Prefiro sofrer em Florianópolis

Estava conversando sobre a próxima tatuagem (voltei de viagem com uma especial para fazer e ainda falta a anterior) com a amiga e ela disse que sempre estranhou eu não querer nenhuma relacionada ao mar, pelo tanto que gosto dele. Fiquei surpresa, nunca tinha pensado nisso. Matutei a idéia… mas tatuagem relacionada ao mar? Mais algum verso, quem sabe. Golfinhos nem pensar, tenho horror a tatuagens de golfinhos (quando fizer um post sobre tatuagens prometo que explicarei). Aí vinha pedalando lá da Lagoa (a da Conceição) no fim de semana e entre sorrisos e canções sem fim tive a idéia. Farei uma com o traçado do mapa da Ilha. Porque todas as tatuagens que tenho são por motivos de amores especialíssimos e não há como negar meu amor por este pedacinho de terra encontrado no mar. No mesmo dia, no intervalo do trabalho fui procurar um livro para ler… lembrei que tinha passado na UFSC algumas semanas atrás e comprado alguns do Flávio José Cardozo, achei que era uma boa pedida. Fui me deliciar com linhas leves e divertidas sobre esta Ilha que também adotei. Nada mais perfeito. Já tenho na manga um livro que estou escrevendo sobre a Ilha, as palavras são, de algum modo, a forma pela qual expresso meus amores (além das tatuagens, das fotografias, do prazer). Ler o Flávio, no qual me encontro tanto e que foi quem me deu um “ar” da Ilha antes de eu vir morar aqui, fez muita coisa retomar seu sentido.

Desde criança quis morar numa Ilha (eu dizia muito isso, mas acrescentava um “deserta”). Vim pra Ilha com uma mala de roupa e uma caixa com alguns poucos livros e meu aparelho de som. Mal a conhecia, estive umas duas ou três vezes alguns anos antes, a famosa beira-mar norte, as dunas da Lagoa da Conceição e da Joaquina, um lugarzinho rural ali pelo Sul, o centrão do shopping e da praça em frente ao Hippo (quando ainda era Santa Mônica), o mirante da Lagoa. E mesmo com tão pouco e praticamente nenhuma foto, eu lembrava muito bem de tudo. Foi onde andei a cavalo pela primeira vez. Anos depois, com dezoito anos na cara, sozinha, muita coragem, boa vontade e independência eu vim. Eu havia decidido e pronto. Cá estava eu, na Ilha, com tantos compromissos e olhos inquietos a observar tudo – tudo e muito mais. E nós fomos nos conhecendo, ela me deixava ver como ela era, eu me expunha cada vez mais. Aqui já me apaixonei e desapaixonei, já me iludi e desiludi (ah! as desilusões!), já errei e acertei muito. Já conheci pessoas muito ruins e também pessoas excepcionalmente boas. Já me perdi – e definitivamente me encontrei. Já me perdi pelos morros, já me perdi pelas ruas (principalmente no centro), já me perdi no meio do mato entre sufocos e risadas, já me perdi espiritualmente, já perdi meu coração numas curvas, já saí de mim em deliciosos banhos de mar, já fiz coisas inconfessáveis, já tirei toda a roupa na Galheta (e em outros lugares), já pesquei na Barra e no Pântano do Sul. Ela tem esse charme com o qual já tentei explicar aos outros como fui seduzida, um charme especial de cidade pequena com ares de cidade grande – visto que não sou adepta do interior mas também abomino metrópoles. Tem quem diz “dinheiro não traz felicidade mas prefiro sofrer em Paris”, ou algo assim. Eu prefiro sofrer em Florianópolis. Até ficar triste ou sofrer é melhor aqui. Já passei por momentos ruins nesses anos todos. Mas sempre tenho algum lugar muito especial para ir quando estou assim. Ou simplesmente poder ficar quietinha no meu canto – assim a “ilha deserta” se concretiza. Florianópolis é um lugar-passagem para muita gente, fiz amigos que hoje estão espalhados pelo Brasil e pelo mundo. Até eu cogitei planos de ano que vem ao completar a marca de dez anos de Ilha me mudar. Pelo simples apreço de chegar do nada num lugar com uma mala de roupa e uma caixa com poucos livros. Tenho sérias dúvidas de que a experiência seja tão fascinante quanto foi por aqui. E a Ilha é assim, não é ciumenta nem possessiva, eu vivo viajando e ela nem reclama – só me recebe com dias nublados de vez em quando. Tenho isso de, por essa época, esperar o patriotismo dos seus morros pintados de verde e amarelo-guarapuvu. Ah, se eles soubessem quantas vezes já me fizeram sorrir. Há exatamente um ano eles foram protagonistas de uma superação marcante. Já fui testemunha da existência dos duendes, e não só daqueles dos morros da Lagoa da Conceição, mas daqueles ali do Ribeirão também. Já vi a lua nascer esplendorosa atrás da Ilha do Campeche. Já vi o sol nascer atrás do morro da Mole. Já vi o mais belo pôr-do-sol da Ilha ali na praia do Forte. Já nadei com pinguins nos Ingleses. Já bebi até cair na Armação (e no Estreito também, não quero deixar o continente com ciúme). Já vi golfinhos na ponta do Rapa e em Naufragados. Já prometi um dia ir morar na Daniela. Já subi e desci algumas vezes o morro das Sete (suspeitas) Voltas de bicicleta e à pé. Já tomei banhos de cachoeira até esquecer do mundo. Já comi os mais deliciosos camarões. Já fugi para o cinema em tantas terças-feiras difíceis. Já fiz passeios fantásticos (literalmente) de carro pelas madrugadas assombradas da Ilha. Claro, já passei maus bocados também. Já fiquei sem ônibus inúmeras vezes nas greves anuais dos motoristas e cobradores. Já fiquei horas e horas em hospital esperando pra ser (mal) atendida. Já fiquei algumas horas parada em filas para atravessar as pontes. Já fiquei sem sinal de TV, rádio e celular porque os morros criam áreas de sombra. Já enfrentei primaveras chuvosas demais. Já tive que evitar certos lugares pelo tipo de gente que os frequenta. Vejam só, esta lista é bem menor. Nem vale a pena falar dela. Coisas ruins e problemas existem em todos os lugares, o certo é fazer um balanço entre as ruins e as boas para ver quais prevalecem. E, sim, pensando no mar do Campeche que fica aqui ao lado eu sei que as boas extrapolam em muito as ruins. Aliás, já morei no centro, na Carvoeira (verdadeiramente Saco dos Limões), na Trindade e agora no Campeche – porque preferi um mundo distante. Desprezo essa gente que mora na Ilha e só considera a existência da região central (ali, do centro até a UFSC, no máximo Itacorubi até a UDESC e redondezas), a Lagoa (da Conceição, bem entendido) e, sei lá, como praia, os Ingleses talvez. Desprezo essa gente e muitas gentes que não conhecem nem querem conhecer a Ilha, que não a respeitam e não têm olhos para tudo que há além das belezas. Por aqui fui aprendendo na marra a lidar e conviver com as pessoas. Os vizinhos, por exemplo. Aqui mesmo já tive que denunciar maus tratos aos animais, a Lei Maria da Penha e maus tratos infantil. Tenho uma vizinhança divertida. Quem manda ser tão observadora. Sou apaixonada pelos manézinhos. Aliás, quero que meus filhos sejam manézinhos, vai que levo sorte e poderei ouvir o sotaque lindo deles o resto da vida (se não forem como eu que nasci sem sotaque). Amo o sotaque manézinho. Quem diz que italiano fala alto é porque nunca ouviu uma manézinha legítima. Mas também nunca vou entender a bananinha, a bacia com louça lavada para secar ao sol, os quintais cimentados (ou com piso), o pão de trigo (ainda sofro com isso), a falta de ambição, o prazer pela negação e a seriedade inabalável. Não conheço tanto da sua história nem dos seus personagens nem todos os seus nomes e recônditos. E amo-a mais por isso. A cada vez que vejo uma curva nova, um horizonte descortinar-se, renovo meu amor. E foi isso que me fez relembrar o quanto sou apaixonada por esta Ilha e como ela me faz tão bem – até quando estou mal. Nem os condomínios do Ribeirão para a nata alternática, nem os prédios feios fincados na Brava, nem o mau gosto arquitetônico de Jurerê Internacional (afinal, até eles precisam ter seu espaço na Ilha), nem o futuro hotel de luxo do mirante, nem o shopping sobre o mangue, nem a chata limitação de acesso à base aérea (parece que ela vai realmente ter fim), nem o gosto desenfreado do povo ilhéu por tudo que é modismo (vide os sushis, os MiniCooper, as leggings Dits), nem as casas em área de preservação permanente, nem os palmiteiros, caçadores e trilheiros de fim de semana me fazem amar menos esta Ilha. Aqui eu acho tudo perto. Em trinta minutos ou uma hora (tanto de ônibus quanto de bicicleta e à pé) eu chego nos lugares mais lindos. E é um pouco por isso que ser feliz e ser triste aqui é tão bom. Ela é enorme. Posso passar meses sem ver o farol da Barra lá do alto do Maciço, ou o pôr-do-sol do alto do morro das Aranhas, ou sem caminhar pelas dunas entre a Joaquina e o Campeche, ou sem subir o caminho da praia do Saquinho até minha pedra favorita, ou sem ir comer um camarão na Costa, ou sem ir caminhar pelo Ribeirão, ou sem boiar na Lagoa do Peri como se não houvesse amanhã, ou sem ir fotografar as praias e pontas da Cachoeira. Eu posso, na verdade, variar. E não há nada mais imutável nos meus desejos do que o desejo de variar. Sobre a má fama de ter fobia aos que, como eu, vêm de outras terras, não tenho nada a dizer, bem pelo contrário. Sempre fui muito bem recebida. E ainda quando me perguntam de onde sou e digo que sou curitibana mas catarina de coração desde bebê ouço (como ontem ainda me disseram) que fiz bem. E fiz mesmo. Não trocaria ser catarina de coração por lugar nenhum da Terra. Por isso nunca vou entender o preconceito e a dor de cotovelo que existe à beira do Rio Cachoeira com a sua Ilha-Capital, e dos quais felizmente não fiquei com nenhum ranço. Quando criança, pelo tanto que eu ouvia, Florianópolis parecia um lugar de pessoas vagabundas, de orgias, de leviandade – um perigo a ser evitado, principalmente pelas almas fracas. De certo modo, devo concordar. A luxuriante Ilha desperta a lascívia, a sedução, os prazeres. Daí a concordar que isso é ruim e deve ser evitado, já é demais pra mim! (seria eu uma alma fraca? sim, confesso minha fraqueza pelas coisas boas da vida!)

Leio Flávio com um sorriso nos lábios. Me divirto toda vez que saio, nem que seja só pra ir até a academia aqui perto, ou numa tarde de revolta ir até o Floripa me acabar num fast-food. O livro que estou escrevendo não vai contemplar todo esse amor nem todas essas paisagens, personagens e desincronias que por aqui existem. É só mais uma declaração de amor e talvez meu dia de “fico”. Posso até ser feliz em muitos lugares, mas eu prefiro sofrer em Florianópolis.

Quando acontecem coisas naturalmente românticas

No mundo da ficção não falta luz. Ou, quando falta luz, acontecem coisas românticas. Eu gosto de coisas românticas. Naturalmente românticas, não planejadamente românticas. É preciso acreditar demais no Destino e desconfiar demais das pessoas para pensar assim. E no meio do meio do dia eu só queria chamar alguém de biltre. Até ontem à noite queria braços e pernas e pescoços e cabelos para afagar. Tudo planejadamente romântico. Desculpem o intervalo, estava cá vasculhando quando não fui planejadamente romântica. Nunca? Nunca, bem está. Anoto mais esta culpa. Consequência da impaciência, das brigas constantes com o Destino, dá má interpretação dos sinais, de sempre supor-me muito mais carne do que alma e coração (e, apesar de por última, talvez seja esta a maior causa da culpa).

Suponho-me sempre muito mais carne, esta que envelhece e apodrecerá como um dia me lembrou uma amiga, e com veemência ignoro-me do resto. Aquele resto que não se vê – e São Tomé que sou, tenho dúvidas quanto à existência. Por isso, esses dias brindava vinho à frieza e fortaleza que trago invisível no peito. Visível era o decote do vestido tomara-que-caia vermelho. (E também assim me sentia invisível.) O vinho doce, a comida boa, o corpo se regozijando. Palavras tão fáceis da boca pra fora. E, quem sabe, não há brinde que salve. Não há falta de luz que acenda qualquer bobagem de “luz interior”. Não há. A ficção, sim ela, aviva… faz quase São Tomé acreditar que há algo aqui dentro. Eu teria sido daqueles jovens românticos de outro século a beber, comer, ficar endividado, jogar, e loucamente – naturalmente ou planejadamente? – morrer antes dos vinte. Seria, então, o caso de só o naturalmente romântico a tirar as dúvidas de São Tomé? Já mergulhei em tantos devaneios a crer que sim. Alcançaria o estado de suspirar pela falta de luz como se nem notasse e jamais quereria chamar alguém de biltre?

E sem querer citar, sinto como se todo deleite fosse obsceno. Desculpem o intervalo – estava cá a lembrar que o corpo padecerá. Como diz a canção, nem o diabo quis negociar minha alma vendo um mau negócio. Curiosamente desejo as coisas naturalmente românticas – seriam elas a dar algum valor à alma? Tenho pilhas de perguntas que talvez encontrassem respostas. Sei que das coisas planejadamente românticas já tirei todas as dúvidas e conclusões. Este intervalo foi longo, eu sei. Estava pensando se colocarei um ponto final. Caberia um ponto de interrogação no final, é verdade, mas considero muita pretensão. Estava pensando, também, se este bebê que chora foi fruto de algo planejadamente ou naturalmente romântico. Na verdade, primeiro há que se questionar se foi romântico. Os poetas daquele outro século também hoje se matariam, mas não pelos mesmos males. Fui ver que há um relógio de pulso ainda com pilha que me garante que tudo continua seguindo. A falta de luz, então, só interrompeu meus pensamentos. Já não sinto vontade de chamar alguém de biltre. Sinto que nem tenho mais vontade de que a luz volte. Lembro do brinde. Do brinde e do vinho. Nem o vinho esquentou-me ou abriu brechas na fortaleza. Será preciso mais que isso. A ficção, sim, me atira dúvidas no corpo que deseja e envelhece. Calma, procuro o ponto final, e confesso que sinto-me mais distante dele. A luz não voltou – faltam-me, de fato, as coisas naturalmente românticas para ignorar isso. Como ainda há relógio, não há fuga. Arrisco-me a dizer que sairei com uma fresta de esperança a desejar coisas naturalmente românticas – no acaso, no acidente, no imprevisível. É um risco. E digo isso porque não encontrava peça que encaixasse com peça, em mim, nos últimos tempos até faltar a luz e eu esquecer o biltre-ninguém e perceber o brinde e a ficção e as coisas românticas.

(chegou o rapaz que dá a luz e talvez seja esse o mundo sempre a dar seus pontos finais)

Não se deve ignorar o Destino

 

Confuso. Parecia tudo muito confuso. Uma semana mais sem pé nem cabeça da qual só ficava uma certeza: tinha sido filha da puta. E as coisas se ajeitavam de um jeito que não dava pra entender. Mas os dias, as horas, os segundos, vão seguindo e não tem intervalo nem legenda. Virou a lua, virou a semana. E tudo continuava confuso. Muito confuso. Fui aceitando aqui, respeitando ali. Sei lá, a vida joga, eu pego. Como o Leminski fala do Destino, o que pintar eu assino.

 

E era sobre ele que eu queria falar, de novo.

 

Não dá pra ignorar o Destino. Eu queria pegar o telefone, te ligar e dizer só isso. Eu repeti isso para mim mesma ontem a noite toda, a madrugada toda. Não dá pra ignorar o Destino. Você não percebe, eu sei o que se passa na tua vida, e conselho é bom, a gente dá, eu mesma distribuo aos montes por aí. Você não percebeu que as coisas começaram a mudar desde semana passada, tempestades virão, não é bom mexer com dinheiro nem tomar grandes decisões. E você foi lá e fez tudo sem ouvir o Destino. Eu não posso deixar de ouvir o Destino, porque o preço é muito alto. Já paguei algumas vezes – e não quero fazer de novo.

 

Dizem lá as runas, os tarôs, os I-chings, os horóscopos, as mandalas… é preciso ouvi-los. Falam em medo. Em escuridão versus luz no caminho. O medo e a escuridão nos fazem fechar os olhos ao Destino. Pois eu não posso. E aí nossos caminhos descruzaram de vez. Enquanto via os carros passarem, a poeira levantar, os postes acenderem, pensei que preciso sorrir mais. Sorrir mais para os outros – pois já faz um bom tempo que eu tenho sorrido muito para mim mesma e para a vida.

 

Preciso sorrir mais para os outros. E diz lá a runa, ou outro desses, para eu usar mais amarelo. Diz lá que caminhos serão abertos. Não posso ignorar o Destino.

 

Porque o Destino faz assim: vou caminhando para comprar pipoca do velhinho que sempre está ali, prefiro comprar dele do que do outro que fica próximo porque este só aparece quando tem movimento. Chego, peço “Uma salgada”, tiro um fone e… ele se vira, me olha nos olhos por uns eternos segundos e diz “Tinha uma canção que minha avó sempre cantava que dizia assim: a gente tem que gostar de quem gosta da gente.”. E foi no momento que nossas vidas mudavam, aqui e aí. Foi no exato momento. Caminhos que descruzavam-se para todo o sempre.

 

E tem mulheres que fazem de tudo para segurar um homem. Sabe, controlam, levam pé-na-bunda e voltam, nem é sexo, é ganância, é ambição. Ambição, é isso. Eu não sou assim. Sou destituída de ambição, não almejo grandes coisas. No máximo tenho visualmente cobiçado belezas. Tem muita gente ruim nesse mundo.

 

Não posso ignorar o Destino. Não tenho mais como ignorar quem eu sou. Quem sabe mais sorrisos. Quem sabe lutar contra a escuridão. Usar amarelo vai ser mais complicado. As dores de corno sem nem ter sido eu supero. Algumas horas, algumas coisas apagadas, rasgadas, escritas, resolvem. E tem tudo isso da vida que escapa a essa confusão – as coisas belas, os caminhos, as imagens lindas, o som do mar, os prazeres da carne, os telefonemas surpresa, os convites inesperados, as boas companhias, as conversas sensacionais, o flerte, uma boa tarde de trabalho. Quando o balde de confusão transborda eu me afogo em tudo isso. Mas, Destino, eu nunca esqueço de você. Tempestades virão porque o Destino está aprontando.

 

Pessoas vão ficando pelo caminho… sim, eu lamento. Porém, pior para elas. Tenho bons conselhos também – invariavelmente quem não ouve o Destino não vai ouvir alguém. Meus lamentos não duram mais que um incenso.

 

Eu nunca vou te dizer isso, mas ignorar o Destino é uma baita burrice. Dá não.

Vênus

Toda vez que olho o céu, e o faço todas as noites, procuro a estrela mais brilhante e penso que lá estão os que eu amo e que não estão mais ao alcance de um abraço. Pois quando eu era criança… nem tão criança porque já havia passado por aquelas coisas que nem adultos dão conta de viver, eu assisti àquele desenho, no qual o pai leão rei à beira da morte dizia ao filho que quando ele ficasse triste era para encontrar a estrela mais brilhante no céu e que lá estaria ele olhando pelo filho. Nem sei se foi nessa cena, sei que foi neste desenho. Enfim, desde então eu olho para o céu… e fico um tantinho mais triste quando as nuvens não me deixam encontrar a estrela mais brilhante.

Eis que encontrei uma bem bem bem brilhante, na porta de casa. Da varanda ou da rua, é só escurecer um pouco o céu e lá está ela, muito brilhante, sempre no mesmo lugar, por vezes solitária. A curiosidade me tomava: então agora eu tinha a minha estrela brilhante anti-tristeza com todos aqueles que eu amo do mundo de lá assim pertinho de mim?

Não, um dia descobri que não era uma estrela (bem achei que era estranha). Se eu fiquei triste? Não. Fiquei ainda mais feliz. Dizem que é Vênus. Sim, Vênus, aquele, o do amor.

E eu que já sou sempre fui (não se enganem, não é erro de digitação, é pra ser assim e contemplar um belo tempo verbal) apaixonada pelo amor, agora estou namorando-o. Me faz companhia, sempre olha por mim quando chego muito tarde em casa, passamos horas namorando na varanda, ao som de alguma canção, embalados em dúvidas e contemplações, admirando as companheiras de céu. Eu que ficava aqui a observar os aviões que chegam e partem, ouvindo e vendo um ir e vir charmoso, agora tenho companhia para tal. Às vezes brincamos de adivinhar qual o destino, ou a origem, do avião. Às vezes criamos histórias para seus passageiros. Às vezes prevemos tragédias. Vênus, aquele, do amor, não tira os olhos (ou o brilho) de mim. Às vezes… bem de vez em quando… ele não aparece, como hoje que umas nuvens de sujeira tomaram conta do lugar dele. Não sei se ele foi atender algum outro apaixonado, ou se foi intervir em alguma desavença, ou se anda enamorado de outra varanda. Eu não tenho ciúme. Senti falta dele quando vinha caminhando pela rua… senti falta dele quando fui fechar a varanda e senti falta da nossa longa e sorridente despedida – aquela de todo dia. Sei que amanhã, ou depois, ou depois, ele estará de volta. Por isso não me preocupo. O amor é assim. E é difícil chover por mais de três dias seguidos na Ilha.

Diz

 

E se perguntarem por mim, coisa que eu sei que não farão, diz que tirei o ano para trabalhar. Diz que tenho amado amores inconfessáveis. Diz que tenho colocado cadeado nas intenções, diz que o Destino tem me negado paixões em outros braços. Diz que tenho viajado, tenho tirado temporadas cá e lá. Diz que tenho pensado… diz que tenho arquitetado caminhos e esperanças. Diz que tenho me ausentado do mundo aqui de fora porque o meu mundo está em erupção. Diz que tenho ignorado os gemidos agonizantes do coração. Diz, também, que fiz as pazes com o tempo e com os prazos. Diz que já entendi que 2013 é tempo de plantar – logo mais, quem viver, verá. Diz que é tempo de escolher as palavras certas. Diz que ando daquele jeito, amante das palavras. Diz que tenho investido meu tempo, meu dinheiro, minhas palavras. Diz que tenho buscado apoio no vazio e no silêncio. Não esqueça de dizer que abri mão de acordar dos mais belos sonhos. Diz que encontrei quase tudo o que me deixa completa. Diz que assumi riscos – trabalho, invisto nas palavras, planto as sementes escolhidas – e ando sorrindo com o canto da boca. Diz que meu olhar anda mais perdido que nunca. Diz, por fim, que logo será a época da colheita…

Experimentando idéias

 

“Pensando? Ela teria dito que não. Estava tentando apoderar-se de alguma coisa, ou desnudá-la, de forma que pudesse olhá-la e defini-la; agora, já fazia algum tempo que vinha experimentando idéias, como se fossem diversos vestidos tirados de cabides.” – Doris Lessing, O Verão Antes da Queda.

 

E foi assim que compreendi novamente o sentido de tudo, inclusive de continuar a escrever também para o blog. Fico assim tentando apoderar-me de alguma coisa, tentando desnudar os sentidos, as pessoas, as coisas, a vida. Tento olhar e definir. Experimento, enfim, idéias. Tiro esses vestidos dos cabides e vou experimentando, analisando, jogando uns sobre os outros. Escrever tornou-se isso, seja uma crítica de um filme, um livro de contos, um texto acadêmico, uma carta, um e-mail, um twitte: experimentar idéias.

 

Ao me ver caminhando por aí, parada, deitada, olhando o nada saiba que estou no momento provador: tiro vestidos dos cabides. Se eu estiver sempre assim, tanto melhor.

 

 

Porque fugir sempre faz sentido e as cenas da vida

Dia desses ia voltar caminhando para a casa, à noite, sentindo todos os músculos do corpo – literalmente – quando decidi não voltar para casa. Outono na Ilha, vento Sul entrando forte e poderoso. Fazia frio, diriam uns. O vento é das dez coisas que mais mexem comigo. Às vezes eu tenho isso, vontade de fugir, de não voltar pra casa. E eu fujo de casa, às vezes conscientemente, às vezes não. Posso avisar ou não. Sim, já fugi ou saí sem rumo de casa muitas vezes, desde criança. Eu simplesmente saio de casa. Mas fugir e avisar não tem muita coerência, né? É que em respeito a minha mãe eu de vez em quando aviso “não te preocupa, vou dar uma sumida”. Ela já me conhece, sabe como é. Até aqui no blog já avisei que ia sumir. Às vezes deixo anotado num mural de casa que sai sem rumo, caso eu desapareça por muito tempo ou me aconteça alguma coisa, saberão o que foi. Uma amiga ainda esses dias me mandou uma daquelas imagens que circulam pelo Facebook que falava sobre isso. Aí encontrei essa e achei a minha cara. Tem até uma palavra pra me definir. (sim, também há essa obsessão por viajar)

 

tão eu, né?
tão eu, né?

 

E eis que naquela noite eu não queria voltar pra casa. Fui caminhando, passei a rua de casa e continuei… eu gosto do vento frio, ele faz com que eu me sinta viva, ele me revigora. Fui caminhando e pensando. No que eu pensava? Na vida. Tenho essa mania. Pensei em pessoas, pensei em atitudes, pensei em desânimos. Numa semana que o que mais me indignava era que eu não poderia falar com quem eu precisava. Sim, eu precisava de uma tarde conversando com ela naquele quarto de costura… e isso nunca mais vai acontecer. Nunca mais. Talvez, um dia, quando eu morrer, eu me encontre novamente com ela. Mas aqui, em vida, eu nunca poderei voltar àquele quarto. E tudo o que eu precisava era conversar com ela. Precisava ouví-la, precisava contar tudo o que me passa pela cabeça, precisava dizer como anda minha vida e ouvir o que ela acha dos meus sonhos para um futuro próximo. Enfim, eu não teria nada disso. Se eu não tenho isso, que é tudo o que eu preciso, então também não quero nada. Nem voltar pra casa. Fui caminhando e pensando. Quando as grandes coisas da vida não me interessam eu me volto para aquelas pequenas coisas que me rodeiam. E aí pensei em três cenas que eu havia presenciado naqueles dias na Ilha.

 

Cena 1

Me arrastando pelo centro, quase fui atropelada ao atravessar na Praça XV. Eu quase ser atropelada é normal por conta da atenção precária, mas dessa vez foi especial pela febre e intensas dores no corpo. Queria e precisava resolver umas coisas e comprar remédio. Tive que sair de casa. Me arrastava, como eu disse, pelo centro quando passei pela banca que vende maçã do amor e cocada. Eu amo cocada. Parei, perguntei quanto (pois é, a mão-de-vaca aqui já aceitou que três reais é um preço normal por uma cocada), escolhi uma (branca pura, please), a senhora foi pegar a sacola, eu fiquei catando o dinheiro na bolsa. Quando peguei a sacola ela disse “Obrigada, bom fim de semana pra você.” Ao que eu respondi na lata “Obrigada. Igualmente.”. Peguei essa mania faz algum tempo: sempre que a pessoa me diz alguma coisa eu respondo “igualmente”. Já surpreendi muito atendente de call center com isso, eles cumprem o protocolo com um “boa tarde” e eu respondo “igualmente”, eles chegam a gaguejar e de vez em quando até respondem um “obrigado”. Assumi pra vida, me desejou, desejo de volta – até porque se a pessoa está desejando algo de ruim internamente, vai ficar preocupada. Aí a senhora me disse “Obrigada. Quer dizer, bom fim de semana pra gente, né? (um sorriso) Nós merecemos.”. Eu sorri de volta e fui me arrastando em direção ao terminal. Ficou ribombando na minha cabeça “nós merecemos”. Eu não a conheço, ela não me conhece. E é tão fácil nos desejarmos um bom fim de semana porque merecemos.

 

Cena 2

Lá estava eu indo para um compromisso. Rio Tavares – Lagoa, entre dois lugares bastante habitados e movimentados da Ilha. Sentada no ônibus olhando pela janela, mp3 ninando. Três cavalos livres num tereno enorme (uma espécie de sítio) saem em disparada. Lindos, um todo marrom, um branco com manchas pretas e um branco com as patas mais escuras. Galoparam, galoparam, galoparam. Um luxo ainda com o ônibus em movimento como se fosse um travelling deles. Eu me senti extasiada. Um espetáculo. Ali, num dia de semana qualquer, na Ilha que tem essas belezas sem fim – para quem sabe apreciá-las. Não pareciam ter destino, não parecia haver motivo para a disparada, livres. Andar a cavalo é uma experiência indescritível e desperta os ânimos dos amantes da liberdade. A cena, tão linda quanto significativa, me voltaria à mente durante as longas horas burocráticas seguintes daquela tarde. Decidi até tatuar a palavra “liberdade”, em árabe, na mão esquerda.

 

Cena 3

Eu num ônibus novamente. Senta ao meu lado uma adolescente, snikker, calça skinny, moletom, mochila, cabelão. Digitava sem cessar no celular. Parênteses: tenho agonia com pessoas e seus celulares em lugares públicos. Faço cara feia pra quem fica falando alto no celular e não resisto – nem tento – a olhar o que as pessoas digitam nas suas mensagens. Sim, eu faço isso. Já vi muitas conversas por mensagens por aí. A maioria nessa coisa de casaisinhos bobos. Mas quando olhei a dessa menina franzi o cenho. Hein? Era assim “Talvez ele ficou chateado porque você não ajoelhou. Porque quando foi pro xangô Kamikarê a gente ajoelhou. Será que ele queria que a gente ajoelhasse?” (adendo: o nome do xangô ali não é o certo, na hora não entendi direito e não ia lembrar agora o certo) Confesso que quando li o primeiro “ajoelhou” pensei que ia rolar putaria na mensagem – já vi dessas também. Aí eu olhei de novo a menina, olhei a mensagem. Achei incompreensível. Ela estava mais pra uma adolescente fã de alguma banda de rock-pop. Que xangô era aquele? O que aquela menina andava fazendo? Sim, fiquei ali vendo a discussão sobre se deveriam ter se ajoelhado ou não e estupefata. Infelizmente tive que descer em pouco tempo.

 

Não foi uma semana fácil. Como as semanas começam aos domingos posso prever que esta próxima também não será. Ainda estou revoltada (com a morte, vejam só) de não poder ter aquela conversa. E, bem, a morte me faz não esquecer de certas coisas e datas. Imersa numa solidão imensa dispenso tudo e todos. Ao contrário do que as pessoas podem pensar, eu aprecio este estado. Aí ontem fui para o meu lugar favorito da Ilha, precisava ir lá para pensar, ver o mar, ficar só comigo. Fugi de casa. Como era sábado surgiram aqueles trilheiros de fim de semana e de loja de trekking. Ignorei-os tranquilamente. Quando vou lá lembro que já levei várias pessoas para conhecer o lugar, e que se eu levo alguém lá é porque essa pessoa é realmente muito importante para mim. Não sou dessas que vulgarizam atitudes. Aí fiquei pensando e me dei conta que todas as pessoas que lá levei não estão mais na minha vida, saíram pela porta dos fundos, não souberam honrar o valor que, um dia, eu dei a elas. A única pessoa que ainda está na minha vida e com quem lá estive foi quem me apresentou ao lugar. Eu? Eu continuo indo lá. Gosto de poder ir lá quando preciso ou quero. Já fui inúmeras vezes sozinha. Eu? Eu nunca faltei comigo mesma. Por essas e outras que a solidão é um negócio tão bom e faz tão bem.

 

Criei mundos mirabolantes, fantasiei futuros, construí diálogos. Fiquei algumas horas por lá perdida entre o passado, o presente e o futuro – o tempo, enfim. Senti falta das baleias, afinal é outono. Na hora de voltar, levantei e… os golfinhos estavam diante de mim. Sorri. Agora sim eu poderia ir embora. Minha vida é assim, eu vou esperando ver baleias, fico até chateada porque não as encontro, mas aí o Destino manda golfinhos. Nunca posso ter o que espero. O Destino sempre me surpreende.

 

Voltei saltitante e com pensamentos ainda a mil. A cigana, então, tinha razão: tudo ficaria para trás. E, sim, tudo e todos ficaram para trás. Agora é tão fácil perceber. Tudo o que aconteceu nos últimos meses foi para que o que acontecia antes tivesse fim, mas não seriam aqueles fatos que construiriam o futuro, seriam apenas meios para que as coisas novas viessem. Agora eu entendo. Ah, e não encontrei nenhum cobra coral. Isso foi o que me fez ter certeza da utilidade de muitos acontecimentos. Destino, você escreve certo com uma letra indecifrável, por isso eu demoro a entender.

 

Já dizia o Rei: com palavras não sei dizer – decisões, crises, os 25 e algo mais

Eu queria – e, de fato, poderia – escrever sobre muitas coisas. Queria dizer o quanto acredito no Destino quando ele inverteu a ordem das coisas na última viagem a São Paulo, e que até quando as coisas dão errado, dá tudo muito certo. E assim que sempre relativizo o conceito “errado”. Queria dizer como me senti aquele dia lá em cima daquele morro, na Ilha, com tudo e todos tão distantes, o silêncio e o vento me fazendo companhia com pensamentos entremeados de lembranças. Queria dizer como foi ver a lua na linha do horizonte numa noite no meio do Mato Grosso do Sul, na estrada ouvindo música. Queria dizer que meus pensamentos eram todos dele ao longo de centenas de kilômetros nos últimos dias. Queria dizer que a responsabilidade é a dor-delícia da vez e como ela pode crescer. Queria dizer o que é sentir-se em meio a um redemoinho do Destino. Eu queria dizer o que foi que senti diante daquele monumento histórico. Queria explicar o que é conviver com a minha solidão. Queria contar como me sinto querendo reatar laços antigos que foram desfeitos pelo peso da vida. Queria discorrer sobre como é me ver diferente em relação a sentimentos antigos, dizer como mudei no último ano, o quanto olho para mim com outros olhos.

 

Já dizia o Rei, “eu tenho tanto pra te falar, mas com palavras não sei dizer”. Eu fico assim sem conseguir escrever aqui tudo o que eu queria. E não é a primeira vez. Tantas coisas do ano passado não vieram parar aqui por esse mesmo motivo. Estão trancafiadas aqui dentro operando mudanças e fortalecendo estruturas. E escrever pra mim é e sempre foi, também, catártico. Não me entendo, não sei se poderá me fazer algum mal. Às vezes acho que são coisas de médio e longo prazo, porque o futuro reserva coisas pesadas demais.

 

Ainda nos últimos dias, olhando pela janela e vendo paisagens novas eu pensei sobre o quanto é difícil tomar decisões. Eu tenho uma especial dificuldade com isso. Muitas vezes espero que as “coisas” as tomem por mim, ou fico esperando algum “sinal”. Tomar decisões é ser radical entre isso e aquilo e eu normalmente quero tudo. Mas, mais difícil ainda do que tomar decisões é sustentá-las. Creio que é o que eu tenho passado. Tomei certas decisões cabais nos últimos anos e o mais difícil (até porque tenho uma forte tendência de tomar decisões no impulso, na emoção) tem sido sustentá-las sem fugir ou me acovardar ou simples dizer que quero outra coisa. Na verdade, eu não quero. O mais difícil ao sustentar minhas decisões tem sido o medo e uma espécie de temor (ah, Kierkegaard!). É como se eu tivesse tomado a decisão de ir por um caminho completamente escuro. Estou ali, às cegas, caminhando sem ver nem entender nada. Quem não teria medo? Como não temer o próximo passo? Aí entra o meu “modo” de ser com amor à aventura, ao desconhecido e aos in/m e penso “Dane-se o medo”. Porque já escolhi seguir, não adianta nada temer. E eu detesto – detesto, com muita ênfase – voltar pelo mesmo caminho.

 

Se sobrevivi à crise dos 25, nada mais me ocorre de mais grave. Antes eu acreditava na crise dos 30, mas devo rever minha teoria. Diz a ciência que é a partir dos 27 que a gente envelhece. Mas é nos 25 que a vida nos coloca contra a parede. Somos poucos os que passaram dos 25 e que não se ampararam em alguém ou em algo e que decidiram – conscientes ou não – continuar com seus sonhos, seguindo-os, sonhando-os e recriando-os. Aos 25 você já prevê um emprego fixo, um amor pra vida toda, um lugar para morar, amizades sólidas, o afastamento da família. A vida parece começar aos 25, aquilo que chamam de vida adulta. Vai ver você não pode mais agir entre a infantilidade e o espírito sonhador, no meu caso. Pois não consegui. As pessoas se esforçaram. Acho que eu também. Não deu certo. Eu abandonei uma vida, fui para outra, não gostei, resolvi criar uma nova. Nessas idas e vindas sempre falta espaço para esse ou aquilo. A atual está em plena formação. Os 25 deram um tapa na cara e eu estarreci. Depois, resolvi que não era hora, ainda.

 

Esses dias fui escrever um texto e acabei indo por outros caminhos. Fiz uma auto-análise catártica de um relacionamento. Sobre certas coisas eu tenho as sensações e sentimentos tão claros no momento em que eles ocorrem. Sobre outras eu demoro muito para conseguir analisá-las. Aí a amiga me falou: mas por que você não me contou que se sentia assim, a gente teria feito outra coisa. Eu não sabia. Eu descubro meus sentimentos com a experiência. Descobri, também, que sempre fui assim. Só sei o que sinto através da experiência. Não é tão simples ou bobo quanto pode parecer. E eu queria dizer como é, mas com palavras…

 

Já dizem por aí que narrar não é dizer. Tambem dizer não é comunicar. Explicar não é, jamais, fazer-se entender.

 

Passei dos 25 imune ao casamento, ao ajuntamento, nem tão imune às doenças, mas dei uma baita resposta para elas. Não abandonei os meus sonhos nem diante dos dias de trabalho e vida vulgar mais excruciantes. Não me rendi ao saldo do banco. Não conheci (e Deus me livre conhecer) a tal estabilidade, nos sentimentos, nos pensamentos, no trabalho, na alma, no dia-a-dia. Resisti às avalanches dos discursos nobres e construtivos. Preservei minha rebeldia. Enfim, não aceitei. Disse muitos nãos para conseguir ainda dizer sins tão lindos para mim.

 

A crise dos 30 deve ter sido ultrapassada pela vida que dizem que anda cada vez mais rápida. Eu gosto de tempos de crise, deve ser por isso que eu prefiro vivê-las a me render a elas. Já diz minha irmã que eu serei uma quarentona muito louca de mini-saia jeans. Na hora da crise as pessoas procuram se abrigar, mas esquecem (será?) de sair dos seus abrigos depois que elas passam. Aí, passam a vida inteira abrigadas com medo de algo que elas nem sabem mais o que era.

 

Os abrigos que me ofereceram não me conquistaram com seu conforto e segurança. Acho que também não gosto disso. A segurança, o conforto e a estabilidade não nos ensinam a viver. Pelo contrário, nos deixam fracos. E é uma forma de confinamento, de sufocamento. Se você vive com segurança, conforto e estabilidade, fraqueja diante de uma crise e vai sucessivamente se abrigando das próximas crises. Nunca vai querer encará-las. Eu fujo disso.

 

E foi assim que os 25 passaram por mim. Foi assim que tive loucura o suficiente (seria arrogante dizer “coragem”) para sustentar minhas decisões. E é assim que não consigo dizer tudo o que tem sido a minha vida.

 

Ps: prometo deixar minha vida de lado e escrever sobre coisas mais reais e mundanas de vez em quando. O problema é o blog segue a linha desassossegada e olhar para dentro tem sido um exercício frequente demais para me permitir uma preocupação exagerada com o mundinho aqui de fora.

 

Perguntas e respostas

 

Pés molhados, gelados, maxilar dolorido, tudo fora do lugar e isso aqui era para ser sobre perguntas e respostas.

 

Perguntas que deixei de fazer quando deveria e respostas que não dei quando pude. Relutância? Talvez. Alguma atração irresistível pelo mistério? Duvido.

 

Desculpem o piscianismo de hoje, mas o assunto é sério. Piscianas não gostam de “não saber”. Isso que elas são as adoradoras dos mistérios da vida.

 

Mas ficamos naquele meio de campo entre a dúvida e a fantasia. Ou corremos para a fantasia e lá nos alojamos sem previsão de saída, ou instauramos a dúvida e nos agarramos tanto a ela que certeza nenhuma (nem o seu grito mais verdadeiro) nos fará largá-la.

 

Perguntas que ficam sem respostas pelo simples motivo de que não foram pronunciadas. E nem todos conseguem ler nossos pensamentos. Ah, alguns conseguem… e esses são os que me tiram o sono. Diz lá a canção “eu não sou difícil de ler”, que interesse dá pra ter por alguém assim?

 

Respostas que não foram dadas porque ficaram engatinhando na garganta, na dúvida de se entregar assim tão rápido e direto para alguém que não sei se merece ter algo de mim, nem uma mísera resposta. Mas respostas que eu queria ter dado, estendido uma trégua, uma palavra de abertura. Porque pisciana é assim, fechada atrás do seu muro de pedra. Não são só coisas boas que existem lá dentro. E isso é sempre bom deixar avisado.

 

Esse exercício que a gente fez quase um pacto: tentaremos ser mais carinhosas, mais “abertas”. Ou algo assim. Lutaremos com essa natureza ríspida, direta, verdadeira, sincera. Não lutaremos contra isso, mas tentaremos uma abertura mais táctil (para quem merecer, é claro). Não gostamos de qualquer um. Não gostamos dos que gostam de qualquer uma.

 

Saturei minhas semanas de perguntas que giram na minha cabeça porque não foram feitas. De respostas que não dei, ou não dei como poderia. Preciso, em palavras ou, de preferência, em gestos ter algumas respostas. Na verdade, só uma. Quis o Destino que não fosse hoje. Nem será nessa semana. Uma resposta que não me deixa dormir há meses, não gostamos de não saber. Eu mesma detesto casos mal resolvidos.

 

A relutância em tomar as rédeas das perguntas e respostas se deve, no meu caso do momento, à fantasia. Encontrei um lugar confortável ali e não quis sair. Mas, idas e vindas, aquele trajeto de táxi, conversas, pactos, análises sem fim e eu quero me obrigar a sair.

 

Se as pessoas não lêem nem livros, poucos são os que perdem tempo lendo pessoas. Lendo gestos, pensamentos. Lendo as perguntas que não fiz.

 

Fiz promessas de colocar as perguntas em dia. As respostas já são mais difíceis, afinal, as perguntas passaram. Mas eu acho que dá tempo de consertar, de disfarçar o receio.

 

Perguntas e respostas devidamente feitas são tão necessárias, mesmo que evitemos tanto. Porque no nosso mundo a fantasia machuca mas é sempre mais linda que a realidade. No nosso mundo não damos explicações e achamos que as pessoas lêem pensamentos.

 

Piscianas amam a liberdade. Nunca confunda isso com qualquer outra coisa. Não me deixe livre porque eu não vou saber o caminho de volta. Piscianas dificilmente voltam pelo mesmo caminho. Piscianas querem respostas sem fazerem perguntas. E querem que você já saiba as respostas.

 

O que eu aprendi com o nissin

 

Tentarei ser breve porque as coisas por aqui me cutucaram e senti como se fosse um soco no estômago. Não é simples quando a gente descobre que quer ser feliz. Descobri isso faz tempo, mas as últimas horas e os últimos pensamentos… bem, deixa pra lá.

 

Não sei porque eu e meu irmão começamos a gostar e comer nissin. Já faz um bom tempo, é claro. Mas minha mãe sempre foi excelente cozinheira e nem víamos comida pronta em casa. Sei que quando ainda morávamos com ela descobrimos o nissin (provavelmente pelas propagandas), depois ele foi um bom companheiro quando fomos morar longe de casa. Fato é que de vez em quando fazíamos nissin.

 

Minha mãe sempre serviu o almoço e sentávamos todos juntos para almoçar na cozinha. Era sagrado. Mas janta era cada um por si, um tempo depois até comíamos em frente à TV. Faz um tempo minha mãe pegou o costume do café-da-tarde (por influência da vó). Eu, como sou boa de garfo, almoçava em casa, tomava café na vó e jantava em casa depois. Pior, fiquei com todos os costumes… eu sou uma embolada de costumes.

 

E eis que toda vez que eu abria o pacote do nissin fissurava no medo de derrubar o sachê do tempero na panela com água fervente. Toda vez. Tipo doentio mesmo. Devo comer nissin há um tanto mais que dez anos (com uns intervalos quando não podia nem ver um na minha frente – tenho disso – qualquer dia falarei mais sobre meus interessantíssimos hábitos alimentares) e sempre e sempre fissurava no medo.

 

Semana passada me deu desejo de comer nissin, eu estava na praia e não tinha nenhum. Nenhum. Assim só para aplacar o lanche começo de madrugada de uma solitária imersa em pensamentos, trabalho e ficção.

 

Hoje fui ao supermercado e comprei nissin e espigas de milho. Só. Aliás, eu tenho essa mania de observar o que eu e as pessoas compram. Acho algumas compras muito interessantes. Fico observando os carrinhos alheios, confesso. Traço um perfil da pessoa só pelo que ela coloca no carrinho. Faço o mesmo com o lixo alheio. Bem, são outras histórias.

 

Aí fui fazer um nissin para comer enquanto assistia alguma coisa ou pensava na vida. Água fervendo, abro a embalagem em cima da panela, coração travado na fissuração e… cai o sachê na panela. Reflexo rápido (sim, eu tenho e ele é muito bom), puxo o garfo e saco o sachê do afogamento. Nem me queimei. Não é época de queimaduras, é época de caneladas. Sim, tenho épocas para desastres físicos. E é inferno astral, então…

 

Primeira conclusão rápida: o sachê é feito de algum material que é bem resistente à água fervente. Eles devem prever que isso pode acontecer.

 

E eis que me peguei pensando em quantas coisas eu fiz com o coração angustiado, medo?, para evitar alguma outra consequência não desejada e… não tive o gosto de descobrir que o medo era infundado? Quantas? Quantas?

 

Quantas coisas eu deixei de fazer porque rondava aquela tensão do que poderia “dar errado” e… o errado poderia ser tranquilamente nada desastroso? Quantas?

 

Tem sempre alguém pensando e prevendo que eu posso errar, fazer alguma bobagem ou ter um lapso qualquer e, por isso, fazendo embalagens resistentes à água fervente? Terá sempre esse alguém olhando para os meus temores?

 

Foi assim que o nissin e, depois, tantas coisas deram voltas na minha cabeça e nos pensamentos sobre se eu quero mesmo ser feliz. E por que diacho eu tenho tanto – mas tanto – isso de pensar demais nas coisas e nos atos e calcular cada gesto, cada palavra, para não expor os meus temores como fraturas expostas que realmente são? Se mesmo assim me machuco tanto, que diferença faz assumi-los e que caia o sachê, que derreta, que eu coloque fogo na cozinha. Às vezes não me reconheço. Porque eu já coloquei fogo na cozinha quando menos esperava.

 

 

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