As melhores coisas da vida

Ser adolescente é difícil. É tanta coisa que acontece conosco e com os outros. Mas fica ainda mais difícil quando temos que encarar os problemas e dramas de adultos. “As melhores coisas do mundo” não é uma lista em forma de filme com tudo aquilo de bom que existe no mundo. Ele é um filme que entra na vida de dois adolescentes, irmãos, Pedro e Mano. Eles vivem um cotidiano comum para a maioria dos adolescentes entre primeiras descobertas, paixões, brigas, bebidas. Pedro é contido e intenso, Mano é bobo e inseguro. Carol é a menina que não faz parte do todo, a ovelha negra porque não é vaidosa nem anda só com as meninas. Os estereótipos ali desenhados em adolescentes são perfis de muitos estereótipos adultos. No colégio, a vida vai entre garotos conquistadores que fazem uma lista das meninas que já “pegaram” e quais já perderam a virgindade com eles num arquivo com fotos no computador, “nossos pais nunca tiveram isso, cara” é o comentário triunfante, e meninas loiras mais desenvolvidas para a sua idade que “dão pra todo mundo” e arrasam corações. Porém, além do óbvio há personalidades fortes como a menina que se veste diferente e toca bateria, e por isso é tachada de “sapatão”. Pedro assume para si uma maturidade que não é própria da sua idade. Ele tem um namoro de longa data e quando perguntado por seu irmão como foi sua primeira vez ele diz que “gozou antes”, mas que depois “rolou legal”. Foi com a namorada num hotel duvidoso no centro da cidade “não tão vagabundo quanto os outros e mais limpo”. Pedro é um rapaz introspectivo que vive às voltas com a paixão pela fotografia e pela escrita, tem um blog no qual escreve poesias e angústias. Mano só quer perder a virgindade, ou pelo menos o personagem assim se apresenta no começo.

 

 

No entanto, o filme assume ares de gente grande quando o pai deles sai de casa porque está namorando um outro homem. Se o pai sair de casa abala os meninos, descobrir o motivo vai mudar um (Mano) e exarcebar a maturidade precoce do outro (Pedro). “Descobrir que sua família não existe é uma bosta”, desabafa Mano.

 

Mano é o tipo de garoto que anda em bando e zomba de todos. Ao se deparar com a situação do pai, logo percebe que poderá virar motivo de zombaria. Ele pede até para o pai não ir mais buscá-los no colégio. Mano começa a perceber que zombar da menina que se veste diferente não é tão simples quanto pareceu ao fazer uma caricatura dela. Carol, por outro lado, apesar de ouvir do professor de Física que não pertence ao “rebanho”, mostra-se frágil diante de um garoto como as meninas mais bobas do rebanho. Aliás, o professor de Física é a paixão de Carol – homem mais velho, que a entende e a elogia. Essa paixonite pelo professor é que vai desencadear mais um drama adulto na vida dessas quase crianças. Ao beijar o professor ela não espera que todo o colégio fique sabendo. A notícia se espalha e ela culpa Mano, pois só havia contado a ele. Injustiça, então, torna-se o prato do dia. Mano vê que ser injusto é muito fácil. Se ele antes era injusto, agora são com ele.

 

Pedro não percebe, com os silêncios e ausência de sorrisos, que seu namoro vai mal. É como se Pedro levasse aquilo tudo tão a sério que não há opções como terminar o relacionamento. Mas é bem isso que acontece. Ela diz que estão juntos desde os 15 anos, é muito tempo. Se há outro? Não. Mas há um “outro” que a diverte. Pedro perde o chão e compra um terreno em Marte.

 

Os pais deles resolvem ajudar Pedro mandando-o ao psicólogo. “Terceirizar a afetividade” como critica o namorado do pai quando sabe da atitude deles. Pedro vive no seu mundo pedindo ajuda para quem quiser ler no seu blog, pois dentro de casa se vislumbra apenas uma violência contida nos seus gestos e palavras.

 

Os adolescentes, então, experimentam definitivamente porque esta fase é chamada de “transição”. Não é só mais rir do colega diferente nem dizer se a aula é chata ou não. O seu pai é gay, seu único e grande amor não é mais feliz ao seu lado. Amigos traem, as verdades e os segredos são poderosos.

 

Os últimos filmes brasileiros sobre adolescentes me surpreenderam. Ao lado de “As melhores coisas da vida”, de Laís Bodanzky, está “Antes que o mundo acabe”, de Ana Luiza Azevedo. Ser adolescente não é uma bobagem, é muito mais doloroso e perigoso do que os pais costumam acreditar. No caso de Mano e Pedro, o que o primeiro tinha de inseguro e o que o segundo tinha de maturidade precoce vai ser invertido. Pedro corre atrás de sua amada, não aceita o fim, aceita até dividí-la com o “outro”. Mano decide fazer parte de uma chapa pela eleição no colégio na qual é levantada a bandeira da diferença, corre atrás de fazer um abaixo-assinado pela volta do professor de Física, quer reparar danos. Mano apanha de uns colegas que descobriram que seu pai é gay. Seu melhor amigo é que espalhou a história do beijo do professor para afastá-lo de Carol. Esse melhor amigo diz que “ele ficou diferente desde quando o pai começou a dar a bunda”.

 

Mano assume as responsabilidades na hora que elas se apresentam. Pedro já não se encontra mais. A solução final drástica de Pedro para a sua dor é mais dolorosa para os outros do que para ele, ele já se decidiu, afinal. “O suicídio é a grande questão filosófica”, ele cita Camus. O distanciamento dele em relação a todos é tão contraditório pois ele se despede no seu blog (que é público). Mas só o namorado do pai, o qual ele ignora, é que lê sua aflição.

 

A partir de um momento, tudo parece caminhar para este desfecho: os irmãos assumem seus papéis, transitam na transição da insegurança para a maturidade precoce. Para alguns, esta transição se faz leve e natural. Para muitos adolescentes não, porque eles se vêem no meio de um turbilhão que não lhes diz respeito, que eles não querem, mas tudo está ali na sua frente e eles precisam tomar uma atitude.

 

Decidir sobre a própria vida é a atitude mais madura que se pode esperar de uma pessoa. Não é à toa que a maioridade penal é aos dezoito anos. Não é nessa época que muitos devem escolher qual curso fazer na universidade? De um dia para o outro você terá que decidir sobre a sua vida. Contudo, falta a atenção dos outros sobre você para compreender suas escolhas. Parece-me, sempre, que nenhuma dessas escolhas é sem pé nem cabeça. Como espectadores oniscientes do filme, nós compreendemos perfeitamente as atitudes de Mano e Pedro e até antecipamos algumas delas. Na vida, porém, não somos tão oniscientes, nem espectadores. Mano pode ser seu irmão, Pedro pode ser o meu irmão.

 

Nessas escolhas e nas brincadeiras sérias do colégio é que se definem caráteres. Aqueles meninos serão homens, aquelas meninas, mulheres. Alguns só decidirão realmente sobre a suas vidas tardiamente, outros nunca. Mano e Pedro moldam o seu caráter em instantes de decisões, de decepções e de arrependimentos.

 

O filme acompanha isso falando a língua desses adolescentes que serão seus espectadores: Pedro tem um blog, o pai assume um relacionamento homossexual, uma menina do colégio é blogueira de fofocas, as fofocas se espalham pelo celular de todos, há violões e baterias. Na minha época não era assim, não tínhamos blogs, homossexualismo era mais tabu que hoje, não tínhamos celular. Fora a linguagem deles, o drama, os conflitos eram os mesmos. As decisões de gente grande, também. E assim ele fala para todas as gerações, para todas as idades. Há quem sinta-se nostálgico, outro há de se sentir triste, algum achará divertido.

 

Ao final, Pedro revela que sentia-se “uma bomba prestes a explodir” e que acaba realmente explodindo. E qual adolescente nunca se sentiu assim? Boom!

“o homem é a cabeça da mulher”

“o homem é a cabeça da mulher”

Folheando meu caderno de anotações encontrei esta frase que ouvi num dos últimos casamentos que fui. Aliás, parece que todo mundo resolveu casar este ano. E, definitivamente, eu serei a última a casar dentre todos que eu conheço. Tem gente que vai até casar de novo antes de eu resolver fazer isso. Porque é preciso pensar antes de casar, e se você realmente pensa, não casa.

Já me perguntaram tantas vezes se eu tenho algo contra casamento. Bem, digo e repito: tenho. Principalmente se for o meu.

Não tenho nada a ver nem julgo as escolhas dos outros. Reprovo a incoerência, é claro. Também não vejo com bons olhos atitudes inconsequentes.

Mas, leiam novamente a primeira frase. O casamento era sionista, a moça tinha dezesseis anos e era católica, o rapaz tinha nem vinte anos, acho, e a família já segue esta religião há tempo. Confesso que fiquei surpresa e me diverti com o casamento religioso. Certo, casamento não é algo para ser divertido, mas eu me divirto com cada coisa! O anterior, por exemplo, era católico e eu achei um casamento “show”, no sentido de que parecia mais um show com amiga da noiva cantando, declarações para esse ou aquele, santa entrando, outra cantando e padre fazendo piadinhas. O sionista tinha uma orquestra de trinta pessoas que ocupava metade do ambiente. As pessoas muito bem vestidas e sérias. Os pastores, completamente perdidos, anotaram na Bíblia todas as passagens que citavam as palavras “marido” e “esposa” e ainda leram um trecho do livro de Ruth em um contexto errado. Enfim, eu lá de vestido curto, cabelo curto, unhas roxas, destoava e recebia olhares assustados, por isso não poderia externar esse divertimento todo.

E as minhas amigas por aí se casam. Sobre isso nada tenho a dizer.

Porém, por que elas abrem mão da independência, da altivez, da individualidade delas? Eu conheci essas mulheres ainda meninas, meio mulheres, que faziam o que bem entendiam, iam e vinham quando e como queriam, estudavam, trabalhavam, tinham o dinheiro delas, ou dependiam do pai, aproveitavam a vida sem depender de um “sim” ou “não” de um cara. Elas tinham cabeça, e boas cabeças. Mas esses caras uma hora resolvem sair da casa dos pais, ou chegam perto dos trinta anos e decidem ter alguém para lavar a louça e as cuecas deles.

E é aí que não consigo entender. O homem é a cabeça da mulher? O homem manda? Entendo e temo que se o homem paga, ele manda! E isso eu sempre falei. Homem que sustenta se dá ao direito de mandar e uma hora isso vai ser jogado na cara.

Mas por que elas mudam tanto?! Por que elas ficam chateadas e me dizem que têm horário pra chegar em casa, senão ele liga perguntando onde elas estão? Por que elas se colocam no papel de lavar a roupa, passar, cozinhar, limpar a casa, e, ao final do dia, estão lá lindas e cheirosas?

Eu ouvia dizer que hoje não era mais assim, que isso era coisa da época das nossas mães. Mentira. É bem isso que acontece.

O que me entristece é ver que elas não são felizes. Vejo que elas embarcam numa situação dessas empurradas pelas circunstâncias e não porque escolheram ou desejaram. Elas vão aceitando, elas vão baixando a cabeça (aquela mesma tão altiva que vi tantas vezes ao pronunciarem suas escolhas), vão sentindo incertezas e seguindo o que ele decidiu.

Ser feliz também depende de escolhas, de saber dizer não.

Não discuti aqui, em nenhum momento, sentimentos. Nunca disse que o que elas sentem por seus respectivos não é verdadeiro, bom e importante.

Infelizmente, é preciso algo além de sentimento para decisões como casamento.

Eu tenho minha teoria pessoal que essas escolhas devem ser despidas de interesse, necessidade, circunstâncias, inseguranças.

Eu não acredito nem professo que o homem, seja ele qual for, é a cabeça da mulher. Essas mulheres que eu conheço têm cabeça, muita cabeça, cabeça boa e no lugar. E largam os estudos, a vida profissional que conquistaram, os desejos, as viagens, os sonhos por uma vida de amélia, por um homem. Pra mim, o homem que pensa assim e faz isso com uma mulher (a mulher que ele diz que ama) não merece respeito nenhum.

Nenhum homem é a cabeça de nenhuma mulher. E eu não quero vê-las infelizes por dez anos ou mais ou menos até redescobrirem aquela mulher que um dia elas foram, aqueles sonhos lindos, e decidirem retomar a vida que elas sempre quiseram.

Ah, só para não esquecer, é possível casar sem deixar de ser quem se é. Nem precisa virar a empregada do marido. É possível.

Livrar-se de um homem ou prendê-lo. Dá quase no mesmo.

Às vezes, é difícil livrar-se de um homem. Às vezes, as mulheres, querendo prendê-los de vez, dizem coisas que os afugentam. Bem, se prestarmos atenção, estas duas situações podem ser definidas nas mesmas frases.

“Acho que estou grávida” (sabe-se lá porque a mente feminina cogita que isso prende homem, mas o efeito é sabidamente o contrário – sim, às vezes eles ficam, mas, minha querida, você será infeliz)

 

“Não estou falando/pensando em casamento. Pelo menos não agora.” (uh, viu, ele já sumiu! rápido e desesperado – com toda razão!)

 

“Você precisa aprender a combinar as roupas, se vestir melhor. Deixa que eu te ensino! Vamos ao shopping!” (putz! dessa até eu sairia correndo, me jogava pela janela, o que fosse!)

 

Tem algumas que nem precisam ser ditas, simplesmente pare na vitrine de uma loja de jóias, bem em frente às alianças, olhe um pouco e entre para ver uma que você achou linda.

 

“Eu gosto tanto da tua mãe! Você não acha, querido, que eu e ela nos damos bem?” (assustador, né? eu acho! mesmo que você esteja dizendo isso só pra forçar a simpatia e nem goste muito da velha, não vai cair bem. Eles querem uma “mãe”: que lave as cuecas, limpe a casa e cozinhe. Mas a mãe deles não é pra estar cheirosa na cama depois de deixar tudo limpo e arrumado! Essa é certeira combinada com a próxima – se ele aguentou voce gostar da tua mãe…)

 

“Você é tão parecido com o teu pai!” (Pense comigo: você tem semelhança com a mãe dele, ele é parecido com o pai… e? Ele vê você e ele como o casal que ele acompanhou a vida inteira: os pais dele. Cuidado que ele pode até cometer uma loucura!)

 

“Lindinho, comprei um multiprocessador!” (aí, morreu – rapazes, vocês não têm idéia de quanta coisa está implicita na compra de um multiprocessador por uma mulher que está namorando!)

 

Mas, é sempre bom saber negociar bem quando surge um “meus pais querem te conhecer” ou “acho que é hora de você conhecer meus pais”, se ela valer a pena – se não, bye bye. Mulheres, no geral, têm fixação doentia por isso. E, sabe, como é, você vai ser sempre o cara que está pegando a filhinha deles.

O audiovisual catarinense agoniza…

Eis que me encontro em dificuldade em começar este post. Será que ele não está “pronto” para as letras? Quem sabe. Pensei nele a partir de algo que já não lembro o que foi, mas foi durante o banho de ontem – banhos sempre me rendem muitos pensamentos – que, aliás, foi um dia excepcional, e eu estava espiritualmente em algum lugar distinto.

Tem o local e o universal, não é? Mas podemos dizer que há algum “local” que também é universal, não? E todo universal é local, então?

O audiovisual e o cinema em Santa Catarina são peças de estudo e crítica frequentes aqui pelo blog. Sei que nem todos os leitores têm interesse nisso. Mas, enfim, se escrevo sobre o meu mundo, escreverei sobre as produções daqui. E, na verdade, não pensei em nenhuma em específico.

Lembro que enquanto eu estava na graduação teve um artigo polêmico de algum colunista que virou duelo com alguns (ou algum) professor sobre o provincianismo da produção no Estado. Alguns devem lembrar quem foi, o que disse, outros podem fazer uma pesquisa aí no Google da vida e vai descobrir do que se trata.

Seria provinciana a produção audiovisual/cinematográfica catarinense? Vejamos…

Algo que me incomoda profundamente é o uso dos editais regionais como meros financiadores de “novas” produtoras “independentes”. Pois é, tem toda a história de prestação de contas, notas fiscais, serviços prestados e etc. que podem ser mais bem “controladas” e viabilizadas com a simples “criação” de uma “produtora”. Eu tenho uma produtora, no papel. Nunca ganhei um centavo de edital nenhum. Bem, primeira constatação: há “produtoras” demais no Estado (vide Fpolis, aliás, vide a Lagoa da Conceição). Se há tantas produtoras “independentes”, onde estão as produções independentes? Deveriam ser em grande quantidade.

Mas, vejam bem, falamos aqui em quantidade, apenas. O que, aliás, não me interessa de forma alguma em nenhuma hipótese. Desprezo essa “numeração” das coisas.

Não é novidade alguma, nem causa espanto mais, nem é segredo que essas produtoras são criadas com intuitos pouco desinteressados. Há tantos casos nos quais ela apenas serve de fachada para que o dinheiro recebido pelo edital (que não é pouco dinheiro, como todos sabem) seja usado na compra de câmeras, lentes, equipamentos em geral e o dinheiro que “sobra” para a produção é bem aquém daquele proposto pelo edital. Reparem nas produções feitas em uma locação apenas, produções que não usam sequer um travelling, que não requerem, de forma geral, gastos extraordinários em produção. Ah, sim, mas temos os atores, os diretores, os assistentes… Procurem fazer pesquisas e perguntas por aí e verão vários exemplos de equipes mínimas, onde o acúmulo de funções é regra.

Bem, chegamos ao ponto onde os recursos não são usados devidamente para a produção (apesar de que nada pode ser provado porque as “produtoras” encobrem todos os pontos suspeitos) e o proponente consegue erguer-se com as verbas que deveriam ser destinadas à qualidade das produções, não apenas à quantidade (não são tantos assim os “vencedores”).

E quando um professor universitário federal ganha um edital desses? E quando a velha guarda do audiovisual catarinense ganha? Sabemos que eles não precisam “erguer-se”, nem abrir a sua “produtora” (posto que eles já têm uma produtora que foi iniciada dessa forma descrita anteriormente)? Sim, a velha guarda fez isso (e muito) e, penso eu, ensinou a nova geração (da qual faço parte) a fazer o mesmo.

Bem, chegamos aqui ao ponto de que é assim que se “faz” audiovisual e cinema em Santa Catarina. A forma é a mesma a muitos e muitos anos, antes mesmo de eu sequer pensar em entrar nessa área.

Alguns dessa velha guarda foram (são?) professores nos cursos de graduação em Cinema/Cinema e Vídeo/Cinema e Produção Audiovisual. Digamos que tiveram “bons” alunos, não é?

E eis que vejo muitos problemas nisso. Mas a situação piora quando somamos a isso o “local e o universal”.

Por que o dinheiro público deve ser usado nessas produções? Bem, eu sei, o problema é histórico no Brasil, não vou dicutir.

Porém, quero discutir o universal e o local em poucas coisas que vi e vejo. Vejam comigo.

Um vídeo sobre inscrições rupestres (tão mais místico do que didático)? Um vídeo de ficção que trate do preconceito?

Todos são válidos? Sim, claro.

Participei, nos últimos anos, de dois trabalhos de amigos muito próximos. Acredito que eu trabalharia nas produções independente do tema ou da abordagem, pois são meus amigos. Independente disso, quero apresentar as qualidades dos dois (pretendo escrever uma crítica para cada um aqui no blog).

Semeadura, de Cleuza Soares, é um documentário sobre cotas para negros, índigenas, estudantes de escolas públicas. Ele é universal, as cotas no Brasil são uma extensão de projetos e discussões dos EUA e outros países. Porém, ele é local, ele aborda personagens aqui da Universidade Federal de Santa Catarina. A discussão, enfim, se embrenha no local e no universal. Como diria Vinícius ou Tom Jobim, na nossa fala sempre esta o nosso quintal. Cleuza conseguiu captar falas emocionantes dos personagens. As falas de dois professores da UFSC, um da Odontologia e uma da Filosofia, e do índigena me deixaram até hoje marcas impressionantes. Tive o prazer de assistir a uma exibição do Semeadura no FAM do ano passado e ficar lá atrás registrando a reação das pessoas. A professora Sônia Felipe deixa todos os espectadores desconfortáveis com a dureza e realidade das suas palavras – o que, aliás, ela conseguia fazer com os alunos em sala de aula. Cleuza viu o universal aqui no nosso quintal e produziu um material de riqueza excepcional com as falas de pessoas com as quais provavelmente muitos de nós cruzam todos os dias.

O outro trabalho foi o Pé na Tábua, do Adenor Gouvêa, que aliás nos deve colocar o material no Youtube da vida. Adenor delira. Delira muito. Acompanhei cada um desses delírios tão de perto que delirei junto. Enfim, delírios à parte, quando li o roteiro e a inteção da direção de arte fiquei muito incomodada. Aquilo ali era universal, mas não era local. As influências, a fotografia, tudo caminhava para a apropiação de um outro “local”, de um “estrangeirismo”, digamos. Eu devo ter falado algo assim pra ele na época. Como a produção não contava com verba nenhuma (como o da Cleuza), Adenor soube aceitar as realidades do “local”. Ali ele soube trazer o estranho para o quintal dele. Mudou locação, mudou quase tudo na arte, mudaram atores, surgiram personagens. O surgimento de um personagem (que na edição final ficou de fora, o que é a grande birra minha com o trabalho) foi inspirado nos políticos brasileiros, no “crime do colarinho branco”, na realidade tão brasileira e que tornou o “universal” tão local. Este personagem foi criado a partir da criatividade do ator escolhido e na época estavamos em eleições. Tudo isso foi criando um roteiro que não mais era um Tarantino numa estrada interminável americana no meio do deserto. E eu digo: faz diferença.

Nenhum deles, como eu disse, ganhou edital nem nada. Não foram, também, “patrocinados” pelas produtoras que “empregam” estagiários e prometem equipamentos maravilhosos para os seus súditos fazerem seus trabalhos na universidade em troca de promessas que seus sonhos e projetos pós-graduação serão realizados. Vejam bem, promessas. Promesas, apenas. Promessas pequenas.

Agora temos o exemplo de um bem-sucedido trabalho de conclusão de graduação do Alex Siqueira. Talvez o mais “rodado” dos trabalhos saídos da UNISUL, já foi exibido em vários países em festivais e ganhou os prêmios de júri e público do FAM deste ano. Não posso comentar aqui porque ainda não assisti nem trabalhei nele, mas pelo “tema” acredito que é mais um exemplo do universal e local.

É disso que precisamos.

Não precisamos de “historinhas simples”.

Diríamos eu e meu amigo Éder, na época da graduação: nem de historinhas de casal! Muito menos de comercial de margarina!

O dinheiro público não pode sustentar isso nem a “criação” (vejam bem, você abre uma produtora, não “cria”) de algo que chamam de produtora que de independente não tem nada! Também sou contra dinheiro público para o local apenas. “sei lá o que da tainha” e “mais contos bruxólicos da Ilha” serão sempre e sempre candidatos desleais nessas disputas. O local com o universal é um casamento difícil, por vezes doloroso, tortuoso e essencial – além de exigir uma criatividade fora do ordinário.

O ordinário, por sinal, é a zona de conforto da velha guarda. O “local” sempre vai garantir isso. Pena é a nova geração ter tido tão “bons” professores.

Felizmente nem todos fomos “bons” alunos.

E o audiovisual/cinema catarinense agoniza em noites frias de um ínsipido FAM e em dias de calor sufocante de uma antropóloga perdida entre bruxas da Costa da Lagoa.

 

 

 

 

Parábola – Funcionário Padrão

Exigir que namorado/amante/caso/rolo/ficante/noivo, enfim, todas essas denominações de vocês, compareça diariamente – seja pelo mundo virtual, telefônico, pessoalmente, etc. – é fazer dele um funcionário, um empregado, a bater cartão todo dia, como numa empresa.

 

 

Você vai ter que, então, assinar a carteira, pagar salário, dar todos os descontos exigidos. Ele vai ter que cumprir metas, cumprir horário, não dormir em serviço, mostrar resultados, vai ter direito a férias remuneradas, a faltas justificadas (mediante apresentação de atestados médicos). E, claro, vai receber um salário.

 

Funcionário padrão.

 

No fim, seja para pedir demissão ou para demitir, dá um trabalho danado, custa caro e alguém sempre sai prejudicado e insatisfeito – quando não os dois.

 

Morrendo

A morte cala as palavras.

Desfaz as imaginações.

 

Acelera a mil os pensamentos.

E me deixa assim, sem conectar umas coisas com as outras para poder mostrá-las.

 

Mas a morte nunca passa.

E eu preciso ficar.

Histórias de Amor

Eu conheço algumas das histórias de amor mais belas do mundo.

 

Conheço-as pessoalmente, convivi com os protagonistas delas.

 

Admiro-as muito.

 

Não as conheço de livros ou de filmes.

 

São belas.

 

Mas, enfim, todas tem o mesmo fim.

 

E o fim, sempre, é um triste fim.

 

 

 

10 coisas que eu ainda farei

1. Um longa metragem com o Del Toro como protagonista.

2. Dizer, em algum festival de sucesso, quando eu estiver velhinha, que entendo Hitler (e toda a Alemanha na época da Segunda Guerra). E espero que nessa data lá no futuro não façam mais o alvoroço que fizeram esse ano com o Lars (mas se os maiores financiadores cinematográficos ainda forem judeus, já sabe, né!). Direi que li Mein Kampf. Lembrarei que no meu discurso de formatura ninguém jogou ovos ou vaiou quando eu citei Hitler.

3. Ficar presa num elevador. Para testar minha sanidade.

4. Sumir do mapa sem dar notícias nem deixar vestígios por um período de tempo não previamente definido. Sim, assim, sem definir destino antes, sem avisar ninguém. Para exercitar minha real liberdade.

5. Viver sem celular. Para exercitar minha alegria. (já consegui me livrar de conta bancária, só falta o celular!)

6. Fundar a Escola de Cinema em Santa Catarina.

7. Levar minha mãe para a Espanha.

8. Encontrar um parceiro e darei música a algumas letras que eu tenho já escritas.

9. Dar um tapa na cara de alguém num momento de fúria extrema. (talvez essa seja a última coisa que eu faça, vai que a pessoa resolve revidar e eu não sobreviva?)

10. Fazer sexo com um total estranho, em algum lugar público e nunca mais o ver.

Status de Relacionamento nas Redes Sociais

Não me passe a sua senha e o seu usuário que eu posso, sim, mudar algumas informações do seu perfil. Não, não sou confiável. Mas, este texto abaixo foi tirado de uma conversa divertidíssima com uma amiga. É, definir status de relacionamento pode ser algo complexo. Eu, particularmente, sempre tive dificuldades!

Solteira (louca pra dar, procura homem freneticamente; homem na farra, não quer grude nem pensar)

Em um Relacionamento Sério (esse é pra depois de dar; tudo lindo e maravilhoso! Quer dizer, pelo menos nos primeiros meses)

Em um Noivado (esse é pra quando tu quer dar o golpe e o menino tá resistindo – pelo menos os meninos espertos!)

Casada (pra quando cansar de pagar aluguel e/ou não tiver mais sexo)

Em um relacionamento Enrolado (não dá nem desce – ou seja, não faz nem desocupa a moita. Os dois estão na mesma, querendo a mesma coisa, mas são tansos demais pra tomar atitude!)

Amizade-colorida (coisa pra gay e fã do Restart)

Viúvo (a felicidade plena, mesmo que sem herança! Ela: livrou-se do traste; Ele: livrou-se da megera)

Separado (resumindo, mulher tá com tudo, raspou o marido mas perdeu a moral, homem é que tá na pindaíba feia, a mulher levou tudo e sofre com dor de corno – mesmo não tendo sido corno!)

Divorciado (dor de cotovelo total, mas compreensível – subdivisões de desesperados em busca e recalcados até a alma, talvez até algumas outras categorias)

Há quem não coloque nada – isso mesmo, nenhuma das opções acima – desses aí, desconfie sempre! Pô, não sabe nem definir a sua relação – ou se não há relação! – é porque boa coisa não pode ser!

E há aquelas (as minhas preferidas) que não estão listadas aí, tipo, amante nas horas vagas, praticante de sexo casual com estranhos e/ou conhecidos, amásia, encalhada…

Muletas

As pessoas amparam-se em muletas para viver. Seja no amor, no trabalho, na família, na saúde. Precisam sempre de uma aliança, de salário mais alto ou estabilidade, do doar-se falsamente, de deixar para amanhã aquela caminhada.

Há sempre uma muleta para quem quer entrar no ônibus, sem pagar e ter um banco garantido.

Difícil mesmo é viver sem muletas e ter que ficar em pé, segurando um monte de sacola pesada, o trajeto todo. Mas, quem iria querer, não é?

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