Noitada

Quem vê

o vestido até o joelho

não nota

o lábio trêmulo

de desejo

 

Quem vê

o sorriso de moça comportada

não sabe o pecado que cometo

no breu do estacionamento

e com o nó da tua gravata

 

Quem vê

minha falta de jeito numa valsa

não desconfia o que te digo

ao pé do ouvido e o que faço

com o nó da tua gravata

 

Quem vê

meu olhar sem brasa

não imagina que eles te despem

dez vezes por minuto e só deixam

o nó da tua gravata

 

Antes de chegar

àquela rua sem saída

a boca seca

nem mais controlava

querer-te e ao

nó da tua gravata

 

Teu suor me molhava

como o temporal

que agora a cidade arrasa

e sob a pele quente

o desejo arrefecia

até, de novo, eu lembrar

da tua gravata

Lábios silenciam-na

Nós poderíamos discuti-la eternamente – caso tivéssemos a eternidade ao nosso dispor. Mas, você sabe, não temos. Talvez debatêssemos por algumas horas apenas e não chegaríamos a nenhuma conclusão, apenas nos desgostaríamos um do outro e nem atenderias mais às minhas ligações no dia seguinte. Você sabe, quando as pessoas não se entendem elas preferem se afastar. Pra que ficar junto se não vemos as mesmas coisas? Onde vejo azul, você vê o verde – aquele verde que tem gente que acha que é azul, não sei como.

Quem sabe poderíamos recorrer aos eternos – eles de fato o são – pensadores, filósofos e literatos e a um punhado de poetas. Eles, dizem os mortais que os lêem, sabem o que ela é, onde está, como identificá-la. Teríamos, porém, que ler muitas velhas páginas e (tenho cá pra mim, que nem perto disso ainda cheguei) eles mesmos se contradizem, vivem apartados porque não a conhecem por inteiro, ou porque discordam dos meios de como alcançá-la. Ainda assim, então, discutiríamos sobre qual deles levaríamos em conta e quais descartaríamos.

Se não há consenso, será que ela existe? Será ela a minha, a sua, a do outro ali? Dizê-la plural parece uma heresia (e é). Sei que alguns recorrem a Deus, que ela e Ele andam juntos. Outros jamais a abandonam, são donos irredutíveis das suas (mas a julgam única). Poucos afirmam que ela não existe, incrédulos que são. Há quem diga que ela está nas coisas, ou nos sentimentos, ou, ainda, há temerários que têm a convicção de que ela pode ser alcançada pela razão. Mas é tanta confusão, nem parece que falamos da mesma coisa.

Eu acredito nela. Acredito quando não queres me dizê-la com todas as letras – mesmo eu pressentindo-a. Sei que ela é só uma – jamais discutiríamos os tons de uma cor, se a nossa nós sabemos qual é. Duvido que todo o conhecimento do mundo e as tramas do raciocínio lógico me levariam a ela. Duvido, mesmo. Ela existe no teu olhar.

A verdade é fácil de encontrar. Não há segredos a serem decifrados. Nem caminhos tortuosos. Ela surge no coração e segue entre carnes e sangue até brilhar os olhos e abrir-se ao mundo. A verdade é única e só surge uma vez. Dizem que não é possível exterminá-la – os homens de vez em quando tentam queimar livros, torturar e condenar bruxas. E ficam os olhos a iluminar outros olhos que também brilham. A verdade se encontra. A verdade une – não é verdade se gera discórdia. Por isso, às vezes, lábios silenciam-na. Ela é tão evidente, grita silenciosa sua presença, que não encontra tradução em palavras – pobres palavras.

Eu diria que besta é quem se desespera atrás dela – aprofunda-se em páginas, ouve líderes, religiosos, e no afã não distingue os mal intencionados. Mais abobado ainda é quem diz encontrá-la em tantos olhares opacos por aí. Entendo-os, porém. Todos nós a queremos. Todos queremos tê-la. Todos queremos dormir e acordar com ela ao lado. Eu diria, ainda, que é imprescindível atenção… buscá-la em silêncio e paz na alma. Ela existe no teu olhar. E só eu posso vê-la.

Anfitrião

Repara

no reflexo dos nossos passos no vidro da passarela

repara

no nosso sobe e desce as escadas

e no caminhar na praia:

seguimos em perfeita sintonia

 

Repara

na nossa risada

repara

nas nossas diferenças

e nos livros que já lemos:

é o que em comum temos

 

Repara

no mar ondulando sob nós

repara

na onda espatifada contra a pedra

e no sol amarelando nossa tarde:

abraçados pela orla ficamos

 

Repara

no meu olhar medindo prédios e morros

repara

no que eu quis dizer e titubeei

e como eu encosto a cabeça no teu ombro:

não sou fácil de ler

 

Repara

no quanto já andamos

repara

no quanto já nos contamos

e no tanto que ficou pro próximo encontro:

que os dias não voam

 

Repara

nos sinaleiros fechados

repara

nos vizinhos espiando

e nos gritos pela madrugada:

desconfiarão que tens namorada

 

Repara

no Baudolino que não te emprestei

repara

que não levei toalha

e no creme que eu deixei:

pistas que me levarão de volta

 

Repara

no tempo que levei pra chegar ao teu colo

repara

no silêncio das tuas lágrimas

e na esperança magoada:

em doses de madrugada eis a cura

 

Repara

no meu humor e nas surpresas

repara

na nossa janta improvisada

e nas nossas mãos entrelaçadas:

só faço dessas promessas

Às pressas

 

O prato de doces

restou intocado sobre a mesa

as rolinhas amavam-se

sobre o mato que se alastrava

pelo jardim

bicavam-se e trepavam-se

como se sorrissem do descaso

as cortinas empoeiradas

sussurradas pelo vento por entre

as frestas das janelas fechadas

às pressas

a torneira da pia do banheiro

pingava a cada dois segundos

num eterno conta-gotas

do abandono até secar

a caixa d’água

os gatos debandaram ao passo

da fome lá pelo terceiro dia

viraram latas pela rua

ainda esperavam entre cochilos

e perseverança

as lâmpadas acesas da varanda

esquecidas na manhã do desespero

levadas à exaustão das horas de vida

escureceram de vez a fachada

da casa

um silêncio frio dormitava

sobre o piso escuro

e amparava as manchas

da desgraça

um travesseiro caído ao lado

da mesa da sala de jantar

murchava os sonhos ali

travados em batalhas solitárias

paredes brancas testemunharam

o fim

 

Era meados de Outono.

(nada dura até o fim de um Inverno)

o teto ruirá junto ao Verão

seus restos confusos

invisíveis serão pelo alto muro

– de pé, permanecerá um poço profundo.

O alguém e a moça

 

Refreou as vontades, que era pessoa disso: de vontades. Mimada, diriam. Filhinha de papai (ah, se soubessem). Namoradeira, segundo as más-línguas. Dizem, porém, que mães sabem das coisas. E sabem mesmo. Pessoas de vontades, eu diria, são as melhores pessoas. Não deixam nada a dever, não arrumam escusas, não titubeiam (ou bem pouco e a gente nem percebe). Assustam, por certo, pois sorriem quando querem sorrir, desejam quando querem desejar, amam quando querem amar, desaparecem quando querem desaparecer. Mas, naquele dia, deixou as vontades quietinhas no balanço ao lado. Era amarelo, se não estou enganada. Pessoas detalhistas são assim.

Foi quando alguém entrou na sua vida. Esse alguém cedeu às suas provocações: não sabia que não se cai nas provocações das pessoas de vontades? Descaminhos irreversíveis, querido alguém. O alguém, porém, era desconfiado. Desconfiava da moça do caixa, coitada. Desconfiava, dizia, dos outros. Na verdade, a moça das vontades, também desconfiada – foi o primeiro ponto em comum; um tanto incomum, não? -, desconfiou que o alguém desconfiava era de si mesmo. Ufa, tanta desconfiança – e eles confiavam um no outro e nem sabiam.

O alguém, um improvável sedutor, seduziu a moça das vontades por longas caminhadas – que de bobo não tinha nada, mas era assim que por vezes ela lhe chamava. Caminharam por praias amadas, por paisagens de lindos morros em promessas de companhia e de passeios de trem. Ousaram caminhar por costões e foram seus primeiros gemidos – de dor. O alguém e a moça tinham passado: que se via no brilho opaco dos olhos e no tremor dos lábios no escuro. O passado, sempre digo, lá no seu lugar deve ficar. Mas quem sou eu para dar palpite, eu só observo. Não lembro bem como foi, o alguém se abria, a moça se distanciava – essa gente de vontades, quanto mais vontades têm, mais teme tê-las.

O improvável sedutor levou-a em busca de bancos simpáticos em praças vazias e em recantos de lagos inóspitos pela cidade. O alguém queria levá-la a lugares bonitos, a moça não tinha boas intenções. E perderam-se em carícias desconexas. A moça falava muito, que até vontade de falar lhe sobrava, o alguém só permitia que se falassem nos breves sinaleiros fechados. E encontraram-se em histórias distantes.

Tem dias que a moça só quer um abraço. Mas precisa de uma palavra que nem sabe, uma palavra de apoio, de incentivo. E só o alguém sabe dizer as palavras que ficariam sob o breu do espaço. As pessoas dirão que conhecem a moça, sabem da sua preferência por maçã, goiaba e melancia; mas só alguém saberá onde ela deseja estar agora. Tem aquelas pessoas que convivem com a moça, todo dia, o dia todo. Ou aquelas que puxam assunto diante do cesto de abobrinha da verdureira. Só o alguém manda mensagem dizendo que a quer mais do que a caldo de cana com pastel – caldo de cana com pastel, meus queridos, não é por qualquer um que se troca esta dupla. Podem até cozinhar milho para a moça, mas só alguém a leva para sobrevoar os domingos nas asas do querer sob morros nublados e rios alastrados.

E foi num sábado, promessa de banco da praça do mercado. A moça aguardava e feliz já estava quando o alguém de vez entrou na sua vida. Entre tremores e sorrisos – ela jamais esqueceria aquele sorriso – perderam-se em abraços. Tinham promessas a cumprir, poucas não são. E a moça quis retribuir, que ela ainda sufoca-se em vontades – mas insisto em dizer-lhe que as pessoas de vontades são as melhores, ela não me dá ouvidos, pois teimosa. Mares bravios os acompanharam, os dias se arrastaram, viam-se unidos em um estalo. E gostavam-se de viver em abraços. Eu que não sou chata de querer avisar nem nada, mas que eles não tinham volta, eu sabia.

Alguém é essa pessoa que te rouba as horas – amada em verso, prosa, fotografias e canção. A moça, bem, da moça só posso dizer que é pessoa de vontades. Dos encontros improváveis, na vida, temos os melhores convívios. Tudo o que vem pelo óbvio certo está que termine. O alguém é o teu convite irrecusável, a falta ao longo dos dias intermináveis. Mães querem a melhor das moças para os seus filhos, mães sabem quando há um alguém na vida das suas filhas. O alguém e a Moça se espantam que de tanto conversarem ainda há muito a se falar – sempre. E são, um para o outro, a primeira pessoa que eles tanto esperaram.

Agora ela só quer refrear o tempo quando estão juntos. E nem é a única culpada, porque o alguém a observava com seus olhos perspicazes enquanto ela sentia um coçar de leve atrás da orelha. Nenhum dos dois se arrisca nos cálculos, e eu digo que o fazem muito bem. Mas subtraem dias, somam meses, guardam semanas. Se lhes vissem, ficariam admirados: e não brigam? Pois não. Eles fazem do jeito deles. Quando embarcaram na estação, optaram por deixar as bagagens, tirar os anéis, as carteiras, os objetos de valor, e até os calçados. Por pouco que nem seguiriam com a roupa do corpo. Mas avisei que parariam atrás das grades e não no paraíso.

Fizeram planos noite passada – ouvi de longe e sorri satisfeita. Riscam calendários e entrelaçam-se em convites para aniversários, casamentos e datas festivas. Nem sabem se atravessarão o próximo fim de semana, mas quem seria eu a toldar-lhes a visão com a prudência? A moça empenha-se em surpresas, o alguém provoca-a com mistérios. Parece-me que, dentre o risco das promessas, só terão a cumprir algo em torno de mil beijos. Achei por bem não comentar que foram sábios, ao menos nisso. O alguém pediu-lhe livros emprestados, a moça cobiça a praia perto de onde ele mora. Não se enganem, os corações andam juntos nas letras e nos mares…

Estimo-os muito, não custa dizer. Fizeram-me acreditar que até os solitários têm chances nesta vida. Ou que as curvas da vida podem se encontrar muitas vezes, nas quais o alguém e a moça estiveram tão perto e mal entreolharam-se, e só Deus sabe porque e quando desaguarão de vez no mesmo leito cansado de um rio caloroso. São coisas de Deus, quem sou eu para me meter.

Forasteira

Quando cheguei não vi o mais óbvio. Ou, pior, não quis ver. Chamavam-me forasteira e eu achei bonito – sem atentar ao certo as razões. Pensava num western e seus montes de feno ao vento nas ruas empoeiradas, uma dançarina com a cara (e o corpo e a voz) da Marilyn Monroe sentada sobre o piano do saloon entoando dores de um amor abandonado e à espera do seu happy end nos braços de um bonitão rústico. Forasteira eu sorria. A cidade tinha um quê de western, abandonada, velha, atrasada. Eu tinha tudo de forasteira: não era dali, dali não me sentia, me olhavam de alto a baixo, mantinham-me à distância, não gostavam da minha conversa nem do meu olhar. Novamente, preferi não ver. Eu não pertencia àquele lugar. Pertenceria a algum lugar? Instigava-me este ideal de pertencimento, um útero imperfeito onde, de olhos fechados, as pessoas sentiam-se no “seu lugar”. Existiria tal lugar, no meu caso? Forasteira eu me isolava. A vida ali em meio a cavalos amarrados nas portas dos comércios e mocinhas desocupadas a futricar nas janelas em nada me atraía. Era uma gente de mentalidade mesquinha. No meu rancho eu me retirava com meus livros e palavras. Nem de companhia eu precisava. Raras vezes me viam a circular de botinas grosseiras e pistola na cintura e aos poucos as ruas se esvaziavam. Não queriam conversa – eu nem os olhava. Via aquela gente presa às roupas e convenções dignas de outro século. Ah, o tempo ali não dera as caras! Enquanto ele escorria-me pelo corpo em dias de eterna chuva. Descobri, como se realmente não o soubesse, que naquela cidade os invernos eram longos por demais. E fazia frio até em novembro. Vivi dois invernos inteiros com o coração adormecido e as idéias a cogitarem me acordar daquele sonambulismo pérfido. Queriam-me, as idéias, longe dali a cultivar novos pomares, a plantar novas hortas. O coração ansiava que lhe deixassem quieto, fosse naquele rancho ou em qualquer outro. Sentada na varanda com os pés na amurada nos poucos dias ensolarados, eu ignorava-os todos. Revestia-me da couraça de forasteira, entre os meus e entre os olhares irrepreensíveis da cidade, e mantinha serena minha vida de solidão. Ouvia os cochichos, as perguntas, porém. Permitia-me ignorar todo o meu entorno. Ouvia, ao longe, a voz da cantante do saloon. Talvez ela também uma forasteira. Talvez ela angustiava-se que o seu bruto a levasse para longe dali, onde jamais bêbados fétidos reconheceriam o seu talento. Nem com meu talento eu me importava mais. Nem com o reconhecimento. Importava-me com a cama pronta à noite, o silêncio que me despertava os pensamentos, a ordem das coisas no vazio pelo qual eu – sem saber – havia optado. Não sabia se era passageiro, se forasteira seria, de novo, em algum outro recanto do mundo. Certo é que ali permaneceria. Forasteira eu segui. E em pouco tempo as cavalgadas pela aridez do deserto capturaram meu olhar para outros horizontes. Fui despertada pelo movimento sutil de uma árvore solitária na imensidão, por diligências que traziam notícias de longe. A roda gigante do mundo acordava-me. Talvez impelida pelos pesadelos que agora me acometiam no dia a dia que antes fora tão passadiço. Forasteira eu mirava novas emoções. Ainda que fossem as mesmas de outras vezes. Certo é que nem dois invernos me fizeram querer ficar ali, pertencer àquela terra que fora dos meus antepassados, onde eu deveria sentir-me ligada inefavelmente ao futuro. Aquelas caras que torciam-me o nariz eram apáticas e falsas. Ignoravam o doce lamento da moça do saloon. Forasteira eu sentia o calor na cama a impelir-me a sonhos inauditos. Fazia-me promessas. Ocultava meu desprezo por aquela gente que fingia aceitar-me forasteira nas minhas largas calças jeans e no meu colete puído. Eu sabia as artimanhas deles quando jogava despreocupada o velho chapéu sobre os olhos ao meio-dia de um sol de quebranto. Não arquitetei os próximos movimentos, foi meu erro. Forasteira ali e em qualquer lugar seria. Abandonei-me aos azares da vida, tal qual a cantora do saloon que envelhecia sob a maquiagem escorrida. Todos os dias passava perto da estrada que para outras paisagens, quem sabe um dia, me levaria. O cavalo inquietava-se sob a sela e eu lhe dizia um breve “hoje não” e quando o hoje seria? Acordava cada dia mais tarde, almejando que mais rápidos eles passariam, dormia, sem sonhos, na secura dos finais de madrugada ao ouvir os últimos acordes do piano do saloon ao longe – quando quase rouca e tão triste a voz da dançarina bailava meus desejos mais evidentes. Forasteira eu sorria. Tínhamos, eu e a Marilyn Monroe da cidadezinha pobre, colona e mesquinha, a mala sempre pronta atrás da porta do quarto.

As coisas não caem do céu

Quem dera fosse a chuva miúda

a lamber nossas noites amareladas

 

Não seria o dinheiro que não dá

em árvore nem cai do céu

(diria meu pai)

Nem todas as conquistas que eu

sonhei para este ano passageiro

Nem as respostas que você me pediu

naquele dia de vento forte e quente

diante do mar agitado

 

As coisas não caem do céu, assim

 

As coisas não caem do céu

assim, do nada

a resolver nossos problemas

a dar chances mesquinhas

a encurtar distâncias

e expandir possibilidades

 

Quem dera fosse uma neve inédita

a embranquecer nosso Natal tropical

 

Não seriam doses de paciência

ou feriados prolongados

nem morar num barco a vida inteira

nem preocupar-se com a hora

Não seriam as alegrias a despeito

das frustrações doentias

nem os medos que carrego aqui

a burlarem-me as veias

 

As coisas não caem do céu, meu bem

 

As coisas não caem do céu

como queremos

a nos dar tardes quentes

a nos presentear noites frias

a nos deleitar com temporais

e nos banhar: no mar e na chuva

 

Quem dera fosse o sol escaldante

a atear fogo na tua cama de lençóis laranjas

 

Não seriam sete dias

ou os cem quilômetros

nem um navio a te levar

nem eu a me olhar sem espelho

Seriam nossos sorrisos

a inspirar-nos poesia

e a julgar as decepções da vida

numa tábua desmedida

 

As coisas não caem do céu, dizem

 

As coisas não caem do céu

por acaso

a erigir abraços de confiança

a sufocar o momento errado

a ondear esperanças

e caminharmos juntos.

Faltava-lhe teu amor

 

Medo de perder as chaves

de casa

e de cobras escondidas

no jardim

 

Fechava cedo as cortinas

de casa

e deixava vasos vazios

no jardim

 

Sobressaltava-se: era a campainha

nas tardes

e a brincadeira dos cachorros

na sala

 

Gozava os banhos quentes

nas tardes

e as noites envolta em cobertas

na sala

 

Temia descontrolar-se com a fila

no supermercado

e no estacionamento lotado

da igreja

 

Esquivava-se de encontrar um amor

no supermercado

e nos olhos de um moço

da igreja

 

Faltava-lhe teu amor

a escorrer pelas madrugadas

a enviar-lhe mensagens

a destacar-lhe o sorriso

a preencher-lhe a cama pequena

a acordar-lhe os sentidos

a dar-lhe esperanças alaranjadas

a fazê-la suspirar todo sábado ao ler o jornal.

Comício em alto mar

Tudo o que o mar traz. Como a gente, quando está num torvelinho de humor, reviramos a areia do fundo, deixamos a água turva, todos os destroços de outras enseadas e baías vêm parar na nossa praia favorita, na mais bonita, naquela onde amamos tomar os mais doces banhos. O mar, nesses dias, destrói o asfalto das praias mais atraentes, como aviso dos seus desgostos joga impensáveis toneladas de areia na nossa cara, no meio do nosso caminho. A água do mar faz o trajeto inverso, avança pelas ruas, entra em bueiros e sem chance volta a si mesma, numa revolta sem fundamento, sem maiores prejuízos a si mesma.

As correntes marinhas, mais fortes que nós, arrastam enormes galhos e troncos de árvores de outras margens de rios que também têm seus dias de raiva. Restos de embarcações, animais mortos, corpos de náufragos. Não há o que resista a elas, melhor sempre desejar nunca deparar-se com uma, é o que se diz. Somente as ilhas permanecem. As praias mudam suas linhas de areia, sua balneabilidade. As ruas cedem. As árvores têm suas raízes expostas. Os bancos à beira-mar por ele são engolidos. As ilhas não mudam nem se assustam. Elas resistem às mais bravas tempestades, às ventanias regozijam-se, não temem os picos de maré nem as fases da lua. Como a gente, quando sobrevivemos à vida.

O mar não parece importar-se com dias nublados. Nem com ficar menos bonito sem o sol a emoldurá-lo. Talvez só lá naquele ponto onde o mar e o céu se encontram – onde nunca estive – algo de mágico aconteça: tenham alguma discussão acalorada, uma intervenção filosófica. Diante de nós, eles não comunicam suas inquietações. Só o vento abandona-se a revolver a ambos. Encrespa um, limpa o outro. O vento, como se sabe, é um malcriado: levanta as nossas saias, leva a poeira para dentro das casas, despenteia-nos. O vento é como a gente de alma incerta, não gosta das coisas no lugar – por vezes ele fica quieto, na sua, mas logo não consegue se conter e sai revirando a vida da gente. Ninguém gosta do vento, correm fechar portas e janelas, já de cara feia a maldizê-lo.

E tem dias que eles todos se unem num amplo comício. Aguentarão firmes, as ilhas. É preciso estar precavido. Eu diria que é preciso ter sua ilha. Mas de nada adiantará se não souber reconhecer os sinais: o alinhamento dos astros, os horários das marés, os eventos climáticos extraordinários, a direção e intensidade dos ventos, o cheiro do mar a sentir-se ao longe. Sem percebê-los, não chegarás à ilha em tempo de salvar-se. E os danos, por certo que os sentirá. A tua ilha, porém, ficará vazia de ti, lamentando que não tenhas aprendido nada – como a gente que tanto apanha da vida e não sai do ringue antes do último assalto.

Dias depois, voltará a calmaria. As resoluções do encontro, porém, se manterão. Muitos correrão atrás dos prejuízos a limpar e enterrar destroços. Pouco tempo bastará, quem sabe até o final do mês, para que ninguém perceba que por ali passaram todos eles em rebuliço a mostrar que há, sempre, algo mais forte e poderoso que nós. Fingiremos que não ficamos ilhados em meio à água marrom jogada em ondas altas e repletas de mato e areia, galhos e pedras, sobre o asfalto que resistiu somente até dali sairmos com alguma apreensão – e um tanto de frio que nos alcançou pelas frestas. Às ilhas é imprescindível tê-las, mantê-las, cultivá-las, conquistá-las; e lembrar-se que elas são ilhas e não sairão a te buscar – tu é que precisas ir até elas.

Atravessar manguezais

Os morros são os muros da cidade. Parece repleta, ali confinada entre eles, de gente que caminha e pedala num feriado despretensioso – sem pretensão de nos fazer feliz, pois caiu no meio da semana. Há os que dormiram até tarde num almoço preguiçoso às duas da tarde. Há os que buscaram respirar um fio de brisa marinha. Há os que visitaram a família. Há, ainda, os que findaram a tarde na pista de corrida. E eu me dou conta que não conheço esta cidade. Conheço seu confinamento, muito já olhei para esses morros… e mesmo hoje vi outros, nos quais nunca havia, de fato, reparado.

Por onde eu andei tantos anos? Fiz-me tantas perguntas que preferi esquecer. Tenho esta vontade de olhar pela primeira vez, mesmo que para tudo aquilo que meus olhos já conhecem tão bem. É como ter decorado o corpo da pessoa que se ama, de tanto percorrê-la com as mãos e a boca, e sabê-la no escuro – e dia ou outro reencontrar-se com alguma novidade pelo meio do caminho. Olhos cansados deve ser algum tipo de morte. O ar da cidade é pesado, muito pesado. Por vezes pesa-me na alma – e como. Libertar-se desse peso não é possível nem com alguns tantos de pingos de chuva que caem nos lábios e ali ficam a esvair-se em ar em poucos segundos. A chuva, porém, é garantida. É sempre confiável, sempre bem-vinda, sempre certa.

Mas a chuva veio meio sem vontade. Veio sem arco-íris. Minha vida há tempo que não se permeia de arcos-íris. Talvez muitos dias nublados – eu quis falar deles semana passada, deixei pra lá. Há dias nublados que não precisam ser mencionados. E a cidade engolida por fábricas. Em frente a elas é mais fácil atravessar, há sinaleiros para pedestres, limites de velocidade, faixas de pedestre. O ar, contudo, é mais difícil de respirar – pelo cheiro fétido e pelo ranço do encarceramento em salas de produção. Facilitam que você chegue e saia delas. Mas se passares desatento, teu nariz acusará que este monumento ao trabalho e ao dinheiro é a base de todo o pensamento de uma cidade – tão grande e tão mesquinha na sua pequenez.

Os morros, sem saber, é claro, costumam dar um espetáculo a parte. Este sim, sempre reparei. Eles aprisionam as nuvens – como o amante que aprisiona teus pés indefesos nos pés dele. As mantêm reféns do mormaço de um sol que acusa não querer partir. Reparem nos tons das nuvens, nos formatos, na densidade – às vezes esfumaçadas, por vezes etéreas, quem sabe pesadas ou azuladas. E jazem entre os morros, abraçam-se, amarram-se – amordaçadas? Lembram os amantes na hora da despedida diante de um quê de violência e gotas de desespero. No tempo que eu não sei por onde eu andava, não via horizonte na cidade. Eu queria ver por sobre os morros. Queria ver através daquelas nuvens subjugadas. Eu queria era seguir a brisa que vinha do fim do rio que atravessa a cidade. Meus olhos eram outros?

Para chegar ali eu precisei cruzar os manguezais. Cenário sem bordados, sem enfeites dourados, mangue não fica bem nem nas melhores fotos. E desde outros tempos eu aprendi a gostar de cruzar manguezais. Depois que você se familiariza com a secura dos galhos, com a luz soturna, você entende que ali é o berço da vida, que há minúsculos corpinhos crescendo e se reproduzindo, que ali vão ter os que querem dar continuidade a si mesmos. Dos manguezais saímos mais fortes, regenerados. E podemos, então, enfrentar o mar ou a terra firme. Ou ambos, dependendo da coragem que nos resta. Porque é sempre imprescindível ter coragem extra na bagagem. Deixe-a ali pela bolsinha de zíper acessível sem precisar abrir as grandes ou pequenas malas: quanto mais à mão, melhor. Nunca se sabe quando ela será necessária.

Depois dos manguezais, tudo estará ao alcance dos olhos. É como apaixonar-se por quem você já conhecia, povoava teus dias, e num impulso entregar-se às evidências do que não querias ver. Ao atravessar manguezais, o olhar atento é curto, perscruta os tons marrons acinzentados para não errar o passo, para resguardar as pequeninas vidas – e, até, para saber por onde voltar, o verdadeiro desafio da região. É a grande lição do manguezal. No mar ou em terra firme, quem aprendeu com manguezal tira de letra a vastidão e vê o que olhos embaçados de sol ou embolorados de chuva jamais perceberiam. Pra quem sai do manguezal, um dia de sol é como estar sobre as nuvens de uma longa e duradoura noite de prazeres. A gente até se distrai, sente o corpo leve e o sorriso baila no rosto.

A cidade persistirá sem seus horizontes. Ou eu que não os vejo, dirão. Não vejo-os por entre a fumaça invisível das fábricas e o cinturão de morros – de onde deságuam rios saborosos aos domingos. Ignorarão, eu sei, o mangue que a circunda. Porque dos mangues ninguém quer falar. Os mangues são para poucos – e nem falo dos poucos que têm um caiaque para desbravá-los. Dali da pista de corrida, posso falar porque lá também já estive, não dá pra ver sequer os morros limítrofes da grande cidade – quiçá um solitário garapuvu florido na Primavera, mas certeza que nem ele é observado, os olhos que por ali rondeiam são inundados de sol. Quero descobrir, ainda – pois agora sou outra mas os olhos permanecem os mesmos -, qual a sensação de chegar aos pés desses morros ditadores. Terei a sensação de aproximar-me da liberdade? Ou eles desafiam as almas a atravessá-los jurando-as de morte? O que eu sei, apesar de não conhecer a cidade, é que há uma saída – e nem é pelo mar.

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