Bilhete de partida

Parti sem data pra voltar

deixo o bilhete de despedida

sem meias verdades

levo a alma manchada

de frustrações

Queria querer precisar

de ti e do abraço apertado

hoje sinto-me sem ar

sem rumo a encantar-me

sem paixões

– das que rompem meu querer

Levo pouca roupa

pouca comida

pouco dinheiro

e uma mala de saudades doidas

para matá-las à beira-mar

Acendi uma vela

para desfazer o encanto

das tuas palavras

deixo instruções

de sobrevivência sobre a mesa

e parto sem peso na consciência

vou ali sentir o sopro vibrante

de saber que o mundo não precisa de mim

que nem você nem ninguém

– precisam de mim

e, quem sabe, nas ondas

descobrirei o que preciso.

Escalera

En aquellos días

fríos y desdichados

Entre tú y yo

había una escalera

llevaba al cielo

de sueños irreprensibles

donde caímos

solos y heridos

era la escalera de mi vida

sigo ahora con las cicatrices

pues no pasé de la tierra

Quiso decirme que no podría

que la fe no tenía

en mi risa no confiaba

que mi amor no era garantía

Lo supe desde entonces

en la escalera no tuve compañía

tantas otras veces la subiría

y vacía iba siempre a caer.

Versinhos de guardanapo de sábado à noite

É tempo de crise
E
Seja “Fora, Dilma”
Ou “Fora, Temer”
Sei que esqueceram
a vírgula
A pobre vírgula
Mais abandonada que o teu
Amorzinho da semana passada
Na crise a gente ama
No sábado a gente se diverte
E se a cabeça toda hora volta para o moço
É que aí tem coisa
Tem desemprego, tá caro o almoço
Tem quem tá sozinho
Beber a gente vai
Não ajuda a esquecer
Não resolve
Não é promessa de tarot
Que traz a pessoa amada em três dias
Mas tem malzbier
Tem desespero, tem leite a preço de ouro
Tá cheio de cafajeste em pele de cordeiro
A negação passou
Tá todo mundo no mesmo barco: tem crise!
Para adiar as mágoas tem malzbier
Pensar, de novo, no moço não desfaz
O encanto de querer feijoada
No meio da madrugada
Amanhã não será outro dia
Salvo qualquer engano
Hoje ninguém manda
E quem dera
O moço… – melhor não satisfazer
Escolha bem a carta do tarot
Não falte à entrevista de emprego
Economize na gasolina
E eu sorrio
Pra mais uma garrafa de malzbier

Da cama não saí

Da cama saí

deixei a alma porosa de vontades e inaptidões

envolta nos doces lençóis do descaso

sob a nuvem de desejar o distante

de abdicar do precário e do futuro

dane-se tudo! – queria ouvir-me gritar com o pé na estrada

reviro-me e em burrices tropeço

as decisões que tanto me pesam

dane-se tudo! – diz a irresponsável que eu queria ser

Da cama não saí

imersa em dias de sol e prazeres e sorrisos

a leveza dos nossos sonhos soprados pelo ventilador

o almoço fora de hora o sorvete servido na pele

e o silêncio revoando por entre os sombreiros

depois da madrugada na rede sob o trajeto da lua

bem ali, entre o sussurro do mar e o grito da estrada

esconderijo testemunha de meus amores

e onde reconstruí minha sobrevivência – tantas vezes.

Dane-se tudo! – desde quando me levo tão a sério?

não sou daqui e nem de onde vim

o paraíso fica ao lado e basta comprar a passagem

sinto que não respiro o ar úmido e pesado

olhos embaçam paisagens velhas conhecidas

Da cama saí

a alma pesada

desejos amarrados

sentimentos controlados

cabeça cansada

e pensei…

pensei onde eu estaria feliz.

Indo dormir

 

 

O sol risca o horizonte que não vemos

os caminhos levam às casas e aos bares

tão pouco de um dia a mais

e a chuva que não veio

As jantas fumegam nas panelas

as crianças suadas saem da prisão

as moças esperam seus namorados

e os velhinhos já na televisão

Hoje começa uma novela das seis

talvez ao despertares não tenha sol

há quem veja começos no fim

e dias sem alegrias

Os postes em mistério se acendem

os cães festejam o desejado passeio

os pássaros calam e se aninham

o sol deixa o laranja roseado da saudade

Teus beijos de raspão me atingiram

com suspiros irritadiços quis te afastar

rondas o espaço dos meus pensamentos

e estou indo dormir

Pesadelos me assaltarão

esses olhos sonolentos verão

tu em prosa e verso

e serás o suspeito de conturbar

a próxima manhã.

Convidado

Esta boca

não tem teus beijos

nesta cintura

não tem sinais das tuas mãos

Tola fui

festa fiz

na tua chegada

e não te vais

para sempre.

Presença sutil

quando quase esqueci

teu cinismo me alcança

a nossa música toca

queres presente

me contas tuas conquistas

e eu não sou tua.

Por que não me esqueces?

Desacreditei o coração

te abandonei nos sonhos

tola fui

e quis tua vida

– esta que tu já tens.

Perca-me do teu caminho

guarde pra ti as ilusões

cala – o que não vivemos.

No jardim tem convidado

arrumei a casa

limpei as vidraças

ouço novas músicas

é hora de abrir a porta.

Anseios de um dia de amor

Anseio
que me vejam ao teu lado
que nunca conheças meu passado
e teu corpo da nuca aos calcanhares
só e só e só
e só meu
Anseio
namoro todo dia
no portão de casa
na calçada e na praia
no shopping e no sofá
que vejam que saibam
que invejem que cobicem
Anseio
gargalhadas e gritos
discussões sem fundamento
sustos e que o fogo
não caia em desuso
e boa noite sem muxoxo
Anseio
arranhões e portas batidas
verdades escancaradas
e que nunca descubras:
os meus sonhos pelas madrugadas
e o que faço quando te odeio
Anseio
a vida sem laços nem promessas
sem cartório nem padre nem pastor
e constantes torturas de amor
quando teus pensamentos forem
meus
e só e só e só e só
meus.

As tais cartas de amor

Sublinho as palavras mais difíceis

abandono as que desconheço

tua letra é pequena

tuas frases curtas são mesquinhas

falta sentimento na página

tão bem escrita

cheia de parábolas e metáforas

vazia de paixão por mim

Há esse amor que transborda

por si mesmo em cada linha

na tarefa intrincada

de traçar textos perfeitos

sem erros e sem afetações

suspeito um desejo

de abalar corações

se esmerando

no senso comum desfeito

nas paráfrases pomposas

e no culto ao inteligível

Esperei esta carta

sonhei uma declaração

senti a pele arder

as noites emudecerem o calor

quase perdi os sentidos como se fosse uma dama

ansiei lê-lo à mão trêmula

olhos embaçados e garganta fustigada

Recebi e li

um tratado, algo assim

um artigo, talvez

devo estudá-lo?

ou vais publicá-lo?

Que amor amado não se publica

atiro as folhas insípidas ao fogo

que cartas de verdadeiro amor

se escondem nas gavetas.

Cuento de hadas

Es que me pierdo

en la incertidumbre

de tus ojos

en las incertezas

de mi vida

reflejo de lo que queda

por las calles

en tus cartas

que nunca he respondido

en los abrazos que no te he dado

en el amor que he renegado

con astucia

deja-me así

deja-me sin rumbo

deja-me sin destino

y sin recuerdos

deja que el tiempo despierte mis ojos

y todo lo que he dejado de hacerlo

por miedo

sea un dolor en carne y sangre

y viva yo infeliz para siempre.

O escritor

Bruto material à flor da pele

machadadas rente ao tronco

sem porém matar os galhos

deixando cair folhas dispersas

de propósito

trai-se em seu ofício

o escritor.

 

Abrupta descoberta do vício

do costume ou do prazer

escreve como quem desperta

de uma longa noite insone

e vê o sol

apaixona-se pelo seu ofício

o escritor.

 

Labuta inglória na gaveta

os delírios calculados

os devaneios racionais

as emoções desvairadas

permanecem

esvai-se no seu ofício

o escritor.

 

Desnudo invade o Outro

a catar roupas velhas

máscaras em desuso

hábitos inconfessáveis

e os publica

abandona-se ao seu ofício

o escritor.

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