Machismo não é hereditário

Acontece que não ouço as conversas alheias de propósito, mas gosto muito de ouvi-las. Estava no mar na terça-feira de Carnaval quando me peguei acompanhando a conversa de uma moça com sua tia. A moça mostrava-se muito preocupada com o namoro de um primo. Ao que parece, todos estavam passando o feriadão empilhados na mesma casa e, portanto, as questões de foro íntimo (como acontece nessas situações de convívio forçado) do tal primo caíram na boca do povo (e vieram parar aqui).

Vou comentar de passagem que já observei que as pessoas discutem assuntos os mais pessoais e abrem o coração durante os banhos de mar. Dito isso, explicarei a história do primo da moça. Todos presenciaram as grosserias dele para com a atual namoradinha (e esta, sem entender nada das atitudes dele, abriu o coraçãozinho despedaçado com alguns familiares próximos – a prima, no caso). Ao que parece, o namoro é novo. E esses rompantes de grosseria e mau humor do moço deixaram a moça desestabilizada, porém, a prima não pareceu estranhá-los.

Cheguei ao ponto que eu queria: ao tentar justificar o rapaz, ela e a tia comentaram que as atitudes do moço são iguais às do pai e tios dele. E eu fiquei de fato pasma quando ela disse “é hereditário, não adianta, é genético ele ser assim”. E não foi uma explicação metafórica qualquer, ela realmente acreditava que as atitudes e mentalidade deles eram algo “genético”.

O machismo, creiam, não é genético. A brutalidade, violência e grosseria masculinas não são hereditárias. Em parte podemos creditá-los à educação, porém jamais a algum traço científico que justifique e inocente a ignorância. De tanto conviver com pai e tios, a moça acredita piamente que estupidez, agressividade e atitudes similares são algo que passa “de pai para filho”. Prestei muita atenção na conversa porque tal idéia me parecia não só descabida como impossível de existir – mas existe. Ela insistia que ele deveria procurar algum tipo de tratamento, mas sabia que pelo comportamento explosivo dele era melhor ninguém nem falar disso novamente (de onde se conclui que já haviam falado). Insistia, também, que a moça deveria entender que ele era assim, nesses poucos meses de namoro ela ainda ficaria assustada, mas como as tias e a mãe dela, acabaria se acostumando e sabendo lidar melhor com a situação (ela disse isso com todas as letras). Achou que era até bom a moça conhecê-lo assim logo, para não sentir-se lograda depois e condenada a passar o resto da vida com alguém tão (me faltou um adjetivo).

Ela fez questão de dizer para a tia “você não acha?, se fosse você, que passou o inferno com o tio, se só te contassem ou tivesse ficado sabendo depois de um tempo, não ia ficar revoltada? Melhor ela saber agora”. A prima me pareceu uma pessoa fascinante, com opiniões tiradas de um mundo a parte. Ela contou que a moça ficou surpresa, numa conversa, ao observar que as opiniões do moço eram tão machistas. Ao que a prima disse, para a tia, “ela não viu nada ainda, imagina quando for só os dois em casa” (me pareceu a opinião bem abalizada de alguém que testemunhou atrocidades numa família onde os homens são machistas).

Realmente me enterneceu, porém, a preocupação da prima com o futuro do casal. “Já pensou, tia? Perder o amor da vida porque não sabe se controlar, porque não escuta os outros e fica com esse gênio ruim num dia de festa, porque faz essas coisas bem no começo do namoro”. Eu, por exemplo, se conhecesse a moça, diria: foge, querida. Foge de um cara que te trata assim (seja no começo do namoro ou depois de anos de casado). Porque esse cara não vale nada e não tem DNA que justifique. Eu não entendo como ainda propagamos, entre as mulheres, essa idéia de “aguentar” qualquer coisa por amor, de que homens “são assim mesmo” e nós devemos nos conformar (e baixar a cabeça).

É a cultura machista que se entranha na educação das mulheres. E onde acaba? Nos assassinatos porque “não aceitou o fim do namoro”, em boletins de ocorrência registrados e que não serviram pra nada, em filhos que crescerão em meio a cenas brutais e tristezas que moldarão seus caráteres. Homem violento é um criminoso, simples assim. Infelizmente, em muitos casos a violência não é tão evidente. É comum ouvirmos dizer “ah, ele nem era violento”, porém, desconfio que há uma infinidade de situações das quais podemos, sim, depreender que o cara é agressivo ou não aceita ser contrariado, etc.. É preciso observar, é preciso estar atenta a detalhes. É triste viver sendo mulher e com a atenção sempre ligada…

De volta à conversa, a prima lembrou que a moça disse que sempre ouviu que deve observar como um filho trata a mãe para ver como será tratada como mulher por ele – e, segundo a namoradinha, o modo como o moço trata a mãe deixou-a horrorizada. Eu diria que é sempre bom observar mesmo, pois filho deve amar (nem demais, nem de menos) e respeitar a mãe, e homem que tem problema com a mãe é sempre dor de cabeça na certa. Pelo menos a prima não insinuou que ele deveria tratar a mãe bem só para causar uma impressão melhor na namorada.

Eu fico estupefata com essas coisas que ouço por aí. É a razão de gostar tanto de ouvir conversas alheias. O outro é sempre um mundo estranho e desconhecido – e a gente vive achando que tudo gira em torno dos nossos umbigos e, vê, confia em mim que não é bem assim.

Machismo não é doença, como também não é algo que se carrega no sangue. Não precisamos esperar que o cara abra a porta do carro (apesar de levarmos muito em conta gestos de cortesia e atenção, rapazes), mas se ele bate a porta do quarto ou dos armários no meio de uma discussão ou birra qualquer, desconfie (eles demonstram, com isso, a violência contida que queriam, na verdade, descontar em nós). Um dia ele baterá a porta do quarto. No outro jogará tua bolsa longe. Você não pode esperar para ter certeza que ele não baterá em você num dia depois. É com essas ameaças, com essa demonstração de força e violência, que os homens acuam as suas companheiras. É impelindo-as aceitarem-nos “como são” que eles se sentem fortes na sua agressividade e ignorância.

Mas muito me choca e desgosta ver mulheres reproduzindo a mentalidade de que temos que aceitá-los assim, de que machismo e violência são coisas “naturalmente” masculinas. A submissão começa por querer sentir-se aceita e amada. Nenhum amor vale isso.

Museu dos naufrágios

Caminho pelas fronteiras do mar a catar os destroços dos náufragos. Tudo aquilo que chegou até a areia pelo bem entender das correntes marinhas – que nem vemos e quase não as entendemos. Passo meus dias aqui a esperar os amores que viraram lembranças, as embarcações que desfizeram-se em restos de madeira. Repare que até as conchas contam suas histórias. À beira-mar quase nada chega inteiro. Coleciono pedaços de vidas que não lograram ser tudo o que sonhavam.

Não me interessam as conchas inteiras. Elas ainda não viveram o suficiente para terem algo a dizer de dentro de potes de vidro colocados na minha sala de visita. Coleciono os sorrisos de todos aqueles que viram o mar pela primeira vez, respingados pelo olhar brilhoso de sofreguidão e ansiedade diante do desconhecido: verão o mar muitas vezes ainda, e jamais o conhecerão. Coleciono chegadas e partidas, daqueles que passam de carro atulhado de malas e ventiladores, ainda uma última vez antes de afundarem-se em saudade dos dias passados em companhia do mar e do sol; dos pequeninos que não voltarão jamais, pois ano que vem serão outras pessoas em outros corpos e já poderão entrar até depois do quebrar das ondas.

Assim ocupo minha vida, a recolher as histórias acabadas e as que ficaram em pedaços… ando por aqui a montar quebra-cabeças dos corações alheios. Não discuto emoções. Reparo que as pessoas, assim como as embarcações, dificilmente resistem às tempestades. Por vezes elas até são precavidas, ouvem com cuidado as previsões do tempo, sempre estão em dia com os itens de segurança e a manutenção. Mas… nem tudo parece estar ao nosso alcance. Mas… quando são pegos de surpresa o choque causa devastações irreversíveis. E tudo vai ficando pelo mar, e o caminho absolve as marcas das desatenções…

Hoje mesmo a praia encheu-se de pequenos peixes mortos. É difícil sobreviver no mar, até para eles. Chegaram boiando sem nenhum dano aparente e o olhos esbugalhados. Nunca se sabe ao certo o que lhes tirou o ar. Vejo os abraços apertados que se desmancham em braçadas solitárias. Os corpos jovens e ativos que vão se deixando ficar nas cadeiras de praia debaixo do guarda-sol até não aparecem mais por aqui. Não faltam alianças e pranchas na minha coleção. As primeiras sempre as encontro na maré baixa, confusas deste fim na areia revolta pelas ondas. As últimas enroscadas nas pedras dos cantos, sofrendo o abandono voluntário.

Passo por aqui todos os dias, recolhendo tudo o que levo para o museu dos naufrágios. Nele nada se vê inteiro, mas possui todas as vidas. Partem-se em pedaços que quererão reencontrar-se eternamente. As embarcações, porém, podem ser substituídas. Guardo essas relíquias com o desejo infinito de que tenham um destino, que recalculem suas rotas, que consigam compreender novamente suas bússolas. Agora, que as nuvens se aproximam da praia e os grossos pingos de chuva retalham as areias e o mar acinzenta-se, empenho-me em colher todas essas desilusões largadas às pressas de um final de feriadão. Os naufrágios acontecem em momentos previsíveis, por vezes, quando o tempo não nos oferece outra chance.

E sou eu que fico aqui, a oficializar adeuses e choros contidos… a cadastrar despojos de todos vocês que partem sem tempo de sentir que algo de vocês ficou para sempre à beira-mar. O náufrago preocupa-se demais com o que lhe restou intacto. Espero pela próxima maré…

Vem pro bloco

Vem

pro bloco do Nós

 

veste tua fantasia

em mim

 

anuncia

os sonhos perdidos

as pegadas esvanecidas

 

Vem

varar madrugadas

 

entrelaça tua vida

na minha

 

imagina

o futuro juntos

a vida repartida

 

Vem

desfilar no meu olhar

 

fala da Bíblia

te recito Filosofia

 

suspira

prazeres e culpas

tensão e tontura

 

Vem

pro meu bloco

 

me inspira

a escrever poesia

 

às segundas

de Carnaval

 

e às quartas

varre as cinzas

pra debaixo

do quintal

O que trago do mar

Venho da praia para dizer que o mar continua sedutor. Os morros persistem bravamente no verde e as piavinhas brincam na beira d’água como se fundo fosse. As crianças, ah!, as crianças não vêem tempo ruim: é sol, é chuva, é nublado ou areia queimando lá estão supimpamente felizes a tomar banhos de mar emboladas em areia até os pescocinhos. E assim os dias de Verão vão passando, agora tristemente sem o horário de verão que tanto amamos ao prolongar o dia noite adentro – e que vocês, nobres egoístas, tanto o desprezam. Deixem-nos com nosso sol a passos largos pelo dia. É assim que somos mais felizes (ainda).

Venho para dizer que talvez ainda possamos mudar o mundo. E que as coisas boas podem, sim, suplantar as ruins vários dias por semana – exceto às quintas. No mais, talvez ainda possamos ser pessoas melhores – e nem estou falando de não jogar lixo nos rios, construir casas em áreas de preservação, reclamar do barulho do vizinho. Pessoas melhores que têm bons pensamentos, que sonham mais – por favor, sonhem mais -, que não sintam o peso de sorrir quando o mundo lhe desaba sobre as cabeças. Tentemos. Era o que o céu azul trovejado de nuvens hoje me dizia, garanto-lhes: sejam melhores.

Venho da praia para contar que poucas coisas valem a pena na vida. Nós é que perdemos tempo demais com o supérfluo. Eu sei que você sabe. É tão extra deslizar o dedo infinitas vezes num único dia sobre uma tela que não nos esquenta o coração. É tão vazio discutir notícias de nomeações e acidentes de carro. É sempre desnecessário falar do ausente. O pouco é aquele beijo no filho que você não deu logo cedo, aquele “obrigado” que você não disse quando mais precisou, o suspiro de prazer que você estrangulou e, até mesmo, o “adeus” tão desejado e nunca proferido. É pouco e sendo tão pouco se perde na imensidão do muito e do demais que não nos valem de nada. Foi lá na praia que senti. E precisava dizer: vamos ficar com esse pouco.

Venho com o corpo morno de um calor absurdo afogado em água cristalina e fria para contar que sempre pensei que o mundo fosse um bocadinho assim esperançoso. E que por mais que não saibamos explicar essas dores infinitas que estrangulam os bons corações, em algum recanto florido guardamos a esperança de seguir. É assim que os pés cheios de areia sobem a rua, com a certeza de caminhar. Um pé na frente do outro, o equilíbrio, e tudo assim tão simples, mas que, por vezes, nos escapa da alçada da alma. É preciso chamar a força de vontade à razão: devemos seguir. Se tiver alguém a quem dar a mão, melhor. Senão, siga mais devagar.

Vim da praia para ter a certeza de que o mundo me esperava com menos ódio do que da última vez. Reparei bem por onde passava, nos olhares fortuitos, nas câmeras de segurança que ousam ver-me todos os dias a ir e vir de biquíni rente aos muros, nas novas portas abertas, nos carros que nem param nas faixas de pedestres. Reparei que todos estavam com mais sono. Ou uma espécie de sono… robotizaram os olhares e gestos, acionaram a engrenagem, apitaram lá longe na fábrica. Passamos protetor solar para garantir que essa pele não derreta e mostre nossas latas enferrujadas. E quem sabe saiamos a conquistar corações com as marcas de sol de um Verão que deixou (desde sempre) saudade antes da hora.

Vim querendo trazer boas notícias. Por lá tudo se mantém um espetáculo sem decepções. Por lá o coração enternece os mais de trezentos dias passados longe dele. O mar nos dá uma sobrevida de muitas Estações. Ele alivia as dores da alma e engole as dores do corpo: nos deixa saciados e lânguidos que mal passamos do portão de casa já caímos na rede da varanda e por lá ficamos. Mas encontro cá os muros, os corações gelados, as almas mesquinhas e as mãos silenciosas. Duvido que resistissem a um banho de mar. Duvido que consigam embaçar este meu olhar que perdeu-se no ondular violento das ondas a embranquecerem as pedras numa madrugada de areias vazias e céu estrelado. Duvido. Ouçam o que digo, venho da praia para lhes trazer aconchego… e convidá-los a olhar, novamente, o mar.

Te espero

Diante das horas
que a lua leva para nascer
e o tempo entre uma onda e outra
a partirem-se no costão
eu te espero
No leve embalar
do meu corpo adormecido na rede
e o grilo a despertar o silêncio
sob a brisa da noite de Verão
eu te espero
Na cozinha vazia
formo e fogão ligados
velas acesas ecoam nossas músicas
os domingos assim serão
eu te espero
Na cama em meio às cobertas
em noites sem estrelas
Na estrada de chão
arrasada pelas tempestades
Em travessias de ferryboat
nas rodoviárias e praças
eu te espero
E o tempo de dois dias
ou uma semana
passa
tão lento como não gostaríamos
e saiba:
eu te espero.

Precisamos falar sobre eles

É sobre eles que eu quero falar. Vamos começar pelo cabelo. Você nunca os viu com os cabelos desgrenhados, nenhum fio fora do lugar, eu garanto. Eles jamais aparecem com os cabelos despenteados, acredito até que dormem e acordam assim. É sobre eles. E eles são muitos. Bem perto encontramos seus carros – que eles sempre têm, e, em muitos casos, mais de um. Os carros não têm nenhum arranhão, não se vê grãos de areia pelo chão atapetado, nem um mísero pó no painel. Parece até que nunca viram uma estrada de chão, nem uma chuva, brilham a cera que parece ser passada meticulosamente todos os dias. O carro brilha. Assim como o cabelo. Tudo neles brilha.

Eles costumam viver nos mesmos bairros, são aglomerados de pessoas do mesmo tipo – ou seria da mesma casta? Vejam as casas. Não, vejam antes os jardins. Se quiserem confirmar o que eu digo, peguem uma lupa e procurem um pezinho de mato. Procurem bem. Não encontrarão. Nem percam tempo, eu já vasculhei tudo. Há tempos que essas pessoas me interessam. Há tempos que os observo de longe. No jardim deles não há chance para o mato. As plantas são metodicamente podadas nas épocas certas. Não há, curiosamente, frutos caídos no chão – então também não há moscas nem mosquitos se alimentando. Tudo enquadra-se perfeitamente: as árvores domadas pelas constantes podas, as trepadeiras em suas treliças, a grama aparada, as flores vicejantes. Há uma perfeita harmonia estudada, as cores, os tamanhos, as texturas.

Agora sim. A casa. Os materiais são muito bem escolhidos. A tinta nunca descasca nem observa-se nenhum ponto de bolor – apesar da umidade absurda da cidade. Os móveis foram projetados para aqueles espaços – amplos, arejados, bem iluminados. Todo os detalhes são pensados. Você entra pelo jardim e uma luz com sensor de movimento ilumina magicamente o seu caminho até a porta de entrada, que é enorme, pesada (talvez convidativa, talvez meramente intimidadora). Nos bairros onde eles habitam as casas são todas iguais, mudam os projetos, os modismos, mas de cara você percebe: ali vive um deles. Ou vários, pois se reproduzem (em pequena escala, é claro).

A casa nunca deve ter visto um pé sujo adentrá-la. O que me deixa encucada é que nem os tapetes das portas possuem um barro, uma areia qualquer que tentou vir da rua para o aconchego daquele lar. Os vidros! Ah, os vidros são docemente límpidos… perco uns minutos pensando nisso, pois limpar vidros é um trabalho ingrato. E nas casas deles estão sempre translúcidos sem uma dedada de algum desavisado. As calçadas brilham seus porcelanatos. Os sofás não têm manchas de suco nem casquinhas de pipoca. Os tapetes não acumulam pêlos de animais domésticos. As camas nunca são vistas desarrumadas, nem um amassadinho no lençol vocês encontrarão. Garanto.

Podem perder o pudor, revirem comigo as bolsas e agendas e cadernos dos moradores dessas casas. Não há um papelzinho solto, não encontram-se fios de cabelo dentro da bolsa, nem, vejam vocês, há uma única palavra (daquelas que saem sem querer quando escrevemos à caneta) rabiscadas nos cadernos. Na prateleira de livros você não encontra uma única orelha de burro. Se ficarem apurados, corram ao banheiro, aí sim vocês verão o que é brilhar. Se vocês forem como eu, sentirão um tipo de intimidação e não terão coragem de usá-lo. Tudo ali não só brilha: reluz. Os espelhos nos expõem com esses fios de cabelo aqui que teimam em não ser domesticados. Não há gotas de água na cuba da pia, no box perfilam-se shampoos e sabonetes num desenho milimétrico. Até o rolo de papel higiênico, vejam bem, está sempre novinho e com a pontinha devidamente dobrada.

Eles também são encontrados pelas ruas. É sempre fácil identificá-los, com seus pratos sem uma alface fora do lugar, nas mesas dos restaurantes. Suas roupas, ah! Saídas das vitrines, nunca viram uma prega. Nem uma gotícula de vinho entre os peitos de um vestidinho branco de noitada vocês encontrarão. Ah, eles cheiram bem. Sempre. Não suam, aparentemente. Um caso muito curioso, no calor dos infernos que faz nesta terra. Nem aquele suorzinho filho da mãe que teima em aparecer entre o lábio e o nariz, sabe?, ali no bigode. Acredito até que nem tropeçam, mesmo nessas calçadas abandonadas que temos.

São eles. Não se encontram em todos os lugares da cidade, como se sabe. Eles têm seu habitat, seus iguais, e só se relacionam entre si. São aves rarae que gostamos de observar – ou aos quais não damos a menor atenção, pois tão longe de nós, das nossas realidades. Não tocamos neles, por certo, que até cadeia pode dar. O brilho deles nos ofusca. Há uma engrenagem que existe por e para eles. E escurecem a cidade.

paz

O sopro

do teu ar

nos meus lábios

 

em um segundo

paz

 

O verde

incomparável

do mar

 

no sábado

paz

 

O abraço

que aprendi

a amar

 

nos teus braços

paz

 

O menino

a saltar

do alto da pedra

 

no mergulho

paz

No fio do bigode

Falamos disso esses dias. Ou talvez tenhamos falado sempre. Seria uma espécie de contrato, ou, quem sabe, um valor metafísico. Valores, aqueles que devemos ter desde sempre, desde o berço para os que nasceram num, desde o ventre, então, de onde todos viemos. O que não se entende sobre certas coisas é que não devemos fazer pelos outros: mas por um compromisso conosco.

Meu avó dizia que era “no fio do bigode”. Ele era do tempo que os homens (e as mulheres…) se fiavam no fio do bigode. Vê, não precisava nem assinatura em cartório. Ah, sim, claro, sempre houve quem faltasse com a palavra. Mas era vergonhoso, era exceção, os dedos da imensa maioria apontavam: naquele não se podia confiar. Com os outros o fio do bigode funcionava. Meu avô, que tinha bigode, por sinal, era assim. E por algum tempo ouvi minha mãe falar no fio do bigode, que ela nunca teve, é claro, mas é dessas em quem se pode confiar de olhos fechados.

Vejam vocês, era hereditário, naquela época. A ter palavra, meus queridos, a gente aprendia em casa. Como tantas outras coisas. E nem me venham com isso de que “naquela época” as mães (muito mais) e os pais tinham tempo para ensinar aos filhos, que a vida contemporânea exige isso e aquilo. Não, não. O pai aí sentado com o celular grudado nos olhos (nem que seja para ficar fotografando o filho para as redes sociais) tem muito mais tempo do que tinha meu avô – que nunca teve celular.

Talvez a exposição. Quem errava era exposto. Não essa fogueira inquisitória da internet. Os valores, enfim, valiam alguma coisa. Na empresa, no teu meio social, em casa: a falta da palavra era reprovada pelos seus. O mau caráter não se criava – nem se reproduzia. Talvez esse silêncio de hoje que acoberta os casos omissos e de falta de palavra e compromisso: o famoso rabo preso. Se eu não cumpro com a minha palavra, como vou apontar o outro? (tem gente aí muito cara de pau, é certo)

Não dá pra esquecer. Nem deixar passar. Não se pode mais confiar no fio do bigode (logo hoje que ele parece ter voltado à moda). Mas, como eu disse, é hereditário, então está aqui comigo. É uma questão de valores – sou antiquada, me apego a eles. É uma questão de respeito consigo. Não ter palavra é um dos maiores males do caráter – Deus me proteja de quem foge ao fio do bigode. Que humanidade é essa que só (e olhe lá) cumpre seus compromissos baixo assinaturas, multas e processos? Quando foi que ficamos tão incivilizados?

Não há de ser tão fora de propósito falar do fio do bigode. Eu quero crer. Porque quem falta com a palavra segue sua vida com a consciência tranquila (aposto que sim), enquanto quem se fiou neles acumula desgostos – e sequer os expõe. Não devia ser assim. Não mesmo.

O que deixamos de fazer

Talvez eu tivesse acreditado, em algum momento, que não passaríamos a vida comendo fandangos. A vida adulta, eu digo. Eu cheguei a acreditar que, apesar de nos faltar o espírito de “vamos mudar o mundo” – que realmente nunca vi em nós – nós mudaríamos o mundo que, quando nos foi entregue, já era tão velho. As regras eram velhas, as pessoas tinham pensamentos e crenças ultrapassadas, as carteiras da escola de frente para o quadro: tudo era velho. O mundo, naquele tempo, parecia implorar para que nós, justo nós, o aliviássemos daquele fardo de ser tanta coisa ruim, antiquada, rançosa e deprimente. E nós, o que nós fizemos?

Nós nos calamos. Lembro que eu tinha até vergonha de ser católica praticante – não contava pra ninguém que acordava cedo também no domingo, todo santo domingo, para ir à missa -, porque éramos desafiadores com essas coisas de Deus e do que os pais nos impunham (a mãe exigia que fossemos à missa, mas eu vou até hoje porque gosto mesmo). E lá foram muitos de nós, que mal pisavam numa igreja, a casar de véu, grinalda, festança e tudo o que exigem as fotos que ficarão para a posteridade. Lembra aqueles álbuns horríveis, bregas, puídos, cheios de fotos com gente vestida com coisa anos 1970 como os dos nossos pais? Só mudou a moda da época – e ficamos mais bregas porque tem vídeo de ensaio fotográfico de casal. Ah, sim, claro, e agora é tudo digital.

Nós fizemos de conta que não era conosco. Mal estudamos sobre a ditadura, achávamos chato todo professor de História falar disso. Achávamos chato falar de Política, lembram? Nós éramos perfeitos alienados. Por isso eu deveria ter percebido que dessa história de mudar o mundo e fazer dele um lugar melhor nós não faríamos parte. Mas, em algum momento, eu acreditei. Acreditei que faríamos da Política nossa arma contra as injustiças e desmandos de um país tão pobre, tão capenga, tão travado no tempo. O país do futuro, lembram? Do futuro. Este futuro que estamos vivendo agora – e para o qual não fizemos nada de bom.

Nós não demos a devida atenção. Nos preocupávamos com a TV – sim, na nossa época ainda era ela que dominava nosso tempo. Muitas de nós – estou fora desta lista – queriam ser modelos. Muitas queriam vender a alma ao diabo para pagar um book. Vocês lembram que eu sei. As fotos devem estar escondidas aí em alguma caixa na casa dos pais, porque ninguém quer morrer de vergonha. Nós não nos educamos para cuidar do lixo, para reivindicar melhorias no nosso bairro, para que a cidade respeitasse o seu rio poluído, para que a água fosse economizada. Muitos de nós nunca sequer plantaram uma árvore.

Nós não pensamos nos nossos filhos. Nesses mesmos que temos adiado para depois dos trinta porque, afinal, gostamos de curtir a vida e essa coisa de ter uma penca de filhos desde cedo era coisa dos nossos avós e nós somos moderninhos e esclarecidos. Não pensamos que entregaríamos a eles um mundo em vias de autodestruir-se porque nós, justo nós, não cuidamos dele – mas estamos aí todo dia reclamando de alguma coisa nas redes sociais. Saímos do sofá, é verdade. Mas estamos zumbis nas telas de computadores e celulares. Nós não fizemos. E o que esperávamos disso? Que o mundo cuidasse de si mesmo sozinho?

Nós fomos egoístas. Fomos bem bobinhos pensando que a engrenagem seria trocada por algum sistema digital ultraeficiente sem que nós tivéssemos que fazer absolutamente nada. Em cada miojo que nós comemos durante a faculdade estava o tempo de três minutos (nem tão exatos assim) com o qual poderíamos ter feito alguma coisa. Faltou doar o tempo para passar um óleo na engrenagem. Faltou vergonha na cara para questionar as regras. Faltou bater boca para impor mudanças – às vezes, só no grito. Faltou que tivéssemos consciência de que fazemos parte do mundo e de tudo que está – ainda – velho e podre nele. O que foi que fizemos para que ele não estivesse pior do que quando nós tomamos as rédeas?

Porque ainda tem quem pense que as rédeas não estão nas suas mãos. É mais fácil pensar assim – apesar de que “pensar” não se aplica. Lamento pelos que, de fato, combateram aquele mundo que nos foi entregue: estes se foram cedo (e me fazem muita falta). Ficamos nós a falar do mundo como se não fosse conosco. Nem um mea-culpa é encontrado nas redes sociais – nem nos confessionários, eu arriscaria dizer. Faltou lembrar que vinha mais gente depois de nós – e tenho certeza que não cuidamos do que tínhamos. Tenho vergonha – quero dividi-la com vocês, tão culpados quanto eu – de ver tudo que deixamos de fazer. Por nós, também.

As redes

Na rede dos peixes
sem esperança
mãos calejadas
e meus olhos
lacrimejam

o sol
nos corta
em dois

O mar abençoa
o rio a desembocar
no barro das chuvas
ingrato ao meu desejo
de sempre tê-lo

o sol
nos queima
os ombros

Na rede da varanda
os olhos fecham
na serenidade
e quem sabe
as horas passam

o sol
nos atordoa
os sentidos

A brisa
não nos visita
há dois dias
três noites
e suamos bicas

o sol
nos encaminha
à lagoa

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