Fim de feriado

Quase cinco, saiu mais cedo do escritório na ânsia de aproveitar cada segundo do feriado no meio da semana. E as filas já na garagem da firma. No primeiro sinaleiro, quinze minutos parado. E atravessou a cidade no triplo do tempo de um dia normal. Todo mundo quis sair mais cedo. Quase chegando em casa a esposa liga pegou a mãe na rodoviária?, um palavrão e não, não tinha lembrado da sogra. Por que ela veio agora, num feriado, a velha não faz nada, está aposentada! Pra ficar mais tempo com as crianças, amor, não fala assim dela e lá foi ele, filas e filas até trazer a sogra reclamando que ficou esperando na rodoviária. Por que ela sempre viajava com um travesseiro e uma coberta, até no calor, até numa viagem de meia hora? Eram as dores, meu filho, quando chegar na minha idade! A velha era profética, ainda. Duas horas depois do horário normal de chegar em casa, a pirralhada toda feliz pelo sofá esperando a avó. A esposa cansada da faxina, imagina a mãe ver a minha casa suja! E ele deu a vez às duas no banheiro. E caiu na cama tarde e correu a mão debaixo do lençol pela perna da esposa e foi subindo e nada. Nem ele nem ela. Dormiram. Merda! Seis da manhã, despertador, que merda, esqueci de desligar! A esposa acordada, opa, volta a mão da noite anterior, rápida na bunda, vem cá! Tá louco?! A mãe está aqui do lado, imagina se eu vou fazer isso com ela aqui, deve estar acordada, sempre acordou cedo! O convincente, Amor, quando namorávamos fizemos coisa muito pior debaixo do nariz dos teus pais… A mão leva um tapa, ela pula da cama, E tu acha que eu sou o que hoje? Pronto, um bom começo. No café a algazarra, mesa cheia e ele esperou pra ser o último. Quem sabe passear? A mãe está cansada. Um filme? As crianças querem assistir TV. Almoçar fora? Não, quero fazer o prato favorito da mamãe. Ele lembrou com asco que o prato favorito da velha era língua com ervilhas. Odiava língua. Odiava, ainda mais, ervilhas. E o barulho insano que aquelas crianças produziam em grupo. Mofou no sofazinho do quarto. Depois do almoço, quem sabe, teria paz. Amor, vamos no supermercado? Ué, tua mãe não está cansada? As crianças querem que ela faça os bolinhos, precisamos dos ingredientes. O supermercado, num feriado, no meio da semana, mais lotado que as ruas da véspera. Voltaram às seis e meia, ele louco pra tomar uma cerveja e ver TV. Era a hora sagrada da novela delas. Desistiu. Sentou. A velha fez o tal bolinho, jantaram, e a esposa olhou pra ele A louça é tua, quem não cozinha, lava! Toda felizinha. Como pode alguém sujar tanta louça pra fazer um maldito bolinho sem gosto?! Quando terminou, todos haviam tomado banho, as crianças na cama, a velha deu seu boa noite. A esposa fresquinha Tô cansada, apaga tudo quando for deitar. Mais de onze da noite, tomou um banho, abriu a cerveja, sentou no sofá. A TV a cabo sem sinal. Meia hora e nada. Desistiu. Levantou. Deitou e ouviu o suspiro leve da esposa. O corpo fresquinho. A mão direto no peito, Pára, amor, que saco. Virou, verificou se o despertador estava ligado. Pensou no dia seguinte: sair de casa antes das crianças acordarem, ficar a manhã toda vendo vídeo no youtube escondido do chefe, esperar pela hora de ir ao refeitório da firma, almoçar bastante ouvindo e contando piadas com os colegas, descansar meia hora no banco do carro. Trabalhar um pouco à tarde, pra não deixar atrasar o serviço, terminar às cinco pra sair às seis em ponto. Chegar e as crianças de banho tomado cansadas demais do judô inglês ballet natação irem direto pra cama. Assistir sossegado ao jornal da TV esparramado no sofá. Desligar tudo, tomar banho e ir deitar. A mão correr pela espinha da esposa e torcer para que o cansaço e o sono dela sejam tão grandes que não consiga negar e impedir as vontades dele. Sonhou com o amanhã.

Quem me dera ela fosse a medida de todas as coisas

Lânguida e arrasada na cadeira, braços caídos a encostar no chão, olhos fechados do rosto jogado para trás a banhar-se no sol do inverno daquela manhã. O grande cão cinzento ao lado, sonolento e atento aos passinhos do sabiá que revira a terra nova. Ela repara no vermelho diante dos seus olhos fechados, vira o rosto para a sombra, dizem que é o sangue que colore o escuro. Sente o vento inquieto bailando sobre a pele quente das mangas arregaçadas do moletom. Sussurros de prazer lhe dão o gozo do frio sobre o quente… e ela destina-se a não sair mais nunca dali. O sol das onze lhe dá o torpor de todos os prazeres do mundo. Ela é a medida de todas as coisas. A vida, assim, é bela. As coisas cheiram a jasmim do imperador. O som dos carros e vozes é o piar dos bicos-de-lacre sobre o mato. As intenções das pessoas são o afagar do focinho do cão no seu calcanhar. Ela vê o mundo através dos olhos fechados na penumbra avermelhada. É uma brincadeira de sol e sombra. As folhas caem da cerejeira como os dons são bem usados por todos. Ela é a medida de todas as coisas, assim, todos creem em Deus. Todos gozam os prazeres da carne como ela antecipa o chá quente que a espera dentro de casa. Ela abre os olhos a piscar-se intensamente buscando os galhos do hibisco sem flores. O livro desfolhado no colo demora-se a ficar nítido. Talvez ali tenha algo importante a ser lido. Talvez as pessoas preocupem-se com o que é sério a ser dito. Ela joga novamente a cabeça para trás até cair do encosto da cadeira. Fecha os olhos. O sol lhe queima a ponta do nariz arredondado. Um esboço de sorriso se achega quando ela ouve o cão sair correndo atrás do sabiá desprevenido que cutucava o canteiro das roseiras. Ela é a medida de todas as coisas, assim, cães têm asas. Homens têm dois corações, crianças não sentem dores. Ela pensa no horário, pensa nas páginas a serem lidas, nas árvores que precisam ser plantadas, e abandona-se igual ao sol e ao prazer. Ouve miados vindos da janela. Ouve os zunidos da rua. Ouve o eco do seu coração. E ouve o zumbido do ouvido. Ela é a medida de todas as coisas. As más-línguas, assim, são contorcidas em nós de silêncio. E os dias viram noites somente em estripulias debaixo dos lençóis – e cobertores, quando inverno. Os olhares acariciam em pré-abraços. As distâncias são vencidas com beijos levados pela brisa. E o sol se põe quatro vezes por dia. Porque ela é a medida de todas as coisas. Ela sente o mundo na medida do prazer daquele corpo estirado ao sol. E o mundo é do tamanho daquele jardim. Da altura da ameixeira. E precisa tanto dela como ela dele. O cachorro lambe seu braço e exige carinhos e atenções. Ela ergue a cabeça e sorri e manda-lhe beijo. Deixa a mão perdida sobre a cabeça do bichano. Talvez lhe dê uma insolação. Talvez lhe atrase o dia. Talvez lhe doa as costas. Talvez lhe chamem. Joga a cabeça para trás e não fecha os olhos. Distrai-se com o limite do céu. Ela é a medida de todas as coisas. E, a começar, não existem limites. Assim, nada traduz-se em palavras ou idéias: tudo é emoção. Emocionam-se perdidamente todos os seres sobre a Terra, diariamente, pelos amores e paixões, pelo que e por quem quer que seja. Entregam-se a desejos sempre, todos os viventes. Porque ela é a medida de todas as coisas. Fecha os olhos. O livro cai do colo e espatifa suas folhas na calçada. Ela estica as pernas. Ficará ali. Se não para sempre, ao menos até que, enfim, o mundo lhe caiba nas suas medidas.

Festa na igreja

Os dois se encontraram pela primeira vez na festa da igreja. Lugarzinho afastado, pobre, construção de madeira que o padre queria fazer de tijolo porque naqueles dias que ventavam demais a missa ficava era vazia, ninguém aguentava o ar gelado, nem sob os auspícios da palavra do Senhor. Não que as casas da vila também não fossem de madeira, não era isso. Mas as casas contavam com seus fogões a lenha. O padre perdera noites de sono matutando se seria muito desrespeito colocar um fogãozinho a lenha também ali em frente ao altar, Deus era testemunha que ele só queria que o frio não afastasse os fiéis. Mas nunca tivera coragem de propor tal idéia ao grupo de oração que ajudava na organização da igreja. E os dias e noites frias não davam trégua, Deus que o perdoasse, mas naquele frio até ele perdia a vontade de presidir a missa.

Eles chegaram no final da tarde de sábado. Ficaram perto um do outro, depois de olharem um pouco desconfiados para o movimento. O padre, depois de muito insistir e peregrinar pela cidade próxima, havia conseguido bons prêmios para o bingo daquela noite. Um fiel do grupo de oração conseguira até uma serralheira elétrica com o parente rico que tinha uma loja de material de construção e ferramentas na beira da estrada. Os planos da reconstrução da igreja tomavam corpo. Do próximo inverno não passaria. Depois de quatro meses de organização, hoje era o dia da festa. O padeiro da vila com duas senhoras doceiras fizeram os quitutes, os ingredientes haviam sido doados pelo dono do supermercado do bairro próximo. Ele nascera na vila e sempre ajudava a igreja. Todo o dinheiro arrecadado com as vendas das comidas seria dado para a construção do novo templo.

Eles nem sentiam o frio. Pareciam estudar um ao outro e sem perceber se aproximavam devagarzinho. Talvez fosse noite de lua cheia, mas a cerração não permitia vê-la. Nenhum dos dois era dali, ele morava numa fazenda no caminho para a cidade, ela viera de longe. Nada disso importava. Eles observavam o padre, descabelado, com a gola do jaquetão surrado levantada, andando desvairado para todo lado, pois nada podia sair errado naquela noite. Um grupo de jovens, não muito grande porque a juventude naquela miséria e desolação não vingava, percorrera todas as fazendas e cidades vizinhas divulgando a festa, vendendo as cartelas do bingo e as rifas. As vendas foram um sucesso! Ou seja, muita gente viria. O padre temia que não tivesse comida o suficiente pra tanta gente, afinal, naquele frio, só esquentando por dentro. Sabendo disso, o irmão do padre, que não era muito de religião nem de nada, veio especialmente para montar uma barraquinha de quentão – que era a sua especialidade. Não haveria frio que resistisse, ele afirmava.

Ele parecia um pouco cansado, lá pelo meio da festa. Ela encostou-se num canto. O bingo ia alto, as botas e casacos encheram cada metro daquela pobre vila – nunca ali viram tanta gente. E as pessoas sorriam, comiam, bebiam, se abraçavam. O padre saltitava entre as mesas, apertando a mão de todos e se derretendo em obrigados – se reparassem bem, veriam que ele até suava! Ele sabia que o dinheiro todo talvez só desse para o material, que o trabalho seria dobrado para ele e todos os fiéis que ergueriam aquela igreja com as próprias mãos. E a satisfação de ver toda aquela gente participando da festa lhe bastava. Ele falava baixinho com Deus enquanto caminhava de uma mesa a outra. Aqui e ali de vez em quando surgia o grito do felizardo vencedor. Os prêmios eram cobiçados, disputados acirradamente na bola do desempate.

A noite findava. A comida acabara. Ainda havia quentão, mas o irmão do padre, que sempre tivera um fraco por bebida estava contando causos das suas viagens pelo país, sentado num banco à porta da igreja. Uma mocinha exausta servia as últimas bebidas para esquentar a retirada dos convidados. Os poucos carros iam se enchendo de caronas e pegando a estrada. Uma caminhonete parou perto dos dois que dormiam aconchegados no amor que surge do nada. Um rapaz forte só de camisa de manga comprida desceu e abriu a cerca. Um senhor achegou-se e perguntou qual era o dele. Os dois levantaram as cabeças com rugas nas testas. Sentiram o frio no corpo quando foram separados um do outro. O padre passou ali, agradeceu aos dois homens, passou a mão na cabeça do casal e retirou-se. O rapaz disse que levaria o macho, apesar do sorteio do bingo não especificar. O senhor disse que então ficaria com a fêmea, porque ele já tinha outra porca em casa. Se o rapaz quisesse, poderia levar o seu lá qualquer dia desses para ver se davam filhotes. O rapaz agradeceu e explicou que amanhã mesmo ele iria pro abate. E assim se separaram. Para sempre.

Segunda-feira

Segunda-feira. De manhã cedo.

A mãe pegou o café do coador, aquele feito quentinho no fogão, e despejou na xícara de estimação. Lembrou dele, que gostava tanto de café, havia ligado ontem à noite para avisar que terminara o pulôver de lã. Todo ano ela fazia um pulôver para ele, desde quando ele tinha cinco anos. A visita de domingo não acontecera porque a esposa tinha um compromisso, arrecadação de chocolate para a Páscoa das creches do bairro. Mas era assim a vida, ela já sabia. O bolo de milho, feito especialmente para o neto, agora ela comia com o café.

A esposa estava parada diante do porta-jóias. Ele perguntou sem esperar pela resposta se ela ainda não sabia qual brinco usar. Ela sorriu. E ele sussurrou, ao entrar no banheiro, “põe aquele que eu gosto”. Era aquele brinco de ametista, tão delicado que ela tinha receio de usar. Ela se apaixonara pelo brinco quando os dois fizeram a última viagem juntos, ainda sozinhos, antes do filho. Passeando pelas ruas do Pompeya, deslumbrados com a capital dos hermanos, ela vira o brinco e ficara parada como se encontrava agora diante do porta-jóias. Ele era um homem de não agir por impulso, mas entrara na loja e lhe dera o presente. Ela o percebia mais apaixonado quando usava aquele brinco. Pegou-os, tirou as tarraxas, colocou-os. Eram lindos. Ele ficaria feliz quando a visse chegar à noite.

O patrão chegou cedo. Enfezado e já suado. Jogou quatro pastas de relatórios atrasados e cinco cobranças feitas erradas na mesa dele. Gostava dele como funcionário. Sempre cheio das piadas quando parava na mesa do cafezinho. Mas não tinha mais com quem contar para colocar o trabalho em dia. Sabia que ele não podia chegar antes, mas pediria uma hora extra hoje para ajudar a resolver tudo aquilo.

O filho agarrou a mochila dos Angry Birds, afastou a insistente franja dos olhos, esperou o carro parar, tirou o cinto, abriu a porta. Vivia com aquele medo de esquecer alguma coisa. A régua para a aula de geometria, veio? O lanche, o pai pegou? E o dinheiro do passeio da semana Santa, estava na mochila? Repassava mentalmente tudo antes de sair. “Pai, não esquece, hein?” e o sorriso, o filho já do lado de fora, diante da janela aberta. “É o caderno do Batman. Pra matemática. O do Super-Homem é de Português, tu se enganou. Precisa ser pra hoje.” e soltou um beijo no ar antes de se virar e correr para o portão da escola.

Ele saiu da escola do filho, distante duas quadras de casa, onde a esposa ainda tomava café e pegou a BR para percorrer três quilômetros até a saída que dava na rua do escritório onde trabalhava. Ao fim do primeiro quilômetro, o carro rodopiou, ele bateu a cabeça no vidro e capotou no canteiro. A ambulância chegou em sete minutos e nada mais podia ser feito. Em menos de meia hora chegou a perícia e ele foi colocado no rabecão.

O indiferente

O indiferente não ama nem odeia. Ele é aquele namorado que no cinema diz “tanto faz” para qual filme o casal assistirá. É o pai que nem sabe a nota do filho em Biologia. O indiferente não faz, nem desfaz. É a moça no salão pintando a unha enquanto a república cai. O indiferente, também, não questiona – nem a si mesmo.

Conviver com o indiferente, porém, não é fácil. Erra quem pensa que ele não tem paixões – tem-nas as mais violentas. Ele não se importa com você, o indiferente; ele importa-se em demasia consigo mesmo. O indiferente não buzina. O indiferente não cospe. Mal e mal o indiferente vomita.

O indiferente é aquele cara do grupo no trabalho que chega atrasado quando o chefe que exige pontualidade já está na sala – ele entra com o cafezinho na mão, dá “bom dia” nem aí e leva uma eternidade para sentar e sossegar, enquanto todos prendem a respiração. O indiferente não sonha. O indiferente não grita, nem sussurra. É a esposa que compra um vestido caro no mês que as contas extrapolaram. O indiferente não tem marca favorita de desodorante. Nem de sabão para a lava-roupas.

Amar o indiferente é falta de autoestima – mas dizem que é doação de si mesmo. Porque é amar alguém que nem sabe que você existe, tem necessidades, alegrias e tristezas. O indiferente não pede, nem dá. O indiferente não faz serenatas. O indiferente não sua. O indiferente mal pisca.

O indiferente é quem solta o pum no elevador e nem ri – nem disfarça. É que ele não ri nem de si mesmo. O indiferente não gargalha, nem chora. É a guria que passa diante dos olhares mais cobiçosos e nem disso se dá conta. O indiferente é, vejam só, indiferente até a admiração. É indiferente até aos elogios.

O indiferente nem conta quantas fatias sobraram da pizza. Ele toma coca-cola ou pepsi e nem percebe qual é qual. O indiferente não pede a carne no ponto, mal ou bem passada. O indiferente nem lembra em quem votou nas últimas eleições – ou nem procura lembrar. O indiferente declara tudo corretamente no imposto de renda. O indiferente anda no ponto morto – mas não para economizar gasolina. O indiferente parece ter opinião, que ele só diz se solicitado. O indiferente nunca sabe quando estão falando dele…

O indiferente é amado pelos seus amigos – fácil entender porquê. Ele é sempre convidado para todas as festas. Muitos amigos tem, o indiferente. Na vida on line ele é sempre admirado, o indiferente. Nas discussões políticas também. Na hora de votar, então, mais ainda. Há até quem admire o indiferente em cargos de chefia. O indiferente é aquele cara que nunca pisa no pé dos outros. Nem lembra do aniversário de ninguém. O indiferente não fica em cima do muro. Ele pula para qualquer lado e nem percebe quem ele leva junto.

O indiferente não é meu amigo. Porque o indiferente é sempre amigo da onça.

Lá no começo do mundo

Lá no começo do mundo não existia asfalto; porque não existia carro e nem o homem tinha pressa. Bem que já havia um ou outro com espírito desbravador, mas eles apreciavam bem mais o trajeto do que a chegada. Lá bem no comecinho, pra onde se olhasse havia comida em abundância e sobrava entre os bichos e as gentes; ainda ninguém sabia o que era fome. Tinha também aquelas pessoas que trocavam o que lhe sobrava com o que sobrava ao próximo; e todo mundo ajudava quem estava em falta. Eram outros tempos, lá no começo do mundo.

Lá no começo do mundo as pessoas viviam lado a lado nas redes e taperas, e não umas sobre as outras sufocando falta de espaço entre grades, paredes e muros. É que, também, nem tinha tanta gente assim. Bem, mas já lá no começo do mundo cortavam árvores e destruíam a natureza, eram menos e o dano era menor. Lá no começo do mundo ninguém se importava muito em registrar o que fazia, onde ia, o que comia, com quem estava – e só de vez em quando faziam uns rabiscos nas paredes das cavernas que era mais pra se entreter em dias de tédio e chuva. Lá no começo do mundo chovia, uns poucos – sempre esses loucos – tomavam banho de chuva, e a chuva dormia o ânimo em todo resto. Nem tudo era tão diferente assim, lá no começo do mundo.

Lá no começo do mundo rolavam umas drogas, uma folha amassada aqui, uma casca de árvore fervida ali, não tinha contraindicação nem foto de doença pra assustar quem consumia – e todo mundo ria, caía na folia e, talvez, de vez em quando alguém morria. Lá no comecinho tudo começou com o veneno e aí o mundo caiu em pecado – que ainda não há quem não goste. Pelos primeiros dias do começo do mundo, Deus deitou na rede, olhou o nascer do sol sobre o mar e pensou “vou ali criar o leite condensado que é pra fechar com chave de ouro esse Meu mundo” e aí o mundo foi mais feliz e mais gordo e assim será. Já era tudo tão bom, lá no começo do mundo.

Lá, lá no começo do mundo nem se ouvia falar em dinheiro; porque todo mundo era esperto e pra que estragar o paraíso? Quem sabe se lá no começo do mundo o mais rico e invejado era quem mais sorrisse? Mas isso era lá no começo do mundo… Lá no começo do mundo as cobras sobre duas pernas plantavam seus rumores e tumores pelos quatro cantos – talvez isso não tenha existido lá bem, bem, bem, no comecinho. Sabe como é começo, ninguém sabia direito o que fazer e as consequências, então o povo abusou de uma bobajada que deu no que deu – as más práticas são mais fáceis de serem copiadas. Nem tudo eram flores, lá no começo do mundo.

Lá no começo do mundo não tinha luz nem água encanada – nem dá pra pensar como viviam sem isso. Nada que uma fogueira, uma moita e um riacho não dessem jeito. Lá no começo do mundo era mais fácil se esquentar com peles de animais e os corpos uns dos outros do que se refrescar no calor dos infernos – nem é preciso lembrar que não tinha ventilador, quem dirá ar-condicionado. É que lá no começo do mundo se resolviam as coisas da forma mais simples. Bem lá no comecinho a vida era difícil, mas com o mundo diante dos olhos os problemas foram se resolvendo aos poucos. O peso era leve, lá no começo do mundo.

Lá no começo do mundo ninguém vivia sozinho. A experiência era pouca, ainda, e os perigos (até os mais bobos como cair num buraco e não existir corda para o resgate) muitos, então todo mundo sabia que era melhor viver junto, uns dependendo dos outros, todos ajudando todos; e o principal eram as noites à beira da fogueira, quando uns narravam aos outros como estavam conhecendo o mundo. Aprender era questão de vida ou morte até em saber o que podia comer daquele mundaréu de folhas e plantas e frutos e o que se aprendia guardava na memória, que não tinha bloco de anotação. Se apreciava a sabedoria, lá no começo do mundo.

Lá no começo do mundo também as gentes morriam. Desde então tudo já tinha começo, meio e fim. Ou, às vezes, não tem muito meio, só começo e fim, isso é certo. As gentes adoeciam, as gentes eram abandonadas, as gentes brigavam e se matavam ou morriam. Os que ficavam choravam, lamentavam, sofriam e lhes restava a saudade. Desde o começo, quem diria, havia fim. De todo o resto o homem foi evoluindo, foi piorando, foi lutando pra ser dono do que não lhe pertencia; mas no começo e no fim ele nunca meteu o dedo. Deus, ali da rede, diria “mas o mundo é Meu, filho” e os homens já não ouviam. Lá no começo do mundo se sabia que não haveria chance para outro começo. Lá no começo do mundo ninguém se arriscava a olhar para trás. O fim havia, lá no começo do mundo.

Histórias de Natal I – A maionese

Angelo ficou paralisado quando seus olhos foram tomados pelo brilho daqueles laços e embrulhos. A pequena sala estava tomada deles, nem nos seus melhores sonhos ele tinha visto coisa igual. O queixinho caiu, os dentes falhados arreganhados de emoção, até esqueceu que estava apertado para ir ao banheiro. Era Natal e as crianças iam para a sala de visitas enorme da casa dos avós na praia e eram proibidas de sair de lá – mas naquele dia 24 fizera um calor dos diachos e ele passou a tarde toda tomando a limonada que o avô fez. Agora, de roupa bonita, de banho tomado, as pernas cruzadas para segurar o xixi. Dera um jeito, se esgueirara pela porta da sala fingindo que ia brincar com os gatos da tia e correra para a porta da sala anexa ao quarto dos avós. E ali estava o tesouro!

A porta foi aberta e uma mulher entrou às pressas. Passou pelo menino sem reparar e seguiu para a porta do banheiro que ficava em frente.

– Você tá bem? Estamos atrasados, amorzinho. Eita! – a mulher começou a falar enquanto abria a porta e a cena chocou a plateia inesperada.

Lá estava Papai Noel sentado no vaso sanitário, o gorro vermelho caído bem na porta, o blusão cheio de pompons brancos jogado na pia, ele com as calças no chão, o rosto vermelho derretendo de suor e uma camiseta branca do candidato derrotado da última eleição para presidente ensopada era o que lhe restava no corpo.

– Ah, ah… foi aquela maionese do Orlando! Só pode! Tô que não me aguento! Quase não deu tempo de chegar aqui. Ah, ah… foi uma dor aqui – e apertava a barriga protuberante – e não… ah, ah! – gemia o Papai Noel.

– Já te disse que não podes mais ficar jantando em todas as casas que a gente vai! Além de atrasar, só podia dar nisso. Mas você não se controla… aceita todo prato que te oferecem. – a mulher ralhava com o Papai Noel.

Angelo ficou mais estarrecido do que quando viu os pacotes. E esqueceu de vez das pernas cruzadas com força para não molhar as calças novas com estampa camuflada, presente do pai. Pela porta entrou outra mulher, madrinha de Angelo.

– O que você faz aqui, menino! – a surpresa de ver aquele doce de menino fazendo algo errado a desconcertou.

– Shhh! Dinda, dinda… o Papai Noel tá no troninho. – Angelo puxou-a pela saia até perto dele, de onde podiam observar o velhinho ainda sofrendo enquanto a outra mulher enxugava seu suor. – Dinda… o Papai Noel é casado? – eram tantas as aflições de Angelo naquele momento.

– Filho, vem cá. – a madrinha controlava o riso enquanto puxava delicadamente Angelo para fora da sala – Vai lá pra sala com teus primos. Se o Papai Noel está com problema, a dinda vai ajudá-lo, pode ser?

Angelo mal pôde concordar quando lembrou-se do aperto que a limonada lhe causava e virou para chamar a madrinha, mas ela já fechara a porta. Naquele Natal, Angelo desejou tanto que o Papai Noel se recuperasse da maionese, mais do que ansiava pela distribuição dos presentes.

Off

Naquela noite eu fui acordada três vezes. Era o celular que exigia ser recarregado. Estiquei o braço e achei por bem desligá-lo – seria melhor para nós dois. Logo cedo tive que, enfim, ligá-lo e colocá-lo para carregar, fulano vai não-sei-onde, pode precisar telefonar e tal. Mas minha sina mesmo era a geladeira.

A geladeira, vistosa por fora, pequena por dentro, é mandona. Se eu deixo a porta aberta por muito tempo – e é ela quem decide sobre o “muito” – ela começa a apitar. Um apito chato e irritante que fez dela minha inimiga. E hoje, logo hoje, acendo a luz da cozinha, pois mal amanheceu, e ela está com a porta aberta – uma frestinha de nada. Como ela não gritou furiosa ao desavisado que não fechou-a direito?! Madrugada, silêncio, alguém teria ouvido aquele bip insuportável. Mas, não. Ela prefere apitar só quando não precisa – nas horas que eu passo diante dela, arrumando potes e mais potes nas prateleiras mal desenhadas onde não cabe nada.

E hoje é dia de trabalho atrasado. Faço um chá e sento em frente ao computador, enquanto ele liga, arrumo uma papelada. Vejo que é a data de um prazo importante. Abro o arquivo que devo revisar para enviar por e-mail. Me abaixo para pegar a caneta que caiu e esbarro o ombro na escrivaninha. Com a trombada, o computador pula e desliga sozinho. Tento ligá-lo, sem sucesso, pelas próximas horas. Há meses levei-o na assistência: ele não tem nada de errado. Parece que tornou-se sensível à violência, a qualquer gesto brusco da minha parte ele desliga sozinho e se nega a voltar.

Depois do almoço, decido assistir um pouco de TV. me interesso por um programa sobre pesca de baleias no Caribe. Do nada, a TV me avisa que vai desligar em sessenta segundos. Não adianta fazer nada, a fábrica disse que é um dispositivo de segurança. Imagino que devo ficar feliz: tenho uma TV que se preocupa com a minha segurança.

Preciso sair para fazer um exame de rotina. Nem me incomodo com o som do carro que não obedece à ordem de repetir aleatoriamente todas as músicas do CD antes de repeti-las: já perdi essa guerra. Chego à clínica com vinte minutos de antecedência – levou dois meses para conseguir marcar o horário. Depois de passados cinquenta minutos do horário marcado, uma moça simpática avisa que os exames serão cancelados porque o aparelho apresentou problema nos cabos. Eles telefonarão para remarcar, pois da última vez a manutenção levou vinte dias. Chego no carro e a partida automática trava. Fico uma hora tentando. Ligo para a assistência e eles me dão um prazo de duas horas – “o sistema está com problema, a senhora entende…” – desisto e sigo a pé para casa.

Chego em casa e decido fazer um bolo para salvar o dia. O liquidificador é antigo, a tomada é nova daquelas de três pinos. Nunca três pinos despertaram tanto ódio no mundo. Procuro por todo lugar e nada de adaptador que sirva. Desisto. Vou para o banho como uma condenada. Hoje fez calor. Ontem fez frio. Para o chuveiro, pouco importa. Ele tem seis temperaturas, e ele mesmo quem escolhe em qual delas eu devo tomar banho – ainda esperançosa eu fico longos minutos girando o regulador da temperatura: em vão. Tomo um banho escaldante e saio suando do box.

Já é tarde, eu cansada, vencida, obrigada a ser feliz por estar protegida de todos os riscos. Deitei e sorri. Na terça-feira haviam ligado avisando que por manutenção na rede, a energia elétrica será desligada no domingo das sete da manhã às duas da tarde. Sonharei com esta promessa.

O retorno

Há pessoas que, sem saber, capturam meus pensamentos. Aquelas que dizem não sonhar, por exemplo. Mais curioso do que as que não sonham acordadas, são as que fecham os olhos e não vivem por algumas horas – até abrirem-nos novamente para este mundo. Viver só neste mundo real e táctil me parece insuportável. Devem, estas pessoas, ter alguns truques para sobreviver – lêem muita ficção, embriagam-se, usam, enfim, das mais variadas drogas.

Que, quando não durmo ou durmo mal, não vivo. Quando criança sonhava muito com uma casa rosa de madeira que pegava fogo comigo dentro. Na adolescência sonhava com ondas gigantes como se o mar fosse na rua de casa. Agora, talvez adulta, sonho com bichos. Bichos: de várias espécies e em várias situações. A Ciência e os psicanalistas explicam tudo. Qualquer dicionário dos sonhos on line também.

Eis que ontem, como todos os dias, às nove e meia em ponto, entrei no meu quarto para realizar o ritual sagrado: tirar a colcha, passar creme nas mãos, hidratante labial, deitar, ler só com a luz do abajur e recepcionar meus sonhos – doces ou não. E não foi bem assim.

Um velhinho empertigado, de barba branca, monóculo, mãos cruzadas sobre o colo, vestindo um terno cinza bem cortado e tão fora de moda estava sentado na minha poltrona. Pensei em gritar – e não o fiz porque achei que ele se assustaria. Olhei para trás, seria brincadeira de alguém?

Ele me olhou triste e “Precisamos conversar”. Assim, a frase de terror e mais assustadora a sua familiaridade. “Precisamos?”, perguntei. “Preciso convencê-la a ser minha paciente” ele me respondeu aflito. “Estou doente?” minha incredulidade me fazia querer rir. Eu, que sempre temi ser diagnosticada como louca. Encostei a porta para ninguém ouvir. Ou todos já sabiam?

“Não é fácil ver o tempo passar, falarem tanto sobre mim e eu de mãos atadas!” ele desabafou elevando a voz. “Que civilização é esta? Por que ninguém – nem aquele ingrato que se dizia meu amigo e discípulo – continuou meus estudos? Por que jogam minha teoria no mundo de hoje – que nada tem a ver com a vida de vocês?” ele falava aos borbotões, suava, indignava-se com a humanidade. “O senhor quer que eu ligue o ventilador?” tentei aliviar o velhinho que se exaltava com razão. “Exato! Vamos começar por aí! Você dorme todas as noites, todas, com o ventilador ligado! Como você explica isso?” gaguejei e “Preciso explicar?”. “Deite-se, ligue o ventilador. Vamos conversar sobre isso.” e eu obedeci. Ele era autoritário e enérgico.

Em seguida quis fazer um acordo. Ele viria todas as noites. Eu teria que contar meus sonhos, minhas sensações, meus temores. Ele só ficaria ali observando e fazendo anotações. Disse que precisava de mim para expandir sua compreensão deste mundo – tão diferente da época dele! Eu fui aceitando, fui persuadida, deitei e respondi a tudo com sinceridade. Ele jurou que não atrapalharia meu sono.

“Você não sabe o que é ficar lá no outro mundo observando vocês, criando novas teorias – afinal, nem todas as neuroses têm origem sexual – sem poder me defender! Mas escolhi você para me redimir. Seu caso é assaz interessante!” ele por fim explicou-se e mandou que eu dormisse.

Não sei se ele voltará esta noite. De manhã, contei-lhe que sonhei com caixas vazias. Ele ficou exultante. Quis dizer que, talvez, um homem que usa monóculo e fala “assaz” não está preparado para interpretar e compreender este mundo. Diante do entusiasmo do velhinho, preferi me calar e entretê-lo com meus sonhos.

* 19 de novembro, Dia Mundial da Filosofia: que aos pensadores que já se foram, o mundo fica e ficamos com as idéias deles, mas o mundo nunca mais é o mesmo – nem eles seriam.

Já pode casar

Todos diriam que Mariana fora um bebê tranquilo e uma criança que nunca dera trabalho – e estariam certos. No meio de irmãos bagunceiros, sua retidão ganhara destaque. Previsível, Mariana fora sempre obediente e boa aluna. Aprendera cedo a cozinhar e a costurar. Um dia, diante de uma Mariana surpresa, a mãe ficara encantada com o vestido que ela havia feito para a irmãzinha e exclamara “Já pode casar!”. Mariana não entendeu a frase, mas ficou quieta.

Pouco tempo depois, ao fazer uma sobremesa para o dia dos pais, fora a vez deste surpreendê-la, “Já pode casar, filha!”, e assim ela cresceu e tornou-se adolescente; por algum motivo muito misterioso, quando ela cozinhava bem, costurava algo ou limpava a casa, as pessoas lhe diziam que ela poderia casar.

E foi no começo da adolescência que Mariana encontrou o amor da vida dela. A professora de Ciências falava sobre as fontes de energia renováveis, sobre o petróleo, o carvão, sobre formações sedimentares e todo este universo encantador quando Mariana descobriu a biomassa. Apaixonou-se. Pesquisou muito, procurou professores, falava sozinha sobre as maravilhas que a biomassa poderia fazer pelo mundo e pelos seres humanos. Depois de encontrar o amor da vida dela, a biomassa, ela queria salvar o mundo também.

Mariana decidiu que estudaria inglês para conhecer mais sobre a biomassa. E quando foi a primeira colocada depois de cinco anos de curso, não ouviu um “já pode casar”. Mariana teve as melhores notas da turma no ensino médio e isto lhe valeu uma medalha: mas nem depois da festa ela ouviu um “já pode casar”. No ano que faria vestibular, decidiu trabalhar meio período para pagar o curso de alemão, pois o inglês não bastava. Apesar das dificuldades que teve, em menos de um ano já se sobressaía na turma: nem por isso ouviu “já pode casar”. Fazia o terceirão, trabalhava, cursava alemão e ainda arranjou tempo para o intensivo do pré-vestibular. E no final do ano lá estava ela, com foto no jornal e tudo: primeiro lugar geral da universidade federal. Teve até faixa na frente de casa, mas ninguém lembrou de lhe dizer “já pode casar”.

Sempre a melhor aluna do curso, não perdia de vista a biomassa. Os professores a admiravam e no segundo ano conseguiu estágio e participava de um grupo de pesquisa. Nem assim, com artigos publicados e pesquisa avançada alguém lembrava de lhe dizer “já pode casar”. No dia da formatura, claro, foi a melhor da turma e recebeu a notícia de que já estava aprovada no melhor mestrado do país. Nesta noite de comemoração, ela até aguardou que alguém lhe dissesse “já pode casar”. E nada. Terminou o mestrado em menos tempo do que o previsto e tinha em mãos o projeto do doutorado – elogiadíssimo pelos seus pares. Com confiança, mandou para a melhor universidade do mundo que pesquisava biomassa.

Naquele dia, ela entrou esfuziante em casa, com uma carta nas mãos. Seu sorriso gritava alegria: fora aprovada no doutorado. Encontrou o namorado no sofá, assistindo a um filme com tiroteios sem fim.

– Amor! Amor! Fui aprovada! Pro doutorado! – ela engasgava de felicidade.

– Ah, é? Que bom, amor. Mas a gente tem que ver isso daí. Não dá para esperar quatro anos para casar, e eu não posso ir. Depois a gente vê, né? Me traz uma cerveja?

Mariana foi até a cozinha, abriu uma lata de cerveja, deu um gole e ficou pensativa. Deixou a cerveja na mesa sobre um bilhete: “Não posso casar”.

(texto publicado originalmente no jornal Notícias do Dia, de Joinville, na página da Confraria do Escritor, em 14 de setembro de 2014)

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