Paralisada

Eu queria poder ter corrido quando pude. Mas eu fiquei ali paralisada. Não era medo, não era choque. Enfim, não era nada. Então era assim que se sentia? Agora eu sabia que o nada existia. Era ele, não era nada. Se tivesse sido ontem, seria medo. Se tivesse sido semana passada, seria choque. Hoje não era nada. Ele não entendia. Receio que nunca vá entender. Há uma teimosia da alma que pode perdurar uma vida inteira. Não corri, não petrifiquei, não chorei, não lamentei, não senti pena, não temi, mas não posso dizer que não senti nada. De vez em quando, bem raramente, a gente sente o mundo dar uma breve parada. Um instante que resignifica todo o antes e todo o depois. Quem perde esse instante, perde tudo e vai passar o resto da vida sem saber o que passou despercebido. Eu não fugi, eu não olhei para trás. Eu consegui levantar a cabeça. Eu poderia ter dito muitas coisas, de nada serviria. O nada não mudaria, não voltaria a ser. Um gesto, talvez? Só se fosse para um alento. Toda vez que eu saio do cinema, do teatro ou de um show eu sinto a mesma coisa: o momento foi aquele, e ao sair do escuro eu consigo ver ao meu redor, não existe mais somente aquele palco ou tela iluminados, existe a vida pela qual eu poderei seguir. O que existia no palco e na tela era ilusão, doce artística ilusão, que acaba e não deixa dependência. O que eu digo já foi dito muitas vezes, em muitas melodias, muitos contos, romances, filmes, poesias… há uma música em especial que diz isso de forma escancarada e especial. Mas ali, paralisada, eu sabia, eu sentia, eu descobria. Não há nada nem ninguém que nos ensine a sentir. Há quem se afogue nas letras, melodias e imagens tentando aprender, pobres almas, de nada sabem, muito menos sabem o que é o nada. A esses cabe o desespero. Eu não corri, paralisada fiquei até um piscar de olhos e decidir olhar de outro jeito – não para um outro lugar.

 

Ficcionando para explicar a realidade

Em janeiro.

– Oi, amiga!

– Ooooiiii!!! Guria, que coisa te encontrar aqui!

– Ai, nem tanto, né! Com esse calorão lá fora, só um arzinho condicionado de shops pra gente se salvar, né?

– Ah, isso é!

– Mas, me conta, o que tu tem feito? Como tu tá?

(com toda aquela ânsia de amigas de longa data que se encontram por acaso, sem premeditações que normalmente não funcionam)

– Ah, nada de mais! Meu desocupada, sabe. Fiquei meio pra baixo desde o final do ano passado. Tu soube, né? O Carlos terminou comigo, guria…

– Tá, calma aí. Eu soube, vi no teu Orkut, mas nem quis perguntar, sabe. Sem querer dizer nada, amiga, mas não foi a primeira vez que ele terminou contigo, né?

– Não, né… Ele é daquele tipo, sabe, que pisa, joga fora, se arrepende. Ui, um idiota. Mas, sei lá, depois de tanto tempo. Eu fiquei pra baixo. Não tinha vontade de nada… fiquei em casa, larguei tudo. A mãe que ficou comigo, ainda mais nessa época de natal, essas coisas.

– E ele apareceu com outra, ainda, né? Eu sempre…

– Outra? Como assim?

– Ahn? Desculpa… não sei.

– Onde você viu isso? (com lágrimas)

– A Marisa que contou. Lá em Garopaba… e eu acho que tu conhece. Quer saber? Ele termina só pra aproveitar. E, depois, tu, burra, volta.

– É, eu sei… Mas tô superando isso. Não volto mais, não!

– É? Ah, a Carla me contou que tu ia no analista.

– Então! (alegria brilhando) Eu vou sim. Já faz um tempinho, sabe. Tô conseguindo superar várias coisas. No dia que o Carlos foi embora eu liguei pra ela e a gente conversou, por telefone mesmo, porque ela estava sem horário na agenda. Ai, consegui diminuir a ansiedade, a tristeza, tudo!

– Ai, que bom, amiga!

– Pois é, mas daí no começo de janeiro, sabe, semana passada. Não, retrasada, acho. Ele me telefonou. Eu não ouvi a ligação porque estava no banho. Minha mãe disse pra eu trocar o número. Ela não agüenta mais ele, nunca gostou dele e não quer mais que eu sofra. Daí no dia seguinte liguei pra analista, ai, guria, ela está de férias. Marquei com a colega dela, que atende no mesmo consultório.

– E aí? Ela é boa também?

– Ah, sei lá, é, sabe. Não tive recaída, conversei numa boa, me ajudou bastante. Mas…

– Não é a mesma coisa, né?

– Não, né… De jeito nenhum. Sei lá, fica faltando alguma coisa. Porque lá a gente se abre, conta tudo. A minha é como uma amiga mesmo, já me conhece, sabe como eu sou, como eu faço as coisas. Com essa é meio que, sei lá, tem uma coisa que fica meio no ar, sabe?

– Sei, sei… ah, mas pensa positivo, daqui a pouco ela volta!

(toca o telefone da abandonada pelo Carlos)

– Só um minutinho, é a mãe. Ela tá muito preocupada comigo!

 

Não é a mesma coisa, sabe?

Pois é, tudo isso porque estou com saudade da minha máquina de lavar roupa.

 

Estar

Estarei fora… Estarei longe… Estarei mais perto de mim… Mais distante que eu possa estar de tudo, de todos… Estarei cá dentro, sem perspectiva, sem chance, sem expectativa, sem ansiedade… Estarei lá, onde você não pode estar, nem estará… Estarei só, e mais perto de tudo e dela do que nunca… Estarei dentro, sem convites… Estarei de portas abertas e janelas fechadas… Estarei surda, nunca muda… Estarei.

trust

Inside… Oh, I´m sorry! There´s nothing inside here… I never told you that? Ok, I´ll must remember next time. I know that´s difficult, but, please, trust me, it´s how the things happen. I don´t expect you to trust me again.

Ah, o verão! – Parte II – Ilustrado – Vamos à praia!

Já que escrevi tanto sobre a peripécia de ir ao litoral na temporada, hoje me dei um desconto e publicarei o post parte II.

As Pessoas

Uma das minhas favoritas e a mais divertida. Se você parou pra reparar mais detidamente nisso alguma vez, vai lembrar do que eu vou escrever.

Sempre tem a tia gorda. Tente não rir quando ela colocar o maiô (meus queridos, se a sua tia gorda resolver usar biquíni, tente não passar mal!). Ela come demais, incomoda demais, ronca tão alto que acorda todo mundo, fala mal de tudo e de todos, sua às bicas, reclama do calor a cada três minutos, ocupa espaço demais em todos os lugares, não cabe na cadeira de praia e te faz passar a maior vergonha.

Tem o tio beberrão. É, ele bebe demais. É metido a tudo e mais um pouco. Mas, na verdade, não faz nada! Não cozinha, não ajuda na louça, não arruma a antena, não varre, não leva as cadeiras pra praia, não sabe nem colocar o guarda-sol na areia! Mas tudo ele pega e fica dando discurso de como fazer. E dali um pouco ninguém mais sabe onde ele se enfiou. Procure onde estão as cervejas, lá estará ele, sorvendo aquela coisa fedorenta e quente, babando e suado, sem camisa, é claro, e de bermudão. Faz piada machista com os rapazes sobre as moças que passam, e mal repara nas mulheres da casa, nem quando elas colocam a comida na mesa. Ele só bebe, bebe, bebe, também te faz passar vergonha e você ainda tem que ficar de olho pra saber onde ele está quando teu pai te perguntar.

O pai. Ele pode estar de férias, ou só aparecer nos finais de semana porque estará trabalhando durante a semana na cidade (a paz dele!). Ele chega na sexta-feira à noite, cansado, cheio de compras dos supermercados e tal que a tua mãe mandou trazer, só quer sentar um pouco e descansar. Aí ele pode ser aquele metido a garotão que adora pegar onda, fica o dia inteiro com a pentelhada na areia e no mar, dá umas palmadas na bunda da tua mãe com um sorriso maroto; ou ele já é mais conformado com a vida, mal vai até a beira do mar, fica em casa, destravando uma porta, limpando o terreno, tirando limo do telhado, procurando parafuso de determinado tamanho, fica quieto a maior parte do tempo e só quer se sujar de graxa arrumando o carro.

A mãe! Se você está de férias, na praia, aproveitando muito, sua mãe parece que está no cume do estresse. Tudo ela grita, ela vive na cozinha fazendo comida para aquele bando de esfomeados, às vezes vai à praia e não te deixa passar da água na cintura, além de ficar bronzeada demais e você ficar com ciuminho dela. Você ainda criança não vai entender porque de vez em quando ela vai deixar de ir pra praia (depilação? Menstruação? O que é isso?). A mãe vai cansar tanto e garanto que sonha com o fim das férias pra ela voltar pra tranqüilidade dos filhos na escola, das tias no interior, do marido no trabalho e da casa arrumada e limpa por mais tempo.

Os irmãos. Vão incomodar, vão te fazer companhia nos jogos na rua e na praia, vão fazer aquelas brincadeiras idiotas no mar e você poderá ficar traumatizado pelo resto da vida. Ou seja, irmãos, sempre os mesmos.

Os primos. Bem, se eles vierem do interior e não tiverem o costume de ir pra praia você terá que explicar algumas coisas e garanta uns momentos pra passar muita vergonha. Comece explicando como se vestir no verão na praia e para ir pro mar. Já será um passo e tanto! Não pense, em nenhum momento, na privacidade e não seja egoísta. Você vai ter que dividir tudo mesmo e não tem jeito. Sabe aquela tua bóia favorita? Pois é, eles vão pedir emprestada. Mas, se eles estragarem (aliás, esse risco é real e acontece com bastante freqüência), você tem todo direito de despertar a sua ira (olha os pecados aí!) e não esquecer nunca mais o que o malandro folgado que se aproveitava da tua casa de praia fez!

Os avós! Ah, os avós! Talvez a casa de praia seja deles, antes dos teus pais terem a deles. Eles raramente irão para a casa, talvez porque quase não tenha mais espaço para eles, ou porque eles já cansaram de tanta gente por lá. Mas quando ele forem será uma festa! Tua avó fará aqueles doces inesquecíveis e deixará você fazer tudo o que quiser! Teu avô te levará pro mar e você vai engolir tanta água que aprenderá a não temer aquelas ondas gigantes.

Você está na praia, mas irá para o mar!

A ida ao mar, tão esperada

Prepare-se, muita coisa poderá acontecer. As mais divertidas e engraçadas virão das pessoas desacostumadas a ir para a areia da praia. Creia-me, o riso poderá levá-lo às lágrimas, ou até ao banheiro.

Veja bem algo com o que você poderá se deparar à beira mar. Sim, eles são do interior do interior (Paraná!).

Não tive tempo para ver o que surgiria daquela armação. Até um senhor no andador iria abrigar-se ali. Será que conseguiram?

Coisas assim proliferam na areia da praia. E você poderá protagonizar uma dessas!

Aproveite e leve tudo o que você tiver em casa para o mar. Mas, por favor, tente fazer as crianças entenderem que é melhor cada coisa num dia, senão o cansaço de levar tudo (e nem sempre tudo vai voltar, depois você vai procurar e perceber que alguém perdeu) vai te desanimar. Leve a bóia tipo pneu, a bóia de braço e de cintura para os pequenos, os óculos de natação dos rapazes, os pés de pato para os mais metidos, o bote inflável (que só lá na hora você vai perceber que está furado e terá que trazer aquele trambolho de volta sem tê-lo usado), o caiaque da mais velha que ela nunca usa, as cadeiras e cadeiras, as esteiras, as kangas, os guarda-sóis multicoloridos. Ou alugue uma coisa horrorosa de baleia na beira da praia, a moda pegou faz anos. Nunca esqueça de levar um lugar seguro para guardar a chave da casa. Isso evitará transtornos, brigas e acusações na volta quando todos ficarem pra fora, sedentos e queimados.

Vai uma baleia aí? Como se não tivesse baleias (em todos os sentidos!) demais numa praia!

Aliás, use protetor solar nas crianças e velhos. Os rapazes não usarão nada para provar que são homens. As moças e mulheres vão ficar grudando e escorregando de tanto bronzeador. Permita-se uma vez ao ano tomar aquela tostada pelo sol, bem camarão. Todos precisam disso. Não dê ouvidos àquelas chatas branquelas que dizem preferir um fator 1000 porque não gostam de sol, é só dor de cotovelo, pois nem se passassem um ano inteiro no sol ficariam bronzeadas. Não ria da tua irmã, ou da tua tia, que vai passar os primeiros dias na laje (ou no quintal mesmo) rezando e passando bronzeador antes de criar coragem para sair de casa de biquíni. Isso pode ferir a auto-estima da pobre coitada.

Os biquínis e maiôs são peça importante, mas felizmente tem ganhado mais variações do que antigamente. Lembra aquelas asa deltas que pareciam querer alcançar os ombros delas? Dizer que a Adriane Galisteu usava aquelas coisas e se achava o máximo! Hoje eu fico bem satisfeita ao ver que não há uma ditadura sobre isso. A moda tem feito escravas em algumas temporadas. É a moda o cortininha: enjoa ver todas com isso. É a moda o de lacinho: vão todas na mesma onda. É um saco. Eita falta de criatividade. Hoje já é mais possível ver todos os modelos de maiôs e biquínis convivendo pacificamente. E não fique perguntando ou reparando nas moças que preferirem usar shorts. Elas têm lá seus motivos!

E os rapazes? Me digam o que aconteceu que eles hoje usam essas bermudas horríveis até abaixo do joelho? Desconhecem o prazer de uma coxa bronzeada? Fica aquelas coisa comprida, molhada, grudenta.

Eu sou da época que homem só usava sunga. Isso mesmo, sunguinha, meu povo. Coisa mais linda!

Reparem no comprimento das bermudas. Coxa branca é coisa de curitibano, please!!

Não me perguntem o que o rapaz da direita está gesticulando. Mas, rapazes, por que esse medo de usar sunga? E, assim, pode de quase todas as cores. Se for branca, dependendo, pode ficar bem estranha. Mas se você está seguro de si, use! As cores cinza, marrom, preta sempre acertam. Bonitas são as vermelhas, verdes, azuis. Amarela não, né, porque daí é de doer. Estampadas estão fora da lista se forem aquelas estampas de caveira, skate, letras. E não peçam opinião para a mãe, hein! Lembra de quando você era criança e vestia você? Então, não preciso dizer mais nada. Não conheço rapaz feliz que tenha continuado a usar o tipo de roupa que a mãe mandava usar.

Bermuda na beira da praia: isso tem que ter fim!

Um adendo para as mulheres: não usem jóias, nem bijus, nem maquiagem, nem perfume, por favor! Quer atestado de brega e pobre? Vá cheia de biju, com aquela maquiagem da balada e saltão! Mas aí você vai mostrar pra todo mundo que nunca teve o costume de ir à praia. Isso é coisa pra ir pra balada ou pro trabalho, fofa! Ah, perfume serve para os homens também, nem perfume nem aqueles desodorantes mata-rato, por favor! E nem jóias, porque você vai perder e ficar lamentando o resto da vida, além da choradeira na hora pedindo pra todo mundo procurar um anel no mar!

E algo que parece estúpido dizer (mas o óbvio, né): não faça prancha (chapinha, sei lá) nos cabelos para ir para a praia! Escreva na testa, se for o caso: sou uma poita!

Quem tem o costume sabe que roupa pra praia é só pra praia, você nunca vai usar em outras ocasiões. Aquele vestidinho, saída de praia, short, bermuda, camiseta, só irá para e praia e ponto. Aliás, uma camiseta é sempre bom, porque com vento dá frio na hora que sai da água. A água salgada do mar impregna e por isso não se usa roupas, toalhas e utensílios que vão para a praia para outras ocasiões.

Questão básica: não jogue lixo na praia, seja na areia, seja no mar! Isso é ignorância, falta de educação, sujeira mesmo. Parece um mundinho tão evoluído… mas passe numa praia e repare no chão. Não, meus queridos, o lixo não irá embora sozinho nem a prefeitura das cidades é obrigada a passar recolhendo. Leve uma sacola junto e recolha o seu, não custa nada levar até a lixeira mais próxima ou da sua casa!

Não é perdoável nem o lixo do foguetório. Estão ali esperando o mar levar tudo?

No mar, todo cuidado é pouco. Ouça quem já conhece mais as armadilhas que ele tem. Saiba que um milésimo de segundo é muito diante da imensidão dele. Jamais ignore placas e bandeiras. Nunca pense que pode “um pouco mais”.

A não ser que você queira uma respiração boca a boca daquele salva-vidas gostosão, respeite!

Nem saber nadar pode ser item de segurança contra o mar. Aproveite-o sem deixar que ele se aproveite de você!

Aproveite o sol, a areia, eles recarregam as energias e tiram coisas ruins.

(ufa! por incrível que pareça teremos a terceira parte! aguardem!)

Respeite-o e ele te poupará

Ah, o Verão! – Parte I

No Brasil, é característico ir para o litoral nas férias de verão, de dezembro a início de março. Muitos emendam com o Carnaval, que fica entre fevereiro e março, e por isso se diz que as coisas só começam depois do Carnaval. Muitas cidades praianas vivem majoritariamente dos turistas e veranistas. Há os que têm casas para temporada, ou os que alugam ou vão para hotéis. Há um deslocamento em massa gigante, que sempre foi grande, mas com o advento do financiamento fácil de carros cresceu demais. Muitas e muitas pessoas vão para o litoral aproveitar o calor. Algumas fazem isso todos os anos, algumas só alguns anos e há os que vivem já no litoral.

As menores cidades de veraneio ficam vazias durante o ano, algumas mais badaladas já vivem independentes do turismo e da temporada, mas dobram, triplicam, a população nesse período.

Não vou escrever tecnicamente o que acontece e tal. Vou colocar algumas impressões, sugestões e observações. Sou viajante de alma, veranista desde antes do meu primeiro ano de vida, moro atualmente numa Ilha, mas vivo pra lá e pra cá entre o litoral e o pé da serra.

Ter casa de veraneio é algo extremamente divertido. Ser turista também. O primeiro implica em eternos retornos, o segundo encerra mais situações inusitadas. Mas o verão, a praia, tem peculiaridades fantásticas.

A Temporada

O início do verão é lá pelo dia 22 de dezembro. Aqui as férias escolares começam um pouco antes disso, mas até o Natal as coisas ficam ainda um pouco calmas, muitos passam esta data com a família e tal. Mas, só reparar nas estradas (sim, infelizmente os carros, ônibus e caminhões são maioria neste país), que a partir do dia 23 a situação muda completamente. Muitos vão e vem. O que antes era fácil dizer, em qual sentido e quando as estradas estariam mais cheias, hoje não faz mais sentido. O pessoal do interior e da serra vai e volta do litoral em variados momentos, mas encare o último dia do feriado de ano novo no sentido interior ou serra e aproveite para ficar parado horas na estrada achatando a bunda e aperfeiçoando seu mau humor.

Aqui em Santa Catarina, como em vários estados brasileiros, muitas casas ficam fechadas o ano inteiro, no litoral. É na temporada que elas reabrem.

Lembro bem que há alguns anos o período de férias era maior, todos passavam dois meses direto na praia. Bons tempos! Hoje a maioria mal consegue duas semanas.

A Viagem!

Ah, a viagem! Carro lotado! Todos com calor! E tem de tudo: cachorro, gato, periquito, cadeira de praia, bicicleta, malas, bola, travesseiros… Divertido passar por outros carros e ver que tem quem está em situação pior que você, sentado no colo da tia gorda, por exemplo, amassado pelo cotovelo do primo. Sempre terá alguém pior que você, lembre-se disso para a temporada toda.

A estrada? Ah, claro, todos tiveram a brilhante idéia de sair mais cedo, sábado à tarde, logo depois do Natal, pra não pegar movimento! E? Todo mundo fica ali na estrada, a uns quinhentos metros do conforto de casa, com o cheiro do peru de Natal embalado no colo da mãe.

A Casa

Bem, como tem gosto pra tudo nesse mundo, você vê de tudo em construções na praia. Tem aquelas que mais parecem um palácio, tantas portas, janelas, andares, que deixam a dúvida se o cara vai pra lá só pra passar um mês ou dois ou se é um mausoléu. Tem a típica casa de praia, nem grande demais (como dizia minha avó e diz minha mãe: não vou pra praia pra ficar me matando de limpar casa!) nem muito pequena (como já dizia o dono do Barracão do Curi: ter casa na praia é só para os outros irem!), antigamente eram de madeira, mas hoje já tem de material mesmo, normalmente com janelas de madeira e térreas. Item obrigatório (se for pra construir uma que não tenha, nem faça!): varanda! Varandas grandes, arejadas, com muitas redes por todos os lados! De preferência, no mínimo, dois banheiros (nessa época, até os menos chegados na boa higiene tomam banho!), porque casa cheia e um banheiro só pode dar confusão e esperas desastrosas! Vão por mim!

As cidades mais badaladas têm apartamentos (o povo mora o ano inteiro em gaiolas e quando vai pra praia prefere continuar nelas). Mas, apartamento não tem graça nenhuma, nem de veraneio. Pularei essa.

Numa casa de praia onde todo mundo resolveu aparecer (parentes e afins sempre fazem isso, muitas vezes ao mesmo tempo) não dá pra mudar a caixa d’água do dia pra noite, por isso, prepare-se para a falta de água tão comum.

Quando você chega na casa de veraneio (que ficou meses e meses fechada) dá vontade de voltar. É muita poeira, lagartixas, baratas, e outros seres habitando-a. O cheiro de mofo e umidade é enjoativo e persistente. Mas aí você lembra da estrada parada e decide ficar por ali, vai tirando umas teias de aranha e senta em alguma cadeira que não foi comida pelo cupim. Outra obrigatoriedade da casa de praia é a mesa de jogos! Baralho, sinuca, futebol de botão, dados, jogos de tabuleiro, tem que ter tudo (lembre-se, é verão e chove bastante!). Além disso, TV em lugares mais distantes raramente pega algum canal (eu sei que houve uma invasão de antenas parabólicas – horríveis – e que hoje em dia ninguém vive sem TV, mas no meu tempo pegar a Globo era um parto – ok, ainda é!). Internet? Então, nos últimos anos até internet chegou nesses lugares, mas em lan houses ou a sua móvel. O sinal do celular também não é uma maravilha e de vez em quando você vai ver seu vizinho pendurado na varanda gritando, não é com você, é com a esposa dele que está na capital.

Casa de praia mesmo tem muita cama em pouco quarto, mais colchões que camas e sofás-cama são obrigatórios.

Amor e Sexo

Bem, já dizia minha avó: amor de verão não sobe a serra! Olha, nunca vi nenhum subir mesmo! Mas, pense bem, se não sobe a serra, pode reacender no próximo verão! Só, por favor, não discutam o que cada um fez durante o ano! Daí não reacende amor nenhum! O verão é muito propício para o amor e para o sexo (bem, qual estação não é?!?!). Uns dizem que não… conversa fiada! O amor, principalmente adolescente, está sempre no ar com aquele contato próximo e quase desnudo do clima de praia, de tantos rostos novos ali na casa do vizinho, do clima festeiro de jogos na rua e na praia, de noites quentes e longas.

O sexo segue quase o mesmo caminho. Mas, cuidado ao praticá-lo nas areias, costões e matinhos. Cuidado em dois sentidos, com um possível flagra ou com pequenos acidentes. A areia e o mar podem causar sensações inesquecíveis nessas horas! As pedras e o mato, então! Será definitivamente algo que você vai lembrar pro resto da vida, nem que seja com uma boa cicatriz no joelho! Eu mesma vivo testemunhando amores solitários ou de casais aí pelas areias. Não me incomodo, mas cuidem das crianças porque alguns desses podem ser mal intencionados. Aliás, durante toda a temporada: cuidem das crianças! Seja no banho de mar, nas ruas pacatas, elas andando descalças, no banho em casa, na brincadeira com outras crianças.

Junte aí dois pecados capitais se seja feliz: luxúria e preguiça. O verão pede isso, não negue. Aproveite até os dias de chuva!

A Comida

Ah! Viram como o verão pede, clama, implora pelos pecados capitais? A gula é uma amiga muito próxima do verão! Eu poderia escrever aqui apenas duas coisas: caldo de cana e milho cozido! Se você passar um verão sem tocar num milho cozido nem tomar caldo de cana, vá para uma estação de esqui porque não é digno destas terras!

Troque, de vez em quando, o milho cozido pelo pastel de camarão! Porque ir pra praia, tomar banho de sol, banho de mar, caminhar, jogar, fazer sexo e tudo mais dá fome, muita fome!

Por favor, não coma frituras pesadas na beira da praia. Ah, nem bebidas alcoólicas. É o cúmulo da farofagem e da breguice! Farofar é permitido, mas sem caixas de isopor, por favor! Leve umas bolachas, água. Mas não precisa levar o frango! Nem cerveja!

Eu sei que criança é difícil, mas não leve os salgadinhos da vida pra elas ficarem derrubando por tudo. Em casa, coma de tudo, tudo mesmo, sem culpa. Tenha sempre frutas e sucos, verduras, arroz, feijão, carnes.

Sabe a vó ou a tia que já estão numa idade ou num peso que não vão mais para a beira da praia? Então, explique para elas que além de fofocar sobre quem a vizinha recebeu a noite passada elas também podem preparar a comida! Porque não tem coisa mais chata e esfomeante do que chegar da praia e ainda ter que cozinhar!

O meio de transporte

Ande a pé! Esqueça carro e ônibus. Caminhe! Faça tudo que der à pé, ou tire finais de tarde para pedalar. No máximo, se quiser visitar alguém ou ir para alguma praia distante, vá de buggy! Sim, o buggy é o meio de transporte oficial do verão. Pra mim é o veículo oficial. Mas, muitos acham que não. Aproveite o vento na cara, a falta de frescura de sujar de areia ou molhar os bancos: o buggy foi feito para isso. Só ele te recebe de braços abertos (quase literalmente). Mas lembre-se de um boné ou da capota de verão, pois insolação é algo incômodo que pode te fazer passar a noite tomando água e indo ao banheiro.

As Doenças

Coisa triste, mas é fato que sempre tem doente numa temporada. As famosas: diarréia, garganta e ouvidos inflamados, gripe, insolação, desidratação, bicho de pé, picadas de abelhas e outros insetinhos, queimaduras do sol, de águas-vivas, etc.. A lista é grande. A maioria pode ser evitada, mas se chega, incomoda muito. Todo mundo tem que se sacrificar um pouco por causa daquele que está lá jogado sem poder aproveitar.

Os Animais

Você tem animalzinho de estimação? Leve junto! Ele vai te incomodar muito, vai incomodar os vizinhos, os outros habitantes da casa, mas leve! Ele vai ficar desesperado com os foguetes, vai ganir madrugadas inteiras, vai fugir, vai tudo. Mas leve!

Com um porém gigantesco: NUNCA leve-o para a areia da praia. Além de ser proibido porque simplesmente transmite doenças (ouça bem você aí que acha que porque o seu animalzinho dorme com você, na sua cama, e toma banho dia sim, dia não, ele é limpinho) e faz sujeira na areia, que conseqüentemente vai pro mar e entra em contato direto com as pessoas. Você não deixa que ele faça coco na sua mesa, não é mesmo?

Acho incrível, mas ainda hoje isso precisa ser dito e repetido. Ontem mesmo fui à praia, sentei na areia e veio um casal com um bebê e um cachorro correndo solto pela areia. Ele fez coco a alguns metros de mim e o casal não fez nada! Os donos acham NATURAL levar um animal desses para a beira do mar. Reclamei com um salva-vidas que passou por ali (o cachorro avançou nele), e ele disse que não podia fazer nada! Se é proibido, como ninguém faz nada? Reclamei, saí reclamando, levantei e fui embora. O casal não tomou nenhuma atitude, é claro. E isso não é aqui ou lá, durante o ano presenciei várias vezes nas praias mais badaladas (inclusive Jurerê) donos passeando com seus cães na areia, indiferentes às reclamações.

Animais já há o suficiente na praia. Aproveite para ter seu pé espetado por um siri, fique admirando os peixinhos lutando contra a corrente, tire fotos de seres estranhos que aparecem por todos os lados, cate vieiras e caramujos. Não precisa levar o seu de casa! Creia-me!

(este era pra ser um post, mas devido ao tamanho dele, e porque hoje voltei da praia inspiradíssima e choveu – o que fez minha internet móvel oscilar – vou fazê-lo em partes. Aliás, podem esperar por fotos!)

Da Bahia à Patagônia. Um dinheiro, uma câmera, um carro.

Eu poderia mudar o mundo. Eu, um carro e uma câmera (com algum dinheiro) poderíamos ver aquilo que não vemos. Aquilo que as telas e quadros escondem. Eu poderia seguir adiante temendo não poder voltar. Ou eu poderia seguir adiante não desejando voltar. Eu poderia desejar minha Piedra Sola lá no Uruguai ao ver este mundo daqui, ao ver meus sonhos e ideais ruírem. Eu poderia me aposentar, plantar batatas no alto do Maciço. Eu poderia pescar e caçar para me alimentar, me exilar. Eu poderia ir às ruas, gritar, esbravejar. Eu poderia tentar falar com você. Eu poderia tentar ver, tentar enxergar, tentar pensar. Eu poderia somente desejar. Ou eu poderia amar. De tanto tentar complicar, eu poderia apenas simplificar. Jogar as cinzas no mar, não mais deitar e rolar até não conseguir dormir. Eu poderia esquecer. Esquecer tudo, todos, você, ontem, ano passado, o bem, o mal. Eu poderia, sim, recomeçar. Ou eu poderia parar, parar tudo, de repente, do nada. E deixar a todos sem explicações. Eu poderia simplesmente minar as esperanças, ninar a febre e trabalhar das 8h às 18h. Eu poderia desistir das escolhas e das opções e viver num celeiro. Eu poderia correr o mundo, tentar aquela imagem, aquele som, aquele gesto, aquele personagem. Eu poderia, também, voltar atrás, parar o tempo, brincar com o tempo, enganá-lo. Eu poderia ignorar e ir dormir, ou tapear o sono e decidir pensar, mudar. Eu poderia assistir TV, algum filme, e esquecer. Ou eu poderia fazer um filme e fazer pensar. Eu poderia incomodar. Eu poderia escrever e confundir, desestabilizar. Ou eu poderia… simplesmente… agradar. Eu poderia trair, convencionar. Ou eu poderia me trair, me matar. Eu poderia rever minhas opiniões, ou eu poderia apenas, cegamente, apenas reiterá-las. Eu poderia tentar gravar e gravar a mesma seqüência, sem entendê-la, sem entender o que ela me pedia. Eu poderia ter uma conversa de bêbados, ou uma conversa de loucos, e ser feliz. Ou eu poderia escolher uma conversa sã e culta. Eu poderia escrever a necessidade, ou eu poderia escrever a diferença. Eu poderia duvidar para conseguir acreditar. Eu poderia querer, com algum motivo obscuro no coração, e dizer não para me proteger. Ou eu poderia não saber se quero ou não e poderia não conseguir ouvir meu coração. Ou eu poderia não querer me proteger, nunca. Eu poderia criar, ou copiar. Eu poderia falar, ou ouvir. Eu posso sempre correr, ou andar. Eu poderia votar ou anular. Ou seria voltar ou anular-me? Eu poderia olhar, mas com medo, colocar a câmera em frente aos meus olhos. Ela, sempre, lá. Não há como não poder. Não há como não agir. Não há como não escrever. Eu poderia ligar. Eu poderia desligar-me. Eu poderia ter a paz e deixá-la escapar. Ou eu poderia vingar. Ou eu poderia jantar. Eu poderia subir morros, descer dunas, pular de cachoeiras, mergulhar no mar, adentrar matas, mas jamais me abandonar. Eu poderia guardar tudo e não ter nada. Eu poderia queimar as lembranças e os terrores. Ou eu poderia viver com os traumas. Eu poderia resumir tudo num sorriso. Ou acabar com uma frase. Eu não poderia me salvar. Eu poderia ir da Bahia à Patagônia. Eu poderia ser médica. Eu poderia ter casado. Ou poderia ser eu. Eu poderia ter uma crise de claustrofobia. Ou eu poderia me sufocar. Eu poderia parar… agora… ou nunca.

O suicida, no supermercado

Os motivos que ele tinha para ser um suicida em potencial eu não sabia. Acho que nunca saberei, pois os motivos de um suicida serão sempre obscuros, indizíveis, inescrutáveis para nós. Era uma sexta-feira à noite, agosto, um inverno incerto, com calor de primavera pela tarde e temperaturas de lareira à noite. Um movimento daqueles nos corredores do supermercado, casais que preparam as luxúrias para o fim de semana, crianças grudentas e fedidas saindo da escola sendo carregadas pelos pais carrancudos, estudantes, muitos universitários que moram longe de casa correm comprar a bebida nossa de todo porre, as comidas congeladas nossas de toda pré-balada. Ele é uma figura típica local, idade dos cabelos brancos e muitos pêlos, bermudão de velho que esqueceu de renovar a idade do guarda-roupa, moletom que já viu tantos sóis que esqueceu a sua cor. Um carrinho de supermercado gigante pairando incerto pelos corredores apertados e entulhados de pessoas. O caminho parecia ter sido traçado numa ordem lógica. Pães Oito garrafas de vinho. Tinto. Cabernet sauvignon pra qualquer hora, tão comum quanto água. Mas água não tem tinto. A qualidade indiscutível. Queijos. Provolone, gouda, mussarela, parmesão. Queijos firmes, adocicados, defumados. Boa combinação. Aqui, o mais destoante de tudo… ou não: cerveja. Cerveja? Para muitos ali era a compra básica, cerveja e cerveja, ou cerveja e carne. Mas para ele? O que a cerveja faria com os vinhos, o pão e os queijos? Ali parada na fila olhando para o carrinho dele eu descobri: ele era um suicida. Aquelas doze latas de cerveja diziam isso. Não haveria alguém que tivesse pegado os itens anteriores e chegado ao crime, ao avesso, de pegar aquelas latas. Aquilo o indicava. Aquilo o anunciava. Aquilo assinava sua carta derradeira. Eu, olhando aquelas latas, voltava os olhos para as garrafas (eu mesma com duas garrafas de vinho, rosé e branco, ambos suaves, nem eu mesma sabia porque, talvez para não pensar em questões tão duras quanto às do meu vizinho de fila), via o pão… saboreava as lembranças do gouda. E lá estavam elas, as latas. O barulho dentro do supermercado era tão irritante que o mp3 me ensurdecia. Uma fila parada com um cara e cinco pacotes gigantes de pães (pelo jeito estava barato, não?), uma mulher daquelas que já passou da idade pra tudo e é “intelectual” conversando com um projeto de homem que quer mostrar nas roupas, cabelos, postura que é intelectual, entre eles não pode haver sexo, minha imaginação não permite, mas há um sanduíche natural – só o que poderia haver, tudo que eles são, dizem e pensam se traduz naquele pão murcho e colorido de cenoura. Aquele suicida ali, eu ainda não havia entendido. Mas, volto os olhos para o carrinho dele, penso que não entendo aquilo. E… lá está! Lá está a prova definitiva! A minha estranha desconfiança se confirmava com aquilo, aqueles dois pacotinhos por baixo dos queijos que eu não havia percebido… lá estão as navalhas! Navalhas! Agora tudo se encaixava, tudo ficava claro. As latas de cerveja eram o indício. E ali estava a prova. Meu coração deu um salto. Meus gestos travados. Minha cabeça inconstante olhava para os lados. Eu não podia fazer nada. Diante de uma decisão nada pode ser feito. Virei os olhos, aguardei minha vez, paguei meus vinhos e segui para casa. Seria uma noite difícil.

O que faz um casal quando casado?

Um casal sentado no sofá, em frente à TV:

– Você acha que eu tenho rugas aqui? – diz ela apontando o canto do olho direito.

– Não, amorico, você está linda. – responde ele com os olhos fixos na tela da TV.

– Você nem olhou pra mim! Eu não perguntei se estou linda ou feia! Eu perguntei de uma ruga, entende a diferença? – ela, alterada, quase grita.

– Amorzinho, não precisa gritar, tô aqui do teu lado. Claro que você está linda de ruga. – o olhar dele não desgruda da TV, uma mão vai até o controle remoto aumentar o volume, a outra tateia perdida a cabeça dela.

– O quê?! Linda de ruga? Agora virei uma velha enrugada linda! Você não percebe o que diz! Você não vê que me machuca com o que faz? – tirando bruscamente a mão dele do cabelo dela – Acha que adianta fingir que me ama, me dar carinho? – o rosto está vermelho, as lágrimas tremendo nos olhos.

Ele suspira, dá um mute na TV, coloca o controle remoto ao lado do sofá, fecha os olhos por um segundo, se ajeita no sofá e vira-se para ela. Coloca as duas mãos no seu rosto, uma de cada lado.

– Amorico, não foi isso que eu disse… Não precisa ficar nervosa. Olha, agora você está marcando ainda mais a expressão do teu rosto. Precisa relaxar… Sorrir mais! – ela está parada, fungando – Você é linda, não tem ruga nem nada que vá te deixar feia. Só não fique nervosa, irritada, isso acaba com você… Olha a tua mãe, com aquela cara de bruxa o tempo todo, acabou com a expressão dela, ficou velha mais cedo, e ainda diz que é por culpa do teu pai!

Ela arranca brutalmente as mãos dele do rosto dela e pula do sofá.

– O quê? Minha mãe é feia? Você ainda quer me comparar a ela? – o rosto convulsionado, ele sentado com os olhos arregalados – Eu vou ficar igual a ela, é? Com cara de bruxa? Você é um idiota mesmo! Bem que ela me dizia pra não casar contigo! “Sorrir mais” (com tom de ironia), sorrir do quê? Da cueca que você deixa jogada no chão? Do jogo de futebol toda quarta e domingo? – ela sai desabalada tropeçando no cachorro e bate a porta do quarto.

No quarto, ela se joga na cama e chora por duas horas, soluçando alto.

Ele suspira profundamente, levanta-se, vai até a geladeira, pega uma cerveja, volta para o sofá, coloca o som na TV (é quarta-feira…), chama o cachorro que vem correndo deitar com a cabeça no seu colo. Acariciando o cachorro, depois de um gole de cerveja, ele olha para a lata, faz que sim com a cabeça, sorrindo.

interior

Eu vagava pela casa arrumando as prateleiras, as gavetas, dobrando roupas. A vida resumia-se a isso, agora. O fogão era um grande amigo, passávamos horas e horas conversando, trocando intimidades e receitas. A pia era uma inimiga fofoqueira, nem eu ainda conseguia gostar dela, apesar da convivência forçada (ou talvez por isso mesmo), nem ela simpatizava comigo, meio louca, aprontava umas de vez em quando. O telefone tocava, volta e meia, se não era eu respondendo que ele não estava, era minha mãe, sem fé que eu estivesse bem. O jardim ficava largado, nunca consegui gostar de colocar as mãos na terra e o frio que aqui faz deixam-no como um quadro triste daqueles que alguma tia pinta e colocamos na parede quando ganhamos em algum aniversário. Ali da janela fico olhando para ele, entre uma vassoura e a máquina de lavar roupa, por alguns minutos. Só alguns… parar lembra que ainda posso pensar. No final do dia sinto-me exausta, com a janta pronta e a mesa arrumada, como se eu tivesse corrido uma maratona, ou quebrado pedras o dia inteiro. Não lembro mais porque vou deitar na cama de casal fria e dura. Ouço a TV e os comentários dele, faço que “sim” ou que “não” com a cabeça algumas vezes, sorrio quando ele diz que me ama. Durmo cedo, com as galinhas como dizia minha avó. O frio dentro de casa fica mais suportável com o aquecedor elétrico que ele trouxe semana passada, mas durmo sempre com três blusas e três calças. Sinto um nó no estômago quando sinto minha pele gelada, ou a dele. Pele gelada me lembra os mortos. Nem neles penso mais. Meu cabelo está pela cintura, sempre amarrado num coque ou coisa assim. Os shampoos que vendem aqui são muito caros e de poucas opções. Me diziam, antes de me mudar, que a vida na capital era cara. Mal sabem eles que aqui, longe de tudo, nada é barato. E pouco se tem a comprar. Nem isso faço, compras. Não saio mais de casa, ele até tentou me incentivar a fazer amizades aqui pela vizinhança. Mas essas velhas mal arrumadas, feias e gordas me olham com malícia e inveja. Não suportaria nem falar com elas. Enquanto o fogão assa e a máquina trabalha fico sentada no sofá, debaixo da manta, folheando uma revista qualquer que ele sempre traz da rua. Quando ouço a máquina parar já levanto, com um certa alegria e resignação, para estender as roupas. Às vezes, acho que lavo demais as roupas. E que não tenho comido muito bem, já perdi muitos quilos, tem dias que nem almoço, só a janta para ele, que é sagrada. Encontrei um espanador esses dias, numa caixa da mudança, fico com ele o dia inteiro na cintura. Poeira não tem mais em canto algum. Quando chove quase entristeço, bate uma vontade de chorar por horas a fio, até secar os olhos… os pássaros se abrigam no telhado e nas árvores do quintal. Só ouço os passinhos deles pelo forro e imagino como devem lutar pelas suas vidas e de seus filhotes neste frio. A máquina de lavar roupa parou novamente. O devaneio se foi.

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