Pela janela

Sabiá a catar

folhas secas

frio se faz

entre dias

de estiagem

e não chove

e não chove

e não chove

Sabiá a repousar

o olhar

sobre as árvores

a esperar

a Primavera

e choverá

e choverá

e choverá

Adormeço II

Vem o frio

o tempo se desmancha

em janelas abertas

 

É férias

trouxeste malas

e um casaco

 

O trem

deixou a estação

rumo ao nosso coração

 

Peço ao ponteiro

“pare!” feito

chuva congelada

 

Na serra há geada

e na segunda

nós no sofá

quando, por fim

eu adormeço

no teu colo

Adormeço

Enlevo se dá

na alma do

bem-te-vi

ao acordar

 

prevenidas

formigas

carregam folhas

ao ninho

 

Chovia

pela manhã

e na minha janela

o sol se estendia

 

O gato

desesperado

cantarola

o seu miado

 

Lua cheia

no sábado

quando, por fim

eu adormeço

no teu ombro

Infinita bondade

Afago o olhar

de tua infinita bondade

sobre nossas almas

 

Resplandece o mar

em desabitar

meus pensamentos

 

Encharcam-se teus pés

de dúvidas e lamentos

após a dolorosa oração

 

Ao fim do dia

pronuncias em ladainha

a correr-te os dedos

pelo terço

 

A noite sequestra

parcas esperanças

doces alegrias

e tantas confianças

 

Brilha o céu sob cerração

corto caminho

a tatear lembranças

 

Gorjeiam o dia

atiçando volúpias

amarradas em minhas mãos

 

Lava-te os temores

na chuva intensa

de um fim de semana

Gracias

Gracias por la gratitud

por los sueños que me diste tú

gracias por la compañía

por todos los días

cuando estuvieras aquí

gracias por no dejarme

hasta cuando yo te pedí

y fuiste mi salvación

Gracias por las dudas

que nunca tuviste

y por las dádivas

de las noches a oscuras

gracias por aquellos besos

pendientes de mi amor

y por querer-te más

sin trazos de rebeldías

ni deseos de sufrir

Gracias y no te pido

ningún perdón

por lo que he hecho

en el pasado ni siquiera

por lo que hago hoy

a tus espaldas

Agradezco

no es devoción ni perdición

gracias, te digo

es que viniste sin culpa ni razón

llegaste sin esperanza y ilusión

deshacemos llamas de encarnación

y lloras en las despedidas

tan lejos quedó mi corazón

Encontro não marcado

Teu desabamento se fez

naquela manhã

diante do meu sorriso

Era depois das dez

eu nada queria do mundo

Costuraste cada momento

a chamar-me atenção

a agulha alinhavava

as palavras

em cada sábado pela manhã

Em adivinhações

ao fulgor dos dias

eu me desfazia

em tua leitura

Era dia

eu distraída

sorri em alforria

o sorriso que não se dá

ao vento traiçoeiro

Ao acolhê-lo

levaste contigo

meu desabrigo

Tens toda vida

meu bem

a decifrá-lo em arritmias

a aflorá-lo em fotografias

a provocá-lo em nostalgias

E a vontade ficou

num almoço a dois

a rezar silenciosa

meses a fio

e eu sabia

– era teu, o sorriso meu

O mês finda

 

Respira

o ar nos afasta

inspirações relutantes

ao dizer-te que o mês finda

A semana começa num domingo

entre encruzilhadas e pautas

vazios o quarto e a sala

clamo aos céus

é sexta?

 

É a noite

o jardim solitário

a chuva interminável

o abajur apagado

os sonhos em vão

o frio calmante

 

Pergunto-me

amanhã será outro dia?

Os 7

Esse mundo imenso

que rescende o teu peito

te diz o calendário

o quanto eu queria

estar contigo?

Era o balanço colorido

o abraço tão aguardado

e depois nem sabia

qual fora o dia

– cheguei, porém, no horário

Todo dia é o quadro que vejo

onde surge: o teu sorriso

É hoje que tanto demora

é sábado que passa rápido

e o vinho desaba

sobre nossos ombros

a apagar o passado

Te disse? Ou não?

Eu só sei amar

à beira-mar

dou-te a mão

e o olhar:

o entra e sai dos navios

no porto e o vôo

das garças em alvoroço

a conversa no almoço

o mar revolto, a chuva

torrencial e o nosso sono

Ao meu lado, te quero

companheiro em estradas

de chão e na areia da praia

a rir das crianças

e nos desvios do caminho.

Mesmeriza

Preciosa certeza que tens

entre o peito e as mãos

que tecem teus vãos

de silêncios e lágrimas

Vadia tua crença

de que não mudaste

com os dias de frio

amparados na solidão

Mesmeriza um porvir

que abominaste outrora

corre, foge à armadilha:

são sonhos de oásis

Repara na idade da alma

que trocou-te a roupagem

por translúcidos vestidos:

andas devagar e leve

 

que te invejam o nascer livre do sorriso

e o livre do corpo a amar sem peso.

Não passa nem passará

Alento

é o tempo

passou e eu quis fugir

dobrou esquinas

respirei em descompasso

Alento

é a solidão

ficou e eu quis sumir

varou noites

tomei indecisões

Sem alento

é a roda, gira

e a tarde e um dia

e nada se desvia

nem se nega

Sem alento

é o mesmo guia

e o que não devia

e sigo perdida

foi-se a vida

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