Pretensões

Eu aqui nessa pressa e nessa angústia de escrever algo tão inteligente, com aquelas frases bonitas que dão vontade de publicar nas redes sociais porque, a gente sabe, como é pretensioso todo ser que acha que tem algo a contar. Vejam a fila do supermercado: não anda. Aqueles dois a falarem de tudo de ruim, “Sabe o preço da cebola? Então, e o gás, rapaz! A conta de luz tá mais que o dobro do mês passado e o dólar passou de quatro reais!” como se alguém ainda não soubesse, eles tagarelam interminavelmente. E a fila não anda. Agora até eu sei que a filha de um deles vai casar – mas ama outro que não o noivo. Não entendo muito da vida, mas sei que na ficção isso acontece bastante.

E eu aqui, nessa pretensão de contar alguma coisa. Como a recepcionista daquele prédio, disse pra colega que vai comprar quatro peças de roupa – vocês sabem como é, não dá pra ser só recepcionista, tem que fazer uns bicos, já viram quanto que tá o Omo? E a moça pegou uma blusinha rosa que não esconde quase nada por cento e quinze reais. Cento e quinze, meu amigo? Imagino aquele senhor do supermercado, se a visse, certeza que perguntaria “e a crise?”. Mas a colega disse que parcela em até quatro vezes. Chega natal e nada da blusinha estar paga.

E eu aqui vendo uma formiga atravessar o estacionamento, daquele tamaninho e contra o vento forte e frio. Como o senhor da fila do supermercado que cortou a sagrada cerveja com alcatra de domingo – agora só uma macarronada ou, no máximo, um frango assado, sem álcool – e quase chorou quando, baixinho, confessou ao amigo que vai pagar sozinho toda a festa de casamento da filha. Insistiria, quem sabe, na metáfora “as formiguinhas somos nós”. Mas, coitadas das formigas, ou felizes delas, sei lá. O escritor é quem não as deixa em paz.

E eu aqui, pois escritor não deixa ninguém em paz – nem a si mesmo. Fui dormir e as histórias não deixaram, enquanto você não as coloca no papel e põe o bendito ponto final, elas ficam aí nesse ego inflado achando que têm tudo a nos dizer. E eu querendo pensar “deixa a moça comprar a blusa e não deixa a tua filha casar”. Mas o que eu tenho com isso? Quero mais meu sofá com um bom filme de amor do século passado que amanhã eu tento de novo.

Você talvez não saiba

Meu avô dizia: a ocasião faz o ladrão. Faz tempo que não escrevo coisas do meu cotidiano (tenho evitado), porém, por motivos nobres, abrirei uma exceção.

Quais os motivos? Sei que não sou a única (nem de longe) que passa por isso. Sei que o ser mulher é muito diferente de qualquer outro ser (no sentido ontológico mesmo) e não, o mundo ainda não atentou o suficiente para isso. Sendo do sexo feminino, não importa a idade, estar acima, abaixo ou no peso, estar com tudo em cima ou desleixada, ter cabelo curto, comprido, médio, loiro, ruivo, pintado ou branco. Não importa. Você é do sexo feminino e será vítima de situações de violência, de opressão, de intimidação. Por ser mulher. Antes: não sou feminista. Tomo todo o cuidado, por princípios, de me manter distante de bandeiras de lutas (sociais, ideológicas, sei lá) – exceto minha predileção política e econômica pelo Liberalismo, mas é outra história. Tenho pra mim que determinadas coisas, quanto mais hasteadas as bandeiras, mais elas de afastam de ser dizimada das atitudes das pessoas. Posso estar errada. As cisões sociais e afins tendem a aumentar, a tornarem-se mais radicais, quando são expostas – enquanto eu sonho que possam ser diluídas até não mais existirem. Contudo, é preciso que sejam relatadas, expostas, esfregadas na cara dessa gente que tem a mentalidade e, pior, a atitude de quem vê o mundo com olhos estúpidos.

Era cedo, mas não muito, quase oito da manhã. Saí de casa para caminhar até uma parte da praia. Muitas, muitas e muitas vezes fiz e farei o mesmo caminho. No Verão, muitas vezes o fiz realmente cedo, lá pelas seis, para ver o sol nascer. Estava com a câmera fotográfica no estojo dela e o mp3 (não ouço música no celular), só. Calça comprida, camiseta, casaco de moletom, tênis, cabelo preso. Mais comum, impossível. Fiz meu velho conhecido caminho e desci até uma ponta de pedras. À direita, uma longa praia de mar aberto, esta curta ponta emenda um caminho de pedras que leva a outra praia ao lado, menor e de mar fechado pela enseada. Caminho muito comum, todo mundo conhece, parte de cimento, inclusive. Dia nublado, praia vazia. Sentei ali nas pedras e fiquei algum tempo.

Eu gosto do mar. Uma parte de mim só existe porque eu aprecio ficar muito tempo observando o mar, fotografando ou não, ouvindo música ou não, pensando ou não. Dos meus vinte e tantos anos, uma parte foi passada assim.

Depois de um tempo, vi um homem que vinha da praia de mar aberto em direção às pedras. Não fiz nenhum contato em nenhum momento. Fiquei ali sentada como estava até então. Ele veio até perto de onde eu estava. Ficou um pouco ali e seguiu para o caminho entre as praias. Nessas horas, eu macaca velha, já tinha ligado aquele alerta que, sendo mulher, nunca desliga. Fiquei na minha, mas sem “dar na cara” não deixei de observar onde ele estava. Um tempo depois, sentei em outra pedra ali ao lado. Ao levantar, vi que ele fazia de conta que examinava as folhas de um mato que crescia no caminho pelas pedras. Da curva onde ele estava “distraidamente” parado dava para me observar. Fiquei ainda um tempo lá (minha intenção era, na volta, ir pelo caminho e passar pela outra praia) esperando que ele tivesse ido para eu poder seguir pelo mesmo caminho, de preferência sem encontrá-lo novamente.

Até o momento, claro, além do olhar insistente na aproximação de onde eu estava nas pedras e ele ter ido e voltado “para ver o mato”, nada me dizia que ele era um perigo real. Como eu disse, são vinte e tantos anos de vida muito bem vivida – e eu não deixo escapar nada. É assim que a gente se cria, olhando tudo, vendo os possíveis suspeitos, sabendo quando está ou não vulnerável. A praia estava realmente deserta, apesar de eu saber quais casas ali perto têm moradores. Ser do sexo feminino é, o quanto antes na vida, estar ciente de ter que cuidar de si mesma – o tempo todo. E eu sempre fui sozinha, sempre andei sozinha. Ele era um estuprador? Um galanteador barato? Um tarado? Tinha se apaixonado fulminantemente à primeira vista por mim? Não sei. E nunca, em nenhum caso, eu tenho desejo ou interesse de descobrir.

A gente aprende que homens são assim. Eles são conquistadores, eles tentarão qualquer coisa, eles, é óbvio, não precisam estar apaixonados por você, mas podem até dizer isso – nem que seja num encontro na rua. Homens são uma ameaça. É isso o que a experiência nos diz. Se nós temos que viver em alerta, vocês têm que viver provando que não são uma ameaça. Falem o que quiser de mim, que sou traumatizada, rancorosa, o escambau. Eu sei que aprendo com a vida – e sou uma baita observadora.

Eis que vi quando ele voltou um pedaço e ficou fingindo qualquer coisa só para me observar. Cancelei a volta pela outra praia. Fiquei mais um pouco ali, até que ele sumiu de vista. Talvez tivesse seguido o caminho. Esperei mais um pouco para garantir a distância e levantei para vir embora. Quando desci das pedras fiz questão de olhar para trás. Lá estava ele, esgueirando-se pelo caminho entre o mato, procurando por mim nas pedras onde eu estive antes. Até que, de longe, viu que eu já estava no caminho que seguia para o outro lado. Ele nunca seguiu o caminho das pedras para a outra praia. Ao me ver voltando, também voltou. Não apressei o passo, ele estava longe. Voltei pra casa com algumas bonitas fotos, com pensamentos bons embalados pela trilha do mp3: como eu amo tanto, mas tanto, e jamais deixarei de fazer. No entanto, neste dia, voltou comigo uma espécie de desalento.

Frequento esta região há muito tempo. Não sou de ir à praia só no Verão – Deus me livre! Sou sozinha. Ainda hoje, desde meus doze anos, ouço conhecidos e gente da família estupefatos porque fico sozinha, saio sozinha e tal. Porque há um silêncio sobre o conhecimento de que o perigo ronda qualquer criatura do sexo feminino. Não sou medrosa, nem temerária, com o tempo a gente vai aprendendo, mas meus dez anos já sabiam muito do que eu sei hoje sobre os perigos que rondam. É um fardo que a gente carrega a vida inteira.

As palavras do meu sábio avô me vieram aos pensamentos, pois não sei nem posso acusar aquele homem de algum crime. Talvez seja um cara comum. Como você. Como o seu pai, como o seu tio, como o seu filho um dia será. E talvez os homens não entendam que mesmo uma abordagem assim supostamente sem violência ou violação explícita é marcante. É traumatizante. Eu que sou até que, sei lá, forte (não é bem essa a palavra). Mas muitas mulheres sucumbem. Muitas ficam atemorizadas – com razão. É que a vida já me ensinou a duras penas que não posso guiar a minha vida pelo mal que os outros me fazem.

E esse cara comum que estava passando ali numa praia vazia e viu uma mulher com quem, sei lá, ele pensou que poderia entabular um papo legal é um babaca. É um babaca que intimidou, que cerceou, que vigiou, que certamente não teve as melhores das intenções. Talvez tenha voltado pra casa, sentado à mesa com a esposa e filhos, tomado seu café – e jamais voltou a pensar sobre. Mas certeza que em qualquer outra oportunidade que aparecer, agirá do mesmo modo.

Não foi a primeira vez que passei por isso. Sei, infelizmente, que passarei por isso o resto da vida. Como eu disse, não importa peso, idade, nada. Estava ali, largada (meu normal, viu), feliz da vida, quieta com meus pensamentos, com sobrepeso, roupa fuleira, naquela alegria de pensar que o mundo não existe e que ele não sabe que eu existo. E aparece um babaca desses.

Desta vez não houve abordagem. Mas e aquela vez na praia do Campeche, o mineiro bêbado? E o cara no trem de Porto Alegre? E tantas, tantas, tantas, outras vezes? E, claro, meu interesse em especial, os conquistadores on line? Aquele que elogia tuas pernas nas fotos do Instagram, o que te persegue no Twitter, o que manda fotos obscenas no Facebook? Não bastava o mundo real? No mundo virtual chega a ser muito pior na questão de invasão e quantidade. Qualquer um te encontra, mesmo você estando quietinha escondida em casa.

A real campanha contra essa mentalidade idiota, machista, superior, estúpida dos homens que praticam a violência (de todo tipo) e violação contra as mulheres só se dará pelos próprios homens. Vocês precisam assumir o que fazem e condenar isso. Não basta o cara que se diz feminista, respeita as mulheres e blábláblá – conheço muitos desses, que praticam coisas inomináveis. Tem que assumir a culpa. Assumir diante de todos: eu assobiei quando uma gostosa passou, eu dei em cima de uma no bar por causa do decote dela, eu fiquei obcecado por fulana e fiz da vida dela um inferno, eu fiquei observando fulana no trabalho. Não vem com o papo “não fiz nenhum mal” porque certeza que tudo isso que vocês fazem, nós sabemos, nós percebemos, nós sentimos. Na maioria esmagadora dos casos, a gente faz de conta que não sabe de nada.

Eu lamento que esses babacas, que hoje fazem isso, têm filhos. E filhas. E eu sei, não é difícil prever, que eles serão criados à imagem e semelhança – pois filhos aprendem muito observando seus pais. E elas crescerão ouvindo e recebendo instruções silenciosas de que “precisam se cuidar”. Deve ser complexo ser homem, também, sabendo que é uma espécie que ameaça, com a simples existência, seus iguais. Não são as mulheres, denunciando e contando (como fiz) que mudarão isso. Somente os homens, assumindo que são o problema e que devem corrigi-lo, podem fazer algo – assumir a culpa diante dos outros é o primeiro passo, o segundo é ser um fiscal dos outros homens, deixando de vez a posição de cúmplice e comparsa. Enquanto isso, teremos leis Maria da Penha, do Feminicídio, etc.. Até quando vocês farão leis para nos proteger de vocês – nos proteger do simples fato de que somos do sexo feminino?

Você talvez não saiba, mas não vai encontrar o amor da tua vida num encontro casual à beira-mar.

Já pode casar

Todos diriam que Mariana fora um bebê tranquilo e uma criança que nunca dera trabalho – e estariam certos. No meio de irmãos bagunceiros, sua retidão ganhara destaque. Previsível, Mariana fora sempre obediente e boa aluna. Aprendera cedo a cozinhar e a costurar. Um dia, diante de uma Mariana surpresa, a mãe ficara encantada com o vestido que ela havia feito para a irmãzinha e exclamara “Já pode casar!”. Mariana não entendeu a frase, mas ficou quieta.

Pouco tempo depois, ao fazer uma sobremesa para o dia dos pais, fora a vez deste surpreendê-la, “Já pode casar, filha!”, e assim ela cresceu e tornou-se adolescente; por algum motivo muito misterioso, quando ela cozinhava bem, costurava algo ou limpava a casa, as pessoas lhe diziam que ela poderia casar.

E foi no começo da adolescência que Mariana encontrou o amor da vida dela. A professora de Ciências falava sobre as fontes de energia renováveis, sobre o petróleo, o carvão, sobre formações sedimentares e todo este universo encantador quando Mariana descobriu a biomassa. Apaixonou-se. Pesquisou muito, procurou professores, falava sozinha sobre as maravilhas que a biomassa poderia fazer pelo mundo e pelos seres humanos. Depois de encontrar o amor da vida dela, a biomassa, ela queria salvar o mundo também.

Mariana decidiu que estudaria inglês para conhecer mais sobre a biomassa. E quando foi a primeira colocada depois de cinco anos de curso, não ouviu um “já pode casar”. Mariana teve as melhores notas da turma no ensino médio e isto lhe valeu uma medalha: mas nem depois da festa ela ouviu um “já pode casar”. No ano que faria vestibular, decidiu trabalhar meio período para pagar o curso de alemão, pois o inglês não bastava. Apesar das dificuldades que teve, em menos de um ano já se sobressaía na turma: nem por isso ouviu “já pode casar”. Fazia o terceirão, trabalhava, cursava alemão e ainda arranjou tempo para o intensivo do pré-vestibular. E no final do ano lá estava ela, com foto no jornal e tudo: primeiro lugar geral da universidade federal. Teve até faixa na frente de casa, mas ninguém lembrou de lhe dizer “já pode casar”.

Sempre a melhor aluna do curso, não perdia de vista a biomassa. Os professores a admiravam e no segundo ano conseguiu estágio e participava de um grupo de pesquisa. Nem assim, com artigos publicados e pesquisa avançada alguém lembrava de lhe dizer “já pode casar”. No dia da formatura, claro, foi a melhor da turma e recebeu a notícia de que já estava aprovada no melhor mestrado do país. Nesta noite de comemoração, ela até aguardou que alguém lhe dissesse “já pode casar”. E nada. Terminou o mestrado em menos tempo do que o previsto e tinha em mãos o projeto do doutorado – elogiadíssimo pelos seus pares. Com confiança, mandou para a melhor universidade do mundo que pesquisava biomassa.

Naquele dia, ela entrou esfuziante em casa, com uma carta nas mãos. Seu sorriso gritava alegria: fora aprovada no doutorado. Encontrou o namorado no sofá, assistindo a um filme com tiroteios sem fim.

– Amor! Amor! Fui aprovada! Pro doutorado! – ela engasgava de felicidade.

– Ah, é? Que bom, amor. Mas a gente tem que ver isso daí. Não dá para esperar quatro anos para casar, e eu não posso ir. Depois a gente vê, né? Me traz uma cerveja?

Mariana foi até a cozinha, abriu uma lata de cerveja, deu um gole e ficou pensativa. Deixou a cerveja na mesa sobre um bilhete: “Não posso casar”.

(texto publicado originalmente no jornal Notícias do Dia, de Joinville, na página da Confraria do Escritor, em 14 de setembro de 2014)

Vô centenário

Ao meu avô, Abib Cury, pelo seu centenário em 4 de junho de 2015.

Ele entrou pela porta e sorriu. “Ô, seu Cury, como vai?” era mais um amigo, um cliente que volta e meia aparecia com uma máquina de escrever Remington, meio velha, que engatava o R quando bem entendia. Ele entrava já dizendo, “A safada me judia, seu Cury. É eu precisar dela pra dar nisso.” e era recebido por um sorriso sem mostrar os dentes, o sorriso mais tranquilizador do mundo.

Se me perguntassem, eu diria que meu avô tranquilizava as pessoas. Pois eu não via viva alma ali entrar que não fosse em profundo desespero com suas máquinas travadas, sem fita, letra quebrada, debaixo do braço. E meu avô, ali do balcão em frente à porta sorria. Se eu fosse um pouco mais velha pensaria que ele era dessas pessoas que já viram tudo na vida e, por isso, a todo o mal, apenas sorri. As máquinas, sendo máquinas, enfim estragavam. E ele era esse herói que salvava a todos. Se eu via desespero nos olhos deles, a angústia é que dominava quando vinha com a minha máquina – primeiro as de conta, um tempo depois as de escrever – emperrada. E ele? Ele sorria e consertava, sem deixar de me mostrar o que tinha acontecido e como resolver. Com ele aprendi a aprender. Era assim, eu ficava ali e observava tudo. O torno, o esmeril, as bancadas, as enormes luminárias, eram os personagens das minhas histórias infantis.

E o movimento quase não parava. Entrava um, logo outro, era raro o nosso oficina ficar vazio. De vez em quando estacionava um carro e desciam várias máquinas, eram de alguma escola, comércio ou escritório. E lá iam elas para a prateleira preta no fundo do corredor, cada uma com o nome e o telefone do dono, anotadas num pedaço de papel de bobina de máquina. Ali elas dividiam o espaço com os garrafões de vinho. Ah! Se você fechar os olhos agora e imaginar o cheiro de graxa misturado com o cheiro do vinho conseguirá se transportar pra lá. Era gente da cidade inteira que parava ali. E tinha quem nem vinha arrumar máquina, aparecia só para conversar com o seu Cury, que debruçado no balcão sobre alguma revista ou jornal, falava de tudo do mundo todo – foi com ele que aprendi a ouvir.

Eu fui criada ali, entrava correndo por uma porta, me atirava voando pela outra, pedia uma ferramenta, sumia e voltava pra chamar para o café. A vó me mandava chamá-lo e eu voltava dizendo, “Vó, é o seu fulano que tá lá.” e ela já suspirava: era daqueles que a conversa ia longe. Eu participava como de um evento solene quando ele ligava o esmeril e quando ele ia até a cobertura do lado de fora pintar alguma peça com o jato de tinta. Com ele aprendi a me fascinar. Eu? Eu sabia onde ficava tudo ali, era só me pedir. Aquela tesoura preta gigante era minha obsessão, eu sempre queria cortar qualquer coisa só para poder usá-la.

Meu avô sorria e resolvia todos os problemas de todos, sempre. Naquela época as máquinas elétricas já tomavam o lugar das prateleiras. Hoje, com seus 100 anos, meu avô não teria máquinas de escrever para arrumar. E aqui do nosso oficina eu me imagino estragando de propósito a minha Olympia só para que ele, como um Aureliano Buendía, a arrumasse com suas mãos que são tão iguais às minhas – e eu a estragaria de novo. E assim passaríamos imunes ao tempo e ao mundo.

Foi na primeira máquina de escrever portátil que tive, presente dele, que escrevi meus primeiros versos. Daqui do oficina penso nas palavras como tranquilizadoras da saudade e necessárias à manutenção da alma – e me invade aquele cheiro de graxa e vinho. Pois sei que há famílias condenadas a cem anos de solidão, mas a nossa está condenada a morrer de tristeza.

Texto publicado no jornal Notícias do Dia, Caderno Plural – Confraria do Escritor. Joinville, 22 de junho de 2015.

Os sugadores de almas

Por uma dessas coincidências da vida, que de coincidência não têm nada, neste sábado pela manhã eu pude, depois de dias e dias tumultuados, voltar à leitura. As silenciosas manhãs de sábado sempre rendem bem, na leitura e na escrita. As coisas que, definitivamente, eu gosto de fazer desde cedo.

Lá estava eu, num dos últimos contos do livro, com um sol que já tinha deixado saudade, ao ar livre, bem acompanhada com um quatro patas. E eis que Balzac me surpreende com um conto que me tocou o coração – “tocou o coração”, daqui a pouco começarei a escrever rebuscado como ele e que ninguém me xingue, pois que lindo que é. Eu ria, sublinhava, sorria, anotava impressões nos cantos das páginas, conversava com o cachorro. Era um belo texto sobre quem adentra as almas que lhe são estranhas; sobre nós que andamos por aí a nos consumirmos nos outros. Não tanto pela história de vida mirabolante do veneziano, mas por construir a visão de como somos escritores.

E aí, horas depois, entro no Facebook e vejo que hoje é o dia nacional do escritor. Pensei, primeiro, que não recebi nenhum parabéns pelo dia – enfim, nada de incomum. Aí, pensei que era algo digno de escrever sobre para o blog (que determinei, dias atrás, que se chamará site daqui pra frente – mas, costumes, sabe como é). Pensei, pensei… talvez escrever sobre os meus autores favoritos, fazer uma homenagem pobre, é claro. Aí, pela origem da data, pensei que deveria escrever só sobre meus autores brasileiros favoritos – facilitava muito. Como cada um, em cada época da minha vida, me fez ser quem sou e ver o mundo como vejo. Mas, enfim, seria pobre diante de tudo o que vivi – as palavras, até elas, falham.

Então, lembrei do conto do Balzac. Havia terminado, na noite anterior, um conto que já havia mexido com essas questões de quem, diante de um talento (ou da falta dele), do apreço por alguma arte, se divide entre prosseguir (penosamente) na carreira ou assumir sua mediocridade e fazer um concurso público ou abrir uma loja. Pedro Grassou foi este, o do pintor medíocre que copia e copia e enfim ganha dinheiro e, atraído por mais dinheiro, casa. E foi deste que tirei uma idéia para escrever um conto que preciso – amparada na frase do próprio Balzac: Inventar em todas as coisas é querer morrer a fogo lento; copiar é viver.

O conto de hoje foi Facino Cane, e ele narra em primeira pessoa como a miséria o faz misturar-se às pessoas pelo prazer de senti-las, vivê-las, aprofundar-se nas suas almas e pensamentos, riquezas e misérias. É andar pelas ruas, ônibus, supermercados, sem fones de ouvido, olhos atentos e a alma invadindo as almas que permeiam o caminho. Eu jamais insistiria em ser escritora se não pudesse mais arrombar os corações e mentes alheios. O material humano é imprescindível para criar.

E foi assim. Ser escritor não é só para quem tem seu livro exposto na vitrine das grandes redes de livrarias e vivem com o dinheiro que recebem disso. Nós também somos escritores – os que vivem como Balzac viveu. A história dele é bem interessante e com detalhes pitorescos – é errado falarmos mal dele como fazemos hoje em dia, coitado. Adoro como ele cria frases feitas inteligentes e descrições concisas, mas se eu fizer isso, já antecipo os narizes torcidos das mentalidades pós-modernas. Sou do século passado, sou romântica incorrigível, não há o que fazer.

Pois bem, por que escrevo? Por que decidi ainda não assumir minha mediocridade e me assumir como escritora? Bem, acredito que devo estas explicações para encerrar o texto. Numa auto-análise (a pratico há muito tempo), escrevo porque sinto e penso demais (sempre fui assim e não é nada bom em vários momentos). E sinto com a cabeça, não se enganem. De tanto pensar, comecei a escrever para não, digamos, desperdiçá-los. E como não sou constante, escrever é um bom exercício para saber quem fui. Escrevo porque aprecio deveras o material humano e animal e vegetal do mundo – não saberia viver sem admirá-lo. Mas, acima de tudo, escrevo porque tenho medo de esquecer. Esquecer como eu era quando criança, esquecer a voz e o sorriso da minha avó, esquecer o amor incondicional que um dos meus cachorros me dedicou a vida inteira dele, esquecer como sou igual à minha mãe, esquecer como me decepcionei com os relacionamentos amorosos, esquecer como é descobrir certas coisas pela primeira vez. Tenho medo de esquecer. Por isso mesmo, às vezes escrevo vários textos, em épocas diferentes, sobre a mesma coisa. Que as lembranças nunca são iguais.

Ainda não assumi minha mediocridade porque, apesar do espírito velho, tenho ainda muito tempo pela frente. E não quero ser daqueles que aos quarenta ou sessenta anos se satisfazem em “agora eu vou fazer o que eu gosto na vida”. Não. Se perto dos trinta as coisas já começam a ficar difíceis, imagina lá na frente. Viver sempre é agora – jamais depois.

Tem um preço? E as escolhas que a gente faz? Blábláblá e já escrevi textinhos de quase auto-ajuda sobre isso aqui no site (rá!). Faço tudo de caso pensado e sem plano nenhum.

E quando eu for famosa, vocês lerão minhas entrevistas falando sobre meu processo criativo. Como gosto (descrevo a cena do momento) de escrever no final de tarde, numa poltrona de estimação que me custou meses de desejo e uma boa parte de um salário, sob as luzes de dois abajures (amo) com lâmpadas incandescentes (adoro a luz amarela e o calor delas), com uma gata laranja dormindo gostosamente no meu colo enquanto eu equilibro o computador nos joelhos e tomo meu Twinings com mel. Só pra manter a fama de escritor, essa gente fresca cheia de minuciosidades e não-me-toques. Ah, e tempos depois serei lembrada sobre o amor pelos bichos como um Hemingway, quem sabe. Fotos minhas com gatos não faltarão. Poderia, também, dizer que aprendi que só seria uma escritora quando me rendi à disciplina. E serei da turma dos que acordam cedo e tomam chá, como bons velhos, e não dos que varam a madrugada (“ó, melhor momento para a inspiração e tal” já fui dessas) e tomam whisky (está guardado aqui do lado).

Vejam só, escritores são personagens de si mesmos. Não se enganem. E enquanto isso, deixo minha memória aí guardada no site e nos HDs. Que lembrar é preciosidade das mais valiosas para quem sente demais a vida. Mesmo que jamais eu seja digna de receber os parabéns pelo dia de hoje, mesmo que o dia de assumir minha mediocridade chegue logo, sei que nunca deixarei de escrever.

amor de sueños

En mis sueños

tu y yo

y toda una realidad

que de los males no quedaba nada

tu y tu vida

yo y mis defectos, miedos y todo lo comprensiva que soy

esperaba los ángeles y los santos en la escena

a endulzaren nuestro amor que hace tanto

había de ser amado

y repartido en noches y días de problemas y desilusiones

el amor no pide finales felices

ni contratos y casamientos

ni que le des tu juventud y deseos

ni certezas ni planes

Nuestro amor solo pidió

un sueño

una invitación para cenar

un postre que me hizo suspirar

y lo sabía que tu

tenía hijos y trabajo y descreencias

y me pidiera que nunca lo dejara solo

por primera vez sentí que sería yo

sin disfraces ni negaciones

y ahora teníamos la mitad de nuestras vidas

para darle uno al otro

Teníamos ahora este amor

que no es esclavo ni amo

ni secreto ni anuncio de jornal

ni para siempre ni hasta mañana

ni de una dosis ni de resaca

ni de mentiras ni de verdades

ni de soledad ni de placer

teníamos ahora

este nuestro amor que es de sueño.

Adestrados

Os amores são ironicamente selvagens. Quanto mais domesticado o amante, menos ele entende de amar. Leia quantos livros você quiser, não aprenderá a amar seguindo as mais belas e certeiras regras. Essas pessoas que sabem respeitar e obedecer jamais amaram ou amarão. Se esse amor que te acalma o peito nunca foi a sensação de pular do precipício, deve ser alguma outra coisa que os psicólogos bem podem explicar, mas não é amor. Em todo amor há guerra, há conflito e por isso o amor rende tão bem à ficção. Não há amor na paz. Não há amor na civilidade. Amores se perdem em construir uma vida inteira juntos quando a realidade selvagem do amor é sobreviver a cada dia. Em caçar a comida, em encontrar um lugar quente pra passar a noite, em matar para viver. Passar a vida inteira se protegendo não é amor, é covardia. Os fracos não amam, eles se reconhecem. Se estabelecem e se reproduzem. O amor em si é estéril, abandona seus frutos ao Destino. Que filhos do amor crescem livres. Amores não existem para serem vividos, mas perdidos. Quem vive de garantias e de certezas não sabe perder – por isso não ama. Domesticam-se e sorrirão quando o outro chega, mas jamais amarão. Há ironia em amar. Há uma intrínseca ironia no ato de amar.

Com seu pêlo loiro alaranjado ela impulsiona o corpo com uma pequena saliência no abdômen e alcança, de uma vez, a mesa. Senta, de frente para a janela, e com desdém lambe a patinha direita.

Pelo sinal dos deuses ou do cupido, ele de imediato surge do outro lado do vidro. Cenho franzido, longas orelhas cinzas de Dumbo e a cabeça um pouco inclinada denunciam o que lhe passa pelo coração.

– Acordou tarde hoje. – ele diz ansioso.

Os olhos amarelos seguem da patinha para a janela sem nenhuma pressa.

– Eles ainda estão dormindo. – a fala arrastada.

A pata grande e forte, com grossas unhas, grava mais arranhões no vidro. Ele chora manhoso para só o cupido ouvir. A estátua de pêlos laranja não tira os olhos da janela. Num impulso, numa nada rara exibição de carinho, ouve-se um longo e exigente miado. Ela levanta e se espreguiça como se a vida fosse um eterno dolce far niente. Dele ouve-se um latido estridente.

– Já vai?! Mas já?!

– Eles estão enchendo meu pote de ração. – e como se voasse, sem olhar para trás, ela alcança o chão em disparada.

Os belos olhos azuis contemplam mudos o corredor vazio. Por longos anos, contrataram adestradores com o intuito de tirar-lhe – de qualquer jeito – este amor do peito.

Dos rios que atravessam cidades

Por que de ti afastam seus olhos?

Por que fingem que tu não existes?

Por que, num triste dia, deram-te as costas?

Cumpro aqui meu exílio

E faço-te companhia

Perdi horizontes sufocados a Norte e Oeste

E ficamos tu e eu a olhar quem não nos vê

Ó, Cachoeira!

Ouvi histórias de tuas glórias

Vejo-te sem poesia entre duas vias

Teu lodo não me detém em mistérios

E teu futuro não parece ter remédio

O que sabemos, tu e eu, do porvir?

Nada. E nada somado a nada

Já são águas passadas!

Tu, que trouxeste gente a esta terra

Mínguas em arrependimento

Da desgraça do que fizeram contigo

Tu que eras Rei límpido entre o verde

A sonhar-te um Nilo ou um Sena

O Tâmisa da proclamada Manchester

Entre suspiros querias ser o Tejo dos Poetas

Ou ouvir-te eternizado como o Danúbio

E para tantos sonhos

Não tens tamanho, não tens amor

Ó, Cachoeira

Teus jasmins arrancaram

E destruíram tua moldura de petit-pavê

À solidão te condenaram

Cercado por frondosos feios Ficus

Em tua cela de muros de pedra

Exilados nesta cidade

Aproxima-se o dia

Em que torres sufocarão o céu

E teu preto – cor do desprezo com que és tratado

Refletirá os corações – não mais tocados pelo sol

E você, pensa no outro?

As mais profundas mudanças sociais acontecem em tempos de crise – não sou eu que digo, está aí nos fatos ao longo da História. Não basta você querer que algo seja diferente, que um grupo seja visto e tratado de outra forma, que a mentalidade das pessoas conceba certos conceitos – não basta. É preciso que grandes (ou aqueles pequenos que causam uma explosão gigantesca) fatos intercedam. Não adianta nada só querer – não sei se estamos familiarizados com esta premissa hoje em dia. Querer algo bom é louvável, mas por si só não causa grandes transformações. Também não estou falando dos olhos que só vêem os próprios umbigos – aliás, para não deixar o texto fácil aos ataques, tentarei guardar um pouco o meu desprezo por essas pessoas. As coisas do mundo mudam porque as pessoas pensam no outro, jamais porque pensam em si. Não basta um pequeno grupo vítima de alguma injustiça ou atrocidade pensar nele, tentar lutar contra isso, é necessário que as pessoas de fora deste grupo pensem nele, no que aquelas pessoas sofrem e do que são vítimas. Infelizmente é assim. Deixemos, portanto, os umbigos de lado.

Independente se existe ou não, oficialmente, uma crise, passamos por tempos difíceis. Seja o preço da cebola que disparou ou as centenas de milhares de famílias que não estão em dia com as contas de cartão de crédito e financiamento da casa, o país não vai bem. É preciso deixar de lado, também, a fala do governo e de qualquer um contra o governo. Falo, portanto, do dia a dia, de nós, de pessoas. De todos que deixaram de ter aquele momento de ir ao cinema, de sair pra comer alguma coisa com o namorado ou com os amigos, de ir passear de carro aos domingos, de pagar a escola do filho, de pagar a conta de luz pra poder pagar o supermercado. De todos nós que abrimos mão de muita coisa pensando nos gastos e nos preços altíssimos. Claro, pode não ser o teu caso, querido leitor, e, então, não és um brasileiro comum.

Em tempos difíceis é fácil pensar ainda mais em nós mesmos. No quanto queremos sair dessa. E é justo neste momento de abrir mão de tanta coisa que o ser humano deveria pensar em quem já não tem muito – quem dirá abrir mão de algo. Na oração de Nossa Senhora do Desterro há uma passagem belíssima (me perdoem se já falei dela, mas uso-a com frequência): “Senhora do Desterro, olhai também por tantas pessoas em situação de desesperança, de aflição, em piores condições que as minhas.”. É num momento flagrante de ir orar por você ou por alguém ou alguma coisa que nos deparamos com isso: orar por quem (ser abstrato) está em piores condições, por quem necessita mais do que eu. Por pior que seja a nossa situação, por mais desesperadora, mais falida, haverá sempre alguém em piores condições que nós. Assim, a oração nos consola (num sentido religioso, que eu sei que nem todos compreendem ou acreditam) e nos faz agir como seres humanos – aqueles que não olham apenas para os próprios umbigos.

Trago a oração de Nossa Senhora do Desterro para tratar dos tempos difíceis. Somente nesses momentos o mundo pode mudar. E se não fizermos a diferença agora, jamais teremos a chance de fazê-la. Foi em tempos de guerra que as mulheres assumiram o trabalho “de homem” e saíram de casa para cuidar do sustento e fabricar armas para que seus maridos e filhos lutassem – e dali em diante ser mulher mudou.

E agora, em tempos de necessidade, quem precisa mais que nós? Pelo que conheço das pessoas, são poucas as que doam (roupa, utilidades para casa, comida, revistas, livros, tudo que uma vida precisa) com regularidade, que fazem da doação um hábito. Me dói conhecer pessoas que não doam. Para incorporar a doação como hábito é preciso aproximar-se de alguma entidade (um lar de crianças, de idosos, deficientes, instituições que cuidam de mulheres em situação de risco, orfanatos, instituições religiosas ou não que cuidam de famílias, que ofereçam ensino e cuidados, há de todo tipo, para casos e situações que nem imaginamos – em todas as cidades há), conhecê-la, saber como ela trabalha, a quem atende e do que precisa. É simples, em poucas horas você pode se inteirar disso. Em alguns dias ou meses é só acompanhar (às vezes por comunicados, mídia) as ações da entidade, ou procurar a história dela no município.

Conhecendo a entidade, é só doar. E doar, como diria o padre Juca, é doar aquilo que você precisa. Doar um sapato velho, uma roupa que você não gosta, tudo aquilo que você não quer mais, não é doar de verdade. O ato de doar algo a alguém é dar o que o outro precisa. O pensamento mais comum sobre doar é o que eu não quero pode ser útil a alguém – e isto é querer livrar-se de algo, não é, nem em última instância, pensar no que o outro precisa. Portanto, ao pensar em doar alguma coisa, separe aquilo que você imagina (ou sabe, pois as entidades podem repassar o que precisam no momento) que outra pessoa esteja precisando. E lembre que, quanto maior o guarda-roupa, menor o coração de uma pessoa.

Somos capitalistas, claro que sim. Somos consumistas demais e isso nem tem a ver com o capitalismo. Não cabe na discussão. Nossos hábitos não estão condenados a nada além da nossa consciência. Por isso sou dessas que condena sites de revenda de coisas que “enjoamos” ou “desapegamos”. Não é uma maneira de combater o consumismo ou mesmo dizer que temos hábitos diferentes da massa. É até pior, porque estes sites e comunidades geram ainda mais consumismo (vou numa liquidação, compro loucamente, depois fico meses com uma pilha de coisas que nunca usei e, rá, não tem problema, vou vendê-las e ainda ganhar um dinheiro – pra gastar de novo em coisas que…) e não geram fluxo de doação para quem precisa. Se eu já fiz isso de comprar coisa que nunca usei? Sim. Se eu já comprei por comprar? Sim. Se eu já peguei algo de que gostava e doei porque sabia que era necessário a alguém? Sim. Para alguns pode ser um caminho. Auto-analisar o próprio consumo, os próprios hábitos. Você precisa mesmo do dinheiro que vai ganhar vendendo meia dúzia de roupas e sapatos? Ou há alguém que precisa dessas peças mais do que você precisa deste dinheiro?

É simples. A gente só não faz porque se apega às coisas erradas. Não aprendemos a pensar no outro. É mais fácil um pai ensinar o filho a pensar no “amanhã” (guardar dinheiro, estudar pra ser alguém na vida) do que pensar no outro – até este outro que a gente nem conhece. Não é preciso, porém, tirar foto e postar nas redes sociais. Nem, meus queridos, esperar que o seu terreno no céu esteja garantido. Doar, lembrem, é porque o outro precisa. Não porque queremos mostrar nossas belas práticas diante da humanidade (nem sob a desculpa esfarrapada de que podemos “influenciar” positivamente os outros) ou porque nossa consciência já não comporta nossa lista de pecados. Se você pratica alguma boa ação (seja ela qual for – desde doações, trabalho voluntário, esmola a ajudar animais de rua e ajudar a construir hospitais) porque fazê-la te faz bem, você está fazendo isto errado. Seja por indicação terapêutica, de padre ou pastor, ou obrigação na firma, a ação em favor do outro nunca deve gerar a satisfação consigo mesmo nem qualquer tipo de prazer (se não me engano há algo de aristotélico nisso). Por isso deixamos os umbigos de lado lá no começo do texto.

Há quem pense que enfiar a mão no bolso atrás daquelas moedas que sobraram e jogá-las no chapéu de algum morador de rua é uma boa ação, é doar. Não é. É um ato de desprezo. Quem faz isso despreza a pessoa que cruzou o seu caminho lembrando-lhe que existe miséria e necessidade em todos os cantos – tanto quanto despreza aquelas moedas no seu bolso. Talvez seja um ato de auto-preservação do ser humano não querer ver as necessidades alheias, pois teme a qualquer momento passar por elas – passar fome, passar frio, não ter onde morar. Tememos tanto isso que preferimos ignorar que é um risco eminente pra todos nós, pois nunca se sabe (desculpem, não é argumento, mas o fatalista nunca se sabe é um mantra pra mim). Se não vemos vidas humanas em necessidade, podemos até acreditar que as necessidades em si não existem no mundo – e, portanto, não estamos suscetíveis a elas.

Há quem se engaje em qualquer campanha do agasalho, doações para atingidos por tornados e enchentes, e tantas outras que geram grande publicidade. É válido? Talvez. Diante de certos casos o próprio Estado deve intervir e ter, obrigatoriamente, um contingente de doações de artigos de primeira necessidade, mas o Estado é falho. E, vejam só, as pessoas não precisam de roupa só no inverno, porque ainda não é liberado andar pelado quando faz calor. Sim, no calor as pessoas também precisam de roupa – e, meus queridos, não vai dar pra usar aquele moletom que você doou no inverno. Essas campanhas de roupa de frio contam com o hábito que, em algumas regiões com estações bem definidas, as pessoas têm de guardar as roupas conforme o calor ou frio que faz. Aí, quando reabrem caixas, sacolas, guarda-roupas e se deparam com aquelas peças que nem lembravam mais, querem se livrar delas, vêem que já passou a moda daquela jaqueta estilo cowboy, daquela blusa com franjas, da saia longa. E, claro, quem é que vai andar por aí com roupa fora de moda. Melhor doar. Em situações muito extremas, para as quais nem nós, nem o Estado nem ninguém está preparado (como as grandes inundações de 2008 em Santa Catarina) todo esforço, se vier de um hábito, é válido. Se vai doar só porque está com pena ou o pessoal todo da empresa está fazendo, melhor não.

Pensar no outro não é fácil. Desapegar (de verdade e não como nome bonitinho pra site nem pra limpeza no coração) de verdade também não. Não nos ensinam isso. Nossas práticas correspondem ao que vemos no mundo: e não é correto, nem digno, que a gente critique o que acontece no mundo porque nós colaboramos diretamente com tudo. Sair por aí combatendo o que os outros (vejam, aqui há um outro outro: aqueles outros que tanto amamos odiar, desprezar, menosprezar porque eles fazem coisas erradas – aliás, o único outro do qual falamos com frequência) fazem de errado, o mal que eles praticam, não diz nada de bom a nosso respeito. Eu não preciso combater o mal que os outros praticam: eu posso praticar o bem. Posso, para começo de conversa, praticar o bem em relação a um outro qualquer. E isso sim vai fazer diferença no dia a dia, nos tempos de crise e vai empreender alguma mudança no mundo.

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