se dá ao direito de mandar e uma hora isso vai ser jogado na cara.

Mas por que elas mudam tanto?! Por que elas ficam chateadas e me dizem que têm horário pra chegar em casa, senão ele liga perguntando onde elas estão? Por que elas se colocam no papel de lavar a roupa, passar, cozinhar, limpar a casa, e, ao final do dia, estão lá lindas e cheirosas?

Eu ouvia dizer que hoje não era mais assim, que isso era coisa da época das nossas mães. Mentira. É bem isso que acontece.

O que me entristece é ver que elas não são felizes. Vejo que elas embarcam numa situação dessas empurradas pelas circunstâncias e não porque escolheram ou desejaram. Elas vão aceitando, elas vão baixando a cabeça (aquela mesma tão altiva que vi tantas vezes ao pronunciarem suas escolhas), vão sentindo incertezas e seguindo o que ele decidiu.

Ser feliz também depende de escolhas, de saber dizer não.

Não discuti aqui, em nenhum momento, sentimentos. Nunca disse que o que elas sentem por seus respectivos não é verdadeiro, bom e importante.

Infelizmente, é preciso algo além de sentimento para decisões como casamento.

Eu tenho minha teoria pessoal que essas escolhas devem ser despidas de interesse, necessidade, circunstâncias, inseguranças.

Eu não acredito nem professo que o homem, seja ele qual for, é a cabeça da mulher. Essas mulheres que eu conheço têm cabeça, muita cabeça, cabeça boa e no lugar. E largam os estudos, a vida profissional que conquistaram, os desejos, as viagens, os sonhos por uma vida de amélia, por um homem. Pra mim, o homem que pensa assim e faz isso com uma mulher (a mulher que ele diz que ama) não merece respeito nenhum.

Nenhum homem é a cabeça de nenhuma mulher. E eu não quero vê-las infelizes por dez anos ou mais ou menos até redescobrirem aquela mulher que um dia elas foram, aqueles sonhos lindos, e decidirem retomar a vida que elas sempre quiseram.

Ah, só para não esquecer, é possível casar sem deixar de ser quem se é. Nem precisa virar a empregada do marido. É possível.

Água oxigenada

Entro na loja de cosméticos aqui perto de casa para dar aquela olhada básica. Um alvoroço vem logo atrás de mim.

Entra uma perua velha. Não há outro modo de descrevê-la. Loira com laquê, estampa de oncinha e sei lá mais quais animais pela figura toda, aquele dourado nos dedos, batom vermelhão, bolsa de alguma marca cara demais.

 

“Olha, aqui não dá pra estacionar. Eu quero estacionar!”

 

A moça do caixa olha sem entender nada.

 

“Eu deixei meu carro ali, atravessado, estou com medo que alguém bata! Metade dele está na rua! Aquele homem ali, ó, parou no estacionamento da loja só pra falar ao celular!”

 

(Gente, todo mundo acha um absurdo, né? Imagina! O cara parou o carro para falar ao celular e, assim, não matar ninguém! Ó!)

 

“Você vai lá dizer pra ele sair?”

 

Eu já com muita pena da moça do caixa.

 

“Porque eu preciso comprar isso aqui, ó.”

 

Água oxigenada.

 

“Mas talvez ele já saia. A senhora quer ver mais alguma coisa? Ou eu posso cobrar?”

 

“Ai, olha, estou com medo! Podem bater no meu carro! Metade dele está na rua. Como que esse homem pára ali pra falar no celular? Hein? Pode cobrar, então. Ai, ele já está saindo!”

 

“Ah, mas é rapidinho, a senhora pode pegar o troco aqui, pode ser?”

 

“Ah, pode, isso. Obrigada, querida! Vou lá tirar o carro, olha o risco que eu corri!”

 

E eu ali parada, saio da loja e vejo um sedan atravessado, não na rua, mas na calçada impedindo qualquer pedestre de passar. É, absurdo para a água oxigenada é parar para falar no celular. Absurdo é a quantidade de gente que eu ainda vejo dirigindo e falando ao celular. E, claro, estacionar na calçada é perfeitamente normal, só o carro corre risco.

Dia especial

De que saudade não se morre

Que de amor não correspondido se vive

 

Que nem a água quente do chuveiro me convence a sair para o aquecedor no quarto

 

Lá no Céu haverá Platão atendendo os platonistas daqui

 

Eu nunca traí porque nunca me traio

Enfim, não estou com alguém que não desejo e nem desejo alguém que não tenho

 

Há pessoas que alimentam a nossa alma e o nosso corpo

 

Há quem tenha orgasmos múltiplos ao perseguir os outros

 

Eu desistiria de voltar para a casa se meu destino assim pedisse

 

E eu gosto do sol depois de tanta chuva

Poeira

O corpo dela tem seios miúdos, tão pequenos. Os olhos não olham nada nem ninguém. O cabelo exala o cheiro da dor cada vez que a dúvida repete o gesto de passar a mão, dedos separados, do topo da cabeça até às pontas do lado esquerdo, fazendo uma curva enquanto desce. Mãos muito grandes e feias. Ombros muito largos para a idade. Será uma mulher dura, cavada pelo tempo. Fica ali exposta, na vitrine a céu aberto. Cinco por vinte minutos? A mão segue o gesto. Os olhos para a direita. A cabeça treme. “Sim”, “Depois”. A bicicleta se distancia. As pernas são finas mas já moldadas, bem moldadas. Os seios pedem uma mordida, até eu sinto isso. Roupa? Trapos. Nada? Ninguém repara. A pele toda parece suja, empoeirada. Não sei nem se tem dentes. Vem vindo. Ela deliberadamente afasta as pernas – ela sabe que Deus soube acertar a mão quando fez suas pernas. Ali, em pé. Dessa vez sem mão nos cabelos. Com um salto brusco ela entra de frente, pernas afastadas, e bate a porta. O brilho do sedan preto encerado me cega, a seriedade do motorista me perturba. A poeira levanta e eu penso que talvez a cor da pele dela esteja escondida debaixo de tanta poeira.

Queria que fosse assim.

Queria que minha filha fosse bailarina. Meu filho um justo, independente de qualquer profissão, que lutasse pelas causas justas. Um traria beleza, o outro justiça. O mundo viveria bem, assim. Queria que o amiguinho dele salvasse vidas e seus irmãos construíssem casas para quem não tem. Queria também que minha filha ajudasse os pobres, doasse cobertores todos os julhos e fizesse trabalho voluntário na creche todos os janeiros. Queria que os colegas de classe do meu filho estudassem todas as máquinas do mundo e soubessem o valor de um ser humano. Queria que as filhas da vizinha, amigas de minha filha, cuidassem dos cães abandonados no canil da prefeitura. Queria que como netos fossem obedientes e trouxessem toda a alegria do mundo em sorrisos e gestos. Queria que a filha da minha amiga, já maior que eles, nunca quisesse ganhar mais do que precisasse para viver. E que o menino filho da cabeleireira jogasse o lixo na lixeira e nunca deixasse o chuveiro aberto por mais de quinze minutos. Queria que aquela menina que acabou de passar no colo da mãe fosse a melhor professora do mundo, com direito a prêmio e tudo. Queria que o meu sobrinho não soubesse o que é preconceito – de cor, sexo, idade, peso. Queria que a filha da minha amiga ficasse mais tempo no sol do que dentro do próprio quarto. Queria que aquelas crianças do orfanato saissem de lá todas no mesmo dia, fazendo e sendo felizes com seus novos pais. Queria que todos eles abolissem os cargos políticos. Queria que meu afilhado fosse um filósofo. Queria que a filha da minha prima levantasse uma bandeira branca e andasse à pé por todos os continentes. Queria que todos eles acreditassem em Deus – não esse ou aquele Deus, somente em Deus. Queria que eles aprendessem o que é certo e assim nunca fizessem o errado. Queria que eles saíssem de casa e não soubessem o que é trancar as portas e janelas e não precisassem olhar para os dois lados da rua antes de atravessar. Queria que meu filho pudesse morrer sem ter se desiludido com sua justiça e que minha filha morresse sem saber o que é chorar. Queria que seus filhos tivessem nascido simplesmente por eles e não porque você é egoísta. Queria que meu filho sentasse ao meu lado com um jornal antigo e me perguntasse o que são “drogas”. Queria que um deles conhecesse bem o passado para nunca permitir que eles cometessem os mesmos erros que nós cometemos. Queria que o calor se fizesse quente e presente no verão, o frio no inverno, e que mortes em desastres ambientais fosse uma estatística que eles aprenderiam na escola. Queria que meus livros ainda estivessem intactos, porém amarelados, quando a curiosidade os levasse até minha velha prateleira e ali descobrissem a leitura. Queria que eles crescessem sem ter seus mundos através de telas – LCD, LED, tablet, smartphone, computador. Queria poder ouvir o vento quando os levasse para passear nas ruas e que eles tivessem seus pulmões e corações sempre limpos. Queria, quem sabe, poder querer que o mundo não fosse esse e que, assim, essas crianças teriam chance de existir.

Livrar-se de um homem ou prendê-lo. Dá quase no mesmo.

Às vezes, é difícil livrar-se de um homem. Às vezes, as mulheres, querendo prendê-los de vez, dizem coisas que os afugentam. Bem, se prestarmos atenção, estas duas situações podem ser definidas nas mesmas frases.

“Acho que estou grávida” (sabe-se lá porque a mente feminina cogita que isso prende homem, mas o efeito é sabidamente o contrário – sim, às vezes eles ficam, mas, minha querida, você será infeliz)

 

“Não estou falando/pensando em casamento. Pelo menos não agora.” (uh, viu, ele já sumiu! rápido e desesperado – com toda razão!)

 

“Você precisa aprender a combinar as roupas, se vestir melhor. Deixa que eu te ensino! Vamos ao shopping!” (putz! dessa até eu sairia correndo, me jogava pela janela, o que fosse!)

 

Tem algumas que nem precisam ser ditas, simplesmente pare na vitrine de uma loja de jóias, bem em frente às alianças, olhe um pouco e entre para ver uma que você achou linda.

 

“Eu gosto tanto da tua mãe! Você não acha, querido, que eu e ela nos damos bem?” (assustador, né? eu acho! mesmo que você esteja dizendo isso só pra forçar a simpatia e nem goste muito da velha, não vai cair bem. Eles querem uma “mãe”: que lave as cuecas, limpe a casa e cozinhe. Mas a mãe deles não é pra estar cheirosa na cama depois de deixar tudo limpo e arrumado! Essa é certeira combinada com a próxima – se ele aguentou voce gostar da tua mãe…)

 

“Você é tão parecido com o teu pai!” (Pense comigo: você tem semelhança com a mãe dele, ele é parecido com o pai… e? Ele vê você e ele como o casal que ele acompanhou a vida inteira: os pais dele. Cuidado que ele pode até cometer uma loucura!)

 

“Lindinho, comprei um multiprocessador!” (aí, morreu – rapazes, vocês não têm idéia de quanta coisa está implicita na compra de um multiprocessador por uma mulher que está namorando!)

 

Mas, é sempre bom saber negociar bem quando surge um “meus pais querem te conhecer” ou “acho que é hora de você conhecer meus pais”, se ela valer a pena – se não, bye bye. Mulheres, no geral, têm fixação doentia por isso. E, sabe, como é, você vai ser sempre o cara que está pegando a filhinha deles.

O audiovisual catarinense agoniza…

Eis que me encontro em dificuldade em começar este post. Será que ele não está “pronto” para as letras? Quem sabe. Pensei nele a partir de algo que já não lembro o que foi, mas foi durante o banho de ontem – banhos sempre me rendem muitos pensamentos – que, aliás, foi um dia excepcional, e eu estava espiritualmente em algum lugar distinto.

Tem o local e o universal, não é? Mas podemos dizer que há algum “local” que também é universal, não? E todo universal é local, então?

O audiovisual e o cinema em Santa Catarina são peças de estudo e crítica frequentes aqui pelo blog. Sei que nem todos os leitores têm interesse nisso. Mas, enfim, se escrevo sobre o meu mundo, escreverei sobre as produções daqui. E, na verdade, não pensei em nenhuma em específico.

Lembro que enquanto eu estava na graduação teve um artigo polêmico de algum colunista que virou duelo com alguns (ou algum) professor sobre o provincianismo da produção no Estado. Alguns devem lembrar quem foi, o que disse, outros podem fazer uma pesquisa aí no Google da vida e vai descobrir do que se trata.

Seria provinciana a produção audiovisual/cinematográfica catarinense? Vejamos…

Algo que me incomoda profundamente é o uso dos editais regionais como meros financiadores de “novas” produtoras “independentes”. Pois é, tem toda a história de prestação de contas, notas fiscais, serviços prestados e etc. que podem ser mais bem “controladas” e viabilizadas com a simples “criação” de uma “produtora”. Eu tenho uma produtora, no papel. Nunca ganhei um centavo de edital nenhum. Bem, primeira constatação: há “produtoras” demais no Estado (vide Fpolis, aliás, vide a Lagoa da Conceição). Se há tantas produtoras “independentes”, onde estão as produções independentes? Deveriam ser em grande quantidade.

Mas, vejam bem, falamos aqui em quantidade, apenas. O que, aliás, não me interessa de forma alguma em nenhuma hipótese. Desprezo essa “numeração” das coisas.

Não é novidade alguma, nem causa espanto mais, nem é segredo que essas produtoras são criadas com intuitos pouco desinteressados. Há tantos casos nos quais ela apenas serve de fachada para que o dinheiro recebido pelo edital (que não é pouco dinheiro, como todos sabem) seja usado na compra de câmeras, lentes, equipamentos em geral e o dinheiro que “sobra” para a produção é bem aquém daquele proposto pelo edital. Reparem nas produções feitas em uma locação apenas, produções que não usam sequer um travelling, que não requerem, de forma geral, gastos extraordinários em produção. Ah, sim, mas temos os atores, os diretores, os assistentes… Procurem fazer pesquisas e perguntas por aí e verão vários exemplos de equipes mínimas, onde o acúmulo de funções é regra.

Bem, chegamos ao ponto onde os recursos não são usados devidamente para a produção (apesar de que nada pode ser provado porque as “produtoras” encobrem todos os pontos suspeitos) e o proponente consegue erguer-se com as verbas que deveriam ser destinadas à qualidade das produções, não apenas à quantidade (não são tantos assim os “vencedores”).

E quando um professor universitário federal ganha um edital desses? E quando a velha guarda do audiovisual catarinense ganha? Sabemos que eles não precisam “erguer-se”, nem abrir a sua “produtora” (posto que eles já têm uma produtora que foi iniciada dessa forma descrita anteriormente)? Sim, a velha guarda fez isso (e muito) e, penso eu, ensinou a nova geração (da qual faço parte) a fazer o mesmo.

Bem, chegamos aqui ao ponto de que é assim que se “faz” audiovisual e cinema em Santa Catarina. A forma é a mesma a muitos e muitos anos, antes mesmo de eu sequer pensar em entrar nessa área.

Alguns dessa velha guarda foram (são?) professores nos cursos de graduação em Cinema/Cinema e Vídeo/Cinema e Produção Audiovisual. Digamos que tiveram “bons” alunos, não é?

E eis que vejo muitos problemas nisso. Mas a situação piora quando somamos a isso o “local e o universal”.

Por que o dinheiro público deve ser usado nessas produções? Bem, eu sei, o problema é histórico no Brasil, não vou dicutir.

Porém, quero discutir o universal e o local em poucas coisas que vi e vejo. Vejam comigo.

Um vídeo sobre inscrições rupestres (tão mais místico do que didático)? Um vídeo de ficção que trate do preconceito?

Todos são válidos? Sim, claro.

Participei, nos últimos anos, de dois trabalhos de amigos muito próximos. Acredito que eu trabalharia nas produções independente do tema ou da abordagem, pois são meus amigos. Independente disso, quero apresentar as qualidades dos dois (pretendo escrever uma crítica para cada um aqui no blog).

Semeadura, de Cleuza Soares, é um documentário sobre cotas para negros, índigenas, estudantes de escolas públicas. Ele é universal, as cotas no Brasil são uma extensão de projetos e discussões dos EUA e outros países. Porém, ele é local, ele aborda personagens aqui da Universidade Federal de Santa Catarina. A discussão, enfim, se embrenha no local e no universal. Como diria Vinícius ou Tom Jobim, na nossa fala sempre esta o nosso quintal. Cleuza conseguiu captar falas emocionantes dos personagens. As falas de dois professores da UFSC, um da Odontologia e uma da Filosofia, e do índigena me deixaram até hoje marcas impressionantes. Tive o prazer de assistir a uma exibição do Semeadura no FAM do ano passado e ficar lá atrás registrando a reação das pessoas. A professora Sônia Felipe deixa todos os espectadores desconfortáveis com a dureza e realidade das suas palavras – o que, aliás, ela conseguia fazer com os alunos em sala de aula. Cleuza viu o universal aqui no nosso quintal e produziu um material de riqueza excepcional com as falas de pessoas com as quais provavelmente muitos de nós cruzam todos os dias.

O outro trabalho foi o Pé na Tábua, do Adenor Gouvêa, que aliás nos deve colocar o material no Youtube da vida. Adenor delira. Delira muito. Acompanhei cada um desses delírios tão de perto que delirei junto. Enfim, delírios à parte, quando li o roteiro e a inteção da direção de arte fiquei muito incomodada. Aquilo ali era universal, mas não era local. As influências, a fotografia, tudo caminhava para a apropiação de um outro “local”, de um “estrangeirismo”, digamos. Eu devo ter falado algo assim pra ele na época. Como a produção não contava com verba nenhuma (como o da Cleuza), Adenor soube aceitar as realidades do “local”. Ali ele soube trazer o estranho para o quintal dele. Mudou locação, mudou quase tudo na arte, mudaram atores, surgiram personagens. O surgimento de um personagem (que na edição final ficou de fora, o que é a grande birra minha com o trabalho) foi inspirado nos políticos brasileiros, no “crime do colarinho branco”, na realidade tão brasileira e que tornou o “universal” tão local. Este personagem foi criado a partir da criatividade do ator escolhido e na época estavamos em eleições. Tudo isso foi criando um roteiro que não mais era um Tarantino numa estrada interminável americana no meio do deserto. E eu digo: faz diferença.

Nenhum deles, como eu disse, ganhou edital nem nada. Não foram, também, “patrocinados” pelas produtoras que “empregam” estagiários e prometem equipamentos maravilhosos para os seus súditos fazerem seus trabalhos na universidade em troca de promessas que seus sonhos e projetos pós-graduação serão realizados. Vejam bem, promessas. Promesas, apenas. Promessas pequenas.

Agora temos o exemplo de um bem-sucedido trabalho de conclusão de graduação do Alex Siqueira. Talvez o mais “rodado” dos trabalhos saídos da UNISUL, já foi exibido em vários países em festivais e ganhou os prêmios de júri e público do FAM deste ano. Não posso comentar aqui porque ainda não assisti nem trabalhei nele, mas pelo “tema” acredito que é mais um exemplo do universal e local.

É disso que precisamos.

Não precisamos de “historinhas simples”.

Diríamos eu e meu amigo Éder, na época da graduação: nem de historinhas de casal! Muito menos de comercial de margarina!

O dinheiro público não pode sustentar isso nem a “criação” (vejam bem, você abre uma produtora, não “cria”) de algo que chamam de produtora que de independente não tem nada! Também sou contra dinheiro público para o local apenas. “sei lá o que da tainha” e “mais contos bruxólicos da Ilha” serão sempre e sempre candidatos desleais nessas disputas. O local com o universal é um casamento difícil, por vezes doloroso, tortuoso e essencial – além de exigir uma criatividade fora do ordinário.

O ordinário, por sinal, é a zona de conforto da velha guarda. O “local” sempre vai garantir isso. Pena é a nova geração ter tido tão “bons” professores.

Felizmente nem todos fomos “bons” alunos.

E o audiovisual/cinema catarinense agoniza em noites frias de um ínsipido FAM e em dias de calor sufocante de uma antropóloga perdida entre bruxas da Costa da Lagoa.

 

 

 

 

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