Nem só de beleza vive o turismo de um Estado

Estava eu na tal sala VIP quando entram duas senhoras (lá pelos finais dos quarenta). Fiquei observando curiosa, não eram, definitivamente, frequentadoras do local.

Uma delas vai até o balcão e num português afrancesado e dificultoso solta algumas perguntas. A atendente se bate para responder e logo aparece um incrivelmente solícito fiscal. Eles estavam tentando explicar para ela (em um português razoável) que os bilhetes de passagem continham um horário, é verdade, mas que na prática pouco importava. Num primeiro momento ela parecia incrédula. Agora já não era mais um problema de comunicação: ela havia entendido, só não acreditava. De incrédula ela passou para indignada e ao relatar a conversa com a sua companheira de viagem soltou alguns impropérios: aquilo era inadmissível!

Eu ali me divertia com a cena, afinal na França e em vários lugares do mundo, quando um ônibus ou trem tem um horário determinado no seu bilhete deve ser por algum motivo.

O fiscal (figura que surgiu do nada neste dia) ficou saltitante de um lado ao outro da rodoviária. Logo veio ele com uma turista americana e num inglês pífio tentou entender as dúvidas dela. Enquanto isso, o ônibus (Joinville – Florianópolis, na verdade a linha é Curitiba – Florianópolis) que nem tinha horário não aparecia.

Quando já estavam todos embarcando, finalmente, as turistas francesas deram o bilhete ao motorista que soltou um “merci” ao devolvê-lo. Eu ali, observando. Nisso, vem o fiscal (que passava instruções aos que atendiam a moça que falava inglês) solícito e pergunta ao motorista: tu vai além do merci? (visivelmente empolgado) E antes mesmo da resposta: porque eu só sei dizer que não sei falar francês. E disse uma frase incompreensível em algum idioma imaginário.

Sim, eu ali me divertia e embarquei no ônibus.

Passou um tempo fui até lá atrás pegar uma água e ir ao banheiro. Quando estou voltando vejo a francesa semi-letrada em português em pé no corredor sobre a outra e falando com um moço (com uma camisa amarela de doer os olhos) que lhes mostrava o mapa da Ilha no celular. Bem, eu fiquei ali parada me divertindo um pouco mais.

O rapaz, para mostrar serviço, falava em espanhol. Uma francesa que não entende nada nem de espanhol nem de português, um rapaz com um espanhol doloroso e um português talvez ainda pior e outra francesa que de espanhol não sabia nada mas arranhava no português. Ou seja, o diálogo era interessante. Ele falava da praia Mole (ih, moço…) e discorria sobre as maravilhas da “uma cidade pequeña dentro de la cidade”, ou seja, a Lagoa da Conceição. A francesa a perguntar sobre distâncias e a afirmar que não tinha problema porque elas caminhavam bastante.

Tenho dificuldade em reproduzir as falas do moço solícito que achava que estava falando espanhol. mas garanto que me diverti muito. Sobre os atrativos da Ilha, então… Ah, melhor ainda quando ele tentou explicar a relação “Estado de Santa Catarina”, “Ilha de Santa Catarina”, províncias e sabe mais Deus o quê.

Sim, pessoas, eu fiquei ali em pé admirando a cena.

Ao que a francesa que estava em pé disse um “merci” e mexeu-se para sentar. O moço ainda pergunta já meio esgoelado “e o que eu respondo quando você diz merci?!” (quase que eu respondo, “diz que vai se matricular num curso de francês, oras!”). E, claro, lá vem o enjôo apocalíptico do francês: très bien!

Mas o choque foi a aproximação da francesa… oh, God! Na França não faz calor, não? A fama tem justificativa! Sério, eu fiquei enjoada com o fudum que vinha daquela mulher. Uma náusea tomou conta de mim e pela cara de algumas pessoas em volta eu não era a única a passar mal!

Tranquei a respiração e me dirigi ao meu banco.

Fiquei pensando nas notícias e estatísticas que tenho visto por aí: 1. Santa Catarina será o segundo Estado a receber mais turistas estrangeiros; 2. Santa Catarina foi eleito o melhor Estado para Turismo do País, pelo quinto ano consecutivo; 3. Receberemos cerca de 5,5 milhões de turistas, 1 milhão só na Ilha.

Então, é para ficar orgulhoso, alegre ou temer?

São questões tão simples: não é so título, não é só número. Tem que receber bem, ter estrutura (palavra inexistente no dicionário do brasileiro), estar preparado.

Eu já trabalhei com turista estrangeiro na Ilha e digo: são explorados e sofrem com a falta de comunicação e desinformação. Não gostam da maioria dos nossos serviços, enquanto os donos de hotéis, restaurantes e afins aqui aproveitam para cobrar muito, muito mais caro deles!

É lamentável ter poucos profissionais que dominem (eu disse dominar, não arranhar) outros idiomas (para além do espanhol e do inglês então…) e tanto descaso com o turista que é visto apenas como o que mais gasta. Hoje mesmo encontrei turistas sul-americanos numa loja de calçados que eu frequento. Todo ano eles aparecem, muitos ficam deslumbrados com o nosso comércio. E eu sempre observo como são tratados mal, como não são compreendidos e como são vergonhosamente explorados.

E não pensem que é descaso ou mal profissionalismo (tema para um próximo post) do funcionário! Isso vem de cima, vem dos donos dos comércios, hotéis, etc.. Uma vez eu recebi um casal inglês que foi parar numa pousada que não era onde eles deveriam ter ido, erro do motorista do táxi. Mas eles só perceberam isso depois porque uns amigos haviam combinado de ficarem todos no mesmo hotel e quando chegaram no correto entraram em contato com eles. O casal então tentou cancelar o check in (cerca de vinte minutos depois) com uma funcionária, mas veio a ordem da dona do hotel em não permitir. O valor, inclusive, deste hotel era absurdamente mais alto. O que aconteceu? Eles ficaram no hotel errado, pagaram muito caro, tiveram gastos a mais de deslocamento, e ainda faltou luz a noite toda. Mosquitos, calor… Uma imagem linda para uma diária acima de quinhentos reais.

Conheci outros casos. Alguns realmente não se importam em pagar caro. É até triste ver que eles esperam não encontrar alguém que consiga se comunicar com eles!

Eu gosto muito de Santa Catarina. Tenho orgulho de ver o Estado merecidamente destacado no turismo. Mas lamento tudo isso. Lamento a falta de um “a mais” nos profissionais da área. Turismo não é exploração. Não sei o que tem sido ensinado nas muitas (hoje são inúmeras, quando eu fiz vestibular até cogitei pois estava em voga) escolas e faculdades de turismo por aqui.

Achei, inclusive, uma afronta do governo federal levar a Copa mais para o nordeste do que para cá. Todos sabem que o nordeste perdeu o seu posto de pai do turismo no Brasil. Lá foi assim: uma dúzia de investidores estrangeiros, muita estratégia de marketing, preços altíssimos, badalação e jogaram a pobreza pro lado. Os pacotes CVC da vida sugaram o que puderam (a estratégia é simples: você investe aqui, constrói seu hotel, a CVC manda quantidades absurdas de turistas) e hoje os preços despencaram porque está tudo sucateado. Rio de Janeiro e São Paulo já são auto-sustentáveis, mas também vêem Santa Catarina como uma ameaça. Como pode um estadinho lá do Sul querer desbancar os grandes nomes do turismo do país? E aí já começou a retaliação, a ignorância. O governo federal nunca foi por Santa Catarina. Nem os políticos do Estado. Volto a dizer: não temos representatividade a nível federal (e não vejo perspectiva de termos, mas sinto que é essencial). O Estado por si, por suas belezas e seu povo, pelo trabalho desse povo, conquista o que pode. Mas sofrerá sempre com o descaso.

Agora, o que não pode é perder a oportunidade que alcançou. O turismo é só mais uma vocação do Estado. Sempre fizemos muito mais e chegamos àquilo que não era tão explorado e visado até pouco tempo. Belezas nunca nos faltaram. Mas ainda nos faltam muitas coisas!

O médico-escritor sincero

 

Ontem à noite eu lia um livro no sofá da sala, escrito por um médico. Antes dos contos propriamente ditos havia uma ou duas apresentações sobre o escritor estreante.

Foi quando me deparei com elogios rasgados à sinceridade dele, do autor.

 

Não conheço pessoalmente o médico-escritor para fazer comentários acerca da sinceridade dele, mas duvidei um tanto disso.

 

Realmente não imagino alguém receber elogios por ser sincero.

 

Sou adepta da sinceridade sem limites. Não sou a pessoa afável que encontra inúmeros eufemismos para as palavras duras ou que ao ser simpática com todos engole os pensamentos mais genuínos. Não sou assim dentro de casa, nem fora, nem com o companheiro, nem com os amigos, nem com estranhos.

 

Raramente ouvi sinceros (vejam só!) elogios à sinceridade que pratico. Raramente. E alguns deles não eram exatamente elogios, mas apenas constatações (com um tanto de reprovação) “você é muito sincera”.

 

Eis que me peguei pensando sobre isso durante a madrugada, efeito do tal médico sincero que recebia elogios de um amigo por isso! Sim, porque pensei, meus amigos não elogiam isso!

 

Tenho pensado nisso nas últimas semanas e o tal médico me fez matutar ainda mais.

 

Ninguém pode esperar de mim uma falsidade ou consentimento que burlem minha sinceridade. Então como meus amigos, os que já me conhecem a tempos, podem ficar insatisfeitos comigo justamente por isso?!

 

Eu, como boa pisciana, choro junto, como dou gargalhada junto e fico revoltada junto. Me junto aos sentimentos de quem está perto de mim. Não vejo um amigo bem e fico com inveja, na mesma hora fico bem junto, me alegro por ele e com ele.

 

Mas não me peçam para ser cúmplice das merdas que fazem. Nem me peçam para passar a mão na cabeça quando fizerem alguma coisa idiota (ainda mais quando eu insistentemente tentei ajudar evitando que a coisa fosse feita). Aí serei sincera e não acho isso ruim, nem doloroso.

 

Mas meus amigos (alguns deles), ultimamente, tem achado ruim a sinceridade. Acham que devo só ouvir e ficar calada, aceitar seus erros e ser cúmplice deles. Não farei isso. E isso não é demonstração de amizade. Nem nunca foi. Amigo não é só aquele que passa a mão na cabeça, esse está só esperando para te dar o bote na primeira oportunidade.

 

Porque é fácil encontrar um colega, um conhecido, um colega de trabalho – esses relacionamentos fortuitos e passageiros – que te apóie (supostamente) em tudo, que te incentive a fazer merda. Ele não se importa em te ver na pior. Nem vai te ajudar de verdade quando tudo der errado, esse será o primeiro a abandonar o barco.

 

Sinceridade não é fácil de praticar. E, eu sei, não é fácil ouvir. Não rende elogios nem abraços efusivos. Porém, tenha a certeza, só vem daquele que realmente quer o teu bem.

 

Enfim, talvez as pessoas não se preocupem com isso. Fiquei me perguntando se o tal médico-escritor era realmente sincero ou se era apenas um elogio falso. Acredito que ele pode ser, sim, uma pessoa sincera. Feliz dele que tem amigos que reconhecem o valor da sinceridade, acima do simpático tapinha nas costas.

 

 

Miséria intelectual

 

Eu ouvia de um professor de História do Ensino Médio que era preciso conhecer a História para não repetí-la. Talvez a maior verdade que eu tenha ouvido em todos os meus dezesseis anos de estudo formal.

 

A intelectualidade brasileira hoje está pobre. Não sei se vocês também sentem isso. Mas é tão latente que dói.

 

A pobreza consiste em não conseguir criar, se reinventar. Há apenas uma intelectualidade (que eu chamaria carinhosamente de pseudo-intelectualidade) que se restringe a levantar bandeiras e proclamar hinos do passado. Aquilo que era para ser renovador, instigante, inebriante se contenta em, acuado, proferir impropérios contra quem não pensa como eles (os tais “reaças” ou direitistas, segundo terminologia tão amada por eles). A intelectualidade chegou à miséria de cegamente não aceitar que há quem não pense como ela. Não aberta à críticas, à renovação, à dúvida, a nossa pobre intelectualidade se abraça fortemente ao inusitado nas artes e às páginas rançosas de uma duvidosa “esquerda” (não os questione sobre o significado disso), com teorias estagnadas e ultrapassadas (algumas já deram seu atestado de inconsistente logo após serem escritas).

 

O nobre nessa pobreza é citar o desconhecido, o pop, o que está mais na moda para, logo em seguida, largá-lo sem dó nem piedade pelo próximo revolucionário europeu com uma teoriazinha chinfrim sobre a tragédia que é a economia ocidental, ou sobre os dilemas da vida pós-pós-moderna, ou sobre algum novo “rizoma” reciclando conceitos de outras ciências.

 

Nesse cenário repulsivo, a pobreza intelectual encontrou um sentimento de culpa (talvez Freud explique) para esconder debaixo da cama sua ausência total de criatividade: abraçou a pobreza (aquela real, de falta de recursos, de falta de ter o que comer, de falta de esgoto, de falta de moradia, de violência, de marginalidade, de exclusão social, de falta de educação – a pobreza não voluntária que piora com o descaso da sociedade e dos governantes). Difícil entender o motivo dessa guinada na qual o intelectual – sempre uma figura afetada, nobre e inalcançável da nossa sociedade – parece querer reparar anos e anos (centenas deles) de indiferença pelo trabalhador pobre comum brasileiro. Tantos e tantos diplomados, doutorados, ricos, nascidos em berços de ouro que desconhecem o que é “não ter” (na prática, não me venham com aquele papo “mas eu conheço porque vi”, viram ali quando passaram pela frente e olhe lá). Dentro de suas salas com ar condicionado eles riem satisfeitos por terem elegido um partido de esquerda (?), por defenderem as questões ambientais, por terem uma mulher presidente, por saberem que existe o bolsa família. E, talvez, conheçam apenas isso mesmo. Nunca doaram um pacote de arroz, nem uma roupa que não usam mais. Talvez, quem sabe, o mais perto disso que eles tenham chegado foi quando a mãe pegou uma roupa velha deles e deu para a empregada levar para o filho.

 

Eles disfarçam a total falta de competência e criatividade balançando profusamente bandeiras na nossa frente. São tantas bandeiras… logo virão outras. Foi-se o tempo dos bons intelectuais. Tanto os intelectuais que conheciam e tratavam a realidade (inclusive a da pobreza real das nossas ruas) quanto os que viviam nas suas masmorras alheios a tudo com apenas suas idéias na cabeça. Ficamos órfãos dos bons pensamentos e dos bons pensadores. Hoje nos dão muitos mais letrados, “doutores” (nunca antes na nossa História houve tantas pessoas diplomadas), e tão raro ou inexistente pensadores.

 

Tudo isso me fez lembrar do filme O Gatopardo. Burt Lancaster, gostoso e maravilhoso como sempre, no meio da revolução italiana, sereno diante dos revoltosos que destituíam a nobreza (à qual ele pertencia), diz que os pobres que ali se insurgiam queriam exatamente o que a nobreza era: queriam ser ricos. Não havia uma procura pela igualdade, pela superação das diferenças. A pobreza queria destituir a nobreza para apoderar-se do que eles tinham. Não há um desejo nobre nisso. É o que se vê aqui mesmo com o que os economistas e intelectuais chamam de ascenção da classe C ou coisa parecida. Criticam os que sempre tiveram (como a maioria dos nossos intelectuais), mas é justamente isso que eles querem: ter. Onde há justiça social nisso? Pois para eles terem, alguém há de não ter. O que me lembra Primo Levi: para eu estar vivo hoje, alguém teve que morrer. Para a classe C hoje ascender à B ou à A, alguém tem que estar na C. Será que eles pensam nisso? Ou realmente temos ainda resquícios dos filósofos utópicos que defenderão que há uma real possibilidade de todos terem oportunidades e chances iguais? Teremos um mundo com sete bilhões de pessoas ricas, é isso? Posso parecer pessimista, mas duvido que veremos isso. Talvez porque além de achar o estudo da filosofia importantíssimo, valorizo ainda mais conhecer a História. Duvido porque aprendi que não tem como ser assim.

 

Ou o mundo terá sete bilhões de ricos e milhares de intelectuais pobres. Enfim, o dinheiro, o capital, vítima da crítica voraz da maioria desses intelectuais terá ele sim ascendido à nobre posição do valor comum? Já não importam outros valores, apenas o dinheiro.

 

Quem sabe o intelectual sempre se veja no seu pedestal já desde cedo e tenha declinado de assistir algumas aulas, como as de História. Lembro de um excelente professor no curso de Filosofia que sempre fazia questão de começar a aula contextualizando a época, os conflitos, os regimes, do pensador que ele iria apresentar. Muitos alunos ali (sim, esses que hoje são “intelectuais”) torciam o nariz. Uma chegou mesmo a fazer um comentário desprezando a metodologia do, este sim intelectual, professor. A resposta? Uma piada irônica qualquer. Ele não perderia tempo com estes intelectuais sobre seus pedestais com ar condicionado e amarras de ouro.

 

Quem sabe o intelectual tenha desaprendido a essência do conhecimento: questionar.

 

 

Amar no tédio

 

Há quem traia e como diz a música “quem trai, trai a si mesmo”. Há quem não entenda, há quem nunca entenderá.

Há de tudo nesse mundo e Deus ou o deus dos ateus ouve cada coisa!

E as mulheres e os homens todos erram e não aprendem com seus erros. Repetem seus erros sem conhecer sua história. Enfim, esses nem têm história.

 

O amor também precisa existir no tédio, pois a vida é um tédio.

 

Se esse tal amor você só sente quando está “tudo lindo maravilhoso” (também como diz a música) ou no outro extremo quando a queda e o fim são inevitáveis e surge aquele valor imensurável que só se dá quando sabemos que podemos perder, você não ama.

Amar no tédio é essencial, já faz, assim, parte do amor.

Porque a vida é tédio, o sol nascer e se pôr todos os dias é a mãe de todos os tédios.

O prazer de pensar

                Ainda não há diploma que diga: esse pensa. Sim, é assim simples, pensar não é aferido por um pedaço de papel. Vá lá e olhe no seu.

                Pensar, também, não é uma coisa fácil. Requer, acima de tudo, coragem. Como dizem, tem que ter muito peito.

                Eu me admiro ao perceber que existem pessoas que falam sobre a dicotomia “direita” x “esquerda”. Ainda há quem acredite nisso? Fiquei feliz, esses dias ao descobrir que nem todos pensam assim! Conversa vai, conversa vem, encontrei pessoas com a mesma percepção: direita e esquerda não mais existem e só quem fala nisso é saudosista (ou anacronista no linguajar estonteante dos historiadores).

                Tão fácil perceber que as coisas do hoje não podem (nem devem) ser vistas com olhares do passado. Eu li, estudei e gostei de Marx (o meu “gostar” se refere a que ele tinha um pensamento coerente, bem estruturado e no meio disso dizia coisas hilárias – como é difícil rir lendo textos econômico-filosóficos, ele me conquistou) e nem por isso acho que ele é Deus (aliás, ele mesmo ficaria bem irritado com isso, imagino eu) ou ando por aí pregando a palavra dele. Vejam bem, Marx tece comentários que hoje seriam ardentemente condenados, sobre as mulheres, por exemplo, mas disso ninguém comenta.

                Pensamentos são atemporais? Sim, são. Os pensamentos sim, mas a sua prática e a sua análise estarão sempre presas ao seu contexto. Há um perigo enorme em retomar pensadores e textos, idéias em si, e tentar visualizá-los em outro período. Estou falando do tempo. Como eu posso observar algo que foi criado a uns cinco séculos atrás e que existe até hoje sob a mesma idéia da sua concepção?

                Todas essas reflexões me surgiram de discussões e conversas sobre fatos dos últimos dias. Um exemplo, a ocupação da reitoria da USP. Vi muitas defesas sobre a origem da universidade. Bem, qualquer pessoa pode perceber que da origem da universidade até hoje ela sofreu mudanças drásticas nos seus ideais e propostas. Mas isso me leva a perceber que há também aí saudosistas, eles ainda vêem a universidade como o templo do saber, o supra sumo do pensamento. E eu não quero tirar ninguém das nuvens da ilusão, mas ela não é mais isso. Faz tempo que universidade não é mais isso, muito menos no Brasil. Profissionalizou-se demais a universidade? Sim. E, creiam-me, eu também me desiludi com isso pelos corredores da universidade. Numa época não muito distante eu ainda me agarrava à idéia de que ali era o templo do saber e fui olhando para os lados e vendo que nada daquilo era real.

                A universidade não é mais o templo do pensar, por isso no seu diploma não diz: esse pensa. Pensar está muito além (ou aquém) da universidade. Conheço e conheci várias pessoas inteligentíssimas e com uma capacidade de crítica, análise e pensamento que nunca tinham passado em frente a uma universidade. Aliás, eu escrevi “aquém” entre parênteses ali em cima porque muitas dessas pessoas sequer chegaram a estudar num ensino médio.

                A pretensão dos doutores e meros graduados de hoje com todos os seus anacronismos e saudosismos é decepcionante. Eles fazem discursos pelo pobre e ignorante, estão nos seus pedestais e gritam que são esclarecidos e a nata da intelectualidade. Bem, como eu já disse, não gosto de nata. Decepcionante porque era deles que esperávamos os melhores discursos e, claro, ações. Citei ações porque esses são os que não se importam com qualquer coisa, apenas com seu ar condicionado, e deles não vemos nenhuma atitude.

                Ter medo de pensar é refugiar-se atrás de falácias e argumentos do tipo “você lê tal revista” “você assiste tal canal”. Eu não medo de pensar. Eu não tenho medo de nada, minha mãe sempre encheu a boca para dizer de todos os seus filhos “eles não têm medo de nada”. E não temos mesmo. Não ter medo de pensar traduz-se em poder e querer ler qualquer revista, qualquer jornal, assistir qualquer canal, qualquer emissora, ouvir qualquer repórter, entrevistador, pessoa. Quando a pessoa foge demais de uma coisa parece que ela tem medo de realmente acreditar naquilo. Eu leio a Veja, leio a Claudia, leio a Piauí, leio vários blogs, leio a Carta Capital, leio a Caras (na verdade vejo figurinhas), leio a revista de História da Biblioteca Nacional. Assisto TV regularmente, normalmente pouco, mas de vez em quando assisto. Assisto TV a cabo, TV aberta. Leio até romance de banca de revista, sabiam? Converso com quem pensa como eu, com quem é radicalmente contra tudo que eu falo. Pra que medo? Que medo insano é esse? Afinal, eles (vocês?) têm medo do que com tudo isso?

                Sobre o caso USP. Sim, os alunos estavam reivindicando melhorias e protestando contra um reitor que chamaram de ditador. No meio disso surgiu a turma da baderna, cometeu crimes (reafirmo, e não sou eu que digo, é a lei, depredar patrimônio público é crime), usou de violência, fez arruaça e, como sempre, sujou a imagem das boas intenções da maioria dos estudantes. A USP ainda é a nata da universidade brasileira (repito, não gosto de nata) e como em toda universidade, principalmente federal, tem os filhinhos de papai que não estão nem aí para nada. Eu estudei no Centro de Filosofia e Ciências Humanas, disparado sempre o mal visto da universidade. Pessoas que hoje defendem lá os estudantes da USP são alguns dos que sempre fizeram piadas e menosprezaram o centro onde eu estudei. Se tem muito maconheiro? Claro que tem. Se tem gente que não faz nada? Claro que sim. Se tem o bando da arruaça? Também. Como em todos os centros. Sim, lá na medicina, no jornalismo, na letras, nas engenharias, nas sociais, no direito, em todos tem. E é essa turma que faz feio quando outros querem correr atrás do certo. E, por experiência própria, eu corri atrás do certo na universidade e nunca tive que acampar na reitoria, nem depredar patrimônio público, nem fumar maconha. Mas aí não é visto, né? Não tiram foto e nem sai na revista.

                De modo geral eu entendo os meios de comunicação que estão nem aí para os problemas da USP. Ninguém quer, nem a mídia nem o governo, que os problemas das universidades federais venham à tona. A universidade federal, para estes saudosistas, deve ser visto como um templo. Toda vez que se discute educação, nunca se discute o ensino superior porque é para a sociedade pensar que ali tudo é uma beleza. Não é. Tanto se fala em vagas e cotas para a universidade para manter a fachada de que aquilo ali é um sonho, é perfeito, é o futuro. Não é. Por isso governo e mídia querem manter essa ilusão nas pessoas. E, claro, para o brasileiro trabalhador aqueles maconheiros vagabundos que estão quebrando bens públicos e deveriam estar estudando estão errados. A mídia corrobora a opinião que já vem incutida na mentalidade do brasileiro trabalhador, e este não gosta de arruaceiros. (reparem que eu citei o governo, porque nesse vai e vém ninguém falou do governo, vai ver é porque estacionamento de universidade federal está lotado de carros e ano passado a ostentação de adesivos do partido que ganhou a eleição foi gritante)

                Pensar dá trabalho, cansa e é mal visto. Mas faz bem. E como eu disse ontem numa discussão: pensar é tão, mas tão gostoso que podemos ser egoístas. Se tem quem não quer este prazer, pior para eles.

A vida não é cinema, Fahya.

Nesses dias sem postar vivi muitas coisas, antes mesmo, entre um post distante do outro eu vivi coisas que pensava em escrever aqui. Por fim, reparei que eram tantas críticas, tantas coisas negativas que só de pensar em sentar aqui confortavelmente, olhando pela varanda um dia lindo, eu me sentia mal. Sim, mal por destrinchar meus pensamentos sobre coisas ruins, desagradáveis, tristes e infelizes.

Mas não é que a vida, além de bela, tem seu lado negativo? Não possoapenas ignorar isso e fazer de conta que vivo o conto de fadas da outra parte. Porém, também não posso me ater apenas às coisas ruins e tornar-me uma pessoa doentia.

Deixei de escrever exatamente dois posts sobre coisas pontuais que me surgiram no vai e vém da vida. Esses dias, diante de um contratempo comum da vida, meu namorado estava inquieto, irritadiço. A situação era comum, como eu disse, talvez até boba. Eu mesma algumas vezes já me vi irritada (profundamente) numa mesma situação. Contudo, olhei para ele e fiz um sermão oferecendo uma visão oposta. De que adiantaria ficar naquele estado? Irritar-se não resolveria em nada o problema. A única solução mesmo para a situação seria esperar. E se ficassemos lá esperando quinze minutos, duas ou dez horas, ficar irritado adiantaria de alguma coisa ou apenas atiçaria uma futura gastrite?

Tenho essa boa mania de quando todos perdem a calma eu a encontro. Tenho a boa mania de ver o outro e reparar nele coisas que eu mesma faço, mas que quando eu vejo refletida eu posso fazer um sermão crítico consciente. Afinal, conheço bem a situação. Não sei se já contei aqui, mas nunca me consultei com psicólogos, analistas e companhia, porque faço auto-análise. Funciona muito bem.

Também sou uma boa ouvinte das críticas que me fazem, apesar de muita gente não acreditar nisso.

Como o exemplo, tirei uns dias para não dar mais tempo às coisas ruins do que aquele que elas exigem.

Assim, me privei de mais pontos para a futura gastrite.

Mas, infelizmente, não podemos fugir das coisas como são. Eis que me deparei, novamente, com uma situação que me deixa, no mínimo, temerosa.

Há uma corrente (tipo essas correntes marinhas que sabemos que existem, as estudamos, mas se olharmos para o mar agora não as veremos) no país que está exarcebando direitos (direitos de algumas “minorias” como alguns chamam, eu discordo da expressão). É sabido que as mulheres, os homossexuais, os negros (para ficar nos exemplos mais “volumosos”, eu diria) lutam por reconhecimentos e direitos que foram historicamente negados, privados baseados em teorias infundadas e preconceituosas e afins.

Não sou de levantar bandeiras, nem a favor nem contra. (um dos posts que não escrevi – ainda – diz respeito um pouco às mulheres mais ou menos nessa direção) Acho digno e admiro algumas formas dessas lutas.

Infelizmente não temos ainda um grau de educação para livrar-nos a todos da ignorância. E opinião, como dizem, é uma merda porque todo mundo tem a sua. É uma praga ainda pior que a do carro, porque este felizmente nem todos ainda possuem.

Aí me surgiu uma observação baseada justamente nisso: na observação.

Eu julgo as pessoas? Sim. Você também. Todos fazem isso. Todos. Só que alguns assumem que fazem, outros não. Essa é a diferença.

Você tem capacidade e está disposto a discutir (no sentido de apresentação de idéias e argumentação, não ho de bate-boca, obviamente) sobre um assunto? Mesmo que a sua posição seja extremada e decline de qualquer possibilidade de mudança?

Colocado isso, poderei prosseguir.

Há uma crítica pouco velada quando alguém faz um comentário ou uma crítica a uma outra pessoa que se encontra num desses “grupos” que citei (homossexuais, negros, mulheres e acrescento os pobres).

Se a pessoa é negra, ou pobre, ou rica, ou homossexual, ou mulher, quando surge um comentário, logo alguém grita que é preconceito porque a pessoa é negra, pobre, rica, homossexual ou mulher. Não ficou claro?

Assim, se você critica a índole ou o comportamento de uma determinada pessoa, por exemplo: ele faz errado porque joga papel no chão! Aí, o cara é negro, e olham para você e dizem que você está dizendo isso, fazendo esse comentário, porque você é preconceituoso e racista!

Um outro exemplo? Critico o Lula por ter dito que o SUS (que eu uso e conheço, como talvez você também) é o melhor sistema de saúde do mundo, mas quando ele precisa ele corre para o Sírio-Libanês (hospital reconhecidíssimo por ser particular e “dazelite”). Aí me acusam de dizer isso porque ele foi pobre, porque eu estou desejando a morte dele. Hein?

Sim, me causa espanto. Preciso dizer um “hein?” saído de uma cabeça embotada e confusa. Como assim?

Então partimos do princípio que homossexuais, mulheres, pobres, negros são inatacáveis? São moralmente corretos? Todos, vejam bem. Nenhum comete erros, nenhum infringe leis? Todos são pefeitos, possuem boa índole e agem corretamente. E se você ousar fazer algum comentário sobre algum deles poderá ser chamado de racista, preconceituoso, maldoso!

Somem ao espanto um pavor e um temor gigantescos.

A que ponto a argumentação desvirtuada chegou? Eu julgo, eu critico, eu falo. Você também, só alguns não assumem. Mas aí quando é do interesse da criatura, dá-lhe lenha para queimar mais um herege?

Sim! Herege! Bem lembrado! Porque a maioria esmagadora dessas pessoas que apontam o dedo chamando de racista, preconceituoso (nesse tipo de caso que eu exemplifiquei), é ateu ou não possui nenhuma religião mas agem como o mais santo carola da Inquisição! Viu como é bom criticar? Viu como todos, enfim, julgam? Eu sou julgada por professar minha religião. Ouço quase todos os dias ofensas e críticas à minha religião e à minha fé. No mesmo dia me surge um não-Cristão desses a me dizer que não julga ninguém!

E há quem me fale em coerência! Ó, pai…

Faço um exercício diário de convivência. Principalmente com aquele que (graças a Deus) não é igual a mim, e com aquele que pensa diferente de mim. Confesso que em alguns dias isso toma proporções quase insuportáveis.

Diante disso, não exijo nem coerência, mas respeito. Nunca permitirei agressões (gratuitas ou não), de nenhuma espécie. Nas redes sociais da vida é assim que eu procedo, pode pensar diferente, pode ser isso ou aquilo, podemos discutir. Agora, nunca, jamais, permitirei qualquer tipo de agressão, aí sim sairá da minha lista. (provavelmente entrará na lista negra! uma piadinha pra descontrair) Nem no mundo virtual nem no real agressões serão permitidas.

Sobre os exemplos, aprendi com a excelente educacão que tive, a valorizar a pessoa pelo que ela é, pelo que ela faz. Nunca pela sua cor, pelas suas roupas, pelos seus bens, com quem ela faz sexo ou não. Aprendi assim. Eu a julgo pelo que ela faz, por quem ela é. E, claro, também, pelo que ela fala (ou escreve, né?). Isso é que faz o caráter da pessoa e é a isso que eu me refiro quando faço alguma crítica ou comentário.

Por isso eu disse que é exarcebar direitos contestar críticas com ataques infundados como “preconceito”, “racismo”, etc..

Talvez há quem se valha disso mesmo, por preconceito retrate a crítica, mas eu não. Não podemos generalizar nem em um caso, nem em outro. Nem nos opositores ferozes.

Sobre o caso do Lula, como eu disse, não desejo nem faço o mal a uma dúzia de pessoas que me desejam (e fazem!) o mal, iria perder meu tempo desejando o mal para alguém que eu nem conheço, ainda por cima um político?! (sim, as pessoas esquecem que ele é político de carreira antes de ser muita coisa)

Não vou nem perder meu tempo me estendendo sobre o assunto. Só citarei um filme que vale como boa relfexão para o caso: The Doctor. Filme lá da década de 80 se não estou enganada. Assisti bem antes da notícia do caso do Lula, mas na hora me lembrei dele. Quando assisti já gostei muito e percebi o argumento reflexivo.

É a história de um médico fodão (ou que pelo menos assim se vê), cirurgião, que trata os pacientes por números, vive sua vida acima de tudo e de todos, mal vê a família e do nada descobre um tumor na laringe. O que acontece? Ele passa a fazer seu tratamento no mesmo hospital onde trabalhar, e aí ele vê a coisa, digamos, pelo “lado de lá”, por outro ângulo. Como ele é um personagem do cinema, ele muda e percebe muitas coisas.

Mas, enfim, a vida não é cinema, Fahya. Por isso, querida, saia desse computador nessa tarde de ventania, silêncio e tristeza e vá assistir um filme.

 

 

Pobre humilhado nas novelas. E pra ele ser feliz precisa ser rico!

 

 

Esses dias sentei no sofá e assisti algumas partes das novelas que passam atualmente.

 

Fiquei particularmente assustada com a das 21h quando uma personagem maltratava ferozmente uma empregada doméstica e ainda somava o comentário “vou colocar no tronco pra ver se aprende”, citando literalmente o castigo físico que era dado aos escravos negros.

 

A tal personagem era rica, dessas ricas riquíssimas que proliferam nas novelas brasileiras. Já fui noveleira. Mas confesso que perdi o interesse. Fui fã de novelas “fantásticas” como Fera Ferida, Que Rei sou eu?, Pedra sobre Pedra, e algumas outras.

 

Hoje, por exemplo, uma que escapou um pouco a esse excesso “ricosXpobres-num-mundo-urbano-contemporâneo-porque-daí-pode-fazer-um-monte-de-merchan” foi a Cordel Encantado. Eu gostava muito daquelas novelas que eram em cidades fictícias do nordeste. Cordel Encantado soube levar a fantasia, o popular, para uma novela que primou pela qualidade da fotografia e da direção de arte. Fora isso, algumas atuações foram muito boas do elenco jovem da Globo, coisa rara de se ver (mas algum dia a Regina Duarte não vai mais estar aí para ser protagonista, nem o Antônio Fagundes).

 

Assisti um capítulo aqui, outro ali, acompanhei alguns da Cordel Encantado com a minha mãe e me peguei pensando duas coisas: a primeira foi sobre as novelas sempre mostrarem que só a riqueza permite a felicidade (e como o povo “vê” isso?); a segunda foi justamente sobre o tratamento dado aos “empregados” nas novelas.

 

Reparem bem nas atuais novelas e lembrem daquelas que vocês mais gostaram. Vou dar exemplos: Na novela das 19h, Morde e Assopra, Guilherme, personagem de Klebber Machado (acho que é isso), filho da personagem da Cássia Kiss, sempre renegou a mãe e a sua miséria (enganou a mãe dizendo que estudava medicina na capital só para manter-se com o dinheiro suado dela em festas e farras); ao final da novela ressurge seu pai e ele é rico, assim Guilherme fica rico – casa com a menina rica (que no meio da novela descobriu que era filha adotiva e os pais biológicos eram pobres) e vive feliz para sempre. Em Cordel Encantado, Jesuíno, para poder ficar com Açucena, teve que descobrir que, na verdade, apesar de filho de cangaceiro, era descendente do rei de Seráfia – assim, sendo princípe (leia-se rico), pôde, enfim, casar-se com a princesa. Na atual das 21h, a Griselda é pobre, feia, largada, trabalhadora. Qual será sua reviravolta na qual encontrará o amor, a felicidade? Ganhará o prêmio da mega-sena.

 

Essa teoria não é “nova” nas novelas, mas confesso que me incomoda. Porque sabemos, afinal, que o povo assiste, eu assisto, você assiste, e que isso mexe com o imaginário popular. Estão me vendendo que só posso ser feliz e encontrar o amor se minha conta bancária estiver em alta? É isso? Voltamos, então, àquele tempo que o povo pobre, sofrido, miserável não podia se ver nas telas? Me pergunto isso pensando já no cinema também, afinal, colocar a miséria, a pobreza, nas telas – nas pequenas e nas grandes – não foi fácil! É um retrocesso?

 

Em contrapartida, sempre há e haverá o ricos X pobres. Há algum tempo o núcleo pobre não se contenta mais em ser só os empregados e afins, mas dialogam entre protagonistas e antagonistas. Contudo, percebe-se sempre a mocinha pobre que se apaixona pelo moço rico – ou ao contrário – e que a felicidade é a família rica aceitar o núcleo pobre da novela. Quantas moças pobres andam por aí acreditando nisso? Eu mesma conheço algumas. Você também deve conhecer. E no meio desse caminho, muito sofrimento, muitas barrigas grávidas em tentativas de golpes e até coisas piores.

 

Então não são mais núcleos ricos entre os protagonistas e antagonistas, mas há um núcleo que às vezes é a ligação de um núcleo com o outro que é o dos secundários do elenco e que fazem secretárias, diaristas, balconistas, empregados, babás e etc.. Aí é que entra o segundo ponto. Não foi só naquele momento de uma megera podre de rica destratar de forma vil uma empregada ameaçando com o “tronco”. Há vários momentos em todas elas nos quais homens e mulheres são humilhados, destratados e desrespeitados pela sua condição de pobre e trabalhador.

 

Não penso que isso é apenas de mal gosto. Essa humilhação presente nas cenas entre ricos e seus empregados é o dia a dia de muitos (muitos mesmo) trabalhadores do Brasil afora, esses que são ainda a maior parte da audiência das novelas. É ultrajante e um desaforo cenas assim serem mostradas sem nenhum remorso, sem nenhuma aparente expiação. Pois, não vi discussão nenhuma por aí sobre essa cena e suas semelhantes, nem vejo que o “patrão” que humilha tem alguma punição severa dentro do universo da novela. Não vejo algum desses empregados ir à delegacia prestar queixa do seu patrão. Ah! Mas isso não acontece na vida real também, porque eles têm medo de perder o emprego. Seria, então, a novela uma imitação da vida real? (porém, na primeira questão que eu comentei, a novela não imita a vida)

 

Como ficamos? Assistindo sentados a uma agressão ao próprio público fiel das novelas? Eu me senti ultrajada. Não tenho empregada. Minha mãe tem e a trata muito bem, como trata a todos.

Eu pensei nesse segundo ponto porque vi nas últimas semanas frases desrespeitosas sobre empregadas domésticas no Twitter e em comentários no meio de conversas. Um deles foi a respeito do “uni-neurônio” que uma delas teria. Uau… sério, pensei em denunciar a criatura por dizer uma coisa dessas. Fazer comentários sobre o trabalho da pessoa é uma coisa. Agora, sobre qualquer outra questão é perigoso. E sabe o que eu pensei? Se a pessoa que faz um comentário desrespeitoso e ofensivo da sua empregada é tão boa, tão inteligente, tão superior, por que ela não tem capacidade de limpar a própria sujeira? Essa é minha opinião sobre pessoas que têm empregadas, não têm capacidade de limpar a própria sujeira. Uma pessoa assim, a meu ver, está alguns níveis abaixo de muitos seres humanos. Inclusive daqueles que “ganham a vida honestamente”. Há exceções para pessoas que possuem empregados por questões de saúde e etc..

 

Tenho repulsa por personagens como a da Cristiane Torloni nessa atual novela. É tão falso, tão superficial, tão nojento e tão infeliz que não me motiva nada assistir.

 

Infelizmente não vejo mais novelas como quando era pequena e ficava as tardes em frente à TV com minha avó. E hoje é tão grande a necessidade em fazer novelas que se vendam e que vendam (carros, produtos de beleza, roupas, esmaltes, sapatos, etc.) que aquelas novelas fantásticas não têm mais tanto espaço. (repararam na calça jeans de vanguarda que o Jesuíno usava em Cordel Encantado? então, é preciso muita criatividade ou licença poética para tal)

 

Conhecemos o poder da TV sobre o comportamento das pessoas. E é esse ponto que me preocupa e assusta quando vendem essa agressão, essa fissura entre ricos e pobres, essa humilhação que compramos como comum, correta, cotidiana. Não pode ser assim. Mas quem é humilhado todo dia no trabalho aceita e percebe uma novela “realista” na humilhação da perua rica.

 

Não deveria ser assim.

 

 

A culpa é de todos

Eu fico admirada, mas talvez não devesse, como alguém que você nem conhece (e, na mesma direção, não te conhece) pode te fazer tanto mal.

Já escrevi bastante aqui sobre a maldade, a inveja e irmãos próximos. Não é de admirar, também, que ultimamente a maioria esmagadora das pesquisas que levam ao blog tratem desses assuntos. Fiquei me perguntando se, então, muitas pessoas também convivem com a maldade. E eu digo que essa maldade é de uma força absurda e faz ainda mais mal quando a pessoa ainda não é “carimbada”.

Semana passada, uma semana altamente atípica até para a minha vida que vive de dias e semanas atípicos, eu vi (novamente) a maldade das pessoas em ação. Não foi diretamente a mim, nem é uma pessoa que eu conheço, mas que causou estragos (leves) é claro que sim.

Eu me pergunto se você já viu uma mãe maltratar um filho. Já? Se você já viu uma mãe agir com uma maldade rancorosa e infinita em relação a um filho. Já?

Eu já vi “mãe” brigar feio com um filho de sete anos a ponto de aos berros e no meio de um choro convulsivo gritar “eu te odeio!” várias vezes. (o filho sumiu e foi encontrado com uma mala lá numa esquina longe) E eu me pergunto: que “mãe” é essa?

Ninguém pára para pensar no estrago psicológico feito nessas crianças? O que será dessa criança, quando for homem?

O que me indigna é o fato de todas essas agressões físicas, verbais e psicológicas serem testemunhadas – principalmente por parentes próximos: pai, irmãos, avós, tios, etc.. E? E ninguém faz absolutamente nada.

Nada. Simples assim: nada.

Há uma preocupação social em torno de crianças e adolescentes, idosos, mulheres e agora homossexuais. Os três primeiros estão amparados por estatutos e leis. Contudo, tanto da parte da população quanto da parte do Estado eu não vejo, na prática, ações efetivas. Sou contra, por exemplo, a Lei Maria da Penha. Pelo simples fato de que agressão (seja à mulher ou a quem for) deve ser condenada e coibida independente do gênero e porque o mau caratismo está tão bem difundido entre os homens quanto entre as mulheres e hoje muitas dessas que não “prestam” usam a tal Lei como forma de cometer atrocidades e ameaçam: se você me encostar eu vou na delegacia e serei protegida pela Maria da Penha. Sim, elas fazem isso. Há até casos de homens acusados injustamente porque a mulher se jogou de uma escada qualquer para ter as “marcas” de uma inexistente agressão.

Não é o sexo, nem a idade, nem nada, que vai autenticar caráter a uma pessoa. E se somos todos iguais, um murro num homem, numa mulher, num idoso, numa criança, num homossexual não é um murro? Ou estaríamos sendo machistas ao pensar que uma mulher (uma mãe, por exemplo) espancar um filho homem (já de maior) é menos grave do que uma mulher que apanha do marido? O filho, por ser homem e de maior, merece menos proteção ou por ser homem e de maior não tem problema apanhar? Enquanto que a mulher que vive porque quer com tal marido e sempre apanha, aí sim merece proteção, lei especial, delegacia especial? Não é machismo achar que homem pode apanhar porque é homem?

E eu me pergunto, o pai (tio, avô, irmão) que deixa e testemunha a “mãe” bater, coibir psicologicamente, usar, um filho de menor (questões de dependência financeira e psicológica como imaturidade precisam ser levadas em consideração) também não é criminoso? Que moral tem uma pessoa dessas?

E experimente, como pessoa de bem e cidadã, utilizar um desses serviços que tanto fazem propaganda na TV, rádio, revistas como o Disque Denúncia, o Serviço de Proteção à Criança e ao Adolescente. Experimente não ser apenas testemunha conivente e co-autor de um crime e denunciar. Vejam bem, eu disse que o desleixo era tanto da parte da população quanto do Estado. Apesar de tanta propaganda, quando você precisa de um serviço desses a frustração cresce.

Você liga para mil números, cada um te diz uma coisa, ninguém sabe de nada, muitas vezes te dizem: nada pode ser feito. Ou uma velhinha te atende (parece que ela está em casa, assistindo TV, pelos sons no telefone), pede um minuto para ir pegar um papel e uma caneta, faz mil perguntas como numa conversa de comadres, diz “que pena! a mãe faz isso com ele?!” e diz que vai encaminhar para alguém que possa “averiguar” a situação. Passam dias e dias e ninguém aparece na casa da criminosa.

E é assim que você se sente, num misto de revolta e frustração. Porque a maioria é co-autor desse tipo de crime, mas eu não. Contudo, o que posso fazer não gera muitos resultados efetivos, porém eu nunca deixarei de fazer o que estiver ao meu alcance.

Em Fpolis, perto da UFSC eu encontrei algumas vezes um velhinho vendendo aves silvestres, ele ficava meio escondido na entrada da Caixa Econômica ali da Trindade. Por várias vezes eu liguei para a Polícia Ambiental e denunciei. Eu ligava, ele sumia. Alguns dias depois ele voltava, eu ligava novamente. Um dia o soldado que me atendeu disse: nós sabemos quem ele é, nós iremos lá, pode deixar, mas já te adianto que não vai dar em nada porque a gente leva ele preso e o delegado solta porque ele diz que não tem dinheiro, que não tem onde morar, que é pela subsistência dele, daí as aves a gente salva, mas ele volta”. Já denunciei dezenas de vezes extração ilegal de palmito e caça nos matagais da Ilha.

Porque doce engano do brasileiro achar que só criminoso do colarinho branco não vai preso, não paga (de alguma forma, mesmo que não seja a mais perfeita) pelos seus crimes. No Brasil a impunidade é geral. E não, não acho que “ladrão de galinha” ou quem roupa uma manteiga deva ser visto com bons olhos. Criminoso é criminoso e nada justifica. “Roubou pra comer” não serve como defesa pra nada. Está cheio de gente por aí que “trabalha pra comer” e mesmo quando passa fome, vê os filhos passando necessidade, não rouba.

E há uma discrepância no discurso das pessoas – que não é hipocrisia, não encontro uma palavra para definir – que são os co-autores desses crimes. Sempre tem aquela máxima de que o pai e a mãe, ou o marido, tem a responsabilidade, ou “sabe o que é melhor pra ele” e tal. Como se os pais que a gente vê por aí fossem responsáveis! Engraçado, porque pra uma mãe acabar com uma criança de dez anos ela pode porque é a “responsável” por ele e aí ninguém quer se meter, mas pra esse povo todo exigir escola, hospital, roupa e sei lá mais o que do Estado para os seus filhos, aí beleza! Afinal, quem é responsável por essas crianças?!

Há ausências e falhas de todos os lados. Mas omitir-se voluntariamente e covardemente é imperdoável. É crime.

Algum tempo atrás houve uma campanha em Fpolis para denunciar crianças exploradas pelos pais ou que andassem pedindo comida pela rua. Havia um telefone para fazer essas denúncias. E funcionava! Eu usei esse telefone várias vezes. Uma vez vi crianças pedindo comida e leite debaixo de chuva forte, à noite. Ao telefonar caiu no telefone da esposa do prefeito que era a idealizadora do serviço (em finais de semana e afins, o telefone era redirecionado diretamente para o dela e ela acionava a emergência). Por várias vezes ali na Massa Viva em frente à Pernambucanas, no centro, crianças pedindo comida para quem estava na fila. Uma vez uma criança ficava na fila da lanchonete do CCE pedindo comida. Não dei, nunca dou nada. A moça atrás de mim deu, quando eu saí a criança passou correndo e foi atrás da lanchonete, lá estava a mãe sentada, ela arrancou o lanche da mão da criança e comeu tudo sozinha enquanto dizia: volta pra lá! E aqueles olhos, úmidos, brilhantes, o rosto convulsionado depois da alegria repentina de ter ganhado um salgado. A minha revolta e indignação gritaram, eu telefonei para o número da denúncia, procurei na internet outro número e o serviço não existia mais. Simples assim, não existia mais.

É uma frustração, uma indignação e uma revolta que em mim não encontra limites. Agora, covarde, calada e sem ação, nunca.

E você? Faz o quê? Ou vai dizer que nunca viu nada disso, desconhece casos semelhantes?

Porque não há nada mais vil e repulsivo do que dizer: mas não adianta! Seu bosta, você que diz isso.

A culpa é de todos. Mas fazem de conta que não é de ninguém.

Talvez seja pela minha educação (falarei disso em outro post), pelo meu espírito. Ou talvez seja só vergonha na cara mesmo.

E, cuidado, a maldade está em todas as almas.

E por falar na Ilha – Um pouco de Fpolis

Escrever sobre Florianópolis, ou sobre Fpolis como eu prefiro, ou ainda a “Ilha” como eu chamo, é algo especial. Desperta em mim centenas de sentimentos, mas, claro, com um bom senso do muito que se diz por aí, do que as pessoas pensam e como agem. Não é, em absoluto, “definitivo”.

 

 

Sobre classes sociais muito se fala atualmente porque o Brasil encara um “sucesso” econômico (que causará mais problemas e uma derrocada nunca antes vista, mas esse é outro assunto). A única coisa que eu gostaria de escrever aqui sobre isso é que tem quem está lá em cima, sobre o seu umbigo, e tem aqueles que andam por aí com as viseiras de cavalos, tem os que, ignorantes, disso muito se orgulham, os que nasceram para reclamar e não entendem a existência de um mundo além das suas janelas, e muitos outros “tipos” que empestam o mundo que é, assim, tão lindo.

 

Vamos pensar em algumas das coisas que mais se diz da cidade: provinciana, atrasada, “imóvel” (sobre a falta de mobilidade urbana), sem atrativos culturais, cara, somente para turistas, “pequena”, etc..

 

Antes de tudo, como em muitas discussões que já tive sobre o assunto, gostaria de ressaltar um ponto (que por mais óbvio que seja parece passar despercebido): tirando a pequena porção continental de Fpolis, ela é uma Ilha. Sim, uma Ilha. E eu tenho um desejo invencível de que as pessoas entendam de que uma Ilha tem limitações, a começar pela física. Aqui, há um começo, um meio e um fim. Sinto-me boba em citar isso, mas infelizmente é necessário.

 

Um dia, levei meus pais para almoçarem no Ribeirão da Ilha. A famosa Baldicero Filomeno lá com seus mais de 20 kilometros. E meu pai dispara: onde vai dar essa rua? Eu: em lugar nenhum, ela tem “fim”. Se o pai quiser, por trilha, deixando o carrinho lindo estacionado, chegará a uma bela praia chamada Naufragados, com farol! A cara de incredulidade do meu pai dizia tudo. Curitibano típico, não concebia que uma rua daquelas não levasse a lugar nenhum, que não fizesse conexão com outro bairro, outra via.

 

No mesmo dia, levei-os pela Pequeno Príncipe (agora posso dizer “pertinho de casa”) e meu pai chocou-se ao ver que a rua acaba na praia. Pai, aqui é uma Ilha! Nem preciso dizer que ele detesta dirigir aqui. Para ele não faz sentido. Meu namorado, por outro lado, manézinho típico da Lagoa, não se entende com o sistema de “quadras” de outras cidades.

 

Com esses exemplos posso mostrar o rídiculo de pessoas que vêm para cá e reclamam de coisas sem perceber, inicialmente, as peculiaridades do local. Do alto dos seus umbigos e da sua ignorância, não identificam expressividades tão latentes de onde se encontram e volta e meia você ouve um “mas lá em São Paulo”, “porque no Rio não é assim” e blá blá blá. Sim, muito blá blá blá.

 

Eu devo dizer que tenho fascinação pelo fato ilhéu de que a rua termina na praia. Sempre quis morar em um ilha só pra mim (quem me conhece lá dos velhos tempos sabe disso), aqui só tenho que dividi-la com umas centenas de milhares de pessoas. E, sinceramente, em vários lugares sequer percebo que existem essas milhares de pessoas. Sabem por quê?

 

Pois lhes digo: porque muitas pessoas não vivem a Ilha. Sim, isso mesmo. Como em todas as cidades, a maioria da população restringe sua “vivência” a poucos lugares, bairros e regiões. Eu acho isso triste.

Conheci algumas pessoas que moravam a anos aqui na Ilha e não a conheciam de verdade, sim, fiz lá minha boa ação e levei-as a explorar esse mundinho lindo. Outras sequer se interessam em conhecer. Paciência.

 

Não vou cometer a infâmia de compará-la a Ibiza, às ilhas gregas, à Salvador, ao Rio, ou a sei lá mais qual “lugar-maravilhoso-do-mundo-quando-somos-só-turistas-e-não-moramos-lá” que as pessoas tanto gostam de comparar, até porque nem os conheço. Fácil chegar em um lugar, ficar dois dias, uma semana, como turista, achar tudo lindo maravilhoso e comparar com o “inferno” onde você mora, trabalha, estuda e passa 90% do ano querendo fugir dali.

 

Sou turista de carteirinha e não me atrevo a, como turista, comparar nenhuma cidade na qual eu não tenha vivido de fato. Por isso, posso falar de duas cidades além da Ilha: Joinville e Curitiba. Talvez ao final eu diga o que me impede de voltar a morar nessas duas e o que me motiva a ainda morar por aqui. Talvez.

 

Pois falemos de Florianópolis (Floripa, nunca!). É uma cidade pequena, sim, é. Lembrem da limitação física. É linda? Sim, sem dúvida. É feita só de surfistas, turistas e marias-da-praia? Não, é óbvio que não.

 

Geograficamente a Ilha é linda. Áreas planas por onde o mar passou e baixou intercaladas por morros altos que eram antigas ilhas. Simples assim. Norte e Sul com características distintas, e as pessoas esquecem que há sudeste, oeste, sudoeste. O Leste as pessoas lembram porque tem a tão afamada Lagoa da Conceição, o reduto mais “cosmopolita” da Ilha para alguns. Dizem as más línguas que a Lagoa com seu cosmopolitismo subdesenvolvido não é nada perto dos lugarezinhos pop mundo afora tipo uma Lapa da vida do Rio de Janeiro. Geograficamente, portanto, ela viabiliza regiões e lugares com muitas características distintas e até, diria eu, para quase todos os gostos.

 

Sobre um comentário bem comum que citei acima: quem insiste em dizer que tem gente que acha ou que parece que a Ilha é só para surfistas e afins, eu digo que é de uma ignorância sem tamanho! Muito mais coerente dizer que é o lar do funcionalismo público, por exemplo. Uma fatia enorme da população da cidade é dessa “casta”, seja federal, estadual ou municipal. São eles que elevam alguns índices da cidade como a renda per capita, o número de automóveis, o valor dos imóveis e de alguns lugares. Não esquecemos que ela é a capital do Estado (este, por sinal, nutre por ela um ódiozinhoo doentio).

 

Os morros limitam, também, fisicamente o avanço dos seres humanos. Ponto positivo, sem dúvida. Um pouco de História: a Ilha foi “colonizada” em pequenas vilas, divididas pelo morros e pelos limites naturais dela. Comum era encontrar as trilhas ou caminhos de bois que ligam esta àquela vila, freguesia e afins. O manézinho vivia no seu terreno enorme, cultivando a mandioca, tendo seu engenho, pescando. O filho casava, fazia sua casa no mesmo terreno e por ali ficava. Localidades como Brava, Ponta das Canas, Lagoa, Sertão do Ribeirão e dezenas de outras formaram-se assim. As distâncias, à pé ou com carro de boi, eram enormes, com muitos morros quase intransponíveis. Pouco havia de “mobilidade”. As freguesias e o que chamamos de “bairros” hoje se formaram assim, com grandes propriedades familiares e que supriam suas necessidades com os famosos “centrinhos” na “geral”. A “geral” é normalmente a rua principal ou mais central de uma localidade, e onde há o centrinho com um mercado, uma loja disso ou daquilo. Assim os manézinhos contornavam as limitações físicas da Ilha (vejam bem, hoje eles são chamados pejorativamente de “manézinhos”, mas sempre foram bem espertos, compreendiam algo que os mais letrados e graduados hoje não percebem), fazendo seus caminhos e suprindo suas necessidades sem grandes desgastes.

 

Eis que um dia o mundo descobriu a Ilha. E aí chegaram pessoas de fora que ficaram deslumbradas com paisagens que são, no mínimo, deslumbrantes realmente! Se o manézinho sabia disso? Claro que ele sabia. Porém, é uma característica do manézinho não achar assim tão extraordinária essa paisagem, como, por exemplo, é raro o manézinho tomar banho de mar. A Ilha, para o mané, é o comum, é o diário dele, ele conhece e vê aquilo como “normal”, “natural”. Dali ele tira seu sustento e ali ele vive. O mané não está de férias aqui, nem precisa tirar fotos para mandar para os amigos dizendo que ele mora ali. Há uma diferença de perspectiva aqui. A perspectiva do mané e a nossa, mundo deslumbrado. (vejam bem, há os pobres de alma que nem conseguem se deslumbrar com as belezas naturais da Ilha)

 

E aí os deslumbrados chegaram para aquelas famílias pacatas com seus terrenos à beira-mar e ofereceram dinheiro (pouco, é verdade) para eles, em troca do terreno. Os manézinhos que não são burros, pegaram o dinheiro, olharam para aquele terreno insípido, grande demais, que dava trabalho e foram lá para o centro, para algum lugar que não fosse tão longe do trabalho, fizeram concurso e se estabeleceram com um novo tipo de vida.

 

Os terrenos? Foram estripados, construíram coisas abomináveis sobre eles, avançaram terras proibidas, hiperinflacionaram seus preços e mais gente veio para cá ficar deslumbrado, inclusive os argentinos. Assim a Ilha tomou seu novo rosto, muitas daquelas freguesias e vilas que ficavam isoladas foram conectadas ao mundo com vias simples e longas estradas, a construção de casas, prédios e coisas inomináveis surgiram e pintaram novas paisagens, ali ao lado do mar e das lagoas, no morros, nos penhascos.

 

O manézinho se modernizou, dispensou a casa à beira-mar ou a casa com uma vista maravilhosa, pois isso tudo ele sabe que é dele. E a Ilha, por um lado, ganhou muito com isso. A maioria esmagadora do comércio na cidade é de pessoas de fora, o manézinho mesmo não tem muita familiaridade com esse ramo. Uma facção deles gosta de viver à sombra de aluguéis de temporada ou desses estrangeiros que por aqui decidem ficar alugando construções duvidosas, casas e similares. Outros fazem carreira no funcionalismo público. Alguns poucos ainda vivem como seus antepassados, ali à beira do mar, pescando, cuidando da sua pequena plantação, em localidades de difícil acesso (segundo uns). Essa é a Ilha deles.

 

Se dependesse deles a Ilha teria alguns sérios problemas. Mas quem veio (e vem) de fora supre algumas dessas “falhas”, como o exemplo do comércio. Este, aliás, que é muito bom, acima da média do Estado, tem para todos os gostos e todos os bolsos – faltando um pouco, talvez, o do super luxo (que, na minha opinião, não faz nenhuma falta porque quem quer isso vai lá pra Londres). Em algumas áreas, pelo contrário, os que vêm de fora apenas estragam.

 

E aí é o ponto mais triste da situação: Fpolis é a cidade mais descartável de que eu tenho notícia. As pessoas vêm, usam, abusam, tiram todo proveito e vão embora – deixando um rastro de sujeira, danos e estragos irreversíveis. A “mobilidade” da Ilha, neste sentido, é enorme. E eles, é claro, aproveitam para criticar, criticar e criticar enquanto estão aqui. (dizem as boas línguas que depois que vão embora “morrem” de saudade, declaram seu amor e volta e meia ligam para os amigos e/ou familiares dizendo quando chegarão – nem que seja por um dia!)

 

Não vou dizer que lamento, porque acho que devo lamentar coisas mais sérias e irremediáveis como as chuvas que castigam algumas regiões do Estado nas últimas semanas. Poderia dizer que tenho aversão, aí sim. Vejo textos e mais textos da playboyzada paulista ou do high society mané (filhinhos de papai que choram por terem nascido aqui nesse mundo atrasado e fogem para qualquer europa da vida na primeira oportunidade) e até comentários ao vivo sobre essa Ilha tão retrógada.

 

Pois eu digo que quem não sabe viver onde ama não merece nada da minha atenção. Desprezo profundamente as pessoas que vivem onde não estão felizes, são esses que só pioram o lugar, não fazem nada para melhorar e, por isso, são dispensáveis. Além de só saberem criticar do alto dos seus umbigos, no meio das suas baladinhas do P12, dentro dos seus carros do ano com seus Ipods entupidos de músicas do momento. Ou mesmo aqueles que chegaram de pára-quedas, foram morar nos rincões perdidos (e baratíssimos) da Ilha, pegaram um subemprego qualquer e sentam seus bundões nos ônibus para suspirar por São Paulo “que não é como aqui, tudo longe!”. Porque Educação, bom senso, auto-crítica nem nada dessas boas coisas escolhe quanto você tem na carteira.

 

Só lhes digo uma coisa, esta publicação “to be continued”. Pois comecei a escrevê-la impulsionada pela revolta, levei mais tempo do que esperava por turbulências de um dia e me aflijo sinceramente com a chuva que vai, novamente, devastar Santa Catarina, principalmente o Vale do Itajaí.

 

No próximo, prometo dizer do que gosto daqui. E tentarei imaginar porque isso não faz a cabeça de muitos. Tentarei elencar os “problemas” da cidade e farei meus comentários, mas já adianto uma coisa: as pessoas criam os maiores problemas da Ilha. Voltaremos!

 

 

 

E a Ciência diz que a dor de amor dói

Não preciso que ninguém me diga, muito menos a Ciência, que a dor de perder alguém que você ama dói! Ó!

“o que não mata, fere”

Perder quem amamos dói, e dói muito.

No caso de relações amorosas, dói mais para aquele que perde por própria responsabilidade (ou “irresponsabilidade” em muitos casos). Deve doer ao nível do quase insuportável. Desconheço essa dor, mas sei que a maioria esmagadora por aí sofre por ela.

A dor latente é aquela quando perdemos quem amamos para o irreversível, para o que nos causa a maior frustração de todas, para a morte, enfim. Só respeito essa dor.

Porque toda dor dói, mas, garanto, passa!

Por isso, se não for no caso da morte, só vá embora ou deixe o outro ir embora quando não há mais amor. Porque aí não dói nada. Ao invés de dor, haverá somente uma leveza incrível e umas poucas fotos para apagar.

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

Acima ↑