Uma nuvem, cordas e uma pulga

 

Era uma nuvem. Parecia uma nuvem. Pairava sobre mim, até onde a vista alcançava. Cordas, havia cordas por todos os lados, me prendiam, me amarravam e me impediam qualquer movimento. Eu via uma pulga na minha mão – pulava, mordia, pulava – e nada podia fazer. Coçava e eu a observava. Imóvel. As cordas ninguém as veria. E eu não me mexia. Queria ser atriz, para viver tantas histórias. Viver amores, dores, idas e vindas. Minha alma aflita não se cansava de perturbar meus pensamentos. Eu procurava incessantemente um botão com o qual pudesse desligá-los – não o encontro. Não dormia, meus pensamentos não deixavam. Ser atriz seria um jeito de me desatar daquelas cordas invisíveis. Ou, talvez, eu devesse apenas deixar de ler e assistir a filmes. Já não cabem mais em mim tantas histórias. Preciso de histórias. Já não cabe mais em mim ter consciência da infinidade de belezas do mundo – todas as que eu não vi, as que nunca verei e as que já testemunhei. Minha cabeça não explode porque são idéias, pensamentos, mas se tudo fosse físico nem metade disso caberia nela e ela já teria ido pelos ares. Talvez, então, abrir mão dos livros e filmes. Mas, também, talvez abrir mão da visão. Ver tudo sempre o tempo todo me exauri. Eu vejo, não vejo mortos como fantasmas, mas até eles povoam meus olhares construídos de lembranças. Olho para quase tudo e, imagine se olhasse para tudo, já teria ficado cega. A falta da visão, talvez, consiga me deixar ordenar melhor a cabeça e mente aflitas. E os sons? E as falas? E o olfato? E o tato – ah! o tato! -? Preciso de histórias. Escrevo tanto e, para mim, não digo nada. Essas cordas e ali ao lado um copo de água – nem sede eu tenho – que eu cobiço mas desprezo. Não é o corpo que eu desejo alimentar e regar. Quer dizer, será que não? O corpo tem outras fomes. Ele, provavelmente, sente mais do que a tal alma e a desconfiável cabeça. A visão, a audição, o olfato, o tato – ah! – não são só meio para chegar ao intangível da alma. Pensei em me cercear de tudo – já que o mundo me cerceia de tantos e tantas coisas. Ir me podando aqui, ali. Podaria, também, os problemas. Insistiria em podar meus pensamentos por um pouco de sono. Sono? Eu disse sono? Pra que me serviria o sono? Ah, sim, pelos sonhos – aqueles que sonhamos dormindo – que são a plena realização do corpo e da alma. Neles ainda sou feliz. Neles não há nuvem nem cordas. Neles até quem eu quero me visita. Neles as paisagens se propagam. E meus olhos se abrem. Tudo continua ali: pulga, cordas, nuvem. Ah, há luz também. Se ao menos houvesse sol eu lembraria daquele amor que um dia me disse que onde não há sol não há vida – ou, mesmo não tendo, eu lembro dele. Aqui não há sol. Diria um Lógico “Se não há sol, então não há…”. (completem pois me dói demais colocar cada letra de um pensamento tão grande) E, talvez, seja esse sentimento de que há vida demais (para ser vivida) e eu, nem sendo atriz, conseguirei viver o mínimo que desejo. Nem penso no mínimo, nem o mediano – não gosto dessas quantidades e do que elas implicam – o máximo me parece bom, mas bom é pouco. Sempre gostei de transbordar. Não sou muito ecológica e tampo o ralo para ver a água da torneira enchendo a pia até começar aquele fio de água a transbordar e se transformar numa mini cachoeira – espetáculo visual e reflexivo. Gosto do verbo, da ação: transbordar. Assim as coisas não cabem em coisas, assim desafiamos espaços. Talvez se eu olhasse mais para a pulga, tomasse consciência da coceira, planejasse um ataque seguido de execução. (para quem não entendeu, esta seria a realidade) Mas, não, para falar a verdade nem tinha me dado conta da coceira. Olho para a pulga e, pelo tamanho, fico imaginando se é um fêmea, se tem filhos, se é adolescente se esbaldando na gula. Preciso de histórias. Talvez, enfim, se fosse uma injeção (vide meu pavor a elas) a realidade me vencesse. Mas, não. Minha cabeça acionaria o botão de emergência (sem eu não precisar de um segundo de raciocínio – ele é evoluído) e eu desmaiaria, desligaria todo o meu sistema nervoso, ficaria inconsciente. Às vezes ele faz isso, toma uma medida drástica contra a realidade. Preciso de histórias. Sim, de histórias na realidade – mas, vejam bem, estou descartando alguns roteiros desinteressantes, tenho apreço pelas fortes emoções, para a adrenalina, para a beleza; digo mais, dispenso também as histórias repetitivas, as sem sal nem açúcar e congêneres. A nuvem. As cordas (invisíveis). A pulga. Pulga? Nem lembrava dela. Talvez atriz. Talvez um plano (hein?) de fuga. Talvez um salvador todo de preto, empunhando uma adaga com cabo madrepérola, montado numa moto cor vinho. Talvez o sono. Talvez os livros. Talvez, enfim, uma luta feroz, árdua, dolorosa e longa de roer as cordas com os dentes e as unhas. Se ao menos houvesse sol. Só entro numa luta se eu sei que haverá uma boa recompensa. E não falo de bens – pouco me importam os bens, o material, não quero ter nada, nem hoje nem nunca. Enquanto cogito uma recompensa, há a nuvem e as cordas (invisíveis). Porque a pulga, até ela, debandou e foi lá ver seu filho, ou, quem sabe, procurar outro sangue.

 

O Destino

Vejo ali no canto o Destino. Homem mudo, magro, cabelo preto lambido e um bigode igual o do Poirot, sentado numa poltrona Luís XV de veludo vermelho. Usa um robe bordô e me olha sempre atentamente com seus olhos negros. Não há como chantageá-lo pois ele olha através de mim para o futuro e é mudo: nunca me diria nada.

Reparo que, às vezes, ronda um riso-sorriso nos seus lábios. Em nada parecido com o da Monalisa. Os lábios. Lábios sensuais, atraentes. E deles nunca terei nada. E eu queria que eles, se não me contassem os próximos cruzamentos, pelo menos me explicassem os que já aconteceram. Ele brincca comigo. Ele sempre prepara as próximas surpresas com carinho e atenção. Quando me encontro próxima de mais um revés, ele sorri. Porque ele vê o que eu sequer desconfio.

Ele não me confiar as novidades e não ser passível de chantagem eu já entendi. Mas ainda me reviro na cama querendo que ele me confidencie as explicações. Já tem tanta coisa que eu não entendo… não quero não entender as brincadeiras dele. O Destino, este homem que me persegue, arquiteta encontros e desencontros que tiram o trem – eu que me conheço bem e me orgulho de ser tão dona de mim – dos trilhos violentamente. Acontecem os acidentes, o sinal do cruzamento que sofre apagão, o tropeço que rola a pedra que mudará a vida alheia. Este trem de pontualidade francesa, de tantas certezas e intuições. O trem que sempre sabe que vai. E mesmo assim eu olho aquele homem ali no canto, nossos olhares se cruzam e fixam.

Toca um saxofone suave, malemolente, sedutor. É assim que o Destino me atrai. Quando me aproximo, vem um violino arrepiante, atrás a me cutucar a nuca e me empurrar pra frente. O saxofone desaparece e já estou presa no som raivoso do violino que acelera o sangue nas veias. Não há volta.

Novela das 7h

Ao abrir a porta eu já senti aquele cheiro. Era de um sabonete japonês antigo, de mel, que a avó dela tinha dado de presente. Eu conhecia aquele cheiro e não suportava mais senti-lo. Era como se nossas vidas tivessem aquele perfume enjoativo, forte e tão conhecido.

As contas estavam em cima da mesa, como sempre. A lixeira aberta como um post it para me lembrar de tirar o saco de lixo e levar para fora. A TV ligada naquela insuportável novela das 7h. Se me perguntassem qual era a novela, eu nem saberia dizer, todas as que ela assistia eram insuportáveis. As luzes todas do apartamento estavam acesas, ou seja, hoje ela não queria sexo, não tentaria me seduzir com a meia-luz dos abajures e uma camisola transparente. Como se precisasse de camisola transparente, eu conhecia cada centímetro daquele corpo – e a mesma camisola de sempre. Eu me perguntava por que ela não desligava a TV pelo menos nesses dias de meia-luz e colocava alguma música. Não, ela não gostava de música. Só ouvia rádio no carro: entrava, batia a porta feito um cavalo e ligava o rádio. Eu nem tentava conversar, evitava gritar mais do que aquelas músicas enfadonhas de sempre.

Sempre. Sempre. Sempre.

O que havia sido minha vida antes do sempre? Parado ali no meio da sala, parcialmente de costas para a TV, eu me perguntava uma coisa tão banal. Existira vida antes do sempre? Haveria algo depois do sempre? O para sempre me sufocava, comecei a alargar o nó da gravata tentando respirar.

– Ah, eu falei com ele! Acho que ele não quer ir, sabe, mas dá nada, eu dou um jeitinho, sabe, né, mulher tem sempre que conseguir tudo o que quer.

A voz estridente (nem era estridente, mas pra mim já soava assim) vinha lá do quarto. Pendurada no telefone, claro, falando demais com qualquer amiga idiota. Falando da nossa vida, a idiota.

Então o para sempre era isso? Era disso que tanta gente corria atrás? Amizades para sempre, amores para sempre, felicidade para sempre? Estava ali absorto ao invés de ir até o quarto, jogar a pasta sobre a cadeira, fazer uma careta de desgosto para ela, como sempre. Eu também era como sempre.

Não ia. Não queria ir. Mas via a cena se desenrolar… via meus passos, a cara dela já marcada de tanta maquiagem e cosmético anti-idade desde os 25, via o quarto bagunçado com roupas e sapatos pra todo lado. Via o beijinho sem graça com um sorriso falso que ela me mandava entre as fofocas sórdidas do telefone. Sem graça? Falso? Ela me amava de verdade? Aquilo era amor?

Tinha sido prova de amor ela ter deixado, por um tempo, a carreira? Ter parado de estudar? Ter se mudado tantas vezes por causa do meu trabalho? Eram provas? O que ela precisava me provar?

O telefonema ia chegando ao fim com aquele “vou lá esquentar a janta pro meu safadenho” de sempre. Todos os modismos que ela imitava, tudo que ela tentava parecer engraçado. E eu ali parado.

– Ué, taí ainda? Quequetedeu hoje? Sabe com quem eu tava falando? Com a Mari. Ah, é, eu sei, uma chata. Ela quer tanto que a gente vá sábado. Nós vamos, né, só pra provar que eu não acho ela chata. Eu sei que tu quer ir.

Ela passa… aquele cheiro indistinguível. O cabelo crespo armado todo loiro que ela puxa e repuxa a cada instante.

Eu largo a pasta no chão, no meio da sala. Pego o controle no sofá cheio de revistas, copos, cobertas e desligo a TV.

Os passos acelerados vêm da cozinha.

– Quequetedeu?! Por que tu desligou isso?! O que tu tem na cabeça?!

Os olhos arregalados, o corpo enrijecido, a mão na direção do controle da TV.

Eu desvio a mão.

– Me dei conta de que você nunca assistiu, nem assiste essa novela. Nenhuma novela das 7h.

Ela pára. Ela congela. O para sempre dela abre uma brecha.

– Eu sempre assisto e assisti a novela! Dáqui isso já.

Os olhos arregalados.

– Tu nunca assistiu nem nunca mais vai assistir.

– Ai, tá bom. Deve ser o calor, querido. Vou abrir a janela um pouco e tu liga a TV.

Tudo havia voltado ao normal, como sempre. Aquela cara marcada, o olhar de peixe, o sorriso falso (sim, só poderia ser falso). Só não era mais falso do que o “querido” que ela usava como se me amasse.

Ela se apóia na janela, abre um lado, abre o outro, respira, olha para baixo. Com o canto do olho espera que eu ligue a TV.

Caminho até ela, seguro com firmeza suas coxas – num breve segundo ela solta um gritinho – e a atiro pela janela.

A TV desligada.

Pareceu-me o único digno “para sempre”. Agora eu entendia.

Exercício diante do fim do mundo

 

 

Eu ali sentada, o sol escaldante na cabeça. Sim, fazia calor apesar de um vento fresco surpreendente (nunca havia visto esse vento por aqui).

 

Não havia água, nem comida. Eu mal tinha acordado e os olhos embotados ainda me confundiam quando eu saíra de casa. Eu evitava as perguntas.

 

O trem passou para lá. O tempo ficou ali parado. O trem passou de volta para o outro lado. Não quis fazer cálculos, mas a distância percorrida mais o tempo estimado para esvaziar cada vagão, sendo que havia x vagões… sim, era bastante tempo. Melhor mesmo não querer saber.

 

O movimento da hora do almoço, todos foram, todos voltaram.

 

Um kadett rebaixado, verde escuro metálico, com aquela música compartilhada com todos a sua volta, pára ao lado. Eu reviro os olhos ao ouvir um verso da música. Ainda embotada para não perceber os números das horas, nem recordo mais a letra da música no segundo seguinte.

 

O motorista sai do carro, vejo pelo canto dos olhos, viro o rosto para o outro lado.

 

Sinto um cheiro. Hein? Viro a cabeça na direção do vizinho, lá esta ele, já fora do carro, com um desodorante spray a apertar em direção às axilas.

 

Náusea. Náusea. Náusea. Náusea.

 

O sono, o tempo, a paciência, o ir e vir representado, tudo era suportado. Aquilo não.

 

Náusea. Por um segundo refleti que sinto náusea ao ser forçada ao contato da intimidade alheia. Náusea.

 

Pensava no fim do mundo que havia sido anunciado para o dia. Mas haveria algum outro fim do mundo que não aquilo tudo?

 

 

Poeira

O corpo dela tem seios miúdos, tão pequenos. Os olhos não olham nada nem ninguém. O cabelo exala o cheiro da dor cada vez que a dúvida repete o gesto de passar a mão, dedos separados, do topo da cabeça até às pontas do lado esquerdo, fazendo uma curva enquanto desce. Mãos muito grandes e feias. Ombros muito largos para a idade. Será uma mulher dura, cavada pelo tempo. Fica ali exposta, na vitrine a céu aberto. Cinco por vinte minutos? A mão segue o gesto. Os olhos para a direita. A cabeça treme. “Sim”, “Depois”. A bicicleta se distancia. As pernas são finas mas já moldadas, bem moldadas. Os seios pedem uma mordida, até eu sinto isso. Roupa? Trapos. Nada? Ninguém repara. A pele toda parece suja, empoeirada. Não sei nem se tem dentes. Vem vindo. Ela deliberadamente afasta as pernas – ela sabe que Deus soube acertar a mão quando fez suas pernas. Ali, em pé. Dessa vez sem mão nos cabelos. Com um salto brusco ela entra de frente, pernas afastadas, e bate a porta. O brilho do sedan preto encerado me cega, a seriedade do motorista me perturba. A poeira levanta e eu penso que talvez a cor da pele dela esteja escondida debaixo de tanta poeira.

A invenção da roda

Ele caminhava lentamente, soprava o ar quente que saía da sua boca e fazia fumaça no ar, do mesmo jeito e com o mesmo encantamento de quando criança, nas manhãs frias ao ir para a escola. Hoje não ia para escola, nem era de manhã, aliás, dali a algumas poucas horas já seria o horário da escola das crianças como ele fora um dia. Era uma madrugada gelada, solitária, silenciosa e ele olhava para a calçada enquanto caminhava. Às vezes seus pensamentos iam longe. Às vezes ele sequer pensava. Fazia tanto tempo e a cidade não mudara em nada. Bem, durante o dia ela tinha mais pessoas e mais carros pelas ruas, mas as pessoas em si e as ruas continuavam exatamente as mesmas. Talvez só as rugas apareçam em vinte anos, uma tecnologia ou outra “revolucione” o mundo de alguns e algum grande atentado tenha ocorrido. Não haviam mais guerras como antigamente, nem superávamos a carroça com carros motorizados. Ninguém, enfim, inventava a roda. Ou a roda hoje, pensava ele, seria a cura do câncer e da AIDS? O que fizera o mundo se perder a ponto de hoje a roda ser uma cura dessas? Longínquos tempos da necessidade da roda. O mundo flutuava. Voava. Ele quisera ser médico, sonhara encontrar a cura do câncer. Até o dia que seu pai morreu de câncer e ele decidiu ser professor. Era mais prático, com maior resultado. Ele não desejava posição social nem dinheiro, queria salvar vidas. Como o mundo não era mais o da época da invenção da roda, salvar vidas era para professores. Ele caminhava pensando, ou não, mas com a idéia fixa no fundo da mente de que não entendia porque estava ali realmente. Algo o impelia a ficar insatisfeito e arisco com a sua presença nessa cidade. Não sentia o motivo real. O ar gelado no rosto sempre fora revigorante para ele. Sempre encarara na boa o frio, com poucos casacos, achava que era frescura se encher de roupas. Quando criança tivera alguns problemas graves de saúde por causa disso e deixara sua mãe desesperada. Ela nunca poderia sofrer uma perda desse tipo. Mas a vida não pergunta nem leva em consideração suas disposições em relação a ela e levara seu pai, por quem a mãe sempre fora muito apaixonada. Essa paixão que deixa os filhos, quando já conscientes, embaraçados diante de tanto amor, desejo e carinho. A morte do pai causara a apatia daquela mulher apaixonada e devotada. Era uma boa candidata à morte por inanição. Ele nunca entendeu o segundo casamento dela. Nunca. Aquela mulher seca e séria que se casou com um estranho não era a sua mãe. E os passos dele na calçada pareciam martelar a pergunta que se encaixava em tantos fatos: por quê? Por que ele viera? Por que ela casou? Por que ele não tinha aprendido a dizer sim? Por que o pai morreu? As idéias e as dúvidas persistiam enquanto tantos pensamentos passeavam aleatoriamente ou enquanto nada lhe passava pela cabeça. Ele reparou no nome da rua na placa, com um medo intermitente de que do nada ele começasse a caminhar para a estrada em direção a sua casa, o medo era real. Ou talvez não fosse para a casa que ele fugiria inconscientemente. Porque ele sentia que não salvava mais vidas. Ele sentia que vendia aulas, prestava serviços, alugava seu conhecimento. Se ele voltasse, exigiriam seus “sins” novamente. Os alunos não queriam se salvar, ele entrava em sala todos os dias e não encontrava nenhuma vida para salvar. As pessoas da sua vida esperavam que ele dissesse “sim” e nada mais, olhavam para ele como se ele tivesse alguma doença rara e ridícula. Era sim para esse, para aquele, para ela, sins que não saíam da sua boca desde que seu pai morrera diante dos seus olhos e sua mão ficou gelada enquanto a do seu pai escorregava lentamente já sem vida. A vida lhe dissera “não” e era com isso que ele respondia a ela. As ruas terminavam e ele começava qualquer outra que estivesse mais próxima. Sentia que andaria até o fim dos seus dias pois não conseguiria parar de andar enquanto não parasse de pensar. E ele pensava, ou quando pensava suas idéias fixas lhe faziam companhia. A mãe não estaria em casa, preocupada, sentada na velha poltrona ao lado da porta. Aquela sua mãe, que fazia isso toda vez que algum filho não estava em casa, não existia mais. Quando ele e o irmãos foram morar fora de casa ficaram todos com a impressão que ela (que abanava, já aflita, do portão quando eles partiam) sempre estava sentada na velha poltrona quando eles voltavam – dias, meses, anos depois – como se ali ela tivesse ficado todo esse tempo. Ela não existia mais. Ninguém mais sentava na velha poltrona, mas ela ficava ali como se fosse prova de que o passado existira. A mãe, às vezes, ficava em pé, ao lado da poltrona, conversando, e não sentava nela. Do nada, seu olhar se desviava e ficava parado contemplando a poltrona, calada. E todos se sentiam embaraçados e angustiados. Ninguém nunca conseguira perguntar porque ela casara novamente. A morte impedia que qualquer “por que” fosse proferido. E dentro dele, a cada passo, os “por quês” ressoavam. Havia a casa da mãe, que lhe telefonara pedindo que ele aparecesse. Havia a rodoviária. Se voltasse havia o “sim” geral. Ele já estava a horas na cidade e não havia passado na casa da mãe, não dera mais sinais de vida. Vida? Havia algum sinal de vida ali? Uma náusea espiritual o impelia para fora da cidade. Seus passos já eram apressados. Ele não sabia mais onde estava. Não saberia chegar na casa da mãe. Claro, se encontrasse alguém ele poderia perguntar. Não, não. Ele detestava perguntas. Mas não sabia dar respostas também. Ele caminhava, o frio aumentara, o rosto gelava, o nariz pingava, os lábios tremiam, a respiração ardia. Ele cruzou os braços para tentar esquentar o peito açoitado pelo vento cortante. O vento. Nunca ventara naquela cidade. Nunca. Coisa de séculos, seu avô contava. De onde esse vento? A cidade, enfim, mudara? Não eram só as rugas que apareciam em vinte anos, então. Não, aquele vento não era normal. Sua mãe telefonar e pedir para ele vir também não. Seus passos eram sábios ao enviá-lo para longe. As bochechas vermelhas, os olhos ardentes. Ele caminhava, caminhava. Corria.

Parábola – Funcionário Padrão

Exigir que namorado/amante/caso/rolo/ficante/noivo, enfim, todas essas denominações de vocês, compareça diariamente – seja pelo mundo virtual, telefônico, pessoalmente, etc. – é fazer dele um funcionário, um empregado, a bater cartão todo dia, como numa empresa.

 

 

Você vai ter que, então, assinar a carteira, pagar salário, dar todos os descontos exigidos. Ele vai ter que cumprir metas, cumprir horário, não dormir em serviço, mostrar resultados, vai ter direito a férias remuneradas, a faltas justificadas (mediante apresentação de atestados médicos). E, claro, vai receber um salário.

 

Funcionário padrão.

 

No fim, seja para pedir demissão ou para demitir, dá um trabalho danado, custa caro e alguém sempre sai prejudicado e insatisfeito – quando não os dois.

 

Dinheiro traz felicidade

O dinheiro me trouxe todas as alegrias que as pessoas não me proporcionaram. Mas ele não me aproximou de ninguém. Fariam alegrias sem fim comigo e meu dinheiro. Fiquei só, só ali com ele. Ele em profusão, chegava sempre mais. Sem muito esforço depois de um tempo, confesso. E com ele as alegrias. Aquele carro tão confortável que eu cobiçava. Um anel de safira. A casa nova tão sonhada. Até os sonhos tornavam-se realidade com ele! Era uma lâmpada mágica! Eu desejava, trabalhava um pouco e lá estava. Ele se reproduzia rapidamente. Diria até que dava em árvore, lembrando meu pai quando eu era criança “acha que dinheiro dá em árvore?” em resposta ao brinquedo pedido. Sim, meu pai, é como se desse em árvore. Em profusão. Uma jabuticabeira como a do nosso jardim. Eu me sentia feliz, comia tudo o que queria, todo dia. Não tinha um desejo que eu não satisfizesse. Frutas importadas, bebidas exóticas, tudo, tudo. Sim, com o dinheiro não vieram pessoas, mas alguns quilos. E eu tinha tudo. Os quilos trouxeram doenças, ele me deu saúde. Viajei o mundo. Tirava fotos com as câmeras de última geração. Tinha todos os equipamentos para onde quer que eu fosse, de mergulho, escalada, esqui. Conheci os lugares mais caros e os mais vagabundos. Publicava mil fotos por semana na internet, para os mil amigos que eu tinha. Ninguém via. Ninguém aparecia nelas comigo. Tinha cartões de todas as bandeiras, viajei nas melhores empresas aéreas. Conheci celebridades. Fui em muitas festas. Muitos shows, muitas noitadas em bares da moda. Eu era feliz porque podia aproveitar a vida, todo o meu tempo, desfrutando do que o dinheiro me trazia. E eu ia sempre sozinho. Pessoas nunca poderiam me dar tudo isso. Só estariam ali para me dar um abraço e um beijo no dia do aniversário, coisa que nem minha mãe mais fazia. Pessoas só estariam nas fotos para estragar as paisagens. Eu tinha celular super moderno. Eu era invejado. As pessoas queriam o que eu tinha. E elas, juntas entre elas, eu desprezava porque não poderiam ter o que ele me dava. E ele sempre aparecia multiplicado em várias e várias vezes. Eu corria marcar uma nova viagem, ia fazer trekking, colocava minhas roupas de marca e ia correr à beira-mar. Só ele me dava tantas alegrias. Ele me fazia feliz. Como as pessoas – que nunca poderiam me proporcionar o mesmo que ele – andavam à pé, sorrindo, abraçados, se beijando, sem terem o que eu tinha, e eram felizes?! Eles não sabiam o que é ser feliz. Eu via, à noite, pela janela da minha casa cara, no meu robe caríssimo, as pessoas passeando pela praia. Algumas andavam de ônibus, mal vestidas, comiam sanduíches feitos em casa. Elas não tinham o que eu tinha. Mas andavam sempre acompanhadas. Não percebiam que talvez fosse esse o segredo. Seria esse o segredo? Não sei. Só sei que ele me dava tudo o que eu queria, os aluguéis de carros possantes para viver a adrenalina da velocidade, o tempo para conhecer trilhos de trem esquecidos. Ele me fazia feliz. E ninguém me daria isso. Nem aparecia nas fotos. Nas milhares e milhares de fotos.

Dialogando I

“Amor, você não vai mais namorar comigo se eu ficar bombada? Não vai mais me amar?

 Claro que não, amor, vou continuar com você.

 (um beijo enternecedor na testa)”

Porque todo homem é burro, mas alguns até que são espertinhos.

Sonhos de um barrigudinho

Farmácia. Pouco movimento. Duas mulheres na entrada conversam. Um menino pequeno está entre elas. Menino mediano (o “barrigudinho catarrento” do Caco Antibes). Idade, não sei, nunca sei dizer idade das pessoas, quem dirá de crianças.

“Mãe, eu emagreci? Mãe, eu emagreci? Mãe, eu emagreci?”

As mulheres, alheias à repetição da vozinha estridente, continuam a conversa animadamente (sobre o que é que me escapa, vozes estridentes consomem minha atenção). Barulho na rua.

“Mãe, eu emagreci? Mãe, eu emagreci? Mãe, eu emagreci? Mãe, eu emagreci? Mãe, eu emagreci? Mãe, eu emagreci? “

Eu, prestes a sair da farmácia (senão por já ter feito o que eu queria, mais para tirar aquela voz estridente dos meus ouvidos), com ânsias de beliscar o barrigudinho e soltar: não!! Tu tá gordo!

“Mãe, eu emagreci? Mãe, eu emagreci? Mãe, eu emagreci? Mãe, eu emagreci? Mãe, eu emagreci?”

Para a mãe aquela coisinha barriguda e estridente não parece existir.

O controle antes de ficar desesperada e intervir na cena me leva a disparar rumo à rua.

“Mãe, eu emagreci? Mãe, eu emagreci? Mãe, eu emagreci? Mããããe!”

Um olhar espantado (pareci dizer “ó, essa coisinha ainda existe, não foi hoje que ele se perdeu na multidão!) para baixo.

“Emagreceu, filho, emagreceu.” A conversa continua.

“Eba! Agora eu não sou mais gordo! Né, mãe? Eu sou magrinho!”

Sorriso triunfante.

Rindo, eu subo a ladeira. Sofro algumas vezes com a visita mental da voz estridente e repetitiva.

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