Tentativas em vão de conquistar teu coração

Pintei as unhas, coloquei salto alto, fiz escova no cabelo

vestido de veludo, bolsa de festa, batom scarlet

e você não veio.

 

Me inscrevi na yoga, virei vegetariana, larguei o álcool

fiz meditação na praia, abri um brechó, aderi ao budismo

e você não apareceu.

 

Abri uma franquia, investi na bolsa, ganhei rios de dinheiro

comprei casa, carrão importado, frequentei as festas de luxo

e você não surgiu.

 

Fiz graduação, mestrado, doutorado, pós-doc, colecionei títulos

passei em concursos, me tornei a especialista das especialistas

e você nem deu as caras.

 

Virei dona de casa, aprendi a bordar, cozinhar, pintar e costurar

deixei a casa limpa, o jardim arrumado, a louça brilhando

e você não caiu do céu.

 

Emagreci, me inscrevi na academia, corri meia maratona

troquei o sorvete pelo supino, nadei na olimpíada

e você não bateu a minha porta.

 

Tirei todas as selfies do mundo, tive mil amigos no Facebook

fui a popular da cidade, virei amiga de famosos

e você nem se apresentou.

 

Fiquei triste, amigos tiveram dó de mim, só me vestia de preto

cortei os pulsos escondida, escrevi poemas de morte

e você não compareceu.

 

Coloquei a calça velha de moletom e o meião cerzido no calcanhar

peguei pipoca e chocolate, dei play no filme francês

e por você eu não espero mais.

Clara manhã

A poeira paira no ar

do quarto de cortinas abertas

o movimento espraia o que há muito

se guarda e não se usa

 

Sopro a poeira

e ela baila abandonando-se

ao abismo desprotegido

da clara manhã

 

Tão pequenas e leves partículas

tal nosso coração

nossa coragem e determinação

Sentem-se sem chão

sem seu bibelô antigo a

dar-lhes aconchego e proteção

 

A luz as faz dançarinas

inquietas e sem coreografia

quanto mais o ar as atinge

chocam-se, corrigem prumos

desnorteiam e flutuam

 

Encontrarão em breve seu novo pouso

tal nossa ambição

nosso anseio e pulsação

na superfície lisa de uma mesa

na maciez de uma colcha

nas reentrâncias de um candelabro

num velho porta retrato

ou no espelho quebrado.

Quando você puder

Quando você ajuntar as folhas da última estação

e não se desfizer delas

mas deixá-las num canto criando vida

Quando você acordar de madrugada sem sono

e sair da cama disposta a tudo

sentindo o ânimo incansável dos felizes

Quando você tiver saudade dos longos caminhos

e da sensação de não saber onde está

somente com a memória a lhe guiar

Quando você sair na chuva fraca do fim de tarde

e sentir os pés encharcados e sujos de barro

ao se dar conta que está longe de casa

Quando você não souber mais correr dos medos

e deles se desvencilhar um a um

como quem joga cartas de amor ao fogo

Quando você puder parar para dar colo

e cantarolar baixinho oferecendo confiança

sem perturbar a calma das boas almas

Quando você perder as chaves, os documentos

e tudo o que lhe prende a um lugar

mas, ainda assim, quiser voltar

Quando você pular o muro da vergonha

e der adeus curto e sincero aos limites

como quem desabrocha fora de época

Quando você duvidar se merece um abraço

e preferir punir-se por um crime inafiançável

mas alguém bater à sua porta às lágrimas

Quando você fugir dos seus pensamentos

e dos seus doces subterfúgios

como quem espreita uma boa oportunidade

Quando você for fiel à calma

e abandonar as palavras duras e frias

como quem passou pelo que não deseja a ninguém

Quando você anotar as datas mais importantes

não para lembrá-las ano a ano

mas para enterrá-las no calabouço do passado

Quando você esgotar todo seu empenho e esforço

e sentar-se no chão úmido e sujo da estrada

como quem deixa passar o último ônibus

Quando você sentir as dores dos outros

e nem reparar mais nas próprias cicatrizes

como quem doou amores

Quando você puder ser quem sou

quem sabe neste dia

nos encontremos.

riso armado

A madrugada

e os carros na contramão

de quem busca o consolo

da falsa paixão

Nem o verso preciso

do Moinho de Cartola

alçou-me ao oposto do riso

diante do asfalto molhado

Na cadeia de emoções

eu vivo

sou forte e dura e cruel

E ninguém comigo

Só Deus me pede

com Ele posso cair

E eu quis chorar

quis a cena linda

do instante em que

o mundo destruía

meus sonhos tão mesquinhos

– lágrima não vi

choro não senti

Insisti

persegui os trilhos sem trens

a fé que contraria

as almas asquerosas

eu ri – diriam que dancei e cantei

era Paulinho, que timoneiro nunca foi

e esse amor pelos mares

a devoção

essa vida que nega a prosa

Eu quis chorar

e não consegui

Se fez dia

e era eu de novo

sobre os pés

a dar cara a tapa

e peito firme

abraço dores

e não distingo

traidores.

Era eu, que ninguém

conhece direito

e nem desconfiam

que esse riso armado

diz menos do que queria.

Mudança de sonhos

Sonhos mudam

não muda quem os têm só na fumaça

Naquele dia ela era outra

com novos sonhos

pois os antigos já não valiam

já não lhe cabiam.

Há quem sonha

E há os que planejam

e, também, há quem não se conheça.

O sonhador sonha

em sonhar novos sonhos

o burro tem só os mesmos

sonhos

e senta à espera

– enquanto se engana.

Ao sonhador a vida lhe tira o chão

é a primeira lição

para aprender a voar.

Naquele dia ela desejou

de novo, o novo

revisou sonhos passados

arejou o guarda-roupa

das pretensões

das dificuldades

dos desafios.

Sonhar lhe custa a vida

todos os dias

lhe custa as horas passadas

em admirar o caminho tortuoso

em abrir e fechar portas

em chegadas e despedidas.

Naquele dia ela quis ir adiante

e retomou seus sonhos

fez promessas a si mesma

e a ninguém mais. Jamais.

Cadê a poesia?

Hoje eu queria
que tudo se passasse em poesia
E, quem sabe,
até um banho em tua companhia
Eu queria, sim
que o difícil tivesse fim
Desejei brotarem versos
em cada esquina
E que os gritos
intuíssem melodia
Hoje eu queria
que a dor na pobreza da rima
se fantasiasse de amor
e a apatia
respirasse furor
Hoje eu queria, quem sabe
um pouco de amizade
e que o coração suspirasse
pelas mudanças na paisagem
Hoje eu queria
falar de paz com o travesseiro
teu olhar matreiro
e nos sonhos reencontrar
a poesia

Destino selado está

Nas horas de angústia

A gente não sabe se gasta

O piso e sola de sapato

Quando pinga o tempo de um dia

E notícia boa ou ruim se atrasa

Espera lenta a tua desfeita?

O calor do teu orgulho

Teus chutes na porta

Teus cabelos arrancados

Tuas lágrimas – será raiva ou desespero?

Tu te perguntas se tens controle

Se o teu mínimo desafogo

dispara o pior.

E Deus te diria que não há nada a fazer

Se maldizes o mundo, se blasfemas

Ou se pedes perdão, mergulhas em oração

Destino selado está!

E é esse tempo que custa a passar

Não mais que o mesmo tempo de sempre

que te fez nascer

que fez a planta brotar

que leva a vida de velhice

Enquanto caminhas pra lá e pra cá

Escreves versos a desorientar

Comes sem parar

Não esqueça: Destino selado está!

Notícia boa ou ruim não depende de ti

e vem já.

Hoje não tem poesia

Hoje não tem poesia

Não teve arroz nem feijão

Não teve o cão ladrando

Sequer o carteiro passou

para me deixar cartas de amor

Não teve briga nem discussão

Não coloquei minha melhor roupa

Hoje as flores não murcharam

Nem a chuva tamborilou o telhado

Vejam, nem o sol apareceu

Não foi proclamada a paz

Nem generais fizeram revolução

Também as novelas não comoveram

Ninguém morreu, ou nasceu

Nem serenata teve

Acho até que nem sonhei noite passada

Hoje, repare bem, não teve tesão

Não teve sustos nem surpresas

Até o ar está ausente

As coisas estão nos seus lugares

E as pessoas são só pessoas

Hoje a noite não trará estrelas

Nem angústias

Nem a cama parecerá vazia

Sequer a TV sem som inspirará poesia!

O telefone não tocou

O e-mail não chegou

O olhar não me delatou

E o fogão a lenha não foi aceso

Hoje o gato não sorriu

A aurora não rugiu

Nem a pobreza se repartiu

 

 

Hoje não tem poesia

Não tem vida

Tem a mente vazia

E o olhar maltratado

desejo-te

Vejo-te ao lado

escancaro o desejo

de tê-lo em carne

pensamentos e suspiros

desejo-te nu e perdido

desejo-te fraco e solitário

desejo-te frágil.

Vejo-te

tuas incertezas

tuas misérias

tuas mentiras

teus descalabros

tuas hipocrisias

teus desassossegos

e repito:

desejo-te.

E passas ao largo

não despes tua polo

não ajoelhas de cansaço

não assumes teu fardo

não abraças a liberdade.

Vejo-te e ofereço meu desejo

de tê-lo sem fantasias.

Passas ao largo

em teu caminho de ilusões

e não caíste em minhas tentações.

Não esquecerás jamais:

desejo-te como és;

tu, porém, não pode sê-lo.

passa-se a estação

Céu impaciente

me pede que espere

passa-se a estação

e me entrega

à prestação

os sonhos que tão belo céu

do calor me prometeu

hiberno nas idéias

de tão futuro brilhante

guardo o corpo das alegrias

e a alma das tristezas

Céu impaciente

se fecha em mau humor

não me dá nem noites de lua

e me provoca: lá vem chuva

passa-se a estação

que nada!

Tanto se demora

esconde o sol

meu relógio pára

assim acumulam-se

mais sonhos a cumprir

Céu impaciente

dou-te todo tempo do universo

que ainda quero aprender

sobre o amor

veja lá se há estação

mais própria ao amor

ou começamos as aulas já

te peço nada

te ofereço: meu cúmplice?

meu caro céu,

não sou de conquistar.

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