As ilusões não estão todas perdidas, mas só no mundo virtual

Podem me chamar do que for… antiquada, provavelmente. Mas o mundo visto só por essas telas, o mundo à distância on line, o mundo dos contatos não imediatos de milésimo grau não é pra mim.

Sei que tenho estado virtualmente bastante presente. Faço isso porque gosto. Mas nem sempre. É uma ferramenta, meio de comunicação, entretenimento e tal. Até aí, tudo bem. Mas a coisa pára por aí.

Lembro que faz um tempinho (não muito mesmo) eu comecei um namoro. A coisa começou a desenrolar depois de nos conhecermos no jantar de aniversário de uma amiga em comum. Aí eu chego em casa, uma coisa, outra e chega mensagem no celular. Eu não conhecia o número e juro que nem lembrava quem era a criatura pelo nome (a amiga havia apresentado alguns naquela noite e eu não guardo nomes). Ele envia, eu respondo e descubro que ele e a tal amiga estavam no msn depois da festa e ela havia passado meu número de celular pra ele.

Pois bem, um crime. Porque celular fazia uns dois anos que eu tinha. Msn? Eu não tinha! Sempre detestei msn, aquele barulhinho chato que ele fazia quando chegava mensagem (meu irmão tinha e eu conhecia só por isso). Ah, claro, uns casos antes também tinham e inclusive teve aquele que só entrava no msn pra fazer merda. Foi o meio, inclusive, pelo qual ele arquitetou uma traição. Tinha como eu gostar dessas coisas, gente?

Bem, nunca fui fã. Mas eis que um caso desses aí foi evoluindo pra namoro e eu acabei fazendo o maldito msn. Aí o relacionamento ficava mais no msn do que pessoalmente. Isso não tem a minha cara. Ali eu já podia prever a desgraça que seria o final do relacionamento, quando nem por msn, nem por telefone, nem pessoalmente nos víamos mais. Esse acabou assim, por e-mail, depois de três tentativas (minhas) frustradas de terminar pessoalmente (e ele não entender). Então, né, nada mais justo do que fazer por um meio que ele “entendia”.

Para vários desses eu sempre disse: amor tem que ser alimentado todo dia. Todo dia. Simples assim. E não sou daqueles bichinhos virtuais… a coisa é viva. Bem viva. E é nisso que se ganha e se perde. O último ali, depois que eu abandonei o msn, ligava todo dia no mesmo horário. Oi? Algo todo dia do mesmo jeito no mesmo horário? O que é isso, trabalho? Escola? Não é pra mim. Aí ele viu que me irritou e… começou a mandar mensagens. Várias, todos os dias… Ah, santa paciência. Palavras? Eu as encontro nos livros. E, garanto, muito mais originais, lindas, interessantes e até gostosas do que a maioria das pessoas pode me proporcionar.

Adoro uma boa conversa, é verdade. Mas “conversar”, pra velha aqui, demanda uma linguagem toda especial de gestos, lugares, olhares, sons… não de uma tela.

Um grande amigo que nem fala mais comigo era o melhor exemplo disso. Conversávamos afú no msn (o único motivo pelo qual o mantive por um tempo e a ausência dele foi o motivo pelo qual abandonei) e eram ótimas conversas, assim como pessoalmente nas nossas excursões loucas e com muito sentido. Assim é com amigas de longa data que de vez em quando converso pelo chat do Facebook e que nos encontramos com frequência. Rola um papo, é óbvio, sem problema. Mas essa não é, nem de longe, a base forte da relação.

Esses dias, no Twitter, alguém deu RT numa frase que comparava o programa The Voice Brasil (o cara vai lá cantar e os jurados ficam de costas, só ouvem a voz) com você entrar em contato com um cara só vendo o pinto dele. Pois bem, muitos rapazes acham que é isso mesmo! Tu começa a conversar e lá vem o cara com a foto do dito cujo, ou entra em site de relacionamento e os caras não colocam foto da cara, mas do pinto em ação. What the hell?! Que eu saiba a coisa funciona melhor (bem melhor) em 3D e foto nenhuma faz jus, além do que, a velha aqui aprecia o conjunto, não só uma pecinha do quebra-cabeça!

A velha aqui ainda gosta de estar à beira-mar tendo conversas lúdicas sobre assombrações. Ou na mesa da praça de alimentação de um shopping conversando sobre a vida. Ou em frente a prateleiras de livros expondo dúvidas incomensuráveis. Ou, ainda, discutindo aquele filmão e contando fofoca durante uma caminhada. Além das conversas, nem preciso falar de outras coisas.

A velha aqui gosta de viver. Mas tem encontrado cada vez menos pessoas que topem isso.

Essas poucas eu valorizo muito. Aquelas que usam chats para pequenas e medíocres traições ou para encontros casuais… eu não as entendo. Diz uma das minhas amigas que é assim mesmo, que essas preferem se iludir. Guardadas as proporções, prefiro ficar com as minhas ilusões cara-a-cara.

Não uso msn faz muito tempo, o telefone tem recebido ligações não atendidas sistematicamente (porém não intencionais!), mensagens por engano (algumas até engraçadas), e cada vez mais eu sumo de um mundo ao qual provavelmente nunca pertenci, mas que era, numa boa dose, para ser agradável e útil. Enquanto ele for assim, por mim tudo bem. Mais que isso não é a minha praia. Ah, por falar em praia! Só não me convide pra um café. Os bons sabem disso.

Os homens da minha vida – a impossibilidade e je repars à zèro

Eu, do nada, perguntei: vamos jantar no Subway? E a resposta foi positiva. Mal sabia eu o que me preparava o destino. Lá fomos nós, conversa aqui, ali e chegamos na lanchonete. Às vezes eu esqueço o motivo de não sair em Joinville. Esta cidade me guarda surpresas impensáveis, até pra mim.

Abro a porta de vidro e um olhar me traz o passado. Eu com essa mania do sangue inglês de disfarçar o que sinto, vejo o dono daqueles cachos arregalar os olhos daquele jeito que, ó Deus, eu ainda conheço tão bem, virar a cabeça repentinamente pra fugir (com toda razão, como sempre) da memória do corpo (a melhor memória de todas), falar alto “sim, mas claro, azeitona” com aquela voz travada e o sotaque que, ó Deus, eu amei por tanto tempo e ficar revirando as mãos nervosamente, me evitando a todo custo.

E nós ali na fila, duas pessoas entre nós, meus olhos perscrutando enquanto os dele fugiam. Sempre fora assim, enquanto havia sido.

Tudo continuava igual, tudo, tudo. Bem, nem tudo. Ele usava tênis agora, não mais as sedutoras botas e o relógio era digital (estranhei muito isso) não mais de ponteiros. A pele. A pele estava bem mais marcada pelo tempo. Ele gosta do sol, um ponto em comum. Mais um. Ainda tinha uma caminhonete, ainda era casado (com outra, é verdade). E estava na cidade numa quinta-feira.

Eu me divertia, novamente (como sempre fora), ria do jeito assustado e fugidio dele. Falava com quem estava comigo com a cabeça em outro mundo. Igual como no passado. Eu ri à toa.

Sim, ele foi meu caso mais divertido. Ele foi o mais inspirador. Ele foi com quem mais aprendi. Foi ele o culpado por todos os meus planos daquela época – que fazem de mim o que sou hoje.

E ele ali, disfarçando, fugindo. E eu me divertindo. Ao sair, passando pela mesa deles somente aquela troca de olhar com um sorriso e um meneio de cabeça. E eu sorrindo.

Confesso que a volta para casa foi em suspenso. Minha cabeça rodava feliz pelas lembranças, o corpo adormecido de dias trancada em casa numa longa e quase interminável convalescença havia sido despertado por doces e aterradoras lembranças. Há muito tempo que eu não tinha nenhuma notícia dele nem sequer nos meus delírios imaginativos.

Eu me divertia lembrando de tudo. Postei o fato, resumidamente, lá no Facebook. Me divertia em lembrar e relembrar, em captar cada detalhe, como aprendi a fazer. Contei a uma amiga, testemunha dos fatos e companheira da época.

Faltou perguntar se ele continuava no mesmo hotel. Porque os dias haviam mudado.

Só os dias?

Eis que me pego pensando durante o banho: nada havia mudado. Ele que me havia aberto todos os mundos possíveis diante dos meus jovens olhos, estava ali no mesmo lugar, pelas mesmas razões, do mesmo jeito.

Um peso no coração me abateu. Foi por isso que há tanto tempo atrás eu havia tomado uma das primeiras decisões mais difíceis da minha vida. Ele estava ali. Se eu tivesse dito “sim”, eu também estaria ali, na mesma, do mesmo jeito. Eu não era mais a mesma. Não cresci, é fato, mas não envelheci. Sim, eu faria tudo novamente hoje. Tirando o peso dos anos (bem, neste caso acho que empatamos), eu poderia sentir a mesma coisa por ele e não sou do tipo que diz “eu não faria de novo”. Faria, com muito (mais) prazer. E, provavelmente, me divertiria muito, novamente.

E aí, cai água do chuveiro e eu penso que esta história resume o fato do fim de todos os meus (quase ou não) relacionamentos: o caminho. Terminei todos (e, sim, eu sou a má que é sempre quem termina os dito cujos) pelo mesmo motivo, caminhos diversos a serem seguidos. Difícil colocar isso em palavras. Todos eles chegaram naquele momento em que eu segui, eu desejava mudar, ir para a direita, esquerda, pra frente ou até pra trás e eles… bem, eles ficavam (e ficariam, mostrou o futuro ao se tornar presente) no mesmo lugar. Garanto que posso encontrar todos eles a hora que eu quiser porque continuam com a mesma vida, exatamente igual – talvez apenas usando um relógio diferente.

E foi isso, até hoje, que me fez seguir sozinha: o fato de querer (e precisar) seguir. Eu não poderia ficar para discutir qual máquina de lavar roupa comprar, ou qual a cor da cortina da cozinha. Eu não conseguiria. Eu não consegui.

Eu não disse “sim” (nem nunca consegui dizer) a um casamento e aos filhos quando este não era, ainda, o caminho que eu traçava.

Vejam só, eu vou do desânimo à euforia em um olhar.

Terminei todos eles até hoje porque não consegui estar ao lado deles onde eles ficavam, e eles, definitivamente, não me seguiram. E, por que, ó Deus, esse azar no amor de cruzar com esses homens que param, que ficam e não vão?! Seja para qualquer lugar, mas não seguem, param, se acomodam, se satisfazem. Por quê?!

Há um que não é assim. Mas o destino é tão sacana com os encontros e desencontros (muito mais estes do que aqueles) que acredito na doce ilusão de um dia nossos caminhos cruzarem de vez. Acredito somente na ilusão, pois sei que é (quase) impossível. E, às vezes, me dou ao luxo de acreditar no impossível.

E de toda a felicidade legítima que eu tive naqueles cachos, naquele sorriso e naquele sotaque me sobraram as lembranças divertidas. Por que o destino cruzou nossos caminhos tão despretenciosamente hoje? Não sei. E prefiro não pensar nisso (vejo chifre em cabeça de cavalo, diria meu pai). Comentei que eu pensaria, obviamente, sobre o incidente do dia. Mas que eu não deveria me deter demais no “pensar”. E não devo. Quem me conhece sabe que eu sempre faço o que não devo.

Ao lado da delícia de lembrar e, de certa forma, reviver aquilo tudo de um passado até que distante, veio uma tristeza agridoce por vê-lo ali, um ídolo de pés sujos na lama. Ele que podia tanto, ali estava. E nada mais. Como flecha me acerta a certeza da minha decisão repentina na época. E se eu tivesse insistido e dito “sim”, sei que hoje eu não estaria com ele e provavelmente as lembranças seriam amargas num encontro assim fortuito.

Por que esse azar no amor, ó Deus, de não cruzarem meu caminho no momento certo? Sempre o homem certo na hora errada. Sempre caminhos embolados, um no fim e o meu sempre dando voltas. Por quê?!

E aí veio a madrugada, o vinho, a música, os amores que já senti, o chocolate e saiu tudo isso daí, todos esses pensamentos provocados pelo banho, por aquele olhar, por aquelas lembranças.

Só posso dizer que eles nunca entenderam e nem entederão. Se aquele um vai se tornar realidade, só o destino sacana dirá. Se o azar no amor é esse mesmo, mais caminhos desencontrados virão. Cenas para os próximos capítulos.

E toca agora aqui “Non, je ne regrette rien”.

Nunca um sanduíche do Subway me fez tão feliz.

X-polenta

 

E nas voltas que a vida dá, volteei muito nos últimos dias, tanto mentalmente quanto fisicamente. Aumentei um pouco aquela lista das coisas inéditas e pensei, pensei muito.

 

Pensei em uma pessoa que ronda minha vida e que deixou aquele sentimento de “um dia nos veremos novamente”. E os caminhos já se entrecruzaram de tantas formas que é impossível não pensar assim. Mas, talvez seja só mais uma ilusão. Ilusão assim, pelo menos, não machuca, não faz perder o tempo precioso dessa vida, nem faz de mim uma pessoa pior.

 

Pensei que quanto mais traço meu caminho naquilo que estou fazendo agora, mais penso no depois. O negócio é traçar uma meta, buscar muito as melhores condições para isso, abandonar o que for preciso, perder noites de sono planejando e estudando e não dizer que são sonhos, pois são objetivos.

 

Escrevo só para acrescentar à lista que comi x-polenta. Coisa de interior, no interior, feito por aquela italianada de interior.

Escrevo só para dizer que estou por aqui, mas cada vez mais longe. Jamais longe de mim.

 

 

A ignorância e a arrogância de mãos dadas e um comentário sobre o horário eleitoral

 

Minha mãe chega em casa e relata a seguinte história:

 

Na clínica, sala de espera.

 

– Ai, cheguei atrasada porque teve um acidente na rua Aubé, com três carros. Mas não tiraram os carros da pista, deixaram lá, ninguém ia nem vinha. Tive que dar a volta e ir lá por trás. – diz uma mulher

-Ah, mas ano que vem isso tudo vai mudar. Vão colocar elevado pra todo lado, duplicar. Ano que vem! – diz minha mãe citando ironicamente a propaganda política que vimos ontem no horário eleitoral.

– Ah, é mesmo! Ano que vem a cidade vai ter “elevado” o trânsito! Mas elevado não é nada, vai ter até túnel! O túnel foi demais! – diz um homem, citando a tal propaganda do candidato a prefeito.

– Túnel? Elevado? – pergunta a mulher que ficou presa no trânsito.

– É, é, não viu o horário eleitoral ontem? Disseram que vão fazer até túnel em Joinville! – responde o homem.

– Túnel em Joinville? Pra quê? Pra encher de água da enchente?! – pergunta a mulher.

 

Aí entra em cena outro personagem, quieto até o momento.

 

– Eu nem vejo horário eleitoral porque eu tenho TV a cabo. Aliás, esses canais todos aí, Globo, SBT, eu nunca assisto porque tenho TV a cabo.

 

E o silêncio domina.

 

Eu pergunto pra minha mãe: E tu não respondeu que também tem TV a cabo e que coloca no horário eleitoral porque vota e quer ver o que está acontecendo na campanha?!

 

Eu digo, meu povo, arrogância e ignorância andam de mãos dadas.

 

Sim, a ignorância do high society brasileiro é arrotar que não assiste Globo. E ignorância maior é fazer questão de dizer que não ouve no rádio (não sei se vocês sabem, mas tem propaganda no rádio também, tá?) e nem assiste na TV. Fazem questão de dizer. Sim, porque é aí que entra a arrogância.

 

Fiz meu título de elitor com dezesseis anos. Desde então talvez só não tenha votado em uma eleição para prefeito porque não estava na cidade. E assisto e ouço no rádio frequentemente os horários eleitorais (que, não sei se vocês sabem, mas não tem nada de gratuito).

 

Além de assistir comento em casa e onde eu bem entender sobre os candidatos e sobre os programas. Te incomoda? Problema teu.

Se paga de inteligente e blábláblá e ignora Política? Ou, ainda pior, se paga de revolucionariozinho-esquerdista-pseudo-mil-coisas mas não tem um argumento atualizado sobre Política? Taí, ignorância e arrogância em lua-de-mel.

 

Próximo post vai pensar um pouco mais sobre isso, sobre a falsa associação que se faz entre renda, nível social, educação, cor e outras cositas mais.

 

 

Atualizando a lista 2012

 

– Andei de avião – não enjoei, não tive medo, nem frescura. Viciei em tomar pepsi pela manhã. E a hora que o avião acelera tudo pra sair do chão é MUITO boa. Ah, peguei umas turbulências pesadas e achei divertido.

– Andei de trem no Rio. É, daqueles que já citei aqui. Sinistro. Central do Brasil rules.

– Andei de metrô \o/ – no Rio e em São Paulo. Em um dia eu já dava indicação para os outros. Virei fã do metrô em São Paulo, o do Rio é piada.

– Fiz uma tatuagem. ❤ Pois é, pasmem. E quero mais uma duas, pelo menos. Só preciso ter umc aso com um tatuador, porque os preços são mais altos do que eu imaginava.

– Fui ao nordeste brasileiro.

– Cheguei ao Delta do Parnaíba, e ao chegar no Porto das Barcas pensei “eu quero, eu posso, eu consigo” e ninguém no mundo vai entender o que isso significa pra mim.

– Comi tapioca e me apaixonei.

– Tomei sorvete de bacuri e love forever.

– Fui a lugares que eu não fazia idéia que existiam – e esses são ainda melhores.

– Fiz tomografia (essa não é inédita) com aplicação (na veia!) de contraste. No ineditismo não há só coisas boas.

– Perdi alguns dos amigos mais importantes da minha vida. E não foi para a irremediável morte.

– Tomei banho de mar em agosto. =)

– Fumei cachimbo e maconha. Já contei isso aqui? Ó, sem apologias: maconha não é bom, não dá nada e só vale pra quem quer parecer, confortavelmente, transgressor – e que de transgressor não tem nada.

 

Deve ter mais coisas, mas vou atualizando. A lista de coisas ruins também tem crescido no ineditismo. Coisas da vida. Agora provavelmente a lista dará uma parada brutal. Coisas da vida. Mas pra quem teve tanta novidade nos seis primeiros meses do ano, nada estranho uma calmaria por agora.

 

O que tem me tomado o pensamento é o fato de eu ter feito coisas que fazia muito tempo eu não fazia. E, por outro lado, ter pensado em fazer certas coisas que eu já prometi pra mim mesma que nunca mais faria. Felizmente, gente, por enquanto só no pensamento!

 

 

Rio de Janeiro: breves considerações antes da despedida

Últimas horas no Rio de Janeiro. Breves considerações:

– a cidade é MUITO suja, infelizmente.

– a partir de umas 17h brotam da terra vendedores ambulantes de comida e impedem os pedestres de andarem nas calçadas, realmente muito ruim.

– as mulheres se vestem pessimamente mal, aliás, umas, se andassem peladas feririam menos os olhos alheios.

– é realmente muito no sense aqueles meiões por cima de legging.

– há um índice elevado de beleza masculina; porém, desconfie dos homens “atenciosos” por aqui, alguns são só isso mesmo, outros…

– o povo não sabe dar informação; e não é má vontade, é porque desconhecem mesmo.

– o metrô é uma piada.

– tem sempre muita gente e muito barulho pra todos os lados.

– tem MUITO ônibus nas ruas.

– Avenida Nossa Senhora de Copacabana: dúzias de Banco do Brasil, Lojas Americanas, lojas de coisas do Paraguay, Mc Donald´s.

– o trânsito me lembrou o de Ciudad del Este.

– a parte histórica é linda, mas a belle époque passou e ela se ressente de não ser mais a capital do país; enfim, parece decadente.

– ela é hostil com os pedestres.

– o Cristo fica mais bonito na TV.

– andar de trem da SuperVia me deu a sensação de estar em Auschwitz.

– as favelas, muitas delas, ficam realmente “escondidas” pelos prédios.

– acho muito estranha esta postura de voltar as costas uns para os outros; isso é latente.

– as pessoas andam olhando de soslaio para os lados.

– o carioca diz “hoje tá bem melhor!” e eu me perguntei o que seria o “muito pior”. :/

– carioca tem uma semelhança com o gaúcho: tudo deles é o melhor.

– os preços são elevados e a exploração aumentou com a vinda de Olimpíada e Copa; é um velho erro brasileiro, e você não vê nada à venda porque os preços estão nas alturas.

– por falar em Copa e Olimpíadas: a cidade não tem condições de recebê-las.

– as tais estátuas à beira-mar em Copacabana são bregas.

– assustadoras as ruelas e ruas que são fechadas a grade.

– a cidade fede. Simples assim. Há um cheiro forte de urina pela cidade toda (até de dentro dos ônibus e estabelecimentos dá pra sentir) e fezes humanas pelas calçadas. Nojento.

– a abordagem “não pode fotografar aqui, moça”. Como é? Não pode nem fotografar monumento em uma praça?!

– livrarias e sebos caríssimos (sim, eles têm preciosidades, mas incompráveis).

– o morro da Urca é mais baixo do que parece.

– o acesso a alguns pontos é bastante difícil, e mais difícil ainda é conseguir informações.

– a sensação de desorganização é grande: vide os trens na Central do Brasil.

– frases como “mas rico não gosta de pobre” e semelhantes, com um sotaque bem carioca, são facilmente ouvidas pelas ruas.

– as estações de trem e as passarelas das mesmas estão em condições péssimas; não parece nem ser possível reformar.

– a imagem de trem superlotado, sem portas, com pessoas penduradas, realmente existe.

– nunca conte com os trens da Central do Brasil; entrar e sair em uns três antes de seguir viagem é normal.

– muitos ambientes públicos (como estações de tem e metrô) têm música ambiente; fora um Leonardo aqui ou Paula Fernandes acolá, é algo bastante agradável e interessante.

– última moda: bolsa redonda Tommy Hilfinger falsificada (algumas já desbotadas).

– a proibição de manifestação religiosa nos trens é excelente; poderiam proibir venda de chocolates e jornais também.

– achei engraçado numa verdureira em plena 1º de março: “pinhão do sul”.

– nunca ouvi tantas DRs nas ruas em tão pouco tempo (“ah, amor, tu olhou fixo, virou o pescoço e quer dizer que não foi nada?” e segue).

– assustadores os avisos nos elevadores: 1. contra a prostituição infantil (que é crime e deve ser denunciado) e 2. uma lei de 2003 contra o racismo e discriminação de negar acesso para negros e deficientes.

 

Enfim, não parece uma cidade dividida em duas (zona Sul e Norte) até porque toda cidade tem sua zona “sul” e sua zona “norte. Parece uma cidade que não quer olhar para si. Isto, além de triste, justifica a guerra que existe.

Fui ao FAÇA e só me restou um delicioso “Ballet das Coisas”, de Bruna Granucci

Já faz um tempo eu, por motivos diversos, estive no FAÇA – Festival Audiovisual Catarinense (qualquer semelhança com o “Catavídeo” não é só mera impressão), na sua edição em Fpolis.

A primeira impressão que eu tive do evento foi “mais um festival”. Mas o que parecia ser o “lado bom” é que seria em três cidades catarinenses: Lages, Blumenau e Florianópolis – o que, de certa forma, poderia ser positivo porque finalmente descentralizariam este tipo de evento. Só não entendi, num primeiro momento, o fato da escolha das cidades e por que Joinville não estaria na lista – afinal, por lá não há curso de Cinema, como nas outras, mas ainda é uma grande cidade e teve, nos últimos anos, produções de destaque.

Enfim, em se tratando de audiovisual catarinense, a primeira impressão provavelmente será uma furada. Nada é tão inocente e puro como poderá parecer.

Eis que fui num dia assistir a todos do primeiro horário e depois alguns do segundo horário. Foi a primeira vez que eu pisei no “novo” CIC que, aliás, de novo não tem quase nada. Aviso aos navegantes: a entrada pela rua da Penitenciária não está aberta e é preciso dar uma volta linda para entrar pela frente. Lá dentro não há nenhum bar ou restaurante (vulgo lugar que venda qualquer coisa de comida ou bebida) e no dia nem água tinha. No “velho” CIC havia bebedouro e um cafézinho fuleiro para pseudo-intelectuais, mas que se você fosse emendar uma sessão na outra dava pra rolar um refrigerante e um salgado qualquer para enganar. Porém, não há nada disso atualmente. Já começou mal a noite, pois eu havia saído da aula direto para lá e a fome atacou, obviamente. O lugar mais próximo, segundo o atendente, é o Angeloni. Sem comentários.

Os banheiros realmente foram reformados. Estão maiores. O que me deixou curiosa foram as tampas dos sanitários, velhas, quebradas, sujas pelo tempo. Fiquei me perguntando se com uma obra tão grande e onerosa faltou dinheiro para comprá-las. Enfim…

Comprovado que as paredes do cinema são claras (oh, God!), sentei-me para assistir aos curtas.

Pensei se deveria colocar em ordem, um por um, ou se escreveria só sobre os que gostei ou que, por outros motivos, haviam me despertado a atenção. Enfim, falar de todos talvez seja desnecessário.

O único que me fez, ainda depois de tanto tempo, escrever este post foi o lindíssimo “Ballet das Coisas”, de Bruna Granucci. Dos outros, um comentário aqui, outro acolá, de todos, definitivamente, não tenho o que dizer.

“Ballet das Coisas” tem tudo o que um curta-metragem precisa, e é de encher os olhos. Uma decupagem em nada excessiva, uma trama simples e poética e atuações perfeitas para o mundo audiovisual.

A história é uma fantasia, e nem por isso afasta os críticos mais realistas. Afinal, meus queridos, o cinema é fantástico desde sua origem. Não vou me deter a pormenores da “história”, mas posso resumir que é o amor de uma boneca (ao belo estilo espanhola) pelo garçom do restaurante em frente ao antiquário onde ela mora.

Alguns detalhes fazem deste curta uma jóia rara, principalmente entre os seus concorrentes da noite. E por “detalhe” já começo minha crítica. Num curta metragem, plano detalhe só pode ser usado quando extremamente essencial para o drama. Excesso de planos detalhe sufocam a narrativa e as imagens perdem-se na paciência do espectador. Aliás, pretendo aqui deixar este e outro ponto bem claros – pois nesta noite os curtas que eu assisti me fizeram lembrar dessas questões. Plano detalhe tem um poder dramático, nunca deve ser usado num curta para “matar tempo”, como é, por sinal, usado por filmes longa-metragem (é muito fácil perceber num longa o excesso de planos detalhe para cumprir com um determinado tempo, alguns, inclusive, poderiam ser apenas média metragem). Ele precisa significar (e aí, queridos diretores, vão lá procurar os teóricos, aqui é só o meu blog, não dou aulas). Outra coisa que não é em especial para curtas é uma pontuação sobre a direção de Arte. Muitos filmes pecam pela direção de Arte que acha que é só escolher objetos, figurinos e cores e estar de plantão ali para colocar os objetos certos nos lugares certos em determinada cena. Não é assim. E, novamente, quem precisa saber que é mais que isso deve voltar às salas de aula.

Os objetos de cena, os figurinos, tudo o que compõe a imagem precisa ser estudado a partir de uma escolha de Arte, por isso “direção de Arte”. Quais as influências? Quais cores serão usadas? Quais linhas? Qual a concepção de “tempo” sobre o cenário, os personagens, os figurinos? Infelizmente muito ainda se erra nos filmes (principalmente brasileiros, em destaque os que gostam de uma imagem “retrô-saudosista”). Toda a concepção de Arte precisa ser pensada e arquitetada (aqui já deixo o gancho para um próximo post sobre storyboard, plantas baixa, etc.), planejada, levando-se em conta o roteiro, a construção dos personagens, a intenção dramática. Não é no dia da gravação que se escolhe qual carro será de tal personagem. Para quem não trabalha com cinema, nunca estudou, este tipo de coisa parece não fazer sentido, mas quem é da área deve(ria) entender do que eu estou falando.

Vou usar como exemplo oposto o curta “Qual queijo você quer?”, de Cíntia Bittar, exibido naquela mesma noite. Sobre os dois pontos acima, este curta vai na contra-mão. Ele tem excessivos planos detalhes (às vezes, uma obsessão do diretor/diretora) que, se pretendem servir para alguma coisa, é só para tentar ambientar ou “decorar” o cenário. Vejam bem, o cenário estará presente nas imagens dramáticas para compô-las, não é, necessariamente, um personagem. Transformar cada planos, cada elemento do cenário, em personagem é esvaziar a dramaticidade do enredo. Num curta, não há “tempo” para isso. No caso deste curta, o casal de idosos está em uma sala de TV cercado por um excesso (no sentido de exagero da Produção) de objetos que, juntos, deveriam compor uma longa trajetória a dois. A câmera desfila por vários e vários desses objetos para que eles se tornem personagens do drama ali representado. Contudo, é justo aí que se escancaram alguns problemas de uma direção de Arte, no mínimo, fraca. Vejam o detalhe da Bíblia. Obviamente, este e outros objetos passam pela cabeça de qualquer um que tem/teve avó. Contudo, a Bíblia ali presente é nova. Nova! Sem nenhuma marca de uso! E, detalhe ainda mais importante, ela é de um tipo gráfico bastante recente – eu ganhei uma igual a ela na minha primeira comunhão, cerca de catorze anos atrás, e, notem, a minha tem muito mais marca de uso (e nem sou assim fervorosa) do que a cenográfica. As Bíblias das minhas avós e a dos meus pais são em muito diferentes daquela ali. Pode parecer um detalhe bobo, mas aquilo ali gerou um desconforto em mim. O que, do drama do casal, já tinha me passado a forte impressão de um casal de idosos sendo retratado sob a ótica de uma pessoa jovem diante de um conflito contemporâneo, ali se confirmou. Pareceu um túnel do tempo para o futuro, “como eu me veria daqui a cinquenta anos”. Ao pecar pelo excesso de objetos de cena, o drama perdeu-se em objetividade e conexão temporal. Muitos objetos além da Bíblia cabem na mesma crítica. E da parte do drama, em nada me convenceu como uma história de velhinhos de hoje, mas sim de uma projeção futurística. Aliás, o enredo é bastante pobre pois cultiva o espectador levando-o pela mão e já antevendo quais as próximas falas e ações (muito poucas, por sinal). Clautrofobicamente ambientado em um único cenário (só nos créditos aparece a cozinha), ele perde em dramaticidade (e ganha em economia de gastos e tempo) e se ampara no uso excessivo de planos detalhe para tentar passar algo que seria muito mais “visível” se o apartamento do casal fosse acompanhando o diálogo. Os próprios atores parecem atados (ela teatral em excesso para a tela do cinema, ele intimidado pela atuação esbravejante dela) e precisam apelar também para os objetos além das falas simples e óbvias. O título, por si só, já praticamente conta a história toda. A atriz, que não me recordo o nome, fez recentemente uma ponta numa novela da Globo, numa cena (não acompanho a novela então não sei dizer mais nada sobre o papel dela) em que fazia a mãe de um noivo (havia a Carolina Ferraz em cena). Ali ela consegue ser atriz para a tela pequena, para o audiovisual, sem os excessos dramáticos do palco.

Vale ressaltar um incômodo sobre o curta “Qual queijo você quer?” que eu senti e já ouvi de várias pessoas: o acúmulo de “títulos” e “prêmios” que aparecem elencados antes do curta mesmo começar. São várias as participações e premiações, porém parece que a cada uma dessas são incluídas as nomeações numa nova edição. O que incomoda o público é, citando literalmente alguns comentários que li e ouvi, “se todos esses jurados e públicos elegeram este curta como o melhor, você também deverá gostar”. O “deverá” ali cabe como uma ordem. A sensação para quem vai assistir pela primeira vez é de desconforto, pois ninguém deve me dizer que pela trajetória que ele tem, eu sou obrigada a gostar. Como aqueles filmes que a gente pega na locadora e na capa do DVD vem “palma de outro disso”, “oscar daquilo”. E é por isso que é um excelente filme? É por isso que sou obrigada a gostar dele?

A planificação atenciosa e as escolhas de Arte zelosas fazem de “Ballet das Coisas” um curta fluido, cativante. A câmera não precisa ficar passeando pelo cenário para dar detalhes – nem dramáticos, nem de ambientação – e explicar nada. O “uso” dos objetos falam por si só, a quantidade também. A própria escolha da locação já consegue dirigir adequadamente o drama. Senti-me num pequeno vilarejo do mediterrâneo sem nem ter visto imagens externas ou tido qualquer indicação. O espectador entra na fantasia e consegue acompanhá-la sem esforço e sem ser guiado passo-a-passo. Um elogio à parte para o busto de gesso, personagem excelente e digno, suicida contundente. O movimento das coisas (seu “ballet”) não é óbvio, ao mesmo tempo que o amor da boneca pelo garçom o é. Nem a breve repetição de algumas frases alcançam a monotonia. O “tempo” dos objetos e do velhinho é próprio. Notável também a participação mais do que especial do pequeno gatinho laranja. A presença dele soa tão natural quanto espntânea e cheguei a duvidar de que estivesse no roteiro.

De certa forma, “Ballet das Coisas” prescindia de uma direção de Arte cuidadosa e especial. Contudo, nenhuma obra audiovisual pode abrir mão disso. Seja de qual gênero for. Tomemos como exemplo outro curta da noite (e um dos premiados), o “Vide Verso”, de Cristian de Ciancio. Mesmo se atendo a um cenário simples (exigência dramática) e com um enredo que prevê este espaço, a direção de Arte não cometeu nem excessos nem faltas. Os elementos esseciais para um drama tenso estão ali, o espectador facilmente identifica tudo o que precisa para construir o personagem. Não há nada além do drama e do personagem. O rádio (como produção sonora) é peça fundamental para ambientar (muito mais do que qualquer objeto de cena) a história. Reparem que no casal de idosos no apartamento nós nem temos a referência da TV, muito menos do áudio. Em “Vide Verso”, você não cai na desatenção porque os elementos de composição te prendem enquanto dramaticamente “nada acontece”, além, é claro, do suspense sobre o envelope. O crescente é uma opção de direção que nem sempre funciona, mas que ali é (auxiliado com maestria pela elaboração artística de um elemento essencial: o quebra-cabeças) angustiante e no tempo certo.

Caberiam alguns breves comentários sobre o “Babás”, de Consuelo Lins; “Sentidos”, de Samuel Moreira e Richard Maus e “Das Ocupações Instantâneas”, de La Osnofa.

O primeiro segue os melhores padrões do documentário brasileiro e acredito que é um deleite para os historiadores. O segundo é uma tentativa de dar vistas a quem não vê, mas sinceramente me senti muito desconfortável com um discurso construído previamente e recheado de referências visuais – o que me pareceu muito estranho. O terceiro é um ensaio visual e sonoro despreocupado, mas que captou alguns instantes belos (sonoramente e visualmente) abrindo mão de qualquer narrativa e nos mostrando a presença de uma câmera insuspeita. Não sei quem fez o “documentário” (se é para classificar nos tão discutíveis “gêneros”, eu colocaria como experimental), mas construí mentalmente uma viagem de mochileiros pela América do Sul, captada pelas sensações. Enfim, dos outros não vale a pena falar. Um sobre a perda do pai é chato e sem graça, outro sobre uma Alice assassina é entediante e uma animação boba e interminável que se pretende poética (e, pasmem, ganhou prêmio).

Aliás, aí é que mora o perigo desse tipo de “evento” em Santa Catarina.

Os prêmios foram vergonhosos. Como pode o próprio organizador ganhar prêmio? Como pode, aliás, ser produtor e etc. de obras concorrentes? Achei tudo muito estranho. Só não adentrei demais nisso para não ficar com mais nojo ainda. Uma dica: não misturar, na exibição, documentários, ficção, animação. Isso prejudica muito a obra. E digo com toda a sinceridade que assisti “documentários” muito melhores do que o tal “Fotossensível”, de kike Kriguer. Diante dos dois que eu assisti, este passaria longe de uma premiação – até porque eu também não o enquadraria em “documentário”, afinal é só um vídeo de família.

A velha “nata” (tem gente que adora nata, né? eu tenho ânsia de vômito só de ver!) de um grupinho do audiovisual quase não deve ter saído do palco no dia da premiação.

Não posso falar do eleito pelo júri nem do “melhor ficção” porque não assisti nenhum dos dois. Só sei que são famosos e o primeiro bastante popular. O “melhor ficção” não é produção recente (como o “Manhã”, do Zeca Pires, que é de 1989) e eu não achei muito correto isso, pois produções de épocas diferentes devem ser separadas também. Há muita coisa a ser levada em conta, tanto técnica quanto artística.

Um tal “prêmio estímulo” foi muito bem entregue para o “Vide Verso”. O “prêmio especial do júri” ficou muito esquisito. Pareceu “prêmio consolação para aqueles que nós queríamos que ganhassem, mas o júri popular não quis e tivemos que dar um jeito nisso”, vide a explicação do próprio evento no site “Pela diversidade e qualidade das propostas estéticas e narrativas das obras em competição o Júri Oficial do 1º Faça concede, além dos prêmios de melhor obra por categoria, Prêmio Especial do Júri.”. Engraçado o “pela diversidade e qualidade das propostas estéticas e narrativas”, pois um evento que se pretenda sério leva isso tudo em consideração para definir suas escolhas e as exibições. O que se perdeu no caminho? Se vocês olharem nos “jurados” e na “curadoria” verão uma propagandeação de tantos quesitos e seriedade que não traduz nada disso. Me nego a comentar as “menções honrosas”.

Tire um pouco do seu tempo e vasculhe o site. Veja o nome dos criadores, das produtoras envolvidas, coloque no Google-nosso-de-cada-dia e verá um mundo de conexões. Assim é o pobre audiovisual catarinense.

Por isso, raramente frequento este tipo de evento. E toda vez que eu perco meu tempo indo me decepciono ainda mais – normalmente com a organização, grupinhos, interesses. Mas desta vez “Ballet das Coisas” me fez perceber que há chance de se fazer boas coisas sem financiamentos astronômicos para projetos dialogados em uma única pequena locação, que ainda há quem saiba o que é uma boa Direção e uma boa Direção de Arte, que o curta-metragem tem peculiaridades que devem ser levadas em conta e que a Arte Audiovisual em Santa Catarina produz poucos e bons filhos – mesmo que nem todos rodem o país e o mundo.

(nem sempre o link funciona)

Por que me temem? Uma velha reflexão

Eu escrevi aqui, lá pelo começo do ano, que este ano seria marcado por coisas inéditas. Ou seja, eu faria e aconteceriam coisas comigo que nunca havia feito/acontecido.

E é verdade. Aliás, a verdade me persegue e esta não é inédita.

Não sei se eu já contei aqui que uma água-viva me queimou. Pois é. Há vinte e tantos anos assídua frequentadora do mar e nunca uma água-viva tinha me dado um “oi”. E eis que uma abelha me picou.

Então, também em vinte e poucos anos nunca havia sido picada por uma abelha. Fiquei com o braço super inchado, doendo e ardendo. Não sabia o que fazer/passar. Coloquei gelo, o que aliviava por algum tempo. Dei aulas (muitas aulas) com o braço coçando loucamente e sem poder fazer nada. Passei mais de uma semana assim, pois me recusei a ir ao médico (a chance de levar uma injeção era muito grande e além de não gostar eu estava sozinha). Aí, numa tarde de desespero de tanta dor, inchaço e coceira, resolvi passar vinagre (é, esta coisa que não serve pra nada na cozinha). E resolveu! Vinagre realmente alivia a coceira e a dor. A mancha vermelha enorme que tinha tomado meu braço (e no meio uma bola vermelha dura e dolorida) foi diminuindo. Descobri, então, que vinagre serve para três coisas: para picada de abelha, queimadura de água-viva e tirar mofo dos armários. Vivendo e aprendendo. Hoje ainda tenho uma mancha um pouco mais escura que a pele onde ficou inchado – mas de marcas no corpo é que eu vivo.

Sobre viver e aprender é que eu venho escrever hoje.

Além das coisas inéditas que acontecerão neste ano, há as repetições. Aquelas coisas que já conheço há muito tempo.

E elas volta e meia, voltam.

Eu falei sobre a verdade ali em cima, e lhes digo que da verdade ninguém gosta. A falsidade, por outro lado, é abraçada por muitos.

O tempo tem sido escasso, fato. Só comparar a quantidade de posts ano passado e esse ano. Mas este ano apresentou-se como uma reedição de velhos temores dos outros em relação a mim.

Há certas pessoas, colegas de trabalho, namoradas de conhecidos/amigos, “superiores”, parentes e afins que se sentem ameaçadas por mim. Vejam só, eu sou uma ameaça.

E de tanta confusão, dor de cabeça e encheção de saco que eu já tive este ano por esse motivo eu resolvi escrever este texto. Hoje amanheci (depois de um dia turbulento) pensando qual o motivo, afinal, para essas pessoas se sentirem assim? Porque eu não me acho uma ameaça à namorada de ninguém, nem a nenhum colega, muito menos aos meus “superiores”. Não sou do tipo que tenta subir às custas dos outros, não invento picuínhas, não dou em cima de homem comprometido (não mais, ok?), não sou falsa, não faço nada escondido, não sou puxa-saco. Formulei mentalmente esta lista e pensei cá comigo: peraí, a lista só se refere ao que eu não sou. Mas então o que eu sou que ameaça tanto as pessoas? A primeira resposta (com aquele carregado sotaque paranaense) foi “ah, pára, né”. Ou seja, eu não sou nada que ameace as pessoas.

Ou sou?

E aí fiquei analisando os fatos das últimas semanas (e alguns dos últimos meses). Em menos de uma semana fiquei com o estômago literalmente revirado ao ter dois desagradáveis imbróglios nos dois trabalhos que tenho (ou tinha). Os dois casos aconteceram por intermédio de pessoas falsas e incompetentes que não querem minha presença por perto. Vejam só, em nenhum momento eu briguei com ninguém, nem falei por trás nem coisas do tipo que pudessem levar a isso. Eu ali, fazendo meu trabalho zelosamente, calma (aliás, sempre comentam isso nos meus trabalhos), prestativa, sempre pronta a ouvir e ajudar. Sei ser profissional. Além, é claro de tremendamente brincalhona e de bom humor (não tolero ir trabalhar de mau humor). E? E? E? Levei na cabeça.

O motivo?

Pessoas foram falar isso ou aquilo. Pessoas disseram que eu disse ou fiz isso ou aquilo. Pessoas, pessoas… eu sempre disse que o mundo seria perfeito, se não existissem pessoas nele. Simples assim.

E essas pessoas falam para outras pessoas. Hum… interessante. Porque pra mim ninguém veio falar nada.

Aí surge a primeira pista. Falsidade. Num dos meus trabalhos aprendi uma coisa este ano (mais uma para as inéditas): falsidade se paga com falsidade. Acabei levemente entrando nisso para tornar minha presença suportável diante de certas criaturas. Mas falei para uma pessoa muito querida, que me disse que eu demorei pra aprender isso (ele um menino de uns quinze anos, vejam só!), que eu aprendi mas não vou praticar. Não cabe em mim a falsidade. Nem o disse-me-disse. Eu digo na cara o que tenho que dizer. Não esperem menos de mim. Aqui eu falei só do trabalho, mas isso é assim também nos estudos. Não fui a primeira colocada na seleção, não sou puxa-saco-bolsista-faz-tudo, falto aula e às vezes não leio um texto ou outro. Mas mesmo assim as poucas conversas que se dignam a ter comigo são permeadas de frases desconfiadas e de testes (será que ela é inteligente mesmo ou só aparenta ser?!). Não preciso provar nada pra ninguém, meus queridos. Aliás, provas, o que são provas? Eu com meus alunos nem faço provas (sou uma professora adorável) e tenho que fazer prova no mestrado (infelizmente o professor precisa disso para confirmar certas coisas, que tem aluno que está lá para nada).

Então eles me temem?

Eles me temem porque sou contra as mentiras, a falsidade, a incompetência deles, o mau humor perene de alguns falsos profissionais. Porque eu falo na cara o que tenho para falar (isso faz os incompetentes e mentirosos tremerem nas bases). Aliás, nunca minta pra mim. Porque antes de você terminar a frase eu já terei descoberto o tamanho da mentira. E posso até te dar detalhes. Esse é um dom que eu tenho. A falsidade pode até ser ensinada, há alunos que já agem conforme esta praga só por vê-la sendo praticada dentro de uma escola e por ver as “vantagens” que ela pode trazer. O caráter! Ah! O caráter! Também tenho. E para os que não o tem o temor é ainda mais pungente. Porque, meus queridos, caráter, ou se tem, ou não se tem. Nem o passar do tempo muda isso. Ah, e tem aquilo que eu sou moderna (demais), liberal (demais). Isso já diziam meus amigos e professores do ensino médio. Então as caretas e os caretas me temem por isso, porque eu assumo o que faço e penso diferente dessa gente quadradinha. Vai ver minhas atitudes profissionais, apaixonadas e afins joguem na cara destes despeitados e despeitadas o relacionamento falido que eles tentam fazer sobreviver, a pobreza intelectual do que eles tentam produzir. Vai ver é isso. E aí eu começo a entender tudo!

Quando é espelho, serve. Quando é realidade, desgosta.

Não gostam, então, de ser confrontados com alguém diferente deles, com capacidades, bom humor, paixão. Porque, vamos e venhamos, é preciso paixão nesta vida em tudo! E não como a paixão biológica que dura seus dois anos. Temem que eu roube os corações dos outros? Ah, mal me conhecem! Tenho um coração que me dá tantas alegrias e trabalho que nem me passa pela cabeça ter outro! Temem que eu me destaque numa equipe? Que eu seja a favorita de alguns alunos (por favor, unanimidade nunca!)? Temem o que mais mesmo? Que a minha felicidade e jogo de cintura com a vida escancare a infelicidade e a fraqueza deles? Aí eu realmente entendo todas as sacanagens que fazem comigo, todo o leva-e-traz, todas as fofocas, a falsidade, a grosseria. São pobres infelizes, incapazes, incompetentes e mal-amados. Como eu disse, não é novidade nenhuma este tipo de situação na minha vida, por isso já tenho uma noção do que acontece. E por isso já aprendi a dar a volta por cima rapidinho. Aliás, nesses casos nem volta por cima mais dou porque não caio. É, as cicatrizes já foram profundas o suficiente pra eu nem me cortar ou me deixar cair por essas bobagens.

Mas digo uma coisa a quem leva a sério essa gentinha: me perder é o pior que você pode fazer. E não é porque eu posso ser vingativa ou coisa assim porque realmente não sou. Mas porque eu realmente me empenho em ajudar e colaborar, em fazer um trabalho bem feito e porque sou uma amiga sem igual (esses dias ainda recebi uma mensagem, por ter feito algo por uma amiga, que dizia “a amiga mais amiga de todas!” – e realmente sou). Faço de tudo pelos meus amigos. E não vou escrever “amigos de verdade”, pois não existe outro tipo de amigo que não seja de verdade; ou é amigo, ou não é.

Falar abetamente das coisas, como faço aqui no blog inclusive, gera revolta e desperta este sentimento de ameaça nas pessoas. Não colaborar com os planinhos bobos delas, não se mostrar conivente e cúmplice com a falta de ética que serpenteia em alguns lugares, não ficar quieta: tudo isso faz com que o mundinho hipócrita, falso e sem caráter delas pare de girar. E as pessoas precisam que o mundo gire. Quando ele pára elas percebem que estão num relacionamento falido, estão maceradas pelo tempo no mesmo ambiente e emprego, são incompetentes e vivem mentiras. E isso, meus queridos, é choque demais para elas aguentarem – pois normalmente já são pessoas fracas, por isso agem assim.

Temam… continuem temendo. Porque definitivamente eu não pretendo entrar no mundo de vocês. Já experimentei muita coisa nessa vida, e isso que vocês reproduzem só faz mal às pessoas, inclusive a vocês. Eu sei porque já senti na pele. Não me cabe, nesta vida, fazer mal a quem quer que seja.

E como disse um excelente professor do Jornalismo da UFSC (de quem eu tive o prazer de ser aluna) no Twitter esses dias (bem durante a minha turbulência), “as ideologias é que são vãs, não a filosofia”.

Essas ideologias do mal reproduzidas afú por vocês é que são vãs. Não eu.

E nem me darei ao trabalho de lembrar Maquiavel. Sobre os que me amam há problemas ainda maiores.

Temam. Porque, infelizmente, é só o que resta para vocês.

Sobre os pinhões

 

Deixo o carrinho de compras perto dos congelados e caminho até o pinhão. Há um pote para recolher e colocar no saco plástico, mas reparo que eles estão bem novos e, por isso, com muitas “cascas” que saem junto da pinha. Começo a catar com a mão, um por um, e reparo que há uma mulher fazendo o mesmo.

 

Naqueles dias eu experimentava e mostrava para as visitas como o povo manézinho é receptivo. Ao sairmos da missa uma senhora bem velhinha que mora na minha rua havia puxado conversa (ela não se conforma que ninguém mais da nossa rua, em frente à Igreja, vá à missa). Ao sairmos do Curiódromo, num domingo, um homem puxa conversa e diz que no sábado é que é bom ir porque ontem havia mais de trezentos pássaros lá. O manézinho é conversador, é solícito, é amigo.

 

A moça catando pinhão, como não podia deixar de ser, puxa conversa. “bom um pinhão com esse frio, né?” Era mais uma constatação do que uma pergunta. É Outono, mas uma onda de frio abateu nossas gargantas. Logo pra mim ela diz isso? Estou comendo freneticamente pinhão desde final de março. Sim, sou doente por pinhão, sou serrana, faço pinhão assado na chapa e tenho ataques de prazer.

 

E ela continua “mas tem que escolher, tá cheio de cascas”. Ao que eu comento que é o que vem junto na pinha, porque ele está novinho. Logo chega o marido e dois filhos, um casal.

 

Um sorriso de canto de boca me pega desprevinida. Vejo ali uma cena linda: mãe, pai e filhos num domingo de manhã catando pinhão, juntos, conversando “quer pegar um pouco de carne moída pra fazer panqueca, amor?” diz ela, “filha, pegou o refrigerante que você queria?” dia o pai, o menino come uma pipoca bilu, a menina bebe alguma coisa, “ó, mãe, esse tá bonito!” diz o filho ao pegar um pinhão lustroso, enorme, novinho.

 

Eu ali catando meus pinhões e acompanhando a cena começo a refletir sobre minhas péssimas considerações acerca do casamento, da tal constituição de família e tal. Penso: não devem ser todas tão ruins. Talvez a tolerância, talvez o amor profundo, talvez algumas coisas consigam fazer um casamento, um relacionamento, durar muitos e muitos anos em harmonia. Talvez o problema seja eu. Talvez eu não seja capaz de nada disso, porque, veja só, afinal essas coisas devem existir para algumas pessoas. Por que diacho eu sempre só vejo o lado ruim das coisas? Quer coisa mais linda que esta cena? Uma família unida num domingo escolhendo pinhão e fazendo compras? E eu aqui na minha vidinha…

 

Foram alguns minutos (comprei alguns quilos de pinhão). Eis que minhas reflexões são quebradas pela frase do pai “dá pipoca pra ela”. Assim, sem mais nem menos. Parece que a menina, do outro lado, ao lado do pai, havia falado alguma coisa. O menino começa “ela não me deu água”. “ela não me deu água” “ela não me deu água” “ela não me deu água” e o pai retruca “taqui a água, toma, agora dá pipoca pra ela”. O menino pára a ladainha da água para responder “agora? agora não quero”. A irmã não deu água, queria pipoca, ele não dá pipoca porque ela não deu água; na contrapartida a irmã, agora por interesse, dá a água; ele nega porque percebe o jogo. Situação óbvia e justa. Foi-se a harmonia.

 

“parem vocês dois” diz a mãe com uma cara cansada, já não há o amor pensando nas panquecas, já não há a alegria da escolha dos pinhões. “vão ficar de castigo os dois”. “eu fiquei de castigo já, mãe, até ontem, lembra?” diz o menino justo e invencível. “vão ficar uma semana sem poder sair” diz a mãe, “sim, só ontem que você foi na casa do Felipe, ficou uma semana… não, mais de uma semana” relembra a mãe agendadora. A menina só fala em voz baixa ao lado do pai, como se ele fosse seu mais fiel tradutor.

 

A cena se desfez… acusações de ambos os lados, erros elevados ao infinito de pais que acham que fazem justiça e apenas colocam-se em lados opostos… a miséria da vida a dois, da familiaridade, do convívio exposto transbordando sobre os tão lindos e novos pinhões.

 

Uma parte de mim sorri triunfante: serviu para refletir, mas quem sabe há situações que só possuem o lado ruim mesmo. Eu pego meu saco cheio de pinhões, antecipo o prazer que será devorá-los e me retiro com um estalo de esquecimento à cena tão grotesca posto que é comum, e tão comum posto que é grotesca.

 

Não preciso que me esfreguem as misérias alheias na cara, nem nos tão deliciosos pinhões.

 

 

Dj do busão

Quando a gente acha que já viu tudo… frase bem comum de se ouvir, né?

Pois é.

Lá pelo final do ano passado, fez sucesso na internet a divulgação de alguma cidade do Estado de São Paulo que havia sancionado uma lei proibindo o que vulgarmente se chama de “Dj do busão”, ou seja, o não-cidadão que coloca seu celular ou algo semelhante para tocar música sem fone de ouvido dentro do ônibus. Uma certa quantidade de pessoas, que visivelmente se sente incomodada com esta atitude, vibrou e divulgou dizendo que na sua cidade isto também deveria ser feito.

Eis que algumas outras cidades seguiram o tal exemplo.

Vale lembrar que nos ônibus de viagem há um aviso de que é proibido qualquer tipo de som no seu interior desde muito tempo.

E Florianópolis, a cidade da moda e dos modismos, aderiu recentemente ao sucesso e também sancionou uma lei semelhante. Segundo ela, não pode mais (se é que algum dia pôde) ser reproduzido qualquer tipo de som no interior dos ônibus municipais, quem deve fiscalizar isso são os motoristas e cobradores, os quais, sabemos, são os responsáveis pelo trajeto, pela segurança e afins dentro do ônibus. Afinal, não há como ter um fiscal dentro de cada veículo. Contudo, a tal lei não prevê nenhuma sanção grave, apenas diz que se algum passageiro não obedecê-la deverá ser colocado para fora do ônibus.

Eu, como boa cidadã que sou e nem um pouco fã que sou de Dj de qualquer tipo, deveria exultar com tal notícia. E não foi o que aconteceu. Bem pelo contrário.

Então sancionaram mais uma lei? Mais uma lei que precisa dizer às pessoas o que elas devem (ou não) fazer? Então lá vai a prefeitura, a câmara ou sei lá o que dizer ao cidadão e ao não-cidadão como se comportar, ou, no mínimo, que é necessário respeitar os limites: os seus e os dos outros? É isso mesmo?

A decepção foi enorme. Ainda mais desanimador é ver as pessoas discutindo esta lei. Se esse ou aquele deve fiscalizar e blá blá blá. No mesmo dia que vi a notícia presenciei o motorista do ônibus escolar colocar bem alto uma estação de rádio qualquer quando íamos para a escola à noite. As músicas fugiam completamente ao meu mais expansivo gosto musical. Este motorista não é, como motorista, dos melhores – tanto em comportamento quanto na direção. Ao contrário, justamente, do outro motorista da noite que não permite de forma alguma que os alunos ouçam suas músicas sem fone de ouvido dentro do ônibus. Ontem mesmo, ao entrar e ouvir um aluno sentado no fundo do ônibus ouvindo um funk no volume mais alto, ele dirigiu-se até ele e solicitou que desligasse. Enquanto isso não foi feito o ônibus não seguiu viagem.

O primeiro comentário irônico que me ocorreu foi que era uma piada dizer que motoristas e cobradores deveriam cobrar isso dos passageiros, pois perdi a conta de quantas vezes ouvi os sucessos vindos do Dj cobrador com seus mp3/4/5/6/7/8 (etc), celulares e dos motoristas também com seus aparelhinhos eletrônicos ou do próprio ônibus. Um fim de semana antes dessa notícia um motorista do Rio Tavares Direto ligou a rádio para ir do TIRIO ao TICEN e o caminho todo foi ao embalo de algo que chamaram de sertanejo universitário. Minha ignorância nessa área é enorme.

São tantas as contradições que cansam. Porém, o que é mais desprezível é ainda vivermos num mundo – e principalmente neste país paternalistazinho – no qual as leis precisam (será mesmo que precisam?) ser criadas para dar aquela palmadinha nas costas do não-cidadão e dizer, num sussurro “faz isso não, camarada”.

Sei que para quem acompanha o blog posso parecer contraditória, pois a alguns post atrás eu defendia uma lei que proibisse o cigarro e a bebida nas praias. Pois é, posso mudar de opinião. Como posso ter visões diferentes de problemas semelhantes.

Fui a favor da lei que proibiu fumar em locais públicos porque particularmente detesto cigarro. Sei que hoje ela é só mais uma lei – vide os terminais de ônibus de Florianópolis, onde as pessoas vão até a ponta (ainda debaixo do teto e em lugar público) para fumar e acham que estão “respeitando” a placa. Inclusive funcionários dos terminais fazem isso. Mesmo com esta lei em vigor já presenciei inúmeros casos de desrespeito. Um deles na rodoviária de Joinville, um cara fumando ao lado da placa, no meio da plataforma. Fui até o fiscal e ele disse que infelizmente isso ainda acontecia com frequência e, como era de se esperar, não fez absolutamente nada.

Ninguém faz nada. Esse é o povo brasileiro.

E aí você entra em sala de aula e tem que conseguir explicar que, por exemplo, não se pode ser “a favor” ou “contra” o homossexualismo.

Eu queria crer num mundo que não precisasse de leis para dizer o óbvio. Leis que determinam o que podemos ou não fazer sem, necessariamente, dizer o motivo nem como aplicá-las. Temos leis demais. E o povo se acostumou a isso, a ver se tem uma placa, uma lei, uma restrição que diga: “pode”, “não pode”. A tutela que não permite o povo sair da minoridade – como diria o querido Kant (é, acho que fiz as pazes com ele) – gangrena a nossa sociedade. O governo mantém todos sob sua tutela não só para controlá-los, mas para enterrá-los na sua própria ignorância.

Estão tão enterrados que você não vê o povo mesmo reclamar desse tipo de coisa. Reclamam os chatos, os intelectuais, os pseudo um monte de coisa, os metidinhos e afins. O povo curte a música tocada pelo Dj do busão. O povo não se incomoda com a fumaça do cigarro, isso é coisa de gente fresca e chata como eu.

Não seria preciso lei nem que um cobrador peça para colocar os fones se a população realmente reprimisse as atitudes do não-cidadão. Eu já nem dava muita bola para música nos ônibus, porque, né, haja tempo. Eu percebi isso com o advento (!) dos celulares com TV digital, era aquele povo no busão, nos pontos de ônibus, em qualquer lugar, assistindo o Jornal Nacional e a novela das oito. Nesse início eu até me irritava (TV, de um modo geral, tende a me irritar). Depois vieram as músicas (o que, por pior que seja, ainda é menos pior do que TV). E se está longe (no fundão, por exemplo, visto que eu gosto de sentar na frente – atestado de velha chata) eu nem dou bola. Se o barulho está alto e por perto, dou aquela olhada reprovadora com um meneio negativo de cabeça. Eu reprovo. Eu já pedi pra desligar. Pode fazer escândalo, pode ficar fazendo careta. Não me importa. Eu procuro ser cidadã. Mas somos tão poucos que eu realmente não acredito na eficiência nem no caráter generalizador dessa reprovação.

E aí você entra em sala e quer discutir assuntos graves como um de menor que dirige sem carteira alcoolizado e mata com alguns alunos que defendem a idade de dezesseis anos para tirar carteira de motorista.

E, sim, a educação está aí gritante em todos estes assuntos. Ah, a Política também, porque meu coração Liberal não me permite assistir a esse paternalismo tutelar calada.

E vou aqui esperar uma lei que proíba a idiota da vizinha de lavar a calçada e molhar a rua dia sim, dia não. Uma outra que proíba as pessoas de conversarem – pessoalmente ou pelo celular – dentro do ônibus de viagem quando eu quero dormir. Uma outra também que exija que montadores de móveis trabalhem aos sábados. Uma ainda que não permita as folhas do pé de maracujá de caírem na varanda. Simples assim. E a gente nem viu tudo.

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